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Full text of "Noticias summarias das perseguições da missam de Cochinchina, principiada, & continuada pelos padres da Companhia de Jesu .."

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NOTICIAS 

UMMARIAS 

DAS 

jeERSEGUICÕES DA MISSAM DE CO- 

chinchinajprincipiadajôc continuada pelos Padres 

da Companhia de 

J E S V 






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NOTICIAS 








M. 




K^l 



DAS 



PERSEGUIÇÕES DA MISSAM DE CO- 
chinchinajprincipiadajôc continuada pelos Padres 

da Companhia de 

J E S V 

OFFERECIDAS PELOS MESMOS MISSIONÁRIOS 

A E LRE Y 
NOSSO SEN 






DOM PEDRO lí. 




E IMPRESSAS POR ORDEM DE SUA MA- 

geftade que Deos Guarde. 

EM LISBOA. 

Na Officina dcMlGVEL MANESCAL, Impreílorão S. Olficio, 
da ScrcniffimaCafa de Bragança, & de Sua Emincnçia. Anno 1700. 



Digitized by the Internet Archive 

in 2009 with funding from 

University of Toronto 



http://www.archive.org/details/noticiassummariaOOferr 








to, S \ Jlt 



E LRE I 
NOSSO SENHOR 



àCWúi..-;-. » 
O 



SE N H O R. 



5S».^\Si 




OY Vojfa Magejlade j ervido mandar pelajun^ 
ta das Mifsoes-^que os MiJ fionarws das Coquijlas 
de Re ^eyno remctejfem a Vojfa Adage/Iade re» 
lapões das novasChriílãdades^íjue cidtivavao^^ 
dofruto^que eolhiaocojcuí trabalhos na convcr- 
faoda Çentíiidade 5 &^ propagação do S. Evan- 
gelho, Tara fatsifa:{er à piedade ^eal y O- Ca^ 
tholíco :^elo de Fojpt MageBadç oferecem a /eus ^eaespês os AdijJiG- 
narios da Cochinchina ejla Relação dajua Cbriftãdade-^cjue entre as Ori^ 
entaes principiadas a cuíla das vidas dos vajfallos de Vojpi Mageslade, 
^ continuadas com tanto difpendio da fazenda %ealna condução 5 c> 
juslentação dos Obreiros ÈvagelicoSjtem dado o fruto dcjejddo-, é^ »wi^ 
tiplícado eoojangue de tao valerofosjoldados àe ChriHo. Tode ejla Igre- 
ja entrar no numero das mais per Jeguidas: ^por conJcguinteprc::^arJe de 
fer bua das mds ghriafaTy a^HpeLfJ^yiupúdãc nom que recebeo a Ley 
de Deosycomopeia conslancia com que a objerva , t^jobrc tudo pela for- 
taleza com que padece-iú^ morre pela Santa Fe. NaÕ duvidão os Mi/fio- 
narios da Cochinchina-^que ferao agradáveis a Vojfa A<íagcíiade eílas no* 
ticias^do que T)eosje dignou obrar porjua pregação na cõverfao daqueí- 
les Injicis'^pois cõa Coroa-, O^jangue tem Vcjja Adazejl^ide herdado tarr^ 
bem o ^e/o da Gloria Divina naturali^idojá nos Sirtui/fimos %eys de 
Tortw^^ah que mais esiimhY.ojempre hum Idolatra convertido , que hum 
%c'yno coiíquiftado : e^ dcfejàraooqueje cjkndcjfe muyto mais o Império 

de 



de Chrijlo-^qué a Monarquia luJttana.N ao permitir a Deos^quc fahc^fCjue 
com estilo wais âjjeado-i^ com a e^awpafafa mantfeHãs ao mundo todo 
as Mijericordias de T>eos , &• os empenhos de Fojfa Alago fL^dc na /al- 
va çao daquelles T^ovos da Cochinchina : dos quaes nao poucos for ao cora 
ados com a coroa do Martyrio.Cujas Jlmas triunfantes no Ceo nao deixa- 
ram deje mojlrar agradecidas ^pedindo injlantemete ao Salvador do Advi- 
do ^que remunere com avantej ados favores os%eaes cuidados deVcífa, 
'M.ageHadcyem as tirar das trevas da infidilidade , ç> livrar do cativeiro 
de lucifer^para as alumiar com as lus^es do Santo Evangelho, O- meter na 
liberdade yC^poJfe da herança dos filhos de T>eos: que nos guarde , ç> con^ 
J^rvepor dilatados^ armos a %ealTeJfoa de Vojfa Mageítade, 



n^o':*' 



Yi>i- 



Os Miffionarios da Cochinchina: 



^u. 



ADVERTÊNCIA 

AO LEYTOR 

UANDO neftas noticias fc diz: Martyrío, 
Martyres,Sátos,Rcvc]açócs, Milagres, Pro- 
ficias 5 & coulas ícmelhantcs : naó Tc devem 
de entender como declaradas pela Santa Sè 
Apoftolica ; mas fò como fc coílumaó vul- 
garmente chamar. Porque quem dà eftas noticias, porte- 
lia naó lhes dar mayor authoridadejda que tem húa hifto- 
ria puramente humana. Nem pretende 5 que íirvam de 
prova de alguma declaraçam,ou canonizaçamjque a San- 
ta Sè fizer. E também por aílim o mandarem asOrdena- 
çóes)& Bulias Apoftolicas, as quacs proteíla obedecer có 
todo o devido acatamentO;&promptidam. 




^'§ V'^ T # "# 1'' % # € -^^ € < r < 'f T "^^^ *# # "S % '-á ir -^^ 1 ^ 

LICENÇAS 

DO SANTO OFFÍCIO. 

VISTAS as iní-ormaçócs^podc-fe imprimir o livro de 
que eíla petição trata? de depois ue inípreíTo tornara 
para fc conferirjôc dar licença q ue corra , ôc Icm ella nam 
correrá. Lisboa 30. de Abril de 1 694. 

^Pimenta, Noronha. Callro. Foyos. 

í • J ""^ 17 *- 



-^ i 




Ode-fe impnfíiif efte livro , & depois torharà para fe 
conferirjôc fe dar licença para correr? & fem ella naò 
correrá. Lisboa i o. de Mayo de 1 694, 

òerrao. 

Qde-fe imprimir viftas as licenças do Santo Officio, 
& Ordinário 5 & depois de impreíTo tornara à Mefa 

para fe conferir, & taíxar 5 6c fem ií^o naó correrá. Lisboa 

II. de Mayo de 1694. 

Mello T. Lamprca. Alarcbao J^vedo. %iheyro. 




T 



Axaó efte livro em oytotoftôesem papel. Liboa 
24. de Abril de 1700. 

Duque. Ollveyra. Cojia, . 




^^^^'-^^^^^^ f '. ^^' #. W*^*^ W*^ ■! *J '# #'4" W 
ILLUSTRISSIMO SENHOR. 

í o Livro que fc intitula Noticias Sunima- 
rias das pcrfiguiçòcsciaiVlinaò da Cochin- 
chinajôc ncllc nsó acho couía,que encontre 
noíFa Santa Fc,ou bons coílumes anteíí o te- 
nho por obra muyto dinga de fc imprimir, 
^ publicar para que vendo os Chriíláos da Europa o que 
obraó os Neófitos da Aíia fc cfmereni na obfervancia dos 
preceitos da Lcy dejesv Chrifto noílb Redcmptor,&: fai- 
baó empregar a vida no íerviço de Deoscom meímo fer- 
vor 5 & promptidaó com que os Chriítãos da Cochinchi- 
naa derpreíaô pela fc do meímo Senhor; -^c também para 
que o mundo conclua o quanto fe deve a eíclarecida Có- 
panhia de JesvSípois pelo grande zello da honra de Deos, 
& cxtcnfaó da fe tem aliílado dcbnxo das bandeiras da I- 
grcja Romana a innumeraveiscreaturasjquc antes viviaò 
emlacâdas com fentehomoj&arraftando como cativas 
dos Ídolos as cadeas do inferno ; cm q ue me parece eíle li- 
vro muyto útil para o exemplo dos fieis 5 tk para maisaf- 
fcrvorar os Miffionarios. Lisboa NoiTa Senhora da Graça 
1 4. de Março de 1 694. 

O Mejlre Frey Álvaro Tm:entel. 

ILLUSTRISSIMO SENHOR. 

^5^^^^^ I com atenção cfte livro cujo titulo he: no- 
^ feMfeí^ ticiasfummarias dasperíeguiçóes daMiííaó 
dcCochinchina principiada, Ôc continuada 
pelos Reverendos Padres da Companhia de 
Jesvs , 6c oítcrecida pelos mefmos Miffiona- 
rios à Magcftade delRcy noflb Senhor,& inda que occul- 

>í< táo 



taóononie do Authorjnoadnjiravcl, &íincerodocÍLylo 
ie conhece ní^ó podiaó fer outros os feus Authores maivS q 
os mcfaios que o confagraraó ; pois át^ih fngrada tamil ia, 
ou para melhor dizei' deftc paraiio da terra íahiraó aquel- 
les quatro nos que inundão todo o míído com virtudes, 
com letras,com modeíba, & com o incáíavel zelJo da fal- 
vaçao dâs alraas;patrimoDÍo com que a dotou feu efclare- 
íido pay;& que fempre confervaraó , & augmcntàraó ci- 
tes illuílres filhos. Trata o hvro da converiaõ de infinitas 
almas ( que eílando cativas do demónio 5 & prefas com os 
laços da cega gentilidade) clles fotrendo injurias, foportã- 
do fomes? & deftcrros ganhavaó para Dcos. E para que fc 
veja íaó eíles Reverendos Padres aquclles obreiros incan- 
faveis que Chriílo quer na fua vinha ( que por iílo a todas 
as horas os mandou porque fempre quer íc trabalhe nel- 
la) lea-fe efte livro,& nelle fe achará em todo o tempo , & 
em todo o cíkdojO fruto do ícu trabalho:acharfe-hão me- 
iiinosjmoçosjvclhosjdonzcllas, viuvas? & caiadas quecó 
a efficacia das fuás doutrinasjnaó fò deixarão as idolatrias, 
mas merecerão entrar na gloria com coroasjêc palmas ; & 
o que mais he 5 que atèhumjapaó inimiciffimodanoíra 
Santa Fè que com tcí]:emunhos56c acufaçóes falfas ics pa^ 
decer aos Reverendos Padres MiíTionaríos grandes traba* 
Ihos5&: aos fieis extraordinários martyrios,rcdufiráo fafé- 
doquc acaballe a vida confefi^ando a íua culpa, & reconci- 
liando-fe com a Igreja.Com rafaó deraó os antigos Portu- 
gucfes aos filhos da Sagrada Companhia de Jesvs o nome 
de Apoílolos porque deftcs còpcte aquelle verío do Pfal- 
miíta que aos Apoílolíos de Chrifto acomoda a Igreja : in 
oumem lenam cxivitjonus cornm , C> w/ines orhis t.en^ verba ccrum^ 
porque em todo o mundo íoa a íua vox,& doutrina; & fe 
a do Cifne hc tão fuave que a fua melodia enleva os ícnti- 
dos aquém a ouve; bem tem moílrado , & moílra a expe- 
riência ; que com o fuave das pa}avras,com a modcília das 
?xcòt^ com o raro5& fingular das virtudes,có o profundo 
daslc!cncias,com a modeílía dos trabalhos, coni a pacicn- 



t;. 



cin dos tro!Ticntos,& com ns perígrínaçóes táo ciilitaclâs;& 
continuas tem cllevado , & levado mil h^rcs , & mil hares 
de almas para a gloria. O livro naõ contem couía algúa q 
encontre noíla Santa Fe, ou bons coícunies, antes he para 
tudo hum notável exemplar , & muyto mais com a pro- 
tcílaçaó que vem no íini ó.dle na advertência ao Lcy tor. 
Finalmente a fè a Igreja a Sagrada Companhia dejesvs,^ 
o noíiO Reyno tem grande conveniência que íe imprima 
cíle livro. A fé para que maiíiíe fortaleça nos corações dos 
Catholicos com exemplares táo raros: a Igreja para que 
mais 5 & mais íe glorie na fecíídidade áeíic< filhos:a Sagra- 
da Companhia dejesvs para que conheçamos todos o que 
Jhe devemos ; o Reyno para que faiba o mundo todo que 
o mayor empenho dos noílos Sereniílimos Reys nas íuas 
Conquiílas he íalvaçaó das almas, podendo diícríe delles, 
Sccõeípecialidade do noílbinviòtiíiimo Monarchaque 
deS. Gregório o grande diíle o venerável Beda presbite- 
ro vere Anglia Jpojhins vocatus que verdadeiratiiéte lhe com- 
petia o titulo de Apoílolo de íngalatcrra? por introduíir 
iiella por Míílionarios Santo Ago^inho , & outros dou- 
tiílimos fujcitos;que títulos pois náo merece, & íaó leva- 
dos ao noílb pijííimoRey cujo criílianiíiimo zelloíem 
reparo do difpendio q a fua falènda Real faz na códução, 
6c fuftentação de tantos obreiros Evangélicos por Rey- 
nos táo dilatados 5 naó fò no Reyno daCochinchina de 
que trata a prcfente hiíloriajmas por toda a Afia, Africa5& 
America? Certamente que fe fobre eira matéria eícrevef- 
fc o Venerável Beda lhe chamaria Apoftolo áo mudo to- 
dojou daria os elogios devidos aos feus merecimentos ; & 
por naó paílar os limites de Qualificador de táo Santo , & 
reólo Tribunal porá donde com goílo dera principio à 
cenfura. Carmo de Lisboa em 28. de Abril de 1694. 

hrey Jatomo de S.mto Elí^s. 




B R E V 






O REI 



coe 






S dilatadiffimas terras lançadas ao mai 



Oriental confinantes com o Império 
da China pela parte do Norte , &c para 
o Sul cortadas do caudal o fo rio Gi- 
anhque defagoa naenfeadadallhade 
Hainam, foraó fempre hum grande 
Rcyno pelos naturaes chamado An. 
Namjque quer dizer defcanço do Sul. Nos feculosmais 
antigos foy fogeito , & governado pelos Chinas com ab- 
foluto domínio Mas como as Monarquias corraó a meí- 
nia fatalidade das mais coufas fublunarcs, jà cheasjà min - 
guantes,&: nunca premanentes;ou foíTe pelo mao gover- 
no dos Mandarinsjou pelo natural defejo ácíe verem os 
vaíTa 11 os livres do pezadojugo de domínio eílrangeiro: 
haverá nove centos annos,que fe levantarão, 6c matando 
aoVifo-Rey, & a quantos miniílros Chinas podèraóal- 
cançarjaclamàraò por Rey hum feu natural^a quem cha- 

A máraó 



2 BREVES NOTICIAS DO 

màruó Bua.que quer dizer Supremo Governador: 3c pa- 
ra oíientareni a liberdade, que gozaváo , foltàraó o cabel- 
jo, que dantes traíiaò atado íobre a cabeça fcgundo o cof- 
tume dos Chinas. 

O Emperadorjque então rcy nava na China, como fof- 
fe mais exercitado no 0CÍ05& delicias da paZjque verfado 
nos cuidados5& pezares da guerrajnaó tratou dereduíir á 
íua obediência a eíles levantados;mas íicou muy fatisfey- 
to com hum obfequioío tributo,que o Buajnovo Rey de 
Annam 5lheprometeo mandar cada três annos por íeus 
Embaixadores. Compofcasas diíFcrenças , & ajuíladas as 
pazes có os Chinas: efcolhco o Bua para íua Corte a Mc- ' 
tropoli chamada ke-Chojque figniíica Empório 5 antiga 
morada dos Viío-Reys Chinas. 

Podia baftar hum Reyno como efte de AnNam taò di^ 
latado 5 que excede três vezes o Reyno de Portugal, tão 
povoado que fe contãonelle mais de quatorze milhões 
de almas5& muyto ricojôc abundante de feda5& de almii- 
car^paraa foberania de hum Rey muy poderofo. Massò 
Deos pode encher a profundidade do coração do home; 
& por iíTo quanto mais faó os bés da terra,que elle poíTue; 
tanto mais,& muyto mayores ainda os apetece, fem nun- 
ca íe fatisfazer. Cobiçou hum deíles Buas o alheo , para a* 
crecentar mais o feu dominio , tomou as armas , paíTou o 
rio Gianh , foy entrando pelas terras del-Rey de Choam- 
pajou Champa 3 que começavaó deíle rio atè o Reyno de 
Cambojajconquiftou muytas Provincias, laçou fora del- 
ias todos os naturaes: ôctudo iílo fem muyta refiítencia 
pelos Champas ferem gente rude naó menos nas armas> 
que nas letras. Ficando pois o Bua já Senhor daquem 5 &c 
dalém do rio Gianh poso nome dcQuang,quequerdi- 
zer,Parte,às terras tomadas aos Champasjpor ficaré fendo 
nova comparte do feu antigo Reyno: 5c eftendeo o nome 
de An Nam , que atè então còprehendia o Reyno de Kc- 
choiás Provincias de novo conquiftadas. 

Porém 



REYNO DA COCHIN"CHINA. ? 
Porem nao ha coiilajqoe prcyãdiquQ mais aos Reys 5 & 
aos Reynosjque as óclicks de húa paz cÓLinuada. Porque 
ie enfraquece o valorjacovarda-íea generoíidadc&o cor- 
po criado com outros divertimentos íacilmentc arrebata 
o animo para os paílatempos do ócio , & ihe fliz cada vez 
mais moleftas as occunacóes do governo. Dó de íe íe.q-ue,. 
ficar remiíib o rigor das leys, & crecer mais o defciiido na" 
adminiftração da f uibça. Peccadojquc brada ao Ceo: nea% 
Deos o deixa fcm caíhVo. Aílim o exDerinicntouaíeu 
pezar hum dcíles Buas entregue todo aos regalos da vidab 
Pois hum íeu vaílallo reparando no deíemparo? cm que 
Í€ achava o Reyno? ierebellou5& foy.jogo feguidode 
quatro Provincias. Na5 íe abalou có eíte tumulto o Buas; 
éc muyto menos os íeus Grandes ; mas toraó continuan- 
do com íeus pa/íàtempos? como fe lograra o Rcyiio a ma^ 
yor proíperidade. Porque como eíiiveíièm jà'coíèum*a-: 
dos ao ocioy&c aos vicios da paZjeílranhaváo niuyto os cui- 
dados da guerraigoílando mais de muíicos iníiTumento^>; 
que de eítrondos miih" tares ; de afíiíbrem mais no theatro 
áplaudindojque no campo pelejando. Taó vil , & abatido 
fica o animo com as delicias do corpo : táo arriícado hum 
Rey no com húa larga paz. 

' Hia vicEorioío o Rebelde3& iem duvida ficaria Senhor 
de todo o Rcyno , íe hum zeloib Mádarim naó tiveíle al- 
cançado do Bua com grandes rogos a licença? para lhe re- 
fiífir: & foy tão venturofojCjue venceo 5 & desbaratou to- 
dos os rebe liados. Feítejouo Bua tão feliz íuceííb; porém 
o defcuido antecedente o não fez depois mais acautelado. 
Antes largando juntamente com o governo das armas a 
adminiílraçaô de todo o Reyno a efte fiel vaíTallo , fe dei- 
xou ficar no feu retiro , occupado todo em divertimetos; 
refervando íòméte para fy dar certos títulos, & fazer cer- 
tas funções publicas. 

Com eiras m.erces 5 poucas vezes feytas dos Reys a feus 
vaííalíos , rccebeo o viftoriofo Capitão o titulo de Chua, 

Á ij que 



4 BREVES NOTÍCIAS DO 

que quer dizer Generaliílimo de todas as armas: & com o 
mando delias fe pòs no abfoluto fenhorio de todo o Rey- 
no: ficando o Bua com o titulo de fupremo Governador, 
ôcoChua có todos os poderes para governar. Eftesmef- 
mos nomes j & titulos de Bua , & Chua contínuaó ainda 
hoje em os fucceílbres. Epoftoque o Chua fempre em 
trajo5& com acompanhamento de Rey affiíláo ao cortejo 
do Bua naquelks poucas f unçóes;no governo porém não 
depende do Bua: nem somente lhe não obedece;mas ain- 
da o reprehende, & caíliga multado feus exceíTos em gra- 
des ouantias de dinheiro. Sendo pois tão miferavel o efta- 
dojaqueasdelíciastemreduíidoa Peíloa Real do Bua? 
deixemolo efquecido no íeu vergonhofo retiro : & daqui 
por diante chamaremos Rey ao Chua , por ter a Mageíta- 
de mãdo ? & poder em tudo realjôc abíòluto, que em feus 
fucceíTores fe fez hereditário. 

Elle era o eiiado do Reyno de An Nam , quando foy 

defcuberto em Settembro do anno de mil & quinhentos 

bc dezafeis por Fernaó Perez de Andrade Capitão do pri^ 

meyro navio PortugueZjquefoy embufca do Jmperio 

" ^^ da China. Qual foílepois a rafaó 5 porque os Portuguefes 

.'^^^^^ chamarão a todoeíle Reyno de An Nam5Cauch!china 

lii^ Eochijchina ? Cochinchina não he fácil dizelo ; viílo efta 

. VI. palavra naó ferufada das nações Orientaes, O q parecejie, 

q ouvindo osPortuguefes chamar Kecho a Cortcjôc vedo 

como os Naturaes eraó muy femelhantes aos Chinas nas 

feições do corpo;de Kecho 5 ôc China com por ião com al- 

gúa corrupção o nome, & voz Cochinchina;affim como 

chamão os Portuguefes Faifo 5 o que os Naturaes dizem 

Hoaipho: & dizem SinoàjO que efres chamam Kehoe. 

Contavaõ-fe muytos feculos do pacifico governo do 
Chua Rey do An Nam em ambas as partes de Kecho , & 
Quang. Mas não foy permanente;porque lhe faltou a ju- 
ftiça 5 que he a firmefa dos Reynos. Morreo no fim do fe- 
culopaílado ElRey5&: deixando hum sò filho muy pe- 
queno. 



REYNO DA COCHINCHINA. y 
queno^encomcndou a adrainiílraçaiii do Rcyno ao Gen- 
ro caiado com húa Irmã do menino Príncipe , atè efte ter 
idade,para tomar o governo. Reparou a Princeía no pou- 
co amor5que íeu marido moftrava a feu Irmão; & íoípey- 
tandojque elle lho matariajpara continuar no mando , & 
ficar Reyjtraçou occultamente a fugida do Príncipe para 
Quang: & com elle fe paílbu logo muyta,& muy luftrofa 
Fidalguia. Raro exemplo de amor deíintereílado! Naò 
quiza Princeía a coroa 5 que occafiaó tão opportunalhe 
oiíerecia-, pela não tirar da cabeça de feu Irmão. Foy rece- 
bido dos de Qnãg como feu legitimo Senhor : & tomarão 
logo as armas para a defençaó de feu Príncipe, cujo nome 
era Tien: & o aclamaraó,& lhe deraó o titulo de Chua ? q 
de rafaó lhe pertencia por herança. Começarão logo , & 
continuáo ainda as guerras entre os dous Chuas,&feus 
decendentes 5 pelejando a meímanaçaó com fy mefma. 
Porém favoreceo fempre Deos à Juíriça,dando viclorias 
ao Chua Tien , em cuja decendencia continua ate hoje o 
abfolut05& pacifico Senhorio de Qiiang. Divididas jà ei- 
tos duas partes de An Nam em dousReynos inimigos en- 
tre fy: os Portuguefes para os diílinguirem também nos 
nomes , chamarão dalli em diáte Cochinchina sò ao Rey- 
no de Quang: & a todo o Reyno de Kecho puferaó por 
nome Tunquim: a qual voz tomariaó tal vez de KinhKi, 
que he outro nome da Corte de KeCho : ficando ambos 
os Reynos comprehendidos no apelido de Annam:coma 
o faó muy tos Reynos no de Efpanha. 

No principio do governo do Chua Tien novo Rey da 
Cochinchina fe eílendia o Reyno defde o rio Gianh para 
o Sul ate o Cabo chamado Varella. Porém no annode 
mil ôc féis centos &: fincoenta 6c dous fe foy dilatado nas 
terras de Champa. Porque querendo ElRey da Cochin- 
china caífigar húas iníolencias dos Champàs, mãdou que 
três mil mofqueteirosentraííem5& aíTolaíTem aqueilas 

terras: das quaes fugirão os Champàs para Panrim corte 

A. . . , 

11 j ao 



6 BREVES NOTICIAS DO 

do feii Rey ; por cuidarem , que alli feria fácil a defeiiçaó. 
Mas os Cochiiichinas mudando a corrente a hum riogque 
entrava naquella cortCjdo qual todos bebiaó^obrigaraó os 
litiados a fe renderem com feo Rey. O qual foy levado a 
Sinoa Corte delRey da Cochinchinaíck alli fileceo: aílim 
pela muyta idade que tinhajcomo pelo grande fentimen- 
to 5 que tomara de fe ver prezo depois de ter por tão dila- 
tados annos Rey nado. Fez porèni ElRey.da Cochinchi-'' 
na niercè de boa parte do Reyno de Champà a hum gen- 
ro dclRey morto; mas com taes condiçóesjque sò lhe íica 
por herança, fer pouco mais que Adminiílrador. Porque 
além do tributo , que manda todos os annos a Sinoa ? tem 
EIReydaCochinchinafeu preíidiona Corte de Panrim: 
& os Cochiii chinas podem morar livremente em todos 
os portos de Champàjnos quács tem já fuás colonias,& af- 
fiíhrem mais como SenhoreSíque como moradores. 

O Reyno pois da Cochinchina neftes últimos annos 
correndo a coila comprehende as terras defde Pandcram, 
porto de Champà , que íica em onze grãos , 6c quarenta 
minutos da parte do NortCjatè o rio Gianh , que fe mete 
no mar em dezoito grãos , & quinze minutos do mefmo 
polo. Mas como as Províncias borcaes fiuuem lançadas 
pelo rumo de Noroefte na enfeada que moderadamente 
chamam da Cochinchina; por iílb terá cento & quarenta 
legoas de cofia ? aberta toda com diverfis Barras , que lhe 
fiízem os muytos5& caudalofos rios. As capazes de navios 
de alto bordo {3.0 a de Phumoi, a de Fulo Cábi , ou Nuoc^ 
manja de Faifoj&a de Sinoajque chamam dos Japóes. Ha 
mais em Turam hum fermoío , & efpaçofo porto aberto 
pela natureza em circulo de quaíihum dia de caminho 
em circuito. A entrada íica entre dous m.ontes, que fer- 
vem de balizas , díftante hum do outro hum tiro de peça. 
fie limpoj^c capaciílimo de muitas mil nãos de qualquer 
gi^andeza. Porém agora sò algumas podem furgír fegura- 
íBcnte em hum reduóto, pelo porto ficar aberto ao vento 
^t icile. 



REYNO' DA COCHINCHINA. ^ 7 
leílcjque he traveíTaó.Mas com hum Molle fe poderia fe- 
char faciImentC5& ficaria todo o porto ícguriílimo, & le- 
ria hum dos melhoreSíque ha no defcuberto. Os Reys da 
Cochinchina naó sò naó quiferaó fafer eíh obra,qi]e Jhes 
tora muyto tacil ; mas antes tem prohibido a todos os ef- 
trangeyrosj tomarem aquelle Porto ; por fe recearem de 
alguma armada inimiga. Ha tambê por toda aquella coíla 
muitas Ilhas defpovoadas perto da terra íirmejtk tem lur- 
gidouros para qualquer grande nao. 

As embarcações íaó todas de remo. As de contrato do 
tamanho das noíFas caravelasjde taboas incorruptiveis, Ôc 
muy largas; naó faó pregadas , mas coíidas hua com a ou- 
tra. O que rafem 5 abrindo de palmo em palmo buracos 
nas bordas das taboas 5 fem as furarem pela parte que toca 
na agoa. Neftes buracos de hiiajôc outra taboa vaô enfian- 
do muy tos fios groílosjque tiraó da cafca à.\i. bengala ? que 
no Oriente chamaó rotajtapão depois as juntas das tabons 
com cafca de arvores 5 & a apertão có cunhas metidas pe- 
las argolas daquelles fios. Acabada a monçaó de navegar, 
cortam os fios, & recolhem o taboado para lugar cuberto. 
Trazem ellas embarcações dous maftrosjcujas velas faó de 
cfteirara figura he de leque,& em lugar das vareíasjtem de 
hÚ35& de outra parte húas largas tiras de groíTas canas , da 
ponta íuperior de cada huma delias pende feu cordel , os 
quaes todos fe ajíítaó no cabo da efcota. A viíla he de húa 
arpa armada 5 ou arpa grega como a chamaó os Portugue- 
fes. Não fe ferrão eíhs velas 5 mas fe fechão a modo de bi-r 
ombos: & quanto mais furiofo he o vento,taoto mais vão 
arriando,6c fechando a vela, para mayor fegurãça do maf' 
tro5& do cafco. Ufaó de dous lemes 5 que não defcançaò 
nos engonçosjmas os trazem pendurados, para os poderé 
levantar facilmente, quando derem em baixos, & os tirs- 
rem,quando naó navegão. Hum he pequeno,& fica todo 
fora da popa , como fe coítuma em Europa , & fe fervera 
dellc nos rios^^: no mar bonança. O outro he muyto nia- 

A iíij yor, 



BREVES NOTICIAS DO 
yor/e mete por detro da popajcc iahe debáyxo delia uidíS' 
de liúa braça: deíle fe valem nas tormentas ? & quãdo vão 
de bolina 5 para ter mão na embarcação ; que por não ter 
qoilhajfaciimente viraria. As enxârcias5cabos5& amarras 
íaó de bengalas inteiras 5 & as hà muy to groíFas , & as an- 
coras de peíadiíiimo pao com as unhas de ferro. Com ef- 
tas embarcações nave^ão aquelles mares , & correm com 
âs tormentas? q faò muy furiofas naquellas coílas de Chã- 
pà,6c Cochincnina. 

Para uío da guerra tem as Galès 5 que arrcmedão as ãé 
Europajíão pregadas, & de nua fò cubcrtajmuy cópridas^ 
não muyto largas; porém proporcionadas. Trazem vinte 
íinco até trinta remos por banda , & para cada remo hum 
sò homem, que juntamente he foldado de miOÍquete, 5c 
levão na proa húa peça de bróze de féis libras. ElRcy paf- 
fado lhe meteo mais duas também de bronze?porèm me- 
nores. Os pelouros fão todos de cobre fundido 5 não por 
falta de ferrojmas por oí]:entação,&: grandefa real.Sò quã- 
do vão à velajlevantão o maílro. Indo pois a remo, o me- 
nção ao fom armoniofo 5 que fazem com o bater de dous 
paofmhos fobre outro mayor 5 q fica pédurado pelas duas 
pontas:&: conforme o compaíTo mais , ou menos picado, 
ora mudão a voga 5 ora mais , ou menos apertão o punho. 
Ao fom porém decerta pancada, metem todos com tanta 
força5& gcyto o remo na agoa , que fazem parar ? & íicar 
im movei a galèjpoíto que và defpedida, & com toda a ve- 
loíidade. 

O que coftumaó fazer ? quando querem a tirar có a ar- 
telharia. Aílim mefmo ao fom de outra pancada levantao 
todos o remo da agoajôc fojugando-o com o pé fobre a cu- 
bertajpegão dos mofquetes,&: dão todos carga: & carregã- 
do-os logo com a mefma ligeirezâjos guardão a feus pès5& 
tornão outra vez ao remo. E para que o remar lhe íeja fa- 
ci],trazem o remo pendurado do tolete. Todos remão c6 
a cara,& carrcgão o punho com todo o corpo para a proa: 

onde 



REYNO DA COCHINCHINA; 9 

onde fica a camará 5 que he hú fobrado íobre a artelharia. 
Neíle aíliíle íempre o Capitão 5 & he o lugar mais honra- 
dc;porque hc o mais perigozo. O Capitão vay ricamente 
veílido: os remeiros^que todos faó moços elcolhidos qua- 
íi todos da meíma idade , & eílatura do corpo , trazem fo- 
mente calçaó de feda. No tempo porém de peleja para 
ofFenderem? além do moíquete empunham a catana , ou 
alfange; mas para fua defenção cobrem somente a cabeça 
com câpafete douradojfeyto de pelle de búfalo^ que refif-c 
te ainda aos pilouros de mofquete. ,jfn •; ■■ >t 

O ornato deílas galés he muyto rico , 6c muy viíiofo. . 
Não tem efporaó como as de Europa ; mas aííim a popa 
como a proa 5cão arqueadas5& levantadas com bella pro-, 
porçaó,ambas de efcultura muy curiofaj & ambas doura- 
das. O mais corpo exterior da galé he todo charoado 5 & 
de varias coresjcomo também os remos: & tudo com tan-' 
ta perfeição ? quanta vemos nos contadores , que vem de 
Japão. Em híía moftra 5 que os annos atraz mãdou ElRey 
paíTar no rio da Corte, fe cótàraó até duzentas galés muy- 
to bem efquipadas,& melhor armadas. Sahem ao mar j ôc 
correm toda a cofta. 

He o mar da Cochinchina abúdante de muyto peyxe, 
& bom-^Ôc de toda a caíla de marifco. Acha-fe coral preto, 
& aljofre miúdo nas oílrasjque fe comem. Aqui os caran- 
guejosjque os ha muyto grandes 5 defpem toda a cafca : de 
logo a natureza lhes vay endurecédo a pellicula interior, 
ate ficar como a que largarão. Em alguns riosjou efreyros 
de mar fe tem defcuberto huns caranguejos empederni- 
dos femelhantes aos que feachão na Ilha de Hainam.Náo 
hà duvidajque foráo viventes ; pois té todas as feições dos 
que vivem. Masjou fofie pela qualidade do lodo, onde ef- 
táo: ou pela frieza das agoas que decem dos montes, mor- 
tos fe convertem em pedra , como também o lodo a elles 
pegado.Os Naturaes os pefcão mergulhando muytas bra- 
ças, &: tomando daquelle lodo com ceftosjos achão algúas 

B vezes. 



IO BREVES NOTICIAS DO 

v-ezes. Aííim os caranguejos 5 como o lodo com elles em- 
pedernido ião remédio para as defiuxóes? & achaques do 
ventre procedidos de quentura. 

Não hc menos fértil a terrajquc o mar da Cochinchi- 
na. E pofto que huas altiilimas ferras de montes lançados 
de Norte a Sul a não deixe dilatar muyto de Lefte a Oef- 
te, não tendo mais largurajque de dous dias de caminho. 
Com tudo no anno da duas 5 & três novidades de arros ? q 
he o paó de todas as Nações Orientaes; ainda daquellas, q 
tem muyto trigo. Produz milhojlegumes, & toda a fruta 
natural do Oriente , & tudo com grande abundância. A- 
tribue-fe efta fertilidade não sò aos muytos rios dos quaes 
he a terra de continuo regadajmas também à ínundaçani 
dequaíitodo o Reynocaufada das grandes chuvas > que 
cahem nas ferras pelos mefes de Outubrojôc Novembro. 
Nem podendo as madres de tantos, & taó caudalofos rios 
receber em fy todas aquellas copiofas vertentes 5 tresbor- 
dão5& fazem dos campos marjôc das Villas Ilhas. Fica po- 
rém fempre hum barro trazido dos montes muy fino , & 
pingue, que fertiliza muyto as terras. Todos fuípiraó por 
efte diluvio -, a que chamáo Lut: os que habitão nos cãposj 
para terem boa novidade;&: os que moráo nas cidadcs,pa- 
ra paíTarem alegremente aquelles três dias neceílarios pa- 
ra as agoas de tudo abaterem. Neíle tempo íahem todos 
cm barquinhaSíôc vão correndo as cafas dos amigos , dan- 
dolhes os parabéns 5 & convidando-os a feílejarem a dita? 
que todos recebiáo do Ceo. Pelo que as ruas trocadas em 
canaes de mar doce,faó navegadas de efquadras de peque- 
nas embarcações ) que levando muíicos inílrumentos , íe 
defafiam humas às outras : & cm quanto vão remando cò 
paufa, vão contendendo com aarmonia: & com efte ale- 
gre certame paífaõ as noytes. De dia porém fe entretém 
todos em pclbar a muy ta caça? que arrebatada das furioías 
correntes he levada para o mar: como também todo o ga- 
do que vem defgarrado por aquellas agoas ; porque a ley 

Li. do 



REYNO DA COCHINCHINA. ii 
do Rcyno o dà a quem o falva em pena do defcuido -> que 
teve o dono em o aíTegurar. De gado miúdo ha somente 
cabrasjck íaó muytomais as mótezcs. Do groiTo criáo V2i- 
cas5& búfalos 5 deíles ha mayor numero 5 por ferem mais 
fortes para o trabalhoj^c terem alli as carnes mais goftofas 
para a mefa. 

Mais nobre criação heada feda? da qual lavrão peças 
muyto ricas;& muy fer mofas. He ella tãtii, que atè os ho- 
mens do campo veílem delia. Dà o mar muyto fal brácoj 
que os Portuguezes levão para Macao; porem muyto ma- 
is liberal he a terra em dar açúcar aííimcandíl como em 
pòjdo qual carregão os Chinas muytas nãos para o fapam. 

Ha grande abundância de pimenta? pequena no grani, 
mas mayor na virtude: pelo que tem mais conta na Chi- 
na 5 que a de outros Reynos. Nem lhe falta a canela^que 
depois da de Ceilam he a mais eíliraada. 
. Porém o que ennobrece mais aquelles bofques5& mo- 
tes da Cochinchina he o pao de Aguila , & o de Calambà> 
ouCalambuco. Naó faó troncos 5 nem ramos de arvores^ 
& muyto menos a mefma arvorcque fendo nova fe cha- 
ma Aguila,& depois de velha ? Calambà. Pois aílim hum 
como outro pao faó pedaços não redondos mascaverno- 
fos, que fe acham no âmago jà corrupto de certas arvores: 
ou fe gerem elles de novo de toda aquella prodidáojou fi- 
quem do âmago por íèrem partes tão défasjôc compaclas, 
que fenão corrompem. Né tão pouco faó partes da mef- 
ma arvore; porq fe aílim foíTeíacharíehião ambos na mef- 
ma arvore, quando for muyto velha. Muyto menos a A- 
guila como menos perfeyta fe palfa 5 & troca depois de 
muytos annos em Calambà fegundo a opinião de outros; 
porque fcouvera de achar algumas vezes nas arvores de 
menos annos húa terceira efpecie, que nem foífe Aguila? 
nem foíle CaIambà;quando aquella fe foífe convertendo 
neífe. Mas nem hum nem outro fucceílb fe tem vifto atè 
o prefente. A eíta Aguila dão os Portuguezes o apelido de 

B ij íioa; 



1^ BREVES NOTICIAS DO 

fina;para a diílinguirem da outra,a que chamão brava:que 
he arvorcnaccjéc crece iias partes da Indiajôc delia fe tor- 
neãó âs contas, fe fabricão as Imagens , & íe lavraó outras 
curioíidades, qiíe dè lâ trazem para Europa. As Naçoens 
Oríentaes principalmente os Chinas uíiió deík Aguila fi- 
na para perfumes nos templos de léus ídolos.E poílo que 
feja jà fecaímoílra fcmpre na chama ? que faZjter em fy o- 
leojpelo qual recende. 

Mas o Calambá vêce muytò a Aguila na preciofidade, 
& íuavidade de cheyro. Por algum tempo depois de tira- 
do das entranhas da arvore não he muyto duro : & ferido 
coma unhajlança de fy óleo fuaviffimo. Efte pao o ha so- 
mente nas terras delRcy da Cochínchina; & he muy pre- 
ciofo não menos pela excellencia do cheyro muy cófor- 
tativo do cérebro; que pela dijfíiculdade có q fe acha;porq 
gafta muytos mezes húa multidão de gente , que o bufca, 
abrindo novos caminhos por bofques nunca penetrados, 
&:fobindopor muy fragofos montes inaceffiveis. Sòo 
poder real pode obrigar,a que fe arroje feus vaíTalos a tan- 
tos perigos da vida naquelles matos,povoados de feras, & 
faltos de todo o humano foftento. E sò ElRey^ que faz os 
gâílõs nõ defcubrimentOjtem todo o proveito da cóquit 
ta. DòbomCalambà fe vende na Cochínchina hum ar- 
rátel pôr quarenta atèfincoenta patacas :& levado aoja- 
paó crece em dobrojôc mais ainda feu valor. Mas fe for al- 
gum pedaço 5 do qual fe poífa fazer húa almofadinhajnaõ 
ha preçojcom que fe pague. 

Ufaó muyto os Japoés defte pao para perfumesjcm par 
ticular no recebimento de algum hofpede peííoa grave. 
Para efte elíeyto guardam todo o aviamêto neceííario em 
hum caixaólinho de hum palmo , todo de pao charoado,' 
Ôc dourado, dentro do qual fe acháo da mefma matéria, & 
feitio húa bãdeja,& húas bocetas cheas de papelinhos do- 
hrados , & em cada hú delles húas pequenas lafcas de Ca- 
lambàjquanto bafte para perfumar húa vez. Hâ mais hú 

fogarei- 



REYNO DA COCHINCHINA. 15 
fogareirc de tamanho 5 & da figura de hum pequeno tin- 
teiro tãbem de pao douradojôc chco de cinza muyto Hm^ 
pa,& beni peneirada. A (Tentados pois os hofpedcs com os 
pès trocados fcgundo o coílume dos|apões 5 òc de outras 
muytas nações orientaes , o dono da caía puxa do caixaó- 
iinho,& pondo o fogareiro na bandeja , manda vir huma 
brafa bem accfa 5 que bota na cinza dentro do fogareiro, 
cuja boca cobre com hum pedaço de talco , de fobre o tal- 
co põem asiafquinhas do Calambà. Logo que o cheiro 
começa a vaporar^toma o dono da cafa a badeja nas mãos? 
& corre com ella os hofpedes 5 detendo-fe diante do roíío 
de cada humjquanto lhe parece neccílariojpara fe receber 
aquellecheyro. Temaquelles Naturaes o fentido do ol- 
fato tão experimentado neíle perfume/jue da qualidade 
delle conhecem logo o quilate do Calarabá^fe he bom -, fe 
melhor -, fe he o mais perfeyto: o que elles explicam com 
os termos, &c femelhanças de pè, de ventre , éc de cabeça. 
Deíla maneira recebem os Japóes corteímcnte as peífoas 
que os viíitão , aííim como o fazem alguas nações Euro-' 
peas com potagens deliciofas. 

Naó fe defcuidou a Natureza muy liberal para com os 
Cochinchinas de os animar também no fentido do goílo? 
dandolhes duas iguarias naó menos íingularcs que regala- 
das: quaesfaó os ninhos de certos paíiaros 5 &asbarbata- 
nas,oa afãs , como as chamão no Oriente , de alguns pey- 
xes grandes. Ha na eoíb da Cochinchina huns pailàros 
•ém tudo femelhantes às andorinhas Europeas napcque- 
nhez do corpo, na cor das penas , & no modo de voar. Fa- 
zem feus ninhos nos rochedos inacceíliveis, que ca hem 
fobre o mar alto né para efta fabrica vão bufcando palhas; 
mas voando ao redor daquelles penhafcosschegaó de quá- 
tJo em quando a tocar com o bico as efpumas das ondassôc 
fe recolhem p^ra continuar com a obra de feus ninhos : q 
fahem muy pequenos, & menores que meya laranja ; po- 
rém muyto bc tecidos de j&os muy delgados de certa ma- 

Biij ça 



o 



14 BREVES NOTICIAS DO 

ca tranfoarente, & de cor branca quando íaó novos 5 & fe 
confervão por largos annos íem corrupção algúa. Os Na- 
turacs dizem •> q cites paílarinhos tíraô das luas entranhas 
aqúelles fios: aílirn como o faz o bicho da feda. No tempo 
doveraócom mar bonança húascmbarcacóes determi- 
nadas (por eíla fazenda pertencera Rainha da Cochin- 
china ) vaó bufcar eíles ninhos : & bem chegadas aos pès 
daquellespenedosjcom haílesmuy compridas os vão de- 
fapegandojfazendo-os cahir dentro das embarcações. São 
eíles ninhos de grande fuÍLanciaj^: de bom temperamen- 
to. Os Chinas •, & japóes em feus banquetes uíaõ muyto 
dellesjcozédo-os com carnCíôc também com peyxc; por- 
que fe desfazem 5 & dão muyta graça. Porém cofidos em 
açucarjíaó iguaria muyto mais deliciofa. 

O outro prato regalado da mefa dos Cochinchinasfe 
faz das barbatanas de huns peyxes grandes; das quaes , de- 
pois de bem coíidas, vaó tirando os ner vinhos , que corre 
entre aquellas cartilagens , & os cozem em caldo bem tê- 
perado. Eífas barbatanas fecas ao íbl tem grade fahida pa- 
ra japaó 5 & China: donde as vem bufcar a todo o preço. 
Nem pode deixar de ter grande fimpatia com o goífo de- 
lias nacóes iguaria tão cuíiofaj&tão bufcada:& não ha du- 
vidajque he defenfaíliada5&: muy mimofa. 

Ainda que os goílos fejaó muy diíFerentes nos homês: 
& do que huns apetecem , outros fe enfaítiaó : para que a 
Cochinchina foíle eftimada de todos?lhe deu a Natureza) 
o que he de todos muy deíejado5& bufcadoja laber muy- 
to ouro: & lho pòs parte nas ribeiras dos rios? & parte nas 
entranhas dos montes; hum^ôc outro tão fobido nos qui- 
lates, que levado a Goa lucra ao menos íincoenta por cé- 
to.Ha determinadas Aldeas,que o bufcãojcom obrigação 
de cada peílba pagar todos os annos hú determinado pe- 
%o de ouro a ElRey , ficando para cada hum todo o mais 
que achar. 

Das qualidades do pays paííemos ao natural dos mora- 
dores. 



REYNO DA COCHINCHINA. xj 

dores. São osCochinchinas comummente de mediana 
cihturx a cor naõ he de tudo branca nos homens : & rof- 
to achinado, mas naó affeminado: o corpo robuílo : o ani- 
mo gencrofo: & o génio inclinado às armas? & às leiras : o 
cabello hc corredio? & preto aílim dos homens como das 
mulheres : aquelles o naó deixão paíTar da cinta para bay* 
xo: eftas o deixão crecer atè os pès , & quanto mais còpri- 
do tanto mais eftimado. Os homens todos cõ barbajquan- 
ta lhes dà a Natureza , quesò nifto fe moílra pouco libe* 
ral. As mulheres naó trazem fitas nem algum ornato na 
cabeça , ou enfeytes na cara. As peílbas principaes uíaó sò 
de pequenas arrecadas5porèm de muy ricas pérolas: &faô 
todas tão compoftas no veftirjque poderiaó íer exempla - 
res a muytas Senhoras Europeas. Pois em lugar de jubao 
trazem húa como túnica comprida atè os pès^que fica fo- 
bre os vertidos interiores5& tão apertado no pefcoçOíque 
para entrar a cabeça? fe faz hua pequena abertura fobre o 
hombrca qual logo fe fecha com botão. Sobre efta tuní-= 
ca veftem hum roupaó comprido até o chão com o qual 
efcondem os pesjôc com as mangas cobrem as mãos. 

O veftir dos homens não he igual em todos ; mas con- 
forme a di verfidade do eftado de cada hum varia no rou- 
pão exterior. Porque os letrados o trazem atè os pès , & 
com mangas muyto largas5& muy compridas Aos folda- 
dos fe lhes permite atè meya perna com mangas curtos^Òc 
mais eílreitas,para ficarem defembaraçados das roupas no 
exercício das armas. E os que não profeíTaó letras nem ar- 
masjufaó de roupaó nem tão comprido como os letrados, 
nem tão curto como os foldados. Pelo que do veílido ef- 
terior logo fe conhece o eftado da peiToa. A túnica interi- 
or,que trazem também os homens? he algum tanto mais 
larga no pcícoçojchega atè o joelho , & he igual em todos 
os cílados. As cores pois deites veftidos faó muy honefias; 
porque a túnica dos moços ? de moças comummente he 
roxajôc nas peíToas de madura idade he br:tnra. O roupam 

B mj porém 



í6 BREVES NOTICIAS DO 

porem exterior ailim dos homens como das mulheres he 
íèmpre de cor preta,por fer mais grave. Os homens de Je^? 
trasjde armas?&: toda a peíToa honrada ? & limpa de humj 
&: outro fexo femprc v^eílcm feda : & aconteceo não fe a- 
char em caía de hua Fidalga hú pedaço de pano para cu- 
rar húa ferida. Os macanicos com o mais povojpofto que 
em fuás cafasjlogeas ? & occupaçóes ufem de roupa de al- 
godãOíque alli nace em grande abundãcíaí íuprindo a fal-. 
ta do linhojque não íe dà no Oriente;porèm nas viíitasjôc 
feitas quanto veftem5tudo he feda ate o calçaó: & o ferião 
também as measjc as qualidades da terra,& do Clima não 
obrigaíTem a andarem todos defcalços Somente as PeíTo- 
as Reaes calçam chinellas mais por eíhdo que por necef- 
íidade. Mas o q lhes falta de ornato, & de abrigo nos pès, 
o tem na cabeça;porque todos,ôc todas trazem chapco te- 
cido de palhas muyto íinas , & os homens podem tambê 
uíar do chapeo de Sol. Efte privilegio negado às mulhe- 
resjfoy cauía que ellas inventaíTem outra forma de cha- 
peo muyto mayor que o do Sol; mas porque o naó pode 
trazer levantado na hafte, o encollam ao braço elquerdo, 
& delle ufaó as Senhoras gravesj 6c Mandarinas. 

Faltalhes agora fahircm com outro invento , que arre- 
mede o leque,que fora de cafa he permitido fomente aos 
homens;porque eftes5& não ellas devem íahir de cafa ? & 
andar pelas ruas. Aílim os letrados como os foldados nas 
occupaçóes de feut officios trazem na cabeça barrete re- 
dondo alto dous palmos; mas com eíh diftinçaõjque nos 
letrados íica todo levantado, & nos foldados com a ponta 
de cima dobradajôc cabida para traz. E feria tão grade def- 
cortefiajaparecerem, & ficarem defcubertos diante de fe- 
us mayores3& do mefmoRey, como em Europa fe tivef- 
fem o chapeo na cabeça. Seria também defprmiorjôc gra- 
de rufticidadejvífitarjou receber vifita (fenaó foíle de pef- 
foa muy confidente) fem veítir roupam preto : ou fe eílc 
naó clli vcífe fechado diantcjôc atado com as d uas fitas^que 

para 



REYNO DA COCHÍNCHINA. 17 
para eíte obíequio tão primorofo ficaó coíidas em húa •> éc 
outra parte do roupão.Os MandarinSjfaô levados em rede 
pela cidadCjComo tabé as mulheres graves, Mandarinas5& 
Princezas;poré tão cubertasjq não íòmête nãolelhes vè o 
roíl:o,mas né íe íabe fe vay vivajou miOrta:& dos criados fe 
conjeitura a peíToajq he levada.Sò EIRey vay em cadeira. 
Todos aílim homens como mulheres trazem íempre na 
manga huma bolça defeda,chea de bocados compoílios de 
certa folha,a que os Portuguezes chamáo Betle íemelhá- 
te à de era;porèm muy mimGfa5& aromática : &: também 
de hú pedacinho de húa fruta chamada pelosPortuguezes 
Areca^a qual arremeda a bolota5& tê fabor de cardo. Quã= 
do pois íe encótrão nas ruas os conhecidos : quem he ma- 
yor 5 coíluma dar deftes bocados ao menor em íinal do a- 
mor que lhe tem. Porém fe alguc quem quer q íeja en- 
trar em cafa alhea fempre o dono tê obrigação de ofFere- 
cer femelhantes bocados. E feria moftrar odio,& declarar 
inimizade 5 fe faltaíle nefta corteiia para có feu hofpede. 

As câfas,em queeíla Naçaó mora;por não haver pedra 
fenaó marmore5& muyto branco^nem uíarem muyto de 
tijolo : todas ate os Paços Rcacs laó de madeira. Naó ha 
duvida , que a natureza fe moílrou muy provida com ef- 
tes Habitadores; porque negandolhes a perpetuidade das 
pedras, lhes cóncedeo a incorruptivilidade das arvores: & 
com tanta abúdancia , que he livre a cada hum cortar nos 
niontes,o que quizer. Eftas cafas pofto que muyto gran- 
des,& efpaçofas não tem mais 5 que hum fobrado efiriba- 
do em colunasjque fe achaó muyto groílas? & muy direi-, 
tas. Para unirem pois,& fortalecerem todo o madeirame- 
tcnaó ufaó de pregos;porque a fortaleza do pao os roe^ôc 
confome;mas de encaixos, & com tanta perfeição , que a 
penas lhe pode entrar húa ponta de aífenete. Aíftm de- 
rencaixão;& arrancão qualquer grande palácio , & o vam 
levantarem outra paragem fem lefaó aígúa detoda aquel- 
k armação. Naó cobrem as cafas nem ainda os Paços del- 
«^ C Rey 



i8 BREVES NOTICIAS DO 

Rey com telha: não porque faltem os materiaes 5 ou os o- 
breiros para a fazerem ; mas por hum fuperfticíoío obfe- 
quio aos ídolos, cujos templos tem teélos de telhas. Co- 
bremnas com folhas de certas palmeiras agreftes ? & tam- 
bém com juncos bemamarrados5& tecidos,que duraó até 
quatro annos. Naó heeíle o mayormal deite telhado; 
mas o dar occaíiaó a muytos incêndios. Naó paíla anno, 
cm que ruas,& bairros inteiros não fe abrazemjÔc fiquem 
em cinzas,& mais frequentemente na Corte ; poíto que 
ao primeyro rebate do fogo acode ElRey em peíToa com 
mais de dez mil foldados fobpena de perder o quartel de 
hum mcz a quem faltar: & tenha cada companhia preíles 
todo o neceíJàriojpara apagar os incêndios. Mas he tão ve- 
hemeníe o calor do fogodaquelles madeiros 3 que naó dà 
lugar aos foldados de fe chegarem perto. Affim o remédio 
mais opportuno he5deíl:el harém as caías, que ficaó a fota- 
vento, &c para onde o fogo íe vay encaminhando. 

As paredes das cafas da gente popular faó de efteiras fei- 
tas em quarteís5& pendurados de íorte , que os abrem , 6c 
fechãojquando quercm;para tomarem o vento , que lhes 
contenta5& impedirem,© que lhes he nocivo. Porém nas 
cafis das peíToas graves arremedáo ès que chamamos pa- 
redes f rancefasjnaó feytas de tejolo 5 mas de paos a manei- 
ra de grade eílreitajôc depois barradasjôc rebocadas. Nam 
uíaó de cadeirasjmas de eftrados largos, & altos ? cubertos 
todos de eíi:eyras,nos quaes fe aíTentáo com os pès encru- 
zados. Alli recebem os hofpedes graves 5 pondolhes logo 
húa almofada alta para fe encoftarem , & hum cufpidor 
para naó ferem obrigados a fe levantaré para cufpir. Qu^ 
vem para vifitarjantes de entrar em cafa ? lava os pès , fem 
lhes chegar com as mãos : & para efte effeyto ha fempre 
nas portas agoa,& com que a lançar. Acabadas as prímey- 
ras cortefias de húa,& outra parte , fe a vifita he pela ma- 
nhã 5 pergunta logo o dono da cafa ao feu hofpede , fe có- 
rneo jàarros? Se refponde: Ainda não. Começaó acon- 

verfarj 



REYNO DA COCHINCHÍNA. 19 
verfar.ou a tratar de negocio5&; logo íe lhe vay fazendo o 
comer com carncjou peyxe em iguarias,que pedem pou- 
co tempo. Entre tanto ie offerecem ao hofpede os rega- 
los do Betle5& do chajou do vinho, Neftas bebidas guar- 
dáo íuas corteíias;porque fe o hofpede he peílba mayor, o 
dono da cafa as não tomajfe naó depois;porèm fe for igual 
não hadc levar hú a chicara â bocajmais cedo que o outro. 
Traíído o jantar , pede o dono ao feu hofpede lhe faça a- 
quella honra de comer em fua cafa. Efte agafilho fazem 
todos ainda os do povo:& os mandarins tem ícmpre pref- 
tes iguarias de carne , & peyxe para em toda a hora darem 
de comer a rnuytas peíloas3& tem ifio por eít:ado?& gran- 
deza. i\Cc:bada a vifita diz fempre o hofpede eílas palavras: 
Eu volto. Então hade refpôder logo a peíloa vifitada: Vai- 
fe! mas dito com grande demoníhaçam de fentimentO) 
por não ficar mais tempo. As mulheres viíitadas dos ho- 
menSífe defpcdem delles levantadas em pè no mefmo ef- 
trado;poré os homens acompanhaó atè a porta. O ornato 
de fuás cafas nem faó damafcos nem veludos;poíl:o que os 
■lavrem com toda a perfeyçaó ; mas bausjôc contadores de 
Japaó com outras bocetas douradas, em que guardaó feus 
brincos,& veíhdcs. O tempo cm que todos íazem a ma- 
yor oítentaçaó do que temjhe o principio de feu anno no- 
vo5que cahe no mez de Fevereyro; porque então fe aíim- 
paÓ5& cayam as cafas: cobrem -fe os eílrados de novas 5 & 
finas eíleyras guarnecidas de feda:fahem ao publico as pe- 
ças mais ricas5& mais curiofasjdifpoílas em diverfos luga- 
res da cafa com boa proporção : eftendem-fe fobre humas 
varas compridas todos os vertidos de fedajque ainda pode 
fervir: & tudo quanto aparece em cafajou he novojou re- 
novado 5 ou ao menos he muyto limpo. Neíle dia affim 
homens como raolheres,grandes5& pequenos, fe veílem 
todos de novo: atè as peíToas pobres vão ajuntado dinhei- 
ro por todo o anno , para então fahirem com vefrido no- 
vo. Dura eíla feíla três dias entre a géte popularj^ quin- 

Cij ze 



20 BREVES NOTICIAS DO 

'Ae entre as peíibas nobres: nos quaes fe viíitam56c bãque- 
téão hiins aos outros. ElRey nas tardes dos três primey- 
rõs dias da de comer no feu paço atodos os Mandarins. 

O íuílêto ordinário para todos hearros fervido fòmé- 
te cm agoa3& depois íeco junto ao lume, de forte que de- 
pois de cofido fe difíingue", & fepàra hum gráo do outro> 
como fe foílè ainda cru. Naó tera trígo;poíl:o que a terra 
o daria bafcante ; pois femeado algum por induílria de hú 
Padre da Companhia dejesv? naceojcreceo, & deu fruto. 
Caufàuram grande admiração aseipigas como nunca vif- 
tas naquelIeReynoj&foraõmuy feílejadasdos Prínci- 
pes 5 &daquella Corte. Ufaó do trigo (que lhes vem da 
Chiíiajdo Japaój do Siaó , & de outros Reynos ) não para 
paó; mas para bolosjaletriasj & coufas femelhantcs ; affim 
como também o fazem as naçóesjcm cujas terras nace : & 
em Bengala o ha formoíiílimo. 

O conduto ordinário para o povo he peyxe, & fcmpre 
Mo de ter na mefa algúa ortaliça mas crua. E o das peílbas 
graves he porco 5 o qual por fer criado có arros he de bom 
temperamento : & por iílo o comem todo o anno: & os 
doentes cóvalecem com eílas carnes. Nas mefas dos No- 
bres ha também galinhasjdas quaes fazem almondegasj ôc 
outras iguarias? ha caça? & peyxe. Q^iãto mayor he a pef- 
foajtaiitas maisfaó as efpeciesde aííipipes , em particular 
de varias cafias de marifco falgado5& de calda (coufas bem 
efcufadas para os Cochinchinas? porque poucas vezes pa- 
decem faítio.) A mefajcm que comenijhe redóda 5 & por- 
tátil 5 & nel la vem todas as iguarias em pratos de louça da 
Chinajda qual também faó as tigelas para os caldos de car- 
iiCsSc peyxe , com os quaes vão levando aquellc feu arroz 
feco. Quem ferve à mefa, tem fentído no prato? de que 
mais goítaó os que come, & logo traz mais daquella igua- 
ria. Naô ha faca neítas mefas;porque o manjar 5 que deve 
íèr cortado , vem jà da coíinha com efte beneficio. Nem 
ufaó de culhcr : & em lugar de garfo tomão na mão dous 

paofi- 



REYNO DÁ COCHÍNCHINA. 21 
psoíinhos de hum palmo, com os quaes levão à bocâ -> o q 
comem : o que mais he,que com elles tiraó do peyxc to- 
das as efpinhas, & por efta rafaó fò o ^qj^^ ^^ põem intei- 
ro na meia. Naó tocão iguaria nenhúa com os dedos ; & 
por 'iÇ[o nem antes nem depois de comer lavam as mãos: 
& feria para elles evidente íinai de mè criaçam? chegar c5 
as mãos ao que fe come , & haver obrigação de as lavar : & 
cjuãdo querem fazer zombaria dos Europecs , os arr erne- 
medão com abrir , & fechar a máo3& levala aíiim fechada 
à boca. Todos a) moçâo5Jantão5& ceão carucjou peyxç c6 
feu arroz,porèm fem fruta?fenaó for balancia; porq guar- 
dam a mais fruta para as merendas que fazem com bolos 
aíTados. As pefibas graves ufam também de doces aílmi 
fecojcomo de caldag^: quente: & fam muy curiofos em os 
fazer da fruta ainda pequena,como de laranginhas? limó- 
effmhos5& também de abobaras^beringellas? &c: quando 
fam muy pequenas. Se algum Mandarim principal der 
merenda a aigúa peíToa grave , lhe trazem húa mefa com 
vinte 5 & mais pratos de varias- caftas de doces , das quaes 
não torna nada para détro? mas tudo fe reparte depois pe- 
los criados do convidado. Bebem fomente no cabo:& de- 
pois não tocão nada de comerjdando por efcufa a terem jà 
bebido. Abeberagem comum he aquelle feu chajque faó 
folhas tenras de húa arvore pequenas^: fazem a agoa algu 
tanto roxa , fempreo bebem quente como o cha da Chi- 
najde que também ufam as peííoas graves: & paliarão me- 
zes 5 ôí annos fem beber gota de agoa fria. O vinho he de 
arroz , & o bebem ? ou antes de comer para efpertarem o 
calor,ou fora da mefa no agafalho de algum hoípede. He 
muy to lorte ; port|ue he deftilado muy tas vezes 5 & com 
as medicinas? que lhe coftumam lançar 3 fica muyto mais 
generofo. 

O Politico defta naçaó fe reparte em três eftados: lolda- 
dos5letrados3& Povo. A' milicia pertencem todos os No- 
bres/^ Fidalgos, aliílados todos em ropanhias pagas.. Né 

C íij hc 



22 BREVES NOTICIAS DO 

he pequeno caíligo para eíles 5 fere deípedidos das armas; 
pois com iílo perdem todas as efperanças de alcançar as. 
mercês dos governos,que fe dáo fomente aos q tem muy- 
to 5 & bem militado. Porém a mayor parte da foldadefca 
he de homens tirados das Aldeas5& Vi lias; ficando o filho 
mayor, para correr com a caía 5 & fazenda de feus pays , os 
mais irmãos vão fervir a ElRey na guerra. O que tem de 
de admirável eftamilicíahe naó haver entre mais de fio- 
coenta mil homens peílba 5 que tenha algúa falta nas par- 
tes do corpo. Pelo que os que naó querem fer foldados>, 
cortam híía junta do minimo dedo da mão,ou do pè 5 Sc 
por eíle defeyto ficao excluidos da guerra.Nem fomente 
fe bufca a inteireza de todas as partes do corpo ? mas tam- 
bém a proporção 5 & dífpofiçaó da peíToa. Quantos feó 
trafidos de fuás cafas de três em três annos para a mihcia, 
todos aparecem primeyro diante delRey,o qual reparan- 
do na prefença de cada hum , efcolhe os mais proporcio- 
nados para o lerviço de fuás armas. Servem atèíeífenta 
annos de idade , os quaes acabados vão outra vez dirinte 
delReyjque exime da guerra,aos que acha debilitados^ có 
privilegio de não pagarem tributos» em quanto viverem. 
Porém fe eftiverem ainda có forças ? lhes oíferece mayor 
foldojfe continuarem com as armas. Nem fe lhes neo;a a 
licença de voltar para as fuás cafas , nem a ifenção dos tri- 
butos 5 fe quizerem deícançar. Outras noticias não me- 
nos curiofas da milicia dos Cochínchinas fe daràô , quãdo 
chegarmos a ver marchar dous exércitos deftes naturaes. 
Varias faó as claíTes dos letrados : & ordinariaméte que 
o he em híía materiajo naó he em outra por falta do tem • 
PO5& da vida. Porque como elles naó tenham letras, que 
le unaó em fyllabas,Ôc deftas fe cóponhaó as palavras? mas 
cada coufa exprimam com fua figura formada de vários 
lanços de pincel ; por eíla razaó que fe aplica a húa facul- 
dadcja penas lhe chega a vida 5 para aprender os geroglití- 
cos,ou pinturas ^ que fignificaó os termos daquelia cien- 
^íí cm 



REYNO DA COCHINCHINA. 23 
cia;& muyto menos pode entender, nem ainda ler os ter- 
mos de outra. O que não acontece aos Europeos^que po- 
dem ler tudo 5 ainda que nem tudo entendaó. E com ra- 
laó âcaó admirados os Cochinchmas , Chinas , ôcjapóeg 
das noíTas vinte, & trcs letras elementares , com as quaes 
efcrevemos , & pronunciamos todas fuás palavras ; pofto 
que não percebamos todo o lentido , & fignificaçaó del- 
ias. Ha entre os Cochinchinas hum idioma, que refpon- 
de ao noíTo latim, do qual ufam os letrados: & também ha 
outro mais comum , que nos chamaríamos vulgar ; as le- 
tras de hum fam tam differentes das do outro,como o faô 
as palavras. Tem íeus grãos, pelos quaes fobem ao fupre- 
mo Tribunal das letras : nem chegaó a tão alto ponto de 
honra , fenão depois de paílarem por muy rigorofos cxa» 
mes. Cada féis annos fe publica por todo o Reyno o exa- 
me geral , para fe fazer na Corte. O lugar he húa ilha dé- 
tro daquelle Rio : & nella fe levanta grande multidão de 
cafinhas,para cada eíludãte ficar na fua , fem poder ter co"- 
municaçâo algúa. No dia deftinado fe faz íinal , para os 
eftudantes entrarem pela ponte,na qual fam bufcados c6 
grande diligencia,para não levarem algum livro ; porque 
fò fe lhes permite papelípincel, & tinta. Na vefpora no- 
mea EJRey com grande fegredo o Mandarim de letras, q 
deve dar o thema: & ha grandes vigias , para que eíie nam 
falle com alguém : ôc com a mefma cautela propõem em 
publico,o que lhe parece,( coítuma fer alguma fentença) 
deixando a cada hum compor por todo aquelle dia na lua 
caíinha,o que feu ingenho , ôc eftudo lhe for fugerindoc 
Recolhidos os themas , váo ao publico exame do Tribu- 
nal:o qual he tão rigorofojque de cem peíToas a penas do- 
us faó aprovados,para entrarem,ou fobirem às dignidades 
literárias : pelas quaes começão a ficar livres dos tributos, 
depois a ferem nobres,^: finalmente a terem governos li- 
terários. As faculdadesjque aprédem,faó fuás leys, a Phi- 
lofia naturaljôc a Politica;&: alguns fe occupaó no calculo 

C iiij dos 



à^ ^' '^'^RÊVES NOTICIAS DO 
dos Eclipfes. O Povo fe compõem dos que não iam fol- 
dados 3 nem correm com cargos de letras. Deíle terceiro 
eílado he dimio de admiracáo5& imitacam de muvtas na- 
ções Europeas o dei velo , com que cada peílba a tende a 
iuftentar fua vidajôc cafa honradamente. Pelas quatro ho- 
ras da manhã fe levantáo para trabalharemjos homens em 
fuás artesjas mulheres em criarem, tirarem , & lavrarem a 
leda nos teareSíComo também em tecerem panos de algo- 
dam. Outras fe occupam em comprar , & vender aílim 
em fuás tendasjcomo levando a outros lugares ? o que alli 
lhes pode dar algum ganho. Para fe fazer conceito da tra- 
balhofa induftria deíla naçáojapontarei cfte fuceílb. Che- 
gou a Faifo porto da Cochinchina hum navio de Macao: 
& logo húa mulher de madura idadc^ & honrada mas po- 
bre , & com filhos foy ter com o Padre da Companhia de 
Jesvjque aíliftia na Igreja daquelle portOj& lhe pcdio , fa- 
Jaííeaalgumdaquelíes Portuguezes para morar em fua 
caíaíobrigando-íe eila a lhe dar almoço, jantar, &c cea por 
tresmefesjque coftuma ficar o navioifò pedia lhe empref- 
taíTe logo o caleiro três para quatro mil reis , os quaes ella 
depois reftituiriajquãdo voltaffeparaMacao.Ganha muy- 
to efta naçaó no contrato ; porque achando algum lucro, 
vende logo , para logo o empregar em outro género. Af- 
lim o dinheiro quafi cada dia? & tal vez muytas no dia dà 
feus ganhos. 

Facilitão eíle contrato os Lugares , & Villas tão perto 
liúas das outras , que todo o Reyno parece húa eftendida 
Cidade Porém as Cidadesjcm que reíidem Governado- 
res có TribunaesjÔc juftiça mayor , iam quatro : duas para 
a parte do Sul>& faó Cacham5&Nharú:&: outras duas pa- 
ra a banda do Norte,a faber Dinh cat,^ Quanbinh:íican- 
doaCortedeSinoacomElReynomeyode todo o Rey- 
no. Nas extremidades do Reyno aíliíte numerofo prefr 
dio,para vigiar aquellas fronteíras,em DinhTram contra 
o Tunquim:>& em Nha tran contra o Campa. Ao Poen- 
te 



REYNO DA COCHINCHINA. 25 

te ficáo as íerranias habitadas dos povos chamados Moi, o- 
brigadospelo Cochinchina a ferem feus Tributários. Po- 
rém náo íe teme delIes;porque além de fer gente rude, & 
fem Ietras,não tem ufo de armas de fogo : & fam tão defa- 
vindos entre fy,que cada Aldeã he huma republica, & ca- 
da húa tem fua lingoa divería. 

O governo do Reyno da Cochinchina 5 & de feus na- 
turaes he em tudo Monárquico. ElRey he Senhor de to- 
das as terras 5 & difpoem de todas quando ? & como quer. 
Naó fomente os Grandes náo tem morgados ; mas nem 
ainda as Peífoas Reaes. ElRey reparte todas as rendas de 
todo o Reyno conforme a qualidade de cada peífoa 5 acre- 
centando-as, ôc díminuindoas fegundo os mayores fervi- 
ços5que fizeráojou defcuidos que tiverao em comprir c6 
fuás obrigações. Com ifto tem ElRey toda a Nobrezajôc 
Fidalguia fempre dependentCjôc muy obfequioía. Fale- 
cido o Pay arrecadão os filhos mais três annos os mefmos 
falarios50u rendasjpara fazerem as exequias3& ceremoni- 
as coftumadas ao Pay defunto : também lhe concede El- 
Rey algum pequeno campo inútil para a fepultura5ao re-p 
dor da qual plantão arvores fombrias,^: triftes, para exci- 
tarem medo, & malencolia. Acabados os trcs annos do 
dôjficão os filhos fomente com o foldo ? conforme o grão 
que tem namilicia. Porém daófelhes logo cargos fupe- 
rioresífe o Pay tinha feyto muytos ferviços à Coroa. 

Eftas rendasjque ElRey reparte , não fe tirão do que fe 
compra5& vendcnem tão pouco do que entra5& íahe do 
Reyno; mas das peífoas: ficando ifentos os Nobres , os le- 
trados graduados, os faldadosj os eftrangeiros moradores, 
& todas as mulheres: começáo os homens a pagar eílas 
contribuições defde oanno dezoito até os feíTenta de fua 
idade. Por eíta rafaõ todos eftáo matriculados nos livros 
de fuás Aldeãs, Villas,& Cidades: pagão parte em arroz, & 
parte em dinheiro, & tudo chegara a dez patacas pouco 
maisjou menos. Os anciões dos lugares, & dos bairros ar- 

D rccadão 



26 BREVES NOTICIAS OO 

reçadáo dos outros? & levão tudo aos Veadores da fazen- 
da Real. Com o que fica todo o comercio livre para to- 
dos fem alfandegas y & fem outras obrigações. Váo con- 
tratar àquelic Rcyno navios do JapãOída China, do Siam^ 
de Makca,& de Goa. Os Reys da Cochincliina tem por 
vezes oíFerecido à Nação Portugueza lugar coinodo, pa-* 
ra fazerem íua Colónia govcrnando-a fegundo feu coílu- 
me Europeo. Mas com muyta prudência fe foraó fempre 
excuíãdo; pois indo cada anno com íeus navios tem o lu- 
ero3& ficando de morada , tomariam fobre fy muytas , &c 
muypezadas obrigações. -f 

Do rigorofo exercicio da Juftiça , em que eftribão o bó 
governo^ôc a feliz confervaçaó dos Reynos, fe dirá algaa 
CQufa,quaodo form.os acompanhando os Chriífãos pre* 
zos pela Santa Fèj&prefentados diante delRey. 

Faltão fomente as noticias da Religiaò,que eftes Natu- 
racs tem , ou para m.elhor dizer 5 das patranhas ? que lhes 
enfinaó os Bonzos > que faó a peor gente , que ha na Co- 
chinchina;porque vivem todos ociofosjôc não poucos vi- 
ciofos. Por eíla rafaó naó fomente naó faó eíHmados; mas 
ainda defprezados,& tidos por homés fracosjque por me- 
do que tem da guerra , fogem acolhendo-fe aos templos 
dos Ídolos. Porem ElRey manda de tempos em tempos 
feus Vifitadores gèraes^paraviíitarem os Conventos:quã- 
tos moços achaô,a todos defpem o habit05& os levaó para 
foldados. Dos Bonzos ha duas ordensjhua he dos Sai. Ef- 
tes tem cuidado dos templos 5 & fazé oíScio de Capelães, 
fe lhes cófigna fua côngrua» & foíf étaçaó , ou em dinhei- 
rojou em terras5&: vivem em fuás caías cafadosjtrazem 
barba5& cabello > & veftem da cor que querem. A outra 
ordem he dos Penitentes chamados Thay tu, naó trazem 
barba nem cabello^veifcm de amarelo, naó comem carne 
nem pcyxe,nem couíajque teve fanguejnera matão cou* 
fa vivasvivem de efmolasjnaó faó cafados,& morão cm ca- 
ías chegadas ao templo do idolo. Mas tudo ifto não lic ba& 

tante 



REYNO DA COCHINCHINA; 27 

tante para os naturaes os terem por fantos ; porq os acháo 
pouco mortificados na carne , & comem carnes às efcon- 
did as. Ha também Freyras chamadas Vai. Algúas vivem 
em fuás cafas com feus maridos como as noíTas Terceiras, 
Outras largando tudo, moraó em caíinhas dentro da cer- 
ca do Templo do idolo;porèm fem clauíura, 6c fem vigia: 
6c por ííTo com menos decoro de fua honeílidade. O an- 
noaffimecclefiaftico como politico para os Cochin chi- 
nas, Chinas, 6c Japóes começa no noíío mez de Fevcrey- 
ro: 6c o compõem de doze luas,húas de vinte nove,6c ou* 
trás de trinta dias. Porém como o anno lunar tenha me-* 
nos dias que o anno folar ; por ilTo cada três annos vem o 
feu Bií]exto,no qual contáo treze luas. Fazem o dia com 
a noyte de doze horas , dando duas Europeas à huma fua : 
èc as começão a contar das noífas onze da noyte : nem as 
chamáo com as palavras numeraes huma , duas , três , 6cc, 
mas com nomes de animaes com eíla ordem Bato , Bufa- 
ro5Tigre5Gato,Dragão,Cobra5Cavallo,Cabra,Bugio5Ga- 
linhajCãojPorco. Os dias de feftas principaes faó os três 
primeyros do anno novo 5 6c o quinto da quinta lua , ou 
meZjnos quaes fe viíitáo , 6c fe con vidão huns aos outros* 
As feílas ordinarias56c menos folemnes fam o primeyro> 
6c o decimo quinto dia de todas as luasjnos quaes acodem 
os freguezes , levando fuás offertas de comer, 6c de veias 
ao Ídolo : 6c de tudo fe aproveitam os Bonzos. Os quaes 
para mayor pompa da folemnidade,6c para chamaré mais 
gente à feita ; na vefpora largão húa bandeira fobre hum 
maftro arvorado: de começão a repicar os íinosjque faó de 
bronze, 6c muytos delles bem grande s, os quaes tangem 
nas abbas de fora com martelos de pao em lugar de bada-» 
los. As figuras de feus deofes, a que chamão But , fam de 
barro,6c de pao dourado,6c também de bronze,mas todas 
de vult056c inteiras. Porem fe as não tem de vultojefcre- 
vera o nome do idolo56c pendurado o papel, o adorão^ èc 
lhe fazem fuás offertas como fariam à eílatua. 

D ij Naó 



28 BREVES NOTICIAS DO 

Naó hà em toda a Cochinchina templo de idolo ne- 
nhum, que feja grandiofo ; porque as peíFoas de entendi- 
mento acháo logo deformidade 5 em creré árvinàmc em 
riomês,que50U não foraó mais que os outros ? ou muy vi- 
ciofos; pelo que eníináo íeus mefmos livros,nos quaes fe 
diz. Como nas partes da índia Oriental houve hú Prin- 
pe ( quaíi dous miJ annos antes da vinda de Jesv Chrifto) 
chamado Nhen nliucjfilho delReyTring phan,&: da Ra- 
inha Madaphu nhan, o qual caiou com Dadii filha de ou- 
tro Rey vefinho , & teve delia huma filha. Eíle Principe 
como foíTe muyto íagaZ3& muy ambiciofo de gloria 5 de- 
fejando o tiveíTem por mais que home , fe deu à arte ma- 
gica. Mas reparando nos impedimentos 5 & divertimen- 
tosjque-tinha no Paç05&: em fua cafa, aufentoufe fecreta- 
mête da Corte , & fe retirou a hum lugar deferto entre a- 
quelles folitarios bofques, para fe aperfeiçoarjno que tan^ 
to defejava faber. Alli lhe apareceram dous demónios 
AbalaÓ5& Cabalaó, & lhe foram enfinando naó fomente 
a arte magica; mas também o verdadeiro Atheifmo : per- 
íuadindolhcjo foífe publicar em fuás terras j & enfinar a 
feus vaílallos: & para que o fizefíè com mayor authorida- 
de com o grão de doutor deita nova feyta,lhe deram o no- 
vo,& gloriofo titulo de Ticca. Voltou eíte tíçaò do infer- 
no para o feu Reyno? & foy recebido dos feus vaíFallos ca 
grandes fefl:as;mas quando o ouviram enfmarjnam haver 
Deosjôc tudo ter leu fer a cafo 5 &c a alma do homem nara 
fer immortal: não quízeram receber fuás doutrinas ? nem 
o refpeytavão como a Rey fabiojôc prudente;porque feus 
diálames encontraváo a toda boa rafaó. Reparando o no- 
vo meftre na pouca aceitação deílas fuás opiniões , come- 
çou a ditar as contrariasjcnfinando publicamente a tranf- 
migraçam das almas50 culto dos Ídolos ? & finalmente a- 
cabou com dizerjfer elle o Creador , & Governador do 
Ceoj& da terra. Aos difcipulos porem de mayor capaci- 
dade, ôc de experimentado fegredo lhes enfinava em par-. 
" '^ , . ticular, 



REYNO DA COCHINCHINA, 29 

ticularínáo haver Deos 5 que tudo nacèra de ngda? & no 
nada fe acabaria. 

Eíbs diabólicas doutrinas praticadas nas partes da In^ 
dia por tantos íecuios foram levadas a China depois do 
N aícimento do Salvador com efta occaíiaó. O Empera- 
dor da China chamado Han Minh teve hum fonho (pelo 
que refere os Annaesdaquelle Império) no qual Ihefoy 
ordenadojmandaíTe buícar a verdadeira Religião , ou cul- 
to Divino^nas partes do grande Occidente. Defpedio lo- 
go o Empcrador Enviados para efte effeyto , encarregan- 
dolhes a execução de negocio de tanta importância. Che- 
garam eftes à Índia , que a refpeyto da China jaz ao Poen- 
te: & cançados das viagensj&faudofos de íuas cafasjdeter- 
minàraó naó ir mais adiante. E perguntado pela ley,que 
alli fe guardava, fizeraó apontamentos dellajôc os levarão 
ao Emperador dizendo fer aquella a ley do grande Occi- 
dente. Aceitoua logo o Emperador a olhos fechados 5 & 
mãdou fe guardaíTe em todo o Imperio,6c Senhorios per- 
tencentes à China. Muy louvável foy o cuidado defte 
Monarca em bufcar a verdadeira Religíaó;porèm foy im- 
prudentiííimo o feu arremeçoj em a receber ,& mandar 
guardar,fem preceder o divido exame, fe cótinhajou náo 
coufas contrarias a rafaó, que he a regra que faz diftinguir 
o falfo do verdadeiro. Efta precipitada refoluçaó do Em- 
perador foyjôc he ainda caufajde que o infame , & abomi- 
nável Ticca5que nam merece fer tido por homem^por ter 
vivido peor que brutOjfeja adorado por Efeos,& fe lhe le* 
vantem Altares em toda a Chinajjapaó, Cochinchina, & 
Tunquim com perda de tantos milhares de milhões de 
almas. Somente os letrados 9 & os de melhor juizo nam 
guardam efta ley,ncm adoram tal deos; pelo conhecerem 
viciofo,& fua ley ter erros muy enormes contra os diéla- 
mes de todo o bom difcurfo. Bem encaminhados iriam 
eftes fe aflim como deixaó o errado caminho da idolatria, 
folfem em bufca do verdadeiro Deos. Mas cançados nâ 

Diij carreira 



30 BREVES NOTICIAS DO 

carreira dos vicioSíficam parados ? nem tratam de conhe- 
cer ao Creador de todas as coufas; para o naó temeré Vin- 
gador de fuás torpezas. Seriaó eftes cm tudo Atheus , fe- 
naó tiveíTem por Deos feu ventre: tratando íò como Epi- 
curos de comer , & fe cevar com todos os regalos do cor- 
po:& feriam também brutos no entender, como o faó no 
vi verífcnaó cuidaffem ? & naó tivefiem por certo/er a al- 
ma do homem immortal. He opinião coníhnte deftes 
naturaesjque todas as felicidadesjque gozaó,& infortuni- 
osjque padecem,lhes vem do cuidado •> ou defcuido, que 
tem dos ofibsjôc ahna do Payjou avo defunto. Por efta ra- 
faó todos em particular os ricos oíFerecem cada dia man- 
timentos as almas de feus pays; para que naó padeçam fo- 
nie,& deíefperadas Jhes caulem aos filhos doençasjoutros 
males, & deíaítres. Eíle medo he o que obriga aos filhos, 
a fe defvelarem no cuidado dos Pays depois de mortos5aos 
quaes.quãdo eraó vivos, muytas vezes naó foccorriaó em 
íuas neceíridades5& os deixavaó perecer. Falecido pois o 
Pay: acodem logo todos os filhos5& filhas, cópoem o cor- 
po com os melhores veftidos que tinha , & o metem em 
hum caixaó. Os ricos, &c Grandes o mandaó fazer muy- 
to dantes de hum fò pao,6c o douraó por dentro , fazen- 
dolhe mil lavoures; porque5dizem,he a cafa,em que ham 
de morar largos annos. Collocado aqueile cadáver no cai- 
xão com todas as advertências , que fe fanaó,no eft ender 
de hum corpo vivo , para que não fentifiemoleífiane- 
nhúa em eíf ar deitado: enchem todo aqueile vaó , que fi- 
ca,com peças de feda:& também lhe lançam dentro joyas 
oíFerecidas pelos parentes 5 & amigos; para ter no outro 
mundo , com que fe veífir honradamente , & que gaitar 
largamente. Cheyo jà o cayxão,o fechaÓ5& pregaÓ5& tá- 
bem tapaó com bitume as juntas. Ha muytos? que guar- 
dam deífa maneira os corpos dos pays femanas , &c mezes 
em fuás cafas,para moftrarem o amor , que lhes tem. An- 
tes de levarem o corpo para a fepukura , vem os Bonzos, 



REYNO DA COCHINCHINA. 51 

Sc fa/.em fua reza dos finados: pedindo ao But,íeve aquel- 
h aJnia para as terras da India;onde elle naceojôcReynou; 
porque íò aqiiellas terras faó as mais deliciofas. Aííim co- 
mo as fingiaó os idolatras Europeos nos campos Elicíos. 
Chegada a hora apontada pelo Feiticeirojou Embufieiro, 
começa a ir andado a tumba levada aos hombros de muy- 
taspeflbas; porém com grandiílima cautela para que và 
fempre direyta fem inclinar mais para hum lado que para 
o outro : 6c tudo ifto para o morto naó receber algúa mo- 
leftiaínem dar algúa queda. Diante da tumba vay huma 
peça de feda eílendida ao comprido lobre as cabeças de 
muytos,que a fuftentáo com as mãos , & braços levanta- 
dos. Como efta peça reprefente a pontCjpela qual a alma 
daquelle defunto hade paííar ao Ceo. Por ifto a levaô com 
grande fentidojpara que fique fempre teza? & igualmen- 
te lev^antada do chão ; de outra maneira dizem que efcor- 
regaria a almajôc cahiria no inferno. Grande coftuma fer 
o acompanhamento dos ricos, & peíToas graves falecidas; 
porque váo fempre danças de gente , que joga as armas. 
Chama também a muytoso vinho? que por todo aquelle 
caminho fe oííerece em Chicaras a quantos acópanhaó o 
defunto , para íuffragio de fua alma. Nem poucas vezes 
acontece 5 que os que vão levar o morto a fepultura , ne- 
ceílitem elles de outros 3 que os levem a fuás cafas. Tudo 
invento da infernal aftucia do demónio! Para que a confi- 
deraçáo da morte naó meta medo : nem o horror das pri* 
zoes daquella tumbajôc do fepulcro enfree as diífoluçóes 
dos vivosjcntroduíio taes coufas nos funeraes > que pare- 
cem antes feftas que enterros. Somente os parentes mof- 
tram algum fentimento,& vão junto à tumba, veftidos 
todos de pano branco: as mulheres com capelo cabido di- 
ante do roílo^os homens com húas tiras na cabeça a modo 
de capacete. Ufaó da cor branca no dò ; porque 5 dizem? 
he a cor natural do algodão , fem a arte lhe ter dado ainda 
algúa perfeyçáo nem variedade. Chegados finalmente ao 

D iiij lugar 



52 BREVES NOTICIAS DO 

lugar da fepulturajque fenipre íe abre nos camposjenter- 
raó o caixaó para o rumo ? que o feiticeiro diz íer o mais 
favorável > & mais acertado , para aquella alma chegar ao 
Ceo a falvamento: tendo todos muyto fentidojparaque o 
caixão fique bem ao iivel naquelle rumo , para o corpo 
iiáo padecer: & a alma naó errar o porto de fua felicidade. . 
Do erro 5 que parece aos filhos 3 houve nePca arrumação, 
cuidão elles , que lhes vem quantos males padecem. Por 
eíh rafaó quafi de continuo andam com os ofTos dos pays 
às voltasjdefenterrando-os 5 &: enterrando-os em melhor 
lugar 5 de com melhor difpoíiçaó. 

Naó íica efquecidoo morto na fua fepultura; porque 
ao terceiro dia do falecimentOjaos cem 5 & por três annos 
duas vezes cada mez fe renovam as exéquias com aíiiílé-^ 
cia dos Bonzos. Ha também anniverfario de todos os de- 
funtos,& fe celebra eíla memoria alguns dias antes do an* 
no novo. Nefte dia todas as fepulturas íicaó limpas 5 ôc 
varridas5&: os parentes levam là manjares. Mas depois de 
chorarem hum poucojcomem os vivos, quanto fe oíFere- 
ceo aos mortos , ôc fazé o mefmo nos mais officios de de- 
funtos. Perguntando hum Padre da Companhia de Jesv 
a três Cochinchinas idolatras ( que chamavaó cruel a ley 
dos Chriíl:áos,por nam permitir fe ofFereceíTem iguarias 
as almas dos pays ) que coufa tomavaó aquellas almas, vif- 
to depois da oíFerta feytajôc acabada toda aquella ceremo- 
nia,naó faltar nadajdo que dantes eílava na mefa. Refpó- 
dèram,que as almas chupavão a fuílancia. Replicou o Pa- 
drcjfe tiravam a fuftancia 5 como os parentes vivos comê- 
do depois aquellas mefmas iguarias ficavam fortes, Ôc far- 
tos: & bebendo aquelle mefmo vinho oíFerecido à alma» 
ficavam muytas vezes alienados do juízo. Conheceram 
logo os três o erro, em que viviaó: & todos três pediram o 
fanto Bautifmojque receberam depois de ferem bem inf- 
truidos. 

Baftarà o que atè aqui fe tem dito ? para as noticias do 

Princi- 



REYNO DA COCHINCHINA. 33 

Principio 5 Sitio, 6c Qualidades do Reyno da Cochinchi- 
na: como também dos coílumes, Politica? & Religião da- 
■quelles naturaes. Faltam outras coufas memoráveis, que 
le iram dizendo no difcurfo do Principio , & Progreflos 
da Pregaçam do Santo Evangelho naquelle Reyno. 
Ninguém deixará de reparar na grande cegueira dos 

3ue carecem da luz da Santa Fè : como também na facili- 
ade com que aquelles naturaes fe rendem ârafaó , &fe 
paílaó da idolatria ao culto do verdadeiro Deos, Porem o 
que merece mayor reparo ? he a multidão sé numerojque 
fe perde por falta de Pregadores- Os que nam poderem 
ir em peffoa alibertar aquellas almas do cativeiro deluci- 
ferjacompanhouao menos com fuasoraçóesjos que vam> 
& fe occupam trabalhando na falvaçam daquelies ixinu- 
meraveis Infiéis. 

CAPITULO L 

Trincifios da Mijfam da Cochinchina, 

g^ OSTO que coma occafiamdas naosj, 
que de Macao5& Malaca paííavão aoRey- 
no da Cochinchina para íeus comércios? 
alguns Religioíos Francifcanos,& Agof- 
tinhos 3 como também Sacerdotes fecu- 
Jares 5 levados do zelo das almas empren^ 
deíTem por vezes? & em vários tempos, femear naquelle 
efpaçofo campo o Trigo efcolhido do Santo Evangelho, 
levantavam com tudo a mão de tão boa obra? voltado para 
feus Conventosjôc cafas;por deíefperarem do fruto á^k* 
jado em húa terra tam bravia; não tanto pelos muytos eí- 
pinhos dos vicios , que por toda a parte brotavão 5 quanto 
pela difBculdade de aprenderem aquella lingoa : pronun- 
ciando-fc fempre as palavras em tons de mu fica de tal ma- 
neyrajque variando-fe o tom de grave em agudo ? ou de^ 

E niaís 




54 ' BREVES NOTICIAS DO 

ítiais em menos circunflexo) fe muda também toda a íig- 
nificaçam da nieíma palavra. 

■í Guardava Deos verdadeyro Pay das almas para outros 
obreiros o plantar eíla íua nova vinha5que tem depois da- 
do abundantemente o feleélo vinho do íàngue derrama^ 
dò pela Fè: vinho de que mais goib Chriíuo ; & por ven- 
tura he aquelle novo^que eíperava beber,quando eílivef- 
fe com feu Eterno Pay no Ceo. Para efta tão grande obra 
fe íervio a Divina Providencia ( que tudo ordena efficaz, 
& íuavemente ) da perfeguíça55que no anno de 1614 la- 
çou fora do Japaó todos os miniftros Evangélicos. Pois os 
Miííionarios da Companhia de Jesv aíTim os deílerrados 
daquelle Império , como os reteudos 5 que de novo hiaín 
de lòcGorro, para naõ ficarem ociofos íe foraó eípal bando 
por vários Reynos infiéis: para que podefíem negociar 
nelles com o talentojque Deos lhes tinha entregue, efpe- 
rando por meyo delles aquèlks ganâncias das almas gran- 
geadas para o Ceojque faó os cabedaes , & os thefouros da 
Mifericordia Divina. Cahio o Reyno de Cochinchina 
em forte aos P. P. Francifco Buzomi Italiano , & Diogo 
Carvalho Portuguez.Eíle degradado do Japaó vinha para 
acudir aos mercadoresjapões moradores na Cochinchina: 
donde depois de hum anno? & meyo pafiou outra vez ao 
|apa55& deu nelle a vida pela cófiílaó,^ pregação de noP- 
fa íanta ley/oírendo generoíamente pelo efpaçode doze 
horas o rígorofo tormento do frio em hum tanque con- 
gelado: & mais abrazado , & confumido do fogo da Cari- 
dade para com Deos,& para com os homéssque enregela- 
do da frieza daquellas agoasjacabou nellas a vida gloriofa- 
niente aos vinte, & dous deFevereyro de 1624. Aquelle 
largando a cadeira de Theologia,que com grande aceita- 
çam lia em Maca05foyfe fazer difcipulo, & aprender a fa- 
lar barbaro;para doutrinar aquellcs naíuraes, & lhes enfi- 
nar o caminho , para verem , de gozarem de Deos eterna- 



mente. 



Par- 



REYNO DA COCHINCHINA. 35 
Partiram de Macao eítes novos defcubridores das almas 
aos féis dejaneyro de 161 5. qual dia por ícr da Epipha- 
níajcm qu» o Salvador do Mundo fedeu a conhecer aos 
Reys gentios, bem pronoílicavao feliz fuceíTo da jorna- 
da : 6c aos dezoy to do niefm.o mez com profpera viagem 
defembarcàraó em Turam porto da Cochinchina. £m 
quanto pois o PadreBuzomi com muyto defveloj&gran- 
de trabalho aprédia a difficultofiílima lingoagem daquel- 
le Reyno: o Padre Carvalho muy deílro na do Japam , fa- 
lia grades ferviços a Deos ; nam fomente reformando na- 
quelles japóes os coífumes de bons Cbriíláos? mas cóver- 
tendo ainda outros muytos?que do Japam vinham àquel- 
le porto para feus contratos. 

Como a Naçaó Cochinchina f oflc curiofa de ouvir no 
vidadcs,aguda para entender argumentos , & fácil para fe 
render à verdade, achou o Padre Buzomi grande difpoíi= 
çanijpara efperar delia o fruto que defejava: nem fe enga- 
nou; pois no fim defte mefmo annode 1615. Se conta- 
vão jà trefentos bautifmos com duas Igrejas publicas le» 
vantadas com licença dclRey. 

Crecia cada dia mais efta nova planta do Ceo : Sc cada 
vez mais frefca eftendia fuás verdes varas atè às cafas dos 
Mandarms,& ainda détro dos mefmos paços Reays.Qjlã- 
do no annode 1617. repentinamente fe mudou eftete- 
potam favorável à propagação do Santo Evangelho por 
caufa dos Sai 5 que fam os Bonzos Sacerdotes dos ídolos. 
Porque vendo elles 5 como fe lhes hiaó deminuindo cada 
vez mais os freguezesjôc com eftes as efmolas: começarão 
alevantar cruel tormenta: jà fazendo farça nas comedias 
publicas das fagradas ceremonias do fanto Bautifmo ? ac-^ 
crecentandolhes circunftancias muy ridiculasijà publi- 
cando ao povo, ferem os Sacerdotes Europeos caufa de 
faltarem as chuvas neceíTarias para as novidades? por pre- 
garem huma ley contraria à dos deofes do Rcyno ; com q 
finalmente obrigaram ElRey a deílerrar os Padres^paraf 

E ij foce 






36 BREVES NOTICIAS_DO 

íccegarem os tumultos, que fafia o povo iníligado pelos 
Bonzos. Os Fadresjcomo naó achaflem nao , que íahiíTe 
do porto, por eílar acabada jà a monção dos vetitos , para 
íe tornarem a Macao , recolheraófe a hum lugar iblítario, 
& deíerto^para evitarem a enveja dos Bonzos, & aplacaré 
adefatinadairadaquelle povo. Nefte tempo padeceram 
muytas offrontas os Chriítãos muy tenros na Fe;por lhes 
darem em roíto os Gentios , com naó ter dado o Senhor 
do Ceo,que elles adoravão,a chuva, que fe pedia ; tela po- 
rém alcançado o Bonzo de feus Deofes. Mayor era o íen- 
timento dos Miílionariosjpor verem varejada,& quaíi ar- 
rancada aquella nova plãta da Fè. Nem menor foy a ma- 
goa de huriS3& de outrosjpor ter o Povo aconfelhado pe- 
los Bonzos queimado a Igreja deTuranijquefoy a pri- 
meyra , em que Deos fora adorado naquelle Reyno , ôc 
nella fe íizeraó có publicidade as ceremonias do primey- 
ro Bauíiímo. A tudo iíto fe lhes acrecentavaó aos Millio- 
narios muy graves doenças,quepadeciaó naquelle retiro^ 
por fer o lugar apaulado,& doentio, 

Naó tardou porem Deos em acudir naquelía infernal 
tempeítade ao perigo das almas dos Neofytos,^ também 
â innocencia dos Padres;pois eíle Bonzo, que por feitice- 
ria tinha feyto choverjtido de todos por fanto milagrofo, 
& tam cílimado do Rey , que lhe deu morada dentro de 
feu Paço Real , depois de pouco tempo foy apanhado cm 
adultério com huma das fegundas Rainhas ; pelo que foy 
morto por publica fentença dada pelo mefmo Rey. Com 
efta morte ficou conhecida a maldade dos perfeguídores, 
& acreditada a fantidade dos perfeguidos : Ôc bufcados os 
Padres,fahiram todos com a vitoria. 

Naó teve pejo o demónio de ficar defcuberto por em- 
buíleiro em feus Bonzos : nem menos de fe ver tam defa- 
crcditado neífe feu principal miniíl:ro;antes muyto mais 
foberbo5& raivofo,por verjque crecia cada vez mais o In- 
fido efquadraó defta nova Igreja com os muytos> que paf- 

fando 



REYNO DA COCHINCHINA: 97 
fando pelas agoas do Bautirmcíevinhaó aJiílar debayxo 
da bandeira de Chriffo : reíol veo-íe a íahir com feus Bon- 
zos a canipí): não fomente para empedir novas conquif- 
tas de almas , mas também para obrigar os novos Toldados 
a fogircm vergonhofamente , apoíratãdo da Santa Fè. Po- 
rém naó oufando encontrar a ley , que elles tinhaó abra- 
çadojpor fer inculpaveljôc cóforme a raíaô, nos olhos até 
dos meímos Gentios: nem tão pouco atrevendo-fe a aco- 
meter de cara à cara osNeofytos;por repararjque as armas 
deíl:es?por ferem da Santa Fèjlevavaó muyta ventagem às 
fuás: repetia fomente os brados? levantando como Pay da 
niêtira que elle he 5 ferem os Miflionarios Europeos a to- 
tal ca ufa de faltarem as chuvas neceíTarias às novidades5& 
de padecerem todos grande fome. Como neftes caftigos 
hiáo mais a perder os pobres ? facilmente os amotinavaó a 
pedirem a ÉlReyjlançaíIe fora do Reyno aquelles Sacer-^ 
dotes Eftrangeiros tam perniciofos aos P0VOS5&: aos Deo- 
fes tâo odiofos; por lhes tirarem a coífumada veneração. 

Pelo que no annode 1623. mandou ElRey intimar 
aos Padres a retirada das Províncias meridionaes? por fere 
cilas muy abundantes de mantimentosjôc celeiro de todo 
o Reyno;pois não queria ellejque ouvellè a hi Chriíláos. 

No anno de mil &feifcentos & vinte íinco íahio hum 
decreto do Paço, pelo qual fe prohibio a todos os Chrííiá- 
os do Reyno, profefiarem no exterior a Religião Chiftãa: 
& fe lhes mandava, não trouxeílem contas, nem levantaf- 
fem Cruzes, nem foíTem a Igreja. 

Porém no anno de 1629. em que houve tão grande 
careília, q os Pays vendiaó a pezo os filhos por outro tãto 
pezo dearroZíforaó defterrados todos os Miííionarios:dá- 
do por cauía,efterilizarem elles as terras, & impedirem as 
chuuas. Mas os Miffionarios tendo-fe embarcado todos 
de dia , & à vifta de todos, à noyte depois quafi todos de* 
fembarcàram, & fe efcondèraó em diuerfos lugares ? para 
não defempararem aquelle reban ho do Senhor. Eíte in- 

Eiij ferDiíl 



38 BREVES NOTICIAS D;0 

fernal Tufaó derribou , & arrancou àleni de quatro Igre- 
jas muy efpaçoías5& fermofas, todas as mais que hauia no 
Reyno. ( Eraó todas de madeira •> como o íaó^s caias por 
falta de pedra ) íò permitia ElRey aos Padres , poderem 
vir na nao de Macaojmas fòméte para terem cuidado dos 
Portuguezesjcom os quaes haviáo de voltar outra vez no 
mefmoanno. Iftofoy pelos Portuguezes terem protef- 
tadojnáo poderem elles virjfem trazerem com figo os Pa- 
dres. 

No anno de mil & feifcentos & trinta & hum tornan- 
do de Camboja a Cochinchina o Padre Buzomi , pelo 
amor que ElRey lhe tinha , & pelo rico prefente q o Pa- 
dre lhe deujalcançou delle licença , para ficar no Reyno. 
Com tudo eftando o Padre doente no porto de Faifo, lhe 
foy intimado o fegundo defterro; pelos Bonzos atribuiré 
a eWt o fogojque deu em algumas caías na Corte de Sinoà 
diftante de Faifo três dias de caminho: & também por iré 
faltando as chuvas. 

No anno de mil & feifcétos 6c trinta & três começou 
ElRey a entender com os Chriftáos , tirando o cargo 5 & 
honra de Mandarim a dousjhum por nome Manoel , & o 
outro chamado Paulo. Era efte homem de grades letras, 
& de grandes talentos para negócios de importância : & 
para envergonhalo maisjcm dia de quinta feyra de Endo- 
enças mandoulhe cortar os cabellos,& dar diante de fyjôc 
de toda a Corte cem açoutes. Recebeo Paulo com gran- 
de alegria aquelle mimo , que lhe faíia Deos em dia, em q 
feu Divino Filho começara a padecer pelos homés: & de- 
fejofo de fe fartar de aífrontas 5 &: de açoutes3& de dar tá- 
bem a vida por Chriílo? levantou a voz 5 & diíTe a ElRey: 
Senhor fe iílo não balia : & vos parece que mereço mais, 
aqui elliou, tenho mulherjôc filhos, fazei de nos todos, co- 
mo mais vos agradar ; porque naó deixarey nunca de fer 
Chrifcão. Mas os Soldados , ou foífe por payxaó, ou por 
ordem delRey , aos empurroens o lançarão logo fora da 

pre» 



REYNO DA COCHINCHINA. 39 

prefença Real. 

No aiino de mil & feiTcentos & trinta & quatro com a 
nao de Maçio veyo hum Padre: o qual na viíita, que fez a 
ElReyjfoy recebido com carinho:deícuIpando-fe eftc do 
que tinha feyto contra os Padres deítcrrando-os doíeu 
Reyno; pois o fizera nao por ódio , que 1 hes tiveílè, mas 
pelo deíacato , que os Chriílios fafiaó aos Deoíes de íeu 
ReynojÔ^: por vezes avifados naó fe tinhaó emendado.Po-» 
rem para moftrar feu amor 5 que tinha aos Padres, ôc aos 
Portuguezesjdava licença para tornarem os Padres quan- 
tos quizerrem,&: defejava que voItaiTe o Padre Buzomi, a 
quem elle eftimava muytopela fua grande prudência. 
Permitia mais , q houveíle Igrejas publicas? & feus vaOal- 
los recebcílema ley dos Chriftáos , com condição porém 
que ninguém fe atreueíie por obra?ou por palaura a det 
prezar a Religião contraria ; porque elle com todo rigor 
caftigaria 5 aquém fizeíTe o contrario. E que fe os Portu- 
guezes quizeíTem ficar de aíTento no feu Reyno 5 lhes da- 
ria elle lugar muy efpaçofo no porto de Turam , para fa- 
bricarem cidadeja qual elles gouernariaó a feu modo por- 
tuguês. Com efta mercê quanto menos efperada tanto 
mais f eftejada fahiraó os Miílionarios efcondidos, & levá- 
taraó Igrejas: os Chriftãos vinhaó livremente a ellas , & 
grande multidão de infiéis recebia o fanto Bautifmo. 

Eíla victoria 3 que a Ley de Deos alcançou dos poderes 
Reaesjnaó bailou a fazer retirar o ódio dos Bonzos contra 
os Chriftáos. Mas vendo elles ganhado o coração delRey, 
levantarão o do filho 5 Príncipe verdadeiramente das tre- 
vas 5 que refidia na Corte de Cachaó huma legoa diftante 
de Faito : & dalli governava todas as Provindas mcrídio- 
iiaes. Eftecomopretendeífe occuparaCoroajdefvelava- 
íe em ter os povos contentes;pelo que dandolhe elles por 
confelho dos Bonzos muytas queyxas dos Chriílãos , de 
haverem fido caufa da mà novidade deíle anno de mil & 
feifcentos & trinta & finco [em que o Padre Buzonii â 

E iiij petição 



40 BREVES NOTICIAS DO 

petição deJRey tornara a fegunda vez de Camboja à Co- 
chinchina ] Mandou lançar Jogo pregaó : prohibindo aos 
Chrííhios íobpena de morte o ajuntarem-fe: ^ aos Padres 
todo exercício de MiíTionariosiôc mandou dizer ao Padre 
Buzomi^partiflc logo para outras Provindas. Deu tam- 
bém ordem aos Toldados de tirarem as íagradas Imagens, ' 
arrancarem as Cruzes5desfazerem os i\l tares? & deílruiré 
as Igrejas: como o executaram logo na de Turam. E acha- 
do na de Cachaó hum paynel do Salvador ? que por mais 
deligencias que fe íizeraõjnaó fe pode efconder a tempo, 
mandou o impijíiimo Príncipe, levaíTcm o dito paynel à 
rua publica5& ahi à villa do pouo com golpes de catanas o 
íizeílem em tiras,& pedaços;da maneira com que íaó cat 
tigados os homens mais facinerofos. 

Mas naó efcapou o facrilego Príncipe do caftigo de 
Deos ; pois falecido EJRey íeu Pay por nome Thay de fe- 
tenta3& mais annos de idade no mez de Nouembro defte 
anno de mil feifcentos & trinta & finco : &c defcuberta a 
traição por elle Príncipe armada contra feu Irmaó , filho 
porem deoutraMáy 5 aclamado jà por herdeyro doRey- 
no: temeo-fe5&: fe fez forte em Turam: aonde foy desba- 
ratado pelo novo Rey feu meyo Irmaò , & obrigado a fu- 
gir com mulherjôc filhos para os matos. Mas cahio final- 
mente nas mãos dos inimigosjque o bufcavão: os quaes a- 
chando-o vivo,pofto que gravemente ferido no pefcoço 
com hum golpe , que elle mefmo fe dera por defefpera- 
çaÓ5& levàraó prezo à Corte de Sinoa com grandes defa- 
catos 5 o ignominias: vendo-fe pois em tantos apertos ? & 
aíFrontas, comeo peçonha, ôc morreo infamemente : co- 
mo também acabarão a vida a mulher,& léus filhos. 

Poíio pacificamente no trono o novo Rey chamado 
Thaybao: o Padre Buzomi paliou â Corte , para lhe dar os 
parabéns com rico prefentc : & foy recebido do mefmo 
Rey com moílras de muyto agrado diante de todo o Cor- 
tejo dos Mandarins. Eítesfinaes de benevolência efper- 

tàram 



REYNO DA COCHINCHINA. 41 
taram as efperanças nam fomente no Padrejmas também 
nos Mandarins léus amigos, queonouo Rey feria mais 
fauoraueiàFc,&:aos rainíílros delia. Pelo que o Padre 
falou a hú Mandarim feu amig05& valido delRey , para q 
IhepediíTe licença? para os Padres ficarê no Rey no có ma- 
yor fegurãça. A efta petição refpódeo ElRey:fejão muitos» 
íejáo poucos os Padres , deípejem logo das minhas terras, 
nem ponhaó mais pè nellas. Sabido o ruim , & defcortez 
defpacho 5 começarão os Mandarins aíFeiçoados à ley de 
Deos,& aos Padresja dizer a ElRey grandes louvores del- 
la5&: deílesiôc com os ricos prefentesjque lhe offerecèraó: 
& com os grandes rogos ate das damas do Paço gentias, fi- 
zeraó finalmente, que ElRey mudaíTe a fentença ; porq 
vindo o Padre Buzomi a cortejalo, lhe fez mercê naó fo- 
mente da licença de ficar elle, & quantos Padres quizeísé 
no feu Reyno ; mas também de poderem levantar Igreja 
em Turam no lugar aflinalado pelo Rey feu Pay aos Por- 
tuguezes. Dadas as graças partio logo o Padre Buzomi 
para Faifo. Mas no caminho foy chamado outra vez à 
Corte por ordem delRey : & lhe intimou o Mandarim? 
que governava os Efl:rangeyros,como ElRey era conten- 
tejôc dava licêça aos Padres para terem Igreja ; porém nao 
queria,que os Cochinchinas foíTem a ella.por quanto não 
havia por benijque feus vaíTallos íeguiíTem huma leysque 
neg^vajôc prohibia a devida honra aos Pays defuntos.Eíia 
honra he levarem comeres as covas dos Pays; por cuidarê, 
que as almas necefiitam de comeres, para fe fuftentarem, 
& paíTarem fem pena. 

A penas eftavam acabadas a Igreja de TuraÓ5& a de Fai- 
fo feyta com licença deite Mandarim dos Eftrangeyros 
grande amigo do Padre Buzomi: quando fahio no anno 
de mil & feifcentos & trinta & oito hú decreto Real con- 
tra a Ley de Deos5& de feus miniítros: & fe mandou fixar 
nas portas da Igreja de Faifo. Como o tépo foílè de muy- 
tas huvasjmulhoufeo papel,& cahio no chaó. Deíle íuc- 

F ceílo 



42 BREVES NOTICIAS DO 

ceíTo accidental foy acufado logo o Padre , <^e affiftk na 
Igreja pelos anciões daquellaaldeajdizendo eftes ao Man-' 
darim, como o Padre por defprezo o arrancara , & botàfa 
por terra- Sem examinarem mais o cafo,nem ouvirem ao 
acufado deu-fe fenten calque a Igreja foííe fechada , & o . 
Padre prezo: como logo fe executoujdeixando-o amarra- 
do à viíla dos Gentios. Depois de alguas horas o foi tara ó: 
& dandolhe alguas pancadas , o condenarão a pagar certa 
quantia de dinheiro aos acufadores. 

Naó ficou fatisfeyto o ódio luciferino defta vingança 
que tomara do muyto maljque recebia do Padre naquellc 
Emperipjexortandoosjapóesâperteyta guarda da divi- 
na ley5& tirando cada dia a muytos das trevas da infideli- 
dade,os trafia à luz do Evãgelho. Para fe vingar mais del- 
le5& de todos os Miílionariosjfoy induíindo a hum Japaó 
Gentio,^: morador em Faifo, pediffe aos Olandezes vin- 
dos àquelle porto para feus contratosjinformaíTem elles a 
ElRey5& feus Miniftros: como eftes Padres vinhaó fazer 
Chriftáosjpara que havendo baftante numero delles,foíre 
fácil aos Portuguezesa conquifta do Reyno. Os Olande- 
zes o fizeraó melhorjdo que o Japaó lho pedira. Pelo que 
depois da Pafcoa do anno de mil & feisfcentos & trinta dc 
oito chegarão da Corte a Faif o dous Miniftros , entrarão 
na Igreja,^: cafa do Padrcjôc botando-o fora delia có pan- 
cadasjfecharam, & cercaram a Igreja. PaíTou mais avante 
a Ímpia maldade do embufteiro Japaó; pois fc toy â Corte 
de Cacham5& perfuadio a alguns daquelles confelheiros, 
vieftem dar bufca na Igreja de Faifo ; porq elle lhes mot 
traria hum a coufa muy eftranha. Eftes movidos da curió- 
fidadcjôc também da cobiçajcuidando fe aproveitariaó de 
alguma coufa do Mifíionario 5 foraó à Igreja: &encami- 
nhando-os o JapaÓ5para onde eftavahum cayxáo ? & den- 
tro delle huma Imagem de vulto de Chrifto Crucificado: 
tirou-a5& tendo-a na mão difte com efcarneo aos do con- 
felho: Eis aquy Senhores o Deos 3 aquém adoram os Por- 



tuguc- 



re;yno da cochinchina. 43 

tuguezes. Os Mandarins achando-fe enganados;por naó 
darem no thefouro 5 que bufcavaó ? ( na verdade riquiíli- 
ríio era Q th efouro, mas elles o naó eíbmàraó ; porq o naó 
viram com os olhos da Fè ) diííimiilàraó fua cobiça > com 
fazerem zombaria da Imagem Sagrada: & naó íe atreven- 
do a difpor delJaja remeterão a EIRey por meyo do ditto 
Japaó. Efte levando-a à Corte de Sinoajeíperouj que Eí- 
Rey íiihifie ao pubhco como coftuma duas vezes ao dia: 6c 
em prefença de todos os Mandarins a moílroujdizendo a 
EIRey : Aqui eftà Senhor o Deos,que adoram os Chriftâ- 
Ds : & para adorarenj efte mal feytor , deixaó a adoraçam 
dos Deofes do Reyna5& de íeus Pays defuntos ( tinha EI- 
Rey mandado pouco dantes atodosjadoraíTem EIRey íeu 
Pay]que efpera V. Mageftade de vaflallosjque iílo adoraó ? 
Embraveceo-fe como fúria infernal EIRey ; & depois de 
ter dito muytas palavras menos decentes a feu eftado 5 mã- 
dou f ofle defterradaa Imagé, & com ella todos os padres)&: 
prohibio atodos a adoraííem. Poré o diabólico Japaó vol» 
tãdo có a fagrada Imagé a Faifojfoy efpalhando : como EI- 
Rey a mãdava queimar có aíliílencia dos Portuguezes da 
nao5q tinha vindo de Macao naquelle anno. Acudirão lo- 
go eífes 5^rometendo todo o dinheiro , q foíTe neceíTario, 
para impediré tam enorme facrilegio.Veyo o Japaó fò em 
entregar a Imagem; porém pódò no cayxão hum pao en- 
volto em panos, o queimou lançando efte pregaórjuftiça, 
que manda fazer EIRey da Cochinchina defte homem, 
que chamaó Jesv, por morrer Crucificado, & fer adorado 
dosChriftáos. 

Naó podia faltar o Ceo » fem dar algum íinal de vingá- 
ça defte enormiílimo peccado. Alguns dias depois cahio 
hum rayo no Paço Real , & matou muytas peffoas 5 entre 
ellas algumas muy queridas delRey , cuja recamera ficou 
toda abrazada. Alcançou logo ElRcy a caufa defte fuccef- 
fo: & confefíbu a algús feus familiares, fer caftigo do Ceo> 
porelle defterrar os Padresj & perfeguir os Chriftãos , & 

Fij . fua 



44 BREVES NOTICIAS DO 

í ua ley. Mas nem ifto íoy baftante para lhe abrandar o co- 
ração endurecido com o medo de perder algú dia o Rey- 
no, fe os vaíFailos foíTem Chriftãos ; pelo que naó deíiílío 
ào defterro dos Padres: mandando foíTem todos para Ma- 
ção; poderiam porem vir na nao , para terem cuidado Jos 
Portuguezes j com os quaes voltaflem outra vez na m ci- 
ma monçaó. 

No anno de mil, & feifcentos & trinta & nove tornou 
a confirmar o defterro dos Miffionarios : prohibio a todos 
a comunicação com os Padres , em quáto a nao fe detivef- 
fe no feu Reyno: & mandou açoutara dous? que fe deixà^ 
raó ficarjôc os fez voltar para Macao. 

No anno de mil 6c feifcentos & quarenta & hum che- 
gou a Cacham hum Mandarim da Corte com o governo 
das fazendas Reaes : & logopubhcou, trazer elle poderes 
de dar bufca às Igrejasjde caítigar os Chriílãos 5 prohibir 
aos Padres vindos na nao de Macao enfinarem a ley dos 
Portuguezesj ( affim chamão os Gentios a ley de Deos 5 ) 
& também de queimar h uma Imagem de hú Santo Chri- 
fto. Como o diííe atrevidamente, affim diaboiicamente 
o executou. 

Permitio porém o anno de mil & feifcentos & quaren- 
ta & dous algum defcanço aos Chriíláos tão vexados; por 
ElRey eftar occupado 5 & metido todo nos apreftos de 
guerra contra os Tunquins. Reparando o demónio co- 
mo ElReyjôc íeus Miniftros concediaó algúa tregba 5 í^oy 
declarando elle a guerra noannode mil & feifcentosôc 
quarenta & trezpor meyo das cabeças , & ancióes da§ al- 
deasjinftigando-os contra os Chriílãos de fua jurifdiçam; 
por terem fido caufa da ruim novidade daquelle anno;pe- 
lo que lhe cntravaó em cafa^ôc bufca vaó as Imagens 5 & 
coufas fagradas: & os obrigavaó alargarem a Fè? ou as pró- 
prias caías com decreto de defterro para outras Provínci- 
as. Pofto que alguns como fracos fe rendeífem ao medo; 
os mais porém animofamente refpondéram? que tiah*àm 

a Fé 



REYNO DA COCHINCHINA: 45 

a Fe metida jà nas entranhasjôc arreigada cm feus coraçõ- 
es: & aílimantes lhes tirariam a vida do corpojque a Fè da 
alma. Entre eftes fe aíiinalou hum moço por nomeA- 
goftinhô bautizado de poucos meíes,^: muy fraco de for- 
ças. cor poraesjporeftar quafifempre doente. Achando-o 
pois tam fraco os perfeguidoresjcntràram em efperanças 
de venceloj & de Triunfar delle a fua Idolatria : mas ven- 
do como as ameaças mò eram baftantes a rendelo , amar- 
raram-no apertadamente com as mãos atraz > expondo-o 
ao Sol ardente no meyo da praça. Aqui campeou a valen- 
tia do efpirito de Agoílinho esforçado com a divina gra- 
ça;pois naó fomente efteve immovel,mas ainda com tan- 
ta alegria de roftojôc focego de alma» como fe eftiveíTe de- 
baixo de húa frefca fombra fuavcmente defcançado. Pat 
màraó os Gentios de tanta confl:ancia5& vcncidos5& cor- 
ridos o foitàram. Acometerão depois a outros, ameaçan- 
do a eftes de crucificalos em grandes Cruzes, àquelles de 
enterralos vivos; porém reparando , como os generofos 
Soldados de Chriílo fe oíFereciam a padecer muy to ma- 
yores tormentos por fcu Deos? & Redemptor de fuás al- 
masjnaó lhes podendo tirar o nome de Chriílo da bocca,' 
levavaó de fuás cafas quanto lhe achavaó : fcm repararem 
os ladróesjque as alfayas? que lhes roubavaó eraó teftimu- 
nhos de ficarem vencidos da generofa conftácia dos rou- 
bados, que na rapina de feus bens alcáçavaó viéloria mais 
gloriofa. 

. JEra tempo ja de cortar os maduros cachos deftà vinha 
do Senhor, para darem aquelle preciofo vinho do fangue 
expremido à força de tormentos; para que com ellefc 
enriqueceífe a Igreja militante,6c fe alegraífe a Triunfan- 
te naquelle banquete de eterna gloria. Conjuraó-fe para 
efte effeyto o medo delRey,& o ódio dos Bonzos,hum,& 
outro inftigados pelo demónio , & todos três movidos do 
intereíTe. ÉlRey para fe aíTegurar no Reyno : os Bonzos 
para nam carecerem das offcrtas;& o demónio pám fuftê- 

Fiij tar 



46 BREVES NOTICIAS DO 

tar feii tyranico domínio nas almas. Os quaes vendojnaõ 
fem íua grande pena,como nem as prohibiçóesjnem as a- 
meaçasjnem as perdas dos bens,nem as prizóes, nem os a- 
çoutes eram baílantes para vencerem a fortaleiza dos va- 
lerofos Soldados de Chrifto ; paíTâram a querer derramar 
o íangue Chriftão , elperando que à vifta delle abrandaria 
log05& fe quebraria a firmeza de fua Fè. Mas Deos , que 
ÚQU licença ao demónio , para fòmente encher de chagas 
o Santo Jobjpara que campeaíTe mais a fua paciência : lhe 
concedeo neíles tempos poderes mais amplos? naó fò de 
ferirjmas também de matar: para depois ficar muyto mais 
envergonhado todo o esforço infernal à vifta de tãtacóf^ 
tancia dos Neófitos em confellarem com a voz , como 
fangucjôc coma morte o SantiíEmo nome de Jesv Re- 
demptornoííb. 

Solicitando pois o demónio por feus Bózos a redução, 
ou perverçam dos novos Chriftáos para a antiga venera- 
ção dos Deofes do Reynojcom capa de querelos a placar; 
para que deíTem avantejadas viétorias; na verdade porém 
para-lhes tornar a elles o lucro das efmofas: & receofo El- 
Rey em tempos deguerra da fidelidade dosChriftãos feus 
vaílàllos pelas falças informações dadas pelos Olandezes: 
defpedio-feaCachãoCortedas Provincias meridionaes, 
onde havia as Chriftandades mais florentes , hum Minif- 
tro chamado Oumghebo, grande entre os letrados , & 
muyto mayor entre os tyranos? para que tiraíTe dos Chri- 
ftãosjou a Fèjou a vida. A penas chegado efte Miniftro do 
inferno^faz publicar logo no mez de Julho de mil & feif- 
centos & quarenta & quatro j trazei elle poderes Reaes 
para deftruir Igrejasjqueymar Imagens,prender5&: matar 
Chriftáos : & fem detença nenhúa manda foldados, para 
darem execuçam a tão injuftas 5 & diabólicas refcluçóes. 
Pelo que foy prezo em Cacham hum velho de fetenta,&: 
três annos de idade por nome André , grande Cataquifta» 
& Pay daquella Chríftan^ade: & cm Faifo outro também 

1 André, 



REYNO DA COCHINCHINA. 47 

Andrejporêm moço de dezanove an nos, criado do Padre 
Alexandre Rodes , a quem fervia de Catequiíla em falta 
dos velhos. Acometeo a aftucia luciferina nos primey- 
ros aíTaltos a hum muyto velho , & a outro muyto moco 
pelo receosque tinha de ficar vencida na peleja:& fomen- 
te as poucas forças daquelle , &a pouca experiência defte 
lhe davam alguma efperança de vi(3:oria;mas botou as có« 
tas erradas5& tomou muy curtas as medidas; por ifto fe a» 
chou enganada, confufa, 6c desbaratada do valor dos Có- 
feíTores de Chrifto esforçados com fua divina graça. 

CAPITULOU. 

Noticias do Velho André, 

OY efte André hú dos Primeyros Chri- 
ftáosjque houve naCochinchina , mora- 
va na Corte de Cacham , & por fer muy 
verfado nos myíterios de noíTa Santa Fè, 
lhe foy dado o titulo, & cargo de Cate- 
quifta : o qual officio exercitava com to- 
do o defvclo 5 & fem temor ; pois fua cafa fervia de Igreja 
aos Chriftãos , para fe ajuntarem nella todos os dias antes 
de amanhecer, & depois de noyte,para rezarem fuás ora- 
ções : & também para ouvirem Miíra,quando ouveíTe al- 
gum Padre,dos que ficaram efcondidos. Seu fervor nun- 
ca lhe dava defcanço aflim no vifitar,& cófolar aos ChriC- 
tãosjcomo no prègarjôc enfinar aos Gentios. O fruto ref- 
pondia ao trabalho bautizando grade numero de Infiéis: 
& fe fez reparo , como no principio de hum anno novo, 
em que coftumaó os Gentios ajuntarem-fenapraçajou 
lugar publico , para adoraré os Deofes titulares do lugar : 
em húa povoaçam de Cacham bem numerofa nam apa- 
receram para a dita fuperftiçam mais que três ; por ferem 
todos os mais jà Chriftãos: pelo que alcançou o noíío An- 

Fiiij dre 




48 BREVES NOTICIAS DO 

dre o apelido de Pay da Chriftandade de Cacham. O 'zdo 
pois da hoora de Deos o fafia expor a todo o rifco : como 
fez Quando eíle meímo Mandarim Ounmí^hembo no 
amiodexiiil& feifcentos ,& quarenta & hum mandou 
queimar hum Santo Crucifixo achado em fua cafa ; porq ^ 
fahio o velho a defendelo como pode , impedindo que os 
Ibldados levaííem a Imagem. O que vendo o impio Má- 
darím ? mandou aos Toldados , o açoutaílem cruelmente. 
Com eftas façanhas fe hia habilitando o bom velho para 
mayores emprezas: & bem* grandes as fez no tempo defta 
prjzaôjque luccedeo aos vinte & finco de Julho. Porque 
levado có as mãos amarradas pelas ruas publicas da Corte 
de Cacham para a cafa do Mandarim? fe quiz aproveytar 
defca occafiaó 5 para fe dar a conhecer a todos ; por iíTo hia 
dizendo em voz alta a quantos encontravajfer elle Chrif- 
tão jà de muitos annosjôc adorar ao verdadeyroDeos Cre- 
ador do Ceo 5 & da terra. Efta publica confifi^aó da Fè ao 
povo foy enfayo para a confeíTar diante do Tribunal do 
Mandarim: o qual perguntando a André por três, ou qua- 
tro vezesjfe era Chriftãò: ouvio outras tãtas vezes por re- 
poftajque o erajacrecentando fempre com mayor esforço 
eílas palavras : E eftou preftes para levar todo o caíligo, 
que por fer Chriftão me quizerê dar. O tyrano , que cui^ 
dava fazer tremer a todos com fua prefença? vendo-fe taò 
pouco temido de hú velho decrépito > cheo de furor mâ- 
doujlhe botaífem logo canga ao pefcoçojôc o levafi^em pa- 
ra o cárcere. 

Canga chamam no Oriente os Portuguezes , & os Co- 
chinchinas Goungja huma maquina a modo de efcada? as 
duas haíles faó compridas quafi duas braças ? & fe vem c5 
quatro traveííàs como degraos , húa em cada ponta ? & as 
outras duas muy chegadas ao meyo de tal maneyrajque fe 
poífa humâhaíiedcíencaixar das traveíIas prezas na ou- 
tra. Mete o padecente o pefcoço dentro das duas travef. 
ias do meyo 3 ôc encaixam-fe todas as quatro trave/Tas na 

outra 



REYNO DA COCHÍNCHINA. 49 
outra haíle^amarrando-íe apertadamente ambas as haftes 
nas pontasjque por ficarem muy aí:aíladas,nam pode che- 
car a eilas a maò do prezo 3 poderá efe virar a dita maqui- 
na ao redor do pefcoçojnam porém tiralo delia, por fer o 
va5,em que eílá prezo opelcoço,maiseítreit03& mais pe- 
queno que a cabeça. 

A matéria de que fe fabrica cila maquina he depaos, & 
também de canas muy pezadasjôc groflas: & faó taes , que 
íervem de colunas nas cafas 5 6c de maftros nas embarca- 
ções ordinárias. 

Aos criminofos de culpas nam muyto graves fc lhes 
bota ao pefcoço -, a canga de canas : aos reos porém de cri- 
mes mayores a de paos. Nem os prezos tem lugar deter- 
minado para cárcere ; mas ordinariamête ficaó entregues 
ao Mandarimjquc os prendeo;ou aquém deve executar o 
caftigo: & íe lhes permite , irem com fua canga a pedirem 
efmolas, & a outro qualquer negocio porém fempre acó- 
panhados de vigia. ' 

Logo que André fc vio com a canga aos hombros^ mu* 
dbu as coresímoftrando hum roíto muy alegre , & conte? 
te; nam fò por fe ver tam honrado com aquelle colar , de 
tuzaó;mas também por fcr o primeyro na Cochinchinat 
•que recebeíTe femelhantes honras pela cófiíFaó da Fé. Paf- 
màram os Gentios 3 vendo hurn velho de fetenta & três 
annos levar aquelle infame,& pezado jugo com tanta ale- 
gria3& facilidade. Mas os Chriftáos viraó a priraeyra ve25 
renovado 3 & verificado o que fe efcreveo dos Apoftolos: 
que fahiáo muy alegressôc contentes dos Tribunaes ; por 
terem fido dignos díe padecerem aíFrontas pelo nome de 
Jesv Chrifto. Em quanto pois o bom velho vay andando 
para o Cárcere, iremos dando algum conhecimento do 
outro André. 



C CAPI- 




So BREVES NOTICIAS DO 

CAPITULO iir 

Noticias de Jndre o moço. 

S T E Andrejfegundo na prizaó -, Sc pri- 
nieyro em levar a palma da viòloria mor- 
rêdo por Chrifto , era natural da Provin- 
da de Ranrana mais meridional daCo- 
chinchina : naceo de Pays jci Chriftãos, & 
foy criado da Máyjpor nome Joanna , c6 
o leyte da Fè5& temor fanto de Deos. Com o crecer dos 
annoSjforam aparecendo mais claros os finaes do bom na* 
tiiral 5 de que Deos o tinha dotado, na íiíudeza das pala- 
vras^na conipoltura das acções ? na aplicação ao eítudo de 
fuás letras : & o que era mais para fe eftimar 5 na devaçam 
nas coufas de Deos. Nefte eííado o achou o Padre Alexã- 
dre Rodes no anno de mil ôcíeifceíitos & quarenta & 
dous,em que foy viíitar a Provincía de Ranran.Naó quiz 
deixar o moço Andrc tão boa occaíião 5 para íe coníagrar 
todo ao ferviço de Deos : allim pedio a íua May 5 quizeíTe 
rogar ao Padre 5 que o levaíle comíigo na viíita daquellas 
Chriftandades. Nam vinha o Padre em defpachar efta pe- 
tição; pofto que menos intereílada 5 & mais pia que a da 
Mãy dos filhos de Zebedeo : pois em tempo de perfegui- 
çam nam parecia bem^levar comíigo mais gente , da que 
foíTe necelfaria para o Catecifmo dos Gentios: o que nam 
podia fazer por entam André , aíEm por fer rriuyto mo- 
çojcomo também por ter muy pouco cabedal de letras. 
Gom tudo importunado dos muytos rogos da Máyjôc da 
filhojO aceitou5& lhe entregou o cuidado do Altar, & das 
coufas fagradas. Grande foy a alegria que ^ndre recebeo 
por fe ver dedicado ao culto divino: & era? o que elle tan- 
to defejava; pois íb em Deos achava focego 5 & cófolaçaó. 
Acudia com todo o defvelo às obrigações de feu oíEcio:& 
/ £* parte 



REYNO DA COCHINCHINA. 51 
parte eíludando nos li vrosj&r parte ouvindo os Catequií^ 
tasjhia aprendedo as coulassôc o modo de pregalas aos in- 
fiéis. Era eftimado de todos pela fua prudência : & de to- 
dos amado pela modeíhajôc agrado com que tratava com 
todos. Nem cocubrio o talento, que Deos também Jhe 
dera para curioíidades de mão; mas antes o íàntiíicou , fa- 
zendo na feíla do Natal em cafa da Máy do Tio delRey 
Chriftá antiga,& fervorofa hum Prefepio tão engenhofo, 
que foy de admiração aos Gentios,& de grande de vacam 
para os Chriílãos. Aparelhava-fejàanao de Macaopara 
voltar: & obrigado o Padre Rodes a íe embarcar nella? 
quiz deixar encomendada toda aquella Chriftandade tão 
dilatada a alguns Catequiftas mais zelofos,& exemplares, 
para que a apacentaíTem com as pregações, 5c com novos 
bautiímos íoíTem acreícentando aquelle novo rebanho 
de Chriílo. Pelo qucjdos que haviaó de correr com o cui- 
dado das Provincias do Norte, hum foy eíle André ; por 
ter jà baíf ates letras,Ôc fer jà pratico no mínifterio de pre- 
gar. Quanto eftimalTe efta hora o bom Moço, bem o mof- 
trou na alegria,com que aceitou aquelle trabalhofo offi- 
cio,& muy arrifcado em tempos de períeguiçam : & para 
fe confagrar todo a Deos , quiz fazer voto de nunca fe ca- 
far: como coftumavam fazer alguns Catequiíras , para fe 
darem de todo ao ferviço de Deos 5 & falvaçam das al- 
mas. 

Era o dia dos vinte finco de Julho , em que André fe 
confeíToUjôc Commungou na Miífa , que o Padre Rodes 
âifíe em húa Ilha dentro do porto de Taifo : aílim por fer 
elle muy devoto do Apoftolo Sâtíago, como por lhe que- 
rer Deos dar efte alento fobrenatural, para a vefinha pele- 
jajque havia de ter có os poderes dos minilfros dolnfer- 
no,& triunfar finalmente de todos elles. Acabada a Mit 
fa , foy-fe o Padre à outra banda do rio a certo negocio: ôc 
coftumdão André acompanhar ao Padre, nefte dia pedio 
licençajpara ficar>naó tanto para dobrar? & guardar os or- 

G ij nameiíiú. 



52 BREVES NOTICIAS DO 

namentos íagradoSíôc Imagensjquanto para dar ordem ao 
comer para alguns pobres Chriítáos , que alli fe achavam 
doentes. A eíla cafa íe encaminharam os Toldados man- 
dados pelo Mandarim Oum Nhembo pelas intellig^nci- 
asjque tiveram com ordem de prenderem os Chriftãos, q 
achaírem5& de levarem todas as Imagensjque viíTem.Mas 
como chegaram tardcjacharam fòmétea André com ou- 
tro moço doente, ôc o Altar ainda armado. E logo como 
leões infernaes arremeterão huns ao Cordeiro André ? & 
dandolhe muytas pancadas,o amarraram apertadamente; 
outros acometeram ao Aítar5arrancando com defacato as 
Imagens5& puxando com defprezo as toalhas, & frontal: 
& dei manchado o Altarjforaó fazêdo das Imagens? & dos 
ornamentos húa trouxa confufa,&mal arrumada. A eíte 
eípcclaculo nam pode ter as lagrimas André 5 & levanta- 
do as máos aílim amarradas como eftavaó, pedio aos folda- 
dosjque fe quizeílem levar tudo aquillojlhe deílem licen- 
ça a elle de o dobrar , & compor com o devido acatamen- 
to;pois eram coufas confagradas ao Senhor do Ceo. A ef- 
tas palavras abrazadas do zelo da honra de Deos ficaram 
brandos os corações de aço dos foldados5& foltando-o,lhe 
deixaram fazer,© que pedia. Foy André dobrandoj&cõ- 
certando tudo com grande devaçanij & foccego : ficando 
os foi dados pafmados à viíla de tanto animojôc piedade. O 
que feytojeílendeo logo André as mãosjpara que lhas tor- 
nafiem a amarrar. Quizeraõ os foldados levar também 
prezo o outro moço;mas André com lagrimas lhes pedio, 
o deixaíTem; pois eílava muyto doente : & bailava levaré 
a elle,para darem execuçam à ordemjque trafiaó.Com eí- 
te innocente prefioneirojôc com efte fagrado defpojo^em 
que entravaõ além dos ornamentos do Altar alguas Ima- 
gens duas do Salvador , húa da Virgem 5 & dous Crucifi- 
xosjfe embarcaram os íoldados de volta para Cachaõja fa- 
zer entrega ao Tyrano Oum Nhebo do que levavaõ tam 
facrilegamente tomado. No caminho daquella legoa , q 

Faito 



REYNO DA COCHINCHINA. 55 

Faifo fica diílante de Cachão , não fomente não moftrou 
André final de temor 5 mas antes muyto Senhor de fy co- 
meçou a praticar dizendo: Como os Chriíi:áos erão Tolda- 
dos de Chriít:o,Deos55c homemjque có fi^ia vidajôc morte 
nos enfinàra 5 como havíamos de pelejar contra as nofias 
payxoensjnimigos tanto mais poderoíos , quanto mais 
caleiros: ôc vencidos elles nos eííavão aparelhados no Ceo 
prémios iião tcmporaes mas eternos. Ouvião-no todos 
com gofi:o pela fijavidade da fala» & com admiração pela 
novidade das coufasjque difia. Porém o cabo daquella al- 
cateajou porque fofie inimigo daLey de Deos;ou porque 
recealFe, feria a cu fado por fautor delia? o reprehendeo, & 
o ameaçoujde lhe querer botar ao pefcoço húa pezadijffi* 
ma canga. Mas achoufe enganado; pois cuidandojporlhe 
medojreparou como André fe mollrava mais contente> 
& mais esforçado. 

Efia prizaó tam publicajôc tam eftrondofa fe divulgou 
logo por todo o Faifo: & vindo à noticia do Padre Rodes» 
que fe hia defpedindo , para voltar com a nao de Macao; 
por ElRey lhe não permitir morada naquelleReyno:par- 
tio fem detença para Cachão5a falar âo Oum Nhebo. Mas 
porque antes dela chegar foube 5 como também o velho 
André fora prezojôc ficava jà no Cárcere : foy bufcar pri^ 
mey ro feu antigo Catequifta 5 para lhe dar os parabéns de 
tão ditofa forte: & beijandolhe muytas vezes a cãgajquei* 
xava-fe o bom Padre de fy ; por não fer digno de acompa^ 
nhar feu Catequifta no padecer por Chrifto > tendo o ve* 
lho feguido ) & ajudado a elle naprègaçáo da divina ley. 
Dados pois os cordeaes parabensj&feytas as queixas amo- 
rofas: fe paíTou o Padre para a cafa do Oum Nhebo : & ad- 
mitido á audienciajantes q o Padre falaíTe lhe diííe o Man- 
darim . ElRey eftà muy agaftado cõtra vos ; por teres fey- 
to tantos Chriftãos:&me reprehendeo a mím;por eu dei- 
xar crecer tâto o numero delles no deftrito de minha jur- 
diçam;peIo que vos intimo em nome delRey, que pode- 

G iij reis 



54 BREVES notícias DO 

reis ir5&: vir de Macao5& adorar o voílo Deos em particu- 
lar; porèra não quer ElRey,qiie íeus vaílallosíejáo Chrií- 
tãos. i\ílim vosmando^iiáoenfíneis a nenhum natiiraí 
dáCochinchinaa ley.dos Portoguczès fobpenade feres 
caílrgado. Ao que refpondeo o Padre dizendo : Como a 
]ey,que elie eníinavajnáo era de hum Príncipe , nem de 
hum Rey de outra terrajmas do Senhor do Mundo , crea- 
dor do Ceo ? & da terra, & de todas as coufas. Senhor dos 
Senhores:'? & Rey dos Reys. Pelo que aííim como hum 
miniítroinferior não podia impedir a execuçam , do que 
mandava o fuperior: aíltm meímo nenhum Rey da terra 
fe havia de atreverja impedir a guarda dos mandamentos 
do Senhor de todo o Creado. Kníinar pois a verdadejcon- 
feílala,^ abraçaia 5 erão apertadiffimas obrigações impof- 
tas a todos da mefma natureza? cujos dictames erão indií- 
penfaveis de todo o poder humano. Porém le ElRey , 6c 
& elle Mandarim tiveíTem por culpa ? o entrarem os Co- 
chinchinas pelo caminho da verdadeyra Religião , para 
falvação de íuas almasjfe devia dar a elle o caftigo;pois elle 
lho eníinâra: & foubeíTejque quanto niayor foíle a pena, 
tanto mayor favorjôc mercê receberiaiporque padecerj&r 
dará vidapelo CreadorjCra a mayor fineza, que podia fa- 
zer a creatura. Bem entendeoo Mandarim a íorça das ra- 
2:oens: &c não podendo reíponder a ellasjfò diííe , que íeu 
Rey não queria, que elle enfinaíTe aquella ley, nem que 
feus fubditos a recebeíTem : & com iílo deípedio de fy ao 
Padre. O qual voltou logo para Faifo a negcrciar comos 
Portuguezes da nao o modo , com que poderião tirar das 
mãos daquelles lobos irifernaes as coufas Sagradas,&alcã- 
çar a vida aos dous preíioneiros. 

Chegarão finalmente a Cachão os foldados com o mo- 
CO Andrei&poftoquefoíTejà noyte,forãologo admiti- 
dos do Ou Nhebojq folgou muito de ver adefejada preza 
dos ornamentos do Altarjôc do Catequiífa. E reparando, 
que era muy to moçojfe prometeo certa a viâoria? & ar- 
mou 



REYNO DA COCHINCHINA. 55* 
mou logo a peleja dâs perguntas , & foráo. A prímeyra, 
de que parte do Reyno era natural ? Reípondeo André 
pacatamentCíqueeradaFrovincia deRanran. A fegun- 
da^que iey profeíTava ? Diííejque era ChriíJ:ão,& adorava 
o Senhor do Ceo,& da terra. A terceirajporque eftava c6 
o Padre dos Portuguezes? Reípódeo? para aprender bem 
a Ley de Deos, que profeíTava. Tornou o Tyrano afazer 
por vezes a fegundajôc terceira pergunta da Iey que guar- 
dava^ôc da rafaó para acompanhar ao Padre : mas cada vez 
em tom mais aJto,ôc com rofto mais irado : & ouvio fem- 
pré as mefmas reportas ditas cada vez com mayor animo, 
& com mayor foccgo. Vendo pois o Tyrano? como o Có- 
feíTor de Chrifto não titubiavajnem moftrava medo : má- 
dalhe que largue efta Iey 5 & torne à Iey de feus naturaes. 
Acode logo André dizédo: como não deixaria a fanta Iey, 
que tinha recebido : & que antes padeceria qualquer tor- 
métojque largala.Defejàra ellclhe deíTem por iíTo a mor- 
te;pois fô defta maneira poderia ellepagar,o que devia a 
Deos ; por lhe ter dado a vida 5 & íer morto por elle. A ef» 
tas palavras ficou envergonhado o Mandarim ; por fe ver 
vencido de hum moço de dezanove annos:& defprczado 
o medojque havia em todos de fuás armas. PaíTando pois 
o pejojque lhe acendia o roftojao coração, lho enfureceo: 
& bramindo como aíTanhado leáojmãda aos foldados, lho 
tirem logo de diante,o levem ao troco , lhe botem ao pef. 
coço húa pezadiífima cangajôc o vigiem para ao outro dia 
fe determinar o caíligo em publica audiécia. Eíleve fem- 
pre firmcjôc confiante fem perturbaçam né temor o mo- 
ço André a todos eftes aífaltos do furor do Mandarim : & 
não fazendo cafo de fuás ameaças com o rifo na bocca foy 
andando para o tronco. 



G iiij CAFL 




50 BREVES NOTICIAS DO 

CAPITULO IV. 

T)o que ^ajfou entre os dous Ãndrey. c> dofuccejfo-, que méos tiveram. 

R A N D E foy a alegria ? & confolação 
em o Senhor 5 que o moço André rece- 
beo 5 por achar naquelle cárcere ao velho 
André, também prezo pela Ley de Deos. 
Porém ao moçocaufoulhç grande enye- 
ja a canga , que vío no peícoço do velho, 
& defejou ter logo a honra de levar aquclla affronta por a 
mor de Dcosjôc Redemptor: & quanto a eftimaflejbem o 
moftroujquando lha trouxeráo; pois a recebeocom gran- 
de alegriajabraçou com graiidç affeâ:03& com muy tas la- 
grimas a beijou huma? & muytas vezes. Derão-fe depois 
hum a outro os parabéns; por íc verem tam honrados , & 
mimofos de Chrifto; porém cada hum movido de divcrfa 
eoníideraçáo: porque o velho envergonhando-fe de dar 
porDeostãolimitadosannos, ocos últimos deíuavida, 
dava 03 parabéns ao moço; pois os facrificava todos 5 & os 
mais florentes a íeu Crcador. E o moço reparando nos 
muytos íerviços5que o velho tinha feyto a Deos , dava ao 
velho os parabés ; por ter empregado tantos annos até of- 
ferecer a vida pela falvaçaõ das almas: quando ellcentam 
começava a fazer algum fer viço a Deos. Pelo que hum, 
& outro pedião aos Chriftáos , que acudião a vifitalos , os 
encomendaíTemmuytoaoSenhorj para que IhcsdelTea 
graça de morrerem na eonfiílaó de fcu fanto nome. Pois 
fò deíla maneiraídiíia o moço,dádo eu todo o fangucj pof- 
ío fuprir a falta dos ferviços. E fomente com a niorte,re- 
plicava p velho 5 poderei eu oífertar tudo quanto fou ? & 
poíTuo â meu Creador. 

Com eftes adlos de humildade, & do próprio conheci- 
mento íe hião difpondo o velho? & o moço para mayores 

valen- 



REYNO DA COCHINCHINA. 57 
valentias de efpirito: & logo as fizeram ao o jtro dia vinte 
féis dejulho: noquallevados pela manháao Tribunal) 
( que confra de hum Preíidente5& o he oGovernador da- 
queilas Provinciasjôc de alguns Juizes , parte letrados , 5c 
parte ibldados.) Foram aprefentados com fuás cangas aos 
hombros;poreni feus roftos apareciam taó coiitentes5que 
davam a entenderjqueefperavaó pelogalardaósâc naó te- 
miaó cafcigo: receberiaó vida^naó padeceriaó morte. Re- 
pararão todos os do Tribunal naquella alegriajque nunca 
tinhaô vifto em roílo , de quem eíliveíTe para ouvir a fen- 
tença de feu delidloj ôc ficàraó muy admirados daquella 
novidade. Sò o Oum Nhebcque era o primeyro entre os 
Juizes , por ficar jà vencido da conftancia dos esforçados 
foldados de Chriftojfe aíTanhou de maneirajque deu logo 
fentença de morte contra ambos: & foy confirmada com 
os votos dos mais miniftros. Em ouvindo os condenados 
a fentençaílevantàraó os olhos,6c as mãos ao Ceos&deraò 
^ Deos as graças por tão grande mercê , que lhes fafia 5 de 
inorrerem pela confiíTaó de feu fanto nome : & depois fi- 
càraó tam foccegados5& alegres 5 como fe ti veííem alcan- 
çado naó fò pcrdaó mas ainda premio. Naó fatisíeytos os 
Juizes da injuftiçajquefafiaó, em condenarem a dous in- 
nocentes,quizeraó fer também facrilegos, dando fenten- 
ça de fogo a todas as Imagens, 6c ornamentos do Altar to- 
mados da cafa do Padre: como também a todos os livros> 
ôc a huma Cruz 5 que acharam na do velho André. Aquy 
fe turbarão os Andres,&: deraó muy claras moílras do fê- 
timentOjque recebiaó pelo defacato, que fe faria âs coufas 
fagradas; pelo que com contentamento,^: com pena tor- 
naram outra vez para o carcere,por fe dilatar a execuçani 
da morte atè a tarde. Ficàraó pafmados aquelles Idolatras» 
por repararem 5 que os códenados fentiíTem mais as aftró- 
tasjque receberiam as coufas 5 que pertenciaó ao culto da 
feu Deosjquea morte , que elles dali a poucas horas pade- 
ceriaó. Chegados ao Cárcere 5 foram também prczos pe- 

H J05 



58 BREVES NOTICIAS DO 

los pès DO cepo. Heeftecomo huma grande tefourade 
pao groíio5Ôc pezadoía qual fecbadajdeixa no meyo huns 
buracosjqual mayor5& qual menor , nos quaes íicaó pre- 
zes huns pelos péSíôc outros pelo peícoço conforme a or- 
dem do Mandarim. 

Em quanto ifto paffava em Cachaój vinha andando pe- 
lo Rio o Padre Rodes com on'ze Portuguezes os mais au- 
torizados entre os mercadores daquella nao : & tendo a- 
víío nc caminho da fentéçajque fahira ? fe encaminharão 
logo todos para a cafa do Oum Nhebo o mais empenha- 
do no ódio contra os Chriftãos? para alcançarem com da- 
divaSííenam valeííem as rafóes, os ornamentos com as fa- 
grad^s Imagens5& tambê a vida dos dous innocentes An- 
dres tam oeceííarios naquella cruel perfeguiçam ao bem 
de todaaquella Chriílandade; pois com a virtude a edili- 
cavam5& com o zelo a afervoravam. Chegados finalmé- 
te a Cachamjpediram todos juntamente audiência : & ad- 
mitidosjcomeçou a falar hum dos onze muy verfado na- 
quella viagenijôc muy pratico dos eftylos daquellaCorte, 
& diíTe: como ElRey dava licençajpara as nãos de Macao 
virem a comercear naquelleReyno, & também para tra- 
zerem Padres? como era coífume dos Portuguezes ; pelo 
que os Padres haviam de ter comíigo aquelles aviamêtos 
neceílarios^para fazerem fcu ojfficio com os da nao. Affira 
ouveíTe por bemjmandarlhes entregar? o que os foldados 
tinham levado da cafa do Padre. Refpódeo o Oum Nhe. 
bo: Como feu Rey naó queria, que em fuás terras fe prê- 
gaíle a nova ley dosChriíl:âos:&: perdoava ao Padre o mal, 
que fizera ? enfinando-a atè aquelle tempojmas voltaílc 
logo com a nao de Macao. Com tudo elle lhes fazia mer- 
cê dos ornamétos;poré as Imagens hauiaó de fer queima- 
das publicamente. A eftas palauras faltarão logo as lagri- 
mas dos olhos dos pios Portuguezes, & todos j untos, ôc 
em uoz alta lhe pediram também as Imagens, as quaes ef- 
timauam mais^, que todos os thefouroSíõc mais que apro- 
pria 



REYNO DA COCHINCHINA. 59 

pria vidajôc coni iíTo receberiaó delle a mayor mercê, que 
Jhes poderia fazer. Naó íeatreveo o Mandarim a negar? 
o que tantos homês autorizados5& bem viftos de feu Rey 
]hc pedião;pe]o que mandou entregar três a faber , huma 
da Senhorajôc ns duas do Salvador do Mundo : acrecentá- 
dojcomo as outras duas ( que erão do Santo Crucifixo ) as 
havia de queimar neceíTariamente. Arrecadadas as três 
com grande acatamento; para que o facrilego Mandarim 
fizeíTe conceito do refpeyto,que era devido às Peffoas cu- 
jas figuras eraó. Falou então o Capitão da nao 5 por nome 
Joaó de Rezende , & diíTe : que aquellas duas Imagês per- 
tencião a elle como a Capitão;pois em tempo de peleja c6 
os inimigosjque fe encontravão naquelles mares,o coítu- 
me dos Portuguezes erajtomarem ellcjÔc o Padre na mão 
aquelles Santos Crucifixos: & moftrando-os a todos , ani- 
maios, & esforçalos a pelejarem atè morrerem , para não 
virem às mãos dos inimigos aquellas fagradas Imagés,que 
para elles erão eftandartes facrofan tos; pelo que não podia 
elle partir fem as duas Imagens , nas quaes eftavão poftas 
todas as efperanças da teliz viagem a fal vamento : & dito 
ifto > oíFereceo o rico prefente 5 que levava para eíle fim. 
Ficou fijfpcnfo,& perturbado o Mandarim a femelhante 
requerimento;porque pelo ódio , que tinha à noíTa fanta 
ley, defejava fazerlhe aquellaafFronta , & vingarfe dos 
Chriílãos nas Imagens de Chrifl:o;porèm pelo goílo , que 
feu Rey tinhajdo comercio com os de Macao , temia per- 
der a graça de feu Senhor,fe foíTe caufajde não virem mais 
as nãos dos Portuguezs.Finalmente como politico refol- 
veo-fe a lhes entregar também cilas duas. Naó quiz po- 
rém receber o prefente dizendo : que não convinha acei- 
talo em occafião,que elle executava as ordens de feu Rey,' 
pelas quaes era obrigado a mandar queimar , ao menos o q 
fe tinha achado em cafa do velho Andre,â faber húa Cruz 
comhuns livros de noíTa fanta ley em letras finicas.O que 
tudofoy depois queimado porém em hacãpofoLtario, 

Hij & 



6o BREVES NOTICIAS DO 

& deferto 5 sé lhe valeré todos os rogos dos Portuguezes. 
Dadas as graças ao Mandarim 5 por lhes ter , reítituido 
todos os ornamentos •> & fagradas ím.agens ; começarão a 
entrar com a pratica fobre os dous prezos dizendo : Co- 
mo atè aquelle tempo não fe tinha vifto,nem íabido , que 
algum Chriíláo Cochinchina cometeííe crime de lefa 
Mageíkde: antes a Ley de Chrííto obrigava a reipeytarjôc 
obedecer aos may ores, pagar os tributos aos Reys •, não fa- 
zer mal antes bem atè àquelles 5 que nos fazião mal Dos 
dous prezos hum era muyto velho de fetenta & três an- 
nos^que pouco mais podia vi verjôc a vida lhe podia fervir 
naquella idade de caíHgo : & o outro era muyto moço de 
dezanove annos; pelo que parecia, não fer vontade del- 
Rey5tirar a vidaja quem a penas acomeçára alograr; muy- 
to mais não tédo cometido nem furto , nê faltado às obri- 
gações de fiel vaíTallo nos tributos, & nos ferviços. Quan- 
to pois a Religião; procedia ella do juizo , que cada hum 
fazia na efcolha do caminho , para a fua eterna bemaven- 
turança. Qu^ ^^'^ coufa dura ? obrigar todos a entenderes 
o que a alguns não parecia o mais acertado: fe a natureza 
quizerajque todos ientiíTem o mefmo5não dera a cada hú 
feu próprio entendiméto : a experiência pois muytas ve- 
zes moílrava,que melhor entendia o texto hum letrado, 
que o outro: & alcançava mais da doença eíle , que aquel- 
le medico. Alem diílò a bemaventuranca era coufa da 
outra vida ; aonde não havia dependência de fubdito do 
fuperiorjuem de vaííàllo do feu Principe ; pelo que devia 
fer livre a cada hum,o bufcala pelo meyojque lhe parecef- 
fe melhor: para que le erraííe , fua foííe a culpa : & por fer 
fuaja pagai] è na outra vida com caftígo : vifto ter obrado, 
contra o q lhe parecia mais acertado. De outra maneira 
não fe podia entéder 5 como foífe caíHgado na outra vida, 
quem neíla errou,feguindo feu Rey,& Senhor. Com eí- 
tas , & femelhantes rafóes acompanhadas de muytos ro- 
gos quizeráo os Portuguezes,fe rcvogaffcou ao menos fe 

miti- 



REYNO DA COCHINCHINA. 6i 

mitigaíTe o rigor da fentença de morte cótra os dons An- 
dres. Porém o Mandarim , que bem alcançou a força das 
raíóes?para fenãoconfeílar vencidojfequiz moftrar mife- 
ricordiofo , & diíTe : Como faíia elle mercê da vida ao ve- 
lho 5 por fer de letenta & três annos : para que lograíTe os 
poucos > que lhe reftavaó 5 com feus filhos?poílo que não 
mereceíle o perdão. Pois acrecentou o Mandarim muy 
foberbo5perguntandolheeu três 5 ou quatro vezes ? feera 
Chriftão : refpondeome fempre , que o era jà de muy tos 
annosjque não havia de deixar a Ley do Ceo, & que efta- 
va preftes para levar todo o caftigo , q eu lhe quizeíTe dar: 
palavras tão loucas daquelle velho ! por taes teimas do 
mais feíudo fe fez o mayor loucoimas emíim como a lou- 
co lhe perdo-o a vida. Não porém ao moço;por fer muy 
atrevidojrefpondendodefenganada, &c refolutamentej q 
era Chriílãojque adorava o Senhor do Ceo, & da terra ? q 
por nenhum cafo havia de largar a ley, que tinha : que et 
tava aparelhado para receber todos os caíbgos, que eu lhe 
quizeíTe dar3& deliberado a perder também a vida. Se me 
diíleíTejque era pobre,& que eífava com o Padre? para ter 
que comer ; eu agora o foltaria. Morra : pois he atrevido. 
Acodiram os Portuguezes com o Padre dizendo : Que a 
refolução, com que refpondéra o moço André , não pro- 
cedera do deíprezo5que ellc fizeífe da peíloa, que lhe pre- 
guntàra; mas do firme juizo 5 que fafia da Religião Chrif- 
tã 5 fer o único 5 & real caminho para a bemaventurança 
das almas ; pelo que aíTim como não era licito feguir ? ou 
contelfar o falfo fabido 5 aíTim também não era licito dei- 
xaríOU negar o verdadeiro conhecido; mormente em ne- 
gocio de tanto porte, quanto o erasviv^er eternamente fe- 
IÍZ5OU por todo fempre defgraçado;por iíTo nem todos os 
tormentos nem a mefma morte temporal podião fazer 
pendor a húa vida 5 ou a húa morte eterna. Não quiz ou- 
vilos mais o Mandarim cego jà da payxão , & defpedioos 
com dizer: que era ordem delRey,que morrefe. 

Hiij Não 



62 BREVES NOTICIAS DO 

Não deixaram os Portuguezes de fazer outras diligen- 
cias ? para alcançarem a vida ao moço André. Da caía do 
Oum Nhebo fe paísàram ao paço do Governador ,& Pre- 
íidentedaquelle Tribunal: o qual poíto que tivefiè afua 
mulher Chriílã por nome Maria?có tudo não fe atreveo a 
revogar a fentença , por fer confirmada por todos os Mi- 
nííiirosjncm ainda a pôr a caufa outra vez em exame. Per- 
didas pois as efperanças de poderem alcáçar a vida ao mo- 
ço fe encaminharam todos para o Cárcere. 

Náo tinhaó noticias os prezos,ôc códenados por Chri- 
ítojdo q ue paíTava entre os Portuguezes5& os Mandarins: 
& cuidando fòméte em darem o fangue, & a vida por feu 
Redemptorjfe hião difpondo cõ o conhecimento de fuás 
fraquezasjpara empenharem mais o poder divino: Com a 
confideraçam de feus defmerecimentos , para em tudo fe 
valerem do fangue de Jesv Chriíl:o:& com os defejos de fe 
ofíerecerem à morte ? hião facilitando a mercê 5 pela qual 
com tantas efperas fufpiravam. Recebiáo com humilde 
agradecimento os parabéns 5 que lhes da vão osChriftãos 
de tãoavantejada forte: pedindo fempre a todos, os enco- 
mendarem a Deos. O velho pois , por fer peílba grave, 
tratava jà de fe compor com os melhores veftidos 5 que ti- 
nhajpela decência de húa acçam taó gloriofa. Nifto che- 
ga o Padre Rodes? & dà ao velho as novas do perdão. Paf- 
ma a femelhante avifo o bom velho André ; trocaíe logo 
toda a alegria em profunda trifteza: eíinorece o rofto:em- 
mudecea lingoa:&fò os olhos começão alançarj lagri- 
mas acompanhadas de doloroíos íufpíros. Acode logo o 
Padrea confolalo , dizédolhe: como Deos aceitara jà o Sa- 
crificiojq elle defejava fazer de feu fangue, & vida:& vifto 
a execução não vir impedida por elle, não perdia elle o 
merecimento. Pois nem Abrahão matou o filho,nem ef- 
te morreo facrificado : & có tudo receberão ambos o pre- 
mio, por terem feyto de fua parte , o que podião. Se con- 
formaíTe com a vontade divinajque muytas vezes quer o 

Sacri- 



REYNO DA COCHINCHINA. íj 

SacrificiodoaíFeélo, & náo do effeyto. Nem a Virgem 
Mãy deixou de íer Rainha dos Martyi es; pofto que che- 
gada ao Ca ivario não niorreíTe Crucifiiada ? como deíeja- 
va. Naó havia duvidajque derramar o fangue, & dar a vi- 
dajcra húa grande demonftraçaó de amor para com.Chri« 
fto; porem era hum iinaljque huma vez íe dava 5 & huma 
dorjque logo pafíava. Mas o continuado defejo de pade- 
cer por Chriílo 5 & expor fe a peíToa a continues perigos 
de morrer por elle , era huma prolongada oílentaçam de 
refinado amor5& hum muy comprido Martyrio. Mayo* 
res martyres fazia às veze^o defejo , que a efpada. Nem 
Deosnegavaapalmajquaikloo tyrano perdoava a vida, 
Gom eíbs palavras do Padre alentado o bom velho , diíTe 
entre lagrimas 5 6c foluços : Faça-fe naó a minha vontade> 
mas a de Deosja quem nam mereço tam grande favor. 

Solto Andre,gafl:ouostresannos,quelhe reftàram dc« 
vida 3 em fazer com maydr fervor do que dantes o officio 
de Catequifta : exhortando com fanta enveja aos outros, 
a morrerem pela Fè. Naó deixaria Chrifto de reconhe- 
cer diante do Eterno Pay por íeu fiel foldado ? aprcmian- 
do-ono Ceojaquemporconfeílalo na terra diante dos 
homens,& dos Tribunaes,! ir *^a padecido » & eíleve prçfr 
tesjpara dar o fangucjôc a v:c 




Hiiij CAPI- 



64 



BREVES NOTICIAS DO 




CAPÍTULO V. 

Execiiçam da fen tença de morte no moço Ãndre. 

M quanto o Padre Rodes confolava ao 
velho André: o Capitão cóos mai^Por- 
tuguezes hiam dando os parabéns a An- 
dré o moço pela nova certa, que lhe tra- 
fiaó 5 de haver de morrer alancèado pela 
Santa Fè. Nam poderia dar tantas mof- 
tras de alegria, quem tendo o peícoço debayxo da efpada 
do verdugo , recebeíTe aviío do perdão da vida; quantas as 
deu Andrejpelas novas certas de íua morte:& levantando 
os o}hos5& as mãos ao Ceojadorou a Deos pelamercèíque 
lhe faíia. Virãdo-fe depois para os Portugueses 5 deolhes 
as graças, como pode com íinaés de agradecimento. Dei- 
xando pois o Padre Rodes ao velho, veyo-fe chegando pa- 
ra o moço; porém banhado todo em lagrimassprocedidas j 
de muyta alegriajôc também de íanta enveja;por ver , co- | 
mo o leu ditípulo em taó pouco tempo tivelie feyto tão 
grandes progreíTos na guarda da divina ley,que mereceíTe 
jà o grão , &"Coroa de Martyr : & que elle , tendo íido leu 
Mqífre , hcaffe excluido de huma honra naó menos pro- 
veitoía que gloriofa. Mas reparando , como o feu André 
naó neceflitava,de quem o animaíre,&: cóíblaíTe ; porque 
com fua alegria esforçava a todos, a morrerem por Chrif. 
to: arremeçafe à canga,& a feus pés , beijando aquella , & 
eíles: & dando ao innocente condenado muytos parabés, 
pelo que padecia por feu Redemptor. Seguiram logo ao 
Padre no mefmo píoj^cio o Ca^iitaó, & mais Portugue- 
Zes,& também algús Chriílãq^ Cochinchinas , que ahi fe 
acharam prefentes. Envefgonhava-íe Andre,ôc confun- 
dia-fe 5 vendo femelhantes demõftraçóes de reípeyto nu- 
ca mais viílas naquelle ReynojSc como podia,reÍJÍ{ia,& as 

impedia; 



^JL^k, 



REYNO DA COCHINCHINA. 6^ 

impidi'a;mas íahindolhe fruílradas todas fuás diligencias, 
levantava os olhos ao Ceo5dando íinaes de fer indigno de 
taes honrasjôc dizendo em alta voz em fua lingua:que el- 
le era grande peccador: & que pediílem todos a Deosjlhe 
deíle graça^para lhe fer fiel,& agradecido atè à morte. 

Palmados ficaram os foldados, & quantos Gentios ahi 
haviajvendo eíle aâo de tanta eftimaçaó , & refpeyto , có 
que o Padrej&osPortuguezes honravaó a hum moço 
Cochinchina. Quizeram-fe a proveitar as guardas deíèa 
occafiaójpara buícarem algum dinheiro, que lhes dariam 
os Portuguezes: & começaram atormentar os pès do Có- 
feíTpr de Chrifto , entalandolhos pelos artelhos com cu- 
nhas nos buracos do cepo,ou tronco de pao^em que os ti- 
nha metidos: & dando depois em cima das cunhas cóhú 
maçojpara quecoiíi o mayor aperto creceíTe mais a pena. 
Com eftas cruéis invenções coílumao as guardas obrigar 
aos parentes do padecéte,a lhes darem dinheiro , para im- 
pedirem aquella tam grande penajque padeceria o prezo. 
Aílim mefmo o fizeraó o Padre , & os Portuguezes , pro- 
metendo algumas patacas às guardas, para que deíiíliilem 
do ameaçado tormento. Sentio André , & moftroufe al- 
gum tanto queixofo , de lhe tirarem eíta boa occafiaó de 
padecer mais por amor de feu Senhor Crucificado.Como 
todo feu defejo erajpadecer, & mais padecer por Chrifto; 
qualquer dor 5 que íe lhe tirava 5 era para elle grande tor- 
mento:&fô no padecer achava gofto5Ôc confolaçam. Di- 
vulgàram-fe logo por toda aquella Corte de Cachaó , por 
íer novidade nunca mais viftajos extremos de honra, que 
os Portuguezes fafiaó ao moço Cochinchina condenado 
à morte: & era tanta a multidão de toda a forte de homês, 
& mulheres,de meninos5& velhos, de Gentios, & Chrif- 
tãos,quc chamados da curiofidade,acudião ao Troco , que 
as guardas receando-fe de algum motim,começaraó a dar 
com varasjôc có paosja quantos podião alcançar;para que 
fe afaítaíTem. Por diligéte reparo de peíToa curiofa fe fou 



66 BREVES NOTICIAS DO 

be depois,€omo os que levàr ao algúa pancadajtodos foraó 
gentios j 6c nenhiim Ghriíláo : í-oíFe porque os Gentios fe 
chegariáo mais^& terião mayor curioíidade : fpíTe porque 
Deos quizelFe moftrar o cuidado,& patrocinio,que tinha 
de íeus queridos Chriftács. Entre os mais que foráo ver 
aquella novídadejhouye dousMãdarins Gentios: os qus- 
es perguntando da caufa da prizão,& fabida a fentença de 
mortejíicàrão efpantados de tanta íerenidade de rofto , & 
de tanta paz em hum moço , que dalli a poucas horas ha- 
via de ferjuíliçado5& morto. Admirados pois de verem 
tanta coniiancias & chorofos por fentiré a morte daquel- 
le innocentejíahiram doTroncojfem dizerem palavra.O 
meímo acontecia a quaíi todos os mais Gentios? que com 
grandes louvores conta vão depois a outros, o que tinhaó 
viílo com tanta admiração. Aos conhecidoSíà amigos5q 
conforme o coílume vinhão defpedirfe delle, os recebia 
André com grande agrado , 6c com fembJante m uy ale- 
gre;para que entendeíTem todos , como erão para elíe pa- 
rabens5& não pezames os que lhes davão;por morrer pe- 
la ley do Senhor do Ceo j & da terra. Porém aos Chriftá- 
osjque fe encomendavão a elle : refpondia, com lhes pe- 
dirjoencomédaíTem elles a Deos; por fer elle muyto gra- 
de peccador: 6c lhes fez húa breve exhortaçamjcncomê- 
dando a todos eíliveíTem firmes na Fè ; pois fem ella nam 
havia falvaçam das almas. Nem fua morte os atemorizaf- 
fe;porque não morria por culpajmaspor ter5Confeílar, 6c 
guardar a ley fanta de Deos: cuja graça dava tantas forças? 
que nem todos os tormentos , nem a mefma morte eram 
baftantes a porem medo: antes ferviam , para esforçarem 
mais o coraçãojatè nam fentir nem ainda as dores. Pedio 
no fim atodosjnão choraífem por fua morte; porque era a 
mayor mercê, q elíe podia pedir a Deos a vida ; pois mor- 
rendo por Deos,pagava a Deos a vidajque lhe devia: ôc ei- 
pcrava pelos infinitos merecimentos, 6c preciofo fangue 
de Chriílo Redemptor? trocala logo com outra nam ex- 

i polia 



REYNO DA COCHINCHINA. 66 
pofta a perigos , mas livre de todo o mal: nam chea de mi- 
fcriasjmas abundante de todos os bens: não temporal, mas 
eterna. Eftas palavras ditas com tanto fervor deeípirito, 
enterneceram de maneira os corações dos ouvintes nam 
ío dos Chrillãos^mas também dos Gentios , que começa- 
ram todos a chorar co m tanta copia de lagrimas , & com 
tantos foluços, que Andrcpara nam magoalos mais ? pa- 
rou com a pratica : & recolhidos os fentidos , eíteve hum 
breve elpaço como cuidadofo : depois chamou ao Padre 
Rodes, porque queria reconciliarfe. Nefta confiíTaó gaf- 
tou tanto tempo, quanto nas que fafía cada oito dias : nas 
quaeSíComo affirmou o mefmo Padrcjmuytas? & muytas 
vezes nam achava5de que o abíolver. 

Aparelhado já André com a graça facramentaíjfufpira- 
va fomente a dar a vida por feu Senhor , que morrera por 
elie: & levantando os olhos para o S0I5& vendo como an- 
dava ainda altojfe queixou porque não hia apreíTado. Eraó 
as quatro horas da tarde; quando chegou hum pagem do 
Mandarimja cujo cargo eííava a execuçam da fentençajôc 
trouxe avifo ao prezo por Chrifto , de como fe hia chega* 
do a hora de morrer;pelo q efti veíTe preíles, & fe quizeíle 
comerjO fizeíTe com tempo. Hum dos Portuguezesjque 
eftav^aó prefentesjpeííoa gravcjôc de bom juizo, vendo vir 
o pagem , & íabido o recado, que coftumava trazer , com 
particular curiofidade poz os olhos fixos no roílo de An- 
dré: para ver, fe notava nelle alguma mudança com feme- 
Ihante avifo: ôc lhe pareceo, como debaixo de juramento 
o confirmou depois, nam ver aquelle que dantes,pelo có- 
tentamento,6c prazer,que enchendolhe o coraçám, tref- 
bordàra então por fora no femblante. E bem o moftrou 
André com o foccego , com que tirando da manga da ca- 
baya , ou roupaó hum pedaço de doce , que chamaó bolo 
cartel hanojque lhe tinha dado pouco dantes o Padre Ro- 
des,para tomar algum alento debaixo daquelle pefado ju- 
joda canga: pedio hum púcaro de agoajôc molhando nel- 

lij la 



Gy BREVES NOTICIAS DO 

la o bo]o,o foy levando com grande gofto, & com muyto 
deícanço. O que vendo o Padre , acudio logo com mais I 
doccjConvidando-Oja que comeíTe ; mas efciifoufe André 
dizendojque já eílava íatisfeyto, nem era neceíFario mais, 
para chegar ao lugar da morte. Perguntoulhe o Padrej íe 
alguma couía lhe dava pena. Reípondeo;nenhúa: antes | 
tenho o coração tão contente, que não cabe em mini de ^ 
prazer. Ainda que ú\^ o náo diíIbíTejOs Portuguezes o ti- 
nháo jà a]cançado;por lhe verem os olhos tão rifonhos,ôc 
o rofto tão alegrcjque lhes parecia ver a hum Anjo, como 
depois contavão. Dadoeftetáo limitado alimento a feu 
corpo? tratou de tortalecermaisaalma comaâosde vir- 
tudes fobrenaturaes de Fè, de Efperança,& de amor para 
com Deos: offerecendofelhe todo , & a todos os tormen- 
tos,& géneros de morte por feu amor ? & para fua gíoria: 
^ repetia mais frequentemente os Santiííimcs nomes de 
JesvjÔc Maria :pedindolhes affecluofa, Ôchumilmenteo 
não defemparaírem;mas lhe affiftiílem , atè a cabar o con- 
fiiálo, & lhe deííem vidoria contra os inimigos da fanta 
Fè. 

Com eftas preparações foy achado do Mandarim , que 
pelas íinco horas da tarde chegou ao tronco acompanha- 
do de quaíi trinta foldados paraexecuçam da fentença> 
que fe tez defia maneira fegundo feu coftume. Repartê- 
fe os foldados em duas fileiras , todos a pè , levando armas 
nuas eo cofiadas ao hombro: huns catanas , outros lanças» 
%c. alguns outro género de arma chamada no Oriente, lá- 
guinadai he húa catana fixa em húa hafte de pao compri^ 
da mais de húa braça. No meyo defta triíte prociííàó vay 
hum íinojos Portuguezes o chamaó Bàticaicuj a figura he 
redonda, & de húa grande tapadora de boceta com huma 
como teta levantada no meyo, ôc tudo de cobre fundida 
Em lugar debadalo fe fervera de hum maço de pao en- 
volto empanosjcom o qual dando na teta, fahe hum fom 
niaisjou menos agudo, cólorrae a mayor, ou menor grof- 

fura 



REYNO DA COCHINCHINA. 68 
fura do metal. VayeítaBática pendurada de húa tranca 
levada aos hombros de dous homês: & tangcndoa de quâ- 
co em quandO;2pregoa logo hum foldado o crime do pa- 
deceníej& o género da morte , que íe lhe da em caftigo. 
Acabado o pregaó : todos osfoldados refpódem junta- 
mente gritando: íy Senhor; mas como peíToas que treme 
de medo deJReyjque manda fazer aqueJIa j uftiça. Qu^^ 
no cabo vay o padecente defcubertojcom feu cabello fol- 
tojcomo he coílumejôc bem compofto com as veílesjque 
coílumaô trazer fora de cafa,que faó compridas 5 & de fe- 
da de cor preta: ou com as que tinhaó em cafajquando fo- 
raó prezos^que faó também compridas ; poíto que de ou- 
tras coresjou branca 5 ou roxa: leva porém a canga aopeí- 
coço: & atras deile vay o foldado,que lhe hade dar a mor- 
te: o qual com a mão elquerda pega da ponta da canga 5 & 
traz na direita hum alfange delembainhado,& levantado 
em al#o. Fecha finalmente todo efte medonho acompa- 
nhamento a peífoa do Mandarim eííecutorja cavallo? ou a 
pè-ídc velHdo de ricas peças: para moílrar, como tem a fua 
mayor honra,& gloriajcm fazer juíliça. Deíla maneira fe 
encaminhou André para o lugar da morte 5 veftido de hu 
roupaó branco? com que eftava em cafa 5 quando o pren- 
derão. Foy reparOíque fe fez depoisjque não ouveíTe en- 
tre tantos Chriftãos ricosj quem lhe deífe hú roupaó pre- 
to; como quaíi fempreacontece,ao menos por eímolIa:6c 
fe atribuio à particular providencia de Deos:que quiz50U 
honrara André coma veíle branca v com a qualChrifto 
foy defprezado de Herodes;ou publicar a todos a innocé- 
cia de feu fiel fervo: que hia andando para o lugar do fu* 
plicio com tanto brio, & alegria» com quanta iria hú ven- 
cedor ) & triunfante para o Capitulo. Tinha concorrido 
grande multidão degen]te5Chriftáos,& Infiéis, pela novi- 
dade do cafo; pois atè então não fe tinha vifto condenaríôc 
dar morte a algum por caufa de Religião: & todos pafma- 
dos?não fabião de que fe admirarem mais :fe da conftãcia, 

I iij fe 



69 BREVES NOTICIAS DO 

íc do contentamento 5 que André moftrava em morrer, 
como diiia o pregÃo^pela Jey dos Portiiguezes ( affim cha- 
nrão os Gentios a iey dos Chriíláos. ) Mas o que caufava 
niayor cípantojera a preílajcom que andava^obrigándo os 
íoldados a correrem. O Padre Rodes, & os Portuguezes? 
que hído em leu ieguimentOjteftemunhàram, como cor- 
rendo,a penas o podiaó acompanhar. Nefte caminho de 
quaíi raeya legoa íe occupou o esforçado Ibldado de Chri 
itojparte em Te encomendar a Deos , pedindolhe a graça 
final, & parte em pregar aos foldados,que lhe ficavaó per- 
to: eníinandolhes o caminho para a vida eterna;comprin- 
do com iíio atè à morte com íua obrigação de Catequifta: 
& mofírado o deíejojque tinha da fah^açaó de luas ahiias. 
Houve húa velha ? c|ue levada de piedade , tinha compra- 
do algfras efteirasj para íe eftenderem , como he coíhime? 
i\o lugar aonde fe dà a morte: para que o padecente fique 
íbbre el]as5& o fangue não fe derrame todo na terra:& pe- 
dío ao Padrcjas mandaíTe eftender , para que tiveíTe eíFey- 
to eíle íeu piadoío deiejo. Mandouas o Padre eftender no 
lugar aífinado pelo Mandarim , que era em hum campo. 
Porém André, que quiz fer humilde atè na morte, não fe 
quizpôrfobre ellas:&logo antes que os miniftroslho 
raãdaííèm/e ajoelhou>& íe poz no fitio, em que o havião 
de matar. Levantando depois as mãos , íe deípeciio de to- 
dos os Chriíláos: pedindolhes , eftíveílem firmes , & fof- 
fem fieis a DeOs na guarda de íua fanta Iey até o fim da vi- 
da: nem tomaííem pena de íua morte; mas o encomédaC- 
íem a Deos , para c]ue coníervaíle a graça , & amizade do 
Senhor f esv atè a ultima reípiração,& para íempre. Com 
eftas íormaes palavras acabou a íua fala: & forão as ulti- 
masjque diíle aos homens. 

Em cjuanto pois íe deípedia : qs íoldadoSíComo he cof- 
tume,o cercarão em rodajficando o Mandarim executor 
atraz das coitas do padecente. Então aquelle , que eftava 
deputado5para lhe dar a morte , deípida acabaya exterior, 

para 



REYNO DA COCHÍNCHINA. 70 

para ficar mais defembrtraçado;foltou5 & tirou a canga do 
peícoço do Confeilbr de Chriílo, depois.de lhe ter atado 
fortemente CS braços atraz : & fazendo hunia profunda 
cortefia ao Mandarim ? lançou maó de húa lança de dous 
gumesjcujo ferro tinha mais de dous palmos de compri- 
do 5 & tre5 para quatro dedos de largo : fe chegou ao lado 
efquerdo de André , que contmuando de joelhos tinha o 
roíto para o Norte,& repetia fem interrupção em vòs in- 
telligivcl os fantiííimos nomes de Jesv, & Maria. Mas an- 
tes de enraltar o foldado com aquelle manco Cordeiro, 
conhecendo a fua innocencia 5 levantou os olhos ao Ceo, 
& diíTe em alta vòs: Ceojfe cometo peccadojcm matar eí^ 
te homem 5 perdoame; pois fou mandado. E logo dando 
em André com o conto da lança húa pancada nas coitas, 
virou de repente a ponta do ferro 5 & com grande fúria o 
atraveílbu do lado efquerdo ate ao direito: abrindo duas 
grandes feridas , das quaes começou a correr logo em rios 
aquelle fangue innocente: tanto mais preciofo, quanto 
mais veíinho ao coração. Naô defmayou o esforçado An- 
dre;antcs ficou ainda de joelhos : fomente levantou muy- 
to a vòsjchamando em feu foccorro a Jesv? & Maria. Em- 
vergonhado o cruel foldado de o nam matar do primey- 
ro golpe 5 fegundou mais f uriofo com outro pela mefma 
parte: & não contente de o atraveíTar, repetidas vezes lhe 
eífeve rafgandojôc cortando com in humana ?&: mais que 
ferina crueldade as entranhas. Pelo muyto fangucjque de 
todas as quatro bem raígadas feridas corria copiofamen- 
te^enfraquecido André foy inclinando a cabeçajfeguindo 
o exemplo de feu Redemptor: & cahindo fobre o lado di- 
reito, por fer boa arvore, ficou có o rofto para o Ceo , pro- 
nunciando ainda em vòs alta os fuaviífimos nomes de Je- 
SV5& Maria. Acudio logo outro foldado,& empunhando 
com ambas as mãos húa catana , lhe deu hum golpe pela 
garganta; mas vendo,que fomente lhe cortara algúa par- 
te do pefcoço > & ouvindo como ainda falava > arremeteo 

I iiij com 



71 BREVES NOTICIAS DO 

com outro golpesccm o qual lhe deixou a cabeça pendu* 
rada a húa baiidajíicando preza fomente pelo oílb da nu- 
ca : de tendo-o já por morto , retirouíe como vitorioío o 
Ímpio matador. Porém hua peíToa digna de todo o credi- 
to 5 que íç achava muyto perto aíirm.ou debaixo dejura- 
ramento : como pelos gorgomilos cortados , & cheos de 
íangue ouvira pronúciar por três vezes :Jesvs jesvs Jesvs. 

Com eíte íim gloriofo acabou o cófliólo deita vida mi- 
litante o valeroío André , alcançando vióloria dos inimi- 
gos de Chrifto: o qual piamente cremosjo levaria em tri- 
unfo para o Ceoya receber a Coroa prometida aos q mor- 
rem pelo feu fanío Nome. Foy o primeyro dos Cochin- 
chinas que deu a vida pela Fè: ficando por exemplo a feus 
naturaes,para o feguirem: ôcatodos os Chriftãosjpara eíli- 
marem mais a graça, & amizade com Deos ? como André 
diíiajque os bens deita terrajÔc a mefma vida. 

Executada a injufta,& impia fen tença aos vinte féis de 
Julho de mil & feíícentos & quarêta & quatro: fe retirara 
os foldados , deixando aquelle venerado corpo fepultado 
no feu próprio fangue. Chegaraó-fe logo o Padre , &os 
Portuguezes, & grande numero de ChriíMos, que aííiíli- 
ram a triunfal morte de feu CapitãOíôc Catequilh: & Ca- 
tequifta: & cada hum molhava,como podia, os lenços ; & 
toalhas , com que fe achava 5 naquelle fangue viòforiofo. 
Por ventura eráo mais as lagrimas de devaçaó , com que 
beijando-05molhavão aquelle ditofo corpo; quea reliquia 
do fangucque a cada hú lhe podia caber entre tanta mul- 
tidáojque o bufcava para guardalo como preciofo thefou- 
ro: & fe valerem delle em fuás neceíTidades : efperádo pe- 
los merecimentos defte fiel fervo de Chrifto 5 alcançar de 
Deos todo o bom defpacho a fuás petições. Houve hum 
daquellesPortuguezes, que por ficar mais perto a André, 
lhe defpio logoacabaya enfopada em fangue;porque com 
ella fazia melhor negocio, enriquecendo muyto mais fua 
cafa com aquelle preciofifíimo morgado; que com quan- 
tas 



REYNO DA COCHINCHINA. 72 

tas ganâncias podia levar da Cochinchina. Mas pouco fal- 
toujque lhe cuílaíle a vida;porque foy logo acometido de 
tantos Chriftãqsjpara lha tirarem das máos;ao menos para 
que a repartiííe com ellesjque le vio aíFogado, & morrera 
pelo muyto aperto em que íe achavaííe o Capitão Rezen- 
de naó lhe acudira a deíembaraçalo. 

Ficàraó aíTom brados os Gentiosjquando viraó efta no- 

vidade,de bufcarem com tanto empenhojôc ainda perigo 

algúa coufade hum mort05&juítiçado; por terem aquel- 

Jes naturacs grande nojo não fomente ao corpo morto> 

mas também a toda a coufa?que o tocaíTe : nem fabendo a 

cauía defte eílranho fucceíTojfufpenfos preguntavam aos 

Chriílãos. Reparou o Padre Rodes na perturbaçanijque 

havia naquella multidão de infiéis: & para focegalos, lhes 

fez húa praticajdandolhes noticias da rafaó, que os movia 

a fazerem aquella demonftraçaóídizendo: Como aquelle 

Moço morrera, por adorarjôc guardar a ley doSenhor, & 

Creador do Ceo^da terrajôc de todas as coufas ; pelo que o 

mefmo Senhor 5 que temfua Corte fobreos altos Ceos, 

havia de apremiar a íua alma ? com lhe fazer muytas hon- 

ras,6c mercês na outra vida; vifto ter elle perdido efta por 

fua caufajôc ferviço. Aííim os que ífto íabiaójqueriaó hó- 

ralojcom ter algúa coufa fuajfoíle do veftido ? foíTe do feu 

corpo; para que elle ficaíTe obrigado a alcançar de Deos as 

mercês 5 que por feu meyo cada hum lhe pediíle. Nem 

cuidaífemjque aquelle corpo, por ficar ferido , degolado, 

& morto,tivera por iíFo fim defgraçado;pois no dia , em q 

todos os homdns haviaó de refurgir , para ferem julgados 

de Deos Creador de todos ; para que cada hum diante de 

todo o mundo recebeífe na alma , & no corpo o premio> 

ou caftigo eterno,que mereceo com as boas,ou mas obras> 

que fizera nefta vifta: refurgiria entam aquelle corpo mui 

inteiro , & glorio fo: & das partes , em que mais padecera, 

fahiriam mayores refplandores: & terá tanto mayor gozo 

no Cecquanto mayor foy apenajque fofreo na terra,por 

K fer 



79 BREVES NOTICIAS DO 

fer fiel a feu Creador, & Senhor. Muyto mais admirados 
ficaram aqueiles kiolatras;por ouvirem couías tam novas 
para el1es5 porém tam conformes5&: ajuftadas à rafam. Né 
deixou de dar fruto a palavra de Deos , que cahio em boa 
terrarcomo fe vio depois nos muytos bautilmos5que hou- 
ve. 

Em quanto o Padre pregava aqueiles Infiéis: os Portu- 
guezes com algíis Cochinchinas veftiraó o corpo do glo- 
riofo Confeíibr de Chriílo com hum roupaó novo de fe- 
dojque oífereceo hum devoto Chriííaó da terra por nome 
Antonio:& puzeraóno dentro de hum caixão de pao pre- 
ciofojcom prado com as efmolas de outros Chriílãosidefe- 
jofo cada qual delles de honrar a feu Catequifta , & Capi- 
tãO)que pregara com dar a vida5& lhes ganhara có a morte 
a primeyra víéf oría contra os inimigos da fanta Fè. Foy 
levado eíre rico thefouro de noyte,Ôc fem eílrondo a Fay- 
fo;para q os Gentios não lho tiraíTem das mãos3& naó lhe 
fizeíTem ajgum defacato. Na noyte,aberto o caixão , foy 
concertado o fagrado corpo em melhor forma: &para 
que fe confervaíiè mais tempo, lhe tiràraó , & falgáraó os 
ínteftinos. Os Portuguezes queriaõ levalo todo para Ma- 
ção; mas o Padre Rodes determinando- fe a fe deixar ficar 
efcondídojpara não defemparar acjuelíerebanho em tem- 
posjcm que os lobos de tantos Mandarins Gentios o aco- 
metiaó , para fe fartarem do fangue de tantos innocentes 
cordeiros: tomou a cabeça para devaçaó? & cófolaçaó fua> 
& também de todaaquella Chriftandadcjque fentia mui- 
tj^jficarem fem aquella rica préda do corpo. Porém o Pa- 
dre os foy confolando com dizer: Em tempo de perfegui- 
çóes, em que naó havia Igrejas na Cochinchina? nem lu- 
gar feguro para as coufas lagradasjcom dificuldade fe po- 
deria efconder a cabeça: Ôc mayor obfequiofe fafia ao glo- 
riófo Confeífor de Chriítojcó guardar por agora feu cor- 
po decentemente em algua Igreja de Macaojque enterra- 
la na Cochínchina em algum campo expoílo às injurias 

do 



REYNO DA COCHINCHINA; 74 
do tempo: & arrifcado a fer defcuberto, & outra vez mal- 
tratado,^: por ventura queimado pelo ódio , que os Man- 
darins gentios tinhaó ao^Chriílács. Poreftas rafóes vie- 
raó,a que os PortuguezeslevaíTem o corpo,para depoíita- 
Io em Macao : &c íe guarda decentemente na Capei la do 
Collegio dos Padres da Companhia de Jesv. Porém a ca- 
beçajquando o Padre Rodes depois de alguns annos foy a 
Roma por negócios das mifsó es, toi levada por elle àquel- 
la íanta Cidade , para oíFertar aquellas primicias da Igreja 
deCochinchina: ôc ficar também por final , & penhor de 
outros muytosjque haviaò de dar o íangucjÔc perder a vi- 
da pela Religião Chriftã Catholica Romana. 

Naó deixou Deos de honrar feu fiel fervo? moílrando 
fijainnocenciajôc acreditando feus merecimentos. Três 
dias depois de fija gloriofa morte fe ateou o fogo em Ca- 
chaóíôc abrazou os lugares de adoração fuperfticiofajquã- 
tos havia ao redorjaonde o Cófeflbr de Chrifto efteve pre- 
' zo,fentenciado) & morto. Pegou também dalli a poucos 
dias a fegunda veZjÔc queimou o troncojcm que o prédè- 
ram: & foy c^rrendojBc abrazando todas as caíasjque fica- 
vaó no caminho^por onde o levàraó,para o matarem. De 
mayor admiração foy outro fuccefibjque houve nefte in- 
cêndio ; pois ficava nefte caminho a cafa de hum Manda- 
rim Gentio Capitão de galé: o qual quando ouvio, que os 
Portuguezesjôc Cochinchinas Chriftãos fafiaó tanta efti- 
maçaó do gloriofo André , tomando com tãto acatamen- 
to algúa fua reliquia: cheo de furor^ôc de ódio contra a ley 
dos Chriftãosjfoy ter com o Governador 5 ôc lho pedio lí- 
cençajpara cortar aquelle corpo em poftas: & o fizerajfe o 
Governador lhe confentira. Qu^i^^opois efte Manda- 
rim vio o fogo tão defenfreado5& tão perto de fua cafa? & 
fem remédio : ôc ouvio os gritos de todos aquelles idola- 
tras , que bradando difiaó : fer aquillo evidente caftigo do 
Ceo; por terem morto injuftamentea hum innocente,& 
fanto : começou a temer 5 & pedir perdaó ao Senhor do 

Kij Ceo: 



75 BREVES NOTICIAS DO 

Ceo: Sc toniou pot feu interceíTor ao beraavêturado An- 
dré: pedindolhe com rogos5&: lagrimas lívrafie do incên- 
dio aquella fuacala. Gaíomaravilhoíojíenaó foy mila- 
grofo: ficaram as mais caías ao redor em cinza; íò a do Mã- 
darim arrependido ficou no meyo como em Ilha/em lhe 
chegar o fogo. * 

Porém o que merece mayor eftimaçaó , fam as mercês 
erpirituaes5que Deos feZjÔc repartio pelos merecimentos 
defte feu amado ? & amante fervo. Contava o Padre Ale- 
xandre Rodes: como depois da morte do ditofo Catequi- 
fta André fe acendeonovo fervor nos peytos daquelles 
novos Chriífáos: ôc creceo tanto em alguns, que queriam 
^ ofFerecerfe ao Tyrano , por defejo que tinhão de morreré 
também elles por Chriíto. Mas o Padre lho prohibio : af- 
fim porque ninguém fe havia de fiar de fuás forças;como 
também para naó irritar mais o furor dos perfeguidores 
com evidente rifco de mayores danos da Chriítandade. 
Em huma cartajque o Padre efcreveo a Macao , difia eftas 
palavras: Ate aquellesjque eífavam friosjcom eífa glorio- 
fa confifiaó da Santa Fé ficaram arrependidos : & logo me 
vieram buícarjpara íe confeííarem; fendo affim que havia 
jâ mais de dez annos , que o naó tinhaó feyto. Em outra 
tombem acrefcenta : Vay efta Chriífande cada vez crecé- 
do mais:&: agora com eíla nova femente do fangue do Sá- 
to Martyr confio em o Senhor? que ha de dar ainda mais 
copiofo fruto:&jà o vou experimentando; porque algús 
ChriítáoSjquchavia jà muytos annos, tinhaó largado a fá' 
ta ley* tornaram arrependidos para o rebanho de Chriifo: 
de atè os 01andezes,que aqui eftam,ficam abalados com o 
novo Martyr : & alguns trataram comigo de fua reconci- 
liaçam5& confifiaó. ixJc 

Preciofa he na verdade a morte dos Sátos : preciofa pa- 
ra elles;pois entram na pofile dos thefouros da gloria : pre- 
ciofa para nòs pela rica herança de virtudes 5 Sc de exem- 
plosjque nos deixam;para que feguindo nos fuás piladas, 

che- 



REYNO DA COCHINCHINA. jS 

cheguemos a reynar com elles no Ceo. Aquém naô ad- 
mirara tanto delapego das coufas do mundo, & da mefma 
vida em hum moço de dezanove annos de idade que fem 
exemplo de algum feu natural 5 largando com tanta ale- 
gria as efperanças , & os paíTatempos da vida ? fe oíFereceo 
com tanta fortaleza aos tormentos,& à morte; fò para não 
perder a graça ? & amizade do Senhor Jesv? Quam longe 
diíTo vão naó poucosjcj por qualquer leve cóveniencia tê- 
poral? por qualquer breve gofto do corpo dam as coftas a 
Jesvjperdendo lua graça? & pondo-fe no infernal cativei- 
ro do demónio. Sirva de reprehençaó,ou ao menos de a- 
moeílaçam aos Europeos,criados com tantas pregaçoens, 
& com tantos Sacramentos -> & cora tantos exercicios de 
piedadejO exemplo de hum Ariatico5moço56c nafcido no 
meyo da Idolatria. Eftimemosa Deos mais que todo o 
creadó;pois fora de Deos todo o mais he nada : 6c perden- 
do a Deosjperdemos tudo. ♦ 

CAPITULO VI. 

Noticias de Vicéntey Ignacio^ ú^ de outros Chrijlaos, 

A M longe ficou o tirano Oum Nhebo 
de meter medo aos Chriítãos coma in- 
juftafentençaíôc cruel mortCjque deu ao 
innocente André ; que doze Cateq uiftas^ 
que fe achavam em Fayfo, para tomarem 
as inftrucçóes do Padre Alexandre Ro- 
des defterrado para Macaojtodos importunavaó có contí- 
nuos rogos ao dito Padrcjque lhes deffe licençâjparairem 
a Cachaó,& aparecerem naquelle campo;aondeos inimi- 
gos da Fé eftavam armados de ódio no coraçam, & de fer- 
ro nas mãos : & para fe prefentarem també ante ao mef- 
mo Oum Nhebo ? defejando cada hum delles confeííar a 
Chrifto nos Tribunaes,& alcançar a cufta do próprio fan- 

Kiii gue 




'jj BREVES NOTICIAS DO 

^ue a mercê de morrer por feu Deos , & Redemptor. O 
Padre louvava o bom defejo de todos? & animava- os a pa- 
decerem por Chrifto;porem foy detcndo-os com eílas ef- 
peranças atè partir a nao para Macao:& logo que deu à ve- 
la no principio de Agofto: (para fenaó arriícar toda aquel- 
la Chriírande : & também para le impedir algum fervor 
indiícreto dos Catequiílas , que por ventura levados mais 
do brio taó natural àquella naçam;que doinftintodo Ef- 
píritu Saritoje poriam cm perigo , em que Deos pela fo- 
bcrba os nam favorecefie) o Padre levou-os cóíigo para as 
Provincias do Norte, que defejava vifitar ; para coníolar, 
animarjôc diípòr aquellas numerofas5& f ervorofas Chrif- 
tandades para as pelejas cótra os inimigos de Chrifto; por 
haver naquellas Provincias muytos Mandarins muycó- 
trarios à Religião Chriftã. Indo pois o Padre correndo a- 
quellas Igrejas; poílo que o fizeíTe com toda a cautekjpara 
não íer delcuberto: com tudo depois de quaíi hum aono> 
no principio do mez de Junho cahio venturoíamête nas 
mãos das vigias: das quaes foy prezo com nove Chriftão^, 
boa parte delles -, Catequiftas : que naquella occaíiaó fe a- 
chavam com elle : 6c levados todos para Si noa , Corte do 
Reynojdeo-fe parte a ElRey da prizam. Tanta foy acole- 
rajque ElRey concebeo contra o Padre ( aífun por conti- 
nuar em prègarjo que elle tinha prohibido ; como també 
por lhe na2ii ter dado o prefentCjque lhe coftumava levar 
o Padre,que vinha na nao de Macao: cuidando , que o Pa- 
dre Rodes tornara naquella monçaô;por nam faber 5 que 
fe deixara ficar efcondido ) que deu logo fentença contra 
o Padre , condenando-o à morte. Mas reparando depois 
no arrem.eço de feu furor^ôc no mal 5 que lhe poderia vir 
dos Portuguezesjque fe vingariaó da morte do feu Padre: 
perdooulhe a vida ) trocãdolhe a morte em perpetuo dcf- 
terro do Reyno. 

PoftoqueoPadredefejaíTe ficar; pois as ameaças del- 
Rey nam abriam brecha em feu apoílolico coraçam: & os 

perigos 



REYNO DA COCHINCHINA. 78 

perigos da vidajôc a meíma morte eraó para elle as drogas, 
que eJJe la bufcava,mais preciofas q o fino ouro daquellas 
minas 5 & o cheirofo Calambà de feus matos có tudo nam 
lhe foy poílivel pelos apertosjem que o puzeram, obrígá- 
do-o a partir. Pelo que com grande laítima, & pratos dos 
Chriftáos 5 por ficarem fem Sacerdote , expoílos íçm Paf- 
tor aos aílaltos de tantos lobos carniceiros: & com grande 
dor5& cótinuas lagrimas do Padre ; por deixar aquelle re- 
banho fem emparo; fe embarcou para Macao aos nove de 
Julho do anno de mil & feifcentos & quarenta & fin- 
co. 

Logo que os nove prefos por Chrifto chegarão a Sinoa> 
foram levados para o carcerejque, como fe tem dito , he a 
cafa do Mandarimja quem ficam entregues : ou húa cafa, 
aonde osfoldados fazem fuás vigias. Laos foram bufcar 
muytos Idolatras apoílados aos perverterem: huns movi- 
dos da compaixão: outros inftigados do ódio contra a Ley 
de Deos. Aquelles com as efperanças das mercês, que El- 
Rey lhes faria 5 fe lhe deffem efte gofto de largarem a ley, 
que elle prohibira ? & tanto aborrecia. Eíles porém com 
as ameaças dos graves tormêtoSj&; cruéis mortes , que pa- 
deceriaójfenaó obedecefi^em às ordens Reaes. Mas como 
os esforçados foldados de Chrifto punham fuás efperan- 
ças nos bens eternos: & defejavaó padecer muyto por feu 
Senhor 5 que muyto mais tinha padecido por luas almas, 
ficavam immoveis , & a todos eftes aíTaltos muy conftan- 
tes. Vendopois como nem os prémios prometidos, nem 
os caftigos ameaçados eram baftantes a abalalos, & muyto 
menos a que viraífem cara5& deíTem as cortas á ley5que ti- 
nham abraçados : os quizeram ganhar com rafóes dizen- 
do: Nam parecia bem trocar a Religião de feus antepaf- 
fadosjôc de todo aquelle Reyno com húa de huns horriés 
Portuguezes vindos de tam longe,cuja profifi^aó finalmé- 
te era a mercancia : nem hum Sacerdote Europeo podia 
prevalecer na authoridade a tãtos, Sc tão letrados Bonzos 

K iiij da 



79 BREVES NOTICIAS DO 

da Cochinchina. Sercoufamuy arrifcada, o paíTarfe de 
huma a outra ley;poís nam havia menos perigcque de al- 
cançar,ou namjhúa bemaventurança na outra vida.Nin- 
guem poderia reprehenderja quem íeguiíle a Religião de 
íeus PaySíaos quaes os ii lhos deviaó toda a obediência ^Sc 
deviaó .conformarfe em tudo ; por ferem parte delles : Sc 
por iílb a natureza oscoílumava aííemelhar aos Paysnas 
feições do corpo5para que os filhos entendeífemjque naó 
deviaó íer diílemelhantes aos Pays nas aíFeiçóes da alma. 
Náo fe podia duvidar da verdade da Religião , que tivera> 
& guardara por tantos feculos todaaquella fua naçaó: em 
que fempre houve homés eminentes , & de grades letras. 
Nem o Creador do género humano havia de permitir , q 
tantos milhares de homens, & por taó largos annos igno- 
raífem o culto,& ceremoniasjcom que elle queria fer hó- 
rado delles : ou que eiles erraífem no caminho da bema- 
venturança,para a qual os tinha creado. Atalharão os có- 
felhos dos amigos fingidosjas lagrimas, ôc foluços dos pa- 
rentes mais chegados: pedindo aos prezos có o empenho> 
que coftuma por o amor confiado. ReparaíTem ao menos 
na infamiaíCom que ficariam elles,& todos de foas famíli- 
as por húa defobediencia tam publica às expreílàs ordens 
de feu Rey aquém deviam os vaíTallos toda promptidam 
no obedecer , ainda que lhes cuíiafie a vida : pofeííem os 
olhos na pena,que todos os parétes tomariaó de fuás mor- 
tes: tiveílem compaixam de fuás famílias pelas moleítias, 
& perdasjque receberiam dos miniílros reaes na confiílàó 
dos bens:& íoubeírem,como não era lícito, fere tão cruéis 
com aquelles , com os quaes a natureza os tinha unido có 
o forte vinculo do fangue , & apertado com as particula- 
res obrigaçóes de reciproco amor. Não pretendiam elles> 
obrigalos a que largaíTem a ley, que tinham tomado , fe a 
julgaííem verdadeira: fô lhespediam,que moílraflem dei- 
xala no exterior ; para ficarem elles livres dos tormentos, 
6c da morte, ôc os parentes do defcredito para com todos, 

ôcdos 



REYNO DA COCHINCHINA. 8o 

& das vexações dos miniftros. Nem havia duvida , que ò 
poderiam fazer aiTim;pois fendo a Religião virtude da al- 
ma5& a obediência a feu 'Rey obrigaçam do corpo;podião 
facilmente dar a cada humjO que lhe pertencia : &z crer, o 
que lhes pareceíiè melhor: & fazer? o que lhes foíTe man- 
dado por feu Reyjôc Senhor. 

Atodaseílas batarias eíliveram tam firmes os foldados 
de Chriílojcomo fe com elles naó fora a peleja. Molefta- 
dos porém ficàraó nani pouco;por ouvirem eftas , & fe- 
melhantes rafóes? todas fugeridas da muyta ignorãcia das 
coufas de Deos. Pelo que hum dos nove, mayor entre os 
Catequiftas por nome ígnacio , movido â compaixam da 
cegueira de feus amigosjôc parétes 5 começou a dizer def- 
ta maneira: Irmãos5& Irmãs mayores ( titulo honrofoj c6 
que coftumam honrar as pefibas iguaes 5 com que falao.) 
A verdadeira Religião he aquella,que venera 5 & adora ao 
Creador5& Confervador de todas as coufas; pois toda a o- 
bra deve reverenciar aquém a fez 5 & con ferva no feu fer. 
Nem por fer ley nova para nòs; por iíTo deixa de fer ver- 
dadeira^Sc melhor; porque o noíto entendimento vay ca- 
da dia alcançando novas 5 Ôc melhores noticias das coufas: 
de cada dia fe vão aprendendo novas,& melhores artes? ôc 
cuftumes. O fer pois eftrangeiro o Mefrrcjque enfina; 
naó deve fer de impedimento 5 para fer ouvido 5 & fegui- 
do:de outra maneira naó feria licito a nòs? chamarmos 
médicos de outras naçóes? nem ufarmos de medicinas et 
trangeiras. O que importa 5 he que os medicamentos te- 
nhaó virtude para farar 5 & o medico ciência para os apli- 
car. Affim mefmo na efcolha da Religião deve-fe fò exa- 
minarífe he ella em tudo aj uftada com a raíaó ; pois fendo 
o homem racional, naó deve ter leyjque encontre a rafaó. 
A ley pregada pelos noíTos Ronzos ? & guardada atègora 
dos noíTos antepaíTados enfina a adorar huns homês? que, 
pelo que achamos em noíTos livros,forara em tudo como 
nòsj tiveram Paysjavòsjôc bifavos, foram cafados ? tiveram 

L filhos 



8i BREVES NOTICIAS DO 

íilhos;nem lemos? que algum dellesfízeíIeoCeo nem a 
terrajÔc muyto menos que crealTe o homem. Que verda- 
de achamos logo neíla Religiaó,que nam enlina a conhe- 
cerjôc muyto menos reverendar5& adorar ao Creador do 
CeO:&: da terra , & de todas as couías! A ley porém 5 que 
tem os Portuguezes -, & eníina efte Meílre Europeo , he 
muy conforme atoda a raíaó: &nosdà particulares , Ôc 
iTiuy diílintâs noticias de hum Creador de todas as couías, 
Ôr de fuás perfeyçócs ? & do premio eterno guardado na 
outra vida para os bons;& també do eterno caífigo amea- 
çado aos mãos. Sey eu muyto bem as obrigações, que tem 
os filhos de feguircm as pifadas de feus Pays,& de fe con- 
formarem com elles ; porem iíTo entende-fe , quando os 
Pays obrarem bem fegundo os diòfames da rafaó. De ou- 
tra maneyra feriaó os filhos obrigados a roubarem, & mê- 
tirem; fe os Pays forem ladroens, & mentirofos. Naó ig- 
noro o acatamentOjÔc obedienciajque devemos a ElRey; 
mas como todos os Reys eílejam fogeytos ao Creador 5 ôc 
Rey de todos , feria erro muy culpável , deixar de obe- 
decer,& de reverenciar ao Rey de todos os Reys, para dar 
gofro3& fazer,o que manda hum Senhor de hum Reyno 
. particular. Nem haja,quem ponha culpa em Deos Crea- 
dor de todas as couías , por chegarem a nòs depois de tan- 
tos feculos as noticias deíla ley,que he único caminho , q 
leva as almas à eterna bemaventurança;porque fe faltarão 
atègora, os que a intimaííem exteriormente , nam faltou 
nunca a interior voz da rafaó, que a apregoou fempre , & 
enfinou a adorar ao Creador de todas as couías , a fugir do 
vicio 5 & abraçar a virtude. E fe efte Senhor do univerfo 
nos mãda agora feus miniftros, para que nos tornem a in- 
culcar as obrigaçóesjque lhe devemos como a CreadorrÔc 
nos dem particulares noticias , do que elle movido de fua 
mifericordia tem obrado como Redéptor,para livrar noí^ 
fas almas do eterno caffigo, que merecemos por noíTog 
peccados: iíto fò provajôc moítra, como nòs ficamos mais 

obriga- 



REYNO DA COCHINCHINA. 82 

obrigados, que os noíTos antepaíTados a fervílo , & amalo: 
he novo favoríque nos faz ; não he emendar elle algu er- 
ro,que cometera ? em não nos ter dado nos tempos paííà- 
dos eílas noticias;poisquem poderia culpar a feu Rey , fe 
elle lhe não mandaíTe dizer logo as grandes mercês? que 
lhe tiveíTe feyto de novo 5 bailando ao vaíTallo faber , que 
he feu Rey5& Senhorjpara fervilojamaloj&dar a vida por 
elle. Pelo que admirame muyto o falamos de mudança 
de ley:& muyto mais me efpanta 5 o queremos perfuadír 
iíTo com os medos da infâmia? da perda dos bens 5 dos tor- 
mentos5& da morte: vendo nòs cada dia nefte noíTo Rey- 
nojcomopeloferviço delRey fe tem por grande honra? 
6c priraorjdeixar os Pays,perder os bensjencontrar os pe- 
rigos, & oíFerecerfe à morte. Se logo tudo iííb devemos a 
hum homenijfò por nacermosem fuás terras; quãto mais 
deveremos ao Senhor do Univerfo,não fò por fermos na- 
eidos neíle feu mundo,mas também por nos ter creado, 
& confervado efta vidajde que agora gozamos :& prome- 
te outra muyto melhorjõc eterna aos que fielmente o fer- 
virem. Dizer pois^que bailará empregar no feuferviço 
fomente as operações da almajdando a EIRey as acçoens 
do corpo : he engano , & feria falta enormiílima ; víílo o 
Creador fer Senhoj não menos do corpOjque da alma,[& 
virando-fe Ignaciopara feus companheiros prezos lhes 
diíTe. ] Oífereçamos ? & coníagremos meus cariffimos Ir- 
mãos mayores o corpoja alma ? & quanto temos ? a Deos; 
pois elle nos tem dado tudo: & fò deíla maneira morrere- 
mos gloriofamente a eíla vida miferaveljôc temporal? pa- 
ra vivermos outra feliz5& eternamente. 

AíTombrados ficaram os ouvintes : os de melhor juizo 
acharam muyto?de que fe admirar?aííini nas coufas ditas, 
como no ferem ellas tão ajudadas a toda a rafaó: & fò com 
o fílencío as aprovàram,nam fe atrevendo pelo medo a fe 
confeflarera convencidos. Porém os de pouco entendi- 
mento tivííram a conílanciapor obílinaçaó:6c hús os cha- 

Lij màram 



83 BREVES NOTTCIAS DO 

jnàrasn ioiicosjoutros lhes ameaçaram tormétos , & mor- 
tes: 5c todos fe foramjou convencidos 5 ou deíenganados: 
ficando os prezos por Chriílo com a vitoria. 

Naó foy largo o defcánçOíque tiveraó depois defte pri- 
meyro afíalto;porque logo foram levados todos nove pa- 
ra a caia de hum Mandarmi,grande miniftro, para efte co- 
nhecer de íuacauíà. Oqualperguntoujporqueacompa- 
nhaváo ao Padre dos Portuguezes? Tomou a mão Igna- 
CÍ05& da parte de todos refpondeo: A rafamjque os movia 
a irem com o Padrcjcra o defejojque todos elles tinhaójdc 
pregarem a Ley de Deos Creador do Ceo ? & da terra a Te- 
us patricios,para q o conheceíTemjO ferviíTem 5 & o amaf- 
lem: & depois deita vida podeíTem receber delie o premio 
eterno noCeojCorte do Creador de todas as caufas.Ouvio 
eíla repoílâ hum Principe de íanguejque fe achou preíen- 
te;& com a foberaniajCjue lhe dava o parentefco Realjdif- 
jfe: Nam iabeis vos outros o ódio, que té ElRey a eíTa vof- 
fa ]ey;porque a nam largais? Largala, nem queremos , nê 
devenios;díífe Ignaciojpois he ley verdadeira? & ley dada 
pelo Senhor dos Senhores,& Rey dosReys.PoiS5iepJicou 
o Principe, El Rey vos mandara matar. Para tudo eíhmos 
oíFerecidos;refpondèram todos. Admirarara-fe os prefen- 
tes da firmeza dos fervos de Chriílo. Mas o que mais afsó- 
broujfoy a repofta de hú menino de treze annos por no- 
me também IgnaciojO qual diííe em voz alta? & animofa- 
mente. Que queria antes morrerjque deixar a ley do Se- 
nhor do Ceo:& le ElRey por iílb o mataíTe; não efcaparia 
do eterno 5 & merecido caftigo no inferno. Repofta ver- 
dadeyramente admirável : & podia baftar para aquelles I- 
dol atras conhecerem a verdade da Ley de Deos ; pois tó- 
mente elle podia esforçar o animo de hum menino, ?tqué 
he muyto mais natural o temor dos tormento^,&o r^mor 
da vida. Vendo pois o Mandarim a conftancia dos 'prezos 
em confeílarem, o que fe lhes impunha por crim^e , man- 
dou lançar alli a canga atodos , & leyalas.outra: ^ez para o 

tronco. 



REYNO DA COCHINCHINA. 84 

tronco. No caminho reparou hum íoldado Gentio 5 co- 
mo o pezo da canga vencia as forças naturaes do menino 
Ignacio: & movido da compaixam , chegoufe a elle , para 
alivialo;mas refeftio Ignacio5& por nenhum cafo quíz fer 
aliviado: como quem íabiaíqueacharidade do foldado era 
para elle a mayor crucIdade;porque quanto mais leve lhe 
ficaíTe a canga,tanto menos pezo de gloria teria no Ceo. 

Muy to mais alegres tornaram os ConfeíTores de Chri- 
fto para o cárcere; porque começavaó jà a receber as hon- 
f as5& regalos5que bufcavaó,no padecer por feu Redemp- 
tor. Mas conhecendo a neceffidade^que tinhaó,dos auxí- 
lios do Ceojpara alcançarem viéloria cótra os poderes do 
inferno;deram logo ordem acomporjôc mudar o lugar da 
prizaó em cala de oraçaó:& para que os rogos foíTem mais 
poderoíos5& efficazeSjrezavaó a coros, & em voz compe- 
tentemente alta o Rofariojas ladainhas ? & outras orações 
coftumadas naquella Chriílandade, vertidas todas na lin- 
goa Cochinchina. A novidade chamou primeyro os ve- 
íinhosj & depois também os que moravaõ longe , a ouvi- 
los;pGrem a modeftia , com que rezavaó 5 & as coufas que 
cantavaójconcihavam naquelles Infiéis muyto mayor ad- 
miraçam. Ficava alli perto a caía de hum Mandarim cu- 
ja mulher reparando no canto tam devoto 5 mas não per- 
cebendo bemjo que-difiaójmandou chamar o menino Ig- 
naciojôc quiz lhe cantaffe as oraçóes,que coftumavam re- 
zar: o que fez com muyta graçajôc devaçaó. Ao outro dia 
mandou vir outro prezo por nome Miguel , & depois de 
ouvir outra vez as orações dos Cbriftãos? admirada, & có- 
pungida pelo que ouvira 5 diíle : Muy verdadeyra he eííà 
voíía ley;pois enfina coufas tam boas?&: tam conformes a 
toda a raíaó. Nem menos proveitofa he ella aos Prínci- 
pes , & aos povos ; vifto vofoutros pedires ao Creador de 
todas as coufas a faude para ElRey5& as felicidades para os 
Vaílallos: fe eu naõ receaíTe a ira^ôc o caft igo de meu Rcy 



& Senhor, vos poria logo a todos em libérdade;poís naõ io 

Liij fois 



8^ BREVES NOTICIAS DO 

íoisinnoccntes, mas também merecedores de todo o fa- 
vor. Voltai embora para voíTos cópanheiros : neai o gra- 
de Senhor do Ceo,por quem padeceisjvos deixará morrer 
de fome. Mandoulhe dar logo hum cefto de arroZj & dcf- 
pedio-odefy. 

Naó efcava ociofo notroncoo Catequifla ígnacio;por 
que a quantos o vinhaó verjprègava a Ley de Deos ? con- 
firmando-a com rafóes5às quaes os Idolatras nam podiam 
contra dizer ; por ferem muy claras pela luz do inftinto 
natural. Correo a fama defl:eexceÍ]entePrègador,&mo- 
veo a muy tos Mandarins de armaSíôc de letras , a irem ao 
cárcere 5 para ouvilo. Todos achavam claras foi uçóes às 
fuás duvidasj&rafóes muy convenientes para aprovaréa 
leysque Ignacio eníinava: & fe naó fora o medo de perde- 
rem a graça delRey, muytos alli mefmo receberão o bau^ 
tifmo. Como o fez hum Mandarimjque fe achava prezo 
no mefmo tronco, o qual juntamente có fua mulher foy 
bautizado por Ignacio : dandoàquelleo nome deAnto- 
ni05& a eíla o de Anna. 

Defejava muy to ElReyjaíTtm pelo ódio à Ley de Chri- 
ftOjComo pelo amor à fua authoridadcreduíiríOU perver- 
ter os nove valerofos foldadosjôc fieis fervos dejesv Chri- 
ítojôc por iíTo duas vezes mandara occultamente ao tron- 
co hum Mandarim naó menos grande na aftucia, que nas 
armas com reaes promeííàs da vida fe largaílem a Religião 
eílrangeirajôc prohibida por públicos pergóes. Porém ef- 
te miniílro luciferino, éc Capitão das trevas infernaes a- 
chou fempre refiflencia nos esforçados peytos dos Con- 
feíTores de Chriífo-.ôc ambas as vezes fe retirou vergonho- 
famente 5 deixando no cárcere todo o campo aos prezos 
vencedores. Bramia ElRey com furor , vendo defpreza- 
das fuás promeílas , & rejeitadas as mercês das vidas ; mas 
naó quizjque fe fizeíTe publica accufaçam dellesjem quã- 
to o navio de Macao,& o Padre Rodes eíliveffem no Rey- 
no: receando-fe muy to da conftãcia dos prezos ; pela qual 

con- 



REYNO DA COCHINCHINA. 86 

condenando-os depois à morte,ficaria fua real peíToa mais . 
deíacreditada;porque menos obedecida, & iíTo diante dos 
olhos de Eílrangeyros : & os corpos mortos feriaó honra- 
dos pelos Portuguezes. Alem diílo os inimigos da Fé ú- 
nhamporcertaa vicloria daquelle pequeno eíquadram 
dos nove cavalleyros de Chriílo tanto que lhes faltaíTe, & 
fe aufentaíTe delles o Padre Rodes feu Meíírcôc Capitão. 
PaíTados logo íinco dias > depois de fe fazer à vela a nao cõ 
o Padre Rodes para Macao : mandou ElRey vir os nove 
Chriftáos diante de fy na publica audiência , que coftuma 
dar defta maneira. AíTentado ElRey em huma cadeyra a 
modo de charola, he levado fora do Paço : que he quadra- 
dojôc muyto vaílo;por caufa de terem as cafas ao mais do- 
us fobrados: & além dos pateos interiores ? ôc falas publi- 
casjter ElReyja Raínhajôc cada húa das Damas feu quarto 
diítinólo com todas as fervintias neceílirias. Todo eíle 
tam grande edificio he de madeira incorruptível: & corre 
por fora dos quatro lados deíle Paço húa varada ao redor, 
fuftentada de colunas 5 & no meyo de cada arco huma pe- 
ça de ar telharia bem grande, todas de Bronze , & todas do. 
mefmo calibrejcujos pelouros fam de cobre fundido.Pàra 
pois a cadeyra com ElRey debaixo de huns arcos da vara- , 
da5quecahefobreorio,quehenavegavel;aondeficahum 
grande terreiro aberto a todos , por Ter caminho publico. 
Logo que fahe ElRey do PaçOjtoda a Corte, que o eftà ef- 
perãdo fe póem em fileiras de hum5& de outro lado quaíi 
atè chegarem ao rio: nas interiores de ambas as partes mui 
diftantes entre fyjficam os Mandarins de guerrajnas exte- 
riores os foldados5& todos com fuás armas.Os Mandarins 
de letras perto delRey , & mais chegados a elle os Princi- 
pes;deixando de todo livre,&aberta a entrada a cada hum 
por mais miferavel que íèja,para pedir audiência. O que 
fazem deíla maneira. Pelo caminho, que fica perto do 
rio , entra quem quer atè o meyo das linhas interiores : & 
pofto de joelhos em diftancia de quafi hum tiro de pedra 

L iiij do 



87 BREVES NOTICIAS DO 

do lugarjaonde parou a cadcyra com EJRey; com as mãos 
juntasíôc levantadas moftra hum papel. Acode logo hum 
pagem a tomar aquella petiçam,que ElRey raãda ler por 
hum dos miniílros letrados : & íabidojO que contém 5 da 
logo as ordens neceílarias a quem bem lhe parece para a 
execuçam. Se o cafo pede mayores informações , encar- 
rega-as a hum dos letrados : o qual depois de feytas as de- 
viâas deligenciasjvem dar conta empublica audiência, do 
que tem achado : eftando alli prefentes os acufados 5 & os 
acufadores. Depois diílo ouve ElRey ambas as partes :& 
no cabo dâa fentença final, mandando a quem julga dos 
Mandarins de armasja inapellavel execução. Se porém a 
fentença he de morte; de alli mefmo he levado o reo para 
o lugarjaonde lhe hão de tirar a vida no mefmo dia , & na 
forma 5 com que foy condenado. O que neftas audiênci- 
as merece mayor reparojÔc he digno de mayor admiração 
he naó haver letrado,né avogadojque fale diante delRey; 
mas cada hújfeja fidalgo,ou do povo, feja letrado , ou fem 
letrasjfeja hòmemjou mulher, vay aparecer,& dar fuás ra- 
•fões/aífim quem acufa,como quem fe de{:ende. Eíle cof- 
tume he fmal bem manifefto da agudeza,^ da animofida- 
de da naçaó. Nam fe permitejque álgúa peíToa corra com 
demanda de outremjfenara for de parente chegado; & fò 
em cafo^que o acufador, ou acufado eíHver legitimamen- 
te impedido. Nem tam pouco he licitOjque omefmoef- 
creva petição em favorjôc contra no mefmo pleito:& faó 
punidos com morte huns5&outros;& eíles por ferem in- 
íieis5& de duas lingoas : de aquelles por perturbadores da 
paZ5& quietação da republica. Nem lhe valèraó, ha pou- 
co tempoja huma velha fuás muytascãsj&annosjpara El- 
Rey lhe perdoar a vidajôc foy juíHçada;fò por ter apareci- 
do com requerimentosjque a ella ihe naó pertêciaó. Def- 
ta maneyra dà ElRey publica audiência duas vezes todos 
os diasjtirando os de fuás feílas, huma pela manhã , apon- 
tando o Sol no nacentcja outra pelas finco horas da tarde. 

Efe- 



REYNO DA COCHINCHINA. 88 

E fenaó ouver, quê a peça ; detem-íe com tudo ao menos 
por hum quarto de hora elperando ainda : & he para ver, 
como tantos milhares de homês/oldados ? & Mandarins, 
miniftros5& Príncipesjaíliftam em pe em fileiras có tanta 
conipoírura de corpo^Ôc com taó grade íilencio, que mais 
parecem Rehgioíos no Coro^que corteíãos em Palácio. 

Levados pois os nove Chriltãos para a publica audiên- 
cia depois de trinta & três dias de prizaó : &c poftos todos 
hombrocom hombrojôc de joelhos no meyo daquelle 
theatro de temores, & de mortes: foram perguntados pe- 
jo meímo Rey,íe todos elles eram Chriftáos. Reipondè- 
raó todos com focegojôc animofamente , que o eraó. Vi- 
rou fe depois ElRey para Ignacio Catequifta , que ficava 
no primeyro lugar,& lhe diííe: Como tu naó deixaíle eíía 
ley 5 que enfina a defprezar o Pay , & a Mãy ? Naó fabes 
quantos iam mortos todos ' os annos no Japaó , fô por fe- 
guirem a ley dos Portuguezes? Senhor , refpondeo Igna- 
cioja ley , que eu profeíTo , he ley do Creador do Ceo , da 
terra5& de todas as coufas;naó he leyjque fizeííem os Por- 
tuguezes ; pofto que também elles a guardem. Efta ley, 
Senhorscnfinajdever^ honrar era primeyro lugar a hum 
fò Deos Creador,& Confervador de todas as coufasino fe- 
gundo lugar a ElReyjque nos governa na terra:& no ter- 
ceiro lugar ao Pay , & a Mãy , pelo muyto que lhes deve- 
mos pela geraçam , & criaçam. E para que VoíTa Mageí- 
tadeíeja informado da verdade,direi as dez coufas,que ef- 
ta ley nos manda guardar fobpena dos eternos tormentos 
do inferno: & repetio em voz altajclarajôc deífintamcnte 
os dez mandamentos do Decálogo : o que feyto calloufe 
Ignacio. ElRey por fc achar convencido , virou orofto 
para Vicéte de idade dezanove annosjque ficava no quar- 
to lugar,& lhe diíTe : E tu porque fegues eíTa ley ? Por fer 
verdadeira. Refpondeo o esforçado moço. Que quer di- 
zer verdadeira? Perguntou ElRey. Quer dizer^diíTe Vi- 
cente,que he leyjque enfina,& manda, não furtem , nam 

M matem, 



89 • BREVES NOTICIAS DO 

niatenijiiam tomem a mulher alhea. Naó pode ir por di- 
ante com a fua explicação; porque ElRey logo fe embra- 
yeceo,& dando hum bramidojmandou degolar Jogo a Ig- 
nacio5& a VicenLe:& aos outros fette lhes dcíTem muytos 
açoutes^Ihes cortaíTem os cabellosjdc hum dedo das mãos. 
Muyto mayor foy a alegria , q receberão, & moítraraó os 
Conteííores de Chriílo 5 que o furor; com que fe encheo, 
de fe aííanhou o Rey tyrano. Deram-fe logo todos nove 
os parabéns pelo bom defpachojque levavaó : & fobre to- 
dos os dous lgnacio;& Vicente, que naó cabiaó em fy pe- 
lo contentamento de terem confeííado3&: pregado a Ley 
de Deos diante de tão nobre multidão de Idolatras : & de 
terem alcançado em premio a morte por feu Deos,& Sal- 
vador. A penas fe tinha pronunciado a injuíia feotença; 
quando logo o Mandarim de armasj a quem ElRey man- 
dou fazer aquella execuçamjfahio da fileira 5 em que fe a- 
chava;& acompanhado de feus foldados arremeteram to- 
dos como lobos carniceiros àquelle pequeno rebanho de 
innocentes cordeiros: & pegando a todos nove pelos ca- 
belloSíComo he coílume, os foram arraíbndo pelo cham 
até poios fora daquelle impioj & cruel Tribunal : & fem 
detença nenhúa os foram levando para a praça ? aonde a- 
codem todos para as compras5& vendas. Hia na dianteira 
o Catequiíla Ignacio como MefÍ:re5& Capitão, a quem fe- 
guiaó os mais companheiros, todos com fua canga ao peí- 
COÇO5&; cercados de hum , & de outro lado de foldados có 
armas nuas nas mãos. Precedia o publico pregaó, que de- 
pois de tangerem de quando em quando aquella fua bàti- 
ca em lugar de trombetajdifia: Juftiça , que ElRey manda 
fazer neíies homens , por guardarem a ley dos Portugue- 
zes: 5c qualquer que a aprender , levara o mefmo caítigo. 
Sem conto era a gente, que acudia a velos , affim por fer o 
caminho o mais fixquentado naquella Corte;como tam- 
bém por fer caítigo de novo crime, atè entaó naó execu- 
tado naquella cabeça do Rey no. Mas fe hiaó ver curiofos 

pela 



REYNO DA COCHINCHINA. 90 

pela novidade do cafo,ficavaó admirados pela alegriaj que 
âchavaó nos condenados: òc muyto mais pafmados torna- 
vaó pelas coiiías q no caminho lhes ouviaó pregar. Che- 
gados à praça diftantequaíi hum terço de legoa do Paço; 
foram mandados pararjos que apreííados5& alegres cami- 
nhavaó para as aíFrontasjpara os tormentos,&para a mor- 
te por amor de feu Creador. Cercados jà dos íoldadosjef- 
perava cada hum dos nove com grande alvoroço a mercê, 
que lhe mandava fazer Deos por meyo daquelles minif- 
tros da crueldade. Os quaes tiràraó logo as cangas do pef- 
coço de todos nove , & cortarão a todos os cabellos : cafti- 
go que na Cochinchinahe o mayorjdepois da morte;por- 
que chega muyto perto do pefcoço a catana ? que corta os 
cabellos da cabeça. Foraó depois cortando a ponta de hú 
dos dedos das mãos aos fette: no qual tormêto naó fô mo- 
ftràram grande conftancia os Cavalleiros de Chriílo; mas 
antes oílentàram grande generoíidade 5 com oíFerecerem 
elles mefmos as mãos : defejofos q foíTem os algozes mais 
liberaes em cortar ao menos todos os dedos de ambas as 
mãos;vifto nam terem alcãçado? que lhes cortaíTem as ca- 
ças. Porém aquella ponta do dedo baftava para índice de 
feu esforçado animojda fua grande Fè ? & da grande vito- 
ria? que ganhavaó dos inimigos da Ley de Deos : os quaes 
para o comprimento da impia, & injuíta fentença deram 
a cada hum dos fette muytosjôc muy cruéis açoutes 5 dei- 
xando a todos pouco menos que mortos. 

Em quanto os verdugos executavaó o íacrilego furor 
de feu Rey: o Catequiíla Ignacio hia dsndo os parabéns a 
feus companheiros animando-os com as honras, & glori- 
as 5 que em premio lhes daria Chrifto ; por cujo amor fo- 
friam aquellas dores , & padeciam aquellas aíFrontas. Vi- 
rando-fe depois para aqeella multidam , que tinha cócor- 
rido a velos: & conhecendo a muy tos por Chriftãos, levã- 
tou a V0Z5& diíTe em commumjfcm apótar , nem nome- 
ar a ninguém: Meus Irmãos mayores,achome jà no ponto 

Mij da 



pr BREVES NOTICIAS DO 

da morte:& dou infinitas graças a meu Senhor Jesv Chri- 
fto; por me fa2.er tam grande mercê de dar a vjda por fua 
fanta ley: peçovos a todosja guardeis inteira 5 & perfeyta- 
mente;poishe a verdadeira? & o único caminho para a 
eterna bemaventurança: como tal a tenho pregado com a 
voz : & tal a confeíío agora com o meu fangue. Naó te- 
nham medo dos tormentos 5 nem da meíma morte ; pois 
fe os Toldados dos Reys da terra bufcáó occafióes de pade-*- 
cerem 5& fe arrojam aos perigos da vida , para alcançarem 
algíía mercè,ou para ficarem aíFamados ; quáto muis o de- 
vemos fazer nòsjoíferecendo-nos aos tormêtos5& à mor- 
tCjpara lograrmos a eterna bemaventurança. Eu mo fey, 
como pela guarda da Ley de Deos poffa temer os tormé- 
tos5& a mortC5qué crè> que Jesv Chriíto naceo riQpcQ mú- 
dojpara padecer tantas penasjôc morrer com tantas dores, 
affrótas^&defemparoporamorde noílas almas! Ditoif- 
to : foyfe defpedindo dos amigos com ferablante tam ale- 
gre,como íe partiíTe , para ir tomar poíle de hum Reyno. 
No cabo viroufe para fua Mãy?quealli eítava prefente, 
mulher de muyta idade,& jà Chriíi:ã,& lhe diíFe: Senhora 
não vos dè penajO que vedes5& vereis executarfe em my; 
pois tudo he para bem de minha alma: leme amais? ale- 
graivos ; porque havendo eu fempre de morrer? vofia ? & 
minha honra ? & proveito fera ? o dar eu a vida por fer fiel 
ao Creador de todas âs coufas : o qual fera muyto mais li- 
beral?em vos dar a vòs dos bens defte mundo , & a my dos 
do outro. Naó fe alcançaó?Senhora? os prémios eternos? 
fenaó por meyo das penas temporaes:& quanto mais cuf- 
tofo for o ferviço?tanto mayor fera o galardam. Acabou a 
praticajfazendolhecortefias com a cabeça ate o cham, co- 
mo he cofíume para com os Pays : & logo fe poz no fitio, 
cm que lhe haviam de dar a morte?faudando pnmeyro cò 
grande aíFeéto ao íeu amigo?& companheiro Vicente. O 
qual vendo , como Ignacio exhortàra os Chriftãos à guar- 
da da divina ley ? tratou elle dea enfmar aos Infiéis ,mof- 

tran- 



REYNO DA COCHINCHINA. 92 

trando-fe defejofo de itiorrer por ella; pelo que a penas 
chegado? fe compoz logo, para dar a vida. O que fez paí- 
mar: a todos aquelles Idolatras , conhecendo claramente, 
que naó podia fer falfa a leyjque tanto animo davajôc cau- 
fava tanto deíejo de morrerem por elía. Efperando pois 
os dous Confeílbres de Chrifto pela morte , que havia de 
dar vida im mortal as fuás almas, íe hião fortalecendo com 
os poderofiffimos nomes de Jesv , de Maria. Deu o Man- 
darim o íinal;& logoo foldado defcarregou o golpe da ca- 
tana fobre o pefcoço de Vicente , ficando porém a cabeça 
no feu lugar,como fenaó fora cortada; mas dandolhe o al- 
gos com a ponta do pèja fez cahir em terrajpara fer coroa- 
da no Ceo. Arremeteo depois com Ignacioíôc com hum 
revez o degolou; mas cahida a cabeça direita fobre o chaó, 
foy ouvida repetir por vezes : Jesvs Maria. Caufou todo 
efte fucceíTo grande efpanto em todos os circunftantes. 
Nos Chriíl:áos;por verem , como Vicéte foy o primeyroj 
que morreo5&: lhe náo cahio a cabeça:& entendèram^náo 
fer a cafo, nem deftreza do verdugo ; mas por efpecial dif- 
poíiçam do Ceo, com a qual declarava Deos a todosxomo 
Vicente era innoccnte,éc que morrendo, vécerà no prin- 
cipio daquelle combate. Nos Gentios porém ; por ouvi- 
rem falar a cabeça ds Ignacio depois de coatada , & depois 
de eftar direita no chaó:& o tiverão por claro teílimunho, 
de fer muy direi ta,& verdadeira a ley,que elle pregara, & 
pela qual morrera. Em quanto todos ficavam pafmados 
à vifta deites novoSíôc efpantofos fucceífos, entrou de re- 
pente com animo generoío, & varonil por meyo dos fol- 
dados huma mulher por nome Ignaciaxhegoufe à cabeça 
de Ignacio: fczlhe cortefia: & tomando-a com todo o aca- 
tamento nas máos,a quiz levar como riquiflimo thefouro 
para a fua cafa. Mas acudio logo o verdugo admirado da 
generofidade da mulher,& tirandolha à força das mãos, a 
fixou na ponta de hum pao,como he coftume:& cora iíto 
fe deu fim à impia execuçam da facrilega fen tença. 

Miij Parti- 



93 BREVES NOTICIAS DO 

Partidos os íoldadosxhegoufe logo aos ditofos corpos 
quaíi toda í^quella multidam de gente,para recolherem a 
porfia alguma couía do íangue daquellas vidrimas da Fè. 
OsChriíféos para guardalo como preciofa relíquia : os 
Gentios para íe valerem delle contra os infultos dos de- 
mónios. Pois cuidam aquelles Idolatras que o fangue do 
innocentejuftiçado hepoderoío , para laçar fora dos cor- 
pos?& das cafas todos os efpiritos malinos , dos quaes fam 
muy vexador: de tanto foy o empenho? com que os Gen- 
tios o buícavamsque muytosjpor nam terem ? em que Ic- 
valojraígavão fuás cabayas novas , para molharem as tiras 
novitoriofo fangue dos dousCavalIeiros de Chrifto. Os 
quaes depois de receberem efta honrajmuyto mais glorio- 
fa que os vivas,que fe davaó aos Triuntantes, foraó poftos 
pelos Catequiftas emcayxóes:& acompanhados de mu- 
chíííimos Chriílãos foram levados a enterrar fora da Cor- 
te com menos pompa , da que mereciam ; porem muy to 
mayor da que permitia o tempo. 

Pofto que Deos nam poucas vezes faça mercê do mar- 
tyrio a muytosjque tem vivido mal : como a recebeo Sara 
Bonifacioíôc outrosjque alcançarão a Coroa, quando me- 
nos a bufcavam, & muyto menosa mereciaò : & iífo para 
que entendamosjfer graça puramente gratuita? & fora da 
esfera de todos os humanos merecimêtos. Com tudo cô- 
mumente os vay Deos difpondo? & aparelhando* para tão 
grande favor com louváveis coftumes? Ôc vida virtuofa. 
Deites foram os dous Vicente? & Ignacio : dos quaes nam 
fomente a morte^quc tenho relatado?foy preciofa nos di- 
vinos olhos ; mas também a vida ? a qual fumariamente a- 
pontarei?para mayor gloria de Deos ? & cabal noticia def- 
tes dous esforçadosj 6c efclarecidos Conf eíTores de Chrif- 
to. 



CAPI- 




REYNO DA COCHINCHINA. 94 
CAPITULO VIL 

Particulares noticiai da vida de Vicente, 

ACEO Vicente na Provinda de Quang 
Nghia de pays pobres mas Chriíláosjcha- 
niados Thomcjôc MagdaJena : dos três fi- 
Ihosjqiie tivêramjO mais velho foy Vicê- 
te , & recebeo logo o bautifmo do Padre 
Frãcifco Buzomí da Companhia de Jesv^, 
fundador da Chriílandade de Cochinchina. Parece 5 que 
a divina graça quiz tomar à fua conta a criaçam deite me- 
nino ; pois naó fomente fugia dos divertimentos inúteis 
daquella idade^mas também fe occupava todo nos exercí- 
cios de piedade, & virtudes : muy diligente em rezar as o- 
raçóes , muy obediente a feus Pays , muy acautelado em 
fuás acções : parecia hum velho com disfarce de menino; 
pelo que antes de chegar aos fette annos de idade , come- 
çou a frequentar o Sacramento da Penitencia, confeíTan- 
do-fe com grande humildade5& com íinaes degrande,ar- 
rependimento. Crecia Vicente nos annossôc na virtude; 
mas o Payjpor fer muy to pobre , & também para dar gof- 
to à madraítrajcom que cafara depois da morte de Magda- 
lenajpoz feu íilho,jà de doze annos, em cafa de hum ami- 
gOjmas gentio : a quem Vicente foy fervindo por efpáço 
de hum anno. No qual tempo naó fomente acudia com 
defvelo a fazer,© que lhe era mandado; mas também com 
grande empenho foy tratando dafalvaçaóde feus amos: 
& foraó de tanta efficacia as fuás palavras,que converteo à 
noíla fanta Fè toda aquella cafa , que eraó marido mulher 
com três filhas. Ganhadas eftas almas: paííbufe a fervir 
em outra cafa também de Gentios , para os tirar do cati- 
veiro de lucifer,6c os pòr na liberdade dos filhos de Deos: 
& com igual 5 & feliz fucceíTo os cóquiífou para Chriíf o, 

Miiij bautí- 



95 BREVES NOTICIAS DO 

bautizando-íe o Pay com nome de António , & a Mãy có 
o de Anna com mais três filhos. Mas quam altos iam os 
juízos de Dcos! Os três filhos ? depois de nacerem à graça 
pelo Baiitifmcitodos três morreram logo no meímo dia. 
Váleo-fe o demónio ÓQue raro acontecimento ? para per- 
verter os Pays,atri buindo a caíligo dellesjO que fora gran- 
de mercê dos filhos ; por morrerem có a graça bautiíiiial: 
& tanto pode a fugeítam díabolicajque finalmente Anto- 
11ÍO5& Anna5por lerem novatos na Fè , & pouco práticos 
das traças da Providencia divina na falvação das almas, 
tornarão atraz- para feu gentiliímo. Sentio no coração o 
zeloío Vicente, largarem íeus amos a Ley de Deos : &c ou 
íoíle por lua huniildadcjou foíTe para não moleílalòs ma- 
is?por íicaré muy fcntidos delle como de Autor da morte 
dos filhosjfoy dar conta a feu Pay Thomè do que lhe acó- 
tecèra;pedindolhe 5 que elle , por fer de madura idade , &c 
mais pratico das coufas de noílà fanta EèjacudiíTe logo,pa- 
ra que aquellas duas almas nam pereceíTem no abiímo da 
idolatria;dóde pelo fanto Bautifmo tinhão jà fahido. Mo- 
vido Thomê náo tanto pelos rogos do filho Vicentejquá- 
to pela gloria de Deos 5 & falvação daquellas almas, foy à 
cafa de Antonio5& de Anna: & como era muy prudente, 
&c verfado nas coufas de Deos,tanto lhes foube dizer, que 
alumiados da luz do Ceo, conhecerão o erro , em que ti- 
nham cahído:& arrependidos fe levantàramjtornando có 
grande fervor para a Fèjôc guarda da Ley de Deos. Fica- 
ram depois ambos maridojéc mulher tãoaffeiçoados a Vi- 
cente pelo cuydado,que tivera de fuás almas,que para lho 
agradecer , trataram de cafalo em caíacó húa Irmãde An- 
na. Logo que Vicente ouvio falar de caíamento , como 
defejaííe guardar fua pureza inteira,^: perfeytamente, fa- 
hio daquella cafa , recolhendo-fe para a de feu Pay. Çafo 
raro em moço,ôc mais raro em terras;aondea falta de fuc- 
ceíTaó he tida por mayor caíligo do Ceo , & he a mayor 
deshonra,& injuria entre aquelles naturaes. Eíleve hum 

anno 



REYNO DA COCHINCHINA. 96 

annofervindo com toda a fogeiçáo nem menor paciên- 
cia ao Payjôc à madraíía:&: focegadojà do fobrefalto, que 
lhe dera,o falaríe de íeu caíamento,íahio a fegtinda vez da 
cafa de feu Payjpelo delejojque tinha , de ganhar aímas ao 
Ceo. Sabendo poisjaondeDeos lhe coírumava guardara 
caçajtoy bufcar a caía de hum gentiojque tinha grande fa- 
miliajofierecendo-feafervilode criado. Nem íicou bal- 
dado feu trabalho,antes bem pagos feus ferviços; pois pe- 
los feus bons procedimentossôc pelas praticas efpirituaes, 
que a feus tempos lhes fafia,fe converteram, Ôc receberão 
o bautifmo quatro cunhados do dono da cafa;da qual tam 
bem fahiojnem fabemos o porque: pode-fe porém fofpei- 
tarjque o demonioínam podendo íofrer tanta virtude em 
hum moço de belJas partes com tato proveyto das almas, 
lhe armaria algum laço a fua pureza. Pelo que fe retirou 
a fegunda vez para a cafa do pay : na qual fe deteve dous 
annos naó porem ocioíb;porque quanto tempo Ihefobe- 
java das obrigações de filhojO gaftava todo ? em fazer offi- 
cio de pregador;enfinãdo aos Gentios o caminho do Ceo, 
& exhortãdo os Chriftãos à perfeyta guarda da divina ley. 
Nefras occupaçóes o achou o Padre Alexandre Rodesjin- 
do viíitaraProvincia de Quangnhia : & informado dos 
Gatequiftas. Bem pudera o Padre dar o grão? & officio de 
Catequiíl:a,a quem vivia com tanta pureza, & com fuás 
praticas tinha convertido tantos Idolatras. Mas a falha, 
que lhe acharia o Padre, feriam os poucos annos,&as pou- 
cas letras: & na verdade para os cargos públicos, & muyto 
mais para o governo das almasjas muytas letras, & a muy- 
ta idade faó lèmpre neceíTarias, fenaó para o exercicio , ao 
menos pelo decoro. Grandes foram os progreíros,que fez 
Vicente em dous annos, que efteve na Companhia dos 
Gatequiftas debaixo da direiçaó do Padre: era rnuy aplica- 
do ao eftudo das letras , & muyto mais diligente no exer- 
cicio das virtudes em particular de humildade, efcolhen- 
fempre para fy as occupaçóes mais abatidas, &trabaiho- 

N fas; 



^j BREVES NOTICIAS DO 

fas: frequentava os Sacramentos com grande preparação: 
& quando naó prègava,nem eftudava, fempre orava. Aí- 
íim o foy Deos diípondo ? & aparelhando^, para receber a 
mercê, de dar o fangue5& a vida pela coníifiaó , & exalta- 
ção de noíTa íanta Féjmorrendo degolado na Corte de Si- 
noá aos quinze dejulho de mil &íeifcentos& quarenta 
& finco Reynando Thay Bao. 

CAPITULO VIIL 

T articulares noticias da vida de IgníicioCateqmJla, 

S Pays de Ignacio foram gentiosjoias pef- 
foas graves, & abaftadas de bens ten:ipora- 
es: aplicoufe defde menino as letrasjéc por 
fua gentil habilidade alcançou ainda mo- 
ço o primeyro grão de Mandarim. A pren- 
deo também medicina 5 mas fò por curio- 
fidade. Foy cafado5& eíleve fervindo a hum Tio delRey; 
cuja graça grangeada com fuás grandes letrasjfafia que Ig- 
nacio como Idolatra afpiraíTe fomente as honras 5 & bens 
deíla vida. Porém Deos 5 que o tinha efcolhido para feu 
fervo, & miniftro fiel na propagação da Fè , o chamou do 
gentilifmojquando elle menos o imaginava. Hindo vifi- 
tar, depois de lhe morrer a mulher 5 a hú feu tio Chriftãoj 
deu a cafo com hum livro da noflia fanta ley. Começou a 
lerpor curiofidadcticontinuou com goílo , & acabouo c6 
grandes deíejos de faber bem da ley dos Chriftãos;por lhe 
parecer em tudo conforme à rafaó. Conhecendo porém 
a léu tio por homem de poucas letras 3 hia em bufca de al- 
gum Catequifta muy intelligente das coufas de nofia fan- 
ta Fe. Defcobrindo pois a hum Chriftaó feu amigo^o que 
defejava achar 5 foube por efte , como o Padre Alexandre 
Rodes morava em Cachão 5 para onde o dito Chriílão de- 
terminava hir. Pediolhe então Ignacio, o quizeíle levar 

com figo. 




REYNO DA COCHINCHINA. 98 

comfigo j & offereceo-fe a fervilo de moço por todo o ca- 
minho. Táo grande era o defcjo de achar a verdade , que 
não reparava,no que prometia em tanto deídouro deíeu 
Tangue , & de íua dignidade! Partidos ambos , chegarão a 
Cachão,& não achando ao Padre; por ter ido viíitar a Pro- 
vincia de Ranran; refoh^eo-fe a eíperálo. Logo que Hie- 
ron\ mo cafeiro do Padrcfoube do fim da vinda do Man- 
darim ígnaciojpediolhcjlhe fizeíTe aquella honra, de fe a- 
gaíalharem fua caía. Aceitou elle o offerecimento para 
ter mais occafióes de praticar fobre as coufas de noíla fan- 
ta Ity. Entrou logo Hieronymo, que era bom Catequif- 
ta,a falarjdo que crem,& devem fazer os ChriíMos: & foy 
refpondendo às duvidas de maneira que Tgnacio foy for- 
mando muyto mayor conceito da Ley de Deos:&: com as 
difputas , que depois teve com outro Catequiífa muy in- 
tclligen te chamado Andre,ficou de todo rendido feuen- 
teHdiment03& a vontade muy defejofa dever aoPadrejôc 
de receber de íuas mãos o fanto Bautifmo : que lho deu o 
Padrclogo que voltoujpor achalo jâ bem inílruido , no q 
era neceífario. Có a mudança da falfa em verdadeira Re- 
ligiáojdeípio Ignacio o homem velhojdeixando os coftu- 
mcs gentiíicos: & veftio-fe do homem novo, começando 
a viver com DeosjÔc para Deos. Pelo que largou logo to- 
dos os cargos5que exercitava;todas as eíperanças , qile ti- 
nha: ôc todos os bens, que peíTuia : nem quiz tornar mais 
para a fua cafa;mas pcdio ao Padre,o quizeíTe admitir por 
fcu criado3& por difcipulo dos feus Catequiftas; pois feus 
defejoseram,em pregarfe todo,&para fcmprena falvação 
das almas. Hum ad:o de virtude táo Chriftá, & tão gene- 
rofo obrigou ao Padre a aceitalo não por fervo ; mas para 
terjôc levar comfigo hú tal homem, que ferviria de exé- 
piar aos que dos erros da Idolatria fe paííaííem para as ver- 
dades do Evangelho. Depois de dous annos foy pelo Pa- 
dre admitido ao graojÔc officcio de Catequifta ; poílo que 
Ignacio,por íe ter por indigno,o naó quizeffe aceitar. Vc- 

N ij do-fe 



99 BREVES NOTICIAS DO 

do-fe metido nas obrigações de pregador da Ley deDeos, 
tratou logo de prègalaprimeyro com o exemplo dehúa 
vida perf eyta no exercício das virtudes Chriftãs , em par- 
ticular da humildade; naó fomente por ella íer o alicerfe, 
íobre que íe vão levantando às outras ; mas também para 
abater ? &c ih vingar da altivez , em que eílivera pelo grão 
de Mandarim. Occupava-íe por iíío dentro? & fora da 
càfã do Padre em todo o género de oíiicios baixos , & hu- 
mildes 5 fer vindo na cofmha , indo bufcar lenha ao mato, 
remando na embarcaçam ? em que o Padre hia viíitando 
as Chriftandades3& tendo cuydado,^ fervindoaos doen- 
tes: em húa palavra ? quem podia mandar a todos , por fer 
Mandarim: fervia a todos de moço miiy humilde , & dili- 
gente. Masoquecaufava muytoniayor admiraçamcm 
todos^era, fazer tudo iílo com grande alegria -, a qual nam 
tinna5& muyto menos moítrava -, quando eílava occupa- 
do em couia^que Ihenão grangeaíTe defprezo. Hindo hú 
dia à câfa de hú Chriftaó para negocio do ferviço deDeos, 
quiz levar fua cabaya por caufa do muyto fuor 5 como he 
cofi:ume daquelles naturaes; pelo que foy obrigado a vet 
tir por entretanto outra melhor 5 da qual usara jà quando 
era Mandarim. Vio-o híía mulher da dita caía, & por gra- 
ça lhe àiÚh : Meftre ( aílím chamam aos Catequiítas ) iíío 
agora parece melhor. Ficou Ignacio tão envergonhado, 
por aparecer gravemente veíbdojque defpindo logo a ca- 
baya? a deu a hum pobre , que por alli a calo paílava ; para 
que náo padeceíFe outra vez femelhãte aífronta : pois por 
tal tinha ellcquanto o faíia parecer peífoa grave,& de reí^ 
peyto. Pela niefma caufa logo que recebeo o bautifmo, 
cortou fua cabelleira : o quefe coftuma fazerem pena 
de algum crimcque merece morte, mas por meixe fe lhe 
perdoa a vida ao culpado. 

Muyto mayor era o cuydadojque tinha, em abater , & 
fogeitar feu corpo: & para que pagaíle os mimos , que lhe 
tmha feyto antes do bautiímo,lpgo que o recebeo, come- 
çou 



REYNO DA COCHINCHINA. loo 

çouaatormentalo com frequentesjejunSjCom afperos 
ciiiciosjcom rigorofas diiciplinas ; & porque Jhe nàó po- 
dia tirar enaitudo o deícanço do fonojlho davamuy limi- 
tadò;& noj^oucojquelhepermitiajhe punha tantas con- 
diçóes5que menos mal fora a perpetua vigia;pois fe deita- 
va fobre huma efteira muy velha, & rotajÔc por almofada 
lhe punha huma pedra friajou duro pao. 

A eífes extremos de rigor para comíigo erão femelhã- 
tes os de fua Charidade para com os outros , acudindo có 
grande defvelo às necemdades de todos. Na perfeguiçaõ, 
€m que o Padre Rodes foy defterrado a primeyra vez pa- 
ra Macao, & toda aquella Chriífandade ficou perturbada: 
doze Catequiftas padecião grandes neceííidades; por eíla- 
rem efcondidos. Não pode íbfrcr Ignacio .tanto deíem- 
paro: & defprezando todo o perigOja que fe expunha ? ía- 
hio ao publico , & foy pedindo efmolas para feus compa- 
nheiros. Mas não foy muy to fazer ifto depois do bautif- 
mo,quando fendo ainda catecumen.o*em paga de húa cu- 
rajque fez a hum. homem rico? & muy doente , lhe pedio 
perdoaíle humas dividas? que huns pobres lhe ficavam a 
dever. 

Mais alto íobio o ponto de fua charidade para com as al- 
mas: & pofto que ignacio, quando não era ainda Catequí- 
ílaífenaó atreveíle a pregar nas Igrejasjou cafas?em que os 
Cbriífãos fe ajuntaváo para os divinos officios ; com tudo 
não deixava paífar occafião nenhúa , em que em particu- 
lar não falaíTe da Ley deDeosjda feeldade dos vicios,6c fer 
mofura das virtudes 3 pelo defejo , que tinha ? de encami- 
nhar todas as almas para a eterna bemaventurança. Conf- 
tituido depois Catequifta 5 era tão fervorofo no pregar 5 q 
difião os ChriftãoSjlhe parecia a elles 5 ver feu rofto abrafa- 
do,6c as palavras fahiremlhe da bocca como fetas de fogo; 
pelo que muchiíTimos foraó os gétios,que pelas fuás pre- 
gações purificarão fuás almas nas agoas do Bautifmoiôc os 
primeyros forão fua Mãyjôc feu Irmão. Deixando pois as 

N iij mais 



loi BREVES NOTICIAS DO 

mais apontarei fomente duas converçóesjque fez, dignas 
de particular reparo. Prezo por pregar a Ley de Deos em 
Pulo Cambini?era levado para aCorte com mais três tam- 
bém prezosjnias por feus furtos. Logo que defcançàram 
todos à fonibra de húa arvore , começou Ignacio a pregar 
aos tresladróes: & forão taes fuás palavras ? c]ue os ganhou 
para a Fè enfinandolhes o modo ? com que podiáo roubar 
o Ceo. Havia húa mulher, máy de hum Mádarim Chrif- 
tã de nome não de obras^mas muy carregada de annos ? & 
quafi de todo furda, & cega. Logo que Ignacio teve eftas 
noticias , acudio ao perigo daquella alma , & fem fer cha*- 
madoja foy vifitar;& a amoeílou con) tanta efficacia5& ef- 
pírito, que a velha quaíi moribunda recobrou não fômé- 
te o perdido fervor na guarda da divina ley , mas também 
a viíla,6c os ouvidos do corpo,com grande admiraçam do 
fi] ho 5 & de quantos virão , & fouberão do milagrofo íuc- 
ceíTo. Viveo ao diante emendada 5 & morreo depois de 
pouco tempOjdeixando a todos grandes efperanças de fua 
lalvação. 

EPcas prègaçóesjcom que Ignacio tirava as almas do ca- 
tiveiro do demonio5& fuás continuas difputas? em que os 
Sacerdotes dos ídolos ficaváo fempre convencidos5& en- 
yergonhados?lhe grangearáo o ódio mortal do infernojôc 
de íèus miniílros na terra;pelo que por todas as vias hiam 
armando laços de accufaçóes, para o matarem por juftiça. 
Foy prezo muy tas vezes, & muy tas vezes com paos du- 
ros cruelmente açoutado; mas as prizóes Ihefervíão, para 
depois pregar com mayor liberdade: &: os paos erao para 
elle efporas, que o obrigavam a correr com mayor alento 
à falvaçáo das almas. E na verdade as penasjos tormentos, 
& a mefma morte não metem medojantes efpertaÓ5& ef- 
f orçam mais as efperanças nos fieis fer vos de Deos : cujos 
deíejos faó, padecer, & mais padecer , & dar finalmente a 
vida por feu Redemptor. Com eftas anciãs de aíFeâos vi- 
veo fempre Ignacio : & bem as moftrou , quando foube, 

como 



REYNO DA COCHINCHINA: 102 

como os foldados 5 que prédêráo ao bemaventurado An- 
dré 5 tinhaó ido em liia bufca por expreíTa ordé do Oum- 
nhebo : & por não o açharé a elle5levàráo prezo o André, 
que fo ficara em cafa ; pois com eílas noticias ferveo mais 
feu coração em defejos de morrer por íeu Senhor: & cita- 
va tam refoluto de fe ir oíFerecer ao tyrannojque o bulca- 
va ; que para o Padre Rodes impedir eílafua determina- 
ção? não forão baftantes os coníelhos 5 mas toy neceílario 
expreíla prohibição. Efta obediência foy para Ignacio 
muy to mayor martyrio; mas como bom fervo fogeytou- 
fe ao querer ? de quem o governava em lugar de Deos. O 
qual bem declarou , que não queria aquelle feu ficrificio 
em Cachaó; porque ei\pontrando-fe os foldados com Ig- 
nacio quando o bufcavão,o não conhecerãojfendo elle bé 
conhecido de todos elles. Tinha Deos guardado o Metro- 
polijôc Corte de Sinoa para Ignacio confeíTar nella feu di- 
vino nome , & pregar fua fantá ley diante dos Tribunaes, 
dos Príncipes , & do mefmo Rey. Não podião fazer ma- 
yor lifonja a Ignacio 5 eftando prezo, doquefalarlhede 
mais duras prizóes? de cruéis tormentos 5 de prolongadas 
niortes;pois fò com eftas lembranças enganava íeus defe- 
josjque erão [ como élle difiajÔc o tinha pedido a Deos]de 
não morrer logo degolado, mas cortado vivo em pedaços 
para padecer mais dores 5 &c mais tempo por Jesvs feu Re- 
demptor. Muy grande foy o fentimento 5 que teve ; por 
ouvirjcomo haviajquem tratava de oíFertar a ElRey hum 
rico prefente , para que perdoaíTe a vida a todos os nove 
companheiros : nem fe pode ter 5 fem que com rofto 
carregado o reprovaíTe. Pois nam convinha ? dífiasque 
com pey tas lhe alcançaíTem aelleavida? mas deixaílem 
obrar a divina Providencia que difporia o melhor. Com o 
fogo deites acefos defejos de padecer,& morrer por Chri- 
íl:o5fendo de idade de trinta & fette annos lhe offereceo a 
vida em holocauftp 5 morrendo degolado aos quinze de 
Junho de mil & feifcentos & quarenta & finco : deixan^ 

N iiij donos 




105 BREVES NOTICIAS DO 

donos a nos todos o cuydadojque devemos ter de amarjôc 
imitar na vida a Jesv , & Maria; pois ígnacio ainda depois 
de morto os foy feguindo com a voz. 

CAPITULO IX. 

Noticias de JgcJliuho^Jkixo^SinwãcyO' de outros Cbriftaos. 

EPOIS de ter Deos honrado as Provin- 
cias do Siiljcom aceitar em facrificio o fâ- 
gue daquelles naturaes;quiz, também be- 
nignaméte receber as oíFertasjquc os fer- 
vorofos Chriftão^no Norte delqavaó fa- 
^^^Sfl^i^^ zer de fuás vidas pela coníiííaó de íeu di- 
vino Nome. Reparando pois o demónio na invencível 
reíTílenciajque encontrava nas partes meridionaesjdeter- 
minoiífea entrar pelas fententrionaes: cuidandojq quan- 
to menos cálido foíTe o clima, tanto menos ardente acha- 
ria o amor dos íieis para com Deos , & algum tanto esfria- 
do o calor na obíervancia da divina ley. Pelo que come- 
çou a iníligar aquelles Idolatras 5 com Jhes pòr na cabeça: 
terê íido os Chriftãos caufa da careíiia daquelleannomil 
& feifcentosD& quarenta & feis:&: porque a aldeã de Que- 
daixajnaprovinciadeQuangBinh tinha íentido mais a 
faltaja foy alvoroçado de maneyra, que os principaes. del- 
ia pediram a hum Mandarim 5 chamado Xueri , foíTe dar 
queixas a ElRey dos males , q todos em particular os po- 
bres padeciam por caufa dos Chriílãos, que havia naquel- 
aldea. Aceitou o Mandarim a impia procuraçam pela en- 
tranhavel defaíFeiçamjque tinha à noíTa fanta ley. Acom- 
panhado pois de íincoenta foldadosveyo para a Corte de 
Sinoà caminho de três dias : & empublica audiência deu 
fua petiçarpjque foy logo lida por ordem delRey. Nella 
fe relatavam os infortúnios, que aquella aldeã padecia : & 
fe reduíiaó todos à ruim novidade , & à morte do gado 

groílo. 



REYNO DA COCHINCHINA. 104 

groflo5que fam bufaroS) com que lavram as terras : & por 
conhecerem como todos eíles males lhe vinhaõ dos deo- 
fesjcm; caftigo de haver na dita aldeã Igreja dos Chriílãos, 
& bom numero dellesjapontando os nomes de todos.Por 
tanto pcdíam5&: fuplicavaó a fua real clemenciaífoíJe íer- 
vido de por conveniente remédio a tantas perdas, & de a- 
placar a ira dos deofes muy queixofos , por lhes faltarem 
as coftumadas oíFertas,& a antiga adoração de todo aquel- 
ie povo. Naó levantaria tão grande labareda o azeite lan- 
çado em húa fornalha ; quanto foy acolera 5 que acendeo 
no coração delRey eíta queixa : a qual quanto mais pare- 
cia arrimada ao bem publico5& às obrigações da Religião; 
tanto mais efcufava qualquer exceíTonairadoPrincipe, 
& no cartigo dos culpados. Pelo que infurecido ElRey, 
deu logo ordem a hum Mãdarim de letras , foíTe com foi- 
dadosjôc prêdeíTem a AgoítinhojÔc a Simeão^ que vinhaò 
apontados por cabeças daquella Chriílandade. A execu- 
çam excedeo os limites da comiílaó ; pois o Mandarinete 
naõ fomente prendeo aosdous? mas também a quantos 
Chriítãos pode alcançar: não para fe moftrar zelofo mini- 
ítro de feu Rey , advinhandolhe o gofto ; mas para abufar 
da authoridadcjôc braço Real em feu proveito:obrigando 
aos mais prezos,a lhe pagarem tanta quantia de dinheiro, 
fe quizeífem ficar livres das prizóes. Muytos houve,que 
para remirem aquella vexação , lhe deraó , o que injufta^ 
mente pedia. Outros porém mais animofos , &c para me- 
lhor dizer,mais fervorofosjquizcraó antes oííerecerfe aos 
tormentos5& à morte,que perder com o dinheiro tambê 
a Coroa do Martyrio. Entre eftes quem mais fe efmerou, 
foy Aleyxojfoldado de profiíTamio qual ao eftrondo , que 
os foldados fizerão > dando buíca as coufas dos Chriftãos> 
fâhio da fua;& fabida a caufa, íem ninguém lhe pregútar? 
confeflbu fer foldado de Chrifto. Ouvindo ifto o Mãda- 
rim, mandoulhe arrenegaíTe de tal Senhor , & de fua ley« 
Reípondeo Aleyxo ? como nunca tal faria 9 ainda que Jhe 

O cuítaífc 



105 BREVES NOTICIAS DO 

cuílaffe muytas vidas. Vendo pois o Mandarinete a cóf- 
tante refoluçáo de Aleyxojhe diffe, que ao menos fe aíli- 
naffe por papel ? como largava aquella ley prohibida por 
feu Rey. Nem iíTo heide fazer ; diíTe Aleyxo , pois a ley, 
que eu guardo, he do Creador de todas as coufas , a quem 
devo mayor fugeiçáojquea todos os Reys da terra.He ley 
de quem premea5& caítiga na outra vida com premios,& 
có penas eternas. Raivofo o Mandarinete 5 porq fe vê def. 
prezado, manda aos foldados, o amarrem apertadamente> 
&c o levem para o tronco;aonde ficaváo Agoftinho ? & Si- 
meão com outros três: Ignacio? Paulo, & Joáo ; dos quaes 
fomente Agoftinho? & Simeão tinhão canga ao pefcoço; 
porque foráo prezos por mandado Real. Envejou Aley- 
xo, aquella aíFronta 5 & moleftia 5 que padeciáo por amor 
de Chriílo os dous companheiros : & começou a rogar ao 
Mandarinete,Ihe mandaíTe lançar também a elle a canga; 
pois era a mayor mercèjque elle lhe podia pedir , & a ma- 
yor,que então podia receber de fuás mãos. Pafmou a tal 
requerimento o Mandarinete; por ver5Como os inftrmê- 
tos de infâmia erão tidos de Aleyxo por divizas de honra: 
o que metia medo a todos, era tam bufcado delle. Vendo 
pois Aleyxojcomo não lhe fahia o defejado defpacho, foy 
tão importuno em pediloj que enfadado o Mandarinete, 
para fe livrar daquelles contínuos rogos , fez fabedor ao 
Governador da Província , fem cuja licença nam podia 
prender com canga a ninguém : repreíentandolhe as gra- 
des inftancias de Aleyxo. Condecendeo o Governador: 
& Aleyxo alcançoujO que tanto procurara. Efte fuceeíro 
deu muyto que falar aos Idolatras : huns com rifo o cul- 
pavam de loucura : outros com admiraçam. Feytasjàas 
facrílegas execuções , voltou o Mandarinete para a Corte 
trazendo comfigo os féis prezosjôc húa boceta chea de fa- 
gradas Imagens 5 & de huns livros de noífa fanta ley acha- 
dos nas cafas dos Chriftãos:& aprefentou tudo diante del- 
Rey em publica audiência. O qual vendo três prezos com 

canga. 



REYNO DA COCHINCHINA. 106 

canga,tendo dado ordem para dousjpergiintou a cauía: & 
entendendo, o que pafsàra com Aleyxo 5 virando-fe para 
elle com rofto mais aíTanhado que de hum leaó lhe diíle: 
Porque aprendes tu eíTa ley dos Portuguezes 5 que eu te- 
nho prohibido. Cada terra tem feu coftume, &íua ley; 
porque deixas tu a deteusnaturaes? Refpondeo Aleyxo 
intrepidamente: Eu nam aprendo a ley dos Portuguezes; 
mas a ley do Senhor de todos os Senhores ? & Rey de to- 
dos os Reys;pois he Creador do Ceo da terrajôc de todas as 
coufas. SeporiíTo VoíTa Mageftade me mandar matar, 
lhe darei infinitas graças ; & farei o meímo , fe me deixar 
com vida. Com efta repoíb taó defenganada ficou EíRey 
tão apaixonadcque efquecido das obrigações , q os Prín- 
cipes devem ao decoro de íuas Peííoas, cego jà da cólera fe 
defmandou em palavras foltas 5 & indecentes. Depois fe 
virou para Simeaó de idade de feíTenta & dous annos ? & 
lhe diíTe: E tu velho como fegues eíTa leyPSenhorjrefpon- 
deo,eu não poííb dar conta a VoíTa Mageftade da Ley de 
Deos,por quanto fou rude5& nunca aprendi letras : bafta- 
me a my guardala5para falvar minha alma. Senaó es letra- 
do ( replicou ElRey) porque mudafte a tua Religião anti- 
ga com hua nova , fem faberes o que fafias. Senhor 5 diíJh 
Simeaójainda que eu naó tenha letrasjtenho porém ouvi- 
dos : & ouvindo eu pregar efta ley do Creador de todas as 
couíasj pareceome muy ajuftada à toda a rafaò ; & por ifto 
me refolvi a recebela: & efpero guardala atè morrer. Naó 
foube inftar mais ElRey contra as evidentes foluçóes5que 
dera o rude Simeaó; pelo que paftbu a fazer a Agoftinho 
as mefmas perguntas 5 que fizera a Aleyxo. E as reportas 
foram, como elle adorava ao Senhor do Ceo , & guardava 
fua ley,a qual não largaria nem por medo dos tormentosj 
nem por efperança dos bens defta vida. Perguntou mais 
ElRey: Quem he eífe Senhor do Ceo, a quem a doras , & 
cuja ley guardas. He,difte Agoftinho , aquelle : que de na^ 
da fezjôc fuftenta ainda no feu fer o Ceo, a terra com tudo 

Oij ornais^ 



I07 BREVES NOTICIAS DO 

o maís^que ha nefte mundo : &c porque elle nos creou efta 
alma5& nos conferva também efte corpojque temos ; por 
ilTo fomos obrigados a reverencíalojíervilo,^ amalo coiii 
os aífeól:os>& com a vida , por íer noíTo Senhor 5 Creador, 
& Coníervador. 

Todos eíles diérames naó menos claros que vcrdadey- 
rosj por ferem da raíaó , & eníinados pela mcfnía nature- 
zajnaó faó baíhntes, para enfrear a crueldade de hú Prin- 
cípe receofo3& foberbo , que fò fegue , o que lhe parece 
melhorjpara eftabalecer feu dominio, & fultêtar luas leys 
poílo que injuílas. Aílim o moftrou efte Rey ; pois nam 
tendo^que replicar às repoílas ; nem que opor à doutrina 
dos difcipulos de Chrifto;com tudo temendo-fcjque quã- 
to mais crecefiem os Chriftáos , tanto menos feguro tica- 
ria elle no feu Reyno : & obílinado em nam querer revo- 
gar fuás leys tirânicas contra os que profeílaííem o Evan- 
gelho : deu fentença de morte contra Aleyxo 5 & Agoíli- 
nhoíperdoandoa vida a Simeaójpor fer peíToa rudcjõc co- 
mo tal menos culpado; mandou porém lhe deílem muy- 
tos açoutesjlhe cortaílem os cabellos , &c hú dedo das mã- 
os. Aos outros três Ignacio5Paulo5& Joaõ,dos quaes rece- 
bera menos aíFronta;porque,por nam ferem pergútados? 
nam tiveram lugar de confeijarem animofamente? o que 
elle facrilegamente prohibirajlhes foliem fomente corta- 
dos os cabellos 5 & cruelmente açoutados. Mas os livros 
com as fagradas Imagens foífem queimadas. Nem quiz, 
que a execuçam defta impia fentença fe fízeíTe na Corte, 
mas delegoua para o Governador da Provincia dos Con- 
feííores de Chrifto : mandandolhe juntamente5que acha- 
do ChriíMosJà meímo os caftigaífe, como melhor lhe pa- 
receííe. Foy efte lanço nam de compaixam que tiveíTe de 
feus VaíTalloSímas de politica diabólica. Pois conhecida 
jà a conftancia dos Chriftãos ; ficaria fua Real PeOba mais 
aíFrontada5& menos temidaj&a Ley de Deos mais conhe- 
cidajôc acreditada> fe tantos diante de fua cara 5 & em pre- 

fença 



REYNO DA COCHINCHINA. io8 

fençadetoda a Corte com tanto esforço confeíTarem a 
guarda da leyjpor elle com tátos rigores prohibida : & pa- 
ra a não largarem fe offereceílemjõc padeceílcm com tan- 
ta alegria tormentos5& morte. 

Logo que os prezos ouviram a fentençajtodos féis , em 
particular os dous Agoíl:inho5& AleyxD,deram muy evi- 
dentes íinaes de grande contentamento pela mercê , que 
ElRey,fem querer, lhes fafia : & para lhe darem as dividas 
graçasjtodos lhe fizeram aquellas coílumadas cortefiaSíCÓ 
chegarem com a cabeça até o cham por muy tas vezes. Le- 
vantados pois em pèjforam andando tam foccegados,& a- 
lcgres,como fe tiveíTem alcançado bens honras, & vida: o 
que poz cm gronde efpanto , éc admiração a todo aquelle 
pumerofo, & lufido concurfo de corteíaos. Dali mefmo 
tomàraó logo o caminho de volta para a fua Provincia de 
Quangbinh: quãtos erão os foldados , que os acompanha- 
vam,tantos eraó os tyrannosjque os martyrizavaó;porèm 
os fieis fervos de Deos , como grãos efcolhidos para as me- 
las do Ceojlevavam com grande paciência aquellas mole- 
íl:ias,&: vexações: esforçados com a efperança , que Deos, 
por cujo amor padeciãojlhes daria muy avantejado galar- 
dão.Chegados finalmente a Dinhtram, cabeça da Provin- 
ciaíforão entregues ao Governador, o qual o mandou pa- 
ra o tronco,por fe achar occupado em dias de fefta.Difpoz 
Deos eíla detença para mayor credito de fua fanta ley , & 
mayor confufaó dos infiéis; pois foraó tantos os Chriftãos 
que de todas as partes acudiram, para fervir , & prover do 
neceífario , ôc de todo o mimo aos feus Irmãos prezos , ôc 
condenados porChriftojque a grande multidamera de 
impedimento;por fe recearem jâ as guardas de tanto con- 
curfo. Pelo que foraó efcolhidos fomente dez dos mais 
anciãos5& mais authorizados, para que lhes aíliftiííem , jà 
hunsjjà outros,contribuindo cada hú a profia para os gaf- 
tos. Hindo a mulher de Aleyxo , para ver íeu efpofo , le- 
vou comfigo hum fcu filhinho de fette annos:o qual ven- 

O iij do 



109 BREVES NOTICIAS DO 

do ao Pay ? molhou grande alegria. Reparou hum folda- 
do da vigia no contentamento do menino,& diíTe aAJey- 
xo: Como naó tendes vos amor a eíTe voílo íilho,& a vof- 
íà mulher^que aqui vedes ! Reípondeo Aleyxo : He por 
ventura novidade, que o filho íe alegre? vendo a íeu Pay 
levantado a dignidade de Mandarim, qual me fazem eftas 
prizóes? Ainda ni uy to mayor me fará a catana : & quan- 
to mais padecer , por guardar a ley do Creador de todas as 
couíasjtanto mayores íerão as honras, & os prémios , que 
ella me dará na outra vida. E virando-íe para a mulher; 
lhe mandou que por nenhum caio cortalFe os cabellos, 
nem guardaííe ostresannosde dò;(fegundo o coílume 
daque]leReyno)poiselle paíTaria deíFa vida miíeravel, 
&z mortaLpara outra bemaventuradaj^c eterna. Ficou afi 
íbmbrado aquelle foldado , & quantos Idolatras a hi efta- 
V'ão,a viíta de tanto empenho dos Chriílãos em padccerê, 
& morrerem por híía ley de eílrangeiros. PaíTados os três 
dias das feftas do Governador, entrou o quarto para o tri- 
unfo dos prezos:os quaes forão levados com o cuírumado 
acompanhamento para o lugar do fuplicio com pregam, 
que difia: faibáo todos5que fe alguém íeguir a ley dosPor- 
tuguezes, fera cafrigado, & degolado. Acudirão para ma- 
yor pompa muytas peíToas Chriftãs: & entre ellas aquella 
Joanna, que o anno paílado là na Corte de Sinoà levanta- 
ra do chão a cabeça do Catequifta Ignacio , & a quifera le- 
var para a fua cafa. Efta mulher varonil,&: fervorofiífíma 
Chriíiã veyo acompanhado defde Sinoà , & fervindo por 
todo o caminho de três dias aos Confeílbres de Chriílo:& 
comprando em Dinhtram humas efteíras, as eílendeo no 
lugar,aonde havião de padecer; para que aquelle preciofo 
fangue não foíTe fumido na terra; porém chegados os fer- 
vos de Deos,recufàrão aquella honra,para imitarem a feu 
Redemptor nas aíFrontasjôc pobreza da Cruz. Mas foráo 
tantos os rogosjôc lagrimas, com que Joanna lhes podia a- 
quella mercèjque para elles fe nam moftrarem deíagrade- 

cidõs 



REYNO DA COCHINCHINA. iio 

eidos as muytas charidadcs 5 que delia tinháo recebido : & 
& para ella não ficar mais magoada com tanto chorarjper- 
mitiráo que a humildade f oíle vécida da cliaridade. A pe- 
nas eftaváo todos féis em feuslugares ailinalados pelo Má* 
darim aííiftente; quando logo começarão os Toldados a fa- 
zerem execuçam da impia fentença. Porém mais preíles 
eftaváo os innocentes condenados para receberem o inju- 
fto caftigOjque os' cruéis miniftros para o executar:& muy 
to mayor era a alegriajque moftravam os padecentes; que 
a fereza, que oftentaváo os verdugos. Os quaes depois de 
cortarem os cabellos a IgnaciojPaulo, & Joaó, & lhes teré 
dado muy cruéis açoutes ; arremeterão ao velho Simeaó, 
que com as mãos eftendidas oíFerecia todos os dedos ao cu- 
telo por amor de feu Senhor. Naó fe atreveram os minif- 
tros a paíTar os limites das ordens Reaes; porem depois de 
lhe cortarem os cabellos, & hum dedo 5 o açoutaram tam 
barbaramentCjque pouco faltoujque o não deixaíTem alli 
morto. Animava a todos os feus cópanheiros o Catequif- 
ta Agoftinho com as efperanças dos grandes, & multipli- 
cados prémios de gloria 5 que dava Chrifto no Ceo por a- 
quillo 5 que feus fieis fervos padeceíTem por feu amor na 
terra: exhortãdo juntamente os Chriftãos , a que guardat 
fem a divin^ ley inteira, & perfeytamente ; pois Deos de- 
via fer temido , íervido 5 & amado fobre todos os Reys da 
terra;porque elle fò podia caftigar,& apremiar eternamê- 
te. Depois defta breve pratica aos circunftantes 5 viroufe 
para Aleyxo 5 & lhe diíTe : Meu Irmão mayor : não entre 
em nòs o medo^que acovarda;mas a efperança > que nos a- 
lentarà , para fofrermos efta momentânea dor : logo logo 
iremos ao Ceo 5 para gozarmos para fempre de todos os 
bens5& de Deos noíTo Creador,& Redemptor. Dito ifto: 
ambos repetindo com muyta devaçam os nomes de Jesv, 
& MariaíOÍFerecèrão muy alegres o pefcoço à catanaxujas 
cabeças f oráo poftas em cima de dous paos , para ficaré fo- 
bre os Ccos eternamente coroadas. Èftes efpantofos ef» 

O iiij ío)^^ps 



III BREVES NOTICIAS DO 

forços comunicados peia divina graça aos ConfeíTores de 
Chrifto traíiáo pafmados a todos os Idolatras ; por verem) 
como não íòmente não erão temidos os tormentos , mas 
antes deíejados •, & bufcados : & atè a mefma morte era c5 
tanta alegria padecida, ignorando pois a caufa fobre na- 
turaljhião em bufca de algúa natural : & por lhes parece- 
rem eíles aíFeòlos contra os diâames da prudência da car- 
nejcócluião lerem eíFeytos de loucurajou de feitiços. Af- 
fim os hia o Demónio enganãdo^ôc devertindo ; para que 
não abraçafiem a Ley de Deos : cuja graça adoça as amar- 
guras das penas , & troca a morte em vida. Procedeo efta 
errónea opinião de hum fucceíTo, & foy: que hindo hum 
Mandarim gentio à cafa do Padre Metello Saccano ? que 
no Março deíle anno mil & feifcentos &: quarenta ôc íeis 
viera na nao de Macao : & vendo huma efcrivaninha, 
em que o Padre guardava feus papeis : ou foíTe confiança^ 
ou foíTe cobiça j puxou de hua gaveta 3 ôc achou dous pa- 
peis envoltos: em hum guardava o Padre para fuadeva- 
ção alguns pedacinhos de oíTos, que erão reliquias de Tan- 
tos: no outro eftavão hús pòs medicinaes para íeus achji- 
ques. Calloufe o Mandarim 5 & foy depois efpalhando: 
como o Padre dava a beber oíTos de defunto , moidos , & 
delidos em agoa; com a qual agoa fazia enlouquecerjâos q 
bautizavajou com ella lhes fazia feytiço, para que naó te- 
Tneírem,nem a mefma morte. Foy tam recebida eíla opí- 
niãojque atè ao mefmo Rey pareceo certa : acrecentando, 
que em todo o cafo havia de lançar fora ao Padre,para não 
enfeitiçar feus vaíTallos. Efta falfa doutrina foyfempreef- 
palhãdo o demónio defdo principio da promulgaçam do 
Santo Evangelhojpara que os Idolatras tapaílem os ouvi- 
dos à prègaçamj & techaíTem os olhos à luz dos milagres, 
com que Deos claramente confirma ftia divina ley. Nem 
fahiram defte engano tam prejudicial as fuás almas, em 
quanto quizeremfeguir fomente os diâames da carne, 
& fangucjcm tudo opoftos aos do efpirito, & da verdade. 

Tor- 



REYNODA COCHINCHINA. 112 

Tornando pois ao Campo em que os valçrofos Tolda- 
dos padecendo por Chriíto.triun faraó do Rey tyrano;de- 
pois daquella injufta execução das mortes , íe feguio a fa- 
crilega queima das íagradas Imagens ,& livros da Icy de 
Deos. Quiz o Governador da Provincía, queeraChrif- 
taó às efcondidaSjimpedirhuma, 6c outra execução; mas 
por medoj que lhe meteo hum Mandarim de letras, dizé- 
dolhe: como ambas eraó mandadas por expreíTa ordem 
delRey;naó fe atreveo a defender a innocécia, nem a pro- 
feíTar a tèjque tinha jurado no fanto Bautifmo.Pudèra na 
verdade aprender dos humildes , & dos rudes a generoíi- 
dade5& conftancia em guardar a ley , que tinha recebido. 
Mas finalmente Deos he fempre o mefmo, em levantar 
os humildes com as mercês mais avantejadas:& em repar- 
tir os thefouros de íua graça com aquellesjque do mundo 
ignorante faó defprezadosjpor naò ferem politicos. Com 
tudo para fenaó moílrar de todo Idolatra ; mandou 5 que 
não foíTem queimados nochaó , mas fobre huns paos , di- 
zendo: Como não convinhajque as Imagens ? õc livros da 
ley do Senhor do Ceo tocaíFem a terra. 

Recolhidos os Toldados : chegàraó-fe os Chriftãos aos 
corpos de Agoítinho^ôc de Aleyxo: huns lhes beijavaó cò 
muyta devaçaó os pès; por terem pizado , & defprezado, 
quanto prometera o mundojôc ameaçara o tyrano:outros 
abraçavão com grande aífeélo as cabeças ; por terem alcá- 
çado com a vióloria a coroa do Martyrio : & todos có fan- 
ta enveja repara vão, como aquelles corposjque pouco da- 
tes erão como os dos mais homens 5 agora eram dignos da 
veneraçam de Santos;pelo que cada hum com pia cobiça 
hia recolhendo algúa couíà do fangucjôc dos veftidos, pa- 
ra a guardar como preciofo thefouro. Pafsàraó depois a 
dar os parabéns aos quatro pelas aíFrótas^ôc dores, que pa- 
deciâo pela confiíTaó da Fè:&com mayores demoííraçòes 
de aíFeélo os deram a Simeaó ; pois tinha alcãçado de mais 
a perda de hú dedo. Vendo os Chriftãos como eftes qua- 

P tro 



113 BREVES NOTICIAS DO 

tro neceífitavaó de remédios para as feridas , & de fuílen- 
to para as forçasjrepartiram entre fy aquelles piadofos of- 
íicios: huns com o Pay? &z mulher de Agoftiíiho , & com 
os Parentes de Áleyxo tomarão a fua cóta,veílir , por nos 
caixóesrêt dar íepultura aos dous mortos:outros fe encar- 
regaram da cura das feridas , &c do reparo das forças dos 
quatrojque apenas eífavam vivos. E pofto que com todo 
o empenho de cuydadosjôc degaílos trataíTem da vida do 
bom velho Simeam ; com tudojpor ferem grandes as do- 
res, & poucas as forças,que lhe tinham deixado os muy- 
tos annos 5 cheo de alegria pela efperança do premio 5 aos 
dez dias depois do triunfo dos dous companheiros Agof- 
tínhoj& Aleyxo foy receber também d\e a fua Coroa de 
Vencedor. Faleceo aos quatorze de Julho de mil & feií- 
centos & quarenta & feisjde idade de feíTenta & dous an- 
nos. ChriifaómuyantigOj&muyzelofodaíalvaçaó das 
aImas;pelo que tinha alcançado licença do Padre5paraa* 
judar, no que podeíTe, ao Catequifía Agoílinho. O qual 
paífou deíla vida de idade de quarenta & dous annos : foy 
caiadoíôc por faber letras?foy conílituido cabeça, & Cate- 
quiíta da fua aldeã Quedaixa. A fua cafa fervia aos Chriftã- 
os de Igreja para as orações : ôc era tão fervorofo no eníi- 
nar a Ley de Deosjque naó fomente não temia os contí- 
nuos perigos em tempo de perfeguiçam ; mas fe arrojava 
ainda a todo o rifco para a falvaçaó das almas : có que mo- 
veo a Deosj a lhe fazer a mercê dee morrer pela confiílam 
de feu íanto Nome em companhia de feu amigOjtk patrí- 
cio Aleyxo de quarenta & três annos de idade. Efte entre 
as occupaçóes de foldado naó fe defcuidava das obrigaçõ- 
es de Chriílãojpofpondo fempre o ferviço delRey ao cul- 
tojôc o bediencia devida a Deos Creador , & confervador 
de todas as coufas. Padecerão em Dinhtram aos quatro de 
Julho de mil & feifccntos & quarenta & féis: deixado em 
todos aquelles Chriílãos grande enveja de fuás gloriofas 
mortesjéc muy vivos defejos de os imitarem na vida com 

a conf- 



REYNO DA COCHINCHINA. 114 

a conftancia na guarda da divina ley. E bem o moftrou lo- 
go hum delles por nome Thomè ; pois chegc*.do a Quang- 
binh poucos dias depois das mortes de Agoílinho , & de 
Aleyxo hum gentiojfeytor de hum grande Mandarim da 
Corte,para arrecadar as rédas , entrou em cafa do Thomè: 
& vendo húa Imagem do Senhor dependurada na pare- 
de, diííe a ThomèiQuevifto ElRey prohibir a ley dos Por 
tuguezes,lhe nam covinha a ellcter em cafa aquella Ima- 
gem. Reípondeo Thomè 5 fer Imagem do Senhor, que 
creàra o Ceoja terra5& todas as couías;&:por iíTo fe lhe de- 
via todo o reípey to,honra,& veneraçam;porque fe as car- 
tas delRey fe recebíão com todo o acatamentojfò por tra- 
zerem o feio Real ; muyto mais era devido à Imagem do 
Rey. Não fe quiz render à rafaó o feytor: Sc levantando- 
fe , puxou da Imagem , & fe foy com ella. Ficou Thomè 
pafmado do atrevimêto do feytòr, & parou humpouco? 
para cuidarjO que devia fazer. Mas logo que lhe occorreo? 
que por fer gentio podia fazer algum defacato à Sagrada 
lmâgem:fahio de cafa com toda preíTajalcançou-Ojôc com 
grande refoluçaó pediojíhe reílituilFe a fua Imagem , que 
por nenhum cafo havia de levar. O Idolatra vendo a re- 
loluçam de Thomè temeo-fe , & em fim lha entregou di- 
zèdojque íe tornaífe a ter a Imagem , o havia de levar pre* 
zo para a Corte. Refpondeo Thomè. Entregueme a mi- 
nha Imagemjôc depois levarmehajpara onde quizer. Ar- 
recadado aquelle divino thefouro, o foy efconder ; para o 
nam expor a femelhantes roubos;& depois muy foccega- 
do efperava,que o feytor tornaífejpara a Corte. Pofto que 
eíte não lhe diífeíTe mais palavra; com tudo Thomê , pelo 
defejo,que tinha,de padecer, & morrer por Chrifto, o foy 
feguindo: nem permitio que feu filho , ou outra peííoa de 
fua familia , f oíTe em íua companhia. Chegados ambos à 
Corte : entrou Thomè com o feytor em cafa do Manda- 
rim: & perguntando eíle ao feu feytor , o que aquelle Al- 
deam bufcava; foy obrigado ao informar da Imagemsque 

Pij lhe 



IT5 BREVES NOTICIAS DO 

lhe achara em caía , & como era Chriftão o Mandarim re- 
prehendeo afperamente ao feytor , por fe meter em cou- 
la? que nam lhe era mandada :& depois virando-fe para 
Thomè 5 que efperava 5 & fufpirava pelas cangas , & cata- 
nasjhe diíle: Voltai embora para volFa caíi ; pois vos ou- ■ 
tros os Chriftãos fois. peíFoas 5 que nara fazeis níal a nin- 
guém. Qual ficaria Thomè a eíla nam efperada5& menos 
cíefejadafentença:asefperanças de morrer fruftradasjà 
lhe cauíavam mayor pena 5 que a morte , o defpacho po- 
rém tam honrofo à Ley de Dcos lhe dava grande conten- 
tamento : efteve duvidofo , de perplexo ; íe daria as graças 
ao Mãdarim pelo louvor dado à Ley de Deos : ou íc quei- 
xaria deíle pela brandurajcom que o tinha recebido 5 & 
tratado. Mas prevalecendo o bem comum da Religião 
ao particular gofto 3 que elle tinha de morrer 5 fez muy 
profundas cortcíias ao Mandarim em íinalde grande a- 
gradecimento : & voltou para fua aldeã 5 contando as vi- 
âorias da Ley de Deos. 

C A P I T U L O X. 

Noticias de vários Jucce{fos 5 que depois houve : 6^ do novo dejlerro 

dos IPadres, 

OSTO que EIRey tão impiamente per- 
feguiíTe a Ley de Deos , & tam tyranica- 
mente caíligaíTe feus vaíTallos Chriftáos; 
com tudo não lançou fora do Reyno ao 
Padre Metello Saccano: antes recebeo c6 
agrado ao Padre Carlos da Rocha, que no 
anno feguinte de mil & feiícentos & quarenta & fette a- 
portou com a Nao de Macao : & deu mais licença a am- 
bosjpara ficarem em Faifo 5 a fim de acudirem aos Portu- 
guezesjque là chegaíTem de vários portos. Efta grande 
liberalidadejque feZjnafceo de muyto mayor cobiça?» que 

tinha? 




REYNO DA COCHINCHINA. ii6 

tinha,naó fomente do que os Padres lhe levavaó para mi- 
mo naó menos cuftofo que curiofo; mas também do q os 
Capitães lhe ofTertavam com toda a grandeza:& fobre tu- 
do do proveytojque tirava da efcala, que vinhaó aly fazer 
as nãos Portuguezas;por virem fempre muy ricas.Porèm 
nem todas eílas cònvenienciasjforam baírantes , para El- 
Rey politicamente encubrir o ódio, que tinha á leydos 
Portuguezes; antes na licençajque concedeo , prohibio 
expreílamente aos Padres , fahirem do bairro 5 ou rua dos 
Japoens , como também pregarem 5 & eníinarem fua ley 
aos Cochinchinas. 

Eífe odiojque ElRey tinha concebido contra a Ley de 
Dcos pelos receoSique os Portuguezes ajudados dos Chri 
flãos da terra tomariam algum dia aquelle feu Reyno;era 
fomentado por húa Princeza chamada Humphum, mu- 
lher que foy de feu Irmão mayorjcom a qual efcandalofa- 
mente íe defmandàra : & quanto mais fe defenfreava o a- 
mor delRey para com elkjtanto mais ella aíToprava as foC- 
peytas delRey contra os Chriftáos, movida nam tanto do 
zelo de fua falfa Religião quanto índufida de feudefati- 
nado defejo de fer Rainha naó fò da Cochinchina mas tã- 
bem do Tunquim,Reynos entre fy inimigos. Para o qual 
fim tramava occultamente traiçam a ElRey , que tanto a 
amava5para o entregar ao Rey do Tunquim, que lhe pro- 
metia a ella com as bodas ambas as Coroas. Cuidando pois 
efta Princeza , que tanto mais facilmente alcançaria ella 
do IdolojO quedefejavajquanto eíte foíTe maisfrequenta- 
do,& adorado;defvelava-fe com todo ô empenho em deí- 
truirjÔc acabar de huma vez com toda a Chriíhndade,pa- 
ra grangear com iílo o amor,^ a obrigaçam do Pagode , a 
quem também fabricava hum magnifico templo. ElRey 
cego da payxão vinha nos gaftos : cuidando fer aquella o- 
bra hum claro teílemunhojôc huma oftentaçam do amor 
delia para com fua Real Pefiba : & cfperava , que por efta 
oíFerta fe moveria o Pagode a lhe dar a elle muy largos an- 

Piij nos> 



517 BREVES NOTICIAS DO 

nos5Ôc a feu Reyno muy avantejadas felicidades. Quando 
ella com efta taai grandioía peyta negociava com o Pago- 
de a morte delRey tanto feu amatcj&o cati\'eiro do Rey- 
no,que todo a adorava. Na verdade nunca foy fiel a co- 
biça^nera confiante o amor deíordenado. E bem o expe- 
rimentou o enganado Rey ; pois quando menos fe recea- 
va, chegou no Março de mil ? & feifcentos & quarenta Ôc 
oito o Tunquim com poderofa armada de oitéta mil ho- 
mens: & deíèmbarcado nas prayas da Cochinchina ; (que 
fe aparta do Tunquim por hum riojou braço de mar lar- 
go quafi duas legoas) por não achar reMencia baftante, 
foy entrandoítomando fortes,matando prefidiosjaírolan- 
do5& queimando quanto achava. E ficara Senhor de to- 
do o Reynojfc fiado na traiçam nam fizera alto , detendo- 
fe cm repartir jà(?omo dono as terras aos Conquiftadores. 
Eík detençajque foy fempre de perjuizo aos vencedoresj 
foy particular providencia da Mifericordia Divina ; por- 
que ficariam deftruidas as Chriílandades aífim do Tun- 
t]uím como da Cochinchina, fe a Princeza traidora che- 
gaífe ao trono , & domínio Real de ambos os Rey nos. O 
defcanço pois dos Tunquins deu lugar, &: tempo aos Co- 
chinchinas, para tomarem as armas,como logo fizeram. 
Porque chegados pela meya noyte os avífos a Corte hum 
dia5& meyo depois da entrada do inimigo: logo no efpaço 
de quatro horas marchou por terra hú exercito de vinte 
mil homens , governado pelo Principe herdeiro do Rey- 
no: & por mar huma Armada de mais de cem galés debai- 
xo do mando do Irmão delRey. O qual , poíto que efti- 
veíle de cama,& m uyto doente ; com tudo para que o po- 
vo nam defmayaíTejfahio da CortCjôc fe foy pòr mais per- 
to do inimigo : aflim para animar aos feus,como também 
para dar as ordens,& acudir às necellidadesaiosaccidentes 
da guerra. . 

Em quanto vay andando toda eíla foldadefcajtenho eu 
tempojpara refponder , 6c fatisfazer a huma duvida , que 

poderia 



REYNO DA COCHINCHINA. ii8 

poderia nacer do q tenho dito: Como no efpaço de qua- 
tro horas fe ajuntaram dous numerofos exércitos, hú por 
maríôc outro por terra : íem preceder antes avifo â Corte, 
de fe chegar o inimigo ; nem ordé aos Toldados para íe fa- 
zerem preftes. Para repofta bailarão as noticias do nume« 
rojda difpofiçamído exerciciojda repartiçam , & prepara- 
çam da milícia Cochinchina. 

Os foldadosjque ordinariaméte refidem na Corte, paf- 
faó de trinta mil mofqueteiros, repartidos em companhi- 
asjfincoentajou mais em cada huma. ElRey fuftenta a to- 
dosjdandolhes arroz , & dinheiro fufficiente para duas ca- 
bayasjou roupoens de feda no principio do anno » & tam- 
bém para todo o neceílario conforme o cargo, que cada 
hum exercita. Todas eftas companhias ficão alojadas de 
huma 5 & de outra parte do Rio , que divide a Corte pelo 
meyo , táo largo como hum tiro de peça com efta difpoíi- 
çam porèra , que deixado hum caminho real à borda do 
Rioja primeyra cafa he de vigia , onde de dia , & de noy te 
ha fentinellas: fegue-fe logo a cafa do Capitam , & depois 
no mefmo lanço pela terra dentro as de todos os foldados 
da fua companhia: os quaes alli moram com fuás famílias, 
& com baítantes comodidades ; porque cada cafa tem feu 
quintal com fua horta pequena : & para que cada hú pof- 
fa eftar a feu gofto , 6c também para fe evitarem às difcor- 
dias tam frequentes entre a foldadefca,eílas ruas , que fam 
direytasjcftam diípoftas de maneira que em hum lanço fi- 
cam todas as portas de huma companhia , & no outro de 
fronte correm as paredes exteriores dos quintaes , & hor- 
tas da outra companhia. . 

O exercicio das armas he continuo : todos os foldados 
devem aíliftir cada dia a feu Capitam,© qual dentro de fua 
grande cerca tem alvo , a que atiram os da fua companhia 
com premio,a quem o acerta , & pena aquém demafiada* 
mente o erra. Os moíquetes alli os fazem , & bem refor« 
çadosjôc curfam muyto. Não ufam de forquilha,nem en» 

P iiij coílão 



119 BREVES NOTICIAS D;0 

coííão O mofquete ao honibro; mas pondo debaixo do fo- 
baco o couccjque he mais coniprido5& mais arqueado ? q 
o noíTo de Europa : & apertandc-o coro o braço , põem a 
mira,& fazem íeu liro fem moleftia do liombro no recu- 
ar da arma. ElRey dà o mofquete , elles fazem o murrão 
de certas caícas de arvores,ou de algodão. Para a pólvora, 
& pelouros reparte ElRey o chumbo?&: falítre com o en- 
xofre,a cada companhia j & cada 'húa tem fempre preftes 
todos os mais ingredientes , & todo o aviamento , para os 
fazer ; de maneira que em hum dia podem fazer de novo 
infinitos pelourosjèc milhares de arrobas de pólvora com 
toda a facilidade. Porem aos Fidalgosjôc Nobres , que to- 
dos feguem a milicia? dà ElRey pólvora, & pelouro. To- 
dos fáo obrigados algumas vezes no anno a atirar ao alvo 
em prefcnça delRey , & de toda a Corte com feu premio 
aos bem adeftradoss&caítigo aos mal exercitados. Não ha 
muytos annosjque a hum moçojgrande Fidalgo , que era 
mais Philofopho que foldado,ôc para os livros mais, que 
para as armas,por errar enormente com o tiro,lhedcu El- 
Rey por caftigo: foíle com os frafcos de pólvora, como ef- 
tavajatè a praça bem diftante com hum Pagem de Palácio, 
que hindo atraz^difia a todos: Eis aquy eite homem he Fi- 
daígo,& foldado delRey , & ainda não fabe atirar ao alvo, 
Comeíh aíFronta Ihequiz ElRey acender os nobres ef- 
piritus , que entre as folhas dos feus livros eftavão apaga- 
dos. Corre mais a Nobreza com a artelharia , 6c tem por 
honra o officio de artelheiro;porque ElRey,& os Princi- 
pes fe deleitão muyto de atirar ao alvo com ella;tem poré 
íeus ajudantes para o meneo das peças. 

Toda efta foldâdefca fe reparte em dous exércitos : hú> 
& he a mayor parte,por terra,ôc a pè; em que entra toda a 
Nobrezajéc também os letrados em apertos de guerra , os 
quaes tem feus Cabos,qucos Capitaneara , & trazem to- 
dos por armas, arco, & fetta. O outro por mar em Galés, 
das quaes jè falamos nas Breves Noticias do Reyno da 
Cochinchina. Não 



REYNO DA COCHINCHINA. 120 

Não uiani miiyto de Cavalleria nas fuás batalhas; nam 
porque náo haja muytosjôc bons cavallos , mas porque fe 
fervem dos ElefanteSídos quaes abundão aquelles matos, 
aífim como as nofías campinas de Europa do gado groíTo. 
Ha criaçam delles em cerrados muy dílatados:& também 
os caçãoj& os vão amaníando cora fome, & com pãcadas; 
depois acompanhando-os com os jà manfos 5 os vão acot 
rumando ao ferviço da guerra. Mas para fefaber, quaes 
fejão CS medrofos , & quaes os animofos 5 faz ElRey eíla 
experiência. São levados os Elefantes novatos com íeus 
nairesacavallono pefcoçopara hum campo : & poftos 
três, ou quatro em fileiraj fahem huns foldados com cata- 
nas nuas,&: começão a eígrimir diante dos Elefantes? que 
ficão parados. Dado o íinal ? correm os foldados : & pica- 
dos os Elefantes 5 correm a poz elles. Chegados os folda- 
dos a hum certo termo , fogem para os lados , & fe efcon- 
dem : 5c logo na carreira aparecem mais longe outras tan- 
tas eftatuas de palha vertidas como os foldados , q defapa- 
recérão. Continuão os Elefantes a correr 5 para acomete- 
rem aquellas figuras 5 & quando eílão perto delias 5 toda a 
moíqueteria da carga ferrada. Os Elefantes animofos não 
fazem cafo do eftrondojôc vão enveftir com as eftatuas: os 
medrofos fogem logo , por onde achão o caminho menos 
embaraçado: aquelles ficão aprovados para a guerra, & ef- 
tes fe guardão para outros exames. Pofto que na peleja 
vão fobre os Elefantes muy tos foldados com mofquetes, 
& com outras armas; com tudo o mayor eftrago fazem os 
mefmos Elefantes com os dentes. Mas porque alguns os 
trazem de nacença quafi encruzados ; para os endereitar, 
lhe fazem huma medecina liquida 5 com a qual untando 
muy tas vezes os dentesjos fazem tão molleSjque os virão, 
& torcem a feu gofto,como fe foíTem de cera, ate ficarem 
ambos igualmente afaftados hum do outro , & as pontas 
iguaes 5 huma não mais alta que a outra. Em quantç pois 
não endurecem , vão metidas humas traveíías de pao en- 

QL_ tre 



121 BREVES NOTICIAS DO 

tre dentCjôc dente , para que fenão afafte mais ? nem mais 
fe chegue hum a outro. Verdade íejajque atènão ficarem 
duros CS détes?aque]Ias beílas naó pode corner: ou feja pe- ^ 
Ia dor,ou íeja pelos dentes da boca lhes íicaré embotados. J 

Finalmente a preparação damilicia Cochinchina he 
admirave],aílim por morarem todos os foldados perto de 
íeus Capitães , como por eftar fempre preftes todo o ne- 
ceilario, para acudir logo a qualquer repente: tendo ou- 
tros Mandarins o cuidado , de irem mandando mais pro- 
vímentosj& fe vay fempre renovando , o que fica inútil, 
§>c danificado. As Galèsjpofto que eftejão varadas em ter- 
ra^ficão porém no efraleyro de maneyra,que para as laçar 
ao rio 5 lhe baila a força dos remeiros : & logo no mefmo 
lugar ha todo o mais aviamentOjpara fahirem providas, & 
armadas. Sò chcgão ao Paçojpara tomarem a ar telharia , a 
qnai cavalgãojôc defcavalgáo com grande prefteT&ajÔc faci-» 
lidade. O coílume pois para fe ajuntar todo o exercito he 
eíle: dentro do Paço ReaUque fica no meyo de toda a fol- 
dâdefca, ha três peças de canhões: ao primeyro tirojtomãQ 
todos as armas com o mais neceílario, & acodem a cafa de 
feus Capitães: ao fegundo, vão todos para o Paço , a toma- 
rem as ordens: & ao terceyro tirojmarchão para onde fará 
mandados. 

Aííim o fizera m aquella mefma noytCjcm que chegou 
oavifoda entrada doTunquim: &deuElRey ordem a 
feu IrmãojfoflTe com as galés à Barra do rio da Corte , para 
empedir a entrada às galés do inimigo; & mâdou ao Prín- 
cipe feu filho de vinte & nove annos de idade marchaflfe 
por terra com a infantaria5& Elefantes» para deíalojar ? de. 
lançar fora do Reyno os Tunquins , que eftavão a quarte- 
lados em quatro poftos à vifta huns dos outros. Pelo que 
G Principe Cochinchina foy obrigado a formar dos vinta 
miljq Ievava,quatr(>efquadr6es ; para opor força à força> 
& impedir o foccorro à partçjqup elle quizeíTe acometer. 
Reparando pois como o mayor podef dq inimigo eftava. 

em 



REYNO DA COCHINCHINA. 122 

em dous arrayaes, hum perto do rioBung heii>&; o outro 
mais dentro da terra em hum campo chamado Doum va- 
um: preíentou logo a batalha neftes dous lugares; nem c6 
menor brio5& valor foy aceitada dos Tunquins , pelejan- 
do-fe vai erofam ente de huma , & de outra parte. Porem 
logo que os Tunquins forão defcubrindo a multidão dos 
Elefantes 5 com que os Cochinchinas vinhão carregando 
fobre ellesjtiverão medo5& perderão a eípèrança 5 & com 
a efperança a viâoriajlargãdo as armas, & fugindo vergo- ' 
nhofamente. Reparàráoos Tunquinsjque ficavão nos ou- 
tros arrayaes na fugida de feus companheiros: & em lugar 
de acudirem com todo o rifco ao credito de fua naçãojtra- 
tàráo fò de pòr em falvo as próprias vidas:nem fe atreven- 
do a emendar como esforçados o erro dos fracos?íeguirão 
como medroíos o exemplo dos fugitivos. Porém 5 como 
as mais das vezes acontecejn.a fugida deram com a morte, 
da qual efcapariam por ventura 5 fe eftiveílem conftantes 
nos lugares,que occupavam: ou fe adiantaffem ainda ani- 
mofamente contra o inimigo, que os bufcava. Foram tã- 
tos,os que morreram no riojou aiTogadosjOu feridos , que 
por muyto tempo levou mais fangue que agoa : & ficou 
tam coalhado de corpos mortosjque pelo eipaçodemais 
de huma legoa nam podiam as embarcações romperjnem 
abrir caminho para navegarem. Nam lhes fucc.edeo me* 
Ihor 5 aos que hiam fugindo pelos campos ; porque fegui* 
dos nas coifas pelos Cochinchinas viòf orioíosjou alli fica- 
vão cruf Imente mortos , ou dalli os trafiam vergonhofa- 
mente prizioneiros. Com o que foram muy poucos , os 
que efcapâram,para levarem as triíf es novas ao Tunquim. 
Porém muyto mayor vidforia alcí^nçou o amar à ley divi- 
na;que o ódio à naçam Tunquinica;pois os fugitivos^que 
eram Chriílãos,vendo-fe alcançados 5 começavam a fazer 
o final da Ctuz , querendo profeíTar até à morte a milícia 
de Chrifto: o que vendo os Cochinchinas Chriíláos 5 que 
hião em leu íeguimentojção fomente os não feriaô como 

QJj aini- 



12? BREVES NOTÍCIAS DO 

a ínimigosjmas antes largando as armas, os abraçavam co- 
mo a Irmãos: ficando neíta peleja deiarmados os aggreíTo- 
res, & rendidos os corações dos vencedores. Aílim triun- 
fa frequentemente na Aim o amor entre os Chriftãosjpo- 
íto que de nações inimigas : o que não vemos muytas ve- 
zes em Europa. 

Desbaratado o Tunquim , fette dias depois de entrar 
Conquiíhdor : recolheo-íe o Cochinchina viòforiofo pa- 
ra a Corte de Sinoa com perdas fò de quaíi trezentos, que 
lhe morreram no combate ; porém recompenfados com 
muy grandioío defpojojque tomaram ao inimigo a faber: 
trinta & quatro galèsj quarenta &húa embarcações me- 
nores, trinta & fmco peças de artelharia quafi todas de 
bronze, vinte Elefantes,alguns cavallos , & quafi todas as 
armas de mam5catanas,lanças,mofquctes. 

Mas todas eftas glorias nam foram baíiantes , para daré 
faude a ElRey vícíoriofo. Tam limitados fam os bens da 
fortuna! Antes fam muy enganofos,& inconílantesipro- 
metendo ella,o que nam pode dar : & faltando quando fe 
moftra mais íiberaI;comro fuccedeo a efte Rey.O qual náo 
menos pelo abalo,que feZjcm fe paíTar doente para outro 
Jugar pouco fadio , q pelos muytas , & muy moleílos cui- 
dadoSíque com eíla repentina guerra lhe fobrevieraõ, foy 
ficando cada vez peor: & fem lograr a vióloria, quinze di- 
as depois de alcançada, faleceo na Corte de Sinoa no met 
mo dia5em que voltou triunfante , tédo Reynado fò qua- 
torze annos. Nomeou antes de morrer por feu fucccílbr 
a efte Princepe,que era único filho,que então tinha: & bé 
merecia o Reyno;porque nefta occaliam,ou o ganhoujou 
o confervou com íua efpada. Ao terceiro dia foy logo co- 
roado5& aclamado Rey do feu meímoTiojdos grandes,& 
de todo o Povo. Feftejàram todos o novoRey,aííim pela 
experiencia,que tinham jà de feu valor , para os defender 
dos inimigos;como também pelas experanças de melhor 
governopque teriam ao diante : fiados no amor ? que fem-- 

pre 



REYNO DA COCHINCHINA. 124 

pre moftràra aos vaílallos , impedindo os novos tributos> 
que ElRey feu Pay por cófelho da Princeza cobiçofa lhes 
queria impor. Também os Chriítãos fe alegrara mjpor te- 
rem alcançado no novo Rey antes amor que ódio á Ley 
de Deos;porque lendo Principe foy occultaméte ao tró- 
cojaonde eftava prezo o gloriofo Catequiík ígnacio , que 
depois deu a vida pela Fe: & quiz ouvilo prègar;o que iez 
tam alta5& devotamente, que virando-fe o Principe para 
os que o acompanhavam , diíTe : Se ElRey meu Pay nam 
matar efte homenijquero chamalo para minha cafa^ôc ou- 
vilo com mais vagar. Eftas efperanças dos bons fuccefibs 
nas coufasdenoffaíantaleyeftribavam também no niao 
conceyto,que o novo Rey fempre teve dos Bonzos,& na 
pouca devoçara,que moítrou fempre aos ídolos ; por lhe 
parecerem eílesao mais como os outros homês ; & aquei- 
les ao menos homés medrofosjque para fugirem da guer- 
rajfe acolhiam aos templos. 

Nam cévem,que paíTemos em filencio o fucceíTo, que 
teve a cobiçofa Princeza Humphum tam empenhada em 
prefeguir a Ley deDeos5& em deftruir toda aquella Chri- 
llandadcjpara íe grangear có ifto o amor do ídolo , de quê 
eíperava nam menosjque as duas coroas de Cochinchina, 
6c Tunquim. Mas como todos feus obfequios eram para 
quem, tendo olhos5naó via: nem ouvia ? poíto que tiveíle 
ouvidos;por iíío naó fò naó alcançou do Ídolo o premio, 
que delle efpcrava;mas antes de Deosjque tudo vè, & ou- 
ve: nemdormcjquando calla: teve o çaftigo , que nam te- 
m ia a fua traiçam ,ôc tyrania. 

Entre osprifioneiros de porte havia hum Eunuco por 
nome Gialijo qual neftavoltajque afortuna deu às cou- 
fasjaprendeo pela experiência jquam inconílantes eraó os 
bês defta vida. Pois fendo o mayor valido delRey de Tú- 
quim veyo fer o mais aborrecido na Cochinchina : & das 
"horas do Paço Real 5 onde era eílimado como outro Rey, 
paíTou à infâmia de huma Capoeira , em quê ficava prezo 

Qjij como 



125 BREVES NOTICIAS DO 

como bruto animal. Vendo-íè pois o miíèravel tam tro- 
cado5&: padecendojo que nunca receara : queixava-fe naó 
tanto de fua ruim forte , quanto de quem fora a cauía 5 de 
elle vir enganado: & poílo que naó apontaíTe peíToa par- 
ticularíCÓ tudo dava a cntender^que fora chamado. Nam 
faltou quem cótaíTe a ElReydaCochinchina asfentidas 
queixas do Eunuco, & do que fe podia fofpeytar das fuás 
palavras;pelo que mandou ElRey fazer muy grandes di- 
jigenciasjpara que fe abriffe mais,defcubrindo tudo o que 
havia.FinalmenteconfeíIou; como a Princeza Humphír 
chamara os Tunquíns naquella occafiaó , em que ElRey 
falecido eftava doente 5 aíTegurãdo-os da entrega do Rey- 
no cora tanta certeza, que ElRey de Tunquim mandara 
huma gale Real muyto fermofa para a Princeza fe paííàr 
nella ao Tunquim 5 &fe coroar alli Rainha de ambos os 
Reynos. Pofto que efta galé foíTe huma das que foraó to- 
madas; com tudo naó quiz ElRey da Cochinchina proce- 
der ao caíl igo, efperando por outras noticias , (jue confir- 
marem, ou defcubriíTem mais a traiçam. Daily a poucos 
dias foy preza nos confins de Tunquim , &: Cochinchina 
huma velha,que com disfarce de pobre, & pedinte queria 
paííar da Cochinchina a Tunquim: bufcada pois có muy- 
ta diligencia, lhe achàraó dentro do bordaó em que íe en- 
coílâvajhurca carta da Princeza para feu Irmão refidente 
no Tunquim. Aclarada,& provada a traiçaó;mandou lo- 
go ElRey prender a Princeza,&: confifcar toda a fua fazê- 
da^que era muyto rica ; porq além do muyto ouro , tinha 
muy tas perolas,peças muy curiofas , & todo o preciofo, q 
de muy tos annos entrara na Cochinchina: o que tudo re- 
partio ElRey com os Mandarinsjôc foldados. Deu també 
ordem,que lhe arrafaíTem as cafas, que eraó muy grandes, 
òc fermofas. Grande foy o gofl:o,que a Nobreza,6r o Po- 
vo tiveraó;por fe defcubrir a traidora , que tanto os vexa- 
ra: & pedirão todos a ElRey,a mãdaíTe matar , & fazer em 
poftas. Mas ElRey naó quiz ufar de muyto rigor, refpei- 

tando 



REYNO DA COCHINCHINA. 126 

tando ainda nella?o ler ella fua tia ; pelo que a entregou a 
feus primos 5 filhos delia , para quea tiveíTem fechada em 
humacafa, emqueinfelifmentemorreo. Aflim acafti- 
gou Deos;por ella apertar com os ChriftáoSípara eílender 
mais o culto do íeu ídolo? & pelo ídolo alargar ella mais 
fua foberania. Naó fuccedeo efta vez ao demónio , o que 
naó poucas vezes lhe acontece 5 de ficar elle com as oífer- 
tas,depois de ter enganadO)& ferem caftigados feus devo- 
tos; pois ElRey mandou derrubar também o templo por 
efta infelice Princeza edificado 5 botar ao rio quantos Ído- 
los ally eftiveíTemjôc queimar quantos livros íe achaílem. 
E logo fe executou: fò efcapàram huns livros pelos rogos 
das Beatas,ou vai. Nem íentiria tanto o demónio efte caf- 
tigOjquanto a fentença , que contra elle pronunciou El- 
Rey? dizendo publicamente: Naó podiaó fer bós os Ido- 
I0S5& os livrosjque tinhaó enfmado a Princeza 5 a fazer o- 
brastaómàs. 

Defte fucceíTo fe alegrarão os Chriftãos, & deraó muy- 
tas graças a Deos ; nam fomente por ficar abatido o culto 
do demónio em feus Pagodes ? mas também por moftrar 
ElRey tanta averfam aos Bonzos5& a feus devotos. O que 
tudo prometia muy felices progreífos àscoufas denoíla 
fan ta Religião.' Alentado com eftas efperanças o Padre 
Metei lo Saccanojfoy de Faifo à Corte , para vi fitar ao no- 
vo Rey:& por confelho dos Japóes acompanhou o prefé- 
te curiofojque levava , com hum papel : pelo qual dava a 
ElRey os parabéns da gloriofa viétoria alcançada dos Tú- 
quins5& também do novo? & abfoluto governo 5 que to- 
mara daquellc Reyno de Cochínchma a qual debaixo de 
fua prudente real 5 & paternal cjifpofiçaó iria florecendo 
cada vez mais ; pelo que todos affim naturaes como eílrã* 
geyros feftejavaó com grandes moftras de alegria a fua co- 
roação. Depois difto pediaó os Padres algum fitiojpara le- 
vantarem caíajôc morarem nella ; vifto em Faifo naõ teré 
jà morada própria. Recebeo ElRey ao Padre có carinho: 

Qju) èclhç 



127 BREVES NOTICIAS DO 

6c lhe deu os agradecirnentos aííini do prefente como dos 
parabés. Quanto ao ponto do íitio para fazerem cafa5lhes 
mandou dizer: Como EJRey feu Pay tinhajâ determina- 
do5C]ae os Padres ficalíem na rua dos Japões, & affim nam 
parecia bera nem eracoikime, que elledirpenfaílè logo 
nas ordens de íeu Pay : davalhes porém licença de levan- 
tarem caía na dita rua aonde quizeílem. 

Fora em tudoeícuíada eftapetiçam nefta primeyra vi- 
íita ? & de parabéns , íe em parte a nam efcufaíTe o grande 
deíejojque os Padres tinhaó de acudir à taó dilatada Chri- 
fendade. Ficaváo os dous Padresjque entaó havia,na rua 
dosJapceS)& corria já o fegundo anno, que tinhaô aquel- 
Je bairro por cárcere , fem poderê íahír dellejnem pregar 
T\díe aos Cochinchinaà. Defejavam p.oriíío os Padres, 
ter caía propria,& fora daquella rua5para fahirem daquel- 
la prizani5& ficarem livres , affim os Padres para irem aos 
Jugarcs dos Cocbinchinas.como eftes para acudirem à ca- 
ía dos Padres. Se valeram logo deíla occaíiaó , na qual os 
Principes , que entraó de novo no governo dos Reynos> 
pelo muyto que defejaó ter feus vaílallos contentes 5 fam 
mais liberaes. Mas o novo Rey , ou foííè por refpey to de 
feu PayjOU peloreceo dos Chriftãos, com bom termo ne- 
gou aos Padres50 que pediam;pelo que foram continuan- 
do com os mefmos apertos,^ prohibiçóes. Có tudo neC- 
ta ida à CortCjfez o Padre grandes ferviços a Deos:viíitan- 
co,& confolando as Chrilíandadesjque ficavam no cami- 
iihojôc muyto mais aos que eftavaó na Corte ; na qual cò 
a capa da viíita a El Rey teve mayor liberdadcôc fe deteve 
baftantes dias. Os primeyros doze gaitou em ouvir con- 
fiííoens de diajôc de noyte, & em miniftrar os mais Sacra- 
mentos. Tanta era a fome , que aquelles bons Chriftâos 
tinhaó do pam de fuás almas : nem menor era a paciência 
do Padre em o repartir 5 & dar a cada hum o de que necef- 
íitava. ^^ 

Com a pouca devaçaó^que ElRey moftrava aos ídolos, 



REYNODA COCHINCHINA. 128 

& com o aborreci mentOíque tinha aos Bonzos, cobrarão 
os Neófitos animo, & tam grande , que nos arrebaldes da 
Corte com m^ais piedade,que prudência íaíiaó os enterra- 
mentos com publicidade, & com velas acefas nas raãos> 
como fe eftiveilem em Roma.Porèm o q confolou ao Pa- 
dre Metello5foy,declararem-fe muytas peílbas graves , & 
também de íangue real por bem aíFeclas a Ley deDeosjôc 
muydefejofasde a receberem. Oprimeyrofoy hú Pri- 
mo de ElRey,moço de lindas partes:o qual bufcou occul- 
tamente ao PadrCjque morava em húa embarcaçaó,& lhe 
pedio o fanto Bautifmo,tendo ouvido jà o Catecifmo. O 
Padre louvou íeus defejos, dignos de hum Principe ; pois 
eram de cóquiftar o Reyno do Ceo : & lhe foy repetindo, 
o que havia de crer , &c devia íaz-er , para alcançar a bema- 
venturança, para a qual encaminhava as almas a Religião 
Chriílã. Achando-o pois muyto bem inítruido, lhe quiz 
dar logo o fanto Bautifmo; mas dilatou-o por poucos dias 
porcaufadehúas diligencias, que fe deviam fazer antes. 
Depois da vifita a ElRey,foy vifitar ao Tio delRey. Deu- 
fe o Padre por obrigado,a lhe fazer efte obfequio ; porque 
logo que chegou à Corte,mandou efte Principe hum feu 
criado Chriíl:aó,a faber de fua vinda , & quem era. Disfar- 
ce, com que os grandes dam a entender , que querem fer 
vi fitados. Foy o Padre recebido com grandes moftras de 
amor: &fe detiveraó ambos por largo efpaço em varias 
praticas. Nas quaes o Principe íignificou a eftimaçaó,que 
elle fempre fizera dos mais Padres,cujas lembranças guar- 
dava em feu coraçam , & goftaria muyto , que também o 
Padre correíTe com elle , & fe valeífe delle, para coufas de 
feu gofto. Refpondeo o Padre,dandolhe as devidas graças 
pelas honras,que fizera a feus Irmãos , & muyto mais pe- 
las que lhe fafia a elle,por elle,por elle muyto menos lhas 
merecer. Se elle atè entam nam tinha feyto , o que tanto 
devia à peífoa de fua Alteza , naó fora por falta de obriga- 
ções, nem de lembranças delias ; mas para que os devidos 

R obfe- 



129 BREVES NOTICIAS DO 
obfcquios naó foílem mal interpretados; ( o que diíTeo 
Padre ; porque o Rey defunto vivera muy receofo deftc 
Príncipe feu Irmaó ) porém a mudança dos tempos lhe 
daria daqui por diante lugar, para cumprir com fuás obri- 
gações: êc com iílo fe defpedio. O amor , que eíle Prínci- 
pe tinha à Ley de Deosj&aos Padresjnacia nam fomente, 
do ter elle alcançadoífer a Ley de Deos muy reótajôc con- 
forme à rafaó , & os Padres íèrem de vida inculpável , & 
muy doutos;mas também do que elle vira com feus olhos 
da virtude da Fé dos Chriftáos no cafo^que apontarei. A- 
doecèra muy gravemente a mulher fegunda defte Princi- 
pCjdelle muy amada;por fer Senhora de grandes partesjôc 
ficar jà no primeyro lugar depois da morte da Princeza. 
Vendo pois a enferma ? como as medicinas lhe náo apro- 
veitavaÕ5& feus médicos não fabiáo jà mais, que lhe recei- 
tarem: bufcou outros medicosjôc outras curas, pedindo a 
huma fua Irmãíque era Chriftã, fizeíle, que os Chriftãos a 
encomendaíTem ao Senhor do Ceo , & de todas as coufas. 
Affim o pedio a Irmã,& aílim o fizeram os Chriftáos : & a 
enferma cobrou faudcjôc ficou valente. Efte fuccefib fez 
grande abalo no entendimento do Príncipe em prova da 
verdade da Religião Chriftã : & grangeou a affeiçáo delle, 
& de toda fua família aos Chriftáos. A convaleçida pois 
no corpo,começou a tratar da faude da almaj&pedio à fua 
Irmã, lhe bufcaíTe algum livro da Ley de Deos. Efta lhe 
levou ávida de Santo Aleyxo muy bem compofta em J 
verfo Cochinchina:a qual por ter vários fucceflbs,& muy ' 
generofos aélos de virtudes , contenta muyto a efta Na- 
ção: & muyto mais goftou delia a nofía Catecumena, que 
por fer grande mufica,& affbyçoada jà às coufas de Deosja 
cantava com grande gofto. Nem era menor o do Princi- | 
pcem a ouvir; mas depois que efte a leo com reflcçamjôc 
ponderaçaójficou aífombrado da virtude da Ley dcDeos; 
pois esforçava tanto a fraqueza do homem: ôcdefejofo de 
faber de outras vidas dos Chriftáos, mandou repetidos re- 

petidos 



REYNO DA COCHINCHINA. 130 

petidos recados à mulher Chriftá fua cunhada? para que 
lhe bufcaíTe outros livros. A boa Chriftã por cóíelho dos 
Catequiftas lhe levou a vida do Emperador Conílantino 
também em verfo [ comoo fam as mais híítorias; por efta 
naçaó íe deleytar muyto com a poeíia ] leo-a o Príncipe, 
6c tornoua a ]^uôc muytas vezes a mandava cantar , & ca- 
da vez louvava mais a Relfgiam Chriíl:á;por íer muy aj uf- 
tadaàtodaaraíaó, & eníinar as virtudes tam próprias da 
alma racional, que como Senhora deve reprimirjôc enfre- 
ar as paixões do corpojque he a parte commua có os bru- 
tos animaes. Tantos eráoos louvores? que efte Principe 
difia da Ley de Deos 5 que muytos o davam por Chriftam 
dentro de pouco tempo. A fua mulher porém mais cla- 
ramente diiJajque queria receber o fanto Bautifmo. 

Outra viíita não pode efcufar o Padre , & foy ao Máda- 
r%) dos Eílrangeyros j que tem poder para governar aos 
que de outros Reynos vam morarjou comercear naquel- 
le Reynojôc hejuiz em feus pleytos. Defte foy recebido o 
Padre muy cortefmente :& depois de muytas praticas a 
mulher do Mandarim pedio ao Padre algúa mefmha cõ- 
tra a gota coraljde que padecia huma fua filha. Diffe o Pa- 
dre;como elle não era medico ; porém tinha huma medi- 
cina mais milagrofa que natural;com a qual o Senhor do 
Ceo,&de todas as creaturas muytas vezes dava faude a do- 
entes de varias, & muy graves enfermidades: & lhe deu 
hum pedacinho da pedrajou terra de São Paulojda qual fe 
ferve Deos para milagrofos eíFey tos em confirmação da 
verdade de fua divina ley. Encomendoulhe porem muy- 
to o Padre a fé que haviaó de ter em Deos ; q por fer Crea- 
dor de todas as coufas , & todo poderofo 5 podia deftruir, 
confervar,& melhorar tudo como mais lhe agradar. Muy 
obrigados ficaram marido 5 & mulher pelo remédio tão 
admirável, que lhes dava: & mandaram virlogoafilha,pa- 
ra que fizefi^e ao Padre as cortefias de chegar com a cabeça 
até o chão. Dadas eílas graças : perguntou mais ao Padre 

Rij aMau' 



131 BREVES NOTICIAS DO 

a Mandarinaje havia algúa medicinaípara os maridos , & 
mullieres não fe agaftarem entre fy. Tomou o Padre dif- 
to occafiaójpara lhes pregar, & lhes eníinar : como o antí- 
doto eiíicacíííimo para haver fempre pazes com todosjera 
o fanto Temor de Deosjcom o qual enfreamos noílas pai- 
xóesjque fáo as caufas de todos os defgoftosj& diííençóes: 
& fe foy efprayandojem lhes itioftrar a fermoíura das vir- 
tudes5& fealdade dos viciosxomo o homem pelo vicio fe 
faíia femelhante aos brutos, que fe deixavão levar do ape- 
tite, & impulfo animal ; porem pela virtude íe chegava a 
Deos,& obrava conforme a rafaó. Foy entrando pelas 
coufassque Deos mandava guardar,para o homem fe afaf- 
.tar do mal5& abraçar o bem, prometendo premio eterno 
aos obedientes,& ameaçando eterno caftigo aos rebeldes. 
Callados,&pafmados o ouvirão todos nãofò pela novida- 
de das coufasjmas também pela verdade do que diíia, pjis 
tudo era tão ajuftado aos diâames de toda boa rafaó. Com 
a pregação acabou o Padre a viíita; & fe defpedio delles : q 
com grandes demonftraçóes de agradecimento não me- 
nos à cortefiajque ao enfino,o forão acompanhando. 

Em todas eftas vifitas hia o Padre íemeando a palavra 
de Deos,para dar a feu tempo o fruto,que fe efperava. Po» 
rèm em outros o foy recolhendo muy copiofo do que et 
tava jà femeado. Hindo o Padre viíitar a Bà Mariajtia del- 
Rey morto,que com grandes anciãs o efperavajôc cada dia 
lhe mandava recados, para que a foíTe confolar ; fe deteve 
em cafa defta Princeza hum diajôc huma noyte , occupa- 
do em ouvir as confiíToens della5dos de fua familia , & de 
outros m uy tos Chriftãosahivcíinhos: repartindo có to- 
dos o Pão Celeftial do Corpo de Jesv Chrifto, bautizando 
a muy tosjôc esforçando a todos com fuás praticas > para q 
eftiveíTem firmes na guarda da divina ley. Nam cabia em 
fy a boa Princeza pela confolaçãojque recebera , de ouvir 
Miífa5& Commungâr,& difia;que vifto ter alcançado de- 
pois de annos,o que tanto defejàra , muy contente fahiria 

deita 



REYNO DA COCHINCHINA. 152 

defta vidajfe Deos lhe âefíh a morte. Nem menor foy o 
alento efpiritualjque tomarão os outros Chriftãos , o qual 
moftraváo nas muytas lagryraas de alegriaídando-fe huns 
aos outros os parabéns de tão grade mercê 5 que Deos lhes 
fizera. Foy tal o fervorjque íe acendeo em todos, que híí 
neto defta Princeza admirado da novidade foy viíitarao 
"Padre , para ouvir íuas pregações : & forão taes 5 que ficou 
convencido feu entendimento : &c fe rendera também c6 
a vontade , fe não efperâra ( como o fafiáo outros muytos 
grandes Mandarinsjôc peíToas de fangue)pelo que o novo 
Rey determinaífe a cerca da ley dos Chriftãos , permitin- 
doa,ou prohibindo-a. Como fe a Religião foíTerafaó de 
Eftado5& a alma huma mera politica! Logo que os mais 
Chriftãos veíinhos à Corte fouberão da chegada do Padre^ 
acudirãojpara o levarem a fuás Aldeãs. Foy o Padre cóío' 
fendo a todos com os Sacramentosjq de dia , & noyte lhes 
miniftrava:& affervorando-os com as exhortaçoens , que 
quafi de continuo lhes faíia. E pofto q os das outras Pro- 
vincias boreaes começafíem a vir em buíca do Padre, 6c o 
Padre defejaft^e vifitar todas aquellas Igrejas : có tudo por 
ter paílado já o tempo 5 que podia tomar , para fazer a fua 
vifita a EIRey:&: para não dar occafião aos inimigos da ley 
de Dfeos de acufarem os Chriftãos,voltou para Faifò ; dei- 
xando na Corte acrecentado o rebanho de Chrifto com 
mais de centojôc oitenta bautizados de novo. 

Com eftes profperos fucceftbs hia refpirando toda a- 
quella Chriftandade : & os Padres hião tendo grandes ef« 
perançasde alcançarem em breve tempo a licença para 
andarem livremente como dantes. Quando o demónio, 
por fe temer muyto do amor,que os grandes hião moftrã" 
do aos Padresjôc muyto mais da affeiçaójque elles hião co- 
brando à Ley de Deos;para atalhar tudo de hum golpcjar- 
mou hum enredo verdadeiramente infernal : o caio foy. 
Na primavera defte anno mil & feifceritos êcquarenta^ôc 
oito chegaram de Macaoa Cochinchina três navios: dous 

iij crao 



133 ' BREVES NOTICIAS DO 
eram dePortuguezes5& o terceiro de hum CapitãoJapáo> 
em que vinhão também algús Portuguezes. Chegou ma- 
is da ilha Fermofa huma SomaiOU nao de Chinas, que pe- ^ 
los ventos contrários tomou ally porto, fazendo fua der- 1 
rota para o Reyno de Camboja. Veyo pois neíla Soma hú 
nioço Cochinchina por nome Joãoio qual efteve muytos 
annos em MacaosÔc ally travou grande amizade com ou- 
tro moço Tunquim chamado Mauro , que depois caufou 
em Macao5& hia embarcado nos navios dos Portuguezes> 
para bufcar o í uílento de fua familia. Logo que João vio 
a Mauro na Cochinchina: ou foíTe por medo das Jeys,quc 
obrigam a defcubrir todo o Tunquim , que chegar a Co- 
chinchina : ou foíFe por cobiça efperando algum premio 
da traição do amigojfoy à Corte , & deu conta da chegada 
do moço Tunquim a hum Mandarim , que naó era bem 
viírodeíte novo Reyjpofto que muy eftimado do paíTaddl 
O Mandarim para íe moftrar fiel , & com ifto grangear a 
graça de íeu Principcdeu logo parte a ElRey com aquel- 
les primorcsjêc encarecimcntosjde que ufamjos cjue buí- 
cão íeus intereíles com os abatimentos dos outros. Man- 
dou ElReyjfe fizeíTem logo diligencias, para fe achar o tal 
moço Tunquim : deráo com elle , & o levaram prezo de 
Faifò para a Corte. Nas perguntas pois, que lhe fiz#am, 
refpondeo maisjdo que querião faber delle : cuidando co- 
mo ignorantejque quanto mais defcobriíTe , táto mais lhe 
féria fácil o perdão. DiíTe, como muy tos Portuguezes , q 
vinham nos três navios , tinháo ido ao Tunquim : & que 
de Macao fe mandavam muy ricos prefentes a ElRey do 
Tunquimspara que favorecelTe aos Padres da Companhia 
de Jesv5que trabalhavam na falvaçam daquellas almas. 

Com eftas noticias creceo mais o receo delRey : & deu ^ 
ordem ao Mandarim dos pftrangeiroSjfoíTe ao porto de 
FaifòjtiraíTe devaífa dos que ti veífem ido ao Tunquimjôc 
tamberji do trato,que os Padres tinhaó com aquelle Rey. 
Foy politica, dar ElRcy femelhapte comifTaò ao Manda- 



rim; 



REYNO DA COCHINCHINA. 134 

rim ; mas foy barbaria a execuçam , que efte fez pois logo 
que chegou ao porto 5 mandou prender aos três Capitães 
com quantos vieram nos três navios de Macao dos quaes 
mandou tirar toda a artelhariaj & das caías em que os Por- 
tuguezes íe tinhão agafalhado5todas as armas. Enquerin- 
do depois dos que foram ao Tunquim^achou como o Ca- 
pitam Japaó j & mais alguns Portuguezes tinhão navega- 
do àquelle porto : mandou lançar canga a cada hum del- 
les:& ficando eítes prezos 5 & entregues aos foldados; fol- 
tou aos outros porém encomendados aos Japócs,para que 
os vigiaílem. Finalmente foy tirando devaíTa do trato ? q 
os Padres da Companhia de Macao tinhaó com EIRey de 
Tunquim. As perguntas fc faziáo aos que eftaváo prezos, 
por terem ido ao Tunquim: & não fomente enqueria có 
palavras, mas também com tormentos : nem perguntava 
às peíloas gravcsjmas aos marinheiros ; porque quãto me- 
nos grave he o homem 5 tanto menos tem de prudencia> 
de de primor:6c facilmente fe arroja a deícubrirjO que po- 
de fazer mal a outros quando ellc fe acha arrifcado a mor- 
rer. Confefsàram pois fcr verdade , que de Macao fe 
mandavam ricos prefcntes a EIRey do Tunquim ; mas 
que ifto era fomente para aquelle Rey deixaíTe ficar 
os Padres no feu Reyno , & os favoreceíTe, com lhes pre- 
mítir o pregar a Ley de Deos : para que aquellas almas co- 
nheceíTem a feu Creador 5 & guardaíTcm fua divina ley, 
para depois da morte poderem alcançar a eterna bemavé- 
turança. Como o Mandarim não achou crime nos dous 
Padresjque eftavão em Faifô j não entendeo com elles : ôc 
mãdou informação de tudo a EIRey. O qual por fer mo- 
çojno principio de feu governojôc inclinado à crueldade, 
mandava que foíTe confifcada a fazenda de todos 5 os trcs 
naviosjfoíTem queimadosjôc quantos vieram nelles,todos 
foífem degolados. Teve noticias defta barbara fentcnça 
o Principe, tio delRey , & foy logo ter com elle fazendo* 
lhe prefente o amorjquc os Reysjfeu Pay;ôc Avô tiveram 

Riiij fem- 



135 BREVES NOTICIAS DO 

feinpre aos Portuguezes, & a muyta eftimaçaó , que fize- 
1 ão delles;por ferem peílbas de prudencia,valor5 & fideli- 
dade : que nunca fe foubera delles coufa ? que podeíTe dar 
íofpeyta de traiçam : tinham paz com niuytas nações : ôc 
como mercadores tratavam fomente do feu negocio , pa- 
ra fuftentarem cómoda, & honradamente fuás famílias. 
Eram como Aves? que voando por todos os cãpos , fò tra- 
tavam de bufcar o comer para fyjôc para feus filhos. Nem 
Í€ lhes podia dar em culpajvieram â Cochinchina ? depois 
de terem ido ao Tunquim.;pois atè então não havia ley , q 
lho prohibiíTe a eIles:pelo que fua Mageftade tiveíTecom- 
paixão dos innocentes. Efte confeiho , por fer de velho, 
& de tío,achou lugar no peyto delRey : èc cahindo na de- 
fatinada carnificinajque mandava fazer;defpedio logo hu 
próprio ao Mandarim ? que efperava as ordens em Faifò; 
pelo*quallheordenava5levafie para a Corte aos que acha- 
ra mais culpados? deixando os outros entregues aos Japó- 
es 5 para que os vigiaíTem. O Mandarim levou comfiga 
fomente ao Capitão JapaÓ5& a Maro , por lhe parecerem 
efpias: efte por ter natural de Tunquim : aquelle por ter 
feyto muytas viagens aquelle Reynojôc ter alli muytos a- 
migoSíÔc conhecidos. 

Reparando os dous Padres ? que ficavaõ em Faifò , em 
toda eíla armação do demónio: & receofos que finalmen- 
te defarmaria lòbreelles a tormenta": fe quizeram perve- 
nir,coni efcrever ao tio delRey, & fe valer nefta occafianx 
de íeus oíFerecimento no cafo , que na Corte fe falaíTe al- 
guma coufa contra elles. O Príncipe deu boas efperãças> 
aíTegurando-os , como atè entaó naó íe tinha dito palavra 
cótra os Padres: 6c fendo neceírario,interporia fua autho- 
ridade em favor delles. Com efta carta de feguro ficaram 
os Padres com algum focegojou menos receofos: & entre 
eíhs encontradas ondas de cfperanças, & de temores efti- 
veraófluótuando mais de hum mez ; porque pelas exe- 
quiasjque fe aparelhavaó com toda a pompa a ElRey de- 
funto, 



REYNO DA COCHINCHINA. 136 
funto 5 toda a Corte eílava occupada no aparato 5 nem fe 
dava defpacho a outros negócios. Nefte tempo os Por- 
tuguezes dos naviosjpor íe lhes ir acabando a monção pa- 
ra Macaojderamíua petição :fupplican do a fua Magcíta- 
dejfoíTe fervido de lhes dar licença , para voltarem as íuas 
caías. Como a íupplícafor intempeftiva, íahio muya- 
preííado o delpacho , & f oy : que os Portuguezes com os 
dous Padres em termo de finco diaspartiíTem em dous 
navios 3 ficando o terceiro , que era o melhor , confifcado 
para a Coroa: & os dousjo Capitão Japão ? 6c Mauro Tun- 
quim fofl!em degolados. 

Sentirão os Portuguezesjcomo era rafaó , a injuftiça da 
fentença;mas porque fe podia temer mayor crueldade de 
hum Rey infieljrecebêrão por grade favor, o que era me- 
nos mal. Os Padres porém fe acharam em grandiíRma 
por plexidade;porque partindo elles? ficaria todo aquellc 
táonumerofo rebanho do Senhor fem nenhum Paftor. 
Efconderem-fe , era jà impoíTivel ; porque o Mandarim 
que afliítia à execuçáojtinha notificado jà aos Padres a or- 
dem Real. Acudirem por cartas ao tio delRey , era fem 
fruto;porque a repofta voltaria depois dos finco dias. EC- 
peraremjque da Corte lhes vieíTe dentro do termo algum 
embargo negociado por efte Príncipe , era vão ; porque o 
Príncipe: ou não foube da fentéça , & afíim não pode pòr 
o embargojou teve ôeticias delia; mas vifto não ter vindo 
logo embargada quanto aos Padresjcra final de não ter fa- 
lado a ElRey: nem fe atreveria a fazelo nas circunílancias 
das exéquias , nas quaes os naturaes nam tratão de outros 
negócios, para parecerem occupados todos no fentimen- 
to da peflí)a defunta. Perdidas pois as efperanças de fica- 
remjpublicàraó aos Chriftãos a partida, que farião nos na- 
vios dos Portuguezes. Com eftas triftcs novas ficou tam 
magoada toda aquella Chriftádadejque nas cafas dos Neó- 
fitos não fe via outra coufa mais que lagrimas*, nem fe ou- 
via mais que gemidos pelo deíterro dos Padres^pays de fu- 

S as 



137 BREVES NOTICIAS DO 

as-almas. E poíto que os Padres os quizeííem confolarjcó 
lhes prometerem 5 que voltariaó na monçaó feguinte ; có 
tudo nem dimínuiam os prantosjnem abrandavaó os fuf- 
piros;por fer certa a ida? & a vinda muy duvídofa. Pelo q 
tratou cada hum de fe confeííàrjôc commungar;&: os Ca- 
tecumenos quizeraó receber logoo fanto Bautifmo, Foy 
tanta a multidamjque de todas as partes acudio aos Sacra- 
mentos 5 que os dous Padres gaftâram todos aquelles dias> 
& noytes ? em adminiftralosíera terem defcanço : da pia 
bautiímal paílavam ao confeíGonariojôc defteao Altar:& 
acabada a Mifia tornavaó outra vez aosbautifmosj&as 
coufiílbens. Nem todas eftas diligencias foram b^ílantes 
para repartir o paó da graça Sacramental a quantos o vi- 
nhaò pedir;porque chegado o quinto dia, foraó os Padres 
chamados do Mandarim da execuçam j & obrigados a fc 
embarcarem. Quam defconfolados ficavam? os que nam 
tinham achado ainda lugar, para receberem os Sacramen- 
tos:& quam fentidos íahiam de fua cafa os Padres;por não 
haver mais tempo para lhos darem ; bem o moílravão as 
muy tas lagrymas de huns? & de outros? com as quaes os 
Chriíláos foram acompanhando aos Padres ? & có as mef- 
mas os Padres fe híam defpedindo delles : não dando nem 
a eftesjnem aquelles a dor? & a preíença do Mandarim lu- 
gar , para fe falarem. Derão os navios à vela : deixando os 
Padres feus corações na Cochinchinâ. Entre tantas trif- 
tezas não faltou Deos > q he confolador nas tribulaçoens, 
cm dar algum alivio aos Padres,ôc aos Chriftãos: & tambê 
grande pena ao demónio , que hia jà cantando a viáloria. 
Pois em húa Aldeã dos arrebaldes da Corte de Sinoa foráo 
prezos dous Chriítáos por profeíTarem publicamente a 
Ley de Deosj&forão cruelmente açoutados? hum por or- | 
dem de hum parente delRey , o outro por mandado dos 
cabos de fua Aldeã. Porém com os açoutes tomaram ma- 
yor animo;rraó fomente para períeverarem na confiílàm) 
mas para defenganarem ainda aos perfeguidoresjdizendo: 

Como 



REYNO DA COCHINCHINA. 138 

Como antes Jhes tirarião a vida dos corpos, quea fè das al- 
mas. Chegaram eftas novas 5 quando os Padres hiáo jâ ca- 
ra fe embarcaré:& as receberão como avifojque lhes man- 
dava a divina Providencia>prometendo com cfte íucceíJb 
fua paternaljôc poderoía aíliftêcia àquella arriícada Chrií< 
tandade: & os Chriftãos cobrarão grandes efperançasjquc 
Deos lhes daria víâoria contra todos os inimigos "de íeu. 
fantonome. 

CAPITULO XI 

Como os Tadres acudido à Aíijjao^ em quanto El%ey da Cochinchina 
nao lhes da va licença ^ fará ficarem naquelle %eyno. 

E todos os mares atègora navegados fe 
tem achadojfer mais tempeíluoío , o que 
corre entre Japaó , & Cochinchina pelos 
cruéis Tufoens , que nelle frequentemé- 

te fe encontrão. Gera-fe eíte furioílimo 

^2^^^5^2^^ ventOjfegundoa opiniam mais provável, 
do fluxo 5 & refluxo das agoas 5 que correm entre as quaíi 
innumeraveis ilhas lançadas por toda a coflia da China : 6c 
começando ordinariamente a aflbprar pela parte de No- 
roeflicvay fempre crecendo com mayor , & mayor impe- 
tojcom o qual corre todos os rumos da agulha no efpaço 
de vinte & quatrojou de quarentajÔc oito horas. O remé- 
dio pois para efcapar do naufragiojhe cortar logo o mafl:ro 
mayor,pâra que com os grandes balãços caufados dos ma- 
res por todas as partes empoladosjnão fique a nao fobmer- 
gida. Correndo depois à arvore feca , pela fúria do vento 
não permitir nem hum palmo de velajo remédio he , go- 
vernar fomente com o leme , fe he poflivel. Defarmado 
jà aquelle defgraçado cafcorfica à difcriçaõ das ondas, que 
fazendo ludibrio delle , o vão levando como boya aos tó- 
bos:& acometido pela proajôc pela popa: por hum, & por 

Sij outro 




139 BREVES NOTICIAS DO 

outro bordo claquellcs mares por todas as partes encâpe- 
JadoSíCada inftante defaparece affundido ? & logo torna a 
aparecer^para ficar outra vez fobmergido. O furiofo aíTo- 
pro dos ventoSíO horrível zonido das enxárcias , o medo- 
nho ranger de toda a nao5& o efpantoío bramir daquellas 
ondas acrecentam o temor aos triftcs navegantes : que,ou 
abraçados apertadamente, ou fortemente atados a aJgum 
madeirojcom feus gritos -, & gemidos fazem mais terrível 
aquelle theatro da morte. He efte tão laftimofo cxped:a- 
culo,que fò acharião os miferaveis aHvio ? íé logo acabafsê 
affogados. Saó pois tão frequentes eft as formidáveis tor- 
mentas, que todos os annos , & muytas vezes no anno al- 
tèrão aquelles mares. Nem. poucas vezes acontece, que 
na mefma viagem encótre anão repetidos Tufoens. Por 
fer tão horrendo efte moníf ro das tempeft ades; difpoz , & 
ordenou a divina Providenciajque lhe precedeírem'algús 
íinaesídos quaes o ultimo , & mais infallivel he,aparcceré 
huns caranguejos fobre as agoas : para que os defgraçados 
mareantes íe preparémais para morrer,que para le livrar; 
pois quantos efcapaó , todos confeííàó , ficarem com vida 
por particular favor divino , & naó por alguma índuílría 
humana. E poft o que em qualquer parte , que eíle crue- 
lifimio vento acometer, haja evidente perigo; porque co- 
mo efcreveo o Santo Xavier , fe tinha por grande mercê 
do Ceojde três nãos fc perder fomente huma ; he com tu- 
do a todos quafi inevitável o naufrágio nas coftas da Co- 
chinchinajporlhe ficarem de fronte , & muyto perto os 
baixos de Pulo Sifi , que correm feíTenta legoas de Norte 
a Sul: pelo que faóaquí mais frequentes as perdições. E 
nefta mefma paragem foy falteada de hum furiofo Tufaó 
a foma,ou nao,em que o mefmo Santo hia para Japam , & 
fenaó forão milagrofas as fuasoraçoens> fem remédio fe 
perdera. 

Eíf es fam os perigos, a que fe expõem os Padres da Cõ- 
panhía , para fe paílarem à MiíTam daCochinchína com o 

navio, 



REYNO DA COCHINCHINA. 140 

naviosque vay de Macao quafi todos os annos para o Co- 
mercio com aquelles naturaes. Pois náo lhes íbf re o cora- 
ção, ver mais animofa a cobiça dos mercadores 3 que a cha- 
ridade dos Miflionarios: & tem por grade aífronta íua ? ar- 
rojaríe a tãtos perigos o contratador da terra 5 a btiícar hés 
temporaes para o luílento de fua família : & não correr o 
mefmo rifco o negociador do Ceo, para grãgear almas pa- 
ra a gloria de Dcos. Por eftas rafóes em quãto ElRey não 
lhes permitia morada na Cochinchinajhião là todos os an 
nos 5 poílo que depois de algús mczes ou veíTem de voltar 
com o mefmo navio para Macao. Além de todos eíles pe- 
rigos neftas idas5& vindas^padecião tãbem os Padres gran- 
des apertos na detença; porque logo que aportaváo a Fai- 
fòjerão polfos por ordem delRey em huma caía com kn- 
tincllas na porta,para que não fahiíTem os Padres, nem lhe 
entraílém os Cochinchinas. Sò lhes concedia,irem a bor-» 
do,para dizerem Miíla aos do navio : & algúas vezes a be- 
nignidade do Mandarimja quem ficavão entregues, lhes 
permitia,poderem viíitar a algum Japão. Neftas idas pois 
ao navio5& neftas viíitas alcançavão os Padres , o que com 
tanto rifco vinhão bufcar ; porque muytos Chriftãos fe a- 
junta vão occultamête neftas cafas, & outros hião de noy- 
te ao navio,& todos recebiáo os Sacramentos, de que ne- 
ccíTitavão. Neftas occafióes fe moftrou mais induftriofa 
a piedade dos Chriftãos,que a aftuta malicia dos perfegui- 
dorcs;pois algumas pcfíbas graves com disfarce de vende- 
rem coufas de comer5pedião às guardas , as deixaftcm en- 
trar na cafa dos Padres , vifto aquelles eftrangeiros cópra- 
rem tudo a bom prcço:& alcançada com grandes rogos a 
licença,entravão,& fe confcftaváo. Os nobres porém, &: 
os ricos da vão muy gaandcs peytas às fentinellas para que 
lhes deixafíem levar algum dos Padres para as fuás cafas, 
fò por aquella noyte;& depois de ter o Padre bautizado, 
dito Miíra,ôc Sacramentado aos que tinhão vindo às efcó- 
didasjantes de amanhecer , o tornavão a pòr occultanien* 

Siij te 



141 BREVES NOTICIAS DO 

te na fua priíaó. Nem fomente os que mora vão nopor- 
t05& em íeus coiitornossacudíáo à Miíía ? & aos Sacramé- 
tos;mas também os que ficavão longe, & muy afaftados. 
Porque logo que chegava o navio com algum Padre : os 
Catequiílas de Faifô mandavão aviíos por todo o Reyno: 
& de todas as partes vinhaô Chriftáos huiis em embarca- 
ções, & de portos diftantes íeis & oito , & mais jornadas, 
outros a pè caminhando trinta, íeíTenta, oitenta, & mais 
legoas,largando todos os negócios , & fuás cafas pelo bem 
eipiritual, & falvaçaó de fuás almas. Quam poucas vezes 
vemos iílo em EuropajaondeaconteccjdeixaremfeosSa- 
cramentos5& a Miíra;pol]:o que tíquem as ígrejasj&os Sa- 
cerdotes muy perto. Quem fabe,fe Deos no dia dojuizo 
haja de reprehender,&: condenar có o fervor deftes Neó- 
fitos a tão grande preguiça,ôc defcuido de alguns Chriítá- 



os antigos. 



De todas eftas piadofas traças , &c trabalhofas romarias 
dos Cochinchinas erão teftimunhas de vifta os Portugue- 
zes: & ficavão não fomente muy edificados, mas também 
grandemente confufos de tanta Chriftandade. Quantos 
vinhão nos navios,tantos erão depois em Macao os Prega- 
dores do fervor daquelles bons Neófitos : & também có- 
feílaváo , como na Cochinchina conhecião quão mãos 
Chriítáoselleseraõ,poílosquenacidos nos braços daFè> 
& criados com o leyte de tantas pregações , 6c Sacramen- 
tos. Porém o que enchia de mayor pafmo a todos5era, ve- 
rem: como em aparecendo algum navio de Portuguezes 
hião logo abordo muchiííimas embarcaçoens cheas de 
Chriíl;áos:& chegadas muyto perto , faíiaô todos em pè o 
íinal de Santa CruZjprofeíTando a Ley de Deos,que guar- 
davão. A primeyra coufa,porque depois pregútaváo, era> 
fe trafiáo no navio algúPadre,&: fe vinha;era táta a alegria, 
que moílraváo:& a feí];a,que fafião, que bem parecia , teré 
achado o thefouro,que tanto bufcaváo. Se porém não ha- 
via Padre; por não fazer o navio efcala na Cochinchina, 

mas 



REYNO DA COCHINCHINA. 142 

mas continuar fua derrota para outro porto : era tanto o 
íentimentosque Jogo começaváo a chorar. E poílo que os 
pios Portuguezes os quízeíTem confolarjcom lhes oíFere- 
cerem alguma coufa das mercadoriasj que levavam ; elles 
por nenhum cafo as queriáo aceitar: tendo por mao troco 
o bem efpiritual,que bufcaváo , pelo temporal , que lhes 
oíFereciam. Sò recebiáo alguma coufa dedevaçaó. O que 
vendo os Portuguezes? cada hum com as lagrymas de có- 
folação nos olhos lhes dava com boa vontade as contas, 
de que ufava : as fagradas imagens que tinha : & quanto a- 
chava de devaçaó: tendo tudo por bem empregado 5 para 
confolar tão boas almas? & confervar ? & fomentar nellas 
a piedadejôc o culto divino. 

Nam he pequena prova do fervor deftes novos Chrif- 
tãos a gratidam , que fempre tem moftrado aos Portugue- 
2;es5por lhes trazerem os Padres , & lhes darem coufas de 
devaçam. Poítoquemuytas, ôc muy tas vezes ti veílem 
dado eftas moftras de agradecimento,como he notório aos 
de MacaOíCm occaíióes das perdições de feus navios ; baf- 
tarmeha a my apontar , o que aconteceo ncftes annos ? de 
que yôu efcrevendo. Partira de Macao para Goa huma 
galeota: ôc ou foíTe pelas poucas noticias , que o Piloto ti- 
nha daquelles mares:ou como todos cuidavaó, pelo muy- 
to efcandalo,que elle dava 5 levando comfigo huma occa- 
íiaó de oiFença de Deos;por jufto caftigo do Ceo? quando 
menos fe receava>íe achou a galeota encalhada em hú dos 
baixos da Cochinchina. Ninguém eftranhou a perdição; 
porque a experiência tem moftradojque quaíi fempre fsz 
naufrágio o cafco , que leva tam pezada carga. Somente 
fentia cada hum a perda de fua fazenda ; porque ficando o 
baixo perto da terra? efcapàram todos com vida: & fò com 
ella?& com quanto cubriáo íua defnudes;naó fe podendo 
aprovey tarjdo que os mares vínhaó lançando à praya; pe- 
los Bonzos terem metido na cabeça a ElRey , que iodo o 
fato dos n'aufragantes>& era mimo?que o Ídolo lhe man- 

Síiij dava. 



143 BREVES NOTICIAS DO 

dkwa. Pelo que a penas toca algum navJo;qu^.ndo Jogo os 
moradores daquelksprayas com léus Mandarinetes aco- 
dem a tomar entrega por parte delRey de quanto o mar 
vay pondo nos áreas. Nem iíto baila porque vem tambê 
o Governador da Provinciajôc manda pefcar, quanto fica 
no fundo do mar : & para eíte effeyto ha buíios muy dc[' 
tros5& experimentados. Sabida pois a perdição dos Por- 
tuguezes;o Cateqiiiíla daquella paragem» por nome Ben- 
tojdeípedio com toda a brevidade próprios para as quatro 
Provincias veíinbas, para que cada Chriftão acudiííe logo 
aosnaufragantescomoque pudeíTe. Foytal oagafalho, 
que lhes fizeraó: &c tantos os mimos,que lhes trouxeram, 
que tornados os naufragantes a Macaojconfeííavaó publi- 
camente 5 como naõ podiaó fer melhor tratados de feus 
meímos naturaes5& parentes. O mefmo dizem,quantos 
fe tem perdido em outros tempos, ôc em outras paragens 
daquella coíia provada dos Cochinchinas, que corre mais 
de quinze dias de caminho. 

Confirmados , ik aíFervorados jà os Chriftâos : & trafi- 
das 5 & agregadas ao rebanho de Chrifto muy tas centenas 
de Gentiosjtirados furtivamente do cativeiro do demó- 
nio , voltavaó os Padres depois de trcs mezes para Macao 
com todas eftas ganâncias : dando j por bem empregados, 
os rifcos da viagem5& as moleílias da prizaó : &c deixando 
o campo daquella Miflaó cada vez mais difpollo , para no 
feguinte anno dar fruto muyto mais copiofa 




CAPI- 



REYNODA COCHINCHINA. 144 




CAPITULO Xlí. 

Emhaxada da Gdade de A-íacao a El%ey da Cochiuchina licença 5 que 
€^e deii^ para lnmTãàrc ficar no [eu ^Keyno\ ú^frogefjcsda' 

fticllaASjfao. 
NOBRE Cidade de Macao naó menos 
leal a feu Rey de Portugaljque pia para có 
DeoSífoy femprc criando feus morado- 
res,naó fò para o contrato das fazendas da 
terra mas também para o comercio das 
mercadorias do Ceo :para que íendo con- 
tratadores, to íTem juntamente Miffioiiarios. E aílim o tê 
lempre moftrado ; naó fò com o defejo ? que Deos foflea- 
dorado em todos aquelles Rey nos Infieis^mas também có 
a obra: levando os Padres em léus navios : dando muy ri- 
cos prefentes: & mandando Embaixadores, para alcança- 
rem daquelles Reys Idolatras todo o favor, para os Padres 
poderqfn trabalharem fuás terras na íalvaçam das almas. 
Reparando pois os pios Cidadãos daquella Nobre , êc 
leal Cidade:como os impedimentos,que o demónio tinha 
poílo á converçaó da Cochinchina , eraó as falfas fofpey- 
tasjque havia dos Portuguezes,de poderem elles conqui- 
fi:ar Rey nos alheos por meyo da pregação da Fè ; refolve- 
raó-fe no anno mil & feifcêtos & fmcoenta 6c dous a mã- 
dar por Embaixador a Joaó Vieyra , home nobre, & muy 
cntendido:para quedefaíTombraíre aquelleRey5& os feus 
minifrros. Para elf e lim fe aprefentàram dous navios : hú 
para o Embaixador: o outro para o acompanhar5& em ca- 
da hum foy hum Padre da Companhia dejesv: no da Em 
baixada o Padre Metello Saccanojque era a fexta vez, que 
paílàva à Cochinchina , defprezando pelo amor de DeoS) 
ôcfalvaçaódaquellas almas todos os perigos daquella tam 
arrifcada navegaçaó:&: no outro fe embarcou o Padre Pe- 
dro Marquez. Pofto q atè a Cochinchina tiveííèm prof- 

T ^^ pêra 



14? BREVES NOTICIAS DO 

pêra viagem^quc coílunia fer de íinco,ou íeis dias, nê por 
iílb'efcpàram dos perigos das tormentas;porque ao navio ' 
da Embaixada ancorado jà 5 lhe rendeo o maílro grande> 
& eíèeve qiiaíi perdido : & o outro ^ por naò ter ainda en- 
trado no porto 5 foy obrigado a correr com a tempeílade, 
& tomou a Cochinchina depois de dous mezesindo todo 
efte tempo lutando cora as ondasjôc ventos contrários. | 

Recebeo ElRey com muyto agrado ao Embaixador 
de Macao: o qual em publica audiência expoz íua Embai- 'i 
xadajdizendo: Como a Cidade de Macao continuando na * 
aniizade5& aíFecto para com a peíToa de Sua Mageítade , o 
mandàrajpara dar a Sua Mageftade os parabéns dos felices 
progreíTos de feu Reynado:& fe oíFerecia para quáto foííe j 
de íeu Real ferviço. Agradeceo ElRey à Cidade o amor, 
que lhe moftrava: & fe alegrava muyto de feus augmétos: 
& de boa vontade lhes faria todo o favor 5 que lhe pedifsê. 
Deolhe o Embaixador as graças pelas horas, que Sua Ma- 
geftade fempre fafia a todos, em particular aos moradores 
de Macao : & com ifto fe defpedio. Porem em paçticular 
fe queixou o Embaixador muyto com os validos , & pri- 
meyros Miniíl: ros delRey , do que tinhaó f alfamente le- 
vantado contra a Naçaò Portugueza os feus inimigos , ef- 
pal hando: como os Portuguezes por meyo dos Padres , q 
eiiíi nav^am a ley do Senhor do Ceo , & de todas as creatu- 
ras,fe hiáo apoderando dos Reynos alheos. O que era tão 
evidentemente falfojquam grandemête aíFrontofo à Na- 
çam Portugueza; por ter ella por fua própria divifa , &c fc 
prezar fobre tudo da Fidelidade. Reparaííem pois , como 
havia mais de cem annos , que os Portuguezes comercea- 
vam em quaíi todos os portos daquélle Onente,&: nunca 
fe ouvirajqucjou fizeíTem inuafam,ou maquinaíTem trai- 
çam aigúa. Havia no Oriente,nem fe podia negar, muy- 
tas terras fogeytas ao dominio delRey de Portugal. Mas 
íffo era : ou por os naturaes terem feyto hoftilidades aos 
Portuguezes debaixo da boa fè : ou por terem íido terras 

dos 



REYNO DA COCHINCHINA. 146 

dos Mouros ( aos quacs tem os Cochinchínas natural 
a verfam) que eraó capitães inimigos de todos os Chri- 
llãos. Nem eíks terras foraó conquiíladas.depois dos Pa- 
dres pregarem nellas a ley dos Portuguezes ; mas fempre, 
& do principio com as armas ; poíto que depois de íoge}^- 
tas foíiem os Padres eníinando o caminho do Ceo-aquel- 
les naturaesj para elles poderem alcãçar a eterna bemavé* 
turança^fc a quizeílem. O que por femelhantes receos fi^ 
zèra o Emperador do Japaó, lançando fora daqtielles feus 
Rcynos não fomente aos Padres ? mas também a todos os 
Portuguezes, que là mora vaó: foraacçaóa mais vergo* 
nhofaíque nuca fez aquella Naçaó , poílo que tão glorio- 
fa; porque moílràram muyta ímprudenciajôc grande me- 
do. Muyta imprudécia : pois para fe temerem com algúa 
rafaójdeviaó de ter antes noticias dos Reynos? que os Por- 
tuguezes tinhão tomado por meyoda pregação dos Pa^ 
dres: as quacs noticias nem tiverão, nem podiãp ter ; porq 
nem os mefmos calumniadores poderão apontar né hua 
provincia conquiftada por eftc mcyo. Nem osjapóes fe 
poderão efcufar com dizenque os Olandezes affim lho ti- 
nhão contadojÔc affirmado; porque efta efcuía feria muy- 
to mayor imprudência ; pois em nenhum tribunal ainda 
de bárbaros fe dava fentençaj&fe caftigava a ninguém pe- 
lo dito de feus inimigos declarados. E bem fabiaó o Em- 
perador 5 & feus Miniftros ferem os Olandezes inimigos, 
nam fò delRey mas também da ley dos Portuguezes ; & 
por iffo mefmo permitião aos Olandezes a morada em Ja- 
pão lançando fora delle aos Padres,&: a todos osPortugue- 
zes. Mas fe foy grande a imprudencia?que fizerão có efta 
expulção; não foy menor o medojque moftràrão. Pois fe- 
do a Nação Japoa tão numerofajtáo briofa, & tão esforça- 
da;com tudo tiverão medo de poucos Portuguezesjq mo- 
rando no fim do Império, podeíTem alvoroçar feírenta5& 
mais Rcynos:& os fogeytar todos ; como fe todos osjapó- 
es não foliem foldadosjnão tiveíTem catanas, não uiaOem 

Tij de 



147 BREVES NOTICIAS DO 

de mofquctesjnem de outras armas de fogo! Em fim com 
eira acção deícubrirão terem forças , & animo não de ho- i 
mens,mas de mulheres. Nem poderani dizer : que fe te- 
ni ião 5 que os Chriílãos feytos pelos Padres acudiriam aos 
Portuguezesjfe eftes tomaílem as armas, paraconquiílarê 
aquelk ímperio;porque no mundo não íe achava naçani 
que antes quizeílè íer mandada do eílranho q do feu Rey 
natural. Mas dado que a natureza tiveíTe criado os Japóes 
com inftinóf os contrários ? aos que tem todas as mais na- 
çóes;iiem por iíTo os Chriftãos da terra acudirião ao levá- 
tamento dos Portuguezes ; antes feriaó os primeyros a fe 
o porera5& reíiftirem às injuftas pertéçóes ; fe as tiveíTem 
porque no quarto preceyto da Ley de Deosfe mandava 
Ibbpena de fogo eterno no inferno a obediência, & fogei- 
çaó a ElRey naturaljcomo ao mefmo Deos. Aílim o en- 
linavão os Padres com a voz, & com os livros efcritos , & 
impreííos em lingoagem Sinica , Japonica, & Annamica, 
como fe podia ver. Logo no defterro dos Padres , & dos 
Portuguezes do Japaó aquelle Emperador, & feus Minií.- 
tros moíiràraó muyta imprudência, & grande medo; c6 
que ficava defdourado o conceito , que havia no Mundo 
de feu entendimento , & valentia , de que tanto fe preza- 
vão. Acabou o Embaixador efta íua fala com dizer: Nam 
tomara eu que a naçaó Cochinchinade tão bom juizo , & 
tão guerreira padeceíTe femelhante aíFronta nos olhos do 
Mundo todo,que atègora fetem admirado delkjcomo de 
aíTombro de prudenciajêc de valor. 

Contentaram muyto eftas rafóes ao validos , & Minif- 
tros Reaes:& prometerão ao Embaidor , de reprefentar a 
ElRey o zelo,que elle moftrava do credito, & reputaçam 
da naçaó Cochinchina. Vendo pois o Embaixador , que 
aquelles grandes do Reyno ficaváo inteirados da fidelida- 
de dos PortuguezeSí&da impuffibilidade de poderem có- 
quiftar Reynos tão diíl:antes,tão dilatados , &c tão guerrei- 
ros; foy adiante com a fua fala^Ôc diíle: como viílo não po- 
der 



REYNO DA COCHINCHINA. 148 

der haver duvida do reípeyto , & do amor , que os Portu- 
guezes tivèráo íempre a ElRey ? & à nação Cochínchina; 
tomava elle confiança? para pedir huma mercê. Mas que 
a queria propor primeyro a todos elles , para que lhe dif- 
feírem íeus pareceres: & julgando-a ajuftada á toda ralam, 
o favoreceffemjpara lha alcançarem da muyta benignida- 
de de Sua Mageífedejôc falou defta maneiraiSenhoresjnão 
ha?quem ignore os cótinuos naufrágios , que os navios de 
Macao padecem neíla cofta de Cochinchina por caufa dos 
Tufoens. He também notório a todos , como outros na- 
vios da rríefma Cidade , ou acoçados das tormêtas arribão; 
ou temerofos de fe encontrarem com ellaSípor chegarem 
tarde à efta paregemjôc muytas vezes por lhes faltar a mo- 
ção 5 entrao neftes portos , & aquy ficão de invernada. A 
ley pois de Deosjque profeíTamosjnos obriga a aíliftirmos 
alguns dias no mez ao Sacriíiciojque os noííos Sacerdotes 
fazem ao Senhor do Ceoj & de todas as creaturas ; com os 
quaes Sacrifícios aplacãdo-fe Deos , não fomente nos per- 
doa muytas vezes os caífigos ? que merecemos pelos nof- 
fos peccados;mas também nos faz muytos favoresjôc mer 
cèsjaílim para noíTas almasjcomo para noíTos corposjôc fa- 
zendas. Pelo que a minha Nação Portugueza tem grade 
defconfolação , & temor de ficar em terrasjonde não haja 
noíTos Sacerdotesja que nòs chamamos Padres;porque el- 
les famjos que nos confolão em noíTas perdições, que nos 
alentão em noííos trabalhos , que nos aíTiíf em em noíTas 
doençasjôc morrendo nòs,elles fam os que encomendam 
noíFas almas ao Creador dellaSípara que nos perdoe as pe- 
nasjque merece as culpasjque temos feyto em vida. Nam 
poíTo callar o fentimêto , que tenho : nem encubrir a ver- 
gonhajque padeço, quando vou andado pelas ruas de Fai- 
f ò,&: vejo Templos para os Chinas,Templos para os Japó- 
esiôcquefôos Portuguczes nãotenhão nem humaaííi- 
nalada para obrar ao feu Deos: nem lugar,aonde façaó fu- 
ás offertas. E me crece mais o fentiitientOíôc a vergonha, 

Tiij quando 



149 BREVES NOTÍCIAS DO 

quando reparojCjue os Chinas , & os Japóes não fe tem ef- 
nicrado mais que os Por tugis ezes no obíequíoaElRey: 
nem tem moítrado mayor empenho nas couías de feu re- 
al íerviço. Verdadeiramente não ha coufa^que laftime 
mais o coração de peííbas honradas, & de algum entendi- 
nientojquanto o íerem obrigadas a viverem como brutos 
iem TempjOjfem. Sacerdote, &c íem Sacrifício. Senhores 
neíks dous navios com os quaes me paíTei a efte Reyno, 
vieráo dous Padres , hum em cada navio , como he noííb 
coíixime: deíejàra eusque ElRey deíle licença a ambos pa- 
ra ficarem, & íerviré de confolação aos que perdidos che- 
garem vivos a eílas prayas: ou arribados entrarem neíies 
portos fem Sacerdote;por fer falecido,& tal vez ter ficado 
doente nos portos , aonde os navios forão fazer feus con- 
tratos. Eira he a mercê , que eu quizera pedir a Sua Ma- 
gcílade. 

Aprovarão os Grandes a petição do Embaixador , por 
lhes parecer a todos muyto pia,& muy juftitícada. Antes 
lhe difíerão , como ficava por conta deíles alcançar o def- 
pacho delia. Deu o Embaixador a todos as graças pelo 
favor,que lhefaíiaó;& defpedio-fe delles. Fez logo o Em- 
baixador avifo por cartas aos Padres do que tinha negoce- 
ado, & das boas efperanças , que elles Grandes do Reyno 
lhe tinhaó dado do bom defpacho. 

Grande foy o alivio,que receberam os dous Padres en- 
tre as moleftiasjque lhes dava aqueila cafaíque lhes fervia 
de prizam no porto de Faifò. E na verdade era para elles 
prizão dobrada ; pois além de lhes impedir o andar livre- 
mentCjlbes tirava o obrar apoftolicamente: & quãto mais 
era o apertOjcm que fe achavão , tanto mayor era o empe- 
nho dos rogos,com os quaes oíFerecimétos pediáo a Deos 
a fua liberdadcspara livrarem tantos milhares de almas do 
cativeiro do demónio. 

Não fe defcuidàráo os validos, & Miniftros de fazer 
prefente a ElRey afflm a queixa do Embaixador , como 

também 



REYNO DA COCHINCHINA. 150 

também a petição, que lhe queria fazer. Examiraó-fe có 
grandillimo acordo ambos os pontos: ôccomo hum to- 
caíTe no brio,& valentia dos Cochinchinas, & o outro na 
amizadcôc cótrato com os Portuguezes : por ferem a hó- 
ra,& o proveyto os dous polosjcm que fe revolve a vonta- 
de humana; todos foraó de parecerjfe concedeíTc, o que o 
Embaixador pedia; pois com eira mercê naó fe moíírava 
medo dos Portuguezes: & ficavaó elles empenhados a có- 
tiiiuarem com o contratOjque era de tão grande conveni- 
ência a todo o Reyno. ElRey porém com mayor politica» 
nem concedeo logo tudojnem tudo negou; mas deu lícé- 
ça ao Padre Metei lo Saccano para ficar , ôc fazer Igreja fo- 
mente para os Portuguezes :Ôc mandou ao Padre Pedro 
Marquez^voltaííe para Macao;mas para que naó pareceííe 
defterrojhe encomendou naó fey que coufas, que defeja- 
va lhe vieílem daquella Cidade. 

Poíto que foífe tam limitada a mercê ; foy porém muy 
feftejada de todos os Chriftãos; naó tanto pelo que entam 
fe concediajquanto pelo que fe efperava alcançar ao dian- 
tcjcomo logo fuccedeo. Porque os Japóes Chriftãcs mo- 
radores na Cochinchina com rogos ? & muyto mais com 
prefentes alcançaram licença delReyjpara elles poderem 
hir à Igreja dos Portuguezes ; porque guardavaó a mefma 
ley:&: como eraó homês de negociojôc ricos? concorrerão 
com muyto para a fabrica da Igreja: & tomàraó à fua con- 
ta os gaftos do ornatojda cerajôc do mais que foíTe neceíla- 
rio para oculto divino. 

Naó cabiaó em fy de prazer os Neofios;por verem ou- 
tra vez Igreja publica no feu Reyno. E pofto que fe reno- 
vaíTem fempre as prohibiçóesjaffim aos Padres de não en- 
finarê a ley dos Portuguezes aos Cochinchinas ? como tá- 
bem a eftes de a naó receberemjôc de naó irem à Igreja dos 
Padres. Có tudo no efpaço de quatro mezes? mais de féis 
centos receberam no meyo deftes apertos o fanto Bautif- 
mojindo à cafa dos Padres de noyte âs efcondidas, & tam- 

Tiiij ^ bem 



151 ^ BREVES NOTÍCIAS DO 
bem de dia com vários disrarces.jà de venderé coufas para 
o uio dos Padresjjà de biifcareni medicinas para feus acha- 
ques. Pois os Cochiochinas tem para íysque íenaõ todos, 
quaíi todos os Portugueses iam médicos; por verem , co- 
mo os que vem nos navios , trazem meíinhas , cada hum 
para o mal que padece , & com as quues íe coíl-uma curar 
em íua caía. ISí am íe deve paífar em íilencio, o q ue acon- 
teceo nelles tempos;por íer o caio naõ menos pio que en- 
graçado. Havia na Corte de Cacham hum grande Man- 
darim gentio,que vivia moleílado de bua chaga.ERe logo 
que foube,como ElRey dera licença ao PadreMetelIo pa- 
ra ficar livremente , cuidando que o Padre foíTe Siirgiam, 
mandou hum Jeu criado a Faifò , para pedir ao Padre , lhe 
fizefic mercê 5 de o hir curar. Ficou o Padre muy aí] uíl a- 
do com eíle recado ; porque fe diíleíle, quj naòíabia de 
Surgiíí;nem por iííb o Mandarim o havia de crer : & fe da- 
ria por oíFendido:& poderia fazer rauyto mal aos Cbriílá- 
os;nem tão pouco podia prometer de o curar , porque na 
verdade naô entendia nada daquelle achaque. Eíhva pre- 
íente a eíte recado hum homem CanarinhSurgiaó deitro, 
& muyto bom Chriíláo: o qual reparando na moleíria do 
Padrejhe óííTq que naó tomaíTe pena;porque iriaõ ambos 
ao MandarinijO Padre em conta deSurgiam,ôc eVíQ de íbii 
difcípu]o,que levava as meJinhas : & vendo a chaga ? logo 
lhe aplicaria elle o conveniente remédio. Foraô ambos: 
receber o Mandarim ao Padre com grades demonítraçó- 
es de alegria, & lhe defcubrio o achaque , que padecia. O 
Padre fe poz a coníiderar com muy ta atenção a chaga , & 
depois de aver5& tornar averjdiíTe humas palavras Portu- 
guezas nam entendidas do Mandarim nem de fua gente: 
& logo o Surgião ? como fe fora mandado , tirou de huma 
caixinha de unguentos que trafia ? o que elle julgou ne- 
ceílario para o mal: & com grande deftreza o efrendeo 3 ôc 
aplicou â chaga. Ficou o Mandarim naó fomente miiy a- 
gradecido ao Padre pela mefniha,que lhe dera;mas tãbem 

• muy 



REYNO DA COCHÍNCHINA. 1^2 

muy admirado da habilidade do aprendiZíque trafia. Def- 
ta maneira foy o Padre curando a muytos Mandarins gé- 
tios,nam querendo outra paga que a obrigaçani , ern que 
todos lhe ficavam para o favorecerem , quando tiveíle ne^í* 
ceíTidade de íeus patrocinios. Na verdade naò Icy-^ie me- 
recia mayor louvor a charidade do Padre5expondo-fe a fi- 
car deícubert05& tido por enganador: ou a humildade do 
Surgiam profeílando-íe aprendiz; para affim ambos ga- 
nharem o aíFecto dos Grandes taó neceíTario à propaga- 
ção do Santo Evangelho. O certo he , que affim o verda- 
deyro como o fingido Surgiaó moílravaó ter grade amor 
de Deos; pois para que elle foíTe conhecido, & íervido da- 
quelles Pagóes? hii renunciava a honra de mcftre em Sur-= 
gia , & o outro arriícava-fe a perder o credito de homem 
Europeo. 

Com efuas curas que fafiajôc com os preíentes5que dava 
hia o Padre grangeando a aíFeyçaó dos Mandarins , & da- 
quelles que lhe podiaó impedir as occupaçóes de Miffio- 
nario. Ganhados pois as vontades dos poderoíosjfoy fácil 
alcançar delles hum aíFedado diícuidoyaffim no que oPa- 
dre obrava^como no que os naturaes fafiaó para a fal vação 
de íuas almas. Sahia o Padre a vifitar aquellas Chriftanda- 
des : & os Chriílãos de todas as partes accudião à Igreja fé- 
pre porém com a devida cautela ; para que os Mandarins 
obrigados da publicidade naó foííem dar conta a ElRey. 
Como creceíTe cada vez mais a multidão dos Fieisjera por 
iíTo neceííario mayor numero de obreiros. Por efca rafaó 
dos Padres 5 que cada anno vinhaó nos navios de Macao, 
algum delles ficava para ajudar aos outros no trabalho da- 
quella acrecentada vinha do Senhor. Náo achavão cótra-» 
diçóes nos Mãdarinsjpor ferem j a amigos dos Padres ^ dos 
quaes recebiam feus mimos. Nem o mefmo Rey , que o 
naó podia ignorarjfe moílrava defgoíloío da ficada dos Pa- 
dresjpara fe naó declarar receofo do poder dos Portugue- 
ses. Antes inteirado da fantidade de noíia ky5& de como 

U os 



153 BREVES NOTICIAS DO 

os Chríftãos não fomente naó faltavaó às luas obrigações 
no Real rerviço;nias ainda eram muy diligentes em paga- 
rem os tributos : &z m.uy tementes de cometerem furtos, 
& outros crimes prohibidos no Reyno;permitia,quefeus 
Vaílalíos guardaílem a ley dos Portuguezcs , &: os Padres 
ficaílem em fuás terras. 

Neíles annos de paz , ou detregoa foy roultiplicando 
notavelmente o numero dos Chriíl:ãos5& fe foram levan- 
tado muy tas Igrejas em cada Provincia além das cafas de- 
terminadas cm cada Aldeã , para aquelles Neófitos fe aju- 
tarem nellas aos dias Santos , refarem fuás orações , & ou- 
virem a pregação do Catequifta. Porém todas eíhs ígre- 
jas,& oratórios nam eram públicos , mas eícondidos den- 
tro de algum arvoredojou dentro da cerca da cafa de algú 
Chriftáo ricojSc poderofo : &c de quãdo eraõ vifitudos por 
algum dos Padresjminiítrãdo nelles os Sacramétos. Che- 
gava também algum Padre à Corte de Sinoa para Sacra- 
mentar a família de Joam da Cruz, homem de Macao , & 
peritiííimo na funuiçam da artilharia. O qual cfteve pri- 
meyro no Reyno de Camboja , & pela íua grade prudên- 
cia foy tão bem quiífo daquelle Reyjquc o fez Ocunhà , a 
faber Governador de húa Provincia. PaíToufe depois pa- 
ra a Cochinchina, quando efte Rey entrou em Camboja? 
& a fogeitoUjOU faqueou. Parece que o trouxe Deos, para 
fer coluna defta Chriftandade ; porque com feu confelho 
a dirigia em aufencia dos Padresxom fua authoridadcjpor 
íer muy eftimado delReyja apadrinhava : & com feu exê- 
plo a afervorava. Era magnânimo em fuás acções,& ma- 
gnifico no culto divino , em que fe efmerava fua grande 
piedadcôc fe gaitava boa parte das rendaSíCÕ que EIRey o 
íulf entava. Efte Padrcjque hia à Corte, era chamado naõ 
poucas vezes por ElRey,quando aííiftia por fua curiofida- 
de ao fundir da artelharia,ôc em prefença de todos os gra- 
des lhe perguntava pelas coufas de Europa: qual era a ma- 
gnificência dos Paços dos Reys : qual o luftre de fuás Cor- 
tes: 



REYNO DA COCHINCHINA. 154 
tes: qual o poder de íeus exércitos : quaí governo politico 
de íeus povos: & qual o divertimento^que para feu alivio 
tinhaó os Principes de Europa. Ouvia com a tcnçaiii as 
reportas do Padre , & moftrava ficar fatisfeyto? naò admi- 
rado. Mandou ElRey vir huma vez ao Padre Franciíco 
Rívas 5 que então fe achava na Corte: & diante de todo o 
Cortejo lhe perguntou pela leyjque guardavam osChrif- 
taos. O Padre fe poz dejoelhosjôc com as mãos juntas di- 
ante dos peytos repetio em voz alta 5 & de vagar os dez 
Mandamentos em lingoa Cochinchina. Efteve ElRey 
ouvindo com muyta aplicação, & no cabo diíle ao Padre: 
Eíla voíFa ley he muyto boa? & fanta? porém não he Buy> 
que quer dizer, folgada. 

Eíta aprovação da Ley de Deos feytapor ElRey com 
tanta publicidade caufou grande coníolação nos Chriífá- 
os:& deu lugar a muy tas peíFoas graves , que dei ej a vão re- 
ceber o bautifmo,para fe refol verem ao tomar. Deite té* 
po começarão a entrar no rebanho de Chriífo muytos le- 
trados,^: muyta Fidalguia com a Irmã mais velha da Rai- 
nha, que í'e chamou Maria^ de cujas virtudes íe daràm ao 
diante mais diltintas noticias. Os Neófitos pois tomavão 
confiança para fe prof eíTarem Chriífãos em prefença dos 
gentios:& na guarda dos preceitos não iô de Deosjmas tã- 
bem da Igreja,fe moftravam muy obíervantes. O que de- 
veria mais envergonhar os Chriltãos Europeos, he o exé^ 
pio dos foldados Cochinchinas: os quaes eífando no cam-» 
po,& com as armas nas mãos,para fe defenderem do Tun-* 
quim [queneftes annos tornou a tentar a conquifta ái 
Cochinchina com mais de noventa mil homés) guarda- 
vaó toda via o jejum daQuarefma có tanto rigor, q poílo 
que ouveíle grande falta de viveres , & fò muyta abunda- 
cia de toda a íorte de carnes,fe contentavão com o limita- 
do fuífento de hum pouco de arroz : nem a authoridade 
dos Mandarins,que lhes mandavam comeílem carncjfoy 
baítantepara quebrarem o jejum. EparecCíqueagrad^» 

U ij va 



155 BREVES NOTICIAS DO 

va miiyto a Deos aquella abll:iiiencia;poís a hum delles, q 
por fe achar muyto fraccfe rendeo a comer carne; ao pri- 
meyro bocado , que engoliojlhe pareceo , como elle mef- 
mo cotou ao Padre Pedro Marquez,ter comido eípinhos: 
& foy tanta a moleftia ? & ancia5que padeceo , que para fe 
livrar daquelle tormicnto/oy obrigado a fazer força? para 
vomitarjO que tinha comido. 

Nam faltou Deos em confoiara feus fieis fervoscom 
evidentes íinaes de ibu divino patrocinio , & paternal a- 
mor; para que os idolatras reparando nos fivores , que os 
Chriíbãos recebiâo do íeu Deos , fe animaífem a fe paíTarê 
para o eílendarte de Chriíl:o:& com elle,& por elle alcan- 
çaíleni a eterna bemav^enturança. O cafo foy admirável. 
Eíiando o Tunquim no principio do acometimento , cô 
grande preíía fe foy retirando para as fuás terras-huns dif* 
lerãojpor morrer a Mãy delRey : outros publicarão , que 
ElRey de Chocanguejtédo noticias como ElRey do Tú- 
quim fe tinha pafíado có íeu exercito para a Cochinchi- 
na;queria entrar,6c fazerfe Senhor do Tunq uim. Retira- 
do pois o ininiigOírecolheofe o exercitoCochinchina pa» 
ra a Corte de Sinoa:& começou logo a adoecer muy ta lol- 
dadefcajnão menos pelo canfaço das vigias , que pela ma-* 
lignidade das agoas. O Infante fegundo genitojque tinha 
governado o exercitOjfabendo das doenças , foy repartin- 
do dinheiro aos doentes gentiosjpara que fe curaílem , &: 
fizeílem as coftumadas ceremonias fuperíficíofas, para al- 
cançarem a faude;mas não quiz dar dinheiro nenhum aos 
íoldados Chriílãos doentes > dizendo por zombaria 5 que 
paraconvalccerem , bailava ferem Chriftáos. Porem fe o 
Infante o diífe zombando Deos o fez deveras. 1 bdos os 
Chriífáos ficaram valentes:& dos gentios morrerão muy- 
tos. 

Todos eífes fucceíTospromit ião grandes profperidades, 
& muy feliccs progreílos na propagação do Santo Evan- 
gelho. Mas como Deos querjque a nao de fua Igreja nave- 
gue 



* 



REYNO DA COCHINCHINA. 156 

gue com ventos contrariosjpara que Ic conheça a fabedo- 
ria,& o poder divino , com que ellc a governa ; permítio, 
que toda efta tranquilidade vieíTe a íer perturbada c6 húa 
tormentofa perfeguiçam. E na verdade fò no fogo alcan- 
ça o ouro o mayor luítrcÔc valia , & quando a vide hc po- 
dadajentãoengroíFa maisíôc dà fruto mais abundante. 

C A P I T L U O XIII 

Princípios de hwm nova perjeguiçam conjlancia dos Neófitos : Cj^ ad" 
miraveisjucccjp)s em confirnmçam da ^eligtao Chrijla. 

tormentas 
de 
W^0 as mayores perfeguiçóesjque tem padeci- 
í|^^ do a Igreja univerfal , le o riginàram narn 
^iíi^^5 poucas vezes de humas paixões particula- 
res , que no principio naó ameaçavaó tam 
grande a ílblação. Baila para hum grande incêndio huma 
pequenataifca. Aílim o experimentou a Igreja de Co- 
cbinchina defde o anno mil & feiícêtos & feíTenta & hú, 
de que vou efcrevendo. Havia na Corte de Sinoà dous 
Chriíl-ãos,grandes letrados: hum por nome Pedro Ki,que 
era fervorofo Catequiíla : o outro fe chamava Felippe , & 
era meftre do Infante, de quem falamos no Capitulo pal- 
iado. O Pedrojpor ter grande charidade có todos os Chri- 
ftãos^era de todos elles muy honrado3&: amado;o que naó 
faíiáo a Felippe , por eftar fempre metido no paço. Deita 
defigualdade na honra, & aíFeiçam procedeo em Felippe, 
nam fey que enveja,& rancor : & não podendo efcurecer 
a bondade de Pedro , o quiz defdourar no conceito de le- 
trado. Era efte Infante muy aplicado às letras , poílo que 
foíTe também muyto deítro nas armas. Eílimava aos le- 
trados , & goftava de paílar com elles boa parte do tempo: 
era também muy affeélo à ley dos Chriílãos3& aos Padres: 

U iij de 




157 BREVES NOTICIAS DO 

& nioílí ava particular goííOjquãdo íeus foldados , 6c cria- | 
dos lhe difiãojque erão ClirJíèãos;íò os advertia, que o fof- 
íem íecretaniente5para não defgoílarem com a publicida-- 
de a ElRey feu Pay. Tendo pois eíle Infante noticias do 
Pedro Kl 5 mandou-o vir? para o ouvir pregar da Leyde 
Deos. O que fez o Pedro douta^Ôc eloquentemente. De- 
pois da pregação começarão a praticar íobre varias coufas .j 
pertencentes à Religião Chrifta : &c entre as perguntas , q ^' 
o Infante fez a Pedro,huma íoy , fe nos livros dos Chinas 
íeachavãoeílas palavras Thienchuà. Para a intelligencia 
diíto íe deve fuppor. Como os Padres da Companhia de 
JesvprinieyrosMiíIionarios da China? por não terem a- 
quelles naturaes palavra ? que explicaíTe, o q nòs dizemos 
com efta voz. Deos cfcoihèrão duas dos Chinas5que o dão 
a entender no melhor modo •> que pode fer na íua lingoa> 
& iam: Thienchuàja faber Senhor do Ceò: Das mefmas fe 
fervem os Padres na MiíTam de Cochinchina ? & do Tun- 
quim ; por a lingoa Sinica fer como o latim dos Cochin- 
chinas , & Tunquiis. Refpondeo pois Pedro , que em li- 
vros Sinicos fe achaváo aqueilas duas palavras.Começarão 
logo a contradizelo muytos letrados gentiosjque eílavani 
prefentes5& cortejavão ao ínfante:& obrigarão a Pedroja 
que apontaíTe o livro ^ em que eílavão. Pedro como nam 
vinha preparado para efta quefiãojnê lhe ai em brava? aon- 
de as tinha lido 5 òcou callado. E não o Felippe em 1 ugar 
de acudir ao velho Pedro para o credito de noífa íantaRe- 
]igião50 enxoval hou5&defacreditou diante do InfantCjôc 
de todos ac|uelles letradosjmoífrando o pouco , que fabia. 
Não parou aquy a culpa do Felippe; mas como húa gran- 
de maldade chama fempre outra mayor: & de hum preci- * 
picio fe vay defpenhandoo apaixonado em outro mais 
profundo : ou foíTe por confelho dos letrados gentios : ou* 
fofie por diabólica iníf igação do deíalmado Felippe , mã- 
dou o Pnfante intimar húa ordem pelo mefmo Felippe a 
feus foldados, prohibindo que nenhum delles recebeíTe 

mais 



REYNO DA COCHINCHINA. 158 

mais a ley dos Portuguezes. Nem com iílo fe contentou 
o Infante pervertido do fautor em períeguidor; porque 
depois de alguns dias mandou a dous Capitães de Infan- 
taria,foílcm dar bufca na cafa de húa fidalga viuva por no- 
me Martha 5 & lhe tiraílem quanto pertencia a Religião 
Chriftã. Acharamlhe entre as mais coufas hgradas húa 
Imagem da Senhorajque chamão de Sam Lucas , & hum 
Miííàl,quealli fe guardava , para quãdo algum dos Padres 
là foííe dizer Miíla; por aquella cafa ter oratório , aonde a- 
cudião muytas peííbas graves 5 & fidalgas. Muy ufanos 
voltaram os Capitães có todo aquelle fagrado defpojo : & 
para que a vitoria follè mais eftrondofa , levarão prezo ao 
íobrinho de Martha ? chamado Miguel , que era moço da 
camará do mefmo Infante. O qual mãdou logo , queimar 
no pateo de feu Palácio a Sagrada Imagem da Senhora có 
o maisjque fe achàraiôc também acabara em cinzas o Mif- 
fal; fe o moço Miguel o não livrara dizédo , que era livro> 
que tratava da fundiçam de artelharia:& fe lhe deu credi- 
tOjpor não haverjquem foubeílè ler Latim.Ficou Miguel 
com canga ao peícoço? Sc prezo dentro do Palácio do In- 
f ante,fem efte fazer menção delle,poílo que lhe quizeíTe 
muytojpor fer moço de prendas 5 & de quem elle muyto 
fe fiava. O que tudo cauíava em Miguel tão grande con- 
tentamento 5 que quafi fempre eftava cantando louvores 
a Deos;pois não ignorava? que quanto mais perdia da gra-^ 
ça de feu Príncipe por fer Chriííão; tanto mais grangeava 
da graça ? & amor de Deos , & tanto mais crecia o premio 
de íua conftancia. Ficarão admiradas as guard.asj& palma- 
dos os criadoSiSc cortefãos da cafa do Infante , vendo a hã 
fidalgo camariílajÔc moço de vinte annos tão alegre entre 
as perdas das efperanças, entre as afFrontas da cangajôc en- 
tre os perigos da morteiÔc para lhe não darem moleftiajné 
enterromperé feu cantojcallaváo afíbmbrados. Teve no- 
ticias deíla prifaó hum tio do Miguel : & como era també 
Chríftão acudio logo : & em prefenca de muyta fidalguia 

Uiiij ' fe 



15-9 BREVES NOTICIAS DO 

íe iançou aos pés do íobrinho,&: lhos beijou, dãdolhe mil 
parabens;pois fendo moço começaS' a apadecer por Chri- 
ííojdoqueelleatèaqiiella velhice não tinha fido digno. 
Paliados três dias,niandou o Infante foltar a Miguel , que 
feotío muyto lhe tiraílcm a canga; porque a eíbmava ma- 
isjGue os mais ricos colaresjmais que as grandes honras , q 
lhe podia dar5& prometer o mundo. Depois diílo lhe ma- 
dou dizer o lofaDte,como o defpedia do feu fervíço. Eíle 
avifo;que caufa tanta penaj&i tal vez a morte aos ambicio- 
fòs das coufas da terra? esforçou o efpirito de Miguel cobi- 
çoío dos bens do Cco; porque vendo-fe livre do cativeiro 
dos honiés, tinha já liberdade, para fe dar todo ao ferviço 
deDeos. Para que pois todos foubeílem, quanto ellefe 
prezava de fer Chriíião 5 Sc de padecer por leu Redeptor, 
pedío aos foldados a cãgajÔc para iílo lhe oíFereceo dinhei- 
ro: que não quizerão aceitar pelo refpeyto , que todos lhe 
tinháo. Recebida a canga,a poz a feus hombrosiÔc có ella 
fahindo do Palácio do Infante5foy andado pelas ruas mais 
pubhcas da Corte. A eíle efpeófaculo íicavão atónitos os 
gentíos,que ouvião paíTarjõí confolados os Chriíhiosjque 
o hião íeguindo. Eítes por verem tão grande fervor em 
hum moço : aquellcs por admirarem em hum fidalgo ra- 
ta eííimaçáo das aífrontas. Os amigos, que com elle fe en- 
contravãOínaó íabiaó 5 fe lhe dariaó os pezames pela infâ- 
mia tk canga?que levava:ou os parabéns pela alegria 5 que 
diííe moftrava. Todos paravam pafmados. Sò Miguel có 
paíTo vagarolb hia andando como triunfante 5 & laudan- 
do a todos com muyto agrado. Deíla maneyra íoy para a 
cafa de fua tia Marthajaonde o prenderão : & poíto de joe- 
lhos diante do lugar em que eftivera a Imagem da Senho- 
rajque foy queimada, começou a fe disfazer em lagrimas, 
queixando-fe de naó ter íido digno de morrer pelaLey de 
Deos. Acudirão a confolalo os Chriftãos , que o tinhaó a- 
companhado , dizcndolhe. Que Deos naó lhe negaria o 
premio? que merecia feu defejo de dar o fangue , & a vida 

pela 



REYNO DA COCHINCHINA. i6o 

pdaconíiílaódeíeu fantoNome:& por ventura aceitam 
Deos eíle íeu facrificío em outro tépcera q refultaria ma- 
yor gloria a íua fanta Icy. Com eftas cfperanças enxugou 
Miguel as lagrimas;& depois de fe animarem hús aos ou» 
tros a padecerjôc morrer pela guarda da Religião Chritiá, 
todos íc foraó para fuás cafas , edificados do exemplo do 
Miguel, & deíejofos de o imitarem. 

Efta mudança, que o Infante fez de tanto amor em taó 
grande ódio aos ChrííMos ? eípertou a má aíFeiçam, que o 
Secretario delRey íépre teve à Ley de Deos, por fer muy 
dado ao culto dos Idolos:& fe não atrevera ate então a per 
leguir aos Chriftáosjpelos ver amados do Infante, a quem 
ElRey eítimava muy to não menos pelo valorjq pela pru- 
dência, que fempre moílrára. Vendo pois o Secretario a- 
bertojà o caminho por aquelle,que o tinha fechado á per- 
feguiçáo: falou a ElRey, dando queixa dos Chriítãosj le- 
vantandolhesique naó pagavão os tributosjnem acudiaó a 
feu Real fcrviço: & que antes queriaó pagar a pena pecu- 
niária defta falta, do que faltaré ao que os Padres lhes má- 
daváo. Naó fez ElRey cafo defta acufação,nem deu a en- 
tender, que a ouvira. O que vendo o Secretario, tornou 
ao outro dia a fazer a melma queixa com mayores enca- 
recimentos. Entaó ElRey lhe diíTe: Fazey o que vos pa- 
recer. 

Polto que EIRcy com cilas palavras não deíTe poder ao 
Secretario de períeguir a Ley de Deos, mas íómente de o- 
brigar os Chriífãos a pagarem os tributos , 6c a fazerem, o 
quefoílefeu Realferviço. Com tudo o Secretario pela 
muyta privança,que tinha com ElRey, 6c pelo grande o- 
dío aos Chriíláos, publicou na Corte , & em Quanbinh, 
Prgvincia boreal,huma ordem Real:pela qual fe prohibia 
aosnaturaes do Reyno a guarda da ley dos Portu^uezes, 
& fe acendco mais efte ódio do Secretario com a occafiaò> 
quedirey. O PadreFrancifcoRivas por ordem dos feus 
Superiores de Macao devia partir para o Reyno de Cara* 

X boja:> 



i6x BREVES NOTICIAS DO 

boja a vilitar aquclla Cbriflandadej & de caminho conío* 
lar os Neófitos CochinchinaSjnioradores de todos aquel- 
les portas; pelo que foy à Corte no principio dejaneyro 
de mil & íeíícentos feíTenta & dous para pedir paíTaporte 
aEIReyjdequemeraconhecidojComo temos dito: &o 
alcançou faciJmente. Hindo pois o Padre p:ira expedi- 
ção do paíTaporte à cala do Secretario, começou efte a di- 
zer ao Padre mil louvores dos Miííionarios Europeos : de- 
pois virou a folha5& diíTe dos Chriítãos mil malesj tantos, 
& taes, como elle queria;porque os levantava de íua cabe- 
ça, & a feu goílo. Eítava preíente aeftafalaoCatequifta 
Pedro Kij que acompanhava o Padre Rivas: & depois de 
ouvir pacatamente, quanto o Secretario com grande ira 
tinha blaíbnado, tirou de hu livro Sinico impreílo, & lhe 
moílrou nelle as duas palavras Thienchua. O Secretario» 
que era hum dos letrados,que em prefença do Infante ti- 
nham negado acharem-fe em algum livro dos Chinas, fi- 
cou muy envergonhado ; mas como politico reprimio a 
collera,para lenaó deícompor: & defpedio ao Padre , com 
lhe entregar o paíTaporte. Porém foy logo ter com El- 
Reyjacuiandolhe o Pedro 5 por enfinar a ley dos Portu- 
guezes. t IRey enfadoufe com a propoíla, & moleílado 
lhe reípondeo: Prendeioimataio. Calloufe logo o Secre- 
tario confuío, & arrependido do que diílera. 

Pudera bailar eíla moleíliajq ElRey moílràra , em lhe 
acuíarem os Chriílãos,para todos os Mandarins os favore- 
cerem, ívjas como a conveniência própria he hoje o ordi- 
nário fim,que tem os homês em fuás acções: & poílo que 
entendam, íerem injuitos os meyos> nem por ilTo os dei- 
xam de tomar 5 para poderem alcançar finalmente, o que 
pertenderem. Sabida dos Mandarins a má vontade,que o 
Secretario delRey tinha aos ChriíTãos: para o lifonjearem, 
de com iíTo facilitarem as mercèsjque cada hum efperava: 
começarão rivexar aos Neófitos em vários lugares. O pre- 
mítio Dcos affimjpara niayor conf ufaó dos ldolatras,m'a- 

yor 



REYNO DA COCHINCHINA, 162 

yor merecimento dos Chriílãosj &mayorexaltaçam de 
leu divino Nome. 

Publicada a prohibiçaó pelo Secretario cm nome dei- 
Rey: foraò huns Mandarins às Aldeãs de Daibi, 6c Bulieu 
na Província de Quanbinh,por haver nellas Chriílãos: & 
chamadas ajuízo as cabeças deitas Aldeãs, lhes pergunta- 
rão quãtos craó, os que alli guardavaó a Icy dos Porcugue- 
Zes: Reíponderaó íocegadamente j que quaíi todos eram 
Chriílãos. Grande foy o furofjque os Mandarins conce- 
berão com efta tam dei enganada repoíh; mas porque naô 
havia ordem Realjpara lhes darem tormentos os trataram 
mal de palavnis,&: condenaram a cada peílba Chriiiã em 
certa c]uantia de dinheiro. Neíla mefma Aideade Bolieu 
cíiavaó juntos todos os Chriílãos em cala do Catequiíla 
Vicente5para rezarem íuas orações, por fer Dominga dos 
Ramos. Teve noticias difto hum filho do Mandarim : & 
com Toldados armados entrou dentro,erpancou a hiis^ar- 
raftou pelos cabellos a outros, prendeo,& amarrou a muy- 
tos,& entre eftes ao Vicente. Fizeraó todo eftc eftrondo, 
íó para tirarem dinheiro dos pobres Chriíiáos. Acudio lo- 
go a mulher de Vicente,& deujoquelhepediaó, para lhe 
loltarcm o marido: o qual reprehendeo aíperamête a mu- 
lher dizendolhemuy TentidojScem voz alta, nam fizeíle 
tiil, pois era moftrar fraqueza na Ley de Deos. Entre os q 
levaram as pancadas, foram dous Catecumenosraos quaes 
a aíFronta, & a dorjque lhes caufou eíle deíatino dos gen- 
tios, não lômente não lhes apagaram odefejo deferem 
Chriílãos; mas lho acenderão de maneira, que impacien- 
tes partirão logo para a CortCjcaminho de dous dias, em- 
buícãdo Padre, para receberem delleo íanto Bautifmo:& 
lho deu o Padre Pedro Marquez banhado todo em lagry- 
mas de confolaçaó; por yer a grande fè,6c o muyto fervor 
dos Novatos na milícia de Chriílo. Soube huma tia del- 
Rey deílc defaforo do filho do Mandarim, Òc mandoulhe 
huma alperareprehençam,por ter fcyto acçam tão injuf- 

X ij ta. 



i63 BREVES NOTICIAS DO 

tâí & cruel fem ordiem-delKey: &]íie ordeoou^reftitii iíTe 
lo^yo a Sagrada Imac>€ra5que tirara da caía de Vicente:& íe 
iiáo atreve/Te a moleíbr mais aos Chriíhios. Os qiiaes com 
o patroGinio deíb Princeza5& com o favor da Virgem Se- 
nhora,GUJa fmagem reíiaaràraím, celebrarão com grande 
fervor os officiosda foQiana Santa : & com grande alegaria 
feíte jaram a Reítirreyçaó de feu Salvador. 

Naó tiveram melhoríucceíTooutros Mandarins ? que 
foram' à caía de hm viuva por nome joanno^, peíToa muy- 
ro grave; a qual acompanhados de nxuyta íofdadeíca dif- 
íeraórjoanna hoje te tiramos o teu Deos defía caía na qual 
fe ajuntão os Chríftáos5& reíaó diabruras. Reipondeo el- 
laíorrindo-feiTirarmeham a Imagem do meu Deos de 
minha caía ; não porém o meu Deos do meu coração. C6 
eífa repoíia ficou afiombrada a foberanía daquelles Mãda- 
ríns : & reparando na conftancia da mulher , ôc no pouco 
medo)que moíkava ter de fuás armas^envergonhados? & 
confufos fem fazerem nem dizerem nadarlahiraó,& voU 
tàraó pafmados para as fuás cafas. 

A meíma repoíia deu Agoítinho,acufado por fer Chrí- 
ítão por hum gentio, a quem elle não quiz dar huma fua 
Irmã. por mulher. Foy cfte levado perante o Mandarim: 
o qual depois de o reprchender aíperametejpor naó guar- 
dar as ordens Reaes. Mandou a alguns foldados íoílem à 
caía de Agoílinho,& lhe tiraíTem a ímagemy & a agoa be- 
ta. Virouíe Agoílinho paraaquclles íoldadosy &c lhes dií- 
le: Podermehaó tirar da minha cafa a Sagrada Imagem, & 
a agoa fanta;porèni não me tirarão nunca do meu coraçaã 
o amor? que eu tenho ao meu Deos. 

Não menos animoío que conílãte fe raoftrou Bertho- 
lomeujhomem fida]go,que eílava para íer Mãdarim, pois 
chamado por hum mínillro real, foy preguntado fe era 
Ghriílão. Reípondeu : íou pela mercê do Creador de to- 
das as coufasjcom o também o foram meus Pays. Agafrou- 
fe muyto o miniítroj 6c lhe deu huma grave reprelieníani 

por 



REYNO DA COCHINCHINA. i6+ 

pornão obedecer às ordens dei Rcy. Ouvio-o Bertholo- 
nieu com roíio íercno,& depois diíie.^SenhorjElRey pro- 
hibe aj untamctos públicos, não aguarda da ley do Senhor 
do Ceo,6c da terra. Calloufe o muiiftro: & Bartholomeo 
ie foy para í í ua cafa. E na verdade nunca foy intençam 
dclRey íe pallaíle ordcni a feus vaíTalloSjde não feréChrí- 
iMos : como o moftrou depois com eíte fuccefío. Havia 
cm huma companhia de foldados dezafete Chriftãos : aos 
quacs o íeu Capitão,ou por cobiça, ou por agradar ao Se- 
cretario de Kítado, tirava muy to do quartel, que fe lhes 
coftumava dar. Os pobres loldados obrigados das necef- 
íidades,que padeciãojoacufaram a ElRey. Eftando pois o 
Capitão na publica audiência, por íua deículpa diííc a El- 
Rey em voz alta: Senhor baila ferem, os que me acuíam> 
Chriftáos; para amotinarem nam fóhúa companhia mas 
111 uy tas. Por eu lhes não deixar guíárdar a ley dos PortU" 
guezes, fahiráocom efta falíidade. Reprehendeo ElRey 
ao Mandarim, ôc tiroulhe a companhia; & íem dizer pala- 
vra aos C hriíláos, os defpcdio. --. i- 

Entre os medos, que os inimigos de Chrifto procura- 
rão meter aos Chriítáos com vexações, & ameaças de ma- 
yores males, não faltou Deos, em dar grandes eíperanças 
a íeus fieis fervos de feu poderofo patrocinio : & de publi- 
car com cafos prodigioíos aos gétios a verdade daReligião 
Chriftã: para que todos feconverteffemjou não tiveíTe ef- 
cuíaaluaobllinaçam. O facrilego Infante depois de ter 
mandado queimar a Sagrada Imagem da Virgem Senho- 
ra noíra,eítãdo vilitãdo a fua Avô, foy acometido de húas 
dores deeftamagotam cruéis que os médicos defefpera- 
vão jà de lua vida; porq os remédios não fomente lhe naó 
aprovei ta vão, mas antes Iheacrecentaváo o torméto, que 
padecia. FoíTe pois can faço da natureza tam combatida: 
ou particular Providencia de Deos, que queria dcfcubrir 
o thcfouro de fuás milericordias, 6c declarar a verdade de 
fua fanta ley: o Infãte adormeceo; -Achouíe prefente nef- 
:- Xiij te 



i6s BREVES NOTICIAS DO 

te tempo húa lua tia Chriftá por nome Maria: a qual fabc- 
dodâ virtudedoljnaldaíantaCruz5chegou íe raaníamé- 
te ao Infante, que cílava dormindo com os peytos dcfcu- 
bertos: & com cal delida [de que uiaó para temperar húas 
folhas aroraaticasjqueeíhm quafi lempre maícando ) lhe 
fez com ella o íinal da Cruz íobre o elf âmago. Acordou o 
Infante, & deu grandes voze^, dizendo : Senhora já eíloa 
valente,& não íinto dores. Grande foy a alegria da A vò, 
&c da tia : & muyto mayor a admiração dos mcdicosjnaó 
fabendo,donde procedera aqu ella nâo eíperada melhora? 
de huma íaude tam repentina. Hmdoíc depois o Infante 
compondo, vio o final da Cruz, & perguntou, quem lho 
iizera fobre feu eítamago. Refpondeo a tia , que cila o ti- 
nha feyto,por fer íinal do Sen hor do Ceo, por cuja mercê 
faràra. Eífa oftentaçaó da mifericordia divina uiada com 
efte infame Infante, por fer perfeguidor da feu fanto No- 
me,era na verdade baífantcjpara renderjôc abrandar qual- 
quer coração rebelde,6c empedernido ; poré pela fua obí- 
tinaçâo naó fó naó fe lhe trocou o ódio em amor, mas an- 
tes lhe foy creccndo mais o aborrecimento aos Chriífáos. 
Mas nem por lílb outras peíloas muy graves^ôc grades dei- 
xaram de alcançar a verdade da Religião ChriM; porre- 
pararem,como fuás ceremonias eram taó poderolas fobre 
as forças da natureza. 

Mas deixemos a Corte, na qual quanto mayor he a fo- 
berania,tanto menor he as vezes a dirpofiçaó,para fe rece- 
berem os favores do Ceo;por íer coftume de Deos: comu- 
nicarfe aos humildesj^: encubrirfe aos fobcrbos. Na villa 
de Langdai eílava ás portas da morte húa menina gentia : 
cujo Pay também Idolatra, & Mandarim da mefma Villa 
por ter ouvido,quam poderofos eram os rogos dos Chrif- 
tãos para com o Creador do Ceo,& da terra , foy buícar a 
huma Chríílã por nome An na,mulher pobre, mas muy 
devota: pedindolhe com mais lagrymas que palavras,quí- 
zeíTe rogar ao Senhor de todas as coufas, para q deíJe faude 

aquclli 



REYNO DA COCHINCHINA. 166 

àquella lua taò amada filha. Ajuntou logo Annaaspeííb- 
as Chriílãs, que pòdcj& com ellas foy para a cafa do Man- 
darim. Entradas todas no apofentOjcm que eítava a mo- 
ribunda, começou A nna a rezar as Ladainhas de NoíTa 
Senhora; &]ogo que as acabou? cafo milagrofoj íarou de 
repente a menina agonizante. E por ventura não foy me- 
nor milagre não lhe morrer logo o Pay de alegria, vendo 
valente, a que chorava por morta. A faudc do corpo da fi- 
lha foy caufa^que elIajO Pay,6c toda a família recebeííem a 
vida da alma, bautizando-le toda aquella cafa com grande 
confolaçam dosChriftãos, ôcaíTombro dos gentios, por 
ouvirem o fucceílo nunca viífo em fuás terras. 

Nem foy menoroeípanto, que deu nos Idolatras da 
Comarca do Phuongtai; por verem, como os ratos fahi- 
dos de huns montes, tendo comidojà, & deftruido toda a 
novidade de todos aqucllcs campos, fó deixaram intaóla a 
fementeíra de hum Chriítão, por ter levantado muytas 
Cruzes ao redor delia: a qual depois a feu tempo deu muy 
abundante colheita. 

Muy admiráveis foram também os cafos, có que Deos 
nefteannomil&íeiícétos feílenta&dousmoftrou muy 
claramente aos olhos daquelles Pagóes o divino poder , q 
as couías pertencentes à Religião Chriílã, & os mefmos 
Neófitos tinhão íobre os eípiritus infcrnaes,dosquaes faô 
os Cochinchinas muy frequentemente vexados:para que 
enten-ados jà defta virtude fobrc natural, reverenciafleníl 
&c adoraíícm ao Diítribuidor delia. Apontarei fomente 
hum deftes fucceííbs;porquc foy mais publico, ôc de ma* 
yor provcyto á çonverfaó daquelles Idolatras. Havia nas 
fronteiras hum Mandarim infiel, que goverqava duas çór 
panhías : era eíle endemoninhado, & bem rjQoftrava p inr 
fernal hofpede, que agafalhava cm feu corpojcom as fúri- 
as que tinha mais que humanas:& taesque nem a mulhei: 
nem os filhos fe atreviaó a lhe aparecerem diante; porque 
no âpofentOjcm que filava íechado, tinha comfigo hurna 

Xiiij efpa- 



i67 BREVES NOTICIAS DO 

efpada larga fempre defembainhada. Os parentes, que 
todos eraó gentios, chamarão aos Feiticeiros, que fcpre- 
Zaó de lançar fora dos corpos a qualquer demónio com 
certas fuás ceremoniasjque fazê: que na verdade íaó ver- 
dadeiras locurasjcomofaóideíenrolar húas bandeirínhas; 
& ao fom de tambores mal temperados , 6c de outros inf- 
trumentcsdefconcertados faltar com femiterra nua na 
mãojcfgrimindo no ar5& dando vozes,& gritos deíentoa- 
dos. Mas como hum diabo não eftà contra o outro? antes 
todos acodem, & fe unem^para fazer mal ao homem, en- 
Vcjolos que efte leja remido,& efcolhido para as cadeyras 
da gloria, das quaeselles pela lua foberba foraó tirados, & 
derrubados no abifmo do inferno; poriíTo odefgraçado 
Mandarim ficava cada vez mais endemoninhado; & cada 
vez mais furiofo. Epoílo que alguns Senhoreados pelo 
demónio, depois deftas locuras endiabradas do Feiticeiro, 
fiquem com algum íoccegoiou feja pelo muyto canfaço, 
com que fe acha a natureza depois da tirannica bataria, q 
lhe tem dado o infernal inimigo:ou feja paraefte enganar 
mais facilmente aquelles gentios; com tudo não fahe de 
huraa vez daquellcs corpos; porque torna dalli à algum 
tempo a vexalos como dantes. Então diz o Feiticeyro, 
que entrou de novo outro demónio: &com eftes enga- 
fios vay tirando mais dinheiro daquelles miíeraveis Ido- 
latras, dignos na verdade de grande compaixão; porque o 
Feiticeiro lhes toma a fazenda^ôc o demónio lhes tiraniza 
os corpos, & leva fuás almas para o inferno. 

Teve noticias do laílimofo eílado deíle Mádarim o Ca- 
teq uiíla Pedro Ki já nomeado : & movido do zelo da glo- 
ria de Deos, & falvaçáodaquelIaalma,deterrainou bufca- 
iojôc a íahir ao campo com todo o inferno. As armas,que 
para eíte confliélo tomou,forão hua Sagrada Imagem, húa 
Cruz,&agoa benta. Armado pois defta maneira có grade 
confiança em Deos fe foy à caía do Mádarim, & pedío ao5 
da famíliajlho deixaííem ver? & vifitar. Contarãólhe eíles 
- . -- as 



REYNO DA COCHINCHINA. j68 

as deíatinadas furias,com que eífava naquelle apofentOjÔc 
o medcqiie todos , &: ainda a mulher , & filhos tinhaó de 
lhe entrarem dentro. Mas oPedromoil:rando,não temer 
nada tornou a pedir^lhc abriíTem fò a portasa qual logo ba 
too. Perguntou o endemoninhado: Quem era. Reipon- 
deo Pedro: Hum criado do Mãdarim valido delRcy. Dif^ 
fc então de dentro: Entre embora,fe quizer provar a mão 
comigo. Para íílo venho. Reípondeo Pedro : & aberta a 
porta,cntrouanimolamente. Cuidavão todos os dacafa? 
que o Mãdarim enveftíria logo com a efpada ao Catequif- 
ta; mas com grande efpanto feu viram , como trocado de 
Leaó em ovelha fe lançou logo aos pès do Padre : & alli fi- 
càra,re Pedro o não levantara 5 jà mais manfo que cordey- 
ro. Naó cabião em fy de alegria a mulherjos filhos , & os 
criados;por verem a ieu eípoíojpay, & Senhor tão repen- 
tinamente mudado , &c reílituido à fija natural brandura, 
& Íefi.ideza5que antes tinha. Qiieriaó,mas não podíaôjdar 
os agradecimentos a Pedro;porque as continuas lagrymaâ 
de coníolação lhes impedião as palavras. Diíle então Pe- 
dro:Dem todos as graças a Jesv ChriftoCreadorj&Redê- 
ptor noíro;pois pela virtude , que elle tem dado à Sagrada 
Imagem,a íanta CruZjôc à agoa bentajficoa efic fidalgo li- 
vre da tirannia do efpirito infernal. Eu o levarei para a 
minha cafajpara lhe enfinar 5 o que deve fazer , para que o 
inimigo do género humano lhe naó dè mais moleília. Le- 
vou-o comfigo, iníh uio-o 5 & Bautizou-o. Viveo depois 
não fomente livre do demónio 5 mas ainda deíl:e muy te* 
mido,pelo bom exemplojque dava a todos. 
• • Efte fucceíTo acontecido na CortCjôc em peíToa tão no- 
brece authorizada fe efpalhou logo por todos os Cortefá- 
0S5& Miniftros Reaes com grande admiração de todos: & 
caufou em todos grande conceyto , & veneração da Reli- 
gião Chriífá. O que vedo o demoniojpara atalhar o muy- 
to maljque lhe poderia vir a elle dos favores,que os Gran- 
des fizeífem aos Chriílãos: iníligou a hum Feiticeírojpara 

Y que 






i69 BREVES NOTICIAS DO 

que prometendo elle de fazer o mefníojque Pedro fizera, 
fc perdeílè, ou ao menos fe de minuiíTe o credito , que ti- 
nha ganhado a Ley de Deos. Pelo que o diabólico Feiti- 
ceiro nas praticas f oy efrranhando muyto a admiraçam, q 
fe rafia do dito fucceíTo , & falarem todos bem da ley dos 
Portuguezesjfô por ouvirem aquelle acontccimêto : fen- 
do aílimjque elle faria o mefmo5& muyto melhor , de to- 
das as vezes que o quizeílem ver. E para que foubeílem, 
como elle não era mais fácil em dizcr,que em obrar , buf- 
caílem embora algú endemoninhado 5 quem quizeíTema 
& elle logo o livraria de todos os diabos. Naó faltarão cu- 
riofos,queo levaíTem à caía de hum, de quem o demónio 
fe tinha apoderado. Mofírou o Feiticeiro receber muyto 
goílo;por lhe terem dado occaíião,para elle defcubri a to- 
dos a valentia de feu poder. Mandou logo vir de lua cafa 
todas as maquinas necellarias para defalojar daquelle cor» 
po ao infernal inimigo. Largas pois as bandeirinhasrôc co- 
meçados os fons defcom paliados dos tamboresj^ campai- 
nhasrempunhou o Feiticeiro com grande brio a Semitar- 
ra^Ôc deu principio à peleja faltandoíf erindo o ar com mil 
talhos5& revezesjôc dando vozes defefperadas5CÕ as quaes 
mandava aos diabos , fahiíTem logo daquelle corpo. Eíla- 
váo os circunílantesjque todos eraó gentios, elperádo pe- 
la viíSloria depois de tanto combate. Quando ao Feiticei- 
ro de repente lhe íica hum braço eftendido , & im movei, 
fem o poder menear para nenhúa parte : pafma o mifera- 
vel a tal accidente:& amedrentado pede,lhe acudam. Dc- 
raólhe logo,todos os que ahi eftavão prefentes , húa gran- 
de rifada; por verem ao fanfarram tremer de medo : & ti- 
veram o fucceíTo por caíHgo do Ceo,por querer elle efcu- 
recer a gloria do Pedro:&: tirar a devida eftimaçaó à ley do 
Senhor de todas as coufas. Com tudo chegarem-fc depois 
para lhe levarem ; mas não foy poílivel dobrarem aquelle 
braço endurecido:& affim o teve por hum dia inteiro.DK 
vulgoufe logo o cafo ; & foy grande o cone urfo de toda a 

forte 



REYNO DA COCHINCHINA. 170 

forte de gentejque hia ver o Feiticeirojf -42^60(^0 todos gra- 
des ludibriosjôc zombarias delle 5 que por fua mayor con- 
f uíaó ouvia as injurias , que lhe díliaó : huns chamando^o 
de atrevido: outros de cmbuftciros : & todos voltavão pa- 
ra as fuás cafas cõ conceyto de fer a Religião Chriftã muy 
verdadeira ; pois fò ella tinha poderes contra os efpiritus 
infernacs. 

C A P I T L U O XIV. 

Trilham de muy tos Qmjlaos j &- con^mcia na conjijfao da Fe. 

S luzes deíles cafos maravilhofos 5 aílim 
como erão gratas aos olhos , dos que cui- 
dadofos bufcaváo o verdadeiro caminho 
para a fua íalvaçaó ; aílim pelo contrario 
eram aborrecidos? dos que amavaó as trc^ 
vas de fua infedilidadc, para correrem ce- 
gos atraz de feus defenfreados apetites. Mas porque o bé 
viver dos bons he continua, & afpera reprehcnçaò do ru- 
im preceder dos mãos; por iíFo procuravaó os gentios c6 
todo o empenho perverter aos Chriíláos 5 vexando-os có 
prizoens , & tormentos : para que apagada nelles a luz da 
Fc^ficaííem todos nas trevas da Idolatria 5 & nellas efcon^ 
didos, ou não eftranhados os vicios comuns a todos. Para 
efte fim tão danado tomaram por meyos as calamidadesj 
& infortúnios acontecidos no fim deíle anno mil & feif» 
centos feíTentaôc dous : & foram três furiofiflimos Tufo' 
esjque dcfcompoferam todas as cafasj & derrubarão muy- 
tos 5 & grandes edificios. Sobrevieram depois três inun- 
dações geraes caufadas das agoas decidas dos montes > que 
nam íbmentc alagarão os campos; mas também com fuás 
arrebatadas corrétcs arrancarão 5 & levàraó comfigo a no- 
vidade jà quafi madura para a colheita. O mar também fe 
cmbraveceo com fuás horrendas tempeíiadçs,na^quae3 




171 BREVES NOTICIAS DO 

pareceram íetenta embarcações grandes 5 que levavaó os 
rendimentos para a Corte : èc fincoenta barcos de merca- 
dores 5 que hiáo fazer feus contratos nas províncias meri- 
dionaesj foram também todos a pique. 

De todas eftas perdas, com as quaes a divina Juíliça caf- 
tigava aquelles Idolatras , para que experimentando aJgú 
rigorjõc mendaíTem feus errosjôc conheceffem , & fervif- 
fcm ao Creador de todas as coufas ; fc ferviraó os inimigos 
de Chriílojparà calumniáfeni os Chrifl:áos:publicando5& 
apregoandojcomo todos eíles males acontecidos eraó avi- 
fos 3 com os quaes os deofes do Reyno daváo a entender a 
irajque tinhaó cócebido;por verem entrodufida , & guar- 
dada huma nova ley de gente eftrangeira : & que fc logo 
naó fe prohibiíre5& defareigaíTe; íem duvida pereceria to- 
do o Reyno. 

Deraó muyto que temer eílas amcaças^que os Bonzos> 
como mais encarniçados no ódio aos Chriãos ? hiáo com 
particular cuidado repetindo como revelações tidas dos 
deofes. Para fe moítrarem ; pois empenhados 5 & obriga- 
dos a tratarem do bem publico,deraó parte a ElRey aílun 
dos prefentes infortúnios 5 como també das muytas Igre* 
jas,que os Chriítãos tinhaõ levantadosôc da multidão que 
profefíàvà jà claraméte a ley dos Portuguezes ; única cau- 
fajpela qual os deofes fe moftravão tão irados cõtra o Rey- 
no todo. ElRey5Como cftava tão magoado de tantâs cala- 
midadesjcomeçou a ter mayor afco à Religião Chriftã;pQ- 
rèm como prudéte não Ic arrojou a prohibila ? nem a per-»» 
feguir logo aos Chriftãos. • '" • » 

Reparando os Neófitos na liià vontade, que os gentios 
lhes tinhãoj como a peíloas ) por cuja culpa tiveraõ tantas 
perdasj&padeciâo tantas miíerias:fe hiaó encomendando 
com mayor fervor a Deos: & fe preparavam a padecer pe- 
la guarda de fua fanta ley. PaíTado pouco tempo prende- 
rão a vinte Chriftãos da Aldeã de Bolieu 5 & os levâraõ to- 
dos ao Secretario de Eftadojpor faberem?quam contrario, 

6cini- 



REYNO DA COCHINCHINA. 172 

5c inimigo era da ley dos Portuguezes. Folgou muyto o 
Ímpio miniítro mais de luciter 5 que delReyjda boa occa" 
fiaójque tinha , para fazer tornar ao gétilifmo aquelles re- 
generados em Chriílo : & para alcançar mais facilmente a 
vid:oria?fe moítrou grandemente irado, reprehendendo- 
os primcyro com a contumazes às ordens reaes ; & depois 
ameaçando-os com grandesjôc muy cruéis tormétosidilFe 
finalmentejquc morreriam alenceados. Cuidava o Man* 
darim tyrannojque muyto menos diílo baftaria? para me- 
ter medo a homês do campojôc os obrigar alargarem nam 
fò a ley eftrangeira dos Portuguezes ; mas também outra 
qualquer Religião. Mas os generofos foldados deChn^ 
to das mefmas ameaças cobraram animojesforçando-o c6 
a efperança de receberem tãto mayores prémios no Ceo, 
quanto mayores foílem as penas padecidas na terra pela 
guarda da divina ley. Pelo que não fomente não prome- 
teram deixar de fer Chrifl:ãos;mas proteílaram quercrera 
levar antes todos os tormétosjôc padecer a morte por mais 
horrivel que foíTejque deixarem de !confeíIar , & guardar 
a ley do Creador de todas as couíasj eníinada pelos Padres 
Portuguezes. Pafmou a húa tal conftancia o Mandarim 
Secretario:& vendo-os tão refolutos a darem a vida 5 qual 
clle naó podia tirar5por nam ter fahido tal ordem delRey; 
Icvantou-fe raivofo como cão danado;foy entrando pelos 
apofentos interiores,para diílímular ag cores^que a vergo- 
nha lhe hia pondo no roftoiôc para fenaó dar por vencido, 
mandou-os hir cm mà hora para fuás cafas ? dizendo ; quo 
era gente rudcjmal enfinadajôc louca. 
' Muyto mayor5& por ventura milagrofa fcy a conftan- 
cia de hum Pedro na Província de Dinh cat: o qual prezo 
pelos de fuaAldeajpor fer Chrifiãojeftevc três dias intei* 
ros apertadamente amarrado. Mas nem por ííTo aíFroxou 
nada fua firmeza na fè;antcs difia a todos? como era Chrif- 
tão: & Chriftão queria morrer. Vedo pois feus patrícios» 
fcytos jà feus inimigos>como o rigor daquellas cordas j có 

y iij as 



173 BREVES NOTICIAS DO 

as quaes o tiveram prezojnam fora baílante para o levar ao 
paganifmo:uíâram da traça da brandura , convidãdo-o pa- 
ra húa fefta,que toda a Aldeã faíia aos deofes tutelares 5 6c 
nella havia banquete comum a todos, no qual fe comiam 
as carnes oíFerecidas aos ídolos. Negoufe Pedrodehira 
tal feílâ5& de comer de taes iguariasjdizendo: que fe efpã- 
tava m uy to de os ver tão cegos de rafaó ; pois queriaó fet 
tejar aos may ores inimigos? que tinhaó noíFas almas, Ôc 
noíFos corpos: & fe atreviaó a comer, do que ficava profa- 
nado5& abominavel;por fer coufa dada jà aos cfpiritus , q 
moravam na profundajêc afquerofa cafa do inferno, chea 
toda de fogojfumojôc enxofre. Nem cuidaíFem ferem os 
deofes daquella Aldeã outros que demónios ; porque fo- 
mente hum era o Deos5& Senhor de todas as coufas:affim 
como hum era ElReyjôc Senhor de todo hum Reyno. E 
que pois o medo os movia a feftejarem aos demoniosjpara 
que não fizeííem mal à Aldeã 3 como feus livros lho enfi- 
navam: a rafam pediajque temeíTem mais a Deos Creador 
dos mefmos efpiritus;porque os podia livrar dellesjêc pro 
metia também fazer bcns5& grandes bensjaos que o ama- 
íenijÔc reverenciaílem. Nam quizerão ouvir mais rafóes 
aquelles rudes Aldeões : & empenhados jà em quererem, 
que Pedro fizeíTe^o que todos fafiaó: o forão arraítãdo por 
força até o lugar da feíla. Acabadas as fuperíiiciofas cere- 
monias de oíFerecerem as iguarias aos deofes: os Ancioens 
da Aldca mandarão a Pedro que comeíTc também ellc da- 
quellas carnes;pois era natural do mcímo lugar. Refpon- 
deo Pedrojque nunca tal faria, ainda que lhe cuílaíle húa> 
& muytas vidas. Foy tal a raiva,que contra clle concebe- 
rão aquelles brutos, que arrcmeçando-fc a cllc como aílà- 
nhados leoensjO botaram no cham : & mandaram vir hús 
ferros? para com clles lhe abrirem a bocca por força. Mas, 
[ ou poder do Altiílimo por quem chamou Pedro em fcu 
foccorro ] nem todas as forças de todos aquelles homens 
robuílosjnem todos 05 inllrumentos , de que ufaram , fo- 
rão 



REYNO DA COCHINCHINA. 174 

râo baftãtes para lhe abrirem a boccajcomo fe fora de húa 
cftatua de pedrajou de bronze. Ray vofos mordíaó as niáos 
por ferem fracas,& os ferros por íereminuteis,para o que 
pretendiaó fazer:&: dcfefperandojpoderJhc meter a carne 
na bocca5ajuntaram-fe em confelho : no qual determine- 
ram de gradar a Pedro de fua Aldeã, fem poder pòr mais o 
pè nella: & intimada a fentença o foltaram. Levantou-fe 
viâoriofo o conlí:ante,& íiel fervo de Chrií]:o:& có gran- 
de alegria fahio logo de fua terra 5 de feus parentes , & de 
fua cafa: fabendo bem como defta maneira fe hia encami- 
nhando mais brevemente para a verdadeira terra de pro- 
miíTam. 

OmefmocaíHgo levou outro Chriftáo por nome Fe- 
lippe;porèm digno de tanto mayor louvorjôc efriniaçara» 
quanto mais relevantes foram as circuníi:anciaS)& menos 
apertada a obrigaçam de o padecer. Era Felippe fidalgo 
de fangucjôc moço de idade de dezafeis annos: íeu Pay era 
gentiojôc Capitão de ínfantariajfem cuja licença tinha re- 
cebido o fanto BautifmOjindufido do bom exemplo, que 
os Chriftáos da vão em todas fuás acções. Logo que o Pay 
teve diflb noticias:fcnti-o grandemente;por le temcrjque 
lho dariam a elle em culpajôc perderia a graça de feu Rey, 
Porém nam featreveoamandaraofilho, deixaífeaReíi- 
giam Chriftãjpelo conhecer muy prudente , & confiante 
cm fcguirjO que era honeílo , & conforme à toda a rafam. 
Pelo que determinou cafalocomhúa donzella de fua ca* 
lidade,& ricajmas gentia: cfpcrando? que a mulher com o 
amor alcáçaria do feu efpofo>o que o Pay com o rigor naó 
efperava do feu filho. O qual fabendo da determinaçam 
do Pay: & fofpeytando o fimjque pretendia:defcnganouo 
dizendo : que ainda que muy tos Chriítãos tomaífem mu- 
lheres gentias;elle porém, havendo de cafar o nam faria fe 
naó com Chriftã. Embravecco-fe o Pay? vendo deícuber- 
tos feus enganos,ôc perdidas íuas efperanças : & comei ou 
a tratar mal de palavras ao filho: ameçando-o 5 que o havia 

Y iíij de 



175 BREVES NOTICIAS DO 

de obrigar por força alargar a ley dos Portuguezcs. A tu- 
do iilo rcípondia Felippe com o devido rerpeyt05& gran- 
de maoíidaò dizcdo : que lhe poderia como a filho dar to- 
do o cailig05& também tirarlhe a vidajque Ih^ dera , nam 
porém fazer^que feu coração deixaílé de crerjôc adorar ao 
Creador de codas as couías;como híúo^dc o enfmavam os 
PortLiguezes. Com eílas repoílas foy acometido de diver- 
fos5& muy contrários affeclos o deíconíolado Mádarim; 
porque o am.or de Pay lhe impedia , executar no filho , o 
rigor dos tormétos, porém o temor de perder a graça dei- 
Reyoconíirangia aíazer nelle publicas demonílraçóes 
deciiftig03& de vingança. Entre os cruéis aíTaltosjqueef- 
tas encontradas paixoens hiáo dando ao coraçam do triíte 
Pay; avançouíe o amor da própria conveniência , & fez q 
ameíaílé ao filho com o querer desherdar,^: botar fora de 
íua câía,íe não tornava para a ley de feu Pay^Sc de feus an- 
teparados. Aífim lho diíTe a Felippe com muyta ira ? & 
reioiuçam ; ôc com ifl:o teve por alcançada a viótoria ; por 
ter a experiência enfmado : como mais poderofo era hoje 
nos filhos o defejo de poíluirem os bens paternos5queob- 
fcquiofo o reípeyto devido a feus Pays: & mais obravão,o- 
brigadoG do temor de perderem a herança , que movidos 
do amor de agradarê,a quem eráo devedores da vida. Mas 
refpondeo logo Felippe com muyto mayor refoluçaó di- 
zendo: Antes quero ficar fora de minha cafajôc fem bens 
algús da terra; c|ue fecharfemea porta do Ceo5& ficar ex- 
cluido da eterna bemaventurança. A eíf as palavras cn-i 
louqueceo de furor o obífinado Pay : & induíido do ódio, 
não fomente lançou foradefua caía ao filho;mas também 
por efcrítura publica o privou de toda a herança , por lhe 
ler muy dcfobedientCjÔc contumaz. Sahio logo Felippe 
da cafa de feu Pay, & tão alegre no rofto como le fora cha- 
mado a tomar poflé de hum Reyno. Dos que eífavão prc- 
fentes não houve, quem fc não admiraíTe de tão grande 
conftancia em hú moço de dczaíeis^nnos , & de tão poa-^ 

ca 



REYNODA COCHINCHINA. 176 

ca afFeicáo às riquezas em hú fidalgo de íua calidade. To- 
dos choravão: os gentios de compaíxáojvendò-o tão abor- 
recido do Pay5que o geràra:os Chriílâos porém de alegria; 
porque o vião tão querido de Chriílo5queoregeneràra,&: 
quanto menos poíluiíTe por íua cauía neíle mundojtanto 
mayores feriam os thefouros, que fe lhe dariam no outro. 
Sò o defefperado Pay bramia de ray va: &: cego da payxam 
perdeo de vifta ao filho. O qual i:oy andando com grande 
confiança em Deosjque também lhe feria Pay na terra; 
pois por feu amor tinha largado jàíO que nella tinha. 

Para que triunfe mais a fortalezajque Deos com m úni- 
ca a eftas almas Chriílãs: acrecentarei fò , o que aconteceo 
a huma mulher : & ficará tãto mais conhecido o poder di- 
vino,quanto mais he fabida a fraqueza do fogeyto huma- 
no. A m ulher do Mandarim da Aldeã de Cangoí recebeo 
o bautifmo com nome de Ifabel ? nam fò com licença de 
feu maridojmas também com promefi^a defte 5 de fe fazer 
Chriílaó depois de alguns dias.Tratou logo a boa Neófita 
de reformar feus coftumes 5 fazendo huma vida fanta : era 
muy diligente na guarda da divina ley: muy devota nos 
exercicios de piedade : muy cuidadofa no governo da fa- 
milia: & m uy obediente a feu marido. A mudança da vi- 
da da mulher bailava para converterão maridoja quem de 
tempo em tempo hia Ifabel alembrãdo a palavra dada 5 de 
fe fazer Chriftão. Masjou foíTe pelos ruins coftumesjque 
tinha:ou pelos medos,que lhe metia o demónio , de o po- 
derem accufar feus inimigosj&i perder depois a honra , ôc 
proveyto do Mandarinado : naó fomente não recebeo o 
bautifmo;mas quiz ainda,q a mulher não guardaíTe mais a 
Ley de Deos,6< tornaífe ao culto de feus deofes. Sêtio por 
extremo Ilabel a inconíhncia do Mandarim feu efpofo: 
& chorou pelo ver tão perdido,quando cuidava 5 que o ti- 
nha jã ganhado. Em lugar pois de repofta começou a fer- 
vorofa Neófita a lhe praticar da brevidade dcfta vida,& da 
eternidade da outrajna qual havia eternos gozos para os q 

Z adorai- 



177 BREVES NOTICIAS DO 

adoraílem:& íervificm a Dcos Creador de todas as coufas; 
& também eternas penas para os que o não revcrenceaf- 
femjnemlheobedeíTem. Equemontaváo pouco, todas 
as hoíiras,riquezas;& regalos; viíto fe perder , deixar 5 &a- 
cabar tudo com a vida. Que reparaíe na pureza da ley de 
Chriílo 5 & quão ajuftada ella era com toda a rafaó. Man- 
dou o Mandarim cal lar a mulher^dizédolhe: que foíTe, ou 
nam foíle bea a ley de feus Pays, & de todo o Reyno 5 ella 
aguafdaílc: & a ley que tinha recebido de novo, a deixaííc 




tormentos. Aquy tomou mayor alento Ifabel,&: có gran- 
de animo refpondeo: Senhor, como efpofa vos devo todo 
o amor,reípey tojôc obediencia;pois íois meu marido;maá 
Como Chriílã devo toda a alma a meu Creador. Recebi eu 
a ley do Senhor do Ceo , por eu alcançar , fer ella o verda- 
deiro5& único caminho para eterna bemaventurãça.Pelo 
que tanto menos eítimo os bens da terra , & tanto menos 
temo os tormentos deíla vida ; quanto mais horriveis fam 
as penas do inferno , & quanto mayores fam os gozos do 
Ceõ. Aquy eílou Senhor,executai embora o rigor do vof- 
fo poder;pois confio em DeoSjque me creou, & remio,de 
deixar antes a vida,do que a fè. Foy tanto o furor,que cò 
repoíla tam confiante concebeoo Mandarim5que mádou 
vir logobrafas acefas, para a queimar vivajpor partes , & a 
fogo lento. Deu ordem, q começafsé de hú pè,ficando as 
braías algú tãto afaftadas ; para q quanto mais létamente a 
queimàlséjtâto mais prologada pena lhe dcfsé. Né efpe- 
rou a honeftajôc varonil Matrona,q outrem lhe puxafíc o 
pèjmas ella mefma o eílendeo com grande compoftura,& 
generofidade. Em quanto pois feus criados fcytos verdu- 
gos hiaó difpódo5Ôc aíToprãdo aquelle fogoihia ella pedin- 
do a Deos foccorro para aquelle cóbate , a que íe oíFerccia 
para credito de fua íãtâ ley, & gloria de feu divino Nome. 
Blafonava o marido trocado em tyranno contra a mulher 

pade- 



REYNO DA COCHINCHINA. 178 

padecente: & fe prometia a vi(3:oria;porquc cuidava , que 
a aòlívidade do togo abrandaria a fua conílaiicia. Come- 
çando pois a fe ícntir o cheiro daqueila carne 5 que fe hía 
aílandojpoz o Mandarim os olhos na mulherjpara reparar 
nas acçóesjcom as quaes defcubriria o tormento , que hia 
padecendo : & efperava ouvir logo grandes gemidos com 
grandes rogos de perdam , ScpromeíTas? de lhe obedecer 
em tudo como a feu marido ? & Senhor. Mas com grande 
aílbmbro feu viojque Ifabel ficava muy foccegada , como 
fe eftiveíTe com os pès fobre flores : & com rofto muy fe- 
reno 5 & devoto hia fuavemcnte rezando as orações dos 
Chriílãos. Bramio o cruel tyrannojpor fe ver vencido:& 
em lugar de abrir os olhos às luzes daquellas brafas , para 
conhecer o divino poder5que affiftia à fua mulher;tomou 
fò daquelle fogo o calorjpara accender mais a fua ira : com 
a qual lançando mão de huma groíTa corda , começou a a* 
coutar com grande fúria a innocente Ifabel, que neíle fe- 
gundo aílalto ficou também com a viftoria? levando com 
grande conftancia os açoutessÔc dando graças a Deos pelo 
mimojque lhe mandava por meyo de feu marido. O qual 
reparandojcomo naó podia render a fortaleza da mulher, 
defefperado arremeçou a cordajôc lhe diíle,que guardaíTe 
aley,quequizeíle. 

Ficava m uy acreditada a divina ley com eftes íuccefibs, 
nos quaes moílravaó os Chriftãos tanta firmeza na fè. E 
foy Deos fervido confirmala com outros admiráveis ca- 
fos , tanto mais poderofos para perfuadirem a verdade da 
Religião Chriíf ájquanto menos dependentes da vontade, 
6c da operaçam humana. 

Dous peícadores : hum gentio , & outro Chriílaó por 
nome Thomèjforam à pefcaria das lixas, de cujas pellcs fc 
fervem os Japóes para os punhos de fuás catanas. Chega- 
dos â paragem,onde havia muyto defte pefcadojdiíleo gê- 
tio a Thomè: como elle tinha feyto muytos facrificios aos 
Ídolos pedindolhes o bom fucceíTo. Pelo que corria por 

Zij fu2i 



179 BREVES NOTICIAS DO 

íua conta o pi inieyro dia: & ofn.íia aíiimjpara queThomè 
viílèsquam agradecidos íe moílrariam os deofes âs íiias of- ' 
íertas. Calloufe Thomè5naó porque cíperaíle, o que o gé- 
tio fe pronietia;pois naô ignorava?q os ídolos naó tinham 
máos para darem: allim como íabia, que tinhaó ouvidos 
lem ouvirem;mas para depois o defenganar, logo que vif- 
fe a falta do que elle efperava. Amanhecendo o diajcome- 
çou logo o Idolatra alcançar as redes 5 dizendo a Thomè: 
fizeíle lugar para o muyto peyxe,quc tomaria ( tam certo 
efeva das mercês dos feusIdolos)mas recolhendo a feu té* 
po as redes? naó achou peyxe algum. Turbouíe o gentio, 
& tornou a lançar outra vez as redes: & neíks lanços gaf- 
toutodo o diafem nellaslhecahir nem hum fò peyxe. 
Cançado do trabalho , & enfadado por lhe ter fahido bal- 
dadojcomeçou a fe queixar dos deofes5chamandolhes mil 
nomesjde dcíagradccidcsjde fracosj&de embufteiros.To- 
mou entam Thomè a maó, & diíTelhe: Eis aqui 5 meu có- 
pan heirosporque eu larguei a ley dos pagodes;pois50u naó 
íaójfenaó eíhtuasjque nem vem ? nem ouvem: ou faó de- 
monioSíque fò trataó de nos fazerem todos os males.Naò 
heafiim a ley dos Chriílâos; porque adoram ao Creador 
do Geo da terra,do mar5& de todas as coufas : & todas lhe 
obedecem como a feu próprio Senhor. E para que veja- 
es com eíleyto o que vos dig05deixai à minha conta a peí- 
caria de à manhã. Ao outro dia lançou Thomè as mefmas 
redes na mefma paragem :& depois de rezar hum Padre 
noíTo? & húa Ave Maria, borrifou o mar 5 & as redes com 
agoa bêtajque trouxe de fua cafa; porque coftumaó muy- 
tos Chriftãos levar agoa benta,quando vão para longe, & 
fe detém alli por algum tempo. Acudio logo Deos com 
fuás maravilhofas obras a abonar a fé , & piedade do bom 
Chriíláojque recolheo duzentas & fetenta lixas; pcfcaria 
n unca jà mais viíta em tanta abundância. Pafmou o gen- 
tio feu companheiro:^: ficàraó aíTombrados os outros Pa- 
góes que peícavam em outros barcos:&: curiofos pergun- 
taram 



REYNO DA COCHINCHINA. i8o 

taram pela nova tra^a de pefcar;pois tinha fahido tão pro- 
veítoía. Contou entam o gentíojconio Thomè tinha re- 
zado nam íabia elle que oraçócs5& borrifado as redes5& o 
mar com certa agoa chamada benta. Pediram logo todos 
daquella agoa 5 cuidando que foíFe como iíca , á qual com 
gofto vinhaó acudindo os peyxes. Mas Thomê lhes diíle: 
lrmãos5& companheiroSjDeosjque creou o homem, cre- 
ou também para íeu fuílcntOjÔc regalo as aves do Ceo 5 os 
anímaes da terra ? & os peyxes do mar. E quem bufca al- 
gumas deftas couías , deveas pedir ao dono 5 que he Deos; 
pois as creoUíôc coníerva no meímo fer;& não aos ídolos, 
que 5 ou foram homens como nos ? & jâ nada podem dar: 
ou fam efpiritus do inferno,que fò nos fazem males. Por 
iílo rezei eu aquellas oraçóesjpara com ellas pedir ao Cre- 
ador de todas as couías? me deíle peyxes para meu fuften- 
t05& de minha familia: & lacei aquella agoa, que tem vir- 
tude do Ceojpara aíFugentar aos demónios; para que elles 
não impediíTem a pefcaria. Nem cuideis, que a reza , & a 
agoa bailam para alcançar , o que pedimos ; he neceííario 
também crer , & a dorar ao Creador , que no lo pode dar. 
Pois nam merece a mercèjquem nam revercnceaja quem 
lha pode fazer. Callaraó-fe admirados todos aquelles Ido- 
Iàtras>por ouvirem doutrinas tam reconditas,nam claras, 
ôc nunca eníinadas pelos feus Bonzos. Mas tornados pa- 
ra fuás cafas contavam com grande efpanto o maravilho^ 
do fucccíTo da pefcaria de Thomè : & o que efte lhes enii» 
nàra. 

. JMaó foy de menor gloria de Deos nem de menor cre- 
dito de íua fanta ley , o que obrou a muyta fè , & grande 
charidade de huma mulher chamada Magdalena Chriftâ 
de pouco tempo. Hindo pois da fua para outra Aldeajcn^ 
controu no caminho húa multidão de gente 5 que eftava 
em rodajôc naó fabia o que alli havia. Chegou-fe Magda- 
Itnz para ver o que era;éc achou a hum homem eftendido 
no chão fem falayôc com as agonias da morte: ou fofle por 
c Ziij algum 



i8i BREVES NOTICIAS DO 

algum acciclente : ou por mordídura de algum bicho pe- 
çonhento. Todaaquella multidão olhava para aquelle 
raiíeravel ? & ninguém lhe acudia por caufa de hum abu- 
fo mais que bárbaro , & mais fero que as mefmas feras ; 6c 
he o feguinte. Algíías pefibas, ou por naó terem que gaí^ 
tardou por naó poderem miais aturar as m.oleftias do do- 
ente: o levam de noyte para algum lugar publico: & ahi o 
deixaó ao deíemparo3&: à vêtura de que haja alguém, que 
movido da compaixão o levante do chaó, ou lhe dè algúa 
meíinha. Se o doente viveo: fica o charitativo com o lou- 
vor da boa obra que fez. Porém fe morreo:entaó aparece 
os parentes do defunto,& accufaó de matador, a q uem a- 
cudio ao defemparado. Acaba-fe final mete todo eíle plei- 
tOíCom o mifericordiofo pagar certa quantia de dinheiro 
aos cruéis parentes do falecido. Por eíèa rafaó naó hajquê 
íoccorra a eftes doentes engeitados. Na verdade fô o de- 
moniojmortal inimigo naó menos dos corpos que das al- 
mas dos homens 5 podia introdufir coílume tam alheo de 
toda â humanidade. Porém a charidade dos Chriftáos não 
deixa de lhes acudir occultamentCjquando , & como po- 
de;naó fomente para a faude dos corpos,mas mu^^to mais 
para a falvaçaó das almas, iníl:ruindo-os5& bautizando-os. 
Aííim muytas deífas peffoas morrem com a graça bautif- 
malja qual por ventura naó alcançariaó, fe acabaílèm a vi- 
da em cafa de feus parentes. Vedo pois Magdalena como 
aquelle homem morriajpor naó haver,quem lhe quizeííe 
valer:6c fe perdia aquella alma por naó ufar jà o corpo dos 
fentidos;chorando de compaixão, & abrazada de charida- 
de grita, que lhe dé lugar para ella entrar, &c acudir aquel- 
le moribundo. Viraó todososcircunftantesorofto para 
Magdalena: & pafmanijpor haverem tam atrevida. Com 
tudo entra ellaíchega-feao agonizante, & falalhe. Mas re- 
parando como naó ouvia : vai bufcar húa chicara deagoa, 
& pondo dentro da agoa húa verónica que tinha, reza , & 
pede a Deosjacuda àquclla alma: Depois dillo com genc- 

rofo 



REYNO DA COCHINCHINA. 182 

rofo defprezo de quantos males lhe poderiáo vir a ellaj vai 
batando daquella agoa na bocca do moribundo. Cafo pro- 
digiofo: bebco com a agoa a vida , & logo fe poz em pé vi ■ 
VO5&: valete! AíTombroueftefucceíIbatodaaquelJa mul- 
tidão de Iníieisjque atónitos olhavão huns para os outros, 
lem acabarem de crer, o que vião. Certiíicados depois da 
laude repentinajderaó as graças à Magdalena bem feitora, 
& os parabéns ao quaíi reíufcitado : éc continuando cada 
hum fua viagê , hiâo todos admirados do poder da ley dos 
Chriftãos: &í perluadidos de ella fer a verdadeira Religião. 

Muy to mais frequentemente aconteciao na Corte ef- 
tas curas maravilhofas fey tas por dous cafados Chrill: aos 
muy fervorofos: & tão charitativosjquc de fua cafa tinhão 
feyto publico hofpitahaonde acudião muytos gentios pe- 
la virtude 5 que alíim o marido como a mulher tinhão de 
dar faude aos doentes. Nem fò eíte dom lhes tinha dado 
Deos;mas também o poder para lançar fora dos corpos os 
cfpiritus ínfernaes. Com citas mercês Iheshia Deos pa- 
gando as charidadcsjque fafiãoaos enfermos : èc com eftes 
íinaes fe confirmava , fer verdadeira a fé deites Chriftãos, 
& fe perfuadia a todos aquelles Idolatras. 

Por remate deite Capitulo fe porá hum cafo raro para 
mayor confufam do demoniojque fe tinha acaítellado na 
cafajôc alma de húa Princeza. Faleceo em húa prizão o tio 
delRey, de quem atraz fe talou , por fofpeytas de traição; 
polto que muytos o deíTem por innocente. Mas affim co- 
mo poder fazer o mal , & não o fazer , he no Ceo mereci- 
mento declarado ; aííimpelo contrario na terra não pou- 
cas vezes fô o poder fazer mal^poíto que nunca fe faça , fe 
tem por crime jà provado. Ficoulhc a eílc Principe a mu- 
lher com três filhinhos. Foy porém tanta a pena, que ef- 
ta Senhora tomoujque fechada em hum apofento efcuro 
nuca fahia dclkjnem admitia ainda a feus próprios filhos, 
Poré não fe defcuidava da alma de feu efpofo , & Senhor; 
antes mandava muytas vezes aos de fua tamiliajfofíei^i 

Z iiij cor- 



i83 BREVES NOTÍCIAS DO 

correr quantos templos de Ídolos havia, & deixaíTem em 
cada hum fuás oíFertas;para que os deofes favorcceíTem ao 
Príncipe na outra vida5VÍÍ]:o ter mal logrado as felicidades 
deita. Como eíla Princeza era tão devota , & obíequioía 
aos ídolos 5 facilmente os demónios tomarão poíTe delia: 
fazendo-a tão brava5& tão furiofa, que parecia huma fera: 
tk também impedindo ? q tomaífe o comer , ôc beber ne- 
ceílario;pelo que eftava tão debilitada , que a qualquer aí- 
íoprocahíadefmayada:& deíla maneira a hião levando 
mais brevemente para o inferno. Soube do laílimofo ef. 
tado deíla Princeza húa fua Irmã Chriílá , por nome Ifa- 
bel: 6c a foy viíitar antes que lhe morreíTe. Mas a anojada, 
&maís endemoninhada logo que a viovir, começou ai 
dar horrendas vozes dizendo : Que quer comigo eífa ini- 
miga.^ Para que vem a eíta cafa? Ella já eftà occupadaj & té 
outro dono. Ficou attonita ífabel a femelhantes palavras: 
&c naó quiz entrar dentrOípara efcufar gritos, & defcredi- 
tos. Mas deu parte de todo efte íucceíTo a huma Senhora 
fua amiga por nome Marthaia qual foy de parecer, q foísê 
ambas: & ella levaria húa Imagem do Senhor , & por elle 
alcançarião viâoria contra o infernal inimigo. Forão, & 
logo q entrarão rio apoíêt05Começou a endemoninhada a 
íe enfurecerjôc a dar vozes tão medonhas ? que bem moí- 
travão quem obravajÔc falava nella. Tirou então Martha 
da Sagrada Imagem : & teodo-a na mão com império lhe 
lhe diífe : Como fois tão atrevida 5 & foberba , não deceis 
defíe eftradojôc não vindes a adorar com o rofto no chão a 
eíte Senhorja quem obfequiofos obedecem todas as crea- 
turasjproítrados reverenceáo os Anjos , & tremem cheos 
de grande pavor os efpiritus infernaes ! Forão eíhs pala- 
vras rayos de luz do Ceo que afFugentarão logo aquellcs 
■príncipes das trevas 5 & defcubrirão a miferavel Princeza 
o perigo,em que fe achava. Pelo que humilde,& banhada 
em lagrimas fe proílrou diante da Sagrada Imagem , dan- 
do a Chriílo noíFo Senhorj^c Redemptor as graças , por a 

ter 



REYNO DA COCHINCHINA. 184 

ter livrado de tão duro5cruel5Ôc infernal cativeiro. Abra- 
çou depois a fua Irmã líabel , a qual antes tanto aborrecia: 
& deu os agradecimentos a Martha ? por lhe ter acudido 
em tão grande perigo de perder o corpoj&a alma. líabel, 
& Martha a forão confolandojanimando, & exhortandoj 
a que poíeílc fuás efperanças no precioío íangue do filho 
de Deosjôc não fe temeíle mais da crueldadade dos demó- 
nios: & com efta inftrucção a deixarão defcançar. Fican- 
do pendurada no mefmo apofento a Sagrada Imagem pa- 
ra impedir os infultos ? que poderião fazer os demónios. 
Os quaes naquclla noyte forão dando repetidas queixas, 
ouvidas de muytas pelToas dizendo: Aíílm me pagão fette 
annos de companhia,& de amizade: jà não poderei ficar a 
qui. Eíhs queixas que dava o demónio , & eftes medos q 
nioítrava5ferv.ião à Princeza ■> para cobrar mais animo , &: 
para agradecer mais a feu Redemptor a liberdade , de que 
gozava : & cada vez lhe hia crecendo mais o defejo de re- 
ceber o fanto Bautifmo. Inílruida pois dos myfrerios de 
noífa fanta fé:& feyta a abjuração dos Ídolos, ou demoni- 
os,& de tudo quanto a elles pertenceífe, foy bautizada co 
o nome de Maria. Foy Deos fervido 5 que aquellas agoas 
Sacramentaes não fomente lhe alipaífem a alma de todas 
as culpasjôc peccados,mas também lhe foífem para o cor- 
po hum faudavel banho ; porque começou logo a tomar 
alento, & forças corporaes , & fe poz em eftado de valen- 
te,&:robuíla,fò chorava amargamente,por ter conhecido 
tão tarde a feu Creador,& ter gaftado tanto tempo , & fa- 
zenda no ferviço dos demónios. Foy muy feílejada dos 
fieisefta viâoria,quc a divina Icy alcançara da falfaRelí- 
gião,& dos poderes infernaes. E foy tanto mayor o efpã- 
to nos gentios, quanto mais authorizada era a peíToa con^ 
quiftada , & quanto mais evidentes erão os íinaes do me- 
lhor tratcque lhe dava o Deos dos Chriíláos, 



Aa CAPL 



i85 



BREVES NOTICIAS DO 




C A P I T L U O XV 

Trohihe El%ey aos Cochinchinas a ley dos Chri/lãos prisão delles : c^- 

quatro mortos pela confijjao da Fe. 

ONTAVAM-SE eftes prodigiofos fuc- 
ccíTos pelas ruasjpelas caías, & dentro dos 
mefmos paços com grande admiração de 
todos5& aprovaçâo,de íer boa húa tal ley> 
que enííoava couías tão ajuftadas à rafam, 
èc obrava,© que não podiaõ alcãçar as for- 
ças da natureza. Sò os Bonzos ardíaó em ódio, que lhes 
nacia naó do mao conceytojq tiveíTem da Religião Chrif- 
tã; mas da muyta falta,que hiaó fentindo cada dia mais das 
efmAoIas5que elles antes recebiaó, & das oíícrtasbque fe da- 
vaó aos íeus Pagodes. Reparando pois eomo ElRey nam 
fe refolvêra a prohibir expreíTamente aley dos Portugue- 
zes;poíl:o que elles como embaixadores dos deofes lhe ti- 
veílem ameaçado muyto mayores infortunios,òc calami- 
dades 5 fe a naó arrancafe do íeu Reyno , por fer ley nova, 
eílrangeira,& contraria à que tinhaó guardado feus Pays, 
& antepaílados : determinaram alcançar por rogos , o que 
naó podèraó com ameaças: & por medianeiros, o que naó 
confeguiraó por fuás peíloas. 

Refedia na Provincia de Cachaó húa tia dclRey: a qual 
além de fer Beata,& muy aífeiçoada aos Bonzos, tinha le- 
vátado hum templo a huns deofes, dos quaes ella era mais 
devota. Como nefta Provincia era muyto crecidoo nu- 
mero dos Chriftãos, eram também muytas as Igrejas: & 
havia duas na meíma villa , onde cita Senhora morava , & 
ficava também ahi o templo por ella edificado : ao qual a- 
cudião muy poucos freguczes , pela mayor parte dos mo- 
radores fe ter jà paífado ao culto , & ley de Deos verdadei- 
ro. Deíla Senhora fe valeram os Bonzosjpara alcançarem 

o da- 



REYNO DA COCHINCHINA. i86 

o danado íim5que pretendiam : enformandoa?como a ley 
dos Portuguezes permitida no Reyno hia fendo caufe da 
total ruina de todos os naturaes. Nem poderá fer menos 
(difiaó) pois os templos dos deofes padroeiros deílas ter* 
ras nam Iam viíitados: faltam oíFertas •> & facriíicios , com 
osquaesfuasjuftas iras feaplacão: fam defprezados feus 
tremêdos nomes , & maltratadas fuás facrofantas Imagês; 
& para mayor afronta tem levantado os Chriftãos Igrejas 
ao Deos dos Portuguezes tão contrario , & por iíFo gran- 
demente aborrecido dos noííos deofes : & largando o cul- 
to devido a eftes que faó os naturaesjadorão a hu eílranho? 
& não conhecido. Na verdade eípãtofa , & não coíluma- 
da ha fido a paciência , cj^ que os noífos tremendos deofes 
usàraó atégora có efte Reyno. Mas fe o anno paíTado,para 
moftraremfeujuílo furor nos açoutarão fò com aponta 
de hum dedo 5 & com tudo nos cuftou tanta dor? &;tam 
grande pena com aquelles multiplicados Tufocns , ôc re- 
petidas perdas: no mar dos navios , & na terra das novida- 
des de tal fortCjque ainda chorão as mulheres a feus ma ri- 
dos, & filhos a feus PaysjÔc todo efte Reyno a perda de fu- 
ás fazendas. Que fcràjque fera Senhora ? quando nos caC- 
tigarem com todos os dedosjôc com ambas as mãos ! Nam 
duvidamoSíque cahirà o Ceojpara nos matar : & abrírfeha 
a terra para foverter a todo efte Reynojpor fe não ter emê- 
dado. A eftas palavras tremco de medo aquella Senhora; 
6c para confolar a feus Bonzos , & para ella fe livrar deftes 
tão horrendos caftigos ameaçados? lhes prometeo de talar 
niífoaElRey, a quem iria viíitar dentro de poucos dias. 
Em quanto pois o demónio íe hia armando contra a ley 
de Deos por via deftaSen hora; não fe defcuidavajde hir tã- 
bem folicitandojôc atiçando o ódio do Secretario de Efta- 
do cótra os Chriftãos. Por eftas inftigaçócs feytas a ElRey 
por hum miniftro publico , & por húa parenta tão chega- 
da:& tanto menos fofpeytofas de engano , quãto mais pa- 
recião proveitofas â confervaçam do Reyno , fe refolveo 

Aa ij finai- 



i 



187 BREVES NOTICIAS DO 

finalmente EIRey a paíFar decreto , pelo qual prphibia a 
léus vaíTallos a ley dos Portuguezes. 

Publicou feeíía prchibiçani real na Corte de Cacham § 
aos dous de Abril defte anno de mil & íeiícétos & íeíTenta 
&tres: & logo ledeipediraó íoldadoSípara prenderem aos 
Chriítáos que achaílem: para recolherem as ímagêsjêc or- 
namentos íagrados,que viííem: & para deíh uirem quãtas 
Igrejas ouveíle. Grande foy a pcrturbaçam ? com que fe 
acharam os Neófitos: & mayor foy a crueldade , que exe- 
cutarão os miniítros. Aquellesjpor naó faberem , fe acu- 
deriaóprimeyro a efconder as Imagés de fuás cafas?ou das 
Igrejasjpara que naó foíTem afFrontadas,& queimadas.Ef- 
tes pelo defatino com que bufcavaó as coufas fagradas , ôc 
prendiaó Chriílãos5& peílbas muy authorizadas : desfize- 
raó os Alraresjdeílruiraó as Igrejas de Faito, & de Cachaó: 
& levàraó quanto acharam de ornamentosj&de Imagens 
Sagradas. Paliados três dias foraó levados os prezos dian- 
te dos Mandarins do governo: os quaes vendo todaaquel- 
la multidão que com roftos tam ferenos efperavam todos 
a ientença de morte;pafmàram da novidade , & determi- 
narão executar o rigor fò com alguns de mayor calidade, 
para que os outros de menor conta cobraílem medo ,& 
Jargafiem a Fè. Perguntaram logo em primeyro lugar a 
hum chamado Joaó Ketlam. Quem era5& que officio ti- 
nha. Refpondeo Joaó com feu acoltumado foccegojôc 
brandura. Que era hum velho de fetenta & três an nos 
de idade,era Meftre de efcolaj&Chriftão deProfifiaó.Naó 
lhe diíleraó nada mais os Mandarins;mas deraó ordem aos 
foldadosjO tiraílèm de alli, & o levaílem para outro lugar. 
Perguntaram depois a ThomasNhum. Porque levanta- 
ra eíle huma igreja contra as ordés reaes fobpena de mor- 
te. Refpondeo Thomas muyto Senhor de fy,& dilTe: Se- 
nhores 5 tive eu os annos paliados húa doença tam malig- 
nasque todos defefperavam de minha vida. Achando-mc 
pois em tal eftadojfiz voto ao Creador? & Senhor do Ceo, 

da 



REYNO DA COCHINCHINA. i88 

da terra^ôc de todas as coufas, que fe me deíle viád. , & fau- 
de,l Jie levantaria humacaía 5 era que foíTe adorado. Tive 
vida,&: larei ; pelo que fuy obrigado a cumprir com o que 
tinha prometido. Callàraó os Mandarins, & fô íizeraó a- 
ceno aos íoldados,para o levarem aonde eftava o Joaó Ke- 
tlam. No terceiro lugar foy perguntado Aleyxo fe era 
Chriílaó. Refpondeo com animo varonil. Qiie fora bau- 
tizado oito dias depois de nacer. Mandaram ajuntar tam- 
bém eíte aos dous,& que lançaíTem canga a todos três. Ef- 
peravaó os mais Chriíláos , que também elles receberiaó a 
mefma mercê. Mas os Mandarins depois de lhes teré da- 
do muy afperas reprehençòesjpor naó obedecerem às or- 
densscom as quaes ElRey naó íò prohibia,mas ainda ame- 
açava com amorteaquemguardaííealeydos Fortugue- 
zes: mandaram aos foldados? que deílem ra uytos , & muy 
cruéis açoutes a cada hunijÔc depois os íoltaííem,para tor- 
narem para fuás cafas emendados. Choraram os prezos 
naó pelo caftigojque íe lhe mandava dar; mas por lhes fu- 
gir das máos a palma do martyrio. Conforraando-fe porê 
com as difpoíiçóes divinasjforaó receber com grande ale- 
gria aquella dor , & aquella affronta : rendendo graças aos 
que lhes davam açoutes : efp^randoque deftes paílariani 
algum dia a darem a vida por feu R^edemptor , que depois 
de açoutado 5 morreo crucificado. No coofelho? que os 
Mandarins tiveram ao dia feguintCjderaó todos fentença> 
que foííè queimado,quanto fe achara nas Igrejas, & na ca- 
fa do Padre Pomingos Fuciti. 0,qual fe tinha paííàdo de 
Faifo a Cachaó , para confolar aos prezos por Chyílo : & 
também para pedir, fe lhe reftituiííè, o que lhe tinham ía- 
crilegamente tomado. Dada pois a fentença ; entrou lo- 
go o Padre,& com toda a cortefia pedio aos Mãdarins , lhe 
mandaíTem entregar , o que era feu ; vifto ter elle licença 
delRey , para morar no porto de Faifo. Dos três Manda- 
ríns,os dous,que eram comedidos/fe moítravão algíi tan- 
to inclinados à reftituiçaó ; porém o tarceiro , que era de 

Aa iij natu- 



i89 BREVES NOTICIAS DO 

natural fero,& empenhado na díftruiçaó da Ley dcDeos, 
refiftio fortemente:&: mandou ao Padre/ahiíTe lego, 6c fe 
foíTe embora. Reparando o Padre na barbaria do inhu- 
mano fuiz: para que conheceííe lua ignorância, 6c malda- 
de, tirou a capa 5 que traíia , & tendo-a nas mãos lhe difíc, 
Tome9&: queime também efta;pois he também coula mi- 
nha. Entaó hum filho do Governador diíie em voz alta: 
O Padre naó fabe,que nos o podemos também queimar? 
Refpondeo5& pedio logo o Padre , que lhe alcançaíTc elle 
eíla mercê , de fer queimado pela fanta ky : Ôc lha pagaria 
com muyto dinheiro. Envergonhados os dous Manda- 
rins do trato deícortez de feu companheirojôc admirados 
do animo do Padre, mandarão aos íbldados, lhe entregaf- 
fem logo 5 quanto pertencia ao Altar , que o Padre tinha 
em íua caía. Mordia os beiços de raiva ó outro: & porque 
não fe podia vingar do Padre, mandou efpancar a hú mp- 
ço,que o acompanhava , ôc o ajudava em arrecadar aquel- 
las couías fagradas. 

Correrão logo as novas defta prizaó por toda aquella 
Provi ncia : & muytos deíejofos de padecerem por.Chrif- 
tojlargàram fuás caías,& familias? para virem con folar , 6c 
dar os parabéns aos qnje ficaram no tronco pela confiíTaó 
da fanta Fè: 6c tamberq para os acompanharem fe Deos 
lhes quizeffe fazer tão grande favor. Entre os mais veyo, 
hum velhojchamado Joaó Nguiem 5 natural de Phuong- 
tai:6c chegoujquando eftavaó queimando os ornamentos, 
livros, 6c Imagens Sagradas : aíliftindo a efta facrilega im- 
piedade Mandarins , di foldados. O mefmo foy ver Joaó 
aquelle horrendo eíptdaculo , que íe desfazer todo em 
lagrimas56c fe pòr dejoeihos , para adorar as Sagradas Ima- 
gens 5 que fe hiaó acabando em cinzas : &c porque nam as 
podia livrar do fogo , começou a rezar muytas oraçoens, 
pedindo a Deos perdoaíTe tam execrando peccado. Repa- 
raram os Mandarins no que Joaó fafia , 6c deíia : & em lu- 
gar de louvarem fua conítancia56c piedade, mandarão aos 

folda- 



REYNO DA COCHINCHINA. 190 

foldadosjO prendeílem;& o levaílem aonde eílavaó os três 
prezos: ficando todos quatro com caga ao peícoço , & en- 
tregues a hum Mandarim de armas. Naó fe paíTou a ou- 
tro caftigo;porque os três Mandarins do governo deviam 
de hir logo à Corte , para vifitarem a ElRey. Em quanto 
pois náo voltarem, nòs iremos detendo com algumas no- 
ticias deíles quatro eícolhidos para a palma do Martyrio. 

CAPITULO XVI. 

T articular es noticias dos quatro fre^s:foaoK^tlam^Thoma:2j^hum^ 

Jleyxo-)é^ foaÕ Ngmem, 

ACEO JoaóKetlam,EmThanminh5 
villa na Provincia de Quang Nghia. Seus 
Pays foraó gentios mas nobres tiveram 
cargos muy honrados occupâraó poftos 
muy altos no governo das Províncias. 
Logo quejoaócomos annos foy tendo 
capatidade pai^a as letras 5 íe deu ao eftudo delias com tan- 
to defvelo5& aplicaçam?que fendo de vinte , & finco an- 
nos de idade fe podia oppor a qualquer dignidade literá- 
ria. Era também grande poeta, & muy natural, tinha ra- 
ra prudencia,& mofirava-fe muy aíFavel có todos: os qua- 
es dons refplandeciaó muyto mais com o luttre , que lhes 
dava o fangue. Porém , como Deos o efcolhéra para ou- 
tras occupaçóes de mayor gloria de feu divino Nome , & 
mais proveitofas aos feus naturaes ; lhe tirou toda a aíFey- 
çaó às grandezas, humanas. Vivia,& fe fuftentava com o 
feu,que lhe fobejava : & gaftava o tempo em ler , 6c com- 
por livros. Era jà homem de trinta & três annos,quando 
lhe veyo às mãos hú livro compofto pelos Padres da Có- 
panhiífde y es vem letras finicas, que tratava da Religião 
Chriftá. Por fer coufa nova para elle,o leo com tanto gof 
to,ôc aplicaçaó,que conhecendo o errojcom que vivia no 

Aaiiij gen- 




191 BREVES NOTICIAS DO 

gentilifmojíe reíolveo a íe hzer Chriftão, & índuíio a fua 
mulher ? para que fizeíTe o mefmo. Forão inftruidos pe- 
io Padre Manoel Fernandes, que também os bautizou có 
os nomes de Joaó , & de Anna. Começou logo Joaó com 
a nova íey recebida a fazer nova vida: & defejolo que feus 
naturaesachaííem também o thefourojqueelle tinha def- 
cuberto: quiz acompanhar ao dito Padre nas viíitas das 
Chriftandadesjfazendo officio de Carequiíla : & com tam 
feliz fucceíTo ? que converteo grande multidão de idola- 
trasjaos quaes atrahia com fua authoridadej&comedimê- 
to,& com as letras3& rafóes os convencia de maneirajque 
fe davaó logo por rendidos. Nos tempos poisjcm que ci- 
tava defoccupadojpor não haver a quem prègaíTe; íè deti- 
nha em compor vidas de Santos em verfomuy elegante: 
para que deleitando com a doçura do bem dizer, moveíTe 
os kytores ao bem obrar. Não fe pode imaginar o grande 
credito,que por eítas poefias fagradas tem ganhado a Re- 
ligião Chriílã para com os grandes , que tem por regalo, 
ou vilf.s cantar. Atè o mefmo Rey goftou delias , louvou 
a pureza de noíía fanta ley , & ficou aíTombrado do valor 
dos Chrifcãos em fazerem façanhasjquanto mais raras ? & 
difficultofasjtantomaiseílupendasj&gloriofas. Nem fo- 
rão POUCOS5OS que de as ler,ou ouvir5fe moverão a receber 
o fanto Bautifmo : & muytos fe tornarão para o rebanho 
de Chriílo, & para a inteira guarda dos divinos preceitos; 
donde fe tinhão aíFaftado com a apoftafia, ôc com os ruins 
procedimentos. 

Porem no tempOjcm que os Padres degradados da Co- 
chinchina fe detivèraó em Macao5permitio Deosjq Joaó, 
que táo gloriofamente trabalhava na lavoura daquelle ca- 
po Evangelico;paraífe5& olhaíTe para o mudo , que jà lhe 
ficava muy to a traz : retirando-feparaavilla deKetham, 
donde fua Mãy era natural: & de alli fe paíTou depo'ís para 
a Província de Quangnhia?para correr com o contrato do 
ouro , que fe acha naquellas minas. Com eíte ouro efcu- 

receo 



REYNO DA COCHINCHINA, 192 

eícurecco Joaó o luílre de leu apoílolico zelo:& ficou tão 
nbjitida iiia virtude,qiic naó erajà venerado como dantes. 
Ivjíís n:s) dcícm parou de todo Deos a joaó : permitlo nel- 
Jc cilas faltas , para que foíTe humilde , & deita maneira íe 
difpoíbílc para receber mayores mercês : & depois de ca- 
bido íc Icvantafíe com m.iyor alento, para correr no cami- 
da perfciçaó:& aílim \h2 íuccedeo. Porq íintindo m uyto 
os Ciiriíiáos de Cachaó a falta de táo grande Catequiíi:a:&: 
reparando no eícandalo , que Joaó dava com fua vida tam 
rcmiirajdeterminaraó mandar nove dos mais exemplares 
na obfcrvancia da divina ley,para o bufcarenijôc exhorta- 
rem,a (]uc dcíxaílc aquella occupaçaó de contratador , & 
tornaíle pira o fcii oflicío de Preííador. A noyte antes dos 
nove enviados chctrarcm à villaKetlam , aonde íoaó fea- 
chava no anno de mil & feifcentos & quaréta, & oito , te« 
ve eíic hum íònho : no qual VaQ parecia ver a Virgem Se- 
nhora fora da porra de fua cafajvcftida deazul,6c muy fer- 
mofa;masqucoreprehendiadeter jà muyto tempo dei- 
xado de íc confcílar. Acordou Joaó muy conf ufo,enver- 
íi;on!iaJo^ôc temcrofo: & ouvindo depois aos nove, que o 
vinhaÕ bufcar pf ra bem de fua alma ; tevT o fucceíTo por 
pcirticular favor do Cco : &c có os mefmos Enviados veyo 
a Faifcpcdio perdão aos Padres , & aos CI")riitáos ? confcf- 
Jou-fe5& prometeo largar todo o contrato,&: fe empregar 
todo no Icrvíco de Deos , 6c fal vacaó das ai mas. Deixou 
caía 5 & í azenda : & por fe achar viuvo , fe recolheo para a 
cafa dos Padres : occupando-fe em enfmar meninos, cm 
pregar a todos os Chriítáos , & gentios , & cm compor li- 
vros. Muytos gentios o vinhaó viíitar : a huns trafia a co- 
rioíidade de verem a hum tam grande Poetaia outros mo- 
via o dczcjo de o ouvirem pregar couks tamnovasjôc tão 
conl:ormcs à rafaó , & com tão grande eloquência. Hum 
anno antes de morrerjfe paiTou para Cachaó;pe]o:> Chrií- 
tãoslhe pedirem^quizeíie cníinar os íeusíil nos, & junta- 
mente pregar: aos letrados duquclla Corte , &c trazeios.ao 

Bb CO 



Í93 BRF:VES NOTICIAS DO 

conhecimento do verdadeiro Deos; porque viíto profeí« 
farem lctras,craó obrigados ao menos a aprovarem,quan- 
to lhes moftraílc a luz da ráíaõ natural. Foy admirável a 
perfeyçaójcó quejoaó viveo neíèa Corteiabíleve-fe ainda 
€0 pouco vinho , que bebia : deu-fe muy de veras aos ofE- 
cios humildes : gaitava o tempo , que podia^na oraçaò : & 
eraóquafi continuas nelle as lembranças da Payxão do 
Senhor da qual não podia falar fem ternura de coraçam, 
&: íem lagrimas dos olhos. Para que pois também os ou- 
tros não vi veíTem efquecidos de tantas penas ? que o Re- 
deniptor do mundo padecera , compoz hun) tomo fobre 
o jejum de Chriilo no deferto: obra muy eftimada do fcus 
naturacs: & foy a ultima; porque a morte lhe não deu lu- 
gar para continuara hiíforia da Payxão; mas ojfereceolhe 
occaíiaó de imitar ao paciente jesv. Seus defejos eraóde 
tormentos,^ de mortesjpelo amor de íeu Deos: ôc todos 
feus cuidados fe defvelavão em grangearem almas ? para q 
ferviílemí&amaílematão bom Senhor. Nem asprizóes 
Jhe impedirão eíla occupaça5;pois pregou logo aos folda- 
dos5que o vigiavão : & taes forão fuás palavras , que eíles 
começarão ti venerar^^c a louvar a Ley de Deos: &c íizcraó 
tanta eilimação de f oaó, que todos os da vigia jútos íc lhe 
lançarão aos pês ? pcdindolhe , fe lembrafe dclles no Ceo: 
& lhe deráo licença, para hir às efcondidas para onde qui- 
Zeílè. A Joaò lhe defconíentou muyto a honra^que lhe fi- 
zerão;aceitou porem com grande golio a licença, cjuc lhe 
davão para hir às cafas dosChriftãos5nas quacs prcgava:ex- 
hortando com í,';rande fervor os Fieis a ferem confiantes 
na guardaíwk confiíiaó da Ley de Deos: & perí uadindo c6 
grande efficacia aos Gentios,como para a íalvaçaó de luas 
almas deviáo crer,adorar ? & fervir ao Çreador de todas as 
coulas: do qual aílim como tinháo recebido o ferjôc a vida 
t€mporal;allim fò delle podião efperar a eterna bemaven- 
turan^a. Com eíhs fortidas hia Joaó ajuntando deípojos 
de almasjtíradas ao demonio^para o dia de feu triunfo;; pe- 
lo 



REYNO DA COCHINCHINA. 194 

Io qual com tantas andas íuípirava : parecendolhe hum 
annoj cada dia que os Mandarins tardaváo a lhe trazerem 
da Corte a íen tença de mortc,por coníeííar , ôc guardar a 
Lcy de Chriíio ícu Deos5& feu Redemptor. 

Thonir.z N hum foy natural da Província de Cacham^ 
•alho de Pays gcniios3& o terceiro dos quatro íilhos , que 
tivcrão. kra de condíçáo muyto brandajUiuy compoli:o> 
riiàs em extremo medroío. Seus Pays taíiaó pouco caio de 
Thoniaz: & nuiytas vezes lhe diíiáo, que nada cfperavam 
delJe,por ier inútil. De idade de vinte 6c quatro annos íe 
caiou com huma Chriiiá,chamada Francifca;por icr mu- 
lher muy honcíla , & de bons procedimentos. Pofto que 
Franciica naò levaile c^oito de ter marido sfentio, com tu* 
do obcdcceo a íeus Pays? aos qyaes não podem cótradizer 
t^sfilhiiS nos caíamentos fegundo o coícumedo Reyno. 
Confiava porém em Deos , que o reduíiria ao Santo Bau* 
tiímo 5 como íez depois de pouco tempo. Porque tendo 
ouvido o catequiímojiè refolveo a fe fazerChriííão5&: foy 
bautizado com nome de Tliomaz. Grande foy a alegria 
de Franciica^por ter ganhado para Deos a feu marido 5 có 
o qua] foy vivendo em paz 5 éc com baftantes comodida* 
des. Ncílic tempo quiz El Rey entrar pelo Reynodos La* 
os,que ficam nas coílas da Cochinchina, 6c mandou fazer 
novas levas de ibldados: entre os quaes foy aliítado o nof* 
ío Thomaz? que largando a caí;i,& a pátria 5 foy morar cò 
íua mulher na Corte. Aborrecia Thomaz a guerra 5 aíllm 
pelo naturaljque tinhajde medrofo ; como pelo fobrcn^.- 
turaljdeiejando de le dar de todo a Deos. Por iifo ília íen> 
pre rogando aos Mandarin^ Chriítãos? lhe aicançaíllm 
dei Rey licençajpara voltar para íua aldeã: & o incTmo pe- 
dia comcontinuos rogos a Deos. Porém foy o Senhor 
fervido,que Thomaz foíle a guerra 5 para dar bom çy:cn> 
pio aos companheiros? que craó idolatras ; nam íòm<íi;'::: 
nam fedcfmandandocom asdiílolucóes cão freoiieií^ei^ 
nos íoldados ; mas ainda abílendo-fedecaiiicr canoca rtí*i 

Bb ij íli • - 



195 BREVES NOTÍCIAS DO 

dias prol" ibidos : querendo antes padecer fome 5 & paílar 
com hum pouco de arroz cofido em agoa ? que quebran- 
tar os jejuns mandados pela Santa Igreja. Ficaváo niuy 
admirados aquelles Pngaós : vendo a hum moço d(: vinte 
& féis annos de idade tão dado às abftinencias ? & tam i e- 
giftrado em íuas acçócs,& palavras;& poí]:o que pouccs o 
irnitaficra , todos poréo} louvavam a Thomaz pelos ícus 
pios 5 6c honeílos proccdim.entos. Neíla campanha adoe- 
ceo Thomaz com outros niuytos íoldados pelas ruins a- 
goas 5 de que bebião : & tornando com os mais achacados 
para a Corte, foy curado com tanto deívelo de fua muHier 
Franciíca jâ com medicinas-,já com oraçóes^que £nalmé- 
te convalccco perfeitamente. 

Como eíla alma foííe tão aceita ao Senhor , foy neceíla- 
rio que fc puriíicaffe no crifol da tribulação com o itnto 
fogo da paciência. Efcando pois hum dia Thomaz efgn- 
mindo com outro com as mãos, como coffumaó os ÍLoláíi' 
dos^para fazerem exercício? & naó eílarê ociofos ; lhe deu 
o companheiro 5 com quem jugava huma pancada no hó^ 
bro efquerdo com tal geíto 5 & força ? que ficou Thomaz 
quaíi aleijado daquelle braço por eípaçode três annos. 
Grande foy o fofrimento ? com que levava aquella dolo^ 
rofa moleí]:ia;porêm muyto mais o m.oleíbva aquelle du- 
ro cativeiro da miliciaídefejando o locego do corpo , 6c da 
almajpara fe occupar todo no ferviço de Deos. Vendo po- 
rém com os Mandarins conhecidos lhe não alcançavam a 
Jiberdadcjâcudio a Deos,& lhe fez hum vot05para que el- 
le lha concedeíTe. Ouvio Deos feus rogos : & logo ao ter- 
ceiro dia foy chamado Thomaz do feu Mandarim , ôc lhe 
foy dada a licença para tornarjÔc viver na fua terra. Nam 
cabia em fy Thomaz de alegria,6c voltou logo có fua mu- 
lher Francifca para fua cafa. Aquy com as viíitas? &c para- 
béns dos amigos 5 & parentes 5 & com as occupaçóes em 
compor fuás coufas, lhe foy efquecendo o comprimento 
do voto,que tinha feyto.Mas não efqueceo a Deos arreca- 

darj 



REYNO DA COCHINCHINA. 196 

dar 5 o que íe Jhc tinha prometido. E para nos enfinar a 
todos o primor, que devemos ter em cumprir logo as pa- 
lavras dadas a Deos , que tanto deíVelo moftra em nos fa- 
zer as mercès:mandou por avifo a 1 homaz húas dores tão 
cruéis nos olhos , que o menos que receava , era perder a 
viíhjôc íicar de todo cego. Quanto mais fechava os olhos 
do corpo pela vehemencia do tormento? que nelles pade- 
cia; tanto mais íe lhe hião abrindo os do entendimento, 
para conhecer a ingratidão , 6c infidelidade que cometera 
coníra Deos. Tratou de cumprir o voto : ôc logo acabarão 
as dores5& ficou íem lefaó algúa. 

Nefte tempo teve Thomaz noticias como feu Pay fi- 
cava muyto doente na Corte , & fem eíperanças de vida. 
Pelo que partio logo? para íatisfazer às obrigações nam fo 
de bom filho lervindo ao Payjque lhe morria; mas també 
de zeloío Cbriílaò acudindo aquella alma , que íe perdia. 
Por todo o caminho de quatro dias hia pedindo a Deos co 
continuos5& fervoroíos rogos, coníervaíle a feu Pay a vi- 
da,atè elle chegar : Ôc lhe deíle tam.bem Íuz,para ver o ca- 
minho da íalvaçaó , & g^àçz para. entrar nelle pela porta 
do fanto Bautiímo. Como Deos cofiuma fazer a vontade 
dos que o temem jConcedeoaThomaz o que lhe pedira. 
Chega , acha a feu Pay muy desfalecido de forças , porem, 
com os íentídos muy perfeytosjcxhortão a fe fazer Chri- 
ílão para fe alimpar das manchas dos peccados cometidos, 
^•fe livrar das penas eternas do inferno ameaçadas aos In- 
fiéis : ôc também para alcançar os eternos gozos do Ceo 
prometidos,aos que crerem5adorarem,& íerviré ao Crea- 
dor de todas as coufas. Con verte- fe o Pay, 6c pede o Bau- 
tifmOjhe inílruido, 6c bautizadocom nome de António, 
6c morre nos braços de Thomaz feu filho. Ficou muy o- 
brigadoThomaz aos favores, que Deos lhe tinha feyto, 
com dar a íeu Pay a graça bautifmal , 8c como pia , 6c mo- 
ralmente cuidavajtambem a gloria do Paraifo. An im ado 
pois com eíias mercês do Ceo, tomou confiança ? para tã - 

Bb iij bem 



197 BREVES NOTICIAS DO 

bem pedir a Deos a falvaíleni de fua Máy ainda gentia : &. 
achou tani favorável o ddpacho, que adoecendo íua May 
depois da morte do marido-pelo que lhe diíie , & Jhe pre- 
gou Thonmz ; quiz morrer Cbriítá: íoy bautizada có no- 
iT;e de Mónica, & depois de poucos dias taleceo. Na ver* 
dade muy errado tpy o juizo,que de Thonvaz íizeraó íeus 
Paysíque o deíprezavao por inútil,^ naó elperavaò delle 
algum proveyto. Pois fô ejle lhes vaíeo , para íe hvrarem 
da morte eterna , & íò cl le lhes negociou a eterna bcma- 
vcnturança.Menos recebeo Thoniaz de íeus Pays^doquc 
ellcs alcançaram por meyo deíèe filho: ao qual dcn^ò elles 
o fcr natural , òc eílc 1 hevS procurou a elies a vida íobrena- 
tural : eiles o pozcraõ neíie deièerro , & cíle os encami- 
nhou para a pátria: elles o fizeram herdeiro das mi lerias do 
mundo 5 & eíle lhes grangeou a herança dos gozos do 
Cco. 

Ficou Thomaz muy contente , ôc alegre com tão feli- 
ces fucceílos, & com elhs coníolacòcs ef pirituaes hía ale- 
viando o íentímento natural , que tinha da perda de kus 
Pnys. Mas como a vidados juífos leja tecida de alegria, ôc 
óc triííezajdc proiperidade^&dc adveríidade ; para que os 
bcns,que ellcs aquy recebem, elpçrtem nelles as efperan- 
ças dos prémios do Ceo:& os males, que padece , lhes me- 
tam medo dos caítigos do interno. Hindo Thomaz para 
arrecadar certa quantia de dinheiro , deulhe -no caminho 
hum tam maligno achaqucjque ficou tolhido de ametade 
do corpo. Foy levado a Cachaó para a! li íe curar com os 
médicos daquella Corte, Porém reparando Thomaz co- 
mo as medicinas lhe não aproveitavãojfez voto à Virgem 
Senhora de lhe fazer huma Ermida,na qual feria eilaado- 
rada,& louvada, fe IhealcãçaíTe de ku preciofo Filho íau- 
de muy perfeyta. Sarou,começou Jogo a obra prometida, 
acaboua5& poz nella Altar , & fobre cite a Imagem da Se- 
nhora: a qual não fomente offertou aquella caía deOra- 
çam 5 mas também elle ^^ o^ereceo para fcu perpetuo fa-- 

criítam: 



REYNO DA COCHINCHINA. ipg 

cnftam: oquefaíiacom naó menos cuidado , quegofto. 
Quaíi ícmpre citava na dita Ermida : occupando-íe ja no 
accyo,.^ ornato delia: jà no agaíidho dos Chriíráos,que al- 
ii fe ajuntavãoopara fazer oraçam duas vezes no ói-â , ik tâ- 
bem para ouvirem Miílaíquando havia algum Padre:& jà 
cm rezar dejoelhos pelas contas com tanta devaçam, que 
cauíava grande ediíicaçaój aos que o eítavam oblervando. 
Porem o que punha em mayor admiraçam a todos , era o 
agradojcom que recebia os Chriftáos,que vinham de lon- 
gej&: nuca dantes conhecidos ; porque tratava a todos co- 
mo irmãos criados em fua meíma cafa : na qual lhes faíia 
toda a boa hofpedajem;ôc os regalava comquãtos mimos 
lhe permitiáo íuas poílès. Deuíe à Rainha dos Anjos por 
bem fervida deíle feu fervo Thomaz , aíFim pelos jejuns, 
com que ainda eílando doente paíTava todos os Sabbados 
do anno5& todas as vefporas de fuás f eftas; como também 
pelo cuidado , que tinha daquella fua Ermida , & defvelo 
com que agaíalhava aos Romeyros^que vinhaó de longe a 
adorala5& louvala naquelle pequeno , porém muy devo- 
to Santuário. Para fe moftrar pois a Virgem Senhora agra- 
iiecidajlhe alcançou de Deos hum íilho,que Thomaz de- 
fejâva,naó para ter na fua velhiccjquem lhe acudiíle ; mas 
para que depois de fua morte lhe herdaílb o cuidado da- 
quella fua Ermida. Com a nova mercê do filho fe deram 
os bons pays por mais obrigados a Deos5& a fua Sãtiílima 
Máy: & para latisfazerem em algúa maneira a tantas obri- 
gaçóesírepartiaó mais largas efmolas, & frequentavam os 
^sacramentos da Coníiíra65& Communhaó, recebentíoos 
em todos os dias Santos de guarda. Com eira vida que fa- 
liaó 5 & diíicavaó atè aos mel mos idolatras : & Thomaz íe 
hía diipondo mais para receber a Coroa do Martyrio. 

Logo que íe publicou nu Corte de Cachaóa prohibi- 
çam real contra a Ley de Deos ? teve Thomaz avifo delia 
eílando na fua Ermida rezando : & com toda a brevidade 
tiroujO que havia,òc pertencia ao culto diviii05& o cfcon^ 

Bb íiij deo 



199 BREVES NOTICIAS DO 

deo fecbando-o cm hum cai são ; para que as couíl^.s íagra- 
das nãopadeceílèm algmafíVontadaqueJlcs íoldadcs bár- 
baros. E podendo fugir,ou ao menos rcriraríc para algum 
lugar occuitojíiaó quiz;mas íicou em lua caía: na qual en- 
trarão logo os Toldados , & dando bufca cm todos os eitos 
deIJajtoy Deos íervido^que naò viíTem o caixão , onde ci- 
tavam guardados os ornanientoS) as imagens, & os livros. 
Naó achando pois as couU^ do Altaríné outras, que mof- 
traílèm íer da ley dos Chnllãos , levaram prezo ío a Tho- 
maz: o qual com grande alegria de roílo^ôc com voz muy 
Ibcegada hia converiando com os Toldados : como icem 
lua companliia folTe para algíía quinta a eíparecer. Prcfé- 
tado ante o tribunal dos três Mandarins ? confeíFou com 
grande conílancia íer Chriíbò? & ter clle levátado.aquel- 
ia Ermida;pelo que lhe foy lançada canga ao peícoço , & 
levado para o tronco com os três também ditofos compa- 
nheiros ; para todos eíperarem na volta dos ditos Manda- 
rins da Corte pela íentcoça -, que EíRey ái:^.^: a cada hum 
delles.Nell-e tempo de efperaalcãçou Thomaz das guar- 
das licença para hir a Fay io , onde citava o Padre Domin- 
gos Fucitijconieíroufe com cllc,& recebeo de íuas mãos o 
corpo do Senhor ; para íc fortalecer com as forças fobre- 
iiaturaes contra os aíTaltos do demónio , & tormentos do 
Tirano. Exhortou o Padre>a íe offerecer a Dcos para tudo % 
o que fofíe de íua divina gloria;porque era preciíà obriga- 
ção reílituír a Deos para íeu íbrviço , o que elle nos tinha 
empreíbdo para noílb ufo. Animado,6c esforçado voltou 
Thomaz para o tronco;& para feus companheiros. 

Muy defconfolada ficava Francifca,por íe ver livrejde- 
fejando acompanhar a Thomaz íeu efpofo nas prifóes pe- 
la ley de Chriíèo. Confolou-a porem a Máy de Deos com 
naó permitirjque os foldados queimaíiem aquella lua Er- . 
mida : & para alcançar efta mercê , tinha ella íey to voto à 
Senhora de dar certa eímola : & logo o cumprio. Foy de- 
pois acompanhando , fervindo 5 ck; animando zo íeu Tho- 

mazj 



REYNO DA COCHINCHINA. 200 

maz ; para cjue foíTe coníbnte na confiíraõ da Santa Fè:& 
pedia a Joaò Ketlam,^ a Alcyxcque erão ietrados , o en- 
linaíleni , & confortaílcm para o Martyrio. O que híião 
com grande fervorjôc zeloío empenho;para que dos qua- 
tro? que eíhváo prez os pela Ley de Deos , não ouveíle al- 
gum,que por medo deílc as coitas ao inimigo , 6c perdeífe 
a viétoria no mundo3& o triunfo no Ceo. Porem aqueila 
tão larga de tença dos três Mandarins na Corte foycau- 
fandoaThomazalgum enfado do tronco: &:jâ deixava 
cahir humas palavras , que moílravão algúa vontade nam 
de largar a fè,mas de fe livrar da prizão com dadivas, ôc di- 
nheiro. Raparou Francifca como fe hia nelle esfriando o 
defejo de padecer por Chriífo:& conhecendo íeu natural 
muy medroíojtratou logo de íe desfazer de quanto tinha 
para o livrar;porque náo fraqueaíTe a vifta dos tormentos 
com mayor affronta de noíTa fanta ley. Mas Deos 5 que o 
tinha efcolhido para feu holocauílo 5 o fortalece© com ef» 
tcfucceíTo. Eráo vinte &fettede Abril quafi hum mes 
depois da prizão,no qual dia decendo Thomaz pela tarde 
íio rig para fe banharjcomo todos coílumão, encontroufe 
com'húa fua parenta Chriftã por nome Paula: com a qual 
começou a praticarjÔc no difcurfo foy dando algúas quei* 
xas do que padeciafiaquelle tronco5& moílroufe enfada- 
do de eílar tanto tempo alli prezo. Neíte tempo olhou a 
cafo para a fua mão cfquerda 5 & vio como na palma delia 
aparecia huma Cruz muyto fermoza de cor roxa clarajôc 
diftinta5& de grofura de meyo dedo. A vijfta defte final da 
noíTa Redempção aííim como as trevas fogç da luz? alfim 
defaparecèrãodo coração de Thomaz os enfadosjôc trifte» 
zas jà có roíto mudado começou a rir^&c olhar muy tas ve- 
zes para aqueila palma da mão , fcm dizer nada a Paula c5 
quem eftava converfando. A qual reparando na novida- 
de do que via nas acções de Thomazjhe perguntou. Dó- 
de nacião nelle aíFeítos tão contrários. Pouco antes quci- 
xozo,& trifte: & agora rifonhoj& contente. Que era o q 

Ce tinha 



30I BREVES NOTICIAS DO 

tinha na palma daquella mão; pois tantas vezes tornava a 
pòr nella os olhos com tanto agrado. Eílendeo Thomaz 
a máojôc moílirou a Paula a CruZjôc lhe diíle: Como poffo 
eu eílar trifeôc moleftadojquando tenho em minha car- 
ne o íinal de noíTa Redempção: com elle efpero entrar5& 
lahir viéloriofo do combate. Vio Paula a Cruz pafmou do 
prodigío deu as graças a Deos ? & os parabéns a Thomaz, 
por receber tam grande favor do Ceojôc animouo a pade- 
cer por íeu Senhor. Voltou logo Thomaz para o feu tro- 
co com grande alegria:& jà goítava das incomodídades do 
luganachava fuavcs as moleíHas daquella publicidade: ex- 
perimentava leve o pezo da canga: & o que antes lhe cau- 
fava tédio 5 depois lhe acendia o deíejo de padecer muyto 
niais;& de morrer por feu Deos , & Senhor Jesv Chriíto. 
Mandou dizer logo a Francifca fua mulher , deíiftiíTe de 
lhe procurar o livramento ; porque do trono queria fahiv 
fò para morrer por feu Redemptor. Poílo que Thomaz 
defejaíre,& procuraíTe efconder aos três companheiros a- 
quelle penhor divinojpara fe naó publicar mais favoreci- 
do do Ceo ; com tudo com a continua communicac^o fe 
veyo a defcobrir aquella Cruz prodigiofa;pelo que Tby o^ 
brigado Thomaz a lhes contar todo o fucceíío. Todos lhe 
deraó mil parabéns ? pois fò a elle tinfca dado o Ceo fmal 
de como padeceria por Chrifto : & f oy tanto mayor a ale* 
gria dos companheirosjquanto mayor fora a triíleza 5 que 
ellcs tomjàraójpor terem obfervado atè então emThomaz 
algum defcontentamento. Com eftas honras , que lhe fa- 
fiãoos companheiros, ficava Thomaz mais humilde, cjc 
metido mais dentro de fy na confideração de feu pouco 
merecimento : 6c com continuos rogos , & oíFerçcimen- 
tos a Doos fe hia preparando para dar a vida por feu fanto 
Nome, 

Aleyxo teve por Pay a hum Japaó chamado Sebaílião, 
que vindo daquelle Império cafou na Cochinchina com 
mulher também Chriítã pornome Ifabel: cujas virtunes 

mcre- 



REYNO DA COCHINCHINA. 202 

merecerão a coroa do Maityrio,morrendo lançada aos E* 
lefantes pela coníiflaõ daíanta Fè. Deftes Paysmuy te- 
mentes de Deosaaceo Aleyxo como bom fruto de boa 
arvore,& foy criado com muyto dei velo ; para que não fe 
Ihepegaireofogodosvícios, em que arde a gentilidade. 
Por eíh raíaó foy íempre amante da virtude,!^ bom eítu- 
dantecm luas ciências ;occupando-fe também napoefia, 
para a qual tinha génio particular ; craó porc lemprc muy 
honeílos os aíTumptosaôc cheos de documentos muy pro- 
veitofos. Para confutar a alguns Idolatras , que calumnia- 
váo a ley dos Cbriftãos de impía^êc de crue^dizendo : que 
prohibiatodo o refpeyto , & obfcquio aos próprios Pays; 
compoz huma poeíiaíintitulãdo-a Tam phum -> que quer 
dizer três Pays: pela qual em verfo elegante moftrava, co- 
mo temos todos obrigação de honrar ? & reverenciara 
Dcos;porque he Pay univeríal: aos Reys ; porque nos go- 
vernaó como Pays:& aos que nos geraram, & creàraó;por 
ferem Pays naturaes. Reparando Alcyxo nos perigos que 
corria a virtude no tempo da mocidade,determinou de fe 
caiar : & tomou por efpofa a húa fua igual nam menos na 
Religião que nos procedímentos;da qual teve huma filha 
por nome Rufina. Como a multidão dos foldado^Ôc os ri- 
gores das prohibiçóes lhe não permitião ficar mais na 
Corte de Sinon; para ter alguma liberdade na guarda 5 6c 
exercicio da Ley de Deos,fe paíTou có lua cafa para o por- 
to de FayfÒ5& morava perto de huma Igreja muy eípaço- 
fa5& fermofa,feyta por huma Senhora chamada Ba ManW 
mulher que foy do Governador de Cachão , & das mais 
Províncias do Sul. A efta Igreja acudia Aleyxo có os mais 
Chriftãosjque ficavão alli perto, a rezar duas vezes no dia, 
húa antes de amanhecer , & outra depois de noyte fecha- 
da. E porque Aleyxo tinha hiia^voz muy fonora 5 & ma- 
viofa , muy tas vezes os Chriílãos ihe pediao , que cantaíTe 
elleas coftumadas oraçóes:& o fafia com tal devdjçáo , que 
movia todos a chorar. Vendo os Padres os bons procedi- 

Cc V] meu- 



203 BREVES NOTICIAS DO 

mentos de Aleyxo, & reparando no talento de rezar, & 
nas muytas letnis,que tinha.o Icvavão comfigo nas viíitas 
daquella Província. Era notável o gofto , & graça có que 
Aleyxo diíputava com os Bonzos5& pregava âquelles gé- 
tios,& era muy paciente em inílruir aos Catecumenos. 
Muyto deve a Chriftandadedeíla Província ao zelo , & 
fervor de Aleyxo 5 que muytas vezes acorria pregando, 
bautizando ? éc animando todos a fazerem mayor eítima- 
çaó da fè di vinajque de quanto podia prometer a efperan- 
ça mundana. 

Com eftcs ferviços, que foy fazendo a Deos , fc difpoz 
para receber de fua liberal ,& divina mão o galardão do 
Martyrio.Foy prezo aos dous de Abril com os mais Chri- 
ftãos, 6c foy apartado com os poucos por confeíTar livre- 
mente a Ley de Jesv Chrifto.O que todos admiravaó nef- 
te fervo5& confeíTor do Senhor era a contmua alegria do 
roílo 5 & a bocca fempre chea de rifo , fem poderem fazer 
nelle mudança alguma quaefquer fucceííos ; de forte que 
dííiaó muytos: ter Aleyxo hum coração de aço. Poré nef- 
ta occaíiaó moftroujque era de diamante; porque quanto 
mais o tocavão com a pedra das prifóes5& tormentosjtan- 
to mai^luftrofo,^: grato lhe fahia o femblante. Nem dei- 
xava de pregar a quantos o hião ver: atè os foldados , que o 
vígiaváo, lhe pediaó por mercCíquizeífe cantar asoraçòcs 
dos Chníláos ; por terem particular goílo em as ouvir re- 
zar com aquelía fua graça5& devaçaó. 

Joaó Nguiem filho de Pays honrados mas idolatrasína- 
ceo na Aldeã chamada Chu tuong da Comarca dePhu- 
ongtai na Provincia de Cachão : dedicoufe todo ao eftudo 
das letrasr&depois ao de medicina. Era muy dado ao culto 
dos ldoIos5& de hum natural tão coleríco^ôc furiofo, que 
todos fe temião delle. Havia hú Chriftão por nome Ma- 
noel 5 que fendo Bonzo , &: Sacerdote dos íalfos deofes fe 
fez ChriílãOíôc por fua muyta virtude , ôc letras exercita^ 
ra antes de cafado o cargo deCatequifta daquella Comíir- 

ca. 



REYNO DA COCHINCHINA. 204 

Câ. Defejando pois Manoel,q Joaó fe convertcíTe a Chri- 
llojpor íe naó atrever a lhe falar niílb claramente, o man- 
dou chamar para que o curaíle de hú achaque , que tinha: 
& nas curas^que joaó lhe fafraihia Manoel dizendo aigúas 
palavras de Deps de quando em quando, para efpertar a 
curioíidadc dejoaó a lhe perguntar. Mais fruto hzem 
muytas vezes humas pa]avras,que parecem perdidas;do q 
largas amoeftaçóes. Nem fe deve deixar paíTar a occaíiaò 
de falar de Deos , ainda que íeja por inftantes de tempo; 
porque fendo a palavra divina como relampagojfempre a 
clara o entendimento para dift inguir o bem do mal. Qué 
fêmea em todos os teraposjfempre a certa com o que dará 
boa novidade : 8c as gotas ainda que cabidas com interpo- 
lação fempre cavão atè os mefmos mármores. Mármore 
era João pelaobftínaçam na fua falfa ley;porèm as repeti- 
das palavras cabidas de quando em quãdo da bocca de Ma^ 
noel o forão penetrando tanto 5 que rendido pedio a Ma- 
noeljlhe explicaífcjque importava o fer Cbrilfáo. Olhou 
Manoel parajoaójôc entendendo da gravidade, &com- 
poílura do roílo a mudançajque Deos tinha feyto em feu 
coraçáo,começou muy alegre,& contente a lhe pregar os 
Mylterios de noífa fanta Fé. Ouvia tudo Joaó com muy- 
ta attençáô,cborando porém continuas lagrimas , por ter 
vivido atèàquella idade de fincoenta &íincoannostam 
ccgojfem conhecer,fem adorar,nem fervir a feu Creador, 
& Redemptor. Arrepêdido pois dos obfequios feytos aos 
Ídolos voltando para fua cafa fez em acbas5&; empedaços, 
6c queimou quantos atè então tinha adorado comodeo- 
íessôc guardado como defcnfores , & bemfeytores de fua 
familia. Tomada eíla vingança do demónio , que o trou- 
xera tantos annos enganado , foy buícar a hum Cbriftãa 
por nome Ignacio, que lhe ficava vefmho, para quclbc 
enfinaíle as orações. Porém Ignacio como o conhecia , & 
lhe fabia a códição afperajque tinha: julgou , que erão tra- 
ças para depois lhe fazer mal;por eftar com rigores prohi* 

Ce nj bida 



205 BREVES NOTICIAS DO 

bidaaguaadadaLeyde Deos. Pelo queíc eícufou com 
dizer : que não tinha os livros em caía ■> &z que cílava muy 
occupado. Não deíconfíou João ? nem íe deu por oíFen - 
dido do termo pouco cortês 5 com que Ignacio o tratara; 
antes com mayor furniílam, 6c com mais humildes rogos 
pcdiajhe íizclíc aquella charidadcjpois defcjava fer Chri- 
jlaó. A eiras palavras ditas com tanta humildade, & com 
tanta compoíiura nunca mais vifta em Joaó deu íinalme- 
te credito ísnucio, & lhe fov enfinando as orações do Ca- 
tecifmo 5 as quaes íabidas deceo joaó a Faifò em bufca do 
Padrcpara receber delle o Santo Bautifmo. Como o Pa- 
dre eftiveíTe jà informadojdo quejoaó pertendiajSc muy- 
tosreceairem que debaixo daquclla peilcde ovelha eíla- 
ria ainda o coração de lobo^naó lhe deferio logo à petição 
dizendo: que não eílava ainda bem inftruido. Mas Joaó 
abrafado com os defejos de fe ver dentro do rebanho 
de Chriílo , não fentia as repulías ; antes quanto mais 
lhe dilatavão o Bautifmo , tanto mais o defejava ? de 
procurava , vindo muy tas vezes dos longes de íua Aldeã a 
FaifÒ5& fempre com mayores demônftraçóes de fua ver- 
dadeira converfaó a Deos: pedindo aoPadrco InvaíTe com 
as agoas bautifmaesjque vinha buícar com tanto incomo- 
do para alimpar íua alma dasmãchasde tantos peccados: 
&c bautizaíle também a fua mulher, que elie tinha cóvcn- 
cido , 6c catequizado. A mudança dos coílumes em J oaó> 
6cafuaconfranciaempediroSanto Bautifmo erãotcfte- 
inunhas muy firmes da verdade de fua converíaó. Pelo 
que o Padre com grande alegria o recebeo56c com muy to 
mayor confolaçaó efpiritual bautizoua elle com nome 
de foaójôca ella com o deLuíia. 

Foy tão grande a volta , que eftes cafados esforçados jà 
com a graça do Santo Bautifmo derão a íeus procedimen- 
tos^que pafmavão os Idolatrasjque an tes os tinhaó con he- 
cido , 6c praticado. Porque fua cafa era fò para oração , 6c 
todos feus negócios eraójinduíiremj 6c exhortaré aosfeus 

paren- 



REYNO DA COCHINCHINA. 206 

parétesjôc amigos a que largaíTcm o falfo, & íacrilego cul- 
to dos Ídolos 5 & fe fizeíTem ChriíMos. Ambos muy hu- 
mildes, ambos muy charitativos para com todos, & fre- 
qucntavão ambos com grande devaçaó os Sacramentos 
da ConíiíraÓ5& Communhaó, Joaó pois pelo defejo , que 
tinha de converter feus naturaes a Deos , hia acompanha- 
do aos Catcquiítas para os ajudar,& aprender delles a prè- 
gar,nem deixava paíTar occafiaó , que fe lhe offereceílè de 
falar da falvaçaó das almas. Era porém mayor o fervor de 
feu efpirito com que praticava , que o felecto das palavras 
quediíia, & ordinariamente começava com lhes dizer, 
quam perdido elle vivera5&: quam dado ao culto dos deo- 
fes do Reyno;porém a luz da hy verdadeira do Senhor do 
Ceo lhe abrira os olhos, &; vira, quam errado caminho le- 
vava para a bemaventurança : a qual naó podiam alcãçar, 
os que não adoravam,nem fervião ao Creador,& Confer- 
vador do homem,^ de todas as coufas. Grande era o fru- 
to que fe tirava deíhs praticas de Joaó,quanto mais ílnce- 
ras tanto mais eíEcazes , para perfuadirem a verdade. Po- 
rém o que convencia mais aos Pagãos, era a mudança que 
fizera Joaó depois de receber , & guardar a Ley de Deos; 
porque ainda que a peílba fe deixe levar da corrente dos 
vicios ; com tudo louva, & aprova fempre o caminho da 
virtude. Por toda aquella Comarca corria a fama da con- 
verfam de Joaó: & affim como pelos feus vicios fora abor- 
recido de todos;aíru"n pelo contrario pelas virtudes era de 
todos amado , todos o refpeytâvão,& todos fe valião delle 
em fuás necefíidades. Havia húa mulher endemoninha- 
dajôc tão furiofa,que moleftava muyto a feusparétes, que 
eraó os principaes da villa. Não achando pois remédio em 
feus Bonzos , pedirão a Joaó , quizeífe elle acudir àquella 
miferavel, com lhe lançar fora do corpo tão cruel, & in- 
fernal tirano. EftranhouJoaó,por fer humilde,a pctíçaó, 
q a elle lhe fafLaó;porê reparado, como eíla feria boa occa- 
fiaó, par^ q a Ley de Deos fofle conhecida por verdadeira, 

Cciíij acei- 



207 ERHVES NOTICIAS DO 

nceitous^^ íoy pra íí a cafa da miill icrjôc começou a lhe per- 
guntar: que couía erão os dcoíes, 6c q poder tinhaó. Ref- 
pondeo o demónio por cila? dizendo couías tão aíFronto- 
Ls aos Idolosjdeshonrádo-os com nomes tão bayxos, que 
IiumapejToagrave^queeftavaalli entre aquella multidão 
que aíliíiia 5 por ter feyto hum templo aos deofes fe apai- 
xionoU;&: diíTc à mulher que lhe daria muyta pancada, íe 
falaíTe mais daquella maneira dos deofes. A mulher, fem 
di/^cr nada,entrou dentro do apofcnto, tomou húa lança> 
3í vinha enraf^ando com o dev^oto dos deofes : ao qual cl- 
les não acudiraó,mas fò lhe valerão fcus pès, fugindo a to- 
da preíla. Vedo iílojcaórcceando-fe de algum dcíutiiio, 
que o demónio armado faria>fc ppz de joel hos 5 & pedio à 
Virgem Senhora,enfreaí]eaqueIIcmonftro infernal. La- 
çou logo a mulher a lança no chão> & diíle a João : não ter 
ella mão para lhe fazer mal a ellc ; porque affim lho man- 
dava à Virgem;íô lhe pedia não rezaíFc mais 5 porque fahi- 
ria logo. Cobrou animo Joaó , &c lhe foy fazendo varias 
perguntas de noíTa fmta Icy , & da Rainha dos Anjos. A 
tudo refpondía altiíiimamcntc com tanto acatamento,& 
com palavras tão obfequioíasjque ficarão confufos 5 & af- 
fombrados todos aquellesinfieis.Depois lhe mãdou Joaó) 
hrgaíleaquellccorpoj&deixaílefocegada aquella crea- 
tura de Deos. Aílim o fez logo o demónio, & deixou li- 
vre de alli por diante a mulher: a qual fe fez Chriílá , & 
quaíi toda aquella Aldeã recebeo o fanto Bautifmo. Atè 
aquelle devoto dos ídolos vendo com feus olhos a talfida- 
de da ley de feus naturaesjÔc a verdade da dosPortuguefes 
fe converteo , & levantou húa Igreja a noífo Senhor , por 
cuja fanta ley foy perfeguidojÔc padecco muyto. Com ef- 
te fucceíTo foy ganhado mayor eftimaçaó a noíla Sãta Fè, 
& fe foy publicando, & conhecendo mais feu divino po- 
der contra os efpiritusinfernaes. Pelo que crecia muyto 
o numero dos que defenganados fe paílavam dos erros da 
Idolatria para as verdades do Evangelho. Fruto íoy cílc 

dos 



REYNO DA COCHINCHINA. loê- 
clos fervores -, &: trabalhos de jo^ò , que corria muytss ve- 
stes todas as viilas , & lugares daquella comarca prcgandc-, 
ík en finando com a vuz^^c com o exemplo. 

Eílandopois joaó occupado cm tÃo íantas, &c gloriofas 
conquifras foram prczos em CachaõaquellesChriflãos 
de que jà filiamos. Pòrèm quem levou as novas a joaõ) 
difiè: que os Padres íicavaó no tronx:o. Foy efte aviío híí 
vehemente aíTopro , com que fe acendeo de repente o co^ 
raçaó de Joaó em defcjos de morrer por íeu Senhor: & \i^ 
rando-fe para hum Chriíf ão chamado Roque, com quem 
eíbva converíandojhe diffe: Que fizcinos nòs aquy? Va- 
mos morrer com os Padres. Levantam-fe logo ambos; &c 
vem andando para Cachão. Mas antes de chegarem ao 
tronco, derão com a fcgueíra , em que os Míniílros do in- 
ferno cila vão queimando as Sagradas Imagens em parti- 
cular a de hu Santo Crucifixo,o qual Joaó adorou ; & por 
iíTo foy prezo, & levado ao Cárcere com os três -^onípa* 
nhciros. Aquy Joaó com íuas veneráveis cã«, & com Tuas 
brandas,ôc devotas praticas ganhou de tal forte a afFeiçam 
do carcereiro ? que efte lhe mandava tirar a canga do pef- 
coço,para o aliviar daqucllepezadojugO;& lhe fafia mui^ 
tos mimiOS5& fe lhe oííereceo ao largar , fe quizeífe í ugir^ 
Por eftas naó coftumadas charidades , & pelo grande ex- 
celTo de oíFerecimentos,quc o carcereiro lhe faíia,lhe deu 
Joaó as graças dizendo : Senhor fò Deos Crcador do CcO) 
da terra,& de todas as coufas vos poderá pagar com dupli* 
cado premio as muytas efmolas,& honras, que me fâzeis> 
tanto mais dignas de eterna remuncraçaó,quanto menos 
de my merecidas. Eftas minhas cãs, que como cinza me 
cobrem a cabeça, laó certos finaes que a morte vem anda- 
do muy perto. Pelo que não he jà tempo para eu cuidar 
de viver largamentejmas fò de morrer glorioíamente. Pa- 
decer5& morrer por fer fiel a Deos, he forçofa obrigaçani 
da creatura para com íeu Creador : he também fineza do 
primor, perder a vida por quem lha á^u. O que eu muy- 

Dd to 



£09 BREVES NOTíCiAS DO 

lo íinto j íaõ os muytos annos que mal gaílei;pois cego da 
ignorância naó conhecia eu,&; muytoniCDos icTvia,aqué 
me crcàrajêc n:c confervava no ferjde que eu gozava. Co- 
icíIojSenhorjfer grandiíTimo o pejo que tenho > repara a- 
lio q morro por meu Deosjquando naó poílo viver niuy* 
to. Verdadeiramente pouco^ou nada offerece, quem dà 
I lúa arvore 5 que vay jâ íecando. Ou fe eíliveíle eu na flor 
lia idadcjpara oíFertar ao menos as efperançasj a quem me 
deu quanto fou j & tenho : & morrendo por my me pro- 
metco ainda de me dar^quanto elle he, & poíTue. Senhor 
douvos muytas graças da boa vótade, que mollraes de me 
Jivrar dcílt; troaco;mas eu aqui fico; porque as prifóes pa* 
1 a my Ía6 rcgaloSjSv a morte vida. Aílbmbrou eíla fala ao 
carcereiro:6v lhe foy crecendo mais o conceito, que tinha 
cia virtude de Joaój^ da verdade da ley dos Chriílãos;por- 
q ue fò os esforçados cora poderes fobre os da naturefa po- 
diaõ goílar das moleftias , & íufpirar pela morte. 

Vendo o demónio como por via deíle charitativo mi- 
niílro delRey não podia tirar a Joaó a Coroa do Martyrio: 
armou outro laço por meyo de hum Miniftro dos ídolos. 
Era efte Bonzo 3 filho de Joaó ? òc fe dedicara ao culto dos 
fiilíos deofcs antes da converfaó de feus Pays. Os quacs lo- 
go que receberão o Bautifmoj o exhortàraó a que deixaf- 
le os dcmonios5& fe paíFaíTe para o ferviço de Deos verda- 
deiro ; mas o filho coílumado jà à vida folgada não ouvio 
as rafóesínem fe rendeo aos rogos de feus pays. Porem tã- 
to que foubcjque feu Pay fora prezo 5 & fem duvida feria 
tãbê morto por fer Chriftáo : fe valeo da Tia delRey muy 
devota dos Bonzos, para que ella alcançaflè delRey a vida 
de feu pay. Prometeo ella de o fazer , fe feu pay largaíTe, 
primey ro a ley dos Portuguczes. Com efta repofta deu o 
Bonzo por feyta a mercê. Porque como elle naó recebia 
a Ley de Deosjpor querer viver comodaj& honradamen- 
te;airim cuidava,que feu pay a largaria logojpara naó mor- 
rer violenta > 6c infamemente. Com eltejuizo errado fe 

poz 



REYNO DA COCHINCHINA. 210 

poz logo em can^nho para Caciváo: chegou muy alegre 
ao troco : &c d:Hi parte ao payjclo que ellc como bom íil ho 
lhe tinha negociado. Mudou logo joao o roíio dé riíonho 
cm íeverojõc lhe diíie: Tratai vos de abraçar a Ley do Se- 
nhor,&: Creador de todas as couías, fe quereis íalvar voíla 
alma>porqueeu fou Chriftãjôc Chriílã quero morrer. Re- 
plicou o filho: Senhor íeja embora Chriilã no coraçaó^pa- 
ra íe livrar da mortejbafta que com a boca diga)que larga a 
ley dos Portuguezes. Com inayor fe ver idade lhe refpon- 
deo o Pay: Andai 5 partivos logo de aqui Miiiiílro de luci- 
fer Chriíhó íou,cófeíro a Ley de Chrifto 5 ôc Chriílã que- 
ro morrer. 



C A P I TU LO XVIL 



^ 




No(ifica-fe njentença de morte aos cjuatro Confejfores d^ 0'jnBa:&- to^ 

dos morrem gloriojamente, 

LARGA detença 5 que os Mandarins fi- 
zeraó na Corte, deu lugar aííim aos inno- 
centes prezos de fe diíporem melhor pa- 
ra o combatc;como aos pios Chriftãosjpa- 
ra aparelharem mayor pompa para o tri- 
unfo. Tinhaó-fc confeíTado jà todos qua- 
tro em Faifò com o Padre Domingos Fuciti , dandolhes 
para iífo licença às íentinellas poílo que gentios. Recebe- 
rão também o corpo , & fangue de Crifto Sacramentado: 
& fahiraó defte divino banquete muy alentados ; para rc- 
fiftirem5desbaratarem,& vencerem naó a hum fò tyrano, 
mas ainda a todo o inferno. Os Chriíèáos tinhaó cortado 
para cada hum dos quatro cabayas j ou repões de m uy ri- 
cas fedas;para que veftindo galas no dia , em que o tyrana 
os matavajentendeílem todos os Idolatras: terem os Chri- 
ítáos por grande honrajSc mercèjpadeccrem , & morreró 
_pelafe.de feu Creador,6c Redemptor. 

Ddij Éntr^ 



2ÍI BREVES NOTICIAS DO 

Entre os mais negócios, que os Mandarins kvavam a 
Corte,para Íabercm50 que ElRey dctermipí va ; hum era: 
que devião eUes fazer deílcs quatro prezos , que conFeíTa- 
vaò fer Chriílãos, nem queriao largar a ley dos Portugue- 
zes. Aiíloreri:>ondeoElRcymuyirado: Matay os, por- 
que naõ quero femelhante gente no meu Reyno. Chega- 
raó as novas dcfta fentcnçatam favorável ao defejo dos 
prezos em dia da Afcençaó de Chriíto noífo Senhor : de 
foy muyto grande a cófoIaçaó,que ellcs fentiraó, & mof- 
tràrí?ó;por eíperarê, que o Senhor fubia ao Ceo , para lhes 
aparelhar também a elíes quatro os lugares. Logo que fc 
foube da fentença , foraó os Toldados reformado as vigias» 
nem premitiam,fe lhes falaíTe cora a facilidade que dates. 
Com tudo o Padre Domingos Fuciti,& o Padre Pedro 
Marqucsjque tornara da vifita das Chriílandadcs, de noy- 
te os vífitavaósanimando-os à conílancia com a efpcrança 
do immenfo galardam de eternos gozos no Ceo. 

Voltaram finalmente da Corte os três Mandarins muy 
empenhados na execuçam da fentença real. E para que 
o medo dos caftigos foíle mayor5& abrangeíTe maÍ8,deter- 
minavam juíliçalosa todos quatro, naõ juntos, m.asem 
quatro lugares os mais frequentados. Soubcraó diíTo os 
ConfeíTores de Chriíl:o5& fentiraó muyto, que os quizef- 
fem aíFafcar huns dos outros ; pois defcjavam , que aíTim 
como todos quatro jutamcte cófeíTaraó a Fè, & eftivèraó 
prezos;aílim tãbé juntaméte morrefsé, & todos jútos en- 
traíTc no Ceo. Né negou Deos efta confolaçaó a feus fieis 
fer vos , q có tanto goílo davaó por elle as vidas: & difpoz» 
como quem tinha cm fuás mãos os corações dos homens 
que depois de varias cofultas pareceíTc aos Mandarins me- 
lhor para o intento,que morreíTem todos j untos ; porque 
a multidão dos que faócaítigados faz mayor oftentaçam 
da ira do Principe,& tira toda a efperança do perdaó. Gra- 
de foy a alegriajque tiveraó os valerofos foldados, quando 
fouberampornoticias certas : como aos onze do mez de 

Mayo 



RLYNO DA COCHINCHÍNA. 211 

Mayo lhes havião de intimar a fentença de morte , & que 
feriam degolados todos no mefmo lugar. Para í-eílejarem 
pois táo ditofo j & íuípirado fucccílb/à noytc das dez para 
as onze do mez mandaram vir híís muíicos com íeus 'mi- 
trumentos , & giilàram toda aquclla noyte cm cantarem 
vidas de Tantos compoíbs em verío pelo joaò Ketlam. Af- 
fiftio a eílas vcíporâs tão folcnes grade multidão de ChnT- 
tãos,que f azendo-fe parentes dos prczos, foraó admitidos 
das guardas aíTombradaSjpor verem tanta alegria, nos que 
havião de ícr condenados,& tanta feíla dos que os eílavão 
viíitando. Entre aquelles dev^otos cantos amanheceo o 
diajquc naó teria noyte para os que haviaó de morrer por 
Chriílo:& logo osChriííãos fizeraójque todos quatro vef- 
tiílem as ricas cabayas,qi]c lhes tinhaò aparelhado paraef- 
te triunfo. Chega depois aviíb , que os quatro prezos fe- 
jaõ levados para o tribunal. Sahemlogo do tronco cada- 
qual muy aíFcado , como fe todos quatro foíTem à alguma 
fefta nuptial : entraó na fala da audiência : & fe põem de 
joelhosjcomo he coftumejdiante dos três Mandarinsjquc 
fícàraô admirados com aquella novidade. Poisquãdoto-^ 
dos temiaó , & trcmião de medo a viíla dos que os haviam 
de condenar;eíí-avam eftes naó fò focegados,& contcntes> 
mas ainda veílidos de gala. E tomando ifto a pouco cafo> 
que os Chriílãos faíiam da dignidade, & poder dos Juizes, 
deraó logo contra todos quatro fcntenças , de morrerem 
degolados. A penas o Mandarim Prefidentc tinha acaba- 
do de í:alar,quando todos quatro fazendo muy profundas 
cortefias checando com a cabeça atê o cham, lhes deram a 
todos trcs grandes agradecimentos pela mercê que por 
luas mãos reccbião de Deos. Sò lhes pediram por ultimo 
favor: quizeííem dar ordem a q uem havia de lançar o pre- 
gam,para que dice/íe: como ElRey os mãdava matar , por 
guardarem a Ley doSenhor doCeo, &da terra. Naó lho 
concederam os Mandarins,por fe naó atreverem a mudar 
a coftumada forma do pregam : que eram caftigados , por 

Dd iij terem 



r.:3. írRI:.Vr:3 NOTICIAS DO 
i ti cai ;. lc\ dos Portusuc;:es. 

Cada a ínj uíh;'5c íacrileoa lentcnçajroraó entregucssó 
c;ui trc dcícnrcrcs da Fè a num Mandarim de rainas ? que 
os fcy levando com o coílumado acompanhamento dos 
Toldados para o lugar,onde morrendo haviaó de vencer. 
Cada hum hi^ com canga ao pefcoçojhum atrazde outro: 
c\: todos tani a) rofos , que fafiaó duvidar aos que encõtra- 
váo: fc aquillc era jufliça para fe executar : ou jogo para íe 
rcprezeii tar. ThomaZjõc Joaó Nguiem hião rezando. A- 
]cyxo;£c Jõaõ Ketlam nos lugaresjondc paravàó para dcf- 
cr.çraé 3 pi cgavão em voz alta contra a falfidade da ley. dos 
EcczoL i^c cm favor da verdade da ley dos rortugue::.çí. 
Como os dcofes craó demónios ? & fo o Creador de todi.s 
as couías era verd.ueyro Deos 5 a quem todos devjão.ado- 
lar, li mar^Ôc fcr vir como a feu Pay 5 & Senhor. Apregoa- 
vaõ tubc o premio eterno q Dcos dava aos qguardavaõ fe- 
us divinos preceitos : &: quaõ grade era o galardão, q rece- 
bei iáo no Ceo 5 os q morreíTemjpor lhe íeré fieis na terra. 

Grande era o çoncurlb aílim dos Chriílãos como dos 
gcnticsjque acompanhavão os que hião a morrer.Os \^i^- 
iiitias Jcvudos da novidade de verem tanta conílancia noi 
queaíLm caminhavam para a morte: os Fieis movidos do 
dczcjodefeguirem fuaspizadas. Chegados ao lugar alll- 
naladoj parou aquella companhia de foi dados •> todos com 
arnias nas mãos: & formando-fe logo em circulo, ficaram 
os quatro prezos no meyo em feus lugares , todos em li- 
nhajhum diante do outro ; para que a morte do primeyro 
meteíTe medo a todos os mais que de traseílavaó vendo. 
Chegaram então de Faifò o Padre Pedro Marques , & o 
Padre Domingos Fuciti? & alcançada do Mandarim aíTif- 
tente a licençajpara entrarem ? & fe defpedirem dos qua- 
tro;foy logo o Padre Pedro Marques para Thomafque fi- 
cava no primeyro lugar 5 & lhe pregútou: fe cftava firme. 
Muy to firme pela mercê de Deos,refp6deo Thomaz.Paf- 
fou depois a vifitar a Aleyxo no fegundo lugaj, o qual vê- 

do 



REYNO DA COCHINCHINA. 214 

lio ao Padre ]hc dilFe: V^eja voíía Reverccia , quam galhar- 
do eftoujtodo cubcrto de feda. AíTim he neccíiario ( ref- 
pondeo o Padre) para quein hade hir reynar com Chriílo. 
Joaó Nguíem ? que ficava no terceiro lugar , como cílavã 
occupadoem rezar em voz alta o Credo, naò diíle nada 
ao Padre Pedro Marques ; porem logo que acabou a rezaj 
pegou pela mão ao Padre Domingos Fuciti , 6c lhe diiTe: 
Que eíhva aparelhado para feguir as pizadas de Chriílo 
Redemptor do mundo. Chegoufe finalmente o Padre 
Pedro Marques para Joaó Ketlam pofto no quarto lugar» 
& na retaguarda deite pequeno mas lufido efquadráo : Sc 
vifitando-o lhe diíle: fe coníolaíTe no Senhor;pois morria 
por Chriílo em feíla feyra dia em que elle morrera por 
nós. Jà o feyjrefpondco , ôc bem reparo eu no fav^or , quã 
Jesv Chriílo nos faz. Levantou-íe depois Joaó do lugar, 
onde eíl:av^a,& foy aos três companheiros ? anímando-os z 
fofrerem aquella momentânea dor , para merecerem os 
gozos eternos , a morrerem animofamente todos quatro, 
para todos j untos viverem eternamente. N áo era muyto 
darem elles com hum fò golpe de catana a vida por Chri- 
ílo no día,em que Chriílo feu Deos> & Redemptor depo- 
is de tantas, & tão cruéis penas morrera por elles em húa 
Cruz. Eílas palavras ditas por Joaó com grande efpirito 
acenderam de tal forte os corações dos Chriíláosjque eíla- 
vam prefentes ; que abrafados jà cm defejos de morrerem 
também elles por Chriílo ( fcm lhes lembrar o avifo dado 
pelos Padresjde não fazerem demoílração algúa exterior, 
para não crecer mais a prefeguiçaó ) todos aííim homens 
como mulheres entraram por todas as partes quafi por af- 
falto: & chegados aos esforçados Capitães da Fò , lhes fize- 
rão prof undiílimas cortefias: com as quaes davão a enten- 
der,defejarem também elles a mefraa morte; pois confeí^ 
favão fazer a mefmavida. Temeo-feo Mandarim deal^ 
gum motim; pelo que mandou fazer logo final com a ba^ 
tica : 6c o foldado com hum golpe cortou a cabeça a Thò- 

Ddiiij maz 



-15 BREVES notícias DO 
mazjaqualcahindocm lerraniovia fuavemcnte os bei- 
ços como pronunciando os Sacratiffimos nomes dcjes^', 
& de Maria. Vendo ifto Aleyxo , que ficava dez paífos u- 
traz,diííc cm voz alta : Acabou Thomaz feu curlo diion> 
nientc. E pondo-fe logo de joelhos perguntou ao folc'.!- 
do: ícíictva aílim bemjpara elle fazer feu officio. A repo- 
ta fcy hum reveZjque lhe levou a cabeça. Morreo depois 
degolado Joaó Ketlam;& o ultimo fo} Joaó Nguiem, cu- 
ja cabeçajà no chão pareciajC]ue eílava rindo. O facrificio 
deites quatro innocentes viclimas da Fè fe oíTcreceoii 
Chrifto para a exaltaçam de feu divino Nome na Cidade 
de Cacham Corte d?.s Províncias meridionacs aos onze de 
Mayo de mil & feiícentos feircnta & três 5 pelas finco ho- 
ras da tarde em dia de fefta f:yra. Na verdade naó podia 
deixar de fermuyto grata nos divinos olhos húa oblação 
tam voluntária da vida ? 6c hum obfequio tam conílanrc 
ate na morte. Muyto menos fe poderia duvidar que a Di- 
vina liberalidade lhes rccópenlària logo a morte tempo- 
ral com a vida eterna? & os breves fcrvíços na terra com o 
perpetuo reynar no Ceo. 

Executada a impia fentença ? foram-fe os miníílros da 
crueldadejdeixando os veneráveis corpos dimínuidos nas 
cabeçaSíporcm eílas acrecentadas com a Coroa do Marty- 
rio 5 o qual alcançaram fendo Thomaz de idade quarenta 
& hum. Aleyxo de trinta &c féis, Joaó Ketlam de fetcnta 
6c finco,& Joaó iNguiem de feífenta & dous annos. Acu» 
diram logo os Chriílãos à profia para recolherem alguma 
parte daquelle fangue viéforiofo 5 & fe valerem delie em 
fuás neceílidades , mas fobretudo para fe animarem a der- 
ramar também o próprio pela cófiííaó do nome de Chrif« 
to Deos,& Redemptor. Aquy mais feefmcrou nelles pia* 
dofos officiosjfoy Francifca mulher de Thomazia qual c6 
animo mais que varonil acompanhou fempre a leu efpo- 
fo 5 lembrandolhe no caminho o premio eterno ? que lhe 
daria Deos por huraa dor inílantanea. Logo que ílilgos le- 

vou 



REYNO DA COCHINCHÍNA. 216 
vou aThomàs para o liigarjonde havia de niorrencbegou- 
le Francifca,& lhe íqz três profundas corteíjas , dandolhe 
as graças da boa companliia,que lhe fizera , &c do bom tra- 
to,que lhe tinha dado: depois lhe beijou os pès como a Se- 
nhorjas máos como a Pay, a face como a cfpofo , & final- 
mente a canga como a Martyr;& levantada em pè lhe tof 
concertando os cabellos. Pafmou toda aquella multidam 
de GhriMos , & muyto mais os Gentios vendo tanta cóf- 
tancia em húa mulher: & todos choravão de tenrurajmo- 
vidos da vifta daquelles obfequios não menos pios que a- 
morofos. Afaíèoufe depois Francifca quatro paílbs , para 
dar lugar ao algòs,^: dalli lembrava a Thomaz, repetiíTe a 
niiudo os fuavififimos nomes de Jesv3& de Maria. O que 
fafia Thomaz com grande gofto ? & alegria como raoíf ra- 
va no femelhantc. Dado o golpe , acudio logo Francifca 
com hum pano fino? & preciofo , 6c com elle envolveo a 
cabeça cabida no cham. Seguiram os parentes com hum. 
cubertor ricojno qual recolherão o corpo;para que aquel- 
IcgloriofofanguejquefahiadasveasjnãoficaíTefumídojÔc 
cfquecido na terra : & levado para a cafa de Francifca a ca- 
beçajôc o corpo5puzeráo tudo em hum cayxáo , para o dia 
feguinte o enterrarem. Pafsèraó aquella noyte em darem 
graças a Deos pela honrajque fafia a todos ellesj efcolhen- 
doa hum feu parente para tamfublimceílâdo 5 por cujo 
mcyo efperaváo receber mais abundantesj & mais relê va- 
tes favores para bem de fuás almas. A outro dia onze de 
Mayo forão todos ao cayxáo , para compor melhor todo o 
corpo,& levalo para o fepulchro. Abrem, & ficão aílbm- 
brados;pois acham a cabeça unida ao corpo, como fe nam 
fora degolado,fò lhe aparecia no pefcoço o final da ferida. 
Maravilhofo na verdade hc Deos nas honras , que faz a fe- 
us fieis fervos , acreditandoos com prodigios para com os 
homens , & eftimulando juntaméte eílcs a imitarem íuas 
virtudes,para fe fazerem também dignos dos niefmos fa- 
vores. Nem fomente a Thomaz honrou Deos diante dos 

Ee que 



•^17 BREVES NOTICIAS DO 

que o tinháo viílo morrer juítíçâdo; mas também aos ou- 
tros trcs: os quaes fe foráo ícus companheiros do fofrimê- 
to das aíFrontcis,6< da pena no mefnío género de mortcjos 
divião também ler no deícubrimcnto dâ glorm&c da vià?i 
]m.mortal de que também clics gozavâo. Deixando pois 
humas repreícntaçóes, qucalgúas peíToas Idolatras ti ve- 
rão em fonhos: Como foy a que teve híía mulher, que fo- 
iihouvcr hum campo eípaçofo fcm Icmítes todo cheio 
de velas de cera branca muy fermofas mas apagadas. Apa- 
receo depoig Joaó Nguiem conhecido da mulher có húa 
vela aceía na mão? & foy acendendo as m.ais , que alli eíla- 
vão: & logo fe ouvio hum trovão eípantofojcom o qual íc 
abrio huma porta no Ceo5&: por ella entrou Joaó ricamé- 
te veffido. Outra mulher também gentia ouvindo dizer 
aos meímos pagãos mil louvores dos quatro , chamãdo-of 
innocentes 5 & fantos : & ouvindo contar alguns íonhosj 
que outras pcíToas Idolatras tiveram de fuás bemaventu- 
ranças no CeojdiíTe em húa convcrfaçao : como ella nam 
cria nem creria nada diíTo 5 fe algum dos quatro lhe nam 
apareceíTe. Sonhou logOjque via a Joaó Ketlam,que cha- 
mando-a com feu nome lhe diíTe : Bem fey q ue me ten- 
des por morto: aqui me vedes VÍVO5& fò tenho final da fo- 
rida,que me deraó; difto naó duvideis de aqui por diante. 
Acabou-fe o fon ho, & a mulher íicou tão certa do que vi - 
rajque o foy apregoando por todos com grande honra do 
Martyr5& credito de noíla fanta Religião. Eftes foraó fo' 
nhos;mas parecem myfteriosjôc femelhantes os lemos 
nas vidas dos Santosjcujas glorias revelava Deos naó pou- 
cas vezes cm. fonhos. Porém muy efperta efrava húa mu- 
lher por nome Cathcrina, quando entrando com os mais 
Chriftãos para onde eílavaó os ConfeíTores de Chriíto pa- 
ra ferem degolados^chegoufe a Joaó Ketlam, & beijando- 
Ihe os pôs por defpedidajachouos tam cheirofos? que dilia 
a todos , naó fer aquclle cheiro coufa da terra mas do Ceo 
pela muy ta? & extraordinária fuavidadc^quenelle ícntk^ 

Aíiim 



REYNO DA COCHINCHINA. 218 

Aílim pagava Deos a Joaóainda neftavida ospaílosque 
dera como Catequiítajpara a falvaçam das almas;fazendo- 
Ihc os pès naó íò ferrnoíos pela divina graça que repartia 
bautizando;nias também cheiroíos pelas virtudes.que có 
feu exemplo hia eiifmando a todos. 

Naó menos cuidadoía fe moftrou a Providencia Divi- 
na em publicar as glorias , de que Aleyxo eíhva gozando 
no Ceo. Pois tendo os Chriftáos poftp o leu corpo com a 
cabeça em hum cayxaó no dia em que foy morto ; ao ou- 
tro dia o abriram para fe confolarem com a vifta daquelle 
preciofo thefouro antes de o enterrarem : & achàraó a ca- 
beça cò as faces naó amortecidas como devia fer 5 por lhe 
ter íahido todo o fangue ; mas tam frefcas , & roíidas que 
naópareciãode quem morrera degolado? mas de quem 
vivia jà bemaventurado. Com outro mayor prodígio a- 
crecentou Deos mais as honras a efte feu fiel fervo; Hum. 
Chriftão por nome António grande amigo de Aleyxo ti- 
nha tomado huns cabellos com hús panos enfopados no 
fangue deftc gloriofo Marty r 5 & os guardava em fua cafa. 
Algús dias depois vindo António a Faifò , para fe confef- 
farjôc Commungar na vefpora do Efpirito Santo deixou 
hum feu moço Chriftão de idade de vinte annos para lhe 
vigiar a cafa. Efte pela devaçam5que tinha aos quatro,que 
havião padecido3&: foram mortos por Chrifto,fe poz a fa- 
zer oraçam diante das Relíquias de Aleyxo ; quãdo de re- 
pente vio fahir delias húa pequena luz. Parou aííombra- 
do da novidade: Ôc para fe certificar examinou as Relíqui- 
as 5 & vio que delias procedia aquella luz. Recc^ando qu« 
íoíTe illufaó do demónio , & não milagre de Deos ; affaf- 
toufe hum poucoj&pedio ao Senhor, foíTe fervido de a a- 
pagarjíe era engano do comum inimigo. No mefmo pó- 
to creceo tanto a luz? que o moço naó via nada do que ha- 
via na cafa 5 ficando cego daquella tão grande claridade. 
Certificado pois fer coufa de Deos 5 lhe deu as graças pelo 
fazer digno de tão extraordinário favorjôc pelos meyos q 

Ddij tomava. 



ST9 BREVES NOTICIAS DO 

toina^^n para honrar os feiís íantos. Contou depois tudo a 
Anton!o,& cite o foy cfpalhando pelos Chriílãos, & tam- 
bém pelos gentíos;pâra que aquelles fe anímaíTem a mor- 
rer por Chriílo,& eftes fe cóverteíTem ao mefmo Senhor, 
que com tantos íinaes publicava a verdade da Rehgiam 
Chriftã. • 

Nnô quero paííãr era filencio 5 o que aconteceo a hum 
foldadogentiocomobemaventurado Aleyxo. Eraoíol- 
dado da Cópanhia 5 cujo Capitão havia de executar a fen- 
tençadè morte nos quatro condenados. Receando pois á 
mulher delire Toldado também s^entia aue mandariam a 
íeu marido cortar a algi? dos quatro a cabeça? por íer muy 
deftrònaquelleofficiodhepedio encarecidamente o nam 
íi?xíFè;porqueelles eraô innocentes,&: íantos. Prometeo 
omar^ídoàmulherde não por fuás mãos nelles. Porém 
chegado com os mais foldados ao lugar da execuçaójO Ca- 
pitão chamou a efte foldado, & mandoulhe degolar a A- 
leyxó. Achoufeconfufooíoldado , por ver qne não po- 
dia gdàrdar a promeíTa à fua mulher , & juntamente obe- 
decer a feu Capitão; mas finalmente prevaleceo o temor 
do Mandarim ao amor da mulher , & degolou a Aleyxo. 
Voltou para fua cafa, 6c logo a mulher lhe deitou em rof- 
to a promeíTa naó cumprida: & o ameaçou de grande caí^ 
tigo,que teria do Ceo,por ter morto a hum innocente, & 
fanto. Envergonhado o foldado , & atemorizado ficou 
muy to trifte, ôc a muy ta malencolia lhe caufou fono : no 
qual lhe pareceo vera Aleyxo, que vinha em húa cadeira 
riquiffima acompanhado de grade numero de cortefaós: 
& chegando-fe a elle lhe diííe. A vos a vos agradeço,ter eu 
eíte eítado que vedes tão honrofo;pois vòs com hum gol- 
pe me meteíles de poíTe delle. Efpertou o íbldadorheio 
de prazer,& defejolb de fer Chriílaó, & de morrer tambe 
por Chriílo. Affim faó honrados ainda nefte mundo os q 
honramaDeosjfervindo-Oj & padecendo por feu amor. 
E fendo obrigaçam forçofa dar o fangue j & a vida para 

nam 



REYNO DA COCHINCHíHA. 220 

nam oíFender aquém tudo nos deu : a bondade Divina a- 
premea com* tanta liberalidade 5 o que por vários titulos 
lhe devemos. Quem nam fervira^nam honrará , & naó a- 
marâ a taó bom Senhor a tam cuydadofo Payja hum Deos 
mais pródigo que liberal! 

C A P I T L U O XVilI 

Cr ca o fervemos Chri[lhs emhravcce-fc mais ã^rjegiiiçaõ dos gentiosí 
Cr cãtij arque houve. Tormentos didos aos Confejfores de Cbrifio: 
Ú> glonofa morte de Tcdro T)ang. * 

EM claramente fevio neílcs tempos na 
Cochinchina;com o langue dos Martyres 
faíia mais fecundo o Campo Evangeh*co: 
6c Quanto mais mortificada era a igreia; 
tanto mais viçoía crecia > & tanto mais fe 
propagava. Pois os temores das prizóes, 
com que os perfeguidores procuravaó fazer defmayar aos 
fieis 5 avivavam nelles mais as efperanças de alcançarem a 
liberdade dos filhos de Deos: os tormétos lhes prometiaõ 
gozos: o Tangue derramado lhes ajuntava trofcos de glo- 
ria : & a morte temporal os metia de poíle da vida eterna* 
Pelo que os Padres que fe achavão na MiíTaójficàraó muy 
confolados na vifita 5 que depois deíla tormêta fizeraó da- 
quellasChriftandades; por as acharem nam fomente fem 
temor; mas antes muy defejoías de darem o fangucj&a 
vida por ]ç:sy Chriífo. Para que o demoniojôc feus minif- 
tros ficaííem abatidos,& vencidos, & naó foberbos 5 & vi- 
d:oriòfos;foy Deos fervido dommunicar fua luz a muy tas 
peííoas muy graves na Corte ; & entre ellas a húa Tia dei- 
Rcy , & à Irmã mais velha da Rainha : as quaes reparando 
no errado caminho da Idolatria, por onde hião para a per- 
diçaó,vieraó bufcara eílrada real da divina ley,que leva as 
almas à bemaventurança. Porefles bautifmosde gente 

Eciij muy 







r *•- 



221 BREVES NOTÍCIAS DO 

rnuy refpeytada pelo íangue3& eíiímada pelas letras: pelo 
esforço3& alegria com que os Confeílbres de Chriílo , le- 
vavaó os tormétos5& padecião a morte: & íobre tudo por 
fer a Religião Chriílã muy conforme aos diòlames de to- 
da boa raiaó; aílim o povo como as peílbas de mediana cí- ■ 
fera falavoó bem da Ley de Deosjcham.ando-a verdadeira, . 
ôcfanta. Sò aos Mandarins mayores lhes defeon tentava, 
naó por a acharem torpeíOU falíà ; mas por lhes deícobrir 
os errosjcm que vivião:& reprender as torpezas , com que 
fe criavão. Eraô efles do numero daquellesyqiJb não que- 
rem ver, nem ouvir ; porque naó querê deixar o mal que 
f azem;tratando 16 de fuás conveniências , & naó das pró- 
prias confciencias: querem antes hir errados 5 que viver 

emendados. 

Das coufas, que na Ley de Deos naó agradavam a efies 
grandesjhúa era a refiftencia, que encontravaó nas dózel- 
ks Chrifrãs para ferem fuás concubinas. Aoutrajouviré 
dizer aos Chrift aos ; como não alcançaria a vida eterna no 
Ceo,antes padeceria,eternas penas no infernojqué na ter- 
ra não guardaífe os divinos preceitos. Efte impedimento 
a feus defenfreados apetites , ôceíla lembrança de caíligo 
eterno na outra vida, lhes caufavão ódio à Religião Chrif- 
tã: Porque todo íeu cuidado , & empenho eílava , em ce- 
varem a carne como Epicuros;& como Atheos correrem 
fem temor â redia folta nas carreiras de todos os vicios.Ef- 
tando pois nomes de Settembro do anno de mil, & feifcê- 
tos,& feífenta , & quatro,muytos deftes Mandarins con- 
verfando no paço com o fogro delRey , & entrando com 
a pratica pelas coufas dos Chriftãos , diíTe o íogro delRey: 
A ley dos Portuguezes he deftruiçam do noífo Reyno: 
aonde ella entrou,naó houve mais querevoltâs,como ve- 
mos no Japaó. O meu parecer he , que fe extingua total- 
mente eíta ley,defterrando os Padres , 8c matando os nof- 
fos naturaes,que aprègarem, ou feguirem. Eíla fenteoça 
foy logo louvada , & aprovada de todos os circunírantes. 



nao 



^■x 



REYNO DA COCI-IÍNCHINA. 222 
naó fò para lifonjeorem ao Mandarim ; mas tambcm por 
aborrecerem a nuitidade d-à Ley de Deos. Tendo cada hú 
achado tão grande Factor de íua entran havei averíao ò. 
Religião Chriírã : falavão todos àelh o mal , que queríran 
privadib& pubh"cameíiie. 

Confinnou eiras falíidades levantadas pelos Mãdarins 
Cochinchinas hu iii Chi na chamado O^^co. Era eílc ho- 
Diem de grande capacidade/abia muytas Jiogoas, & tinha 
corrido muytas terras por cauía do contrato , q faíia có os 
navios para vários portos.Era grade faladorj&bé viílo dos 
grandes. Sendo Idolatra comunicava nuiyto com os fa- 
póesCbrifcãos moradores de Faifò, &íe moírrava muy 
devoto áo5 Padres, Foy QÍle mandado por ElP^cy da Co- 
chinchina a Siaó cm bufca de lalitre;mas porque lho nani 
quizeram venderjoam íey porque rafóes ; para fe eícufar, 
levantou hum teílirnunho aos Padres daCochinchina di- 
zendo; como poriíúas cartas 5 que eíles efcrevèraó aos do 
Siaójnas quaes diíiaó , que ElRey da Cochinchioa queria 
fazer guerra ao do Siaó;por iííb eíle lhe naó quiz dar licé- 
ça para trazer o falítre. Para acreditar pois,ôc a bonar tani 
grande falfidade, começou a fe moftrar ofEendidd dos Pa- 
dres da Ccchinchina : & do fingido feotimento paílou ao 
verdadeiro ódio não fò dos Padres , mas também da Reli- 
gião Chriílã. Pelo que voltando eíle an no de nr.\-> & feií- 
centos 5 ôc feílénta 5 & quatro de Batavia à Cochincliina> 
foy dizendo aos grandes 5 & minifcros da Corte , o que os 
Oíandezes tinham levantado aos Padres nojapaó, a faber: 
irem primeyro os Padres a pregar aieydos ChriiHo3 3& 
depois de ferem muytos os bautizados, levantarem-fc , cc 
chamarem aos Reys Chriftãos de Europa 5 para os gover- 
narem. Confirmou eílas patranhas com outra dizendo: 
ter fido eira a caufa, porque ElRey do Tunquim tinha la- 
çado fora de feu Reyno a todos os Padres. 

Folgarão çrandeméte os Mandarins inini J90S dc^Chri- 
íio aeítas noticias:& fem mais exame as tiveram por muy 

Eeíiij ver da- 



225 BREVES NOTÍCIAS DO 

verdadeiras. Encubriodo pois o ódio aos Chriílaos com a 
pa do 2:elo da confervaçam do Reyno, foram publican- 



c 



do por toda a Corte: como os Padres craó mãdados, & íuf- 
tentados pelos Reys de Eiiropajque nomeavaó por Supe- 
rior dos maisjaquem bautizaíle mayor numero dos natu* 
raes:& que havendo já multidão de Chriílãos , fe levanta- 
vaó com elles , & chama vaó aos Principes do Occidente, 
para íeré delles governados. Os Mãdarins do Real cófelho 
deram logo parte a ElRey do que corria por toda a Corte, 
encarecendo o perigOjque haveria na detença do remédio 
conveniente, &oíierecendo-fe preftes para executarem, 
oquefuaMageítadelhesordenaíTe. ElRey porém : ou 
porque não lhes ÓGfíh todo o creditOjpor ter bom concei- 
to da virtude dos Padres: ou porque naó quizeíTe quebrar 
com os Portuguezes conhecidos por homés de verdade, 
ora calava 5 &c ora reípondia com húas palavras, que nem 
moílravam que criajnem davam a entender,que naó acu- 
diria. Efta fufpençam , ôc irrefoluçam delRey foy intre- 
pretada dos Çhriftáos em feu favor : que ElRey não man- 
daria nada cótra a Ley de Deosjnem dos que aguardaílem; 
pelo que com pouca cautela, ou fervor menos acautelado 
íe ajuntavam para os divinos ofEcios , defcuidando-fe do 
que era do ferviço delRey. Deíle defcuido fe fervio o de- 
mónio para arruinar por meyodefeus miniftrós aquella 
tãocrecída Cbriftandade. Pois aos quatro de Dezembro 
apareceo na publica audiência hum Mãdarim da Provi n- 
cia de Dinh cat , & fez queixas dos Chriíláos a ElRey di- 
zendo:que faltavão às obrigações do ferviço de fuaMagef- 
tade:nem pagavão os tributos; mas como enfeitiçadosjfò 
trata vão defeguir aos Padres 5 fem elle os poder tirar dííío 
com nenhum temor de caífigos. Como ElRey ficava jà 
receolojpelo que os grandes lhe tinhão relatado , do que 
diíia o China Quico : temeo-fe mais , quando ouvio tanta 
aíFeiçam dos Chriftãos aos Padres , 6c tanto empenho em 
feguilos. Porém pofto que fe moílraíle irado, nem por if- 

fo 



REYNO DA COCHINCHINA.^ 224 
fo fe reíbl veo a matar : lo deu ordem a huns Mãdarííietesj 
foílem examinar o que havia naquellas aldeãs, para elle 
ter verdadeira enformaçaõ. Mas eíles affim pelo odió 
que tinhaó à Ley de Deos,como para fe declararem zelo- 
íos do bem do Reynojôc obíequiofos à ira de íeu Rey;não 
íbmente fe informavaó dos procedimétos dos Chrifmos; 
inas os vexavá05& deílruiaó luas cafas, coníifcádo para fy, 
quanto nellas achavaó. Ouvindo porém como alguns 
Chriílãos em particular os da Aldeã dos alfayates do Paço 
queriaó dar queixas a ElRey deíles roubos ; os Mãdaríne- 
tcs de reos fe íizeraó acufadores, levantando crimes falfos 
contra os innocentes Neófitos. Em quanto em Dinh caC 
fe fafiam eífas rigoroías pefquifas contra os Chriílãos , fe 
ouvio na Corte à boca da noyte de oito de Dezembro hú 
efpãtofo trovão, que por fer infolito naquelle tempo, deu 
muy to que temer. È creceo muyto mais o temorjquan- 
do na noyte feguinte das nove apareceo aquelle Cometa 
de mil, & feifcentos , & feíTenta & quatro vifto 5 obferva- 
do , & muy temido em Europa. Porém os Cortefãos na 
Cochinchina o interpretaváo com lifonja a favor de feu 
Reyjdizendoique aquella cauda,que elles chamaó vaíTou- 
ra,havia devarrer o caminho de Tunquim 5 para feu Rey 
entrar nelle vióloriofojôc triunfãte. Mas os Japóes Chri- 
fíãos pronofticavaó algum ruim fuceíTo às Chriílandades; 
porque difiaó,que antes de ferem lançados fora do Japanx 
todos os Padres na derradeyra perfeguiçam de miljôc feií- 
centosjôc quatorzcque dura atègora , apareceo no Japani 
hum femelhanre Cometa. Aos Neófitos pois Cochin- 
chinas deu menos que temer;porque eftavaó jà muy me- 
drofos por outros finaes tanto mais temerofosjquãto me- 
nos viftos. Eraó huns caranguejos grandes , que na cafca 
de cima tinhaó no meyo huma Cruz bem formada gran- 
de,& de cor quaíi vermelhajôc tão clara, q muytos Chrif- 
tãos pobres , por fenaó atreverem a ter em cafa Jmagé ne- 
nhúa^tinhaó pendurada aigúa deftas caías para fazeréíua 

Ff oraçaô 



^25 BREVES NOTICIAS DO 
praçâó diante daquella Cruz. Semelhantes caranguejos 
tornarão a aparecer dezoito annos depois 5 quando os Pa- 
circsJoraó chamados para Europa. 

Eíiando a Corte com eíperanças de novas conquiftas 
noTunqufm: & os Chriftãos com temores de grades per- 
das da Religião : pelos Mandarinetes enviados às Aldeasi 
forão traíidos a Corte aos treze dias de Dezembro muy- 
tos Neofitosjhuns com cangas ao pefcoço? outros aperta- 
damente amarrados : & todos tão moleílados com os mã- 
os tratos?que os foldados lhes tinhão dado no caminho, ^ 
íò demónios 3 & não homés podiaó fazer femelhátes cru- 
eldades. Logo que ElRey foube da chegada dos prezos^ 
nomeou três Mandarins muy graves 5 & os mais cruéis? q 
havia na Corte; para que com a authoridade , & com o te- 
rnor os obrigaílem a largar a ley dos Portuguezes : & a efte 
iim lhes deu grandes poderes para confifcarem fazendas» 
darem tormentos 5 5c fazerem todos os males aos Chriftã- 
os;íò lhes não concedeo 5 tirarem as vidas. Naó fariaó tão 
grande eílrago os leóesjque aíTanhados correíTem pelas ci- 
dades: nem íèria tanto o dano 5 que caufaíTe o incêndio af- 
ioprado de furiofiffimos ventos;quanta foy a dcftruiçam» 
que cftes Mandarins inhumanosjfacrilegos 5 & diabólicos 
íizeraó naquella Chrií]:andade,em particular na Corte.Os 
foldados mandados para prêderem os Chriftáos bufcavani 
íudo5&: tudo defcompunhaó para acharé contaSí ou Ima- 
gens Sagradas:ôc dando com ellas,amarravaó aos donosjêc 
punham fogo às cafasificando em cinzas, quanto nellas íc 
achava. Naó fe via outra coufa na Corte, & em feus arra- 
baldes mais que incêndios 5 & Chriftáos prezos : Nem fe 
ouvia pelas ruas fe naó blasfémias contra a Ley de Dcos: 
& ameaças aos que aguardaífem. Eraó repartidos os pre- 
zos por Chrifto por vários lugares abertos como açou- 
gues de Chriftáos. Onde a braveza dos Mandarins prefi- 
dentes: a crueldade dos Míniftros exccutores:as vozes dos 
gentios circunftaatesjque pediaó os mataflem : os choros 

doi 



REYNO DA COCHlNCHINA. 226 

dos parentes idolatras > que exortavam a que renegaííem: 
ôc à vifta de tantos inílrumentos de morte , & do langue^ 
que corria em riosjbaíhvaó para meter pavor5& aííugen- 
tar aos mais generoíos leões. Porem os mancos cordeiros 
de Chriílo muy íocegados , & alegres en travão pelos tor- 
nientos>queíocedendo-reh uns aos outros,hiaó padecen- 
do ; & com tal conftancia ? que davaó a entender a todos: 
como tinhaó por regalo, fofrer as dores: & por honra, dar 
o Tangue por íeu Redcmpton O que fomente os ator- 
tava,era,verem como alguns acometidos do medo,fugião 
da peleja: & largando a Fè,perdiam a viftoria. Eíle foy to- 
do o fentimento de Pedro Dang prêzo com outros três 
fidalgos , todos quatro da guarda delRey. Levados pois â 
audiência publica, & perguntados por ElRey: fe algum 
dellcs era Cliriíláo. Hum cheio de medo , reípondcra ; q 
receberam a ley dos Portuguelzies ; mas que jà a naó guar- 
davaó. Eíperava Pedro , que os dous companheiros def- 
mentííTem ao Apoílata , conf eíTando íerem Chriítáos , & 
quererem morrer naFè deChrifto. Mas vendo como o 
temor os faíia emudecer, trefpaíTado de dor pela afFronta, 
que recebia a Ley de Deos^levâtou a V0Z5& áifít: Senhorj 
em primeyro lugar devo eu obedecer ao Rey dos Reyssôc 
Creador do Ceo,da terrajôc de todas as coulas ; & depois a 
voíía Mageílade. Ouvio ElReyaproteíiaçam de Pedro: 
mas diffimulou', nem lhe difle nada. Cuidando Pedro , q 
naó fora ouvido, por falar manco, ou com medo: levãtou 
com mayor esforço a voz,&: repetio o mefmo.Eftranhou 
todo aquelle cortejo efta acçam de Pedro, por lhe parecer 
atrevida:& ElRey envergonhado, por fe ver em prefença 
de taíitos cortefaós pofpofto ao Senhor do Ceo ; cheio de 
collera mandou que logo o degolaílem : o que fe execu- 
tou no mefmo dia dos vinte , & dous de Dezêbro de mil, 
6c feifcentos, & feíTenta, & quatro. Cuidou ElRey , que 
a morte de hum poria medo a todos de fua família : &: que 
para naó perderem a vida> deixariam a Fe. Para le certifi- 

Ffij car 

/ 



S27 BREVES NOTICIAS Dó 

car maisjdific dentro do paço a feus criados: que fe algum 
delles foíTe Chriftáojlargaffe as armas , para fer també de- 
golado. Apenas tinha EIRey acabado de falar, quando 
\ íOjComo dos fincoenta pagens que tinha, quafi todos la- 
çarão íuas catanas no chão. Embravecido EIRey ,& en- 
vergonhado entrou dentro de húa fala : como leaó feroz 
que affugentado de fuperior poder 5 fe retira para íua co- 
va. 

Era Pedro Dang filho de hum grave Mandarim, que 
governara a Província de Quang Nohíajonde naceo, & a 
prendco fuás letrasjpara feguir as pizadas de feu Pay. Mas 
ficou para dona carreira de íeus eftudos , por lhe morreré 
o Pay,^" a Mãy. Com eíle defgoílo largou as honras lite- 
rariasjõc cafando-fcjfoy vivendo em fua terra privadamê- 
et. Querendo depois EIRey levantar humas companhias 
de Fidalgos cavalleirosjfoy Pedro chamado para a Corte;' 
daqual voltovamuytas vezes para a fua Provincia , por 
caufa dos negócios de fua cafa : & também para teraí- 
gúas ferias das armas, & feoccupar no cítudo das letras. 
Neítas idas , & vindas fe agafalhou huma vez em cafa de 
húa fenhora viuva por nome Águeda moradora emTu« 
ram , a qual começou a falar com feu hofpede da Ley àc 
Deos: quam ajuftada era à rafaó : & quam pura , 6c pia era 
das fuás ceremonias. Moftrou Pedro grande defejo de ler 
algum livro defta Religião ; pelo que avifou logo Aguedá 
ao Padre da caça,que lhe tinha entrado em caía, pcdindo- 
Jhe,mandeíre o Catequifta com huns livros de noífa fanta 
ley,paFa que com elles, & com as praticas fizeíTe preza da- 
quellaalma. Efuccedeo tudo à medida do defejo da pia, 
& zelofa Matrona. Naó ha duvidajque fe as converfaçócs 
foífem de Deos, haveria mais converfóes; & porventura 
íis mulheres com abrandura de fuás vozes fariaó muyta 
mais, do q ue com feus brados fazem dos púlpitos os Pre- 
gadores. Ficou logo rendida à vontade de Pedro , porque 
feu entendimento fe achou[prç2o dos fortes laços da ver- 
dade 

■ ■ ■ \ 



REYNO DA COCHINCHINA. ^28 

cladc: aprendco o catcciímo:& recebco o íanto Bautiímo. 
Foy tal a mudançajque a divina graça fez em íeu coração} 
oue para fenaó diílrairjíiem perder o tempo em ler livros 
]niiteís á fua íalvaçaó ; queimou os que tinha , & bufcou 
outros que tratavão dos Myíterios de noíla Santa Fè : dos 
quacs tombou tantas noticias , q na Corte pregava a todosí 
& de todos era muy refpeytado 5 naó fò por bem pregar, 
mas também pelo bem obrar. Frequentava os Sacramen- 
tos com grande preparação ; & por iíTo recebia delles tãta 
luz 5 & fervor de efpirito , que muytas vezes foy ouvido 
dizerjque defejavajO levaílem prezo diante delRey , para 
ter occaíiaó de o enformar da verdade de noíTa fanta Reli-* 
gkòj&c de dar o fangue5& a vida pela confiíiaó da Fê. Ef» 
tes deícjos de pregar a Chrifto Crucificado aos Príncipes, 
& de padecer5& morrer por feu Redemptor,© faíiaó nam 
fò defprezador de todos os perigos 5 mas ainda procura- 
dor;pois nas prefeguíçóesjque fe levantavaó , naó fô nam 
efcondia as Imagens , de as outras coufas fagradas ; mas as 
punha patentes a todos quantos paílavaó , Sc elle fempre 
em caía: efpcrandojpor quem o levaíTe prezojôc o mataíle 
por profeííar a Ley fanta de Deos. O qual finalmente có- 
cedeo a feu fiel fervco que tanto defejàra: coroando com 
coroa de Martyrio na Corte de Sinoa fendo de idade de 
quarenta annos. 




'fiij CAPI' 



329 BREVES NOTÍCIAS DO 

C A P I T L U O XIX ' 

*Tri^o-iO^ acslcrro dos Judiei. 

^^ff^^M S Padres da Companhia de JcsvsMííTio- 
w5^^I?^?^<^íyV narios daCoroa de Portugal naó íò tinhaó 
^^(^m&^^\ P^^i''tado a Fè na Cochinchina no anno 
''m^^PíWÈ nii],& íeis centos,^: quinze:mas também 
^í¥^^^ cllcs fomente a tinhaó propagado atè eíle 
'^^^^f^2É^í4. ^^ j^ji ^ |çjg centos 6c feílenta 6c quatro: 

& trabalhando fucceili vãmente niais de quarenta obrei- 
ros, ora poucos, oram uytos conforme lho permitiaó as 
tempeftades das perfeguiçóesj levavaó todo aquelle pezo 
da MiíTaó; por cuja cauía huns padecerão açoutes : outros 
cfiiveram cm priíóes : 6c todos fe arrojarão aos evidentes 
perigos dos naufragiosjem que algús falecerão. Criada po- 
is eíla vinha do Senhor com taes empenhos , 6c regada cò 
o fecundo íangue de tão esforçados Martyres , fobre tudo 
r.ílirtida das benignas influencias do divino Sol, que fò el- 
le dà os augmentos , ficava jâ tão eílendidajôc viçofa , que 
com fuás grandes varas occupava naó fomente o Rcyno 
da Cochichina;mas também o de Champà veíinho,6c tri- 
butário a ElRey da Cochinchina. Pois por todas as Pro- 
víncias da Cochinchina não fò nas Cidades56cVillas havia 
Chriíláos com fuás Igrejas,ou Oratonos;mas quafi em to- 
dos os lugares: como também nos portos de Champà , to- 
dos povoados de Cochinchinas,fe achavam adoradores do 
verdadeiro Dcos com fua cafa,em que feajútavaó aos dias 
fantos para rezarem , & fe encomendarem ao Senhor : 6c 
cm que ouviãò MiíTajSc recebião os Sacramentos,quando 
o Padre vifitava aquella Chriílandade. Contavaó-4è neíte 
tempo mais de quarenta mil almas Chriflãs: entre as qua- 
cs havia grande numero de peílbas muy authorizadas por 
le£rasj& muy illuílres por fangue^ôc da caía real entrrváo 

húa 



REYNO DA COCHINCHINA. 230 
huaTia delRey com féis filhos 5 & aírfhã mais velha da 
Rainha: ambas as Príncezas tinhão o nome de Maria. Tu- 
do iftooílentava as grandes Mifericordias , de que Deos 
uiava com aquelles naturaes: & encarecia muy to os gran- 
des trabalhos dos Miííionarios da Companhia dejesvjpor 
cuja conta corria todo o governo daquellas almas. Porém 
o que mais refplandeciajera a grande, & verdadcyramen- 
te real piedade dos Sereniííimos Reys de Portugal, quan- 
to menos conhecida dos homês , tanto mais grata a Deos: 
por cujo zelo â cufta de tanta fazenda real 5 Ôc das vidas de 
tantos feus esforçados vaílldlos? tantos milhares de almas 
]ivresjà pelos feus MiíTionarios do cativeiro da idolatria 
gozavão da liberdade dos filhos de Deos;& vcftidas com a 
jica vefre da divina graça erão admitidos, & fe aíTentavam 
àmefa dos Anjos. 

Três erão os Miííionarios,que nefte anno de mil 6c féis 
centos & feílènta & quatro , apacentaváo efte numerofo 
rebanho do Senhorja faber: o Padre Pedro Marques fupe* 
ríor da Millàm nacido no Japaó: o Padre Domingos Fuci- 
ti Napolitano : & o Padre Francifco Ignacio Baudet Frá- 
cès. Faltava o Padre Francifco Rivas Napolitano, por ter 
ido vifitar Camboja, & na volta por húa tormenta , q lhe 
deujnaó pode tomar a Cochinchina,& foy obrigado a en- 
trar em Macao. Aífiftião eftes três obreiros repartidos em 
três camposjque neceffitaváo de mayor trabalho , por ha- 
ver nelles muy eílendidas Chriftádades ; o Padre fuperior 
Pedro Marques no porto de Faif ò , o Padre Francifco Ig» 
nacio em Turáo , Ôc o Padre Domingos Fuciti , na Corte 
de Sinoa : & deftas três Refidencias fahião a vifitar as Pro- 
vincias,que a cada hum pertenciaó. 

Além deftes Sacerdotes da Companhia de JesVjfe acha- 
va então hum Padre Clérigo fecular de naçaó Frãcès, por 
nomeLuis Cheu reul 5 o qual no Julho deite anno de mil 
6c féis centos,6c feíTent^, & quatro,tinha vindo do Siaó:6c 
íoyo primeyro MijT '"'o ãd Sagrada Congregação de 



231 ' BREVES NOTICIAS DO 
Propagiinda JbidequepoíeíTc o pê na Cochinchina. Tu 
iihaó também entrado em Faifò na meíma monção dous 
Religioíos Capuchos Portuguezesj hú Sacerdote por no- 
me Frey Bernardo de Jesv , o outro era Corifta , & fe cha- 
mava Frey Boaventura da Natividade : os quaes indo de 
Goa para Macao-Jnvernâram na Cochinchina 3 por acha- 
rem os ventos contrários. 

Todo o empenho pois dos inimigos da Ley de Chrifto 
eíhva,em lançarem os Padres íòra do Reyno. Porque era 
Biuy focilsdesbaratar, & vencer hum exercitOjquãdo não 
í inhãojquem o governaíTe: 6c toda a nao íe perde , fe nam 
ouver quem mande ao leme. Pelo que fizerão , que El- 
Rey ÒQÍ^Q; ordem a hum Mandarim feu genro, para pren- 
der,& levar a Faifò ao Padre Domingos Fuciti 5 que aílif- 
tia na CortCjôc morava na Igreja do Ocunhajoaó da Cruz 
( íò eíh Igreja era publica 5 porque foy concedida por El- 
Rey à familia do dito Ocunha j & toda fua gente era de 
Macao) Aos vintCjôc féis de Dezembro foy hum foldado, 
veftido de Bonzo em húa barquinha de hum fò remo na 
popaíôc intimou ao Padre a ordem do Mandarim valido, 
para fe embarcar nella. Obedeceo logo o Padre tomando 
íeu Breviário 5 & achou na barquinha hú alfange defem- 
bainhado com mais huns cordéis : Quiz o Ocunhà acom- 
panhar o Padre com feu bargantim: & feu filho Clemen- 
te da Cruz entrou na barquinha. Não queria admitilo o 
Bonzo,dizendo: como tinha ordem de atar 5 & lançar no 
rio a qualquer peífoajque fe quizeíTe embarcar com o Pa- 
dre. Porém logo que foubcjquem era o mancebo o Vali- 
do a todos três com muyta cortefia^começou logo a dizer: 
como a ley do Padre era muyto boa para os Portuguezes, 
íiaó porém para Cochinchinas; pois em a receben3o,fica- 
vão doudos. Pedio então o Ocunhà > q o Padre ficaífe em 
fua cafa para a fua familia , que toda era Chriílãj nem El- 
Rey o ignorava: mas vendo como nam era poíTivel alcan- 
çar do Mandarim eíle favor? lhe pedio ? que o Padre foíTc 

bera 



n r> ''* 



REYNO DA^COCHINCHINA. 25 
bem tratado no caminho. Rcípondeojque iíTo ie faria ; & 
mandou a dons ibldados , foíleni com o Padre atô à barra. 
Tornou o Padre a fe embarcar na nieíma barquinha: & 
chegado á Bar raífoy entregue ao Bonzo ío]dado,para que 
o acompaohaí]'e ate Fayfo por terra. Mas o Bonzo o ioy 
levando por taes caminhos íolitarios ? & exirc-íordioarios, 
que o.Padrc a cada paíJo cuidava , que o mataíle. Pelo que 
hia fazendo contínuos oíFerecim.entos de íy a Deos para 
a iaivaçaó daquellas almas^que deixava tão deíemparadasj 
ficando íem paílor entre tantos lobos carniceiros. 

Ncfce meímo dia vinte & féis de Dezembrojcm que o 
Padre Domingos Fuciti partio da Corte para Fayfo ; teve 
o Padre Marquez avizo em Fayfo , como ElRey tjnha 
mandado ordem aos Mandarins de Cachão para o préde- 
rem. Mas quem deu ePcàs noticiasjacrecentourcomo o Pa- 
dre Domingos Fuciti fora morto na corte. Agradeceo o 
Ridre Marquez aquém lhe trouxe tão boas novas , & en- 
trando na Igreja,fe oíFereceo a Deos para tudo o que foíTo 
de fua may or gloria. Depois cortou ieus cabellos 5 para q 
iiaó foílem de impedimento ao foldado , quando lhe cor- 
taíle a cabeça: bufcou mais deefmola húa barrajou peda- 
ço de prata de Japaó,que tem o pezo de féis patacas pouco 
mais 5 ou menos , para a dar ao algoz em final de agradeci- 
mento. A«boca da noyte do mefmo dia vinte & féis che- 
gou a Fayfo outro aviío: que todos os Padres eftrangeiros, 
'quefeachavaó naquelleporto , havíaóde morrer. Com 
cilas novas tanto mais feftejadas , quãto menos efperadas, 
acudirão logo à Igreja do Padre fuperior Pedro Marquez, 
afiím os dous Religiofos capuchos Portuguezesjcomo tã- 
bem o Sacerdote Francês Luis Cheureul ? para fe darem 
liuns aos outros os parabens;& também para naó perderé 
os foldado o tempos^em bufcarem a cada hum em fua ca- 
fa:& todos juntos efperavaó com anciãs, por quem lhes 
trouxeíTe a palma 5 & coroa do Martyrio. O Padre Frey 
Bernardo dejesv, com^ ato na terra có íníkncias pe-. 
^ * Gg dio 



233 BREVES NOTÍCIAS DO 

dio ao Padre íuperíor ? lhe enfinaíle como -íè li-avia clle de 
por? quãdo o foldado o degolaíTc. Taó grande esforço c6- 
niimica5& dà a Fè divinajque naó iòniente iiaó faz temer 
a moríejiiias ainda a faz cefejar! 

Ficava cada hum dos Padres difpondo c5 actos de pie- 
dade fua ahiia, para receber de Deos a grande mercê , (]iie 
elle coíluma h/LQv a miiy poucoSíqual hc a morte pel í có- 
íiíiaó de fua divma ley : tendo todos enveja ao Padre Do- 
mingos Fuciti 5 quedifiaójtinha dado a vida por Chriiro 
na viagem;& o confirmavaó huns Chrifraosjque partidos 
da Corte depois do Padre , naó tinhaó achado nov as delle 
em Turaó.Porèm como Deos permite naó poucas vezes, 
que íe dem huns rebates falfos? fomente para fe cfpcrtaré 
em feus fervos os defejos de padecer por feu amor.CJiian- 
do menos fe elperava? apareceo vivooPadreFuciticm 
Fayfo aos vinte 6c nove do mcfmo mez ? & por hum Mi- 
niílro real foy levado à cafa dos Padres com expreíla ordê 
de naó pôr pè fora delia. Com efta viíla ficarão os quatro 
pefarofos ; porque fedefvaneciaó em parte as efperanças 
de morrerem todos pela fanta Fè. Porem ficarão coníola- 
dosjÔc mais animofos 5 quãdo na tarde do mefmo dia che- 
gou hum Mandarinete de Cachaóà Igreja, & tomando 
por rol os finco, & também os criados de cafa dos Padres, 
pòs doze homês de vigia na porta com apertadi ílimas or- 
dens5de naó deixarem entrar , né fahir pcfiba algúa qual- 
quer que foíle. Deceo juntaméte de Cachaó a Faifo muy- 
ta gente a pè , & a cavallo todos armados : & entrados em 
cafa de Bà Maria mulher que foy do Governador daquel- 
las Provinciasjpor lhe acharem dentro húas cotas, a quei- 
marão toda. Ao dia feguinte trinta de Dezembro manda- 
rão os Mádarins desfazer as cafasjem que moravaó os mo- 
ços dos Padres 5 ôc os ievàraó prezos. Ncíle mefmo àk\- 
trouxeraó deTuraó o Padre Francifco IgnacioBaudet:êc 
tomando por rol a todos leis : a faber três da Companhiav 
dous Capuchos, & o Clçrigo francês ? duas vozes cada dia^ 

fafiaó 



REYNO DA COCHINCHÍNA, 234 
fafiaó rezenha-delies. Grandes craõ as fieceílidades , que 
padeciaó os íeis prezos , pela muyta falta de provimentos 
neceílarios; nem lhes podiaó vir de fora pelos grandes a- 
pertos das fmíinellas. Porém a Providencia divina entam 
mais facilmente acode a íeus fervos , quando a crueldade 
dos inimigos da Fè fe moftra mais barbara , &c mais obfti- 
nada. Poíto que todos tiveíTem medo de levar foccorro 
aos Padres5para fenaó declararem por Chriftâos ; com tu- 
do dous mais induftriofosjporquecharitativosj lhes foraó 
metendo dentro com varias traças? o que era precifo para 
fuaíuílentaçam. 

Aos dous de Janeyro do anno de mil & feifcêtos,& fef- 
fenta & íinco , vieraó a Faifo huns vinte foldados manda- 
dos pelos Mãdarins de Cachaó ; de depois de viíitarem aos 
Padresjlhes pedirão a Imagé 5 que coílumava eftar no AI* 
tar, era hum painel de NoíTa Senhora 5 dizendo : como a- 
quelles fcnhores a defejavaó verjnaó para lhe fazerem de- 
lacatOjmas para íe admirarem da artcjcom que eftava pin- 
tada. Sofpeitàrraó logo os Padres o diabólico intento,que 
poderiaó ter aquelles inimigos declarados de Chrifto j & 
refponderaó aos enviados : que primeyro levarião elles as 
cabeças de todos os Padresjque a Sagrada Imagem. Come- 
çarão os foldados ablafonarjôc a ameaçar; mas vendo > co- 
mo os prezos eftavaómuyconftantes em largarem antes 
as vidasjque aquelle fagrado paineljforaó chamando a ou- 
tros gentios: & juntos? quaíi íincoenta fearremeííaraó to- 
dos à Sagrada Imagem5& como achaílem pia , & generofa 
reíiílécia; pelos Padres pegarem todos5& terem mão nel- 
la;enveftiraó como tigres com os Padres defcompondo- 
osjpuxandolhes pelos cabelloSíôc pelos pèsj&arraftando- 
os pelo chão. Por fer tanto mayor o numero dos aggreíío- 
resjalcançarão vitoria contra os poucos defenfores defar- 
madoS)& levàraó o preciofo defpojo da Sagrada Imagem. 
Porventura não quiz a Senhora obrar feus coftumados 
milagres para fe defer^t-í 5^ livrar daquellasfacrilegas 

Gg ij mãos; 



-3f BREVES NOTICIAS DO 

mãos; porque queria também ella padecer com feus ama- 
dos íervos. Mas poílo que a companhia nos trabalhos feja 
de alivio aos que os padecem. Aos Padres porém lhes cau- 
íoumGyorfeíitimento;pGrquecomodeíprezavão com a 
viú9. quanto havia neile mundo,&: fòmente zeJavao a hó- 
rade Deos: por iíío fcotião tanto as aíírontas que fe faíiaó 
à Mãy de Deos 5 que todos choravaó inconfolaveimente. 
Crecèrao depois muyto mais as lagrymas do fentimentOj 
cjuando íbuberão : como o Conful dos Chinas affiftente 
em FaiiOjIdolatra;& inimigo dos Chriftãos,para lifonjear 
a ElRey5& 'à íeus Mioiftros no ódio 5 q todos elles tinháo 
à Ley de Deos : mandara pintar por hum China gêtio hú 
pàynel de Chrifto Crucificado: & depois dera ordem5quc 
o lançaílem no chão dentro do pateo de fua cafa , & que 
todos feus criados lhe pofeílem os pès em fima,& o pizaf- 
íem como coufa abominaveL Affim o fiferaó com gran- 
de feíla os facrilegos 5 levando os aplaufos do diabólico a- 
íno,& dos mais Chinas convidados para tão horrendo eí- 
peélaculo. Não lhes fofreo o coração aos Padres 5 deixaré 
paíTar tam grandes defacatos f ey tos a Deos noíío Redem- 
ptor fem algiia demonílraçaó de obfequio para quem ha- 
via fido tam defprefado. Mas como por eftarem prezes, 
não podeíTem fahir , para adorarem 5 & porem íobre fiias 
cabeças aquella Imagem do Senhor? fiferaó dentro do lu- 
garjonde eftavaõjadoraçaó a húa CruZjquc alli havia 5 co- 
mo fe coftuma fafer na fexta feyra Mayor: defeja^ido cada 
hum dellescom fuás lagrymas Javar naquelle divino rof- 
to as manchas 5 que lhe tinhaó deixado os pès im mundos 
daquelles idolatras. 

Com eftas defconfolaçóes efpirituaes muyto mais ma- 
goados, que com as incomodidades corporaes5pafiavnó os 
féis prezos os dias,& as noy tes em oraçaó: pedindo có fer- 
vorofos rogos 5 & affeétuofas lagrymas a Deosjfofie ibr vi- 
do poros piadofos olhos de fuamífericordia fobrc aquel- 
le íeu rebanho : akimíafíe cqjx, fua luZi aquella tão grande 

ccsuei- 



REYNO DA COCHiNCHlNA. 236 
cegueira: & com íua poderoCi graça gbrandafie a obitina- 
çaó daqoelles cruéis perfeguidorcs;para que conhecendo 
a verdade de fua íaata ieyjU recebeíiera,ôc guardaíTeni: oí- 
f erecendo cada hum dos Padres íeu íangue, & vida em fa- 
críficioparaafalvaçaó daquelias ahiias. Em quanto pois 
os prezos por Chriíto fe hiáo aparelhando para o que El- 
Rey dirpoíeíle delles, para a vida ? & para a morte ; naó fe 
deícuidavaó de trabalharjpara que fe lhes reftituifle o pai- 
nel da Senhora : aílim para livraria de niayores aíFrontas; 
como também para terem comíigo tam poderofa avoga- 
dajcom cuja viíta fe confolavaó : 6c fe alêtavaó nas molef- 
tiosjque padecião,ôc nos perigos em que fe achavão.Niílo 
chega ordem da Corte de Sínoà : que todos féis fejáo def» 
terrados para o Reyno de Sião. Aparecem logo os Manda- 
rinsjÔc notiíicão aos Padres a fentença real,diíendo;como 
.os três da Companhia fe embarquem logo: ficando os ou- 
tros três para irem depois em outra occaíiaó. Havia então 
no porto duas embarcações para Siaó : húa pequena? que 
podia entrar em todos os rios: a outra mayor 5 & de alto 
bordo> Difpòs logoDeos,que os Padres da Companhia ? q 
íàbião a lingoa Cochinchina? toíTem mandados hir na pe- 
quenajpara poderem de Caminho animar , & confolar as 
Chriftandadesjque havia em todos os portos atè o Reyno 
de Camboja. 

O mefmo foyjintimarem aos trcs Padres o defterro 3 q 
irem nos levando para hum bargantimj que eííava apare- 
lhado. Pelo que naó tiveram os Padres mais tempo , que 
para eílcnderem a máo,& tomarem o Breviario,& levan- 
tarem os olhos ao Ceojencommendandolhe toda aquelía 
Chriftandade. Banhados pois em lagry masjparte pela ale- 
gria de fe verem de gradados pela Fè 5 & parte de triíleza, 
por ficarem aquellas ovelhas fem Paílor : foram andando 
para o bargantimjque os levou primeyro à cafa do Cóful? 
ou Capitão dos Japóes,de crias mãos receberão a imagem 
da Senhora reíiltu'-^ / ndarins deCacha6:oufoífe 

Giíj para 



n o 



37 



BPvEVES NOTICIAS DO 



para fe mofcrarem fieis na promcS^que fizerãoj de a quc' 
rercni ver fomente: ou foírejôc parece mais provável, pe- 
la Senhora querer coníblar a íeus fervos,acompaoiiando- 
os naquella v]ageip?& defterro. 

Com efia companhia doCeofefoy aliviando ofenti- 
nientojque os Padres levavão daquella terra;porque a Se- 
nhora já não ficava expofta naquella fua Imagem às aíFró- 
tas daquelles lniieis:& com a continua viíta defta Efttrel- 
la os Padres não fe temiáo das tormentas do mar, nem das 
perfeguiçócs dos homens. Para implorarem pois o patro- 
cina de tão poderofa Senhora , levantarão na proa o Sa- 
grado paynel , & poftos todos de joelhos hião refando em 
voz competentemente alta as Ladainhas da mefma Se- 
nhora. Áílom brados da novidade os foldados gentiosjque 
os acompanhavão para os entregar ao naviojque eítava ef- 
perando na bocca da barra? não fe atreverão a lho impedi- 
rem: ôc pofto que calados não alcançaíTem o fentido das 
palavraSiCom tudo da muyta compoílura? & devaçáo cò 
que os Padres refavãojfafiáo conceito , ferem aqueíles ef- 
trangeiros homens pios , & aquella Imagem ièr de algúa 
peííoa do Ceojcujo favor pcdião para aquella navegaçam. 
Porém os Chriftãos , affim os que embarquinhas hião fe- 
guindo os Padres de longe : como os que parados nas pra- 
yas os avião paílàrjfe desfafiaó todos em lagrymas 5 vendo 
partir os Pays de fuás almas com pouca 5 ou nenhúa eípe- 
rançade os tornarem aver outra vez. E porque o temor 
delRey lhes naó dava animo nem lugar a fe chegarem ao 
bargãtinijpara fe deípedirem dos Padres , & tomarem fua 
bençam: com amor de filhos muy queridos fe detinham» 
em pedir a Deos com lagrymaSjSc foluçosjos levaíTe a fal- 
vament05& lhos reftituiíTe o mais cedo,que pode/Te íer. 

Chegados os Padres ao navio,& embarcados nellc íe de 
tiveraó quatro dias furtos dentro da barra pelo m ar cílar 
alterado,& tempeftuofo. Sérvio porém efta tonr.enta pa- 
ra foccegar as conciencias de íJ^í^.uns Neófitos, que acudi- 

- ^ . '■ 

rae 



REYNO DA COCHINCHINA. 258 
raô aos Padres para íaircm do abiimo da apoílaíia? em que 
cx)mo fracos tinhaó caido,prccipitados do iisedo, nam le- 
vados da vontade. Foraó também outros muytosClirif- 
trios5para íe íortaicceré com os Sacramentos,^ por raeyo 
dellcs alcançarem de Deos a perfeverança na confiilaÔ3& 
guarda deíua íanta ley. A todos ex horta vauí os Padrcg , a 
temcren;] nvaís a DeoGsque aos homcs; pois eílcs ío tínhaò 
poderes nos corposjêc davão premios3& penas não mais c| 
temporaes. Porém Deos 9 que era Senhor dos corpos 3 & 
das almasjapremiava , & caíligava juntamente os corposj 
ocas almas com bens,5c malesjeternos. Tudo vião 5 ôc ou- 
viaó as guardas ldoIatras;& com tudo o permitiam : huns 
induíiaos com as peytas , que recebião: outros enterneci- 
dos das lagrymas que viam : & todos palmados úo empe- 
nhoj-com que os Chriílãos vinhaó buícar os Padres , nani 
para terem delles couías pertencentes a eíla vida 5 que fe 
goza; mas á outra , que nam aparecia 5 6c menos fe dcfeja- 
va. 

Logo que ficou fereno o Ceo5& calmou o mar 5 come- 
çarão a crecer na terra os fufpiros? 6c lagrymas dos Chrif- 
táos; porque os foídados da vigia mandarão fair o navio da 
barra? para fazer fua viagem. Foy efta torméta de choros, 
& degemidos a mayor? que padeceo aqueila Chriftadade. 
E porto que os Padres trabalhaíFem para os confolarem, 
com lhes prometerem , que tornariào no anno íeguinte. 
Com tudo não achava lugar nos corações dos dclconfo- 
lados Neófitos húa tal efperança;por faberem da obfti na- 
ção delRey , que não queria mais Padre nenhum em fuás 
terras. Quanto mais fe hia aíFaílando o navio das prayasi 
tanto mais fehia entranhando nas almas dos Chriftáosa 
dor de perderem os Padres : nem os podédo acompanhar 
com os paíTosjOS hiam fcguindo com os olhos;atè que de- 
fapareceo o navio,que foy correndo a coita có a proa para 
o Reyno de Siaó. 

Neíta viagem tiver? ^ ^s Padres varios> 6c encontrados 

Og iiij fuccef- 



S39 BREVES NOTÍCÍÁS DO 
iuccefibs : como os experimentanios todos neíla vida t':LO 
inconihote. Porem tanto mayor era a alegna,& a triíleza 
que recebiáo os MiíHonarios , quanto mayor he de todas 
as couías cefre m ondo a ganância, & a perda da divina gra- 
ca? verdadeiro theioiiro,iricóparavel prerogativa5& única 
bemaventurança neíta vida mortal. Entrado o pequeno 
navio no rio5& porto de Pulo Cambyj acharão os Padres» 
como boa parte daquella antiga , numeroía 3 & íervorofa 
Chrifiandade tinha fraqueadojôc caido: & os niaisíicciváo 
tani atenioriiados das ameaças dos Mãdarins períeguido- 
■resjci ue íenaõ atreverão a bufcar os Padres 5 para receberê 
os Sacramentos. Sò huma mulher por nome Benta ? que 
deixou fua cafâs&Aldeajpara naó ícr obrigada a piíar a Sa- 
grada Imagenijteve animo para chegar aos Padresjic con- 
ieílàr5& CQnfolar com elies. 

Porém efta dor 5 que atraveíTava o coração dos Miííxo- 
iiarios, por verem a ruina de tantas ahriasjficou algum tá- 
to aliviada do grade fervor, que acharão na outra Provín- 
cia mais meridional : cujos Chriftãos pofto q novatos na 
Féjôc poucas vefes viíitados , por ficarem muy affiiílados; 
com tudo oílentàráo oesforço, que devião ter, os que eí- 
taváo aliílados debaixo do eílandarte de Chriílo, & lhe ti- 
nhão jurado fidelidade, quando receberão o íanto BautiÍT 
mo. Muytos deftes Neófitos fe foi*áo oíFereceranimoía- 
mente aos tormentos,6c à morte. Os mais renovando , & 
íeauindo o exemplo aprovado,& louvado pelo Apoílolo 
Sam Paulo nos tempos da primitiva Igreja, largando íuas 
caías5& os povoados, vivíaó pelos mattos , & moravão nas 
cavernas dos montes^ para fenão arrilcarem a perder com 
a Fè a graça de Decsjêc as moradas do Ceo. Porém logo q 
tivèrão noticias 5 como os Padres tinhão chegado àquelle 
feu portojnos finco dias,queonavio alli fe deteve,vinhão 
cada noyte ora quatro,ora mais embarcações cheas deilesj 
para receberemos Sacramêtos , que adminiíiravão os Pa- 
dres debaixo de huns penedos coín fua grande coíolnção, 

imv.r}^ 6c com 



REYNO DA COCHINCHINA. 240 
& com muy to proveyto daquclles períeguidos mas ter- 
voroios Cíiriítáos. O que pois dava grande goíícôc cauía- 
va mayor alegria aílim aos Padres como aos ChriíHos5era? 
pedirem alguns com grandes ioftancias o fantoBautifmo 
naquclIesapertos5moleftias5&: perigos. Moítrando Deos 
com iílo como naó defcmpava de todo aquella Mifiaó : & 
que o poder de fua graça era mayor, & miuyto fupenor ao 
medo dos tormentos5&: ao temor da morte. Quaíi o met 
mo acontecia aos Padres nos mais furgidourosyque ha na- 
quella coíla de quafi dufentas legoas? aberta toda com en- 
íèadas5bahias5& portos. 

' Depois de todas eftas viíitas daquellas Chri/tandades 
chegarão os Padres a Sião aos féis de Abril com íincoentaj 
ôcfette dias de viagernspaíFando toda a Quareíma com af- 
ias incomodo. Aportarão depois ao mefmo Reyno, & no 
mefmo mez os dous Religiofos de Saó Francífco com o 
Padre Clérigo Francês. Ficando toda aquella MiíTam táo 
dilatada fem Sacerdotes , arrifcada a todo o erro , por lhe 
faltarem os Meftres: & expoíla à toda a crueldade^por lhe 
fobejarem os pcríeguidores. 




Hh CAPI. 



-41 BREVES NOTICIAS DO 
C A P I T L U O XX. 

T rijam de muytos CbriJIaos na Corte cie Smoa : &- morte do Cateqmjla 
Tcdio I\jpela corifijjam da Santa Fe. 




W^^ OSTUMA Deosniuytasvefes deixar 
íí^^^l í"^í^s ovelhas ao defemparo de todo o hu- 
gSf^^fl mano íbccorro , pí^ra que íe conheça mais 
; J^ claramente a aíiiílencia de íeu divino pa- 
cí>^ ^%^á trocinio. Se permite na íua Igjreja a períe- 
^^m^^^^^^^L^^^ím guiçaojhe para que como vento runoío a- 
parte n palha do trigo efcolhido : & como ardente chama 
ahmpe o puro ouro de toda a eícoria : íicaodo a eílimaçáo 
a quem a merece por fy; & naó a quem a t©mava do com- 
panheiro. Entre 2.s ameaças 5 que ouvião, & entre os tor- 
iiientosjque padecião os muytos prezosjpor ferem Chrií- 
tãos ; dcícobrio finalmente cada hum o que era: renden- 
do-fe os fracosjÔc refiftindo os fortes: ficando aquelles ex- 
cloidos da coroa do Martyrio , & apremiados eftes com o 
triunfo dos vencedores. Dos quaes foy hum o Catequifca 
Pedro Kijtáto mais admirável no esforço do animo, quã- 
to mais fraco era nas forças do corpo pela muita idade que 
tinha. 

Foy Pedro Ki natural da Província de Quang Nghia, 
filho de Pays Gentios mas nobres. Teve gentil habilida- 
de para as letras 5 & alcançou hum Mandarinado nafua 
mefma Província. Porsèm o fangue , & a fabedoria o fíze- 
raó demafiadamentezètófo > eftránhando publicamente 
os erros 3 que davaó osMafid^i^ins doTribunalfuperior 
na adniiniílraçam da Juíliça. Como a reprehençam poíto 
que merecida naó poucas vezes caufe tédio, que facihiié- 
te fe converte em ódio ; ficou por iílo Pedro tão aborreci- 
do daquelles Mãdarins,que para fe livrarem delle , lhe fo- 
raó levantando tantos^ôc tacs falfos teíiemunhos, que El- 

Rey 



REYNO DA COCHINCHÍNA.^ 242 
Rcy deípedio da Coite para Quang Nhia hum Miiiiílro 
com ordem de matar a Pedro , donde quer que o achaíie. 
Chegou o Enviado com toda a diffimulaçaô , & acompa- 
nhado dos calumniadores deraó todos de noyte na cafa de 
PedrojCÍlando çlle dcntro.Mas Deosjque o tinha eí colhi- 
do para pregar íua Tanta ley , & morrer pela confiííàó de 
-feu divino Nome,fez,que o naó achaíleminem fofpeitaí- 
fem 5 aue ic eíconderia no poço , onde cíb.va. Fr nitradas 
pois todas as diligencias, voltaram os agreíTores fem eíFei- 
tuarem o que pretendiam ; porque eíperava ao confeObr 
deChrifto outra morte mais gloriofa. Soceaado aquelle 
tumultOjfahio Pedro do feu paço, & deu coligo na Corte 
de Sínoa , para dar rafaó de fy. Porém como o Preíidente 
dos letrados Tio delRey eftiveíle, ou mal enformado dos 
procedimentos de Pedro : ou bem peytado pelos accuía- 
dores , naó queria admitir a defcarga , q Pedro dava de fua 
peífoa; com tudo admirava- fe muyto das letras , & dos ta- 
lentos que o homem tinha para negócios :& tanto mais 
lhe hia crecendo o bom conceito de Pedro, quáto eíte era 
niaisaííudos&efíicaZiem fe defender. Conhecida íinal« 
menteacalumniajoPreíidente deu parte a ElRcy daín- 
nocencia de Pedro,& Ihepedio licença , para o ter para os 
negócios de fua cafa. Foy tal o defvelo,com que Pedro fa- 
lia quanto lhe era encomendado , que logo grangeou o a- 
mor do amojôc por eíte o refpeyto que todos lhe tinham; 
NeÍLetemporecebeooSátoBautifmo feu Irmão mayor 
com nome de Eílevaó : o qual defejando que Pedro o fe- 
guiífe no caminho da falvaçamjofoy buícar â Corte, &o 
exhortou a que o acompanhaífe na Fèíôc na Religiaó;vif- 
to ferem ambos táo unidos no fangue , & no amor : & lhe 
deixou o livro do Catecifmo,para que o leííe , & fe refol- 
v^cíie a fer Chriítão,convencido mais da rafaé , que movi- 
do do parenteíco. Tomou Pedro o livro , & prometeo a 
Eítevão de o ler,& de fazer 5 o que julgaííe mais acertado. 
Foy eíte livro hum efpe^' cm que Pedro vio claramen- 

Hhij te 



24^ BREVES NOTÍCIAS DO 

te os erros de íiia fiiperíiiçaô , ate então tidos por acertos, 
porque não examinados : & inteirado das verdades , que 
eníioa a Ley do Senhor, íe afleiçoou tanto a ella , que có- 
■niunicãdotudo à íua mulher, vieraó ambos a Fayfo3& pe- 
dirão ao Padre Superior Pedro Marquez, osquizeile Bau- 
tizar. O Padre louvou o defejo , que moftravaó ; porém 
iiaó lhes deu logo o Bautiírao , para que ficafíem mais fir- 
mes no propoíito de ferem, Ôc viverem como bons Chri- 
ílãos;tirãdolhes primeyro toda a duvida , que o demónio, 
& a ignorância coftumáo pòr em crer íirmeméte os myt 
teriosde noíla Santa Fè. Mas achando-os o Padre muy to 
bem iní iruidosjpelo que tinhaó hdo no Catecifmo foraó 
ambos regenerados em Chrifto pelo Padre Franciícolg- 
iiacio Baudet : tomando o marido o nome de Pedro , & a 
mulher o de Ignacia. 

Bem claramente fe deu a conhecer a virtude íbbre na- 
tural defte Sacramento na grande , & admirável mudãça, 
que eftes caiados fizeraó em íeus coftumesigaíhndo os cli- 
as5& as noytes có Deos orandojou trabalhando por Deos: 
fervindo-o com particular dcfvello nos doentes , naó íò 
nos que agaíalhavão em íua cafa , íeyta jà híí publico hol- 
pital; m^as também nos queenfermavaó naquella Corte- 
Quanto niayor era o pcrigojtanto mayor era a aíliílencia 
que lhes íafiaó eftes bons caiados. Cuja charidade muy to 
mais íecfmerava em acudir aos mais afqueroios , &aos 
mal fofridos : procurando regalalos com mimos , & con- 
íolalos com palavras brandas , animando-os a levar aquel- 
les achaques com paciência diíiamlhesxomo o fofrimen- 
to nos trabalhos era neceííario naó menos para a alma , q 
para o niefmo corpo ; porque com a impaciência le exaí- 
perava o aniniOjôc com o animo os humores , os quaes al- 
terados naó íômente agravavaó os achaques , que íe pade- 
cia6;mas ainda caufavaó de novo outras indiípoíiçóes.Pe- 
lo contrario o fofrimento confervava o animo , íe naó có 
alegria, ao menos fem perturbação : o que era ncceíTario 

para 



REYNO DA COCHINCHINA. 244 
para a natureza íè ir? aproveitando da virtude das medici- 
nas. Era acçaó de honies imprudentes , embravecerfe c5- 
tra as couíasjque não tinhaó ícntidos? & quando naó efta- 
va cm noíla vontade , livramos delias. Ate os brutos ani^ 
mães alcançavam iíto pelo inílintoda natureza; pois os 
paílàros prezos na gayola logo que vem naó lhes íer pof- 
five], ia h irem delia , cantaó 5 & le alegrão , para fen tirem 
menos o cativeiro,que fem fua culpa padecem. AosChrí- 
íèãos porém doentes diíiaó demais: como pela paciência 
íè hião deíendividando as almas das penas? que deviaõ pa- 
gar no fogo do Purgatório pelas culpas : hiam ganhando 
novos merecimentos de gloria no Ceo : hiam aparecendo 
mais femelhantes aChrifto na terra : & íe hiam diípondo 
melhor para receberem de Deos os favores de fua liberal 
mifericordiâ. Com eftas praticas fey tas com voz branda? 
& com aífecfo compafiivo ficavaò coníòiados os doentes, 
6c foccegados os mal fofridos: A todos pregava depois Pe- 
dro? exhortando os Chriftãos a íe cóf ormarem com a di- 
vina vontade 5 que fe caíHgava ? eraó açoutes de Pay 5 que 
defejava a emenda de noífas faltas? & o acrecentaméto de 
noílà bemaventurança. Aos Gentios porém encarecia o 
horror das penas ? & a crueldade das dores do inferno ? a- 
meaçadas por Deos aos que o naó adorarem ? & naó íervi- 
rem na ley5que elle tinha mandado g^iardar 5 a qual ley ti- 
nhaÓ5& profeílavaó os Chriíiãos. 

Naó era menor o piadofo cuidado, que Pedro tinha de 
enterrar os corpos dos Chriílãos falecidos , depois de lhes 
aííiítirna doença ?& os ter ajudado a bem morrer com a 
reza das oraçóes para eíle trance tão perigofo: & com a lê- 
brançadosaâos^quedeviaó fazer para aíligurarem a Sal- 
vação de fuás almas. Caufava na verdade eípanto em to- 
dos, ver o empenho? com que Pedro fe ocupava no enter- 
ro dos defuntos: bufcandocfmolaspara osfuneraes dos 
pobres? depois de ter dado o que elle tinha para eíla obra» 
quanto menos agradecida u- . wIles5aos quaes fe faz ; taa- 

Hhiíj to 



.24? , BREVES NOTICIAS DO 
to mais aceita a Deosjpor cujo anior íe exercita. Teve no- 
ticias o Prcíidente dos letrados de tantos enterros , que o 
íeu Agente Pedro hia fazendo ? & teniendo-fe que com o 
contrato dos mortos fe pegaria a Pedro alguma má quali- 
dadcsque depois íe cóm unicaria a elle;chamou-o 5 &c com 
.grande ira lhe diíTe: Voílbs talentos todos íaó perdidos? 
poríerdesCliriíláo 5 & amigo dos mortos ndevos embo- 
ra: naó quero que eftejaes em minha cafa, né corraes mais 
com os meus negócios. Naó íahiria mais alegre da priíaó, 
quem folie cóvidado para hum íreíco? & curioío jardimj 
cio que íe moílrou PedrO)licenciado jà da caía do Preíidé- 
te;porque feus deiejos eraó^gaílar todo o tempo no íervi- 
ço de Deosja quem íerviajacudindo aos doentes:& dando 
íepultura aos mortos. 

Muy gratos eraó a Deos eíles obfequiosj que Pedro lhe 
faíia : &z para fe mofiTar bem ícrvido , & muy agradecido, 
lhe deu poderes fobre os efpiritus infernaes ? lançando os 
fora dos corposjque tiranicamente poíluiaó. Co eíles fuc- 
ceíTos naò menos admiráveis c|ue eílródofos crccco muy- 
to o conceitOjCjue havia na Corte da virtude de Pedro.Po- 
rèni ficou íeu nomemuyto mais gloriofo com a iníigne 
vitoriajque alcançou do demonio,& do feiticeiro : fugin- 
do aquelíe do corpo de hum Mandarim , em que íe fi/verâ 
forte:& ficando eílc tolhido do braço 5 com que meneava 
a efpada magica para cortar a fama do vitorioíb Chriítaó: 
como temos relatado no fim do Capitulo treze. Movidos 
pois os Neófitos da Corte do bó exemplo 5 que Pedro da- 
va a todos 5 & defejofos que creceílè mais o numero dos 
fieisjpediraó ao Padre Marquez Superior , quizefíe dará 
Pedro os poderes de Catequífta. Mandoulhe logo o Padre 
a patente para exercitar aquelle oíficio ? tendo por certo, 
que a muy ta virtude com as grandes letras 5 que Pedro ti- 
nhajprometia ganâncias de almas muy aventejadas. Com 
eft a nova obrigação largou Pedro todo o pano a fcu apof- 
tolico fervorjcorrendo toda aquella Cortcj os arrebaldes. 



REYNO DA COCHINCHINA. : 

& também as Provincias mais remotas: fazendo em todas 
as partes miiytas5& miiy notáveis converçóes. Eraincan» 
íavci em pregar , gaíhn do nam poucas vezes os dias 5 & as 
noytes inteiras cm eníinar aos Idolatras o caminho da íal- 
vacaó de fuás almas: & em exhortar os Fieis acorrerem fé 
parar naguarda dos divinos perceitos. Pofco que em to- 
dos os lup-ares deixaííe femeada a Fè nos Gentios,6c creci- 
da a obfervancia nos Chriílãos; com tudo na Corte de Si- 
noaabrío theatro malsgloriofo às fuás apoílolicas faça- 
nhas. Como era nobre,letrado,&: virtuofo tinha fácil a en 
trada com todas as peílbas grades , & ainda de íangue reah 
muytas preveniaó a viíita , mádando-o chamarípara o ou-* 
virem pregar couías tam ajuihdas a toda a rafaó? & tão pi- 
as;alem de ferem para ellcs em tudo novas. Ficavaó todos 
admirados da fuaícloquenciaidas fuás letras ? & da fua vir- 
tude;porquc era muy fiuidojôc culto no falanmuy verfa- 
doem feus livros, cujos textos allegava: muy agudo em 
refponder às duvidasjque lhe punhaó:& tão efficaz no ãi- 
zerjque facilmente movia os corações dos ouvintes. Pelo 
que a Pedro í.e devcreceber? & fe fogeitar tanta multidão 
com bom numero de peíToas graves ao fuave jugo da hcf 
de Chriílo: &poreíl:a rafaó todos os chamavaó Payda 
Chriíbndade da Corte. Nem era menor o cuidado de Pe- 
dro em a fervorar nos Bautizados a piedade 5 do que fora 
feu defvelo em trazelos ao Bautifmo;repartindo para eíle 
íim,quanto tinha de Imagês devotas5& de verónicas. Mas 
porque todo feu cabedal efpiritual naó bailava para tátos^ 
a Charidade o fez induftriofojfundindo veronicasj&cru- 
zes,para dar a cada hum algúa coufa 5 que efpertaíFe nelle 
a Féjque tinha recebido:&: aíFervoraireadevaçam que de- 
via de ter na meditação dos myfterios de noíla fanta Reli- 



gião. 



Todas eftas occupaçóes para o be das almas dos outros, 
com ferem tantas^nem por iíív- faijao a Pedro defcuidado 
do proyeyto da íua : toma o fenipre algum tempo para 

Hhiiíj meditar 



-47 BREVES NOTICIAS DO 

meditar na Payxaó de jesv Chriito;o que faíia mais larga- 
jiiente na íomana íanta. £ni húa quarta feyra de trevas 
íoy achado pelos criados do Prefidente , que o chaniavaj 
em hum lugar eícuío ? chorando mil lagrymas com as lê- 
branças , do que nofib Redemptor padecera pelos noiTos 
peccados. Frequentava os Sacramentos da penitencia, & 
Eucariília com tanta devaçaó,que quantos o obfervavaój 
íicavaó todos enternecidos : eraó tantas as lagrymas , em 
quanto ie coniefiavaíque parecia desfazerfe todo pelos o- 
lhos:& c6 tal humildade, & compoftura íe chegava a me- 
fa da Comunhão, que moílrava ver nella a Deos. Quaes, 
& quantos foílem os regalosjque Deos lhe faíia , fò í ua al- 
ma os poderia declarar. O que os outros entendiaô, erajao 
menos abraíalo com feu divino amor ; porque nas préga- 
çóessque depois de Commungar coílumava fazer ? as pa- 
lavrasíque dííia , parecíaó a todos os ouvintes ? brafas , que 
jhe íahiaó da bocca: com as quaes acendia grandes defejos 
nos Idolatras de íerem Chriífãos5&: nos Fieis óq fe perfei- 
coarem na guarda da divina ley. Como achaíTe Pedro tan- 
tos mimos naquella mefa dos Anjos ? naó fomente naó fe 
efciífava de Commungarjmas faíia ainda todas as diligen- 
cias para naó faltar a eíle tão fagrado exercício. E porq ue 
muytas vezes eílava occupado com negócios em caía do 
Preíidente, lhe pedia a efte licença dizendo : como eílavíir 
convidado a hum grande banquete, & que lhe era forço- 
fo aíliílir nelle. Deíle mantimento fobrenatural lhe pro- 
cedia a Pedro aquelle vigor de íua charidadcjaílim para có 
DeoSíComo para com os homcs: empregando toda a vida 
em aj udar corporal, & efpiritualmente íeu próximo : & 
deiejando a morte à força de tormentos pela coníiíTaó de 
íeu Salvador.Por iílo fe não efcufava do trabalhojnem fu- 
gia do perigo : antes tinha mandado fazer húa canga muy 
pezada,& a guardava em fua cafa,para que vindo os íoià^L- 
dos para o prenderem,a achaíTem aparelhada jà)& preíles, 

& lha lançaííem logo ao peicoço. 

Erao 



REYNO DA COCHINCHINA. 24S 

Eraó tantos5& taes os exemplos de virtude, que Pedro 
dava a todosjque os Chríftáos tinhão por infallivel , mor- 
rer Pedro pela Fè : havendo algúa perfeguiçaó na Corte. 
E fuccedeo affim.Poís como os inimigos de Chriíto o tra- 
íiaó de olho,por verem , que Pedro com fua vida virtuoía 
acreditava a ley dos Portuguezes,& pela íua pregação hia 
crecendo mais o numero dos Chriílãos ; logo que fe pu- 
blicou a prohibição realjlançàraó máo delIe.Náo teve Pe- 
dro em fua vida dia mais alegrcjdo que efte de fua prifam; 
porque acabaria com a morte por Jesv Chriílo : nem íeu 
animo efteve mais defaf ogadojque nos apertos do tronco, 
& nas moleílias da canga- A íTom brava a todos os Idolatras 
a generoíidade do bom velhojouvindo-o dar as graçasjaos 
queotinhaóprezo:&: moílrandomuyto mayor deíejo 
de morrer;do que tinhaó feus inimigos de o matar.Como 
fe achava Pedro fempre com gente : hús para o vigiarem, 
&: outros para o vifitarem ; eíkva quaíi fempre a pregar, 
exhortando todos a adorarem ao Creador de todas as cou- 
fas 5 &c aguardarem íua divina ley , moftrando quam pura 
ella era5& quam conforme à rafaó. Chamado do Manda- 
rinija quem ficava entregue , foy perguntado da ley dos 
Portuguezes. Neíla rcpofta oítentou Pedro luas letrasjôc 
fez campear fua eloquência ? provando com rafóes natu- 
raes,& com textos de feus mefmos livros: fer falfa a Reli- 
giaó,que os Cochinchinas tinhaó;porèm muy verdadeira 
a que os Portuguezes eníinavão5& elle guardava, & pre- 
gava. Foraó tam convencentes os argumentosjque o Má- 
darim ficou callado,fem fe atrever a pòr duvidajnem a fa- 
zer mais perguntas da Ley. Mas paífou aperguntar 5 fe fa- 
bia de Mathematica: de quaes efirey tos pronofticava o Co- 
metajque tinha aparecido o anno paífado , & fe deixava 
ver ainda? Refpódeo Pedro: Senhor de Mathematica náo 
fey eu nada;porèm efte Cometajpelo que eu entendo, he 
íinaljcom o qual o Creador do Ceo ? & de todas as coufas, 
quer moftrar como cu > Cx nuy tos Chriftáos havemos dç 

li ir para 



249 BREVES NOTICIAS DO 

ir para o Ceo. Se aílim hcdiíTe o Mãdarimj de preílâ mor- 
reras : & mandou aos foldados o levaíTem para o tronco. 
Agradcceo Pedro com roíto muy alegre ao Mandarim a 
mercè^quc delle recebiria. Ao outro dia vinte & íette de 
j aneyro lhe leraó a fentença de morte > ficando Pedro co 
icmblante tão ayrofo , & contente ; como fe fe ouvira ac- 
claniado por Reyjôc naó fcntenciado por reo de morte A 
penas pòdc Pedro dar as graças aos Juízes, que o tinham 
condenado; quando logo o foraó levando para o lugar do 
íuplicio com o coftumado acompanhaméto de foldados, 
que ncítaoccaíiaó para mayor pompa do triunfo foram 
duas companhias , que trazem catanas com punho de ou- 
ro^por todos ferem nobres: aos quaes hia Pedro pregando 
pelo caminho > enfmandolhes o que deviaó fazer para el- 
Ics fobirem ao CCO5& falvarem fuás almas. Senhores, lhes 
diíiajpor fer efta vida nam fô tão breve, mas também chea 
de tátos males5devemos todos bufcar outra 5 que feja éter- 
nas& bemaventuradajvifto termos alma immortal. Qná- 
to ha de bens na terra: tudo he caduco? tudo he temporal, 
como o vemos5& cada dia, & expcrimétamos: fô no Ceo, 
por fer Corte do Creador de todas as coulas,&: por naó ef« 
tar fogeito às mudanças do tempo > haviver feliz , & eter- 
no. E para o Ceo nos fez o Creador. Pois determinando 
elle neílc mundo os lugares às creaturas conforme o grão 
da perfeição da alma que lhes tinha dado , fixou na terra, 
que he o mais baixo dos elementos, todas as plantas , por- 
que fomente crecem. Aos animais brutos, que demais té 
fentidos,os deíapegou da terra : & poz huns na agoa , ou- 
tros no ar 5 ôc alguns deixouos andar livres fobre a terra. 
Porém ao Homenijque tem alma mais nobre, porque et 
piritual: & a quem todas as mais coufas animadas fervem» 
lhe aíiinalou o Ceo para fua eterna morada.Porquc fendo 
o Cço o lugar mais íublime neíle univerfo , fò elle podia 
fervir de eíhncia perpetua a quem tem alma racional , &c 
immortaljcreada fò para louvar fempre a feu Creador : & 

gozar 



REYNO DA COCHINCHÍNA. ^250 
gozar eternamente da gloria defeii Senhor. Logofero- 
mos creados par:^ o Ceo 5 devemos cftíraar pouco a terra. 
Sceílão aparelhados para nos os bés eternos, devemos lo- 
go deíprczar os tcmporaes. Mas quem quer alcãçar mer- 
césjdevc íer obíequioío aquém lhas pode faíer.Como lo- 
go deíxaò os homens de adorar, ôcfervir ao Senhor, & 
Crcador do Ceojíe íbmente dcllc podem cfpcrar, & alcá- 
çar aq ueila eterna bemaventurança! Senhores. Os Reys 
da terra devem íer obedicidoSínaó ha duvida;porquc íani 
niiniílros de Dcos Creador de todas as couíos para o go- 
verno dos povos. Porém fc mandarem couía contraria as 
expreílas ordens de Deos>fc lhes deve negar a obediência. 
Aílim como os íol dados devem antes obedecer a íeuRey, 
que a íeus Capitães , quando eíles encontrarem as ordens 
reaes. O mayor caftigo > que podem dar os Reys da terra, 
heanticipar por algum tempo a morte 3 que finalmente 
todos havemos de padecer. Mas Deos pode caítigar com 
eterno viver cm perpétuos tormentos. Grande erro co- 
meteria na verdade 5 quem por folgar quatro dias 5 íe pri- 
vaile de eternos gozos, & fe còdenaííè a perpetuas penas. 
Losio 3 Deos Creador de todas as coufas devemos temer: a 
Deos devemos obedecer fobre todas as potencias deíle 
mundo ; poÍ3 íò elle pode a premiar com bens eternos no 
Ceo;& caíligar com perpétuos males no no inferno.Coni 
eftas praticas íe foram chegando ao lugar do fuplicio : in- 
do os foldados naó fomente aílbmbrados do defafogo , & 
alegria que Pedro moítrava ; mas também admirados das 
coufas 5 que diíia tam ajuftadas ao bom defcurío 5 & tam 
conformes a toda a verdade. Sc o lugar lho permitira, 
trocarão de boa vontade a efpada era pena para aponta- 
rem doutrinas tam novas , & tam verdadeiros, Vcn- 
do-fe pois Pedro no lugar, onde o haviaó de matar , cerca- 
do jà dos foldadosj mais defejofos de tomarem de Pedro a 
poftilla,quedelhedaremaelle a morLe;tirou da manga 
humas moedas,Ôc 15 oíFeretcc ao Mandanm aíliftentc , Ôc 

li ij aq 



BREVES NOTICIAS DO 




es recebia , matando-o por ler Chrífião , & pregar a Lcy 
de Deos Creador de todas as coufas : o q elle íempre muy- 
to deíejèra. Logo Ic poz no fitio , em que havia de íer de 
gelado; roas parecia a todos,que efperava íer alli coroado, 
pela niuyra alegria que moílTava ; & cô os nomes de lesv, 
& de Maria iia bocca eíleve cfperando com grande íocce- 
go pelo goJpe.que lhe cortou a cabeça: cujo corpo íizeraó 
Jogo enipoítas^para meterem medo âos Chriftáõs. Permi- 
tio Deos toda eíb crueldade no corpo de íeu fiel, & esfor- 
çado íervo 5 para que elle como mais alentado alcançaíTe 
mais vitorias do tirano: foíFe mais gloriofo feu triunfo : & 
recebeíie mais coroas de gloria feu corpo. Recolherão de- 
pois os Chrittãos as partes cortadas3& ajuntadas todas có a 
cabeça em hú caixaó , Ihederaó fepultura na meíma cor- É 
í:e,& no meímo dia dos vinte & fette de Jaoeyro de mil, ' 
& íeis centosjôc feííentajôc cinco. 

C A P I T L U O XXL 



'Miguel ^&^ IgniCíofoUados padecem com grande esforço ^ &■ morrem 
gioriojamentefela guarda da divina ley. 



ARA mayor defengano dos perfeguido- 
res de Chriílo:& para mayor gloria da c6- 
ftancia dos Chriífãos que eítavaó prezos? 
foy Deos fervido dar fobren&tural esfor- 
ço no niefmo dia dos vinte &c íctte de Ja- 
neyroa Miguel ,& a Igntcio , foldados 
muí graves naCortc de Sinoa: ambos moços;pois naó paf- 
favaô de trinta annos de idade: hú, & outro muy téros na 
Fè;porc|bautizados de pouco tempo. Cuidava a íacrilega 
âirucía,que íe roaderiao os aoinios ácàcs dous novos fol- 
dados 




REYNO DA COCHINCHINA. 252 
dados de Chriílo; porq a florete idade íe deixaria enganar 
dos regalos deílavida: 6c o pouco exercício na hy dos 
Chriílâos lhes faria difficultoíà a refiílencia. Mas naó ha 
fraqucza^q liando ailiftc o poder divino : nem ha amor ao 
temporal? q uando a alma tem poíio feu coraçam no eter- 
no. Levados pois do tronco para o tribunal , & pergunta- 
dos 3 íc craó Chriíiãos ? cc guardavam ainda a ley dos Por- 
tuguezes. Refpondèraó: que tinhaó recebido o Sãto Bau- 
tiímo: & guardariaó fempre a ley de Chriílo. Mandou lo- 
2fo o Mandarim, pizaffcm huma Imagem , que cílava lan- 
çada alli no chão para fe livrarem dos tormentos? &da 
morte conforme as ordens reaes. A eftas palavras ficaram 
com horror os pios Neófitos. Mas iogo proteífáraó , que 
nunca comctcriaó pcccado táo enorme: & que antes oíi^e- 
rccião feus corpos a todos os tormentos;do que ainda có a 
póta de hum pètocaréaquella figura do Senhor doCeo. 
Embraveceo-fe o tirano,& foy ameaçando crueisjôc mais 
cruéis caftigosjfenaó obedccefíem aos mandados deíRcy. 
A ifto diíièraó os fieis fervos de Deos : FizeíTe ElRcy o q 
quizcíTe de íeus corpos ; pois clles lhe naó queriaò obede- 
cer em coufa^q prejudicaíTe âs fuás almas: que eraó Chrif- 
tãos5& Chriftãos qucriaó morrer. Ficou admirada de tan- 
ta conílancia toda aquella multidão de Miniílros ? que af- 
fiftia àquelie tribunal. Reparando pois o Mãdarim, como 
quanto mais tardava com a fcntença , tanto mais crecia a 
eftimaçaó do esforço dos ConfeíTores de Chriíto : conde- 
nouos logo ferem degolados. Foy tal aiegria^que fe vio de 
repente nos dous rcos innoccntcs ; que encheo de efpan- 
toatodososcircunftantcs. Enlouqueceo de turoraeílc 
efpecf aculo o foberbo Mandarim^por ver , como nem as 
ameaças nem os caftigos os fafiaó temido ; mas antes def- 
prezados: ôc como Leaó aííànhado os quiz fazer logo em- 
pcdaços. Mas deteveo o dcfejo de mayor crueldade : que- 
rendo,quc muytos o fizefíem , & com mayor vagar? para 
dar mais prolongada r :» aos alentados Dcfcnçoresdc 

íiiij Fè. 



25'^^ BREVES NOTÍCIAS DO 

Fe. Pelo íjueabrahido toclo cm ira, mandou aos foldados, 
Jhes foilcrn cortado pelo caminho as carnes cm pedaços; 
para qiieà cuíla de íeu fangiic aprcndcíTcm a ter rcfpey- 
to:& com a medonha viíla de íii-as carnes retalhadas , lhes 
entrníieo medo, que devíaò teraos Miniílros rcaes.Mas os 
es [orçp.dOcsConfe Obres logo que ouvirão eira barbara fé- 
tcnça 5 tícáraò mais ayrofos , & mais contentes. Aqui bra- 
niío o fero tirano: não fabendo 5 que mais caftigo podcííe 
dar,para que foííc temido: ^c rai vofo como cáo danado lá- 
^'ou-íe aos oíTosjdando ordem aos foldados , que depois de 
os deícarnareni3& lhes cortarem as cabeçasjlhes pizaflcm 
todos os oílbs com maços de ferro,6c moídos em pò os lâ- 
çaílem no rio. Sorrirão-íe os dous condenados por Chrii- 
to: de molhando muyto mayor contentamétojlhe deram 
03 graças pelas mayorcs 5 & niayores mercês ? que llies hia 
fazcndojcom multiplicar mais,& mais cruéis tormentos» 
Porém íoubeílc como aquelle Senhor do Ceo5& de todas 
as couíasjaquem elles adoravaó,^ que de nada tinha crea- 
do todo eíle uníverfo : & da podridão fafia nacer cada dia 
creaturas viventes; elle mcírno havia de refu (citar hu dia 
aquelles feus corpos > &c de todos os homés , poílo que re* 
duíidos cm cinzas;para apremiar com galardão eterno no 
Ceo , aos que o ferviraó > & lhe foraó fieis na terra : como 
também para caíHgar có perpetuas penas no inferno, aos 
que o naó adora raÒ5& oííendèraó ncíte mudo. Tirai , bra- 
dou entaó para os foldados o Mandarim defefperado jà5ti- 
rai de minha prefcnça eftes loucos, & levayos logo a juíti- 
çalos. 

Atónitos ficàraó todos os circunftantes: nem fabiaó de 
quem fe admiraíTem mais : fe do juiz pela fevicia , que ti- 
nha mais fera que a das mefmas feras : fe dos condenados 
pela conílancia,quc raoftravaó mais q humana. Naquellc 
conheciaò a força da payxão indómita ? que o faíia de gc- 
nerar em bruto:neíl:es viaó o poder de húa virtude incog- 
BÍta^que os fada parecer mais que homcjus. Confuíos pois 

1 por 



REYNO DA COCHINCHINA. 254 
por naó alcançarem 5 & curioíos de fabereni ? donde lhes 
procedia aquclle animo táo contente,oii contentamento 
tão anímoío em aceitaré penas tão atrozes : foraó feguin- 
do aos dous padecentes? para obfervarê , fe pelo caminho? 
ou no lugar do íliplicio íe enxergaria nclles algum íinal 
de fraqueza do animo50U mudança de cores no rofto. Po- 
rém foy cTccédo nellcs cada vez mais o aílombro; por iré 
reparando,como os padecentes oíiereciaó feus corpos aos 
algozes: os quaessou foíTe pelo refpeytojque tinhaó a pef- 
foas táo graves:ou pelo horror daquella acção táo barbara, 
íenaó atreviáo a executar tão fera fentcnça. Mas como o 
medo vence finalméte todos os refpeytos : ôc atropela atè 
os diólames da mefma natureza ; para os íoldados íe nam 
moftrarem tranígreíTores das ordens do injuílo Juiz, de 
quando em quãao lhes hiáo cortando poisas de carne , tá- 
to mais viva quanto mais alentada do eípíritujcom que a 
oíFerecião ao cutelo. Não efpalharião os vencedores com 
mayor alegria moedas ao povo j que os acompanhaíTe no 
triunf o;da que moftravão eítes dous Triunfadores da Ido- 
latria, largado fuás carnes aos verdugosjcj os hião levando 
para o fuplicio. Nelfe triunfo a preciofa purpura era o in- 
nocente fangue 5 com que ficavaó cubertos os corpos dos 
Vencedoresios trofeos eraó os pedaços de carnes que hiáo 
ficando atraz no caminho. Os vivas dava-os o filécio cau- 
fado em todos do aíTombro ; por verem tão grande confr 
tancia com tão grande alegriajnunca jâ mais viílas em tão 
cruel tormcnto.Chegados finalmente ao lugar,onde lhes 
haviáo de tirar també a vidajou onde havião de fcr coroa- 
dos eftes vencedores Òá morte : depois de animarem aos 
Chrift ãos, que íc achavão prefentesja que não fe temcísé 
das ameaçasjque lhes fariaó^nem dos caftigos que lhes da- 
rião os inimigos de Jesv Chrifto; porque tudo acabaria có 
a morte: a qual quanto mais foííè aíFrontofa? & dolorofa; 
táto mais feria gloriofajôc provcitofa. Pois qualquer mai? 
que padeceíTcm nefta vida pelo amor de feu Deosjhes ré- 

íi iiij dcria 



2^5'. BREVES NOTÍCIAS DO 

deria na outrssininienfo lucro de perpétuos gozos ? & de 
eternas glorias. Sò os Idolatras temeíTem a morte; porque 
íicanão excluídos para fempre da bêavcnturança, & irião 
pagar com perpetuas penas no inferno os momentâneos 
goítos deíle mundo, líro dito, fe poíerão logo de joelhos, 
2v efrando repetindo os íacratiffimos nooics dejcsvjôc 
Maria foraó coroados cortandolhes as cabeças. Asquacs 
com os corpos defcarnados foraõ logo pizadas com ma- 
ços de ferro : & lançarão no rio aquellas veneradas relí- 
quias. Celebrou íe cíle novo 5 & admirável triunfo dâ Fé 
na Corte de Sinoa Metropoli de todo o Reyno aos vinte 
& fette de Janeyro de mil & féis centosjôc feíTenta & íin- 
co. Ficando fruílrados os facrilegos intentos? ôv barbaras 
diligencias do deshumano Perfcguidor. Pois nem com 
os tormentos taõ cruéis pode vencer a conftancia dos Pa- 
decentes por Chrifto; antes lhes foy acrecentando mais o 
esforço9& a alegria. Nem com mandar fepultar no rio a- 
quellesvictoriofos corpos rcduíidos ahuma maílarubi- 
cunda,pode tirarjnem diminuir aos Neófitos aguarda, 6c 
coníiílaó da divina ley. Antes à vifta daquellas agoas fe a- 
cendia mais nelles o defejo de imitarem aos que tão glo- 
riofaniente tinham triunfado dos tormentos 3 & da mef- 
ma morte. 




CAPl 




REYNO DA COCHINCHINA. 256 
CAPITULO XXII. 

Os fre^i na ComâUá T>mhgapor nao quererem pifar a Sagrada Ima^ 

gem, morrem os ijomrmfao degolados -,(0^ as mulheres lançadas aos 

Elefantes, Qeneroja corifjfao da Fe ^O^glorioja 

morte de Lhís, 

O M O os tormêtos fejaó o fogOjem que 
Ic purifica, & dódc fahc mais limpa a ver- 
dade : & tanto mais provada quanto maiss 
atormentada. Pòí illo os bárbaros tratt- 
mcntosjôc cruéis mortesjque os períegui- 
dores dáo aos ConfeíTores de Chrifto , fV 
xem mais notoriajôc acreditam mais noíTa fanta Religião. 
Servindo-íe Deosdos tiranos para inftrumentos da pro- 
pagação de fua divina IcyjÔc dos tormentos5& mortes dos 
Martyrcsjpara irrefregaveis tcftcmunhos de fua verdade. 
Pois quem poderá fofrer íoccgada, & alegremente táo in- 
toleráveis pcnas,& tâo cruéis mortes; fenaó foflè esforça- 
do com poder fuperior a todas as forças da natureza ! Efta 
muda mas con vencente pregação aos olhos cóvertia mais 
facilmente os Idolatras a Fè: & eílabalecia nella os Chrif- 
táos da Cochinchina. Sò a confiante alegria obfervada na 
morte de André, o primeyro dos que o&recèraó anímo- 
iamcntc o fangue5& vida pela guarda da Lcy de Deosjtez 
tãto pendor na prova5de cila fer verdadeira; que doze mil 
infiéis receberão aquelle anno o Santo Bautifmo; porto q 
ÊlRcy bramiíle de furor contra os Chriftãos:& os Minií- 
tros exccutaflcm o rigor do caftigo na fazendajôc na vida. 
Efta mcfma viíla portentofa animava os Neófitos a con- 
f cíFarcm generofamente a Fe , & a padecerem com gran- 
de esforço por cila ; como o hiaó experimentando bem a 
feu pezar os Mandarins tiran- s. Pois achaváo nos Chrif- 
tãos cada vez mayor animo cA.a fe publicarem adoradores 

Kk de 



^^Y BREVES NOTICIAS DO/ZH' 
dejcsvChriíiO: & cada vez mais crecido nelles odeíqo 
de morrerem por feuRedemptor. ■ 

Fov o dia de hootcm vinte &z fette de [anevro de f^rân- 
4es &íras para os Anjos pelas viâorias? que alcançar^im òs 
três valerofos foldados de Chriílo : Pedro Kj^Misuel 5 &. 
ignacío. Fòrèrn foy veípcra do de Jiaje vintíe, &z oito do 
nieínio oicZjmisyto mais foicnne,^ mais feítíval ao mef- 
mo Ccoyailmi pelos triunfos de niuyto mais veacedorcs; 
como tampem pela variedade das iiivençóesscom que to- 
|]ps trio aiBrara do tiranojôc do inferno, 
3.: .Fic^vaõ nas priróes dt Comarca de Dinhcat vefinhaà 
Corte de Sinoa'5Ghr.iíiáos5& Chriibãs eípcrando , &z fufpi- 
randcque Deos lhes fizeííe também â ciles a mercê de a^- 
çeitar luas vidas eni holocauílo. Porém ciiídándo o Man- 
dsrinijquc as novas dos rigores^có que o dia antes tinham 
íído caííigados antcs5& depois de mortos os três, por nam 
quererem pizar a Imagem ; teriam amedrentado a eftes 
prezos; & parecendolhe que em quanto eílas medonhas 
Içpihranças eítavaó ainda freícas , era facii, induíilos alar- 
garem a Içy 5 cuja guarda íahia tão cuílioía; mandou-os vir 
ipgo para o tribunal : òc com muyta brandura lhes diíle: 
çqmo íabiam jà aílim elles como ellas dos cruéis tormen' 
to&,que os três tinhaó padecidojpor nam quererem obe- 
decer as ordens de leu Rey, & Scnhofj que depois de ma- 
duro confelho tinha prohibido a Religião dos Portugue- 
zes,nam menos por fcr eftrangeira) que por fer muy prc- 
jydiciâl a todo o Reyno. Mas como os três foíTem contu- 
maces aos mandados reaes 5 foram finalmente mortos , & 
pizados feus offos, &z lançados ao rio ; porque convinha q 
naó ficâíFc na terra coufa alguma? nem ainda a lembrança 
de gente tão louca. Pois fe tivera fifo , ouvera de obedecer 
a feu Reyjôc a fcus Mayoresjcomo a natureza eníinava, ôc 
obriga vg a todos. Porem elle não fe receava nem dellessÔc 
m uy to menos delias , que ouvcíTem de fazer couía cótra- 
ria a toda boa raftó 5 que aconfelhava a todos os vaíTal Josa 
-^h ' que 



í 



REYNO DA COCHINCHINA. 258 

uc fizeíTem fempre em tudojO que foíTe do goilo de feu 
ey , & Senhor : viito ElRey íe moílrar tão cuídadofo do 
3em de todos os do leu Reyno. Pelo que deíTem logo co- 
mo prudentesjSc íieis íubditos o íinal, que SlRey queríaj 
ordcnava^para moírraremjcomo ]arga\ ao JÒ5& aborrcciáo 
a ley dos Portuguezes : tomavaó, & íeguiaó a delRey , de 
léus Ptys , ôc de todo o Rcyoo. Mandou então lançar no 
cham húa Imagem Sagrada , ôc depois diíle: Eu corno Mi- 
niítro real vos mando 5 a pizeis : como letrado vos aconfe- 
IhojO façais âíiim : & como voíTo natural peçovos , o exe- 
cuteis logo ; para que vos poííais livTar dos tormentos, & 

^ da morte: para que voíFos parétes , Ôc voílos filhos naó pa- 
deçaó perdas na honrajôc na fazenda: ôc para que vò§ com 
os voíibs poílais lograr as mercês ? que ElRcy vos fizer a 
todos peia voíla obediência tâõ prompta^ôc táo obíequio- 
la. A eíia fala tão aíluta dcíle Miniftro , verdadeiramente 
díabolicojrcfpóderaó íingeía, ôc defenganadâméte os pre- 
Z0S5ÔC as prezas por Chriíío dizendo : como todos , Ôc to- 
das tinhaó recebido a Icyjnaófeyta pelos Portuguezes; 
mas dada por Dcos , poflo que eníinada na Cochinchina 

I por homens eíh"aDgeiros. Naó alargarião maisjaindaquc 
Jhes cuílaííe a vida;porque cntendiaó fer ella o verdadeiro 
caminho para a eterna bcmavéturança das almas no Cco. 
E fe craó Chriíláosjôc Chriílás,como íe poderiaó atrever a 
pòr fcus pès na Imagem daqueile, aquém adoravão como 
a Creador de todas as coufas : Ôc aquém obedeciaó como a 
legislador da leyjque profeíTavaójôc guardavão! A iíto dif- 
le o Mãdarim ja irado: Naó fejaó neícios : obcdeçaó a feus 
Mayorcs. SenhorjrcfpondèraójO que nós fabemos hejque 
quanto alguém padecer mais nefta vida por cftc Creador 
de todas as coufas;tanto mayor fera o gozo 5 que receberá 
delle na outra. Sc pois devemos obedecer aos noílos Ma- 
yores: O mayor de todos he Deos,porque he Creador 5 ôc 
con ferva dor de todas as coufas; a eílc logo devemos dar o* 
bediencia fobre todos 0*^ 's. PafmouoMandarimjOu- 

Kk ij vindo 



5-59 BREVES NOtíCIAS DO • 

^indo tai repoílà5& vendo talconíbocía em gente de Al- 
dea,crÍ3da íem livros^nem curfada nos perigos. Mas a ad- 
miração ie trocou iogo em fereza? por íc coníiderar deí- 
prezâdojôc-fe achísr convencido. Para q ntó crcccíTe mais. 
o dei prezo que íe faria de lua peffòajdeu logo fentcnça de 
morte contra os vencedores: condenados os homés a íeré 
degoIadog:Ôc as mulheres a ferem lançâda« âos Elefantes. 
Porèni achouíe enganado , porque ficou muyto mnis en- 
vergonhado; quando vio que aííim os homens como as 
mulheres moft ràrani grande alegria no rofto pelo bó def» 
pacho,qac lhes tinha dado? & lhe fizeraò muy profundas 
corteíias para fe inoílrarem agradecidos. Acudiram logo 
os Toldados aíriífcntesj& puxando aos innocétes reos pe- 
los cabeliosjos ievàraó fora da cafa daqucllc tribunaUpara 
darem logo execução à injufta? & barbara fentença. Mas 
em quanto íè vaô fazendo preftes os Elefantes ? tenho eu 
tempo para dar brevemente algúas noticias dos que vam 
triunfar. 

Saó fctte: quatro homês,& três mulheres. A ftber: Mi- 
gucLSimaój Vicente, & Joaó. Moníeaí Luíia, & Águeda. 
Miguel 5 por íer Chriílão naó menos fcrvoroío que anti- 
go corria com o cuidado dâ Chriftâdade de fua VÚli ? que 
fica perto de Sinoa 5 que nos annos paíTados fora corte dç 
todo o Reyno. Para que os fieis viveíTem mais cõfolados^ 
& ti veííé comodidade para o cxercicio das coufas de Dcos 
levantou a fua cuíia húa Igreja , & a tinha muyto bem âí- 
feada:onde gaitava os dias fantosjÔc todo o terhpo,que lhe 
fobejava das occupaçóes neccílarías para o fuftento de fua 
família. Como era primo no ofEcio de Alfayate: òti porq 
o dernonio lhe queria tirar aquella occaíiaó de tratar tan- 
to de Deos5& com Dcos; foy chamado à Corte para o fcr- 
viço dei Rey. Porém nem a morada no paço lhe ppdia im- 
pedir , o ir de quando cm quando com vários prctcxtosH 
lua igreja > em que achavâ o defcanço de fua alma : nem d 
íerviço dos Principes o fafia reniífiò nofeviço ácI^coÈ: 

Logo 



REYNO DA COCHINCHÍNA. 360 
Logo que ouvio falar no paço de pcrícguiçaõ contra os 
ChriíHos/e foy íacramcntarjpara fc achar preílcs^Ôc me- 
nos indigno para o que Dcos difpofeíTe deiie.Foy dos pri- 
meyros prezo^jporquc erg conhecido no paço por Cnri- 
íláo. Era Simaó patrício de Miguel;aílim no fervor do ef- 
pirito.comono exercício das virtudes eraõ ambos muy 
íèmelhantcs: & ate na idade craó iguaes , fendo cadi hum 
de quarenta annos. Tinha Simaó rauyto cuidado da pu- 
reza de í ua conciencia;peío que frequentava com grande 
preparação os Santos Sacramêtos. Para que os mais Clirif- 
táos fe confcrvaífem também hrapos nas almaa ; tomav* 
eJIe à fua conta.ir bufcar Padres ainda de longe ,dfc emtê- 
dos de chuvas j & tempeftades 5 para que com a coufifiim 
avaíTcm fuás culpas: & com a Communhaô íicalíèm alei- 
tados no caminho da falvaçaó. Como Simaó fc publictva 
a todos por ChriíiáOjfoy logo bufcadojprczoj &c encarce- 
rado. 

Vicente, & Águeda naturaes da Província dcSinoa» 
eraó pobres? mas viviaó do trabalho de fuás mãos» &: havia 
pouco tem pojquetinhaó recebido o fan to Bautifmo.Co- 
mo a pobreza,que naó for extrcmajfeja mui ciiidadofa5& 
amada da virtude;por iílo efta perfeguiçaó achou a ambo« 
ainda có os primeyros fervores , que lhe« tinha deixado a 
agoa bautifmal. Foraó prezos; porque a innoccncia de fu- 
ás vidas os defcobrioaos gentios viciofos. 

Dos outros três â*ftbcr JoáÓ3Monica5& Lufiaraffim pe- 
la prcíla com que os foldadós os vaó levando já para o fu- 
plicio : como também pela talta de particulares noticiaS} 
bailara dizer , o que o Apoftolo Saó Paulo diíia dos perfe- 
guidosna primitiva Igreja : que o Mundo todo naó tinha 
merecimentos para ú$ tctjnem os ver ; porque Dcos 5 co- 

mo-afíirma a divina Sabedoria 5 os tinha achado dignos de 

ly. -•• ^ -..^.^. ./...,.. ■ 

Veftidos pois todosfett;^ com o méThor, que cada hum 
tinhajfe encaminhaó '' iti o lugar da morte tam alvora- 

Kk iij çado*, 



a6i BREVES HOTICI AS DO 

cados.como íc foflèm buícar a vida. Varias íaó as de mof- 
traçóes de âííeâos na multidão? que os vay acompanhan- 
do: nos foi dados, tudo faó ferezas: tios parentes , tudo fâm 
choros: nos eílranhosjtudo faó efpantos : fò nos padecen- 
tes gloiioíosjtudo hc alegriasâv contcntamcnto.Dos qua- 
cs os hooiens de quando cm quando vam pondo com a- 
grado os olhos nas câtanas^que lhes haõ de coroar as cabe^ 
ças,cortando-as. E as mulheres vaó âs vezes olhando com 
afreclo para os Elefantes , que pizando-as , as haó de levar 
triunfantes ao Ceo. Tam esforçado he o poder da divina 
graça! Chcgao finalmente: & difpoftos primcyro os qua- 
tro homens nos lugaresjonde hão de morrer; levanta Mi- 
guel a vòs, & diz. Saibaó todos 5 como morro puramente 
por fer Chriílaô. Receofo o Mandarim de algum motim? 
le cootinuaílè a mefma 5 ou ouveíTe outra fala dos pade- 
centes, fas logo íinal aos algozes: & todos quatro ficaó de- 
golados no campOímas coroados no Ceo, 

à ntes de entrarem os Elefantes ncfte theatro,convem 
faber: como os Cochinchinas não ufam da catana, ou alfá- 
gc para darem morte às mulhercsjnem a homês de dezoi- 
to aonos para baixo;porque tem para fyjque arma táo no- 
bre não hcjfenaó contra quem a cinge , & a pode menear. 
Mataó-nos porém com lanças, ou lançando-os aos Eletã- 
tes. O que eftes fazem em vários modos:jà pizando com o 
pè a cabeça do padecente : jà abraçando-o com a tromba> 
& batendo com elle na terra: jâatraveílando-o com os dé- 
tes: jà Icv^ando-o fobre os dentcsjo dcfpedçm muy altojôc 
efperando^o ao cahir, o atraveíram no ar com os mefmos 
dentes:] â pondo hú pè íobrc a perna [do padecente, & pe- 
gando da outra com a tromba o dcvidçm pelo meyo. Fi- 
ca poròm à vontade do Nairç , que aílentado no peícoço 
daquella torre de carne, a governa; mandar o género de 
mortCjque ella deve dar ao reo, que a efpcra em pc , ou af- 
fentado no chaó , conforme a-morte, que deve padecer. 
Reparando pois o Mandarim 3. ciucàvíftâ do íangue dos 

qua- 



REYNO DA COCHINCHINA. 262 
quatro homens nâó tinha fcyí:oabalo,ncm amedrontadQ 
íisti^s, mulheres; mandou çntrar os Elefantes, que fuítí- 
^a-ctes pelos Nairesdâvaó medonhos bramidos 5 & fâíiaó 
XXjai^horBvel gqudie theatroda morte. Mas íervíaó de 




denou o Tyrânnojq três daquellas beíias chegaílem mais 
per LÒ>para q nm viílii v&: vxíinhança de algozes táo in í j U' 
manos íi2.cíje.m tremerde medojasquehàviaó de mor^ 
rer. Porém eil^s como furpiraíTem pela morte, naó fò naò 
mudarão as aores , mas antes hiáo aparecendo mais vivas, 
& ayrofas no íemblantc , porque animadas do divino Ef- 
pirito. Somente moviaó os beiços rezando , encomédan- 
do-fe a Deos,&: oiTcreccndo a Jesv Chriíio feu Efpofo to- 
do o fangue, & as vidas por dadivas de ícu fiel amor. Pal- 
mado o Mandarim da conílancia,quc moílravam as pade- 
centes:& da admiraçam 3 que hião fuzendo os circunílan- 
teSjchcyo de furor,fcz finai. Envcíliram logo aquellas fe- 
ras com as três mancas , & ijinocétes Pombâs,que feridas, 
&i pizadas deixando feus corpos na terra por vióf imas da 
Fe, voaram fuás almas vencedoras , & triunfantes ao Ceo. 
Voltavão deif e cfpedlaculo tão cruel os Infiéis calla- 
dos,porque aílombrados ; nam íb por verem juftíçar tam 
barbaramente pcíToas tão innocentes, cujo crime fò fora, 
íidorarcm ao Crcador de todas as coufas, & guardarem fua 
Íey,tão conforme aos diofamcs da rafaó; mas também por 
alcançarem quam grande era o esforço , que efce Senhor 
do univcrfo comunicava , aos que o confefiavão , & mor- 
riÀÒ por ellc. Huns aprovavão nofiâ fanta Religião , por 
cila fcr tam prudentcjôc tão fanta no que mádava , Ôc lou- 
vavaó o animo, com que os Chriftãos a profeíTavam atè à 
morte. Outros porém com o Mãdarim tyrano empenha^ 
dos no ódio de Chriftojvinham raivofos, & defefperados; 
pois com os tormentosjôc com ^s mortes,c6 as quaes pre- 
tenditófazerodiofa5&" ^' om^vela leydos Portugue- 

Kk liij zesr; 



âé? BREVES NOTICIAS DO 

2;es;a hião ricrcditaíido por mais verdadeira : & defcoBr in- 
do niaisjíer dh robrenaturaU&: divína.Partidosos Gcnti- 
os;acudira6 os Chriíláos : ôc mais cnvcjofos do premio 
etcrnojQUc choroíos da pena temporal de feus írrnàos, & 
Irmãs trn o Senhor , deraó por então fepukurji naquellc 
f.ren! aos corposjmercccdorcsde ferem depois entroniza- 
dos íobre as cftrcllas. 

Ponhamos por remate dcílc Capitulo doa ConteíTorcs 
da Comarca de Dinh cat a Coroa i que alcançou Luís na- 
tural do mefmo termo : que tinha officio de Marchaute, 
& era cafádo com cila ditoíâ Monicajcuja conftancia mais 
que varonil , nos tem ainda aflbmbrados. Achava-fe Luis 
fora de fua cafajquando o prenderam ; 6c no mefmo tem- 
po roy preza também Mónica fua mulher 5 fera a mulher 
kber da prizão do marido 5 nc o marido da prizaõ da mu- 
lher. Porém logo fe encontraram ambos no Ceo 5 & am- 
bos coroados de Martyrio. ConfeíTou Luis aos foldados, q 
o levaram para a Corte de Sinoajcomo também a quantos 
Jhe perguntarão de fua prizão>& com mayor animo o dif- 
fe 10 Mádarim: como elle era Chriftáo muy ântigo,& não 
lieieiara outra coufa mais, que morrer crucificado como 
Chriílo filho de DeoSíõc Redcmptor denoíTas almas.Dif- 
fe o Mandarim a Luis : Tu como íabes, que efíe Chriíco 
morreo por ty na Cruz? Senhorjrefpondeo? ainda que eu 
não vy a Chriíto morrer por my na Cruz;os Meftrcs deíla 
ley no lo prègaósôc no Io eníináo: antes he hum dos prin- 
cipaes myftcrios de minha Religião. Nos o cremos>como 
fe o viramos com noíFos olhos. Mas Senhor,quem ha nef- 
te Reyno,que naó creashaver Rey na Cochinchina ; poré 
quaó poucos C\ó os que o tem viíto? Não fe atrcveo o Má- 
darim a fazer m.ais perguntas por fe achar convencido có 
aprimeyrarepoíh. Mãs vendo como era publico jà a to- 
dos os foldadog, & a todo aqucUe tribunal , fer elle ChriC 
tão pela fua tão repetida,6c voluntária cóíiílaó : nem fe cf- 
pcranquc pela íorça dos tormentos fe renderia fua conf- 
tancia 



REYNO DA COCHINCHINA. 264 

tancia a largar a Icy dos Portuguezes : o condenou à mor- 
te,para dar execução às ordens reaes ; porém como o co- 
nhecia innocente , mandou , que lhe deílcm a morte que 
eilc defcjava. Muy grande foy a fcftajque fez Luis^em ou- 
vindo a íentençaípor tanto tempo fulpirada. Ne iby me- 
nor a admiração dos Idolatras^por verem tanta alegria no 
homcm?por ler condenado a lhe tirarenj a vida:Deu logo 
Luís muy affeótuofos agradecimentos ao Mandarim 5 & 
foy andando para o lugar do fuplicio. No caminho int 
truia os foldadosjcomo o haviáo de crucificar, dizédolhes: 
que tomaílem duas haftas groíTas , & fortes, 6c atraveílan- 
do húa íobre outra , as pregaffcm, ou as amarraíTem f orte- 
mentCjêc íixaiTem húa das quatro pontas no cháo.Depoís 
lhe pregaílem a elle húa mão em húa ponta da traveíFa q 
ficava levantada da terra j&a outra mão na outra ponta 
correfpondente;&: IhepregaíTem também os pès na pon- 
ta inferior , que eílava fixa no chão. Porém os verdugos, 
ou por não entenderem a fabrica deita maquina : ou para 
cfcuíarem tantos apreítos de verrumasjprcgos , & marte- 
los,íixàraó dous paos altos na terra , & depois lhe amarra- 
rão hú pé a hú pao, & outro pè a outro, ficado todo o cor- 
po no ar virado com a cabeça para baixo. Achava-fe Luis 
mais contente 5 6c dava graças a Deos porque a Cruz lhe 
fahiamaispenofa. Sò lhe faltavão os pregos ; mas em feu 
lugar recebeo três golpes cruéis , 6c mortaes. O primey ro 
lhe levou a cabeça : o fegundo lhe cortou os peytos : & o 
terceiro lhe cortou o ventre56c levou o meyo corpo; fica- 
do pendurada a outra amctade. 

Com eíta morte quanto mais cruel,tanto mais gloriofa 
venceo Luis ao tirano na Corte de Sinoajtendo fincoenta 
annos de idade. Os mayores amigos não podiaó fazer ma- 
y or obfcquio a Luis;do que lhe fizcrão os mayores inimi- 
gos. Pois com fixarem aquellcs dous paos, levantarão du- 
as colunas para often tarem ononplus ultra defua conf- 
ta ncia: com o pcndurare ia cabeça para baixo, o pu- 

LI zerão 



205 BREVES NOTÍCIAS DO 
Z-eráo no caminhojpara o Ceo:6c com aquelles três golpes 
o coroarão vencedor com três coroas. Quanto pois ficou 
mais cortado o corpojtanto mais inteiro teílimunho dei- 
xou da verdade da ley que guarda vaj^í do Deos, aquém a- 
dorava. Naó íe devem cal lar 5 aquy as noticias de Thomè 
natural da Comarca de Liem coum;poís foy companhei- 
ro de Luís ( de quem atégora falamos ) náo íòmêtc na pri- 
zão; mas também na confiííão de noíia íanta Fè : & o acó- 
panharà ainda na morte , íe com a vifta de fuás fnuytas cãs • 
bem aílentadas em fetenta5& quatro annos deidade, nanx 
fe abrandara o duro?& cruel coração do tyrano. Era Tho- 
mè dos mais aníigos3& dos mais fervoroíòs Cbriílãos^que 
havia naqueila Comarca;& por fer muyto prudente , zc- 
]ofo3& caritativo ? os Padres o tiiihaó conftituido por ca- 
beça daquella Chriílandade. Com efta nova occupaçaó fc 
deu Thomè por obrigado a levantar húa Igreja para con- 
folarjôc affervorar mais a piedade de fcus f reguezes. Favo- 
recendo Deos os pios intentos de fcu Miniftro , lhe cócc- 
deo finalmente o que tanto lhe pedira. Foy tal a alegria? q 
rccebeo Thomè no dia em que ie abrio a nova Igreja 5 ca- 
paz de íeis centas pcíToassCjue cfquecido da gravidade que 
tinha pelo muyto pezo dos annos; contando entaó os ieC' 
fenta ôc fette de idadcjfe poz a dançar de prazer,cantando 
louvores a Deos : imitando a David j quando eíte , fendo 
mais moço>acompanhava a arca. 

Publicado pois o decreto real contra os ChriíHos, nanx 
fe efcondeo Thomè;pelo que foy logo prezo,&: com elle, 
Luis: foraõ ambos levados à Corte de Sínoa 5 & ambos có- 
fefsàraó;íerem Chriíl:áos?jà de muytos annos, & guardarei 
a Ley de Deos. Naó fe atrevco o bárbaro Mandarim a mã- • 
char com fangue a brancura daquellas veneráveis cásdi; 
Thomè; mandou porém aos foldados o fechaíTem cm hí i 
]ugar5& alli o deixaíTem morrer à fome^ôc à fede.Naó iri a 
o raminto com mayor defejo para hum grandiofo conv i- 
tc: nem quem morrcílc de fede para a Cbriftallina , & co- 
pio fa 



REYNO DA COCHINCHINA. 266 

piofa fonte ; do que moíl:ravaThomè?indo andando para 
o calabouco^onde havia de acabar a vida com a tútà de to- 
do o neceílario fiiftento. Atónitos ncâvaó,& aíTonibrados 
o tyrano , os verdugos , & os que o viaó paífar : reparando 
no grande esforço daquelle velho de crepito, & no nnuy- 
to goíl-o de ir perder fua vida com húa morte quanto mais 
lentajtanto mais penoía. 

Entrou Thomè muy alegre na camâra da morte: & 
cuidãdojquc dalli fò fahiria para o Cco ? deu graças a Deos 
pela mercê 5 que lhe faíia de o pôr no caminho da Beraa- 
vcnturança: & dados aos foldados os agradeci mentos, por 
o terem levado àquellelugar o mais cómodo, & o mais a- 
prafivel para elle , fe defpedio de todos , & de tudo o q ha- 
via neftc mundo. Qnanto mais lhe hiáo fechando , & ta- 
pando a porta: tanto mais fe abriajôc le alargava o coração 
de ThomÒ5por ficar mais certo de morrer alli por feu Re- 
dcmptor. Livre pois das forçofas obrigações defuftentar 
a vidajcomeçou a fe ocupar todo em íe difpor para a mor- 
tCjgaítando os diassôc as noytcsjjà em rezarjjà em meditar 
a fome5& a fede,que Chrifto feu Senhor padecera. Neftaa 
coníideraçóes paífava o tempo com grande foccego da al- 
ma 5 & confolaçaó de feu efpirito. Sô ficava aíluíFado 5 3c 
trifl:e,quando rcparava5que naó fentia fraqueza no corpo, 
nem di minuidas as forças. 

Fecha va-fe já o oitavo dia de fua reclufaó ; quâdo o Mã- 
darim indo enformar a ElRey das rigurofas execuções, q 
elle tinha feyto contra os Chriíláos:deu juntamente con- 
ta do caftigo dado a Thomè 5 aqué comutara a pena de fer 
degolado 5 com o privar de todo o humano fuítcoto ; por 
julgar que naquellas veas lhe ficava congelado jà o fangue 
pela muyta velhice. Cuidava o barboro Mandarim levar 
de feu Rcy grandes louvores da fua crueldade:perfuadido 
que fô com in humanas execuções poderia grágear a gra- 
ça de feu Senhor irado. Mas he engano eíle de Miniftros 
diabolicos;pois quanto ms»^'*^ grande he o Príncipe , tanto 

LI ij mayor 



^ej BREVES NOTICIAS DO 

Diayofhe a compavxãojque o acompanha: &a grandez-a 
real fe conhece nos homés pelos grandes favoresroos brur 
tos pelas grandes crucldíides. Repreheiídeo logo ElRey 
a fereza de Minifcro, por dar niòrtetão inhumana ? tanto 
mais pcnoía quanto mais vagaroía: mandoulhe abriíTc lo- 
go o calabouçoi&^gçhandQ a Thomè vivo o largaíTe , & fe 
jhe reíhtuiílejquanto fe tinha confifcado de fua pobre fa- 
zenda.Foy logo o M^ndarini cheo. devergonha bem mc- 
recida5& fò nifcp moftrava fer homem : & rec-eofo 5 que a 
.corrupção daqiielle corpo tido por morto, cmpeftariag 
todos^niandou deftapar 5 & abrir a porta cora tento. Mas ' 
achclran] VÍVO5&: vigorofo^aque tinhaõ por morto? já cor- 
rupto. Pafmou có femelhante vifti o Mandarim , & quã- 
jtos o acompanhavaõ : nem davaó acordo de fy pela novi- 
^lidcdo fcu fuccel]b;pois eftavaó muy ccrtos^quc lhe naó 
.entrara coufa > que podeíFc fervir de alimento. Nem foy 
menor o efpanto de Thoméjpor ver aberta a porta do car- 
íjcre^quando eíperava fechar os olhos a cfta vida. Cuidou 
porém que o raatariaó;& por iíTo lhe tornou o íoccgo 5 & 
a alegria ao roílo. Mas quando ouvio que o raandavaó fa- 
hir livre;entaó íè lhe cobrioo femblante de triltezaí 6c de 
lagrimas os olhos;por lhe fugirem a Coroa , & a palma do 
niatrioionio por oito dias efpcradasjôc fufpiradas. 

Reparando porém o Mandarim nos aplauíos5que teria 
a Ley de Deos por aquelle admirável fucceíTo de ficar tão 
vigoro ío hum velho quafi de oitenta annos depois de oi- 
to dias de tão rigorofâ abftinencia : para tirar eíla gloria a 
Deosjque fò com a palavra pode confervarjôc alentar fuás 
creaturas ; mandou lançar alli huma Sagrada Imagem no 
châÓ5& ordenou a Thomèja pizaífe.Lançou-fe logo Tho- 
mè no cham , & poíio dejoelhos levantou com grande a- 
catamcnto a Sagrada Imagem: 6c pondo-a fobre feus pey^ 
tosa abraçou aífeélaiofamente como prenda a mais cíti- 
mada. Vendo o facriligo Mandarim , como fua obftinada 
maldade ficava em tudo vencida da piadofa conítancia do 

\ Tho- 



REYNO DA COCHINCHINA. 268 

Thomé:com politica diabólica interpretrou o obfcquio 
jdc Thomè 5 por dcfprezo da Imagem , & diílè : Baíh iíTo, 
idevos agora embora para a volía caía, lograi os poucos di- 
as,qnc vos ficam de vida ; ik mando ? vos íeja reílitiiido , o 
que cílava confiícado de voííbs iia veres para a Coroa. Não 
foy neceOario a Thomcjfazer dcclaraçam5& proteílaçam 
4c quam honrofa fora íua acçam para a Sagrada Imagem; 
porque todos aílim Miniílros como circunílanteseram 
teftemunhasdeviíla: & alcançavam a aftuta politica do 
Mandarim,que vendo-fe vencido , fe publicava viâorio- 
fo. Tam cego o & fera nenhu pejo fica o homem pela pay- 
X^o ! Deraó logo os circunftantes mil parabéns a Thomèj 
peJo bom fucçeíío que tivera. Mas .elle muy triíie fcy an- 
dado para a fua cafa_; fò fe confolava có ter feyto fua obri- 
gação: & que Deos pela fija benignidade Ihenaó negaria 
J19 Çeo a Coroa; vifta elle naó fer faltado ao combate. 

C A P I T L U O XXIIL 

Fida virttiofa : crucii tormentos : (j^precioja mcrte de Marthx 

Thuoc, 

ASCEO Martha na Provinciâ deSinoa 
de pays illuftres 3 mas gentios : dos quaes 
foy criada com todo o defvelo;por ve- 
rem juntos nella os dotes,que a natureza 
coftuma repartir pelas donzellas. Sendo 
de quinzeannos de idade, a deraó por ef- 
pofa a hum fidalgo feu igual,& Capitão de Infantaria 5 do 
x^uâl teve hú filho. Porém como as filicidades 5 ou as cou- 
fas,que o mundo louco cuidajôc chama felicidadesjnaó íe- 
jaó duraveis;pelo tempo levar arrebatadamente com figo, 
quáto fe começa á gozar nefta vida : fò dous annos lhe ví- 
vco o marido5& morrco idolatra. PaíTava Martha fi-ia viu- 
dez com grande recolhimento : porque os poucos annos 

LI iij com 




269 BREVES NOTICIAS DO 

com a liberdade, aílini como induzem âs vezes gs de pou- 
co juízo a locuras ; aílim pelo contrario obrigaó âs prudê- 
tGs a viverem fempre mais retiradas. O empenho de feus 
cuidados círava na boa criação do unico íilho, que lhe fi- 
cara para doloroía lembrãça de ícu efpoíb , & para perpe- 
tuo dcíengano das falías promeíías do mundo. Aliava po- 
rém de quando cm quando eftas fuás contínuas moleílias 
com aigúa vifita de húas Senhoras, que conhecia muy re- 
giítradas cm íeus procedimentos;& eraó muyto mais ret 
peytadas pelos bons coílumes, que pelo luftre do íangue, 
peias quíies teve algíías noticias da Ley de Deos. Foy tal o 
deíeiojqueteveMarthadefaberjoque efta ley eníinava> 
& iiicidava, q quiz ouvir o catcciímo:& ficou logo períua- 
dida,fer eíía a verdadeira Rcligiaójque levava as almas pa* 
ra a Bemaventurança. Pelo que tratou de aprender as o- 
raçôes , & de ouvir a explicação de feus Myílerios : &c de- 
pois de bem inítruida recebeo com o filho o fanto BautiC- 
nio,rendo ella dezoito annos de idade. >- 

Como Deos achaífe efia alma exercitada nas virtudes 
nioraesjfe lhe ioy communicando com mayor enchente 
de ília divina graça. A qual afiim como começou a caufar 
em Martha grande o borrccimento a quanto o mudo en- 
ganofo podia prometer â húa peíFoa illuftre, 6c a quanto a 
carne lifonjeira podia ofFerccer a húa moça viuva :allini 
também a foy aíFeiçoando à mortificação de fy, & à deva- 
çaó para com Deos. Por ifib deu de mão aos regalos de fua 
pclioa5& aos divertimentos pofto que licitos : defejofa de 
agradar fomente a Chrifto novo efpofo de fua alma? & de 
fe deter com elle na confideraçaó do muyto , que por cila 
padecera. Deíledefejo pois procedia a frequente cómu- 
nhaójpara a qual fe aparelhava com grande cuidadoipor fe 
conhecer obrigada a compor fua alma com mayor ornato 
de aólos virtuofos para receber a Deos ; do que fizera em 
ornar o corpo para receber hum homem por efpofo. C6 
eítas lembranças quafi continuas da payxão , & com eftas 

tam 



REYNO DA COCHÍNCHINA. 270 
tamfrequenrecommuiiicâçaó com Chrííro Sacramen- 
tado foy crecendo cada vez mais em Martha o amor a íeu 
Rcdemptor5& porque era verdadeiro amorípor iílo ie fo- 
raó acendendo nella os deíejos 5 que eíre Senhor foííe co- 
nhecido, &c amado de todos. Pelo que fe refolveo a íe oc- 
cupartodana lalvaçaódas almas. Mas porque fe achava 
muyto falta das letras neceílarias para convencer de faiíi- 
dade os erros dos idolatras 5 & para lhes eníinar as verda- 
des 5 evangélicas ; fe deu com tal defvelo a ler os livros de 
noííà fanta ley,& ao efrudo do Catecifmo? que íahio muy 
vifta em tudojck podia pregar 3 ôc catequizar como qual- 
quer bom Catequiíla. 

Foy Deos diípondo eíla fua amadasSc amante ferva pa- 
ra falvaçam de muytas almas. Pois em tempo da perfegui- 
çaó quando os Padres foraó lançados fora do Reyno:nem 
os Catcquiilas eraó admitidos nascafas dos nobres pelo 
medo dclRey;fò Martha tinha livre a entrada, porque fe- 
do conhecida pelo fangue 5 & Tia do Capitão da Guarda 
delRey naô dava que foípeytar aos inimigos da Fè : ou fe- 
naó atreviaò círes a prefeguila. Com o que muytasjôc mui 
graves peíIoaSíôc também Mandarinas crèraõ em Chrillo 
pelas pregações de Martha,& receberão o fanto Bautifmo 
depois ác ferem inftruidas por ella. Facilitava Deos eílas 
con verfoens com as graças ? & doens fobre naturaes , que 
tinha dado a eíta fua fiel 5 & cuidadofa fervajcom os quaes 
obrava couías admiraveis,& portentofas, que naó fomen- 
te acreditavaó a peííbajque prègava;mas também aprova- 
vão a doutrina,que lhes eníinava. Teve ella grande domi° 
nio fobre os demoniosjançando-os dos corpos,em que fc 
tinhão tiranicamente acaílellado. Achando-fe Martha em 
Cachãojtrouxerão os Idolatras húa mulher Gentia ende- 
moninhada; &pediráoà ferva de Deos , a livraífe de tão 
cruel inimigo. Não fe pôde cfcufar Martlia deíle pctito- 
riojpor cuidarjq a mercê feria para grande gloria de Deosi 
& ferviria de pregação da verdade de noíla fanta ley. Forc 

LI iiij recor- 



270 BREVES NOTICIAS DO 
recorreo prímeyro à oraçãoj pedindo a Deos : não pofeíTe 
ieus divinos olhos em feus deímerecimentos , mas na Fè 
daquellesgcntios,&; naneceíUdadedaquella creaturatão 
vexada do comum inimigo. Tomou para iílo por lua in-, 
teríibra a Virí^emíro^ando-a: quizeíle alcançar de feu bc- 
to íiihOjO que clJa por ícus peccados não tinha merecimê- 
tos para pedir. Acaba efta oração5levantou-re , & mandou 
à n lulherjou ao demónio na mulher , diííeíTe a verdade : q 
couía eraó os Ídolos adorados pelos q não erão Chriftáos? 




nas de íercm aeípeytadas:& as foy chamando com nomes 
tao búixos5& tão reos,quc não ha nefte mundo couía que 
mereça íemelhantes opróbrios. Depois foy dizendo de 
Deos3& da Virgem íua Mãy couías tao altas, & com pala- 
vras tão honro/asjque bem moílravão a foberania das pef- 
íoasjde que falavajôc o medo que delias tinha. Quâto ma-. 
yor era o eípãto que íe enxergava no roíto dos Idolatras, 
por ouvirem couías tão abomináveis daquellesjcujas eíla- 
tuas eílavaó adorando : & coufas tão admiráveis de Deos, 
delles tão aborrecido; tanto mayor contentamento fe viV 
no íemblante dos Chriíláos 5 por ficarem deícubertos os 
enganos 5 por qué os traçara : & apregoada a Ley de Deos, 
por quem a perfeguia. Suppoíla eílaconfiíTaó dodemo- 
nio5mandoulhe Martha 5 fizeíFe corteíias a cada hum dos 
Chriílãosjquc alli fe achavaó prefcntes;pois fò elles mere- 
ciáo toda a honrajôc acatamento,por ferem adoradores do 
verdadeiro Deos, a quem ferviaó todas as creaturas. Obe- 
deceojobrigado do poder fobre naturaU o foberbo tyrano 
das almas :& ficando a endemoninhada aíTentada 5 como 
coítumão as mulheresjcompòs as mãos fobre os peytosjôç 
foy abaixando para cada hum a cabeça atè tocar com ella 
o cham. Bem íe via 5 que o diabo era ? o que a guiava ; pois 
entre aquclla coroa de affifl:entes;Chriítãs5& gentios mif- 
turadosjpoucos eraó conhecidos da niulher;mas ella faíia 

aqucl- 



REYNO DA COCHINCHINA. 271 

aquellas cortcíias íòmente aos Chriftãos;íicando os Idola- 
tras não fò aírrontadasjporque deíprezados ; fenáo també 
aíTombrados 5 porque convencidos das facilidades da ley, 
que guardaváo5& dos deolcsja quem adoraváo. 

A maneira com que Martha deíapoíJava dos corpos a- 
quelles efpiritus internaes , era com rezar as ladainhas de 
Noíla Senhora: ou com dar a beber huma pouca de terra 
de São Paulo delida em agoa. O que tafia 5 para empenhar 
na vitoria o íoccorro do Ceo : & também para encobrir o 
poder 5 que ella tinha na terra contra os principes das tre- 
vas. Com eíle dom do Ceo ficava Martha formiidavel aos 
demonios5& refpeytadâ dos gentios. Porem o que a faíia 
amável a todos5era lua grande charidade em curar aspcí- 
foas doentes3& a graça admirável de apaíiguar as defaven- 
ças. Bailava aparecer cllajpara os corações mais obftinados 
íe renderem: & largando todo o ódio, receberem có amor 
as peíTas atè então aborrecidas. 

Efta vida de Martha tão virtuofa para fy 5 5c tão provcí- 
tofa para os outros não podia deixar de cauíar aos inimi- 
gos de Deos5&: íequazes do demónio grande pena 5 & fu- 
ror. Porém porque lhes faltavão os poderes para a execu- 
ção de fuás diabólicas vingançasjcomo cães raivofos mor- 
dião as cadeas5Com que íe vião prezos : eítranhando o dcí^ 
cuido em fe permitir tanta libcrdadcjcom quãta hia Mar- 
tha en finando a todosjôc em particular as peílbas fidalgas, 
& ate dentro do Paço Real a ley dos Portuguezes: & con- 
denando por feiticeria as ceremonias do Santo Bautifmo, 
com as quaes trocava ella as vontades nos que a recebião, 
& os fafia enlouquecer de maneirasque não pareciáojnem 
erão o que dantes moítravâo em feus coítumes , & proce- 
dimentos. Por efte ódio , que tinháo a Martha alguns gra- 
des do Reyno 5 por ferem muyto mayores no cjlrago de 
fuás vidas;logo que fahioa prohibição da ley , mãdàráo c5 
toda prcíTa foldados em fua bufca^para aprenderem. Poré 
Martha pofpondo fcu goftojque era dar logo fangue , 6c a 

Mm vida 



^7^ BREVES NOTÍCIAS DO 

vida por feu Redeniptof ? ao provey to dos que teriaô ne- 
Cêíiidade de quem os confolafc&animaíre naquella cru- 
el5& infernal tempcítade , íahio de fua cafa , & íe poz em 
húa embarcação pequenaj com a qual mudava fempre de 
dia o íurgidourojêc de noyte acudia aóde julgava fer mais 
lieceííario o íoccorro: Diíia pois aos liomens : E jà Irmãos 
meus mayoresihe chegado jè o tempo de moílrarem a va- 
lentia de íeus cípiritus. Não aparece a grádeza do an!mo> 
lenaó nos grandes apertos da vida : nê fica avaliada por ge- 
nerofa a conílácia?fenaó quãdo oáo íe foge da morte. To- 
dos nacemos para morrer: a morte he comua a todos. Sò a 
cauía de morrer antes de tempo aílinalado a cada hum pe- 
la natureza,& ageneroíidade em dar a vidaj fazem a mor- 
te glorioía. Eu não fey como poíTa haver homem, que por 
medo de perder a vida , largue a Ley de Deos? que profet 
ia. Pois cada dia ouço cotar o esforço, com que noíFos foi- 
çados morrem nas baihalhas:fò por naó largarem o poílo, 
que lhes foy entregue: nem faltarem a feu Rey com a fi- 
delidade, que lhe tem jurado. Por ventura no Eautifmo 
não temos todos prometido a Deos aguarda de fua faota 
ley. Por ventura não he obrigação forçoía , con fervamos 
na divina graça , aílim para náo darmos ao inimigo inter- 
nal entrada em noílas almas; como para não perdermos 
com a graça também eterna Bemaventurança ? ConfeíTo 
ter eu grande pejo, quando confidero o muyto que os gé- 
tios,fazem para o pouco , que lhes da o Rey da terra : & o 
pouco que noílos Chriílãos podemos obrarjpara o muyto 
com que nos remunera o Rey do Ceo. Elles fe arrojam a 
todo o perigo de vida para confervar,& acrecentar o de- 
mónio de íeu Senhor;& o premio que recebem he algum 
acrecentamento,no foldo , &; na hora. Mas fe morrem na 
peleja , perdem tudo com a vida. E nos que devemos ter 
muy iogcitas , & obedientes a Deos noílas almas , muyto 
mais preciofaSíque todo eíle mundo : & nos corre obriga- 
ção úc empregar todos noíTas potencias para o acreccnta- 

méto 



REYNO DA COCHINCHINA. 27^ 
meto da gloria de noíib Crcador , íeremos menos animo- 
fos cm expomos aosriícos , & fugiremos vergonhafamé- 
te do combate:a que nos obriga o agradecimento do muy- 
tOjque temos recebido de Deos: & nos convida a efperan- 
ça de alcáçaremos ma)^ores provey tos ? Pois o que ganha- 
remos fera tudo noílbiôc os prémios que Deos reparte pe- 
los vencedores,faó glorias5&: gozos eternos; nem podere^ 
mos ter melhor fuceíTo, que deixarmos a vida no confiic- 
t05porque então alcançaremos o triunfo no Ceo. Se eíla 
vida temporal finalmente ha de acabar 5 acabe noferviço 
de feu Creador,& Redemptoj; & com húa morte glorio- 
fa , ponhamos na poífe das riquezas 5 & das honras de húa 
vida immortal. Aííira falava Martha aos homens ? porém 
as mulheres acrecentava mais dizendolhes. O amor mi- 
nhas Irmãs mayores 5 fò fe conhece no padecer pelo ama- 
do;ncm merece nome de efpofa aqucllajquc por medos 
larga,& f oge de feu cfpoío. No Santo Bautifmonosdef- 
pofou Chrifto DeoS)&: Homem; & bem moftrou a gran- 
deza de feu amor no muytOjquc por nòs padeceo.Efte he 
agora o tempojcm que nos havemos5& devemos ofrentar 
a fineza do noílo amor agradecido. Morramos por Chrif- 
to;pois morreo por nòs.Os tormentos nos ferviraó de de- 
graos para fubírmos ao Ceo , & a morte nos abrira a porta 
para entrarmos no paraifo, 6c celebramos aquellaseter- 
nas,&: caftas bodas com o filho de Deos. Cofiemos fò nel- 
le: por elle chamemos em noíTas penas; porque ellc como 
Creador alentará noílà fraqueza: como Rcdemptor pele- 
jará cm noífa companhia: & como efpofo nos coroará vé- 
cedoras5& triufifantes. 

Eítas,& fcmelhantcs palavras animadas do fcrvorofo 
cfpiritojcó que Martha as difia , abraíada já cm defejos do 
Martyriojnão fomente dcftcrravaó todo o medo, que por 
ventura ouvelfe nos ouvintcs;mas ainda lhes acendião de 
tal maneira os coraçócsjq íò defcjavaó padeccr^ôc morrer 
por feu DcosjSc Redemptor.Os perfeguidorcs jà não eraó 

Mm ij temi- 



^74 BREVES NOTICIAS D O? ^ 

temidGSjmaserperados: os tormentos pareciáo mimos; & 
quanto mais cruel fe lhes repreíentava a morte; tãto mais 
era delles defejada ; porque mais proveitofa pai*a elles 5 & 
para Deos mais glorioía. 

Masnãoioy poíllvel íicar muyto tempo efcondidaa 
embarcaçaóíem que Martha morava de dia,; por fere grã-^ 
des as peíquizas dos íoldados,obrigados doempenhojque 
feus Capitães tinhaò em.prenderé a efta pregadora da ley 
de Deos; Porem muyto mayor foy o alvoroço de Martha 
por fer achadPoque dos íoldados 5 por darem finalméte có 
ella. Pois vendo-íe jà livre da obrigação de acudir aos ou- 
tros Chríílâos; íò lhe ficava a ella todo o tempo para le a- 
parelhar paraoMartyric. Confeílou quem era, que era 
Chriílã aotiga5& que deíejava,poíl:o que no cabo da vida, 
oíFeredek com todo o fangue a feu Creador. Foy logo le- 
vada para a terra: 6c fechada em huma caía ? começarão os 
verdugos a lhe darem tormentos. O primeyro foy aplica- 
remlhe peio corpo laminas de ferro abrafadas, obrigãdo-a 
a defcubrir , quaes eraó as Mandarinas , & damas do Paço 
Chriitás,& quem as bautizàra.Porèm Martha eíleve fem- 
pre naó íô calladajmas também muy focegadaínão dando 
final de dor?nem de moleítia ? que lhe caufaíle aquelle fo- 
go tão intenfo. Aílombrou efta vifta a todos os círcunftá- 
tes: & parecia terem antes veílido o corpo de Martha có 
frefcas fedas de efcarlate , do que terem no coberto de fer- 
ro afogueado. Pafmados ficavão os verdugosjnem fabiam, 
que tormento lhe poderiaó dar ? que foíTe mais cruel , Ôc 
mais penoio. Neíla fufpençaó acudio o demónio 5 & fu- 
gerio hum verdadeiramente mfernalj a faber: acenderlhe 
lume nos ouvidos. Teve o plaufo de todos a invenção do 
mais cruel : & mandando a Martha abaixaíTe a cabeça fo- 
bre hum hombro , lançarão azeite no ouvido 5 que ficava 
de cKPia5& pondolhe hum pequeno pavio 5 o acenderam. 
Reforçou Martha fua confiança em Deos neíle combate 
quanto menos collumado tanto mais temerolb :& cha- 

... mando 



REYNO DA COCHINCHINA. 27^ 

mando com repetidos rogos em íoccorro a feii divino ÉA 
poíojfe offerecia a mnyores penas para a fua mayor gloria. 
Occupada pois toda nos deíejos de mais 5 & mayores tor- 
mentosjnaó lò naó reípondia aos atormétadores, quelhe 
perguntavaó das fidalgas Chrií|-ãs;mas nem ainda moílra- 
.va ter penarantes parecia receber conforto daquelle fogo, 
que toda via foy penetrando tanto, & com tal efficacia -, q 
lhe tez faltar fora hum olho. Naó ficou perturbada a cóf- 
tancia de Marthajporque cfperava por dores muyto ma- 
yores. Sô o in humano Mandarim defefperãdo poder vê- 
cer a fortaleza do animo da padecéte:nem poder alcançar 
delia as noticiasjque defejava 5 mandou aquelles bárbaros 
foldadosja mataílem às lançadas,mas de noyte; para que o 
caífigofoíTe de menos affrònta aos parentes? & também 
para evitar a multidão 5 que poderia acudir a femelhantes 
juítiças: a qual vendo a húa Senhora tao grave, tão prudé- 
tCjÔc tão virtuofa5morrer pela ley dos Portuguezes; poílo 
que ella a não prègaífe, bailaria para fe converterem? ver a 
coní]:ancia5& contentamentojcom que ella morria.Logo 
que Martha ouvio afentença 5 deu muytos agradecimen- 
tos ao Mandarim, & recolhida entre fy tratou de fe aparc« 
Ihar có aélos interiores para aquelle triunfo. Dava a Deos 
íis graças por ter difpoílojque por feu amor morreíTe alan- 
ceada; pois a lança fora o derradeiro inílrumento das feri- 
ridas de Chriífo na Cruz: & pela lança lhe ficara aberto o 
coração de feu feleílial Efpofo. Defejava por iíío Martha, 
que ao primeyro golpe lhe íiriíTem os verdugos 5 & lhe a- 
briílem a ella o coração, para pagar có aquelle feu fangue 
vivo a fineza de amoríque lhe moflrou feu Efpofo depois 
de morto. Com efles affeâos fehia detendo fuavemcnte, 
para aliviar o fentimento de tãta efpera.Sendojà alta noy- 
te,chegâraó os foldadosjôc com todo o filencio foraó leva- 
do a Martha para hum campOjque fica atras dos paços rea- 
es. Hia a innocente , & manca ovelha para a morte não íò 
fem balar; mas ainda tão alegre,& tão apreíTada , q encheo 

Mmiij de 

1^ 



%j6 BREVES NOTICIAS DO 

de aíTombro aqiiellcs inhumanoSíôc feros Miniíl:ro5;chc- 
gados porèni ao lugar aílinaladoja mandaram parar. Eftá* 
do pois Marthá com os olhos5& coração no Ceojfoy atra- 
veílada com duas lanças,que lhe ícrvíraó de afãs 5 para fua 
alma vidonoza voar para o trono de feu divino Efpofo. 

Alcançou cila nobre,virtuofa , & esforçada Matrona o 
premio de fua vida tam fanta, & a coroa de íua morte tam 
gloríofanaCortede Sinoa aos vinte ,& novedejaneyro 
de mil & féis centos ôc feOenta & fmcojíendo de lincocn- 
ta annos de idadcjdos quais tinha gaílado os trinta em pré 
garaley deDcos, &em converter grande multidão d« 
peíroas;muy gravcsjôc muy authorizadas. Vcrdadeiramc- 
te poderá ella íicar por exemplar às fenhoras em todos os 
eífados: na compoílura5& recato de fua peíloa fendo don^ 
xella: na paz com o marido 5 & bom governo de fua fami- 
]ia5fendo cafada: &: no terceiro dos ociofos divertimentos 
na fua viudez: & tudo iílo fendo ainda gentia. Depois do 
Bautifmo poíto que naó tiveíTe mais de dezoito annos de 
idade, naóquiz outrocfpofojquea feu Senhor Jesv Chrif- 
to; aquém dava particulares graças por lhe ter feyto mer- 
cê de livrala das obrigações de amar 5 & agradar a homem 
nenhura;para c]ue todo feu amorjôc todo feu cuidado dcf- 
de a fior de feus annos fe occupaíTem no feu divino fervi- 
ÇO5& na falvaçaó de fuás almas. Naó ha duvida que põem 
Deos de quando em quando na fua Igreja húas peífoas de 
eftraordinaria Santidade, quanto mais fracas na natureza, 
tanto mais esforçadas com a graça: para que os tibios íe af- 
fervorcm a viver virtuofamenterôc os fervorofos nam te» 
maó morrer esforçadamente pela virtude. 



CAPI. 




REYNO DA COCHINCHINA. 277 
CAPITULO XXIV. 

Outros ChriEãos perdem a vida nas T^rovincias de Norte^por naÕkrzâ* 

rematè/iueprofcjfavao, 

RANDES íaó as obrigações ? que deve- 
mos aos Hiíl:onadorcs,que nos deixaram 
memorias de aftos heróicos. Herança di- 
gna de mayor eílimaçaósque a dos bés 5 & 
morgados paternos ; pois com efces fò fe 
coníerva o luftre do íangue: & íe íoílenta 
com decoro exterior d bó nome da familia. Porém aquel- 
las lembranças enriqueíTem os ânimos com eípiritos ge- 
nerofos: &: alentaó os corações para acções dignas de eter- 
na gloria. Mas he tal a limitação do humano entendimê- 
to,queaíIimcomofaó poucas as heranças, que por mais 
cautelas 5 &claufulas dos teftadores naó deixem duvidas 
na execução de fuás ultimas vótades; allim também pou- 
cas hiÍLorias achamos cõ todas as particularidades dignas 
de eterna memoria. Aconteça pois iílo por falta de aten- 
ção no efcrever: ou por faltaré as noticias ao Efcritor , sê- 
pre porém vem a padecer o leitor toda a pena deíles deí- 
cuidosjcom lhe ficar : menos fatisfeyta a fua louvável cu- 
riofidade. Iílo he o de que eu me queixo, por achar dimi- 
nutas as relações de algus esforçados varões : faltado a hús 
o diajcm que deraõ a vida por Chriílo: a outros as particu- 
laridades das mortes, que por clle padecerão. Mas merece 
algúaefcufa os que deixarão os primeyros apontamétos; 
porque não he poííivel em quanto dura a tormenta , ter 
fcntido em todas as miudezas dos fucceflbs naquclla tem- 
pcftade; guardam- fe todas eftas diligêcias para o tempo da 
bonança 5 na qual depois muytas vezes cfquccem. Viíto 
pois fere neceílarios ao menos quatro annosjpara receber- 
mos da Cochinchinaj o que aqui nos falta de raeraoravci: 

Mm iiij me 



J 



27S BREVES NOTICIAS DO 
me refolvo a pòr ncíle Capitulo o que acho de certo; por- 
que cuidojíer mais agradável ao curiolojôc pio leitor, dar- 
ihe eu logo as noticias deílas vitorias da Fè ; que encubri- 
]as por tíio largo tempo, por naò virem taó circunílancia- 
das. 

Na noytc dos vinte di nove de Janeyro , em que Mar* 
tha Fhuoc deu a vida por íeu Efpofo jesv Chriílo ; foram 
também mortos pela coníiílãò da Fè na mefma Corte de 
Siooa dous fervoroíos Chriftãos,Damaí05& Bento.Defte 
n?.6 ha outras ooticiaSíque de padecer juntamente com a- 
quelle: & de ambos naô fe foube o género de miorte , com 
que glorificarão ao noíib Ixedemptor. As razóes5que mo- 
viãoaos tyranos a executarem occultamente íuas diabóli- 
cas iras nos q confeílavaójôc profeffavaó a Religião Chrit 
tã>eráo as que temos apontado no Capitulo precedente, a 
íaber: para que com a conftancia , &c alegria dos Cbrifrãos 
padecentes não íicaíle mais acreditada nos circunílantes a 
ley dos Portuguezes. Efcódiaó depois logo os corpos en- 
tcrrando-os , ou lançando-os no rio: para que naó foíTem 
íabidas as mortcs,nem veneradas fuás reliquias ; porque a 
morte padecida era teílimunhoda perfeverança nacon- 
fiíIaòdaFc que tinha6:&a veneração, que lhes deíleo 
povojavaliaria por verdadeira a ley, queguardavaó. Poré 
muy cega era a payxão óqHcs perleguidores ; pois nam ai* 
cançavacomoChrifto acompanhado de mayor numero 
de Anjosjdo que eraó as eílrellas , que apareciáo naquella 
noytejcftava aíliílindo ao combate defeus fieis fervos, pa- 
ra levar fuás almas vencedoras ao Ceo. Poucojôc quaíi na- 
da avulta toda a honra,que pode dar o mundo a qué mor- 
re por feu Redcmptor,fe elia fe comparar com a immen- 
cidadc da gloria , que Chriílo noíTo Salvador reparte com 
aqueiksíque largaó a vida,por lhe naó faltarem com a Fè. 
Çomtudojhe bem , que íe naó ignore a vida virtuofa de 
Damafo , para c]ue fique para noílb exemplo. Nafceo na 
Corte de Sinoajera Chriítáo muy antigo , 6c muyto mais 

fervo- 



REYNO DA COCHINCHINA. 279 

íervorofo. Todos ícus cuidados eraó, ajudar a feuproxi- 
moj & fervilo : & agradar por elle a feu Deos , & Senhor. 
Como fe não atrevia a prègar,por não ter o cabedal das le- 
tras neceíTarias para efte minillerio,não tão facil em huma 
iiaçaó ingenhoía , curiofa ? & cavillofa : fe occupava todo 
em íervir aos doentes 5 em aííiftir aos moribundos , & dar 
fepultura aos mortos. O que fafia com tanto defvelo 3 de 
goftojque parecia receber naquillo gf ãde mercèjôc íicarfe 
clle com todo o proveyto. Nem fe defcuidava dos Chrií^ 
táos valentes ; pois muj^tas vezes os levava cófigo em em- 
barcações para o lugarjonde havia Sacerdote, para recebe- 
rem dei le os Santos Sacramétos. Com eftes exercícios de 
caridade para com os homens? fe foy difpondo para o afto 
de amor mais perfeyto para com Deos; pois prezo por íer 
Chriílâojdeu o fangucjÔc a vida fendo de íincoenta annos 
de idade, por naó negar a feu Senhorjôc Redemptor. 

Joaó de proíifiaó lavrador , & natural també de Sinoa> 
foy filho dePays Chriftãos: cafou com mulher Chriítãjda 
qual fe apartoUípor elle ter natural muy afpero,ôc muyto 
nialfofrido. Vendo porem como os Padres lhe negavam 
os Sacramentos: dobrou a dureza de fua condiçaóíÔc quiz 
tornar a fazer vida com fua mulher 5 como Deos mãdava. 
Mas elkjou porque receaííe ainda o mao tratojou porque 
não efperaíTe proveyto das poucas habilidades do marido, 
não quiz voltar. Pelo que ficou ella efcluidados Sacramê- 
tos;& elle admitido à ConfiíraÓ5& à Comunhão. Pofto q. 
eítarepulfâfoífede grande aíFron ta a Joaó, porque pelas 
leys do Reyno fò os maridos podem dar libello de repu- 
dio ; com tudo Deos, (cuja mifericordia ordena todas as 
coufas para feus efcolhidos : & da malicia de huns fe ferve 
para fantificar a outros ) difpoz com a fua graça o coração 
de João de maneira , que teve o fucceíTo por particular fa- 
vor do Ceo ; pois livre jà de todas as obrigações do matri- 
monio,fe podia occupar todo no ferviço do Senhor.Com 
eíte defejo foy pedir aos Padres, o quizcífem recolher em 

Nq íba 



.â8o _ BREVES NOTICIAS DO >i 

fua cala: &: viílo não ter elle ourros talentossfe oíFereceo a 
fervilos de coíinheiro, Recebcruo-no os Padres para o có- 
íõkrem;porque vinha deí enganado do mundo,6<: refolu^ 
to a fe chegar mais a Decs ; &z pouco trabalho lhe cuftariá 
á corinha;pois náo crão neceíTarias grandes habiHdades pa- 
ra cozer hum pouco de arroz em agoajcom algum pouco 
conduto. Como o ofíicio tomava pouco tepo a João , gai- 
tava elle a mayor parte com Deos?que deíle exercício hu- 
milde o foy levantando para as virtudes mayores : dando- 
Ihe defejos de vifit-ar aos doentes , & lhes aíliílir em fuás 
enfermidades. O que faíia com tanta pacienciajalegnVoôc 
caridadejque cauíava admiração ? & edificação em todos, 
não fò Chriílãosjmas ainda gentios: aílim nos doentes co- 
mo nos circunílantes. Logá c]ue começou a embravecer- 
íe a perfeguição contra os Fieisjtrattou Joãode viíitarjCÓ- 
fo]ar5animar5& fervir no que podia aos prezos por Chrif- 
to. Vindo pois hum dia da vifita de hum ChriÍLãojque fe 
achav^a no tronco por profeílar a Ley de Deosjfoy encon- 
trado dos foldados: os quaes lançarão mão nelle3& o leva- 
rão ao tribunal do Mandarim. ConfeíFou logojoaó muy 
jivrementejque era Chriílão defde menino, & guardava a 
Ley dejesv Chriílojfilho de Deos, &: Redemptor de nof« 
ias almas. Naó quiz pizara Sagrada Imagem 5 como lho 
mandava o impioíôc facriíigo perfeguidor ; pelo que foy 
de noy tealanceado na mefma Corte de Sinoa, tendo qua- 
renta & finco annos de idade. Não fe fabe precifamente o 
dia,em que com fua morte alcançaíle ella vitoria cótra os; 
principes da terra jôc das trevas ; porem aconteceo no fim 
de janeyrojou principio de Fevereyro defte anno de mil; 
& féis centos5& fefienta5& finco. 

Com eíle fucceíTo tam gloriofo nos enfina Deos^quan- 
to fua foberana Mageílade fe agrada dos exercicios hu- 
mildes5& das obras caritativas feytas por feu amor. Nam 
faó neceílarios grandes talentos da natureza,para fe alcan- 
çar a graça: & a coroa da gloria j de do martyrio as dà Deos 

aos 



REYNO DA COCHINCHINA. 281 

aos exercitados nas virtudes,náo aos que fe prezão de gra- 
des habilidades. Tanto mais crece no leytor a pena caufa- 
da do defcuido do hiftoriador; quanto mais digno he o fo- 
geitOjde quem fe eícreve. Merecia também Matheus.que 
íicaílcm muy cabaes noticias aílim de fua vida exemplar, 
como de fua morte glorioía. Mas nem delle íabem os o dia 
èm que padeceo por Chrifto. Nem ha duvidajque a igno- 
rância do diaíCm q ue aconteceo algúa generofa acçaÓ5pre- 
judica muy to à gloria dos quea fizeraó ; pois como fica ao 
alvidrio de cada hum, & determinação do tcmpo,não po- 
dem fer feílejadas as annuaes memorias juntamête de to- 
dos: &faó mais honrofosos aplaufos de m uy tos juntos, q 
os de cada hum em particular. Mas fe quem efcreveo pri- 
meyro , faltou com o diajcm que Matheus alcançou o tri- 
unfo,naó quero eu calar as Chriílãs façanhas 5 pelas qu^es 
o mereceo. A incerteza do dia nos obrigará a húa cótinua 
lembrança de fuás glorias :& as noticias de fuás heróicas 
virtudes nos poderàó animar a pejfeyta imitação. 

Nafceo Matheus em Dungle da Comarca de Dinhcat: 
& com os annos lhe foy crecendo mais a piedade no culto 
divino, & o fervor na perfeyta obfervancia da divina Icy. 
Como pois o amor para có Deosvàfempre acompanha- 
do do amor do proximo;todos feus defejos eraó da cóver- 
fam ao menos de todos os de fua Aldeã. Paraefte fim foy 
bufcar o Padre fuperior, Òc lhe pedio com grandes inftan- 
ciasjquizeífe elle vir em peíToa? ou mandar algum feu Ca- 
tequifta para prègar,& converter a Deos aquelles feus na- 
turaes. Muy facilmente fe alcança o defpacho,quãdo que 
o hade darjCÍlà efperando para fazer a mercê. Por o Padre 
fuperior fe achar occupado , deu ordem a hú Catequiíla, 
foíTe logo a Dunglcjêc enfinaíTe aquelles cegos idolatras o 
verdadeiro,& real caminho da falvaçam das almas. Fa vo- 
receo também Deos os pios deíejos deMatheusj&aíIiífio 
com fua graça ao trabalho do miniílro Evangélico ; pois 
no efpaço de vinte dias fe aliftràraó debaixo do eftandarte 

Nn ij da 



282 BREVES NOTÍCIAS DO 

da Cruz mais de feíTenta peíToasias quaes foraó ajuntando 
o mais daquella Aldeã ao efquadraò do Salvador. Não ca- 
bia em fy de alegria Matheusjpor ver eíFeituado o que por 
tanto tempo deíejàra : & lhe creceo em dobro o jubilo de 
íeu coração , quando ouvío como todos querião concor- 
2'er alevãtar hua Igreja à Virgem Máy de Deos: & íe foraó 
liberaesemprometerjforaò muyto mais primorolosem 
contribuir. Andando pois efta Chriílandade com taes au- 
gmentos de piedade para com Deos,& de bons exemplos 
para com os homens ? foy aíTalteada da prefente períegui- 
çaó: &c logo prenderão a Matheusjporque como era cabe- 
ça daquelles Chriftãos , era mais aborrecido dos inimigos 
de noííà S. Fè. Foy levado à Corte de Sinoa5& eílãdo pre- 
zo:oufoí]ecom permiííàm das guardas compradas com 
pey tas:ou íoíle íugido do tronco 5 foy aíTiftir animofamé- 
te à gloriofa morte de Pedro Dang , relatada no Capitulo 
dezoito,& depois ajudou a enterrar aquellc vitorioío cor- 
po degolado pela confiíTaó de noíla fanta Fè. Neíh piajôc 
louvável acção foy conhecido, &: prezo a fegunda vez : Òc 
prcíentado ante o tribunal? coníeíJou com grande coragé 
a Ley Deos5que profefíava. Irado o Mandarim. , por ver a 
grade liberdade có que Matheus difiajguordar a Religianu 
prohibida por ElRey: lhe mandou , pizaílè a Imagem , íe 
quizeíle efcapar da mortCjá que eftavaó condenados, quã- 
tos f oOèm atrevidos alargarem a ley dos deofes do Rey- 
no. A eíia imperiofa, & facrilega ordem reípódeo Mathe- 
us brandaíUias refolutamentCj dizendo: que os Reys , co- 
mo foíTem íenhores fomente dos corpos de feus vaíFallos, 
lhes poderiam tirar a vida; naó porem caíligar as almas : q 
por íerem eípiritus, efcavam fogeitas em tudo íò ao Grea- 
dor delias. A efte deviaó obedecer^ôc reverenciar todos os 
Principes do mundo;po}s todos eraó fuás creatunís. Pelo 
que fe divia antes efcolher a morte propria,que o defacato 
do Creador de todas as couías. O que fuppoílo , como fc 
podia elle atrever a pòr fcus pès fobre a Imagem daquella 

Senhor 



REYNO DA COCHINCHINA. 285 

Senhor de todo o Creado aquém elle c6 todo o acatamé- 
to devia adorarPEílas rafóes de Matheus táo ajuftadas a to- 
do o bom dercurfo5& táo conformes aos didrames da nof- 
fa natiireza,naó acharam lugar no entendimento do Mã- 
darim;porque a ira opreocupàra : & a crueldade o trocara 
em fera. Antes ficando mais furiofo , como acõtece ao fo- 
go,qiiando fe lhe lança nova materiaxom brados de Leaó 
aíTanhado deu ordem aos foldados50 degolaíTem; para que 
aprendcííe a abaixar a cabeça às ordens reaes. Mas foy mal 
aconfelhado de fua bruta payxaó o cruel tyrano; pois en- 
tão lhe levantou a cabeça,quando lha fez cahir : & quãdo 
Matheus foy degolado , entaó ficou coroado , fendo de 
trintaj^: ímco annos de idade. 

C A P I T L U O XXV. 

Ellrãgos^ciucfe2:^aperjeguiçao no porto de Faifo : ú^converfao doprhh 

cip ai promotor delia, 

U T R O S muytos houve na Corte de 
Sinoa,& nas Províncias do Norte, que có 
feu fangue fc aííinàraó cm confirmação 
da verdade de noíla fanta Fè. Porém co- 
mo os defcuidos dos Catequiíl:asj& as tre- 
vas da noyte nos encubríraó as particula- 
ridades das vidas5& as circunftancias das mortes deites ef- 
forçados Confefibres de Chriílo ; por iíTo os callo , & me 
paííb ao porto de Faifô , para apontar os eftragos j que allí 
fez o furor defenfreado dos perfeguidores. 

Aquelle China gentio por nome Quico 5 de quem fa- 
lamos jà no Capitulo dezoitOjpelo teítimunho, que levá- 
tou aos Padres ? ficou depois muy aborrecido dos Japóes 
Chnfl:áos5dos quaes era antes amado, & favorecido. Ven- 
do ellc tão trocados os aíFeâos dos Japóes para comfigo: 
mudou também elle o animo para có ellcs : & lhe creceo 

Nniij tanto 




284 BREVES NOTICIAS DO 

tanto o odíojque para lhes fazer o mayor maljlhes quiz ti- 
rar a Fè. Traçou que vieíTe da Corte hum Mandarimjquc 
chegado a Faífò ■> depois de tomar por rol os Japóes Chrif. 
táoS)& fuás mulheres , obrigou cada cafa a entregar huma 
Imagem, & húas contas ? com hum papel affinado : como 
iiaó guardariaó mais a ley dos Portuguezes. E porque ef- 
te aíluto Mandarim fabia muyto bem a conílancia da na- 
çaó japoa:para a render, a combateo , com o tiro da honra 
tam natural a elles: ameaçando-os , que fe naó obedecefsê 
•às ordens reaesjtinha poderes , para pòr fuás filhas em pu- 
bhcoleiíaój &vendelasporefcravasa quem as quizeíTe 
comprar, 

Naó fe viraó em mayores apertos os perfeguidos Jap6- 
es:de bua parte o temor de Deosjôc o brio tam próprio da- 
quella naçaó os obrigavaója íuftentarem a Fè? que tinhaó 
abraçado,&: confeííado: da outra parte o amor às filhas ? ôc 
a affronta da família lhes perfuadiam a entrega das coufas 
fagradas 5 & a retirada da Religião Chriftã. Nos repetidos 
aííaltos de tão encontrados affeélos? naó podendo os fitia- 
dos tomar confelho com os Padres? por eíles ficarem pre- 
zos,& com grandes vigias ; o amor natural desfarçado có 
capa do zelo das almasjteve lugar para os enganar , fuge- 
rindolhes: como devendo fuás filhas perder a liberdade , a 
honra5& a alma 5 ficando concubinas dos annos idolatras, 
naó era peccadOíOU gera muyto menor , virem elles no q 
fe lhes pedia pelo Mandarim; do q não obedecendo a cfte, 
ferem caufas de perdcré fuás filhasjO corpo, & a alma : po- 
deriaó ellesjacabada aquella fúria da perfeguiçaójtornar a- 
profeílar a Fè publicamente; mas naó haveria mais remé- 
dio para reítaurar a honra das filhas perdida hua vez. A ef- 
tas rafóes aparentes fe renderão os Japóes: ôc executaram? 
quanto lhes fora ordenado em final de largarem a Fè? & 
Ley dos Portuguezes. Mas como húa maldade traz logo 
com figo outra mayor : & quem tem ódio nunca fica fatiC- 
fey to do maljque vè no inimigo , defcjãdolhe íempre ou- 
tro 



REYNO DA COCHÍNCHINA. 285- 
tro peyor.O impio Mandarim ao outro dia triata5& hum 
de Dezembro?mãdou vir a todos diante de ly , & lhes áif- 
fe:queviílo terem elles obedecido ao mandado real conl 

aq uel Ias dcmoftraçóespri vadasjcon vinha que ou veílèac- 
çam publica5parji conílar a todo o Reynojcomo naó guar- 
davam jò a ley dos Portuguezes ; antes a aborrcciaó muy- 
to. Pelo que pizaíTem todosa ímagêjque antes adoravam: 
èc mandou lançar húa mayor no chão. Em mayores an- 
guílias fe acharam os Japóes com eíla nova ordem do dia- 
bólico Mandarim. Poisa publicidade lhes metia grande 
horror de acção tam facrilega : & lhes caufava mayor ver- 
gonha ? publicarem-fe por fracos era largarem a Icy , que 
atè então tinhíio guardado. Mas muy facilmente fe defpe- 
nha em mayor precipicio a pedra 5 c]ue cahío do feu lugar: 
& perdida a graça pelo primeyro peccado, liça mais fácil a 
entrada a outro mayor. Seguindo pois os Japóes os falfos 
diélames do enganofo zelo das almas das filhas, não recea- 
rão de perderem as fuás próprias. Porém bem fe via? que o 
medo 5 Sc não a vontade os arrojava a fazerem aquella de- 
monílraçam tão abominaveljporque antes de eílenderé o 
pè:hunschamavãocom grande acatamento porjesvj&r 
Maria Santiffima : outros primeyro adoravão aquella Sa- 
grada Imagem: & todos com grande temorjÔc muyto ref- 
peyto punhão fò a póta do pè na extremidade do Paynel^ 
& tão levemente que quaíi o naó tocavão. 

Chegarão as triíles novas defte execrando [ucceíTo aos 
ouvidos dos Padres : & foy a mayor pena 5 que tiverão na- 
quelle carcere,affim pela oíFenía a Deos , como pelo mao 
exemplo^que tomaríáo os Cochinchinas fracos na Fè;vê- 
do cabidos aos q erão tidos por colunas da Religião Chrif- 
tãj&aosque imitavão como exemplares na guarda da di- 
vina ley. Pelo que forão os Padres por occultas vias man- 
dando a moeftaçóes aos Chriftãos: Reprovado comogra- 
villimo facrilegio a acção dos Japóes:encarecendo a gravi- 
dade do peccador: & declarando como não era hcito 5 iar- 

Nn iiij garcm 



s86 BREVES NOTICIAS DO 

garem a Fèjnein ainda fomente no exterior; pofto que c6 
iílb íe iir.pediííe a perdição de muytas almas. Pois a forço- 
i'ã obrigação de cada hum erajnaó negar a feu Deos 5 ôc Se- 
nhor. Seria fem duvida gravemente caíligado todo o foi- 
dadojque defcmparaíTe o eílcndarte5& a feu Capitaójpoí- 
to que o íizeííe para que a efte lhe naó faltaífem os mais:&: 
encorrcría enorme culpa todo o filho, q íe atreveíTe a det 
prezar a feu Pay ; pofto que com m tento que efre não re- 
cebeííe as afiiontasjcom que outros o tratariam. TrattaíTe 
cada hum de cumprir com fuás obrigações de esforçado, 
& íiel foldado de Chrifto5& de obfequíofo3& amado filho 
de Deos, que o perfilhara no fanto Bautifmo. As culpas a- 
Iheas fe podiaó,& deviáo impedir có amoeftações aos ten- 
tados,^ com rogos a Deos ; para que os não defemparaíTe 
de fua graça. Coftumava Deos acudir aos filhos pelos me- 
recimentos dos Pays; mas cuidarem os Pays , que podiam 
por meyo de graves oíFenfas contra a divina Mageíladejli- 
vrar os filhos dos males do corpo, &: da alma , era engano 
evidente;pois mais vezes caftigavaDeos nos filhos os pec- 
cados dos Pays. O mayor mal5& o mal dos males , que ha- 
via nefta vida5era o peccado m.ortal ; porq por elle íe per- 
dia a divina graça5& có ella o premio da eterna bemaven- 
turança. Alem de tudo ifto ficava o home efcravo do de- 
mónio, & condenado a perpétuos tormentos. Porém re- 
ceber a familia algum defdouro dos perfeguidores pela 
guardada divina ley, era a mayor gloria ;vifto o filho de 
Deos ter eícolhido por noíTo amor tãtas mjurias,& tantas 
aíFrontas. Quem fcnaó deveria gloriar do cativeiro , em q 
fe achaíTe por caufa de Deos;quando o Creador,& Senhor 
univerfal de todas as coufas quiz fer vendido , & ficar en- 
tregue para noíTo provey toa íeus mayorcs inimigos? O 
melmo Senhor teria o cuidado de defender nas filhas fua 
honeftidade,como o tem feyto em muytas donzellas fuás 
efpofas. Nem fe m.anchavaa pureza, íenaó com o cófen- 
timento: fem o qual a violência não oíFendia 5 mas coroa- 
va a 



REYNO DA COCHiNCHÍNÁ. ^i^f 
Vâ â Gaílidade: como o eníinàra áo tyrano à gloriofâ Virí^êí 
& Martyr de Chriito Santa Luíia. 

Com eftas advertências íicáraó muy inteirados os Ne- 
ófitos Cochinchinas do que não podiaó iâzer:& os Japóes 
muy arrependidos do que tinhaó jà fcyto. Foy tal o [tmi-' 
mento , que tomàraó do engano , com que o demónio os 
ganhàra^Ls: da culpa 5 que clícs contra Deos tinhaó comc- 
tidojquc na profunda triíleza do roílo bem íc excrgava o 
grande arrependimento do coração: & poílo qucfc tivcf- 
íem reconciliado ja com Deos, 6c com fua igreja; com tu- 
do vi vèraó íempre magoados como Saó Pedro do feu pec« 
cado perdoado. 

Com a cahidâ dosjapõcs levantou mais alto o ponto de 
fua malícia o China Qoico,gloriando-íc de os ter tanto a- 
batidojôc no que ellcs mais íentiaó na conftãcia, & na Fè. 
Reparando pois como aos vivos lhes naó podia fazer ou- 
tra mayor aíf rontajncm lhes caufar mayor pena:v"irou to- 
do feu furor mais ds bruto que de homem cótra os mor» 
tos. Tinhaó os Japóes cm hum campo vcfmho a Faifò hú 
lugar para feus jazigos , que todos âcão fora do habitado. 
Porém as peílbas ricas Icvantavão humâ caíinha de tijolo 
bem lavrado, ôc coberto de eftuque, cuja porta fechava 
huma pedra, cm que cftava aberto o nome , & as qualida- 
des da peí]oa5quealli dentro ficava enterrada. AosChriA 
tãos pois punhão fempre huma Cruz proporcionada fo- 
brc a portajou fobre o frontifpicio. A eífe campo logo fa* 
hío armado de fereza o inhumano Quico : & porque os 
muy tos annos lhe tinhaó deixado muy pouca viftajfc fez 
levar i mão5para oiícder as frias cinzas daquclles fieis de- 
funtos:mandando arrancarjderrubar j & quebrar todas as 
cruzes, que havia fobre aquellesfcpulcros. Oprimcyro 
com que enrcftou toy o de hum Portugucz alli enterra- 
do;para molfrar o ódio que tinha à ley dos Portuguczes. 
Ne tudo ifto bâftou para defafogo de ícu diabólico furor; 
pois vendo como não podia fazer outro mâl áquclies cor- 

Oo pO€ 



aS8 ...BREVES NOTICIAS DO 
pos desfç^y;tosj&: rcdqfidos a pÒ5& cinzajncgocíou com os 
Mandarins 3 que os pare-tes vivos foílèni apenados cm lu- 
gar dos i|ior tose ni certa quantia de dinheiro , por terem 
frvzeB-i^-nmQs de Cbriít^os em íeos íepulcros. Sò hum^ 
.G^go, & iemiienhíia luz da raíàó podia topar ncfta barba- 
|'ií.i5& çaliir neík mais que fera crueldade.. 
^5, Náo podia ptiiar fem cxíligo do Ceo táo refinada mali- 
,C5Íg Exper iaisotou logo Quico? quam enganado fica do q 
efperajqueíii dá- alvitres contra a juftiça, & piedade. Pois 
i^s-.OraDíle&íaõ como as br aias? que não fômcte aíFogucaó 
,& ÍQiT^iquc fe lhes mete dentro,mas também a tanaz^quc 
lho tn-iS:;^^: tem mão nelle. O premio que levou cfce mini- 
ilro-do inferno íoy não fa?-crem os Mandarins cafo delle, 
pois q-u®m fa7;ftvor ao ruim conhecidojie fò cm quanto 
ihe ferve para feus intentos: os quacs alcançados logo o 
Jgrga de fy ;; porque a maldade fem própria conveniência 
Jie de todos aborrecida. Naó fòmcnte lhe faltou a graça 
dos Grandes 9 mas também o fuítcnto dâ vida ; porque fi- 
cando de todo cego naó podia correr mais com íeus con- 
tratos. Ne fe atrevia a fe valer em luas graves neceffidades 
íios japões 5 poilo q tiveíTe mulher Japoa? & veítiíle trajo 
jclejapaó: temeodo-fcdellcs por lhes ter caufado táo gran- 
des males na fazenda5& na alma. Apertado pois da pobre- 
2<a 5 que fe faz fentir mais depois da riqueza : & defefpera* 
do por fe ver aborrecido de todos na Cochinchina? íe paí- 
íou para o Reyno de Camboja? onde o fuílcnto era mais 
barato^ôc os conhecidos lhe tinhaó algúa compaixão. Po- 
rem nem com o cafligo do Ceo teve meíhora,nem com a 
mudança da terra trocou o coração 5 cada vez mais obfti- 
nado no ódio à Lcy de Chrifto : muyto mais cego na alma 
que no corpo. Mas finabiiente lhe chegou aquclla hora» 
em que a morte com fua prefença abre os olhos ao defcn- 
gaoo 5 & faz aparecer claramente a fealdade do vicio , & a 
fcrmofura da virtude. Adoeceo Quico mortalmente , & 
logo que defcfperou da vida > lhe começarão a vir > como 

fiiccc- 



REYNO DA COCHINCHINA. sSp 

íucccdco a Antiozop ns lembracçis dos males 5 que fizera 
aos Chrií-Lãos5& da graviíTima affi-onta , que por fua caufa 
padecera a Lcy de Deos : perturbouíe todo -, temeo-fe de 
Hiuyto niayores caíbgosna outra vida buícou remédio 
para íe livrar dellesj& naó o achado nas creaturas, alumia- 
do do rayo da hvL ào Cco fe refolvco a íe valer do mefmo 
Deos oiíendido: pediíidolhe com grande arrependimen- 
to o perdaó,& propondo de fe fazer Chriftão,para confef-» 
far na morte o erro^que tinha cometido em vida. Pois na 
hora da morte , cjuando as refoluçóes faó mais ajuíladas â 
toda boa raíac5abraçava a levjq ue aborrecèrajõc adorava ao 
Senhor 5 que períeguira. Mandou logo chamar ao Padre 
Carlos da Rocha da Companhia de jesvjque corria comi o 
officio de Pároco da Colónia dos Portuguezes chamada 
PenhaliiíOnde morava o doente. Acudio o Padre; a quera 
pedio Quico có grandes inftancias o Santo Bautifmo. Fi* 
cou o Padre fufpeníbjpor faber muyto bem da averça6,q^ 
o íupplicante tivera à Ley de Chriíto ; mas perfuadido íi'» 
naUnente pelas palavras que lhe ouvia5& pela mudança í| 
nciic achavajdeu graças a Deos pela mjiíericordia ? de que 
iifava comaqueliefeu grande inimj*go:ôv banhando todo 
cm legrymas de gozo efpiritual começou a inftruilo do q 
devia crer3& fazer, para fe paífar do cativeiro do demónio 
para a hberdade dos filhos de Deos. Naó foy neceíTario 
muyto tempo para o Catecifmo;porq Quico eílava muy- 
to bem viílo nos Myfterios de noíla (anta ley , & fabia d» 
cor o que ella mandava , pela muyta comniunicaçaó que 
fempre tivera com os Portuguezes, & có os Japócs Chrif- 
tãos. Acabada pois brcvcmjentea neceílaria iníi:rucçaó,Ia* 
vou o Padre com as agoas Sacramentaesaquellaalmatam 
fea por tantas , &c tão graves culpas , òc Qiiico com a graça 
Bautifmal recebeo o nome de Manoel. Efpalhouíe logo 
pela Povoaçam o Bautifmo de Manoel; ficando todos aí» 
fombrados : os Chriftãos por verem tão grande prodigali- 
dade da mifericordia divina na convcrçam dsqucllenii- 

Ooy jiiâro 



apo BREVES NOTICIAS DO 

iiiílro do inferno : os gentios por ouvirem tão repentina> 
& infpirada refoluçaô de hum homem tam prudente , & 
politico. Eílestriuesporpcrderê ofeumayor defenfor: 
íiquelles alegres por ganharem afeuniayor perfeguidor. 
Não deixou a aftucia infernai de acometer ao íoldado no- 
vato de Chrifío efcolhendo por Capitão deíh impreía ao 
Mandarim daquella Povoaçaó.Era eíte IdolatrajChina de 
íanguejmais nacido em Camboja,homem fagaciíIimo,va» 
lido daquelIeE.ey3& grande amigo de Quico Manoel. 
Fingindo-íc pois eíle miniílro de Lúcifer não íaber nada 
do Bao tifmo do amigOjO f oy viíitar, & lliQ foy pergunta- 
do da maneira com que queriaíle fizeí]em as fuás exéqui- 
as ao modo dos Chinas,ou ao coíf ume dosJapócs;vifl:o ter 
clle mulher Japca;&: viftir aquelle trajoPRefpódeo o doé- 
te, & àííTe : q queria fer enterrado como o faíiaó os Chrif- 
tãos. A eífas palavras fez o aíluto Mandarim grandes de- 
moDÍlraçóes de eipanto: & começou aprefuadir ao doen- 
te^naõ perdeíTe na morte a grande eílimaçaó que todas as 
nações tinhaó feyto de feu bom juizoj & de fua rara pru- 
dência. Seria íem duvida tido de todos por leviano, & por 
louco, fe morrendo abraçafíe a Religião , que vivendo ti- 
nha aborrecido 5 & perfeguido, por ajulgar flilfa, & de ne- 
nhum proveito às almas. Atalhou o doente a pratica do 
Mandarim diabólico: & com aquella authoridade, que ti- 
nha pelas muytas cãs , & pelas grades noticias aílim do fa- 
grado como do politico de todas as nações orientaes? lhe 
àlíiQ: Vós fois myyto moço. Eu muyto velho. Eu fey o q 
íaço. Sou Cliriftão por muyta mercê de Deos:quero mor- 
rer Chríftão : & mando me enterrem com as ceremonias 
dos Chriftãos. Calloufe o Mandarim defenganado , & có- 
fufo com a repofra : & Qiiico Manoel com grande focego 
fuavemente efpirou. Acodiram logo os Portuguezes das 
Colónias, que então havia no Reyno deCãboja , para fef- 
tejarcm tão grade vitoria de noíTa fanta Religião : & tam- 
bém para moífrarem àquelles Idolatras a grandeza da pie- 
dade 



REYNO Dx\ COCHINCHINA. 291 
dade Chríílã;pelo que tomàraó á fua conta as defpezas do 
enterro. A expectação deftas exéquias chamou a muytas 
pcíToas graves do Reyno 5 & foy grandioío o concurío do 
povo: curiofos todos de verem jcomo os Portuguezes hó- 
ravaó na morte aos que de gentios fe faíiaó Chriíliáos; por 
cuidarem aquelles Pagaós,quea mayorjou menor Berna- 
venturança do defunto eílá na mayor , ou menor pompa 
funeral, Affiftiram todos ao acompanhamento , & ao en- 
terro; 6c ficaram aílbm brados da magnificência da pieda- 
de Chriílá 5 & edificados da íantidade das ceremonias , fa- 
gradas. Foy enterrado no Cemitério da igreja de Penha- 
Rh&c lhe levantarão no fcpulcro húa grande , & ferniofa 
Cruz de pao incorruptível charoado todojÔc dourado nas 
letras do titulo. Eílas louváveis oftentaçòes da miíericor- 
dia5& magnificência Chriílã caufàraó grande conceito de 
noíla fanta íey naquelles gentios que voltarão atónitos 
pelo que ouvirão da admirável converçaó do Quico 5 &: 
pelo que viraó de grandioia piedade dos Chriítãos. 

Bem claro fe deixa ver neíle fucceílo , quam immenfo 
fejaothefouro da miferícordia divina: tirando da Idola- 
tria a Quicojque tinha fido cauía , que tãtos íe defpenhaf- 
lem na apofiafia : dado por inteiro o jornal a Manoel che- 
gado nos últimos momentos de fua vida,;tendo fido occa- 
íiaó,que muytos depois de aturarem com o pezo da guar- 
da da divina íey por muytos annosjperdefi^m finalmente 
com a Fè toda a paga da eterna Bemaventurança: & leva- 
do a Manoel para o Ceo como piaméte devemos crer, de- 
pois delle ter fido tropeço para muytos cahirem no in- 
ferno. 

Nem menos efpantoía fe defcobrio nefte cafo a Provi- 
dencia divina;pois convertendo a Quico na hora da mor? 
tCjhonrando fuás exéquias com tanto concurfo , & auto- 
rizando feu fepulcro com aquella fermofa,Cruz,declara- 
va os erros de Quico em perfeguir os Chriílãos: com tirar 
aos vivos a Fè,& com arrancar das fcpulturas dos mortos 

Ooiíj as 



spíi BREVES NOTÍCIAS DO ' 

asCruzcSjCom que profeíTavaó terem íido fieis.O que tu- 
do fervia, para os Cfsrifíãos cabidos íe levantarem da cul- 
pa ; & os gentios cegos verem o verdadeiro caminho para 
a eterna Bemaventurança. 

CAPITULO XXVL ^ 

Aíultidao de Chri/l aos pregos nas provindas dofut^porèm muypsHcei a 

confiantes na confijpioda Fè, 

'^^^^SM^ UY pratico oâs regras da mil iciafemô^ 
^KW^^^m ^^"0" í^^^^a períeauicaó o Geral de toda a 
^^^'^"k^Èi H maliciaiucifer : como quê fcrnpre pele- 




todo o empenho arremeteo por varias 
partes ao lufido eíquadraó do Redcmptor ; para que ven- 
do-le os Chriíláos acometidos cm muy tos lugares , íe lhes 
acovardaffe o bríOjperdeíTem a eíperança da vitoria5& lar- 
gando as armas da Fè fugiíTem vcrgonhoíamcnte. Logo ■ 
que o infernal pcrfeguidor entrou na Corte de Sinoa 5 & 
lias Provincias do Norte ferindo , & matando a nuiytos 
esforçados Confeííores de Chriílo : foy juntamente cor- 
rendo as Provincias do Sul amarrando,& levando prezos 
para a Corte de Cachaó grande numero de Chriíláos. Po- 
rém como experimentara fua perda , & íicàra vencido n% 
.morte daqucllesgenerofosfoldados da Cruz : mudou de 
parecerjôc com novo ardil tratou fomente de render a et 
tes 5 & trazelos voluntariamente , outra vez para a antigt 
idolatria. Servio-fe para eíle diabólico fim do fcyto exe- 
crando dos Japões, fazêdo que os prczos foílem informa- 
dos: como tinhaó largado jà a ley dos Portuguezes 5 & to* 
dos tinhao poílo feus pès íobre as Imagés ? que og Portu- 
guezes adoravão. Poderoiiífima arma he o exemplo ; pois 
íbm ferirjSc fcm meter medo,acomeíe de cara a car-^ o co- 
ração 



REYNO DA COCHÍNCHINÁ. 293 
raçaó humano;o rende mas volutario, & rendido o leva a 
pòsíyniasdeíejoíbde fcguir. Porém quanto heaiais fá- 
cil eíta vitoriâjtânto mayor he â culpajou o merecimento 
de quem dâp ruim,ou bom exêplo ; pois a elle íe atribua 
todo o mal que os outros fazem íeguindo-o , &c todo o bé 
queobraó imítândo-o. Affimao Capitão felhedà o ma- 
yor premio5& o mayor louvor da vitoria ? por ter fido ca- 
bo na peleja. E S. Pedro levou toda a rcprchéçaó de Chrí- 
ílo pelo fono dos mais Apoílolosno Horto. Muy ta caute- 
la devem ter os Grandes em fuás acções : & quãto for ma- 
yor o conceitojem qu€ a peíToa cfnver na fabedoria 5 & na 
prudência ; tanto mayor obrigsçaó lhe correrá de ajuftar 
iemprc todos feus procedimentos com as regras das vir- 
tudes 5 para que naó firva de tropeço aos de poucas letras» 
& aos de inferior juizo. 

Depois de os Mandarins terem por feus Miniílros cf- 
palhado, & publicado aos Chriftáos prezos o fucceíTo dos 
Japóes tanto mais louvado dclles; quanto riiais digno era 
de ferreprehendido de todos: mandarão vir aos quinze 
de Janeyro deíle anno de mil & féis centos & feílenta &c 
íinco para a publica Audiência toda aquclla multidão 5 q 
chegaria a cem peíToas pouco mais 5 ou menos entre ho- 
niens,& mulheres. Fez a todos huma fala o Prefidente do 
Tribunal dizendo : Como merecia toda â defculpa o erro 
cometido por ignorãciajôc muy to mais cm matéria, q nao 
ficava cxpoíla aos fcntidos exteriores : como era a Reli- 
gião. Pois os deofes fò fe alcança vão com a Fè divida à au* 
thoridade dos mayores , que aífim o enfináram. Nem po- 
dia caufar aíFrontajO retratar o erro? & muy to menos net 
tas matérias ; porque fô o eftranhariaó os ignorantes , por 
íiaó conhecerem cm fy a limitação do humano entendi- 
mento. Antes a experiência moílrava : ficarem mais acre- 
ditados na prudência os que conhecida à verdade dantes 
ignoradajdetcftavaó depois o errojcm que cahiraó. A Icf 
da Cochinchina fora fempre aceita dos Grãdes^ôc dos ma- 

Ooiiij yores 



^94 BREVES NOTÍCIAS DO 
y ores homens éíii Ictrasj&emjuizojquc houve noRey- 
íiomem fc podia íofpeytar que todos cilcsj ou ignoraílem 
a verdadcíOu quizcííem enganar a ícus naturacs. Porém n 
ley dos Portugueses poílo que foíTe vcrdadeíra:o que naã 
concQdvã ElRey,& muyto menos os Minifcros; antes a a- 
bominaVaô como falia: bailava fer de eílrãgcirosjpara não 
ler recebida das outras nacócs.Pois ailim como o Author* 
ôrCreador dos homens dera acadanaçaó fuás própria» 
feições do corpo , & fuás particulares inclinações do ani- 
moíaííim também tinha dado a cada naçaó fua Jey , paraq 
n obfervancia delia foíTe mais com natural, & por iílo ma- 
is íâcil. Doutra maneira fendo húa para todos os povos de 
todo o mundo-a bus ficaria mais leve, & a outros mais pe- 
cada. O que íe nao devia cuidar do Creador de todos; poi^ 
naó era aiFciçoado mais a eílcsque aquelles homens? porq 
todos erão igufJmente fuás creaturas.Eftas mcfmas rafóes 
tam conformes a todo o bom juizo coníideradas pelos Ja- 
póesjhomês de tão grande valor , ^ de tão rara prudência 
como todos fabiáOíOs movèraó alargarem eíla ley nova de 
poucos Porruguezesmercadores5&: os íizeraó voltar para 
a antiga de fua nacaórficando tão envergonhados do erro, 
em que enganados cahiraó , que para fc publicaram emê- 
dados,& cora iílo verdadeiramente prudentesjpizarcm as 
] magenSíQue tinhaó adorado. Não duvidava elle , que o» 
Cochinchinas feus naturaes nao fòméte feguiriaò o cxé-* 
pio dos Japóes,mas que fariaó ainda mayores demoftraçó-» 
€s cm deixarem a ley dos Chriftãos tão contraria à de fua 
naçaÓ5tâo reprovada dos letradosjtáo aborrecida dos Gra- 
des 5 & tão prohibida por feu Rey : que para a arrancar de 
todo o Reyno mandava tirara vida depois de cruéis tor- 
mentos aos que contumacesàs fuás ordens a quizeííem 
guardar,ou confeíTar. Se reíolveíFem pois, ou a pizarem a 
Imagem, ou a perderem a vida. 

EPít pratica fugerida da aftucia infernal fez nos prczos 
tanto abaio,que , ou enganado* das falfas rafóes ditas pelo 

Man* 



REYNO DA COCKINCHINA. ápy 
Mandarim 5 ou atemorizados pela morte ameaçada por 
ElRey , de quaíi cem pcílbas ío finco não pizàraò a Sagra- 
da Imagem. Foraó eíles: Miguel,JoaÓ5lgnacio,Cayo5& Bà 
Maria:veriíicando-íe ainda mal , íerem muytos os chama- 
dosjmas poucos os eícol hidos. 

Naó perinitio porêra Deosjque o demónio ficaíTe mui 
gloríofojnem o Preíidente muy ufano da deteíbvei vito- 
ria que alcançarão. Pois infpirou a liúa mulher aldeaa , & 
humilde por nome Joana: a qual citando alli prelente, né 
lendo das prezas;vendo porém tanta fraqueza nos que ca- 
hindo punhaó os pês fobre a Sagrada ímagemxhca de ze- 
lo da honra de Jesv Chriílo fe chegou animofa para o Tri- 
bunal 5 6c confeílou livrementcjfer Chriftá -, & chamarfe 
Joana5& querer antes perder mil vidas que pizar a Imagê 
de feu Deos , & Redemptor. Atónitos ficàraó os Manda- 
rins, & os Miniftros aíliílentes : todos pafmados da gene- 
rofidade, & conífancia de Joanajquc vendo rendidas nam. 
Io as mulheres mas ainda os homens muy briofos5&; vale- 
tes , fe atreveffe ella a fuftentar a vitoria da parte dos cabi- 
dos. Foy tal o animojôc refoluçaò que Joana moftrou,que 
os Mandarins fe naó atreverão a lhe mandarem pizar a I- 
magemjreceofos que ficariaó defobedecidos, & defpreza- 
dos. Pelo que como politicos mandarão às guardas , alan» 
çaíTem fora daquelle Tribuualjpois era húa louca.Tornou 
a entrar Joana na Audiência oííerecendo-fe a padecer tu- 
do para fer fempre fiel a JesvChrifto feu Senhor. Nam 
quizeraóqueos Mandarins aceitar eftefegundodefafío; 
por fe temerem ficariáo vencidos; mas deraó ordé aos fol- 
dados, arraílaílem logo fora daquellafala aquella louca. 
Naó defanimoucom tantas repulfas a generofa Joana ,& 
arremeteo a terceira vez a entradajCada vez mais briofajÔc 
mais conftante5&: preíentou aos perfeguidores da Fè a ba- 
talhajdizendorcomo ella alli eftava5para morrer mil vezes 
pela ley dos Chriítãos. Envergonhados finalméte os Mã- 
darins tyranos de verem em huma mulher tão grande ef- 

Pp forço 



■%^6 BREVES NOTICIAS DO 

forçO)& em íy tanta covardiaiirados, & raivoios lhe man- 
•dàráo com grandes ameaças de muy cruéis tormentosjpi- 
saffe a ííiiagem como feu Rey , & Senhor lho ordenava. 
Naó querojrefpondeo Joana có grande reíoluçaó , &: def- 
dagora có eftes finco glorioíos Confefíorcs de Jesv Chrif- 
to fico entregue aos íoidadosjpara me darem os tormétos? 
^ as mortcsjque quizerem. 

Confuíbsos Mandarins acabarão logo a Áudienciarpor 
\ €otura para não darem lugar a outras peíToas Chriítãs , q 
íeguindo o exemplo de Joana envergonhaíTem mais a fua 
iobcrba impiedade; deraó porém ordem aos Toldados , vi- 
gi a ílcm có todo o defvelo aquelles fcis defprezadores dos 
mãdados reaes5& inimigos dos dcofcs , atè vir da Corte de 
Sinoa a finaljêc merecida fentença. 

CAPITULO XXVIL 

T articulares mtktas dsftesfiis ghriofos Confejfores de fesv Oorifloi 
Miguckfo:^ph^ Ignacio^ Qyoy^Bà MarU , ú^foana, 

STE Miguel foy natural da Província 
de Cachaó 5 & rauy dado às letras defde a 
fua mocidade, nas quaes fe avétejou mui- 
to a íeus companheiros; pelo que podia 
com raíàó eíperar naó fomente a honra 
do grão ) mas também o proveyto do Mã- 
darinado. Porém comoneíte tempo tinha ouvido o Catc- 
cifmo, & tambê reparado quam difficultofa ficava a íalva- 
çaó da alma,a que fe embaraçava có governos 5 & juftiças: 
largou todas as pertéçócsjcfcolhédo fer antes menos hon- 
râdo,& menos rico nefta vida? q arrifcarfe a perder a alma, 
êc o corpo na outra.Se todos os ambíciofos>& cobiçofos fi- 
xefsê femeihãtes reparos,haveria na terra menos viciofos, 
6c no Ceo mais Bêaventurados.Foy prezo Miguel por fer 
CliriílãoiÔc conhecendo elle a grande mercê 5 que nifto 

, i recebia 




REYNO DA COCHÍNCHINA. ^ç^j 
recebia de Deos , lhe ciava tanto mayores graças o quanto 
menos digno íe tinha de padecer por íeu divino Nome. 
Preíentado pois ante ao Tribunal? cófeíTou mtrepidanie- 
te que era Chriíláo ? & que teria por grande íbrte dar a vi- 
da por [esv Chriíio. Mandàraólhe osj uizes pizaííe a íaia- 




inopoiToeuter atrevimento depor meuspès íobre a fi- 
gura do meu Deos , aquém com toda a alma venero , & a- 
doro ? Agaíbdos os Mandarins da confiancia de Miguel, 
iem quererem ouvir maiSíO entregarão aos Toldados? para 
que o vigiaíiem. Então cobrou Miguel mayores forças no 
eípiritojporq cobrou mayores eíperanças de morrer pela 
íanta ley. Eftando no Cárcere deiejou vifitar aos Padres^q 
íicavaó prezos em Faifò: & foy tal íua induílria -> & tantos 
os rogos acompanhados de dadivas , que finalmente que- 
brantou a obílinaçaó das guardas , & veyo a Faifô có pre- 
texto de comprar hum caixaó para feu enterro. Alli íe fa- 
cramentouj&fe confolou com os Padres,& voltou para o 
feu C':íXqç,xç. muyto mais alentado aílim com a graça lacra- 
nientaijcomo as praticas5& bons confelhos, que recebera 
dos íeus mcílres no efpirito. PaíTava os dias , &: as noytes 
em íe encomendarjôc louvar a Deos, pedindolhe aíFeclu- 
olamente o naó caftigaíTe , com lhe tirar aquella occaíiaó 
de dar o langue, & a vida pela confiílàó de íeu fanto No- 
me. 

Naíceojoíeph na Província de Sinoajgaftou algum tê- 
po de íua mocidade em íervir a ElRey na guerra ; mas re- 
parando nos muy tos trabalhos ? & grandes riícos da vida? 
paíFouíe para Faifò com a mulher , & dous filhos , que ti - 
nha. Aqui o eíperava Deos para o liítrar em outra mihcia 
debaixo do eftandarte de Chrifto íeu unigénito filho : ou- 
vindo Joíeph o Catecifmo recebeoelle, & também a mu- 
J her com os filhos o fanto Bautiímo,&: pedio ao Padre A- 
-lexandre Rodes?que os regenerara todos à graça? quizeiie 

Ppij íiceiuir 



298 BPvEVES NOTÍCIAS DO 

aceitar os dous filhos para o ferviço da Igreja pois naó ti- 
nha outra couía qiieoíFerecer a Deosem íinai do niuyto, 
que lhe devia pela mercê de o tirar das treinas do gentilií- 
niC5& o trazer para as luzes de íba divina ley, com as qua- 
es via ià o verdadeiro caminho da falvacaó. Aceitou o r a- 
drea cíFcrto,aííini por fer muyto grata a Deos, pois era de 
filhos 5 que iam as couías mais eíliniadas dos Pays , como 
tnmbem para íe crearé no temor fanto de Deos5& apren- 
derem melhor as couías de nolla íanta Religião -, para de- 
pois as cníinarem. aos outros novatos na Fè. Eíles íaó to- 
dos os cuidados dos Miílionarios 5 & niílo gaílaó tudo o q 
tem : & muyto mais farião de grande ferviço de Deos , & 
de niayor augmento da Religião Chriftãjíe o quartel para 
a fufreritaçam abrangeíle a todo o íeu grande zelo. Come- 
çou logo Joíeph nova vida com a nova ley : & poílo que 
lua pobreza o obrigaíleao contínuo trabalho no dia, com 
tudo não íe deícuídava a noytc do exercicio de fuás deva- 
cóes tanto mais aceitas a Deos, quanto maíscançado, & 
quebrantado lhe ficava o corpo. Era devotiilimo da Vir- 
gem Senhora 5 a cuja honra jejuava inviolavelmête todos 
os Sabbados , & também fe confeíFava ? & commungava» 
quando não havia na fomana alguma feíla principal 5 em 
que recebia os Sacramentos: & era de todos aniado 5 & ve- 
nerado pela lua rara candura ? &: grande piedade. Vendo 
pois os Padres o bom exemplo 5 que Jofcph dava a todos: 
& reparando na ília muyta idade , o chamarão para morar 
com eiles,&: lhe dcraó o cuidado da hortajque alli tinham 
dentro da cerca. O que faíia Jofeph com muyto cuidado, 
nem a grande calma 5 nem a muyta chuva o tiravão delia, 
íeos Padres o naó mandavão recolher. Muy proveitoíi 
foyajofeph efta hortinha ? pois nella foy prezo por fer 
Chriíl:ão: no que moítrou grande animO)& muyto defejo 
do Martyrio ; porque vindo os íoldados a darem bufca na 
caía dos Padres: podendojncm quiz fugirjnem íe quiz ef- 
conder . Eitando prezo hia muy tas vezes á Faifò p^ja viíi- 

. tar 



REYNO DA COCHINCHINA. 29^ 
tar aos Padres , permiti ndoiho as guardas 5 c|iic o refpeita- 
váo pelas cãs que tinha^ & o amavaó pela bõdade que nel- 
le experimentavão: & affirmàraó os Padres , como nunca 
. viraó a joíeph tão alegrejíe não depois de elle ficar na pri' 
zão. Levado para a Audiência confeííou fer Chriftão anti» 
g05& querer morrer na Ley de Jesv Chriíro: nem todas as 
pronieílas , nem todas as ameaças renderão a fortaleza do 
leu animo pofro que em corpo tão fraco porque decrépi- 
to; mas parecia renovado com as efpcráças de morrer por 
Chriíto íeu Redcmptor. 

Contava oito annos de idade ígnacio nacido ao mundo 
na Comarca de Phuong tai da Província de Cachamjquâ' 
do com elle nacèram também feus Pays a Cbrifco , bautí- 
tizacos todos no mcímo dia. Como a divina graça fe adi- 
antaiTe em tomar a poíTe deíla alma 5 não acharão nelk lu- 
gar os vicios ; pelo que foy fempre crccendo igualmente 
com a idade a virtude de forte 5 que foy conftituido pelos 
Padres por cabeça da Chriíládade daquella Comarca. Seu 
muyto fervorjfua grande paciência 5 & fua admirável íin- 
geleza o faíiaó amável aos CbriílãoSíôc aborrecido aos ini- 
niigos da Fè. Pelo que na pcrfcguiçaó do anno de mil & 
féis centos ôcfcíTentaôc três foy prezo. Porém como os 
perfeguidores não zelavão fua Icyjmas cobiçaváo a fazen' 
da alhea: tratarão fò de multar, & não de matar aos Chrif- 
tãos: levando o que os pobres Neófitos tinhão para o feu 
fuífento,& guardavão para as fuás nccecidades. Porê neí- 
ta prefente perfeguiçaó depois de darem faço à cafa de íg- 
nacio 5 o levàraó prezo a Cachaó. Sofreo elle o roubo de 
feus bens não fomente com grande tranquilidade de ani- 
mojmas ainda com muyta alegria de feu coração ; imitan- 
do aos Chriftãos da primitiva Igreja. Nem ifto lhe foy dif- 
ficultoíò; porque fò eílimava os bês que efperava no Cco: 
5c dava graças a Dcos,pelo fazer pobre antes da morte pe- 
lo amor de Chrifto feu divino Filho , que por íeus pccca- 
dos morrera nii , 6c defpojado. Com tão grande deiapei^o 

Ppiij àm 



50Q BREVES NOTICIAS DO 

das coufas defía vida náo podia ígnacío ter medo da mor- 

te;pelo que com grande conílancia confeíFou , ter recebi- 



do a ley dosPortoguezes-xieidc miomo ter vivido iemprc 
como Chriílao5& defejava morrer por íeu Deos , que pa- 
decera aiorte para íalvar todas as almas. Aílim não eípe- 
laíièin delie,c|iie poria ícus pès na Imagem de feu Senhor, 




táoilluíireconíiffaómereceo Ignacio fcrdos poucos cC- 

colhidos para o Martyrio. 

Foy Cayo natural do Reyno de Tunquim de húa Vii- 
h chamada Ke Runi5a qual por ficar fronteira à Cochin- 
china/foy conq uiílada por cíle Rey hunsannos antes ácf- 
ta pefíeguiçaó. Como os Padres da Companhia Miífiona- 
rios no Tunquim não podeífem viíitar mais aquella Pro- 
vincia 5 . & ficar ella muy to longe dos Padres obreiros na 
Cochinchina , rcíolveo-íc Cayo a fe paílar para a Cochin- 
china em bufca dos Padres 5 para ter comodidade de rece- 
ber mais freo o entemente os Sãtos Sacramentos. Eiíaq ui 
OS cuidados, & os empenhos das ahiias , que deicjaó viver 
como Chriítãos 3 & afíegurar íua íal vaçaô. Aportou final- 
mente a Faifò 5 vifitou logo os Padres , & eíres o agíi falha- 
rão era. fuás cafas; vifto não ter Cayo naquelle porto parê- 
tesném conhecidos. Recolheraó-no nao como pródigo 
arrependidojmas como filho obfequiofo : não como ove- 
lha deígarrada, mas como pérola achada. Acudia Cayo có 
grade fervor a todos os exercicios de devaçaó 5 & có muy- 
to goílo íc occupava cm inftruir os Catecumenos.Depois 
de algum tempo fe foy para Qvi^i^g gnhia Provincia vefi- 
niia a Faifò : & aili fe detinha em tresladar livros cfpiritu- 
f^es pára proveyto daquelies Chriílãos. Vinha porca Fai- 
fô muy tas vezes, & cm todas as fcílas iblcmnesj para rece- 
ber os Sacramentos : & ficava femprc krgos dias em cafa 
dos Padres , que o occupavaò cm tresladar hiílorias de Sã- 
íGSsefcritas em verfo Cochinchina muy elegante; pa ra eí- 

palha- 



REYNO DA COCHINCHÍNA. gdí 
palharcm os treslados pelas Chriftandades a iim de apren- 
derem fuavemente as virtudes Chriílãs 5 & íe animarem à 
imitação das façanhas daqueilcs Sãtos. Eílando pois Cayo 
aclualmentecícrevendo eíles livros foy achado pelos foi- 
dados3&: logo prezo, por ferem livros pertencentes à ley 
dos Portiigue2,cs. Naquellc repente efteve Cayoalgii tá- 
to fufpenÍ05& turbado: mas reparado depois na caufa, pe- 
la qual o prendiáo5Íicou foccegadc5Ôc contéte : & cada dia 
mais fervorofo pregava horas inteira» aos gentios,moíi:rá- 
dolhcs a falfidade de fua ley5& a verdade da dos Chriíláos: 
exhortava também os Chriftáos cabidos a que íe Icvãtaf- 
icm com o arrependimento da culpa 5 & com a generofa 
rcfoluçam de deixar antes a vida que a Fè. A qual cò gran- 
de esforço confciTou elle no Tribunal , donde foy levado 
para o carccre>efperando alli com grandes aníias pela fen- 
tença da defejada morte. 

Bà Maria foy muy illuftrc no fâgue? porém muyto ma- 
is luílrou elja com a fua Fê,ôc piedade. Foy cafada có feu 
igual na nobreza ? que largos annos governou as Provín- 
cias do Sul primeyro cargo do Rcyno. Efte Mandarim era 
Governadorjou Vifo-Reyjôc aíliítia na Corte de Cachaó, 
quando o Esforçado ,6c gloriofo André o moço deu pri- 
meyro que todos o fangucjôc a vida pela coníiílaó dafan- 
ta Fe. As oraçóes5& bons exemplos defta Senhora náo fò- 
rnente tinhão aíFeiçoado o coração de fcu efpofo as coufas 
de noíla fanta leyjmas o tinhaó ainda indufido a receber o 
Santo Bautifmo. Eílãdo porém o Padre para lavar aquel- 
la alma nas agoas Sacramentaesjtevc noticiasjcomo lhe fi- 
cava ainda em cafa húa das fegundas mulheres ; pelo que 
diíFeria o Bautifmo 9 por o Governador não querer largar 
Jogo aquella occafiáo , pofto que prometeíTe , que o faria 
depois de algús dias. Ncfta efpera fe foy esfriando no Go- 
vernador o defejo de receber a ley pura5& fáta do Senhor: 
Sc deixando-íe levar pouco a pouco do envelhecido vicio 
de fua luxuria? tornou a viver finalmente com as mulhe- 



5oa BREVES NOTICIAS DO 
res 5 que dantes tinha. Mas não ficou fem manifeílo cafti- 
^o do Ceo tão torpe retirada. Pois a íegunda mulher ten- 
do ciúmes do mayor amor5& particular aíFeiçaó , q o Go- 
vernador moílrava à terceira das mulheres , negociou ? & 
traçou com grandes peytas, para que hum criado de noy- 
te feriíle levemente ao dito Governadoa? para ella depois 
poder levantarptelo mandado íazer a terceira , & com iílo 
perder eíla a vidajou ao menos o amor de íeu Senhor.Mas 
o aggreííor carregou mais a máo , & o ferio mortalmente: 
poílo que viveíTe o Governador poucas horas, né por iíTo 
tratíou deBautifmojnem houve,quem lho lébraíIc.Cha- 
iiia Deosjquando clle quer , nem efpera , ate quando nos 
defejamos. A inípiração he como faifcajque cahida no co- 
ração ie não íe aílopra logo com aexecuçaójlogo fe apaga. 
Morreo o Governador idolatra como vivera :& o amor 
defordenado,que lhe impedira o Bautifmojôc a graça? lhe 
tirou a vida? & a Bemaventurança. Merecido caíligo dos 
que fe defcuidão da alma , para cevarem o corpo com gof- 
tos illicitos. Naó merece viver o home, que faz vida pey- 
or que bruto : nem o Ceo he para os que náo acabão de fe 
tirar do atolleiro de fuás torpezas. 

Para eu não íaltar à zelofa curiofidade do leytor defejo- 
fo de faber o cafl:igo,q tiverão eftes cruéis ciumes:acabarei 
com todo o fucceíTo 5 que nos fervirà também para vene- 
rarmos os altos juízos de Deos 5 q pára falvar as almas poê 
em rifco de vida os corpos : & permite feja calumniada a 
innocencia , para trazer os perfeguidos à fua divina graça. 
Nas poucas horas que o infeliz Governador fobreviveo, 
diílexomo o matador fora hum grave Mandarim aponta- 
do o nome , de quem elle tinha foípeytasjque corria de a- 
niores com a fua terceira mulher. A penas tinha o Gover- 
nador acabado de falar5quc logo foraó.prezos elle, & ella. 
Nos tratos negou fempre o homem; mas a mulher nao 
podendo fofreraquelles cruéis tormentos5Confeílbu (co- 
mo muytas vezes acontece ) ter ella indufido ao matador: 



REYNO DA COCHINCHINA. goj 
6c mais conteílàra ter feyto , íe mais lhe perguntarão os 
Juizcs.Provado deíla maneira o cafo5foraõ levados ambos 
para a Corce,íicando à vontade delRey o caftigo ; por íer 
«crime fem exemplo. ElRey reparando na atrocidade da 
-çulp-à embraveceo-íe como tigre ; porém como Principe 
jjrudéte naó íe arrojou logo ao caíligo : antes quíz elle ín- 
iquirir do meímo accuíado do homicídio. Negou eíle de- 
ienganadamente ter cometido tal : & que íe Tua Magcíta- 
de o caíligaíle como reojhum dia fe arrcpendiria, quando 
íoíTc conhecida a íua innocencia. Parou ElRey : & man- 
dou ordem a Cachaó, parafe fazerenijnovas diligécias fo» 
brcocalo. Os Juizes deraó logo tratos a todos os criados, 
êc íoldados dâ caía do Governador: ôc finalmente confef- 
fouhunijter elle fidooaggrcíTorjindufido da fcgunda 
mulher a que fò firiíTc levemente. Conhecida a verdade 
ficarão livres os falfamétc accufados : & o verdadeiro ma- 
tador morreo dcfpcdaçado com os dentes dos Elefante^* 
ôc a fcgúda mulher do Governador autora dcíla tragedia, 
pofto que foffe fogra dclReyjnáo alcançou o pcrdaó , mas 
morreo aâogada , entaládolhe o pefcoço entre dous paos. 
Livre pois a terceira m ulhcr da morte , voltou para Ca- 
chão j6c foy bufcar ao Padre em Faifòjpadindolhe o Santo 
Bautifmojôc dizendo : como ella encomendara fua inno* 
cia ao Deos dos ChrilHos, promctendolhe de fer Chriftã? 
fc defcobriíTc a verdade. Foy inílruida 5 & recebeo o Bau- 
tiímo com nome de Magdalena. Antes deita Senhora foy 
Bautizada húa íua criada: a qual nos tratosjque lhe deram 
por caufa dcíle homicídio , com a violência das dores def- 
mayou de maneirajquc a deixaram por morta. Acudindo 
porém os criados de Ba Maria Chriftáosja acharão com al- 
gum fentido: & dcfejofos que fenaóperdcíTeaquelIa al- 
ina,lhe perguntàraójíe queria receber a Ley de Deos ? pa- 
ra que morrendo não foííe condenada aos crucliíIimos5& 
eternos tormentos do inferno? Refpondeo como pòdc q 
fy: então foy inítruida do neccííario, & com © S^n to B:ui- 
, -.^.^ Qq tilmo 



504 BREVES NOTICIAS DO 

ti imo reccbco a faude da alma,& também do corpo,fican- 

ilo livre dos peccadoSí^c reíl-aurada nas forças. 

Eílalaílimoía morte do Governador acótecida no an- 
uo de mil & íeis centos & quarenta &oito affim como 
magoou grandemente o coração de Bá Maria ? por ter 
dobrada dor na perda do corpo? & alma de feu cfpofo ; af- 
fim também alentou muytofeueípiritodefejofo,haviajâ 
tempos 5 de largar as pompas de fcu eílado : & livre das o- 
brigaçóes do mundo occuparfc toda em lugar retirado ao 
ferviço de Deos,& proveyto de fua alma. Pelo que pedío 
logo a ElRey hum campo no porto de Faifò para a íua fe- 
puitura. Alcáçada pois a mcrcè,rcpartio Bà Maria em du- 
as partes aquelle chão: tomado húa para ella morar : & da* 
do outra ametade aos Padres da Cópanhia : para os quacs> 
& para a comodidade dos Chritláos levantou húa grande^ 
& m uy fermofa Igreja 5 que lhe fervia para feu oratorioj 
onde ella gaílava muyto tempo em fe encomédar a Dcoí 
com grande exemplo a toda aquella Chriílandade. Muy- 
to mal recebia o demónio neíta Igreja ? &nacafadeBà 
Maria;pois nefta não fc f afia acçaó, nem fe difia palavra 5 q 
não efpiraíle devaçaójôc virtude:& naquclla era continua 
aadminíírraçaódos Santos Sacramentos. Poriílb logoq 
começou efta perfeguiçaó,foraó mandados pelos Manda- 
rins de Cachaó foldados a pè 5 & acavallo todos armados^ 
para arrazarem eftas duas batarias que tanta guerra fafiam 
ao VÍCÍ03& à idolatria: queimando a Igreja,& a cafa ; por a- 
charem neíta húas contas. Recolheo-fe a virtuofa Matro- 
na para a cafa de húas conhecidas ? donde a levàraó para o 
Tribunal : quanto menor era o refpeyto 5 com que os fol- 
dados a trataváo; tanto mayor era o gozo ? que ella moftra- 
va r€ccber5vendo-fe honrada com leguir as pizadas de feu 
SenhorjÔc Dcos Jesv Chriílo. ConfeíTou com grande cóf* 
tancia ter5& guardar a Icy Chriílá : & com mayor refolu* 
çaódiírc 5 que não pizaria nunca a Imagem que adorava; 
pelo que ficou com vigias ? cfperando-fe pela fentéça que 

ÉlRey 



REYNO DA COCHINCHINA. 305 
EiRey mandaria da Corte. Mas íe os inimigos da Fè defe- 
javaó a morte a efta Senhora 5 por ella com íèu efclarecido 
fangue , com fua rara prudência ? & com fua muyta idade 
authorizar a ley dos PortugLiezes;muyto mayores eraóos 
dezejos defta grande Fidalga de fofrer aíFrontas , tormen» 
tosjéc mortes pelo amor daquelle Senhor , que por íua al- 
ma depois de tantas injurias , & de tantas penas , morrera 
em húa Cruz tão crueljôc aíFron fofamente. 

De Pays Idolatras nafceo Joana na Provincia de Ca- 
châo5&: aprendeo o officio de tecedeira,com o qual fe íuf- 
íentava honradamente. Sendo de vinte 6c três annosde 
idade , & ainda gentia fe paíTou de fua Aldeã para Cachão; 
por lhe íer alli mais íacil o feu contrato de comprar as fe- 
daSjSc vender as obras de íeu tear. Agafalhouíe em cafa de 
dous cafados Chriftãos^chamados Manoelj&i Anna,peíro- 
as de muyta virtude : & com grande curiofidade hia repa- 
rando na vida dos cafeiros 5 por ferem de outra Religião. 
Viajcomo duas vezes ao diajpela manhã cedo5& à tarde de 
noyte ambos com muyta devaçáo rczavão alguas orações 
muy to pias:admirava-le da grande paz entre elIes:não ou- 
via palavra defcompoíla : nem enxergava diífolução ne- 
nhúa; antes toda a honeftidade em fuás acções : achava-os 
muy caritativos com os pobres:õc os experimentava muy 
compaííivoscom os atribulados. Difia pois Joana comíi- 
go: A ley deites homens não pode fer fenaõ muy to Santa; 
porque faz as peíToasjque a guardãojtáo caftasjtâo compo- 
ftos,tão paciíicas5& tão amigas de bem fazer a todos. Eílas 
viílas pois f orão as prègaçõesjque converterão a Joana , ôc 
a indufirrõ a pedir o Santo Bautiímojque lhe deu o Padre 
Pedro Marquez. Ou quantas famílias feriáo fantasjfeos a- 
mosjÔc Í.S amas defiem bom exemplo em todas fuás pala- 
vrasjôc em todas fuás acções: como o devem fazer. Pois os 
Pays de familias tem quafia mefma obrigação para com 
os de fuás cafas,que tem os Bifpos para com os de feus Bif- 
padosjcomo o eníina o doutor da Igreja Santo Ambroílo. 

Qqij Aílim 



go6 BREVES NOTICIAS DO 

Aílim no Tribunal de Deos os amos , & as amas darão tã- 
bem ccta dos peccadosjque fazem íeus fervos, & fuás fer- 
vas. Forque íeDeos lhes dà pofies para terem criados ? & 
criadas ; naò he fo para elles ferem icrvidos deíles ; mas tá- 
bem para que eíles guardem melhor os pereci tos divinos, 
&daígrejo. Feloquecom mjayor cuidado os devem rc- 
prehender,& caftigarjquãdo faltarem ao ferviço de Deos; 
quando deixarem o de fuás cafa.s5& peíToas ; porque Deos 
deve fer preferido a todas as creaturas. 

Se com grade defejo recebeo Joana o Santo Bautifmo, 
não foy menor feu deívelo em guardar a nova ley , a que 
por elle fe obrigàrajfeguindo em tudo o exemplo de feus 
tervoroíoscafeiros. Fugia das converfaçóes não fomente 
perigofis ; mas também das inúteis: fempre retirada , ou 
para o ícu tear trabalhando 5 ou para o oratório da cafa re- 
zando: frequentava os Sacramentos com grande prepara- 
ção : & acudia 5 no que podiajaos pobres com grande cari- 
dade. Emfimanova Chriílá parecia muy antiga naper- 
íeyçaÓ5&: fervia de exêplar às peíloasjque de novo íe con- 
vertião a Deos. Por fer moça muy virtuofa não faltaram 
Chrifcãos, que a pediílem por elpofa. Mas ella fe efcufava 
com rodos; porque feus defesos eraó cófagrar fua vida em 
perpetua caílidade a feu Redemptor, que tantas dores , & 
tormentos fofrèra por amor de fua alma. Porém o Padre 
Pedro Marquez coníiderando nos perigos , em que fem- 
pre cílà a honeítidade entre aquelles Mãdarins Idolatras, 
que a força tomão5as que querem, por concubinas : o que 
feiíaó atrevem a fazer , fendo cafadas ; lhe aconfelhou to- 
maífe o cfrado do Matrimonio, para íe livrar de algum la- 
ço,que lhe armaria o demónio à fua honraj&alma Cafou 
para obedecer,^ todo feu cuidado era a paz com o efpofo: 
& guardarem ambos* a divina ley com toda a perfeyçam; 
pelo que dava logo conta ao Padre de qualquer falta , que 
niíío ouveíle; para que lhe acudiííè com o remédio pron- 
to. Na perícguição paílada foy preza Joana com Manoel, 

& 



REYNO DA COCHINCHINA. 307 

& Anna feiís cafeiros. Porèni como os períeguidores naó 
vinhão apoílados a arrancarem a Fè das almas j mas íômê- 
te a tirarem o dinheiro das bolías , ficàraó fruítrados os de- 
fejos,qiie todos trestinhaó de padecercni3& niorrerê pela 
iey do Senhor. Com tudo deíde então íe comprometerão 
huns a outros , de naó largarem por nenhum tormento a 
Fè 5 & de Jcsv Chriíto. Logo que principiou eíla ultima 
períeguiçaó , tornarão a terver em Joana os deíejos de 
morrer por feu Salvador ; por iíTo não fe efcondeo , antes 
viíitava a miudo,aos que eíkvaó prezos por Chriílojrega* 
lando-os có os mím.os, que fua pobreza lhe permitia. Hu 
dia foy à caía de hum ChriíMo por nome António : & có- 
veríando ambos da mercè,que Deos faíia aos que ficavam 
no cárcere por amor de fua lanta Iey ; pois feríaó grandes 
os prémios , que receberião no Ceosdiíle Joana : Eu finto 
em my grandes impulíos para me ir ofi^erecer aos Manda- 
rms;mas como devo ainda tres,ou quatro toítóesjnem te- 
nho agora có que íatisíazer;por iílo me não atrevo a mor- 
rer com eíla divida. Perguntoulhe António, aquém os 
devia: & íabidos os acredores , lhe díffc: Se Deos a chama, 
não le detenha por eíla divida, poisfica jà por minha con- 
ta. Deujoana muytas graçasa António, de cuja caía fe foy 
prefentar aoTribunaljôc com tão repetida conílancia en- 
trou, & confeíTou a Iey dejesv ChriÍLO,& por não querer 
pizar a Imagem foy levada ao cárcere, do qual com licen- 
ça das guardas veyo a Faiíò para receber do Padre Pedro 
Marques os Santos Sacramentos,& fortalecer mais fua al- 
ma. Na defpedída difieella ao Padre. Veja voíía Reveren- 
cia o que quer , que eu lhe alcance de Deos. Refpondeo o 
Padre,agradecendolhe a boa vontade,que elle deixava tu- 
do na difpofiçaó do mefmo Senhor. Voltou Joana para o 
carcere,donde efperava fahir para o lugar do martyrio , & 
deíle para o Ceo. 

Naó fuccedeo aífim a Manoel, & a Anna antigos rafei- 
ros dejoanajcó a qual ficavão a palavrados 5 de ante? me r- 
.^:j QjS^y ferem 



goS BREVES NOTICIAS DO 

rerem que franquearem na Fò. Pois prezos ambos ncfta 
perfeguiçaó tiveraó tanto medo das ameaças , que íe ren- 
derão vergonhofamente 5 & pizarão íácrilegamentc a Sa- 
grada Imagem. Bem he, que difto aprédamos todos, a nos 
não fiarmos de nòs: nem a boa vida,que por ventura faze- 
mos 5 fique nunca fem o temor , com que devemos viver 
íempre receofos de íahirmos do eítado da virtude : he en- 
gano , prometerfe conftancia nas tempeítuofas ondas das 
tentações deíle mundo. Porém foy tal o arrependimento 
deftes dous cafados? que Anna por argumento defua per- 
petua trifteza cortou os cabellos : & Manoel fuou fangue 
pela vehemencia de feu fentimento. Se tal foíTe em nòs a 
dor dos peccadosjhaveria em nòs muyta emenda nos cof- 
tumes. 

CAPITULO XXVIII. 

%e força T)íOi ejle conítante efquadraÕcom outros esforçados Confejfo* 

res de Chrijloy 

O R R I A defenfreado por todos os luga- 
res o furor dos foldadosjfacrilegos execu- 
tores da barbara ira delRcy tyrano: bufcã- 
dojôc prendendo os adoradores do verda* 
deyro Deos. Havia na Aldeã de Ke ram 
húa copiofa Chriftandade: cuja cabeça era 
Eílevaójhomem bem nacido5& melhor criado; porq foy 
fempre muy obfervíinte da divina ley , & muy cuidadolo 
que todos a guardafiem perfeytamente: por cujo zelo to- 
dos aquelles moradores tinhaó recebido o Santo Bautit 
mo. Era tam.bem muy caritativo com todos, em particu- 
lar com os hofpedes Chriftáos ? aos quaes agaíalhava com 
grande liberalidade : & aos que encubrindo fua pouca ca- 
ridadcjcó a capa de humana prudência o tachavão de pró- 
digo > coílumava dizer : fe Dcos lhe tinha dado muyto de 

bens 




REYNO DA COCHINCHINA. 309 
òens temporaes, era para o gafer có os hoípedesjnos qua- 
cs reípeytava, & faíia obfeqiiío à peíToa de Chriílo feu Se- 
nhor. Com eíta generoíajôc pia vontade começou, & aca- 
tou à í ua cuíla húa muy fermofa Igreja > q deiejava abrir 
^o dia de São Eílavaosfanto do feu nome. Porem os ri^^o- 
resdaperieguiçaó impedirem a feíla deita dedicação 7& 
,Deos queria delle outra mayor5& mais aventejada oíFcrta 
n íaberjdc leu corpo , & alma pela confiíTaó de feu divino 
Nome. Como Eílevão foíTe prudente, logo que lhe che- 
-gàraó as primeyras novas das prizóes dos Chriílãos , ajun- 
á:c)U quantos homés havia na Aldeâ,^ com grande fervor 
Jhes praticou da obrigação, que todos elles tinhão de con- 
ícflàrem intrepidamente a ley , que profeíTavão ; porque 
ira ley dada pelo Creador de todas as coufis. Não tivefsé 
íiiedo das ameaças nem dos tormentos, nem da mefma 
morte ; pois o Filho de Deos pelo amor de fuás almas ti- 
cha padecido doíoroíiflimas penas , & crueliíTima morte 
cm húa Cruz. Reparaflcm como os grandiffimos premi-» 
os não íe davão fenão depois de muy fanguinolentas ba- 
talhas. E quem efpirava por húa vida eternaméte glorio- 
ía^não receava de perder a temporal no confliòlo. 
- • Porém fe alguém não achaíTeem fyeílc esforço nem 
fcntiífe tão accefos dcfejos de dar a vida por feu Creador* 
íe rctiraíFc para os matos, aonde não podeíTe chegar o per- 
ícguidor;pois quando não havia baftantes forças , a retira* 
da não perjudicava à honra,nê a alma. De oitenta, & mais 
homês íò quatorzc com Eftevão ficàraó no Campo pela 
confiíTaó de noífa fanta ley. Nem eftcs poucos forão cóf- 
tantes no combate ; porque nove vencidos do medo , pi- 
fando a Imagem , dcrão as coftas a Chriílo, Somente Efte- 
vão com mais quatro fuítentârão com grande esforço as 
partes da Fc,& alcançarão gloriofa vitoria da Idolatria.Ef- 
tes merecem fer nomeados, porque dignos de eterna me- 
moria. Erão pois além deE fl:cvão,Pedro,Simão,Bento,'5c 
Thadeo. 



Qgi"j 



Pedro 



3IO BREVES^NOTÍCIAS DO 

Fedro tinha por officio/azer obras de charam, 6c havia 
oito í;iíiros,que cõ feus Pays íe paísàrâ do gentihíhio para 
a Ley de Dcos. Não deixava occaíiaò , cm que íe podeíle 
coDfeíraM& recebera Sagrada Communhaó : íempre og- 
cupadojou em bufcar o íuilento para o corpo trabalhado, 
ou cm alcançar 5 orando 5 o proveyto de ília alma. Simaó> 
Bcnto,& Thadeo ioraó todos três lrmãos5& íilhos de húa 
prima deíle Eílevaó chamada Catherina : a qual , por fer 
jiiuy devota , & icrvoroía Chriílã 5 criou eíles filhos mais 
com o temor de Deosjque com o leyte de ícus peytos:co- 
nio aquellâ 5 que jà fabia que Deos dava os filhos 5 para as 
Mãys os criarem para o Ceo. Quam bons foílcm os con- 
felhos da pia3& cuidadofa Mãy? o moílràraó os filhos com 
íeus graves? ôc honeftos procidimentos ; pois fahiraõ trcs 
exemplares das virtudes Chriííás: muy circunipcéíos em 
fuás palavras : muy compoílos era fijas acções : & muy re- 
tirados das converfi-çóes com mulheres: fugiaó das peílb* 
as viciofas : buícavam as de bons coftum.es : & fobrc tudo 
craõmuy frequentes noufodos Santos Sacramentos dâ 
ConfiíTaó , &c Comunhão. A vida deílcs três Irmãos cóío- 
lava muyto aos Chriftãos,pelo bom exemplo? que davam 
a todos os Gentios , que pafinados fc admira vaó de ver ta- 
la pureza em moços folteirosjôc na flor de íua idade tanto 
deíapegodospaílatempos dcíla vida. Os bem acoíluma- 
dos fe aíFeíçoavaó à noíía fanta Icyípois en finava, & man- 
dava coufas tão honeílas3& tão conformes à rafaó ; porém 
os perverlos a aborrcciaójporque com cíles exemplos vir» 
tuoíos ficava condenada à fija vida licêcioía. Pelo que ío 
raó logo buicados pelos perreguidorcs,quc dcfejavaó ma^ 
tar a eftes trcs ccnfores de íeus depravados coílumcs. 

Ficando pois cíles finco no cófliélo ? foraó acometidos 
bum depois de outro pelos Miniílros da JuíHça ? pergun* 
tandoihesjíc eraó Chriíláos. Todos finco com grandeani» 
mo rcípondcraó 5 que tinháo , Ôc guardavaó a Ley de Jcsv 
Chriílo;Filho de Deos ? & fal vador das almas. Entaò lhes 

ioz 



REYNO DA COCHÍNCHINA. 311 
fez- o Mandarim a mefma faíajcom que na Audiência pal- 
iada tinha pervertido a mais de noventa Neofitos:cuidan- 
do que também com eíles íincoteriao mefmo íucceíTo, 
Porém os esforçados foldados do Rcdemptor conhecen- 
dojferem peçonhentos fdvos da Serpente infernal as pa- 
lavras 3 que fahiaó da bocca daqueile miniílro de Lúcifer: 
cíliveraó fempre muy coníbntes em confeílarem a Fé:Ôc 
muy determinados antes a padecerem mil mortes 5 que a 
fazerem algum minimo defacato a Imagem de feu Crea- 
dor. E para que o foberbojôc enganoío Mandarim conhe- 
ceíie fua ignorância ? & foubeífe como elles tinhaó jà def- 
cuberto os laços de fua aftuta impiedade , diíferaólhe : co- 
mo naó havia duvida^que a Religião era culto 5 que fe da- 
va a quem naó aícançavaó osfentidos exteriores do cor- 
po- Também era fem duvida , que eíle culto fe devia dar 
Ibmentc a quem foffe o mais perfeyto no fer 5 & nas mais 
virtudes neceíTarias para a natureza divina. E affim devia 
ter o fer de fy,ôc naó dado por outré : & todas as mais cou- 
fas deviaó receber delle o ler , que tinhaó. Devia também 
fer perfeytiílimamente caílo , infinitamente fabio , fobre 
tudo poderolOífumamentejuílojôc mifericordiofo. Poré 
dos que eraó tidos por deofes na Cochinchina nenhum 
deli es tinha eftas perfeyçóes. Pois os livros enfmavaó 5 &c 
CS Bonzos apregoa vaó: que os deofes tiveraó Pays5& pro- 
genitores : nem creàraó elles o Ceo nem a terra ; porq ha- 
via tudo iílo com as mais coufas antes delles nacerem : fo- 
raó difcipulos de huns demonios5queosenfmàraó dentro 
de huns fombrios5&: medonhos bofques : tiveraó mulhe« 
rcs,& filhos: nem difiaó os livros? nem havia Bonzo , que 
prègaíTejque caíligaváo com pena eterna aos gravemente 
culpados,& contumazes : nem que âpremiavaó com per- 
pétuos gozos as peíroasvirtuoías5& as jàemendadas.Logo 
nenhum delles era Deos; pois naó tinha as perfeyçóes de- 
vidas à peífoa divina: antes tinhaó fido homens muy aílu- 
tos enganando aos íincerosj& muy ambicioíos procuran- 

Rr do 



312 BREVES NOTÍCIAS DO 
do ferem honrados de todos. Mas quando não houveíTe 
iiclles outra falta, bailaria ferem muytos os tidos por deo- 
fesjpara nenhum deiles merecer adoração. Porquejou to- 
dos elles eraò iguaes no poder: ou dcíiguaes. Se deíiguaes, 
os iaferiores,& de menor poder, jà naó eraó deofes ; porq 
iiaó eraò todo poderofos: como convém que o feja Deos. 
Nem era poíTivel muytos ferem todo poderofos; porque 
a cada hum lhe faltaria o poder fobre os outros iguaes.Lo- 
go nenhum feria Deos. Aílim como em hum Reyno os 
inferiores no poder naó eraó Reys. Ne podia haver mais 
que hum Rey;porque naó podia liaver muytos có tudo o 
poderjôv feníiorio fobre todos os doReyno.Efta doutrina 
pois eníinada da mefma rafaó, & confirmada com tão lar- 
ga experienciajera a que prègavão os Portuguezesjdizen- 
do: Haver hum fò Deos , que era Creador , Confervador> 
& Senhor abfoluto de todas as creaturas. O qual tinha da- 
do a mefma ley a todas as naçóes do mundo;pois em todos 
os honiés fe achava a mefma natureza com as mefmas po- 
tencias 5 & inclinações : como o moílrava a experiência. 
Que eíh ley eníinada pelos Portuguezes foiTc a verdadei- 
ia,era evidente; porque fe conformava com os diólames 
da razaó natural 5 que mandava honrar aos mayores ? em 
particular a Deos , ôc aos Reys: & também querer aos ou- 
trosjo que a peíToa defejàra para fy : nem lhes fazer a cllesy 
o que não tomara fe lhe fizeíTe a íi ; pois todos os homens 
erão como Irmãos 5 porque erão creaturas do mefmo Au- 
thor. Viílo logo fer efta ley auniveríaljôc verdadeirajdada 
pelo Senhor de todas as coufasjdeverião os que atêgora ti- 
veraô por deofes , aos que não o eraó, adorar daqui por di- 
ante ao Creador do Univerfo , & obedecer a feus manda- 
dos. Nem feria imprudência, mas antes grande acordo, 
deixar o falfopeío verdadeiro, & largar o caminho errado 
pelo certo depois de conhecido. 

Pafmados ficàraó os circunílantcs, ouvindo rafóes tam 
evidentes. Sò os Mandarins , por fe verem diante de tanta 

muiti- 



REYNO DA CO'CHINCHINA. 513 
multidão convencidos com tanta clareza? bramarão dizé- 
do: obedcccllem ás ordens reaes 5 porque náo havia rafam 
contra o que íeu Re}^5& Senhor lhes mandava : haviáo de 
pizsr s ímngeni^ou haviáo de morrer. Morreremos antes: 
reípondcráo todos finco com grade alegria; & com a mef- 




ptor. Alcançarão também eftes íinco das guardas 5 pode- 
rem ir a Faifo com pretexto de comprarem os caixões pa- 
ra ícus enterros: viíitàraó alli aos Padres prezos: & recebè- 
-raó delles os Santos Sacramentos, & os necelíarios confe- 
• ihos ( que os Padres antes deíejavão exccutarjouc dar.)pa« 
raque o iacrifício de íuas vidas foíle mais agradável aos 
olhos uo Divino Senhor. 



capítulo XXIX. 

» 

Ssnteufã dada per El%ey\ cj:> txecHçam delia dous meninos fe prejentâô 
AO tríbunal^^s- nmv em juntamente pela Conjijjaõda Fè, 

NFORMADO EIRey da cóílancia do» 
gcnerofos ConfeíTores de Jesv Chriílo, 
determinados anão largarem a ley fanta 
de Deos: devendo ao menos duvidar 5 íe 
era verdadeira efta nova Religião; pois tã- 
to esforçava o coração do home , que lhe 
fafia defprezar a vida ? & defejar a morte: cego já do furor, 
por ver a fua íobcrania tão pouco temida , defpedio as or* 
dens para o Tribunal de Cachão : mandando matar a quã- 
tos não quizeíTem obedecer às fuás reacs prohibiçóes có- 
trà a ley dos Portuguczes. Somente a Bà Maria, por fer íi« 
dalga de tão fubida íiobrezajlhenam deílcm morte violé- 
tajmas a fechaílem cm hum apofcnto , & alH a deixaíTem 
perecer à fome, 6c à fede. 

Chegou cila não menos barbara qu c íacriliga íentença 

Rrij aCâ-* 




514 BREVES NOTICIAS DO 

z Cachão aos vinte & oito de Janeyro : & como vieEh âo 
goílo dos Mandarins deíejoíos de fe vingarem da aíFrótaj 
que lhes parecia terem clles recebido dos valerofos íblda- 
dos de Chriíto ; por fe não renderem às luas rafóes , nem 
fe teniereni de fuás ameaças : publicarão logo a cxecuçaój 
que ElRey lhes mandava fazer;para meterem mayor me- 
do a todos ? para ferem mais reípeytadosíeus poderes ,& 
fobretudo para extinguir a Fèjquc com as luzes das virtu- 
des Chriítãs defcubria os vícios ínfeparaveís companhey- 
ros de fua idolatria. 

• -'• Porèni niuy differentes íoraó os effeytoS) & muy con- 
trários os affecios , que caufou aos prezos por Chriíto o a- 
vifo e çrto de fuás mortes. Pois derão logo todos as graças 
•ao Senhor jpelos fazer dignos de facrificarê fuás vidas pela 
cooíiíraô de fua divina ley : & dcraó também hús a outros 
os parabéns 5 por ferem companheiros naquclla gloriofa 
jornada para o Ceo. Recolhido depois cada hum comligo 
l1^.C#i"'0,tratavâ de fe difpòr para tão grande empreza com 
afros ÍD.reriore3,partíciílarmêtc de Fé? Eí perança5& Cha- 
ridade : pedindo aos que os vioháo vifitar , & fe defpcdir 
dellesjos encomêdaífem niuytoa Deos ; para que lhe fof- 
fem lieis ate fahirem deíle mundo táo perigo fo para a fal- 
vaçaó das alrnas. Em quanto pois os vencedores da idola- 
tria fe hiáo compondo na alma para o triunfo do Marty- 
TÍo;os piadoíos Chriftãos lhes hiáo apreftando o ornato do 
corpojcortandojôc cofendo para cada hum dclles muy ri- 
cos roupoens de fedas preciofas. 

Chegou finalmente o defejado dia dos trinta de Janey- 
ro de mil & íeis cétos & feíTenta & finco, em que fe havia 
de dar fen tença de morte aos conílantes ConfeíTores de 
jesv Chrifto. Sahirao todos do cárcere bé veílidos5& muy 
ayroíos. Todos eraó onze a faber Miguei de íetcnta & fin- 
co annos de idadejofeph de fetêta ôc dous,Cayo de trinta 
&z tres,ígnacio dequarenta ôcfeisjEfteváodc trinta & no- 
vOíPedro de vinte 6c finco,Siraaõ de vinte & dous, Bento 

de 



REYNO DA COCHÍNCHINA. ji^ 
de vinte,Thadeo de dezanove , Joana de quarenta & três, 
*k também outro Beto de fmcoenta & dous annosdeida- 
de.do qual não acho outras noticms ? íe naô q eítivera pre- 
zo com os outros 5 por náo querer pízar a Sagrada Imagé? 
& Tahira com os meímos para morrer por Chriíro. Baítão 
€Íhs noticias, pois ío ellas fâó dignas de eterna memoria; 
porque tudo o que não he honrar a Deos ? & padecer por 
Deosjuada nos aprovcyta para a eternidade. 

Eraó às fette da manhã, quando os onze prezos có can» 
ga ao pefcoço apareceram no Tribunal da Jufriça. Porém 
osqueejl:âváo comorcos parccião ferem os juizes pelo a- 
nímo com que aíliínáo: &l os que havião de dar a íentença 
moíiravão íerem os culpados pela turbação, que nclles ie 
enxergava ; por verem que feus caftigos nam íò não eram 
temidos» mas ainda dcíejadosjôc feftejados com galas. Pelo 
que como politicos tratarão de tentar outra vez a conftâ- 
cia dos ConfeiTores;porquc fò com íe renderem eíles, po- 
deriam eiles ficar vencedores. Occultando pois o ódio in- 
teriorjcò palavras muy aííaveis lhes difieraò : Que dariam 
grande goílo a feu Rey íe pizaíTem a Imagem: & com iíto 
cícapariáo da morte , & lograriam muy tos annos devido^ 
cómoda 5 & alegremente. Reípondèram chcontinéte to- 
dos: Que por nenhum caio porião feus pès no retrato de 
feu Deos: & que de boa vontade dariaó mil vidas, por não 
fazerem alguma mininaaffrontâ aofeuCreador. Eftava 
prcfente a eila generofa coníiílam grande numero degc- 
tios,& também muy tos Chriftáos occultos; entre os quâ' 
CS havia Catherina ivlãy dos três írmãoSíSimão, Bento, &c 
Thadeo: a qual com grande animo mais que varonil roy 
fempre acompanhando os filhos, 6c esforçando-os com 
lhes dizer : Que pofeiTem os olhos nas coufas da outra vi- 
da,onde os gozosjôc felicidades eraó eternas : foubeíTem q 
tanto mayores prémios terião no Paraífo , quanto mayo- 
res foliemos tormentos que padeceíTem neíce mudo pe- 
la guarda da divina ley : reparaíTem no muy to , que Deos 

Rr iij padecera 



5i6 -A T^BREVES NOTICIAS DO 
padecera peJo amorde fuás almcs : & íe lembraíleni fem- 
pre daquelias palavras de Jesv Chnffo;que elle negaria no 
Ceo aqye] leSí que o negaífem a elle na terra : nem lhes ef» 
queceíiem as penas eternas aparelhadas no inkrno , pára 
os que oflendereni gravemente a feu Creador. Efiafy 
■que era verdadeira Mây ; pois deíejava aos úlhos os verda- 
deiros benssque faó a graça divina, os theíouros da gloria, 
& a eterna bcmaventurança : & naô as riquezas, né as ho- 
ras , nê os largos annos nelic diíccrro5& valle de lagrínias. 
'Aíiim houveraó as Máys de eníinar os íilhos;para qocfof- 
íem tementes a Dcos, Pay de todos : & livrando-íe do caí- 
tigodo interno alcançaíiem no Ceo a herança dos bens 
eternos. Sabédo pois Catherina como todos os trcs íilhos 
ideviaó de morrer , porque naô queriaó obedecer ao lacri- 
'iègò mandado delRey : movida ác maternal amor adian- 
touíe , & poda diante dos j uizes , depois das coftumadas 
"Êcrteíias lhes pedio , perdoaílcm a vida ao menos a Tha- 
deo íilh.o mais pequeno de dezanove annos de idade;para 
queitiveíre cuidado delia naquella íua viudeZj& lhe íizeí- 
4€.o enterrojViitoachaf íe ella jà muy entrada na idade. Ti- 
ver;^s6 os ÍVkckrins cómpayxão da May ; mas quizerao íef 
cíueis como ÉlhOjdizendo vque lhe perdoariaó a vida , fc 
pizâlTe álíliagen]. Levantou logo Thadeo a voz , & diííe: 
Maó quero vida? fenhores , mas quero morrer com meus 
Irmãos pela guarda da Ley de Deos,Creador do Ceo5& de 
todas as couias 3 a que muyío mais devo que à minha pró- 
pria Mãy. A íi cimbro u efta repoíta a todos: nem a virtuoía 
Rjáy foy por diante com íua petiçam ; porque antes que- 
ria iicar ella íem coõfolaeaó , & deíemparada , do que íeu 
tilho cometer qualquer oíFença de Deos. Porem os íolda- 
dosjqueeítavão ao redor de Thadeo, ou por íe enternece- 
rem corn as kgrymas da Máy , ou por íe agaílarem com o 
•deíapcgo do íilho:,deraó a Thadeo hum impulío para que 
poíeííc os pès na Imagem, que lhe ficava diante no chara. 
Mas alentado moço deu humíalto cambem medido, que 
. y^ l :, , xil padou 



REYNO DA COCHINCHINA. 317 
paíTou íobre a Imagem fem tocaia. Reparado pois os Mã- 
darins no juílo requerimento da May? & na grande conf- 
tancia do filhojderaó fentença: fe lhe cortaíTem a Thadeo 
os cabellos, & lhe foíTcm dados muytos açoutes. Chorou 
o generofo moço?por fe ver excluído da palma do Marty- 
riojpela qual havia muyto tempo que íulpirava;& exhor- 
tara a todos a morrerem por Jesv Chriftojdízendo : que a- 
quelle tempo era boa novidade de Martyrio, & que todos 
fc aproveitarem de tão boa occaíiaó. Foy Thadeo acom- 
panhando a feus Irmãos com as lagrimas nos olhos , & c6 
o fentimento no coração, por não dar com elles o fangue, 
& a vida por íeu Redemptor: o qual não deixaria de apre- 
miar tão grandes defejosjôc tão conftante coníiílaó. E por 
ventura para Thadeo foy mayor Martyrio a vida , que a 
morte. 

Naó quiz Deos , que ficaííêm deminuidas as forças da- 
quelle pequeno mas valerofo efquadraó com a falta defte 
esforçado foldado; antes o augmentou logo em numero, 
& em valor para mayor gloria de noífa fanta leyjôc mayor 
confufaó daqueíles idolatras: & foíle tanto mayor a viào- 
riajquanto menor era a idade dos que mandava em focor- 
ro. Foraó eíles dous meninos : hum chamado Raphael de 
dezafete annos de idade 5 o outro por nome Eílevão de 
quatorze: ambos nafcidos na Corte de Sinoa.Raphael não 
tinha Mãy 5 & logo q vio a feu Pay cabido neifa perfegui- 
çamjpor fe temerjque o natural refpeytOjÔc amor a quem 
lhe dera a vida do corpo , lhe poderia íer caufa de perder 
também elle a vida da almajf ugio para Faifò com intéçaó 
de fe embarcar có os Padres defterrados para Macaojôc al- 
li viver livremente na Ley de Deos. 

Eílevaó era bem nafcido de avôs , que tinhão fido Go- 
vernadores de Provincias5& havia dous annos , que tinha 
recebido o Sâto Bautifmo. Agradou muyto a Deos aquel- 
la alma innocente; pelo que lhe foy communicando tãta 
luz j para conhecer afíim a prcciofidade dos verdadeiros 

Rr iiij bens 



3i8 BREVES NOTICIAS DO 
bes do Ceojcomo também o perigo de perdelos por caufa 
das vis? & fò aparentes felicidades da terra ; que começou 
jogo a aborrecer o mundo : quãdo eíle começava a lhe fa- 
2-er grandes promefías de hórasjriquezasj de paíTatcmpos. 
Determinado jâ a fe coníligrar todo a Deos , defcubrio ef- 
tes ícus generoíos 5 & piadofos intentos a outro menino 
íeu amig05& verinho3& igual na idadejnem menor na in- 
iiocencia : o qual períuadido das rafóes de Eílevão , fe re- 
iolvèraó ambos a tugirem , & irem viver nos defertos 5 & 
fazerem allimuyafpera penitêcia. Para negociarem pois 
o viatico neceíTario fò ate fahirem dos povoados ( porque 
110 Ermo queriaó viver com as ervas,&: raizes que por al- 
Yí achafíem ) nem querendo furtar nada a feus Pays , ven- 
derão huiis livrinhos de íèu uío:&: com todo eíle cabedal» 
que chegaria a três toftóesjfe poferaõ muy contentes a ca- 
minho. Porém antes de partirem? para os parentes perde- 
rem toda a efperança de os verem jà mais, cada hú deixou 
hú efcrito em fua cafa , em que diíia: como fugiaó do mu- 
do^por não oíFenderem a Deos. Faltado os filhos aosPays^ 
& achados os cfcritos? foram logo fervos em bufca de feus 
íinios por todos aquelles montes da Corte : 5c finalmente 
deraó com os dous novos Ermitões 5 que ficavaó ainda ao 
defcuberto 5 por não terem atè então achado covas , em q 
íc fcpultaíTem vivos. Grande foy a triíleza 5 que lhes cau- 
fou a vifta dos feus criados, & mayor foy o fentimento , q 
receberão, quando lhes ouvirão dizer , que trafião ordem 
de levalos amarrados ? fe naò quizeíTem voltar lívreméte. 
A qui chorarão os innocentes penitêtesjpor ficarem fruf- 
trados feus fantos defejos, & ferem obrigados a tornar pa- 
ra as cafas de feus Pays : aonde forão com tanta repugnan- 
ciâ5&: com taes finaes de fentimento;quâta5 & quaes mof- 
trarião outros? que obrigados a deixarem os regalos de fu- 
ás caías cntraíFemnasmoleítiasdehum cativeiro. Repa- 
rando Miguel Pay de Eílevão na pia iodole do filho , lhe 
deu licença de fe occupar toda nas couíàs de Deos 5 &: de 

ficar 



REYNO DÁ COCHINCHINA, 579 

ficar na Igreja,qi]e os Padres tinhão na Corte: para affim o 
ter coníolado5& lhe nao tornnr a fugir. Foy eíta licença a 
mayor hcrançajque Eíieváo podia dcíejar: & com granda 
goito aíliília na Igreja , & ajudavs aos Padres na adminif» 
traçam dos íantos Sacramentos. Forem pouco tempo lo- 
grou eílc morgado elpiritual;porque os Padres íorão logo 
Hçados fora da Corte 5 Ôc ficavâo prezos em Faifò para íe- 
xcm degradados para Macao. Efre fucccíTo magoou muy- 
to a EíiC?áo5& o teve muy preplexo fobre a reíoíuçaó ? q 
tomaria , para fe mo tirar do ferviço de Deos. Mas logo q 
ceve noticias 5 como também em Cacháo mataváo Chrií- 
tãos pela guarda de noíla íanta ley 5 entrou em efperanças 
de poder elle dar alli a vida por J^^sv Chriílo : o que não ai*» 
cançaria facilmente na Corte por fer conhecido. Comu- 
nicou eíles fcus defejos com o menino Raphael, que , co- 
mo temos dito , bulcâva occafrão de aufentarfc da cafa de 
íeu Pay5& ir com os Padres para Macao. A refoluçaó pois» 
que tomàrão,fem duvida inípirada por Deos foy:fugirera 
«mbos da Corte para Faiíòjviíitarem alli os Padres 5 6c pc- 
diremihesjos levalfem a Macao, viftofer tâo cruel a perfe- 
guiçam na Cochinchina contra a Ley de Deos. Se porém 
os Padres não lhes concedeílem a partida , então irião am« 
bos a Cacham , &c fe prefentariam aos Mandarins confef- 
fando ferem Chriftâos, &: guardarem a ley dos Portugue- 
tLGi. Com eíta determinaçam fahiram efcondidamente da 
Corte,& a pé fe paíTaraó para Faifô. Porém com os Padres 
lhes não podefiem prometer levalos comfigo; porque o 
Capitão do navio não fc havia de atrever a lhes dar lugar 
pelas rigorofas prohibiçócs reaes em contrario. DiíTimu- 
íando os dous mininos os outros intentosjpcdirãojfe quc- 
riloconfeíTarj&commungar. Fortalecidos já com eftct 
Sacramentos foraó-fc para Cachão efperando pelo dia,em 
que ouveíTc Tribunal, Entretanto íc detivcrão ambos em 
caía de hum Chriílão mercador por nome Manoel , que 
•s agâfalhou com grande dcmoílraçam de refpey to. Pcr« 

Si guntirv» 



3^0 BREVES NOTICIAS DO 

guntando pois Maoocl aos dous hoípedesjqual foíTe o ne- 
gocio,que os trouxera de Sinoa a Cachão ; deícubrirãolhc 
os fantos intentosjque ti chão , de íe preíentarem aos Mã- 
darios , 6c confeíTarem pubh'cameníe a Ley de Deos. Fi- 
cou Manoel íufpenfo có eíla repoíh dos meninos;ôc poí^ 
to que íoíle niuy prudétejcom tudo fe não atreveo % prof 
por as difficoldadcs da vitoria5& os perigos da perdaialíim 
:5ela tenra idade dos novos Toldados, como também pcJ; 



h 



& 



crueldade dos inimigos perfeguidorcs. Antes movido da 
irnpuh^o interior louvovos,& animovos à façanha, q prc» 

tcndiaó fazer cara gloria de fesv Chriílo:& quiz que auâ- 



para gioria ce jesv ^nnrio.-õc quiz que quâ- 
do íoffemà Áudienciajveitiílem muy ricos roupões de fe* 
dajque ellc tinha em cafa para mayor pompa do triuníoii.' 
Áilim ricamente compoflios no corpo ? & muy to mai» 
ornados no animo entrarão na Audiência , que houve no 
<Jia icgiiintCícm que os Ímpios Juizes haviaó deíentenci* 
ar a morte os onze Confc Obres de Chriílo. Depois de rei- 
ponderem círesjcomo períiítiâo ero não quererem piz^ 
a Sagrada Imagem: & perdoada a vida a Thadeo ? para ter 
cuidado de Gatherina lua May: adiantaram-íc logo cHgs 
dous novos Mantenedores da Fè j & acabadas as coítuma- 
das corteíiasjfalou Raphael por íer mayor na idade , & c6 
grande coraçaÓ5& focego diíTc aos Juizes eftas formaes pa- 
lavras: Senhores nòs ambos fomos Irmãos Chriíl:ãos5& 
meninos orfos: da Provincia de Sinoa vimos a elfe Tribu- 
naljpara pedirmos a voíías mercês, que nos quciraó man- 
dar para o Ceo , pois h cílâ noílb Pay. Pcrguntoulhe logo 
hum do Tribunal: Quem he voílb PayjÔc aonde eftàPRcf*^ 
pondeo encontinente Raphael :Noíro Payheo Senhof 
do Ceo,& da terrajque governa cfte mundoj& o outro:6c 
hejuíitanientcPay univerfal de todos. Replicou omeí^ 
mo Mandarim: Se fois pobresjôc meninos ortos, quê vo9 
agafalhou eíles dias,ôc quem vos deu o ncccíTario ! Alcan*' 
çouRaphaelaaíhiciadoJuiz, que queria deícubrir ou- 
tros Chriítãos, de diíle: Paílamos? Senhor, cílcs dias na» eC» 

tc. Ulagecss 



REYNO DA COCHINCHINA. 321 
talagcnsjrcfugio dos pobresjcomo nòs fomos. 

Eílas propoíl:as,& repoftas de Raphael tâo generofas,& 
tão prudentes encherão de aílombro a todo aquelle audi- 
tório. OsChriílãosoccultosas feílejavaó interiormente, 
& pediaó a Deos,os esrorçaíle atè alcançarem a total vito- 
ria daquelles inimigos òà Fe. Os Neófitos cabidos enver- 
gonhavaõ-íejvendo táta fortaleza em idade tâo tenra. Mas 
os Idolatras olhavão bus para os outros palmados do ani- 
niOjôc: do deíejo dos íuplicantes. Sòmête os bárbaros Má- 
darins raivoíos por vxrem tão defprefada atè dos meninos 
a morte,coni quepretendiaõellesamedrontarj&perver* 
ter os Chriihíos. Advertindo pois os f uizes na admiração^ 
cjue todos [aíiaó dos dous que fe oíFereciaó por reosjman- 
dàram aos foldadosjos prendeirem logo , & amarraííem a- 
pcrtadamente. Acudirão logo os meninos dizendo : Se- 
nhores 5 para os que íe entregaó à morte de íua livre von- 
tade,naó íaó neceOariosguardasjnem ataduras. Deíiíliraó 
os Toldados : &c os meninos íicàraó foltos. Forem eftas pa- 
lavras acederão mais o furor dos cruéis Juízcs:& logo de- 
raó íentença de morte , a todos,mandando : que Miguel, 
Joíeph,!gnacio, Bento, iiíicvaó, Pedro, Simão, & feu ír« 
mão Bento fofieni degolados. Porém Cayo os dous mini-* 
nos Raphael , & Eítevaó com Joana foílem lançados aos 
Elefantes. 

Aquiapareceo mais claramente, como a vitoria fein^ 
clinava toda para a parte da Fè ; pois os condenados logo 
que ouvíraó a fentença de morte , cobrarão mayor esfor- 
ço,&: fc moftràraó tão contentesjque ficàraó todos aquel- 
les idolatras atónitos: vendo tanta alegria , nos que dalli a 
poucas horas havião de morrer juftiçados. Elhcscrecco 
muyto mais o aíTombro , quando ouvirão as graças , que 
todos dozedavaójaosquc lhes mandavaó tirar a vida dizc- 
do , que recebiaó por grande mercê a morte tão aíFronto- 
ía. O que foy caula de fc embravecerem muyto mais os 
Mandarins5& gritarem defefperados: tiralTcm dalli aquel- 

Síij loê 



522 BREVES NOTICIAS DO 

Jes rebeldes às ordens reaesjêc dignos de todo o caftigo. Sa- 
bidos os doze? deraó huns aos outros os parabéns pela mi- 
fei icordiíijque Deos ufava có elles : & fe animarão a mor- 
;*erem todos pela ley de Chrifto noílb Redemptor. Efpe- 
rando todos para fe fazer preíles,o que era neceíFario para 
fí e.\ecuçaó da fentcnça : reparou o menino Eftevaó , que 
feu companheiro Raphael moílrava ter algum fentimen- 
Xo: & íabida a caufa , naó era por morrer ; mas por o mata- 
rem com os Elefantes : o que fe coftumava fò com as mu- 
lheres,ôc com a gente vil. Acudio logo Eílevaó dizendo: 
jcorno por mais honrofo tinha elle o morrer aos dentes do 
Elefantejq ao íio da catana;poís eíla cuftaria ao mais íinco 
patacas 5 & aquelle náo fe comprava com menos de cem. 
Alèiij diíío quanto mais aiFrontofa foíTe a morte por Jesv 
Chrifto 5 tanto mayor feria a fineza do amor da creatura 
para com feu Creador 3 & táto mayor o premioíque Deos 
lhe daria no Ceo. Có eílas palavras de Eílevaó íicou Ra- 
phael miiy focegadojôc foy moílrando muyto mayor có- 
teii ta mento. 

Ajuntedologo aquelle medonho acompanhamêto da 
JuíHça 5 fahíraó para o campo da peleja os doze alentados 
Ciípitaens da Fè, para acometerem a morte , & perdendo 
generoíamente a vida no coníliclojficaraó vencedores do 
tyrano infiel. Hiaó na vanguarda os oito 5 que haviaó de 
íer degolados : & na retaguarda os quatro condenados aos 
Elefantesjque em numero de doze5governados por doze 
nayres a cavai lo nos pefcoços,feguiaóa todoeíle lufidoef- 
quadraó , mais por troíeos de fuás viâorias 5 q por inflru- 
mentos de fuás mortes. Grande era o concurfo dos Idola- 
tras5que acompanhaváo eíle triunfo ? movidos hús da có- 
paixão de verem condenados à morte tantos innocentes, 
outros da admiração de tão grande alegria dos padecétes. 
E pofto que todos doze foílem pregando pelo caminho a 
Ley de Dcos;com tudo os dous meninos levavaó a pòs fy 
os olhos de todosjôc todos punhaó o fentido, no q os dous 

enfina- 



REYNO DA COCHINCHINA, 523 

cníinaváo do Senhor de todas as creaturas. Como pois as 
vozes foíTem mais íiiavcíí,^: a idade quanto mais tenra tá- 
to mais amável porque maisinnocente, por jírofeenter- 
neciaó aqueiles corações idolatras, &fe desFafiaó todos 
em lagrimas pelos olhos. Somente os que hiaó morrer 
hiaó rironhos5& contentes. 

Chegados finalmente a bua coroa de área 5 que deixara 
o rio depois da inundação, quaíi meya legoa diíèante de 
Cachaó^mândou o Mandarim aosíoldados , paraíTem 5 de 
repartiílcm os dczc em três fileiras. Na primeyra ficâraó 
Aliguel Joleph, ignacio? & Bento o mais velho. Na fegú^ 
da Eílevaó, Pedro , Simaó com feu Irmáo Bento o moço, 
E na ultima Cayo, os dous meninos Raphael , & Eílevão 
com Joana. A multidão, que os vmha acompanhando pa^ 
rou quafi toda perto dos dous meninos, eíperando cora 
grande íuípenção pelo fi^icceílo, que terião aqueiles dous, 
que parixiáo antes vindo do Ceo , do que naícidos na ter- 
ra. Eis que neíle tempo entrou por meyo daquella muU 
tidão de foldados hún menina dedezaíeis annos por no- 
me Luiza( da qual í aliaremos també no Capitulo feguin- 
te)chegou-íeellaaos pès de Raphael, & debruçada no 
chão lhos quiz beijar. Náo lho confentio Raphael , antes 
alevantou,6c lhe difie: Irma ficai com a paz de Deos: cedo 
nos veremos na gloria. Eílando pois para fe dar o final da 
facrilega matança, levantou a vòs o menino Efievão, & 
diíTe aos circuníiantes : Saibão todos , que nos padecemos 
efta mortejnão por íermos ladróes,ou por outros crimes; 
mas de noííà livre vótade por guardarmos a Ley de Deos, 
òc para irmos ver a Deos no Ceo. Efta tão breve fala, feyta 
daquella idade innocente , & com tanta força de efpirito 
fuperior,fez chorar a todo aquelle auditório de empeder^ 
nidos infiéis. As mcfmas palavras ouveramos de repetir 
nòs muytas vezes, para levarmos com paciência as molef- 
tias,& trabalhosjque fempre cuidamos que os padecemos 
injuftamente j vifto não haver outro caminho para irmos 

Si iij ver 



324 BREVES NOTICIAS DO 

ver a Deos no Ceojque o do iofrimento na terra. Ao pri- 
ineyro íinal que o Mandarim fez aílini os quatro da pri- 
meyra fileirajconio os outros quatro da fegunda foraó de- 
golados: & perdendo a vida temporal por Chrifto , alcan- 
çarão do niefmo Senhor a eterna5& bemaventurada. 

Deíejava o Mandarim , que os dous meninos efcapafsé 
com vida. Pelo que mandou aos NayreSílevaíTem os doze 
Elefantes apafièarem diante dos olhos deífa derradeira 
quadrilhajpara meterem medo ao menos aos dous peque- 
nos 5 que por ventura dariaó as coftas à ley dos Portugue- 
2;es 5 para não veré tão medonhos executores de fua mor- 
te. Mas logo que os condenados viraó diante de fy aquel- 
jas beíhs íeras5abriraó todos quatro os braços, eíperando- 
Tis com grande animo ? & a peyto deícuberto. Reparou o 
Mandarim , que não lhes cauíava pavor à viífa daquelles 
algozes táo inhumanos5& fez íinaljpara que hú Elefante 
a cometeíle a Cay0j& o mataílc 5 & pizaíTe : & depois de o 
ter morto , tomaílc com atromba as entranhas , & o cada- 
ver5& pofeíle tudo diante dos dous meninos. Porc aquel- 
la viílajquanto mais horrivel aos olhos dos homensjtanto 
mais agradável aos olhos dos Anjosjnaó fomente naó me- 
teo medo ; mas antes caufou grande envcja nos tres com- 
panheirosjpor crerem5& terem por certo, que Cayo eíra- 
va jà triunfante no Ceo , & elles ainda pelejando na terra: 
& com os grandes defejos de elles também padecerem a 
mefma morte, fe lhes foraó acendendo de tal íorte os rof- 
tos 5 que parecião abraíados. Naó defiftio o Mandarim de 
fua em preza ; por lhe parecer piedade, perverter aos dous 
memnos,para ficarem com vida , que então eomeçavão a 
lograr. Fez pois íinal para outro Elefante enveftir có Joa- 
na:a qual logo que o vio vir, períinoufe com o final da Sá- 
ta Cruz com a mão direita , éc continuou em fe abanar có 
o leque,que tinha na efquerda: efperando có a bocca chcar 
dirifo pelo furiofo matador , que com os dentes a atravef- 
fou pelos peytos. Cahio Joana morta , mas vencedora : & 

como 



REYNO DA COCHINCHINA. 32^ 
como. a tal lhe daria logoChriílo a coroa? que lhe mereciii 
húa Efpofa tam íiehôc coníbnte. 

- , OJhavaó Raphael 5 Ôc Eítevaó para eftes fucceíTos com 
graEclegoftO) &: contentamento: 5c íb defcubriara nelles 
muy claramente os deiejos de darem também elles a vida 
j>or feu Redcmptor. Admirava-ie o Mandarim de tanta 
fortaleza dos meninos,& tícavaaíiombrado; pois quanto 
Ijaaisíaíia para IhQs meter medo da morte,tanto mais elles 
íc moílravaõ defejofos de darem a vida. Mas todo o efpã- 
IJ&Jhc procedia ao Mandarim de naó faber do íoccorro do 
Cçojquc fortalecia aquelles téros peytos. Raphael , & E& 
tevão aíliíiidos do poder Divino não podiaó íer menos- 
gcncrofojque os Elefantes: aos quaes a viíla do fangucj^c 
dos corpos deipedaçados , & retalhados em poílas naó íò» 
mente os naó fez medroíbs;masantes lhes acrccenta mais 
o ar>imc:6^ o valor. Defefpcradajà a emprezasôc trocada a 
compaixão em furor: gritou o Mandarim corrido , para q 
dous Elefantes os mais embravecidos a cometeíTem aos 
dous manfos,& innocentes cordcyros.Os quaes depois de 
fe períinarem com a Santa CruZjtendo os braços abertos? 
os roíèos alegres,& os olhos no Cco,foraó mortos: Rapha- 
el pizado có os pès : & Eftevaó paílado íinco vezes de par- 
te a parte com os détes daquellas beílas feras. Caufou eíls 
cfpeclaculo grade triíleza^ôc lagrimas ate aos mcfmos mi* 
nifcros da crueldade.Porèm foy de grande gozo5& alegria 
para os Anjos vindos em foccorro para o com bate, & leva-' 
riáo logo em triunfo para o Ceo aquellas almas angélicas 
na vida, & martyres na morte. Ficou eífe diádos trinta de 
Janeyrodcmil & íeis centos & ícíTentaôi: finco venerá- 
vel éc feítival para a Igreja da Cochinchina ;'por ter Deos 
aceitado nelle o facrificio deitas doze viclimas da Fè. 

Os preciofos thefouros daquclles corpos vidoriofos fi* 
càraó quaíi todos enterrados porentáono mcfmoa real; 
donde f oraó levados depois para lugares mais decétes.Po*- 
rèm Miguel Pay do menino Eílcvaó^por íe achar na Pro* 

-^ Sfiiij vincm 



526 BREVES NOTICIAS DO 1 
vinciadc Cachaóaurcnteda Corte de Sinoa porcaufada 
perfeguiçaõjtcve avifo da glorioía morte do íilhosêc veyo 
logo em biifca de feii preciofo corpojque ao preíente fica 
em caí^i da Mãy5q o guarda como jóia a mais rica do mun- 
do: eípeiando pelos merecimentos do filho a mercê , que 
eíle alcançava de Deos para íeu Pay Aliguel , que depoif 
de poucos aniios deu també elle a vida por Chriíto , mor-í 
rendo degoJajd<:),na.Gorte dcSinoa pela confiílaô de noíli 

c Quem defáiayarà no fcrviço de Dcos: & quem poded 
ter efcuía de oat guardar perfeytamête a divina ley , quá- 
do velhos,moços5mulheres5Ôcmininos m.orrem có tanta 
conílancia^por naõ oíFenderem a Deos antepoodo-o , co- 
aio he raíaóíàs comodidades do corpo? âs honras do mun- 
c]o 5 aos goílos da carne ! A falta naô he da parte de Deos; 
pois affiííe fempre a todos com o foccorro de feu podero- 
ío braço: helogo da parte da noíTa vontade, que enganada 
com as aparências das couíasjque íalfa5&: loucamente cha- 
mamos bens dcíle mundojemprcga íeu amor nelles? tirá- 
do-o de Dcos a quem todo he divido: íem reparar^que pa-t 
ia gozar deíles^que cuida ferem felicidades deíla vidajper* 
de ao menos muytofearrifcaa perder ae ter na bemaven- 
turança da outra íigamos nos a conítancia dcftes esforça- 
dos Martyresjcm naó oífendermosaquem nos creoujpa- 
ra podermos lograr com cllcs os premies eternosjquc no* 
promete quem nos remio. 




CAPI- 




REYNO DA COCHINCHINA. 327 
CAPITULO XXX. 

Outros fres^s por Cerem Chrijlaos. T)Has mulheres fe vam oferecer aos 
perjeguidores : c3^ todos morrem^por nao largarem a 
* LeydeT)eos» 

AM fe acabarão com eftas glorioías mor- 
tes os triunfos da Fê;porque foraó crecê- 
do cada dia mais as viólorias com as novas 
prizóesj & marty rios de outros Neófitos 
muy generofos em cófeiTarem a Chrifto, 
& muy conftãtes em padecerem pela fua 
divina ley. Apenas tinha aquella terra acabado de receber 
em fy o fecundo íangue deíles esforçados Confeííòres do 
Senhor : quando brotarão logo novas plantas femelhãtesj 
às que o furor tyranico tinha impiamente cortado,êc bar- 
baramente arrancada. Sinco dias depois da morte dos do- 
ze 5 a faber aos quatro de Fevereyro chegarão a Faifò qua- 
tro Chrillãos prezos por adoradores do verdadeiro Deos. 
Foraó eítes: Thomê Tin,Domingos,Béto, & outro Tho- 
mèjtodos trafidos da Provincia de Quang Nghia, & leva- 
yados à Corte de Cachãojpara aparecerem no Tribunal da 
juífiça. 

«x, Era ThomèTin homem de letras 5 às quaes íe aplicou 
defde menino,& com tanto defvelojque fahio eminente, 
& digno do Mãdarinado. Porém chegado à idade de trin- 
ta annosjpor ouvir o catecifmo, ficou tam defapegado das 
honras deífe mundojque naó tratou mais de ter cargos li- 
terários: antes confeílàva 5 ter fido o mais ignorante ; pois 
atè entaó naò conhecera a Deosjprincipio de todo o bem, 
& fonte da verdadeira fabedoria. Recebeo o Santo Bautif- 
mo com defejos de fazer vida a mais perfeytajquelhe pre- 
mitiíTe o eftado de cafado ? em que fe achava : & íàhio tam 
exemplar rque parecia antes Keligiofo fechada em. clau- 
.. Tt funia 



528 BREVES NOTÍCIAS DO 

lura 1 que íccular na liberdade do mundo. Reparando os 
Padres Miílionarios nas letras , & virtudes de Thomè ? o 
coíifriruiraó cabeça de todos os Chriílãos da Provinda de 
Q]:ang Nghia:porque com as letras períliadiria aos genti- 
os a verdade de noíTa fanta ley5& com as virtudes encami- 
Dharia aquelles Chriílãos para a falvaçaó de fuás almas.Ef- 
te novo cargo obrigou a Thomê a ter cuidado também de 
feu próximo: ôc lhe foy Deos communicando tanto zelo 
das almas , que íoy dos melhores Catequiíhs , que houve 
na Miílaó de Cochinchina. Era incaníavel na viíita das 
villas,& lugares: o que faíia com mayor diligécia , & mais 
frequenteraéte depois de começar a perfeguiçaó : exhor- 
tando a todos,aguardarem perfeytamente a Ley de Deos> 
& a eíiimarem mais a vida eterna , que a temporal. E para 
c]ue feus írcguezes naó careceíTem dos Sacramentos da 
Coníií]aÓ3&: Communhaó , deíprezando todo o rifco de 
Iheícrem coníiícadososbens, que eraó baftantes, &dc 
perder também a vida: vinha de quando em quando a Fai- 
fò em buíca ác algum dos Padres? que alli ficavaô có pro- 
hibiçóes de rahirem:& desfarçando-o com trajo jà dePor- 
tugucz,jà de Chinaj& jà de Japaó o levava para íua cara,& 
nella o tinha eícódido por largos dias : não reparando nos 
grandes gaíloS)quc faíia 5 com dar de comer a tanta multi- 
dão de Chriílãos , que de noyte vinhaó receber os Santos 
Sacramentos: não tícava ainda fatisf cyta a grande charida- 
dc de Thomè com acudir fomente ás almas de feus natu- 
raes;pe]o que tratou de lhes valer também nos corpos.Pa- 
ra eiic fim aprendeo medicina: cíperando q por eíle meyo 
m uy tos Idolatras recebcrião nofia fanta ley. Nemfcen- 
ganou;porque favorecendo Dcos feus piadofos intentos, 
fafia Thomè curas maravilhofas:& ganhou tanto concei- 
tosque ate os Gentios fe quiriâo curar com elle. E como 
naó aceitava paga , ficavaó os Idolatras muy aíFeiçoados à 
noíTa lata ]ey,por íèr tão charitativa : & fe davaó por obri- 
gados a ouvirem? o que Thomè lhes cnfinava à cerca da 

lalvaçaó 



REYNO DA COCHINCHINA. 529 
falvaçaó das alaias:& por cílc nicyo muytos que bufcavaó 
fomente a faiide dos corpos, achavaó também a de íuas al- 
niasjrecebendo o Santo Bautíímo. 

Eira charidade tão eílremada de Thomè para có os ho- 
mens naó podia eílar fem muy to amor para c5 Deosicujo 
agrado bufcava íer vindo às íuas creaturas5& para cuja glo» 
ria deíejava dar todoo íangue , & mil vidas íe tantas tivef- 
fe. Eíles deíejos foraó a caufa5porque Thomè não fomen- 
te não fugííle dos perigos , das prifóes , & da morte ; mas 
ainda os buícaíIej&feoíFereceíIeaclIes: como o fez na 
períeguiçam paííada. Pois tendo noticiasjcomo hum Mã- 
darim com alguns íoldados tinhaó chegado a Quãg Nhia 
para perfeguir aos Chrifiãos ? lhe fahio Thomè ao encon- 
trojôc lhes diífe com grande focego, & generoíidade : que 
fe alguém era Chriífão 5 o era por íeu meyo 5 & confelho; 
pelo que elle devia levar todoo caítigo ? que vinhaó dar 
aos que guarda vaó a leydos Portuguezes. Naócfteveo 
Mandarim por cfte concerto; porém Deos aceitou aquel- 
le oíFerecimento para a preíente perfeguiçaó: na qual foy 
prezo , por fer cabeça da Chriítandc de Quang Nhia ? éc 
iiaó querer pizar a Imagem Sagrada. Fez pafmaratodos 
aquelles gentios o anirnojêc alegria,que mofírou Thomè, 
quandoíevio prezo pela ley de íeu peos5nem cabia em íi 
de contentamento: E porque teve noticias , como feus íi- 
Ihosj&genrosjpeíloas ricas,procuravaó o íeu livramento 
a pezo de dinheiro: chamou-os? & reprehende-os , & lhes 
mandou , naó íizeífem tão grande peccado ; porque feria 
nellcs falta de Fè em fi o pareceria de amor a íeu Redem- 
ptor. 

Domíngos5Bcnt05& outro Thomè naturaes da mefma 
Provincia de Quang Nghia foraó prezos neíla períegui- 
çaó por ferem Chriíláos antigos. E poílo que não foílèm 
lctrados;eraó porém muy virtuofos : & he o que mais im- 
porta,& mais agradável aos olhos de Deos. Cada hum dos 
três tinha cuidado dos Chriítãos de íua Aldca:ao5 quaes có 

Ttíj o bora 



^30 . BREVES NOTÍCIAS DO 
o bom exemplo de ítjas vidas eníliiavaó com mayor effi- 
caciaaobfervancia dos divinos preceitos. ComoíoíTem 
conhecidos de todos por Chriífãos;poraoe as luzes de íu- 
as virtudes os deícubríam por adoradores âo verdadeiro 
ibl, Deos noíTo Senhor; nem elles fugilTem nem feeícon- 
deíicm: f oraó logo achados ? & prezos pelos miniftros dos 
Perícguidores. Grande íoy o gozo , que o eípirito de cada 
hum recebcojdeveríeucorpo carregado com o pezado 
íugo da canga por amor de feu Salvador; porèmi foy muy- 
i'o mayor o contentamento ? quãdo todos fe encontrarão 
com Thoniè Tin na embarcação , que os levava para Ca- 
chão. Deu cada hum ao outro muytos parabéns ? pelo fa- 
vor que Deos lhes faíia,de padecerem por íua fanta ley:&: 
todos fe animarão a foírerem generoíamentc amiOrtc por 
aquelle Senhor ? que táo liberalmête lhes tinha dado a vi- 
da. Na viagem pois vinhaófempre confervandofobreo 
muyto,quc Chriíl:o padecera por amor de noílas almas,& 
da obrigação em que a crcatura tinha de fer iiel,& de nam 
íòmente não oftendcr > mas de dar ainda todo o goílo ? & 
honra a íeu Creador. Ouviaô tudo as guardas : Ôc reparan- 
do 3 quam conforme à rafió erasO que aquelles prezos di- 
íiaò 5 fe havião brandamente com elles , pelos terem por 
homens virtuofosj & innocetes. Pelo que chegados a Fai- 
fojioy fácil aos prezosjalcançarcm das guardas? licença de 
entrarem em cafa dos Padres , com cuja viík íicàraó muy 
confoladoSíConi cujos confelhos muy animofos,& com a 
graça Sacramental confeííando-fe muy esí:orcados:fò lhes 
faltou a Sagrada Communhaó;mas não toy poíliveljpelas 
guardas naó darem lugar para iílb. Paílàraó o reítante da- 
quelia noyte,cm falarem do martyrio , & dos grandes , ôc 
immenfos prémios , com que Deos galardoava os peque- 
nos5& lcmiiadosferviçosr)queoshoméslhe pediaó fzer, 
ainda que perdeííem por cllc a vida ; pois ellc lhes tniha 
dado tudo : & fe os vaííàllos craõ obrigados a fuftentarem 
a honra de feu Rey fem perdoar às próprias vidas ; muyto 

mayor 



REYNO DA COCHINCHINA. 331 
niayor obrigação tinhaóascreaturasde morrerem ,para 
impedirem as aíírontas de íeu Creador. Entre eíks íantos 
conferencias veyo apontando a Aurora : &c as guardai mã- 
dàraò aos prczos , que logo iè embarcaííem. Neík defpe-' 
didasaííim os Padresjconio os prczos chorarão todos de a- 
Icgria. Aquelles por verem a íeus filhes táo confiados em 
'Deos. Eftes por lè encaminharem para o martyrio. Ghe^ 
gàraó a Cachaó,& ao outro dia féis de Fevereyro pelas fet- 
te de manhã forão levados para o Tribunal. Mas como os 
Juizes não foífem ainda vindoSíteve lugar)& tempo lho- 
me Tin para pregar a muytos geotiosjque alli je achavam 
por feus negociosimoftrádolhesiquão verdadeira, de íànta 
era a ley,que elle guardava,^: enfmava,pela qual ellcsôc a- 
quelles feus três companheiros vinhaó prezos para ferem 
condenados. 

No cabo da pregação de Thomè chegarão duas mulhe- 
res Chriítãs. Húa chamava-fe Mannha?natural de Halan-* 
da Província de Cachaó ■, viuva , de idade de íincoenta ân- 
uos pouco maisjou menos. A qual aííiíhndo aos martyri- 
os dozc5& reparando na fortaleza de todos, em particular 
dos dous meninos RapliaeljÔc Eílevaó : cobrou tanto ani- 
mo? que íe reíolveo a fe oíFerecer aos Juizes , confeffando 
fer Chriíèã antigajôc guardar a ley dos Portuguezes. 

A cutra era húa menina donzclla por nome Luíia 5 d 
dezafeis até dezate annos de idade , nacida em Xunam d 
pays infiéis , mas criada na Corte de Sinoa em caía de húa 
fua Irmã tambcm gentia , cafada com hum Cliriíiâo chã" 
madojoaquimjque era ourives delRcy. Contentarão tã- 
to a Joaquim os procedimentos de Luíia íua cunhada pof- 
to que ainda criançasque a pernlhou,& lhe queria como à 
fua propia filha; pelo que defejava muyto o bom ourives> 
que Luíia •> & a Irmã fua mulher recebeílem o Bautifmo» 
para poderem alcançar a eterna Bemaventurança. Cum- 
prio Deos os zeloíbs defejos do bom Chriílão , & permi- 
tio que a mulher Irmã de Lufia folie nioleírada do De- 

Tt iij nioiíio. 



e 



c 



55^ BREVES NOTÍCIAS DO 

nionio. Corn cila occaíiaó apertou mais Joaquim c5 fuás 
amoeílaçócs à mulher , a que íe fizeíle Chríilá ; pois naó 
havia outro remcdio para íe livrar de tão cruel tyrano. 
Rcndeo-íe íiiialmcnte depois de muytas batarias aquella 
alma duas vezes cativa do demónio ; & com as agoas bau- 
tiímaes fe purificou , & affugentou o infernal inmiigos q 
com repetidosjôc muy frequentes aífaltos acombatia.Re- 
parou Luíra na melhoria de fua Irmã aíiim no focego, co- 
mo nos cofiumcs : & fe quiz logo prevenir com remédio 
tão foberano , para fenaó temer do demónio , & fe livrar 
dos erros , & vicios dos idolatras. Foy em bufca do Padre 
Domingos Fuciti? que aíliília então na Igreja d^ Sinoa:& 
com grandes infrancias lhe pedio o Santo Bautifmo . que 
recebeo do dito Padre depois de bem inftruida •> fendo de 
treze annos de idade. Parece que Chriílo noílb Salvador 
íò eíperava? q cila alma entrafie pela porta dos Sacramen- 
tosjpara a receber logo por íua muy querida efpoia ; porq 
lhe comunicou logo tantodeíuagraça,que íua vida não 
era de Neófita, & de quem começava a ícrvir a Deos ; mas 
de Chriítã muy antiga , & de muy ta pcrfeyçaõ em toda a 
virtude. Muy humilde , muy retiradajmuy compoífa em 
luas acções , muy to dada à oraçaó , muy empenhada no q 
era do ferviço de Deos , & muy frequente no uío dos Sa- 
cramentos. Em fim todos os Chriílãosa refpcytavaò, & 
veneravão naquella pouca idade húa grande períeyçam: 
atò os mefmos Padres a tinhão por efpelho, & excplur das 
virtudes Chriífãs. Porém o que fe devia eíHmar niaisem 
Lufia,era o que não aparecia/a laber o grande defejo , que 
tinha de dar a vida por feu Divino Eipofo. Por eíb rafam 
quando na Corte corria mais defenfreada a perfeguiçam, 
então elia frequentava a Igreja. Mas vendo como a naó 
prcndiaó,deíejava oíFcceríe aos Juizes: & o fizera , íè nam 
receara de poder fer caufa de algú mal temporal â cafa de 
íeu cunhado Joaquim. Determinada pois a morrer por 
Chriílo 5 fugio da Corte de Sinoa para a de Cachão : onde 

íe 



REYNO DA COCHINCHINA. 535 

fc podia declarar aos Mandarins por Cliriílãjfem vir mal a 
ninguém. Acomcteoíòaquella viagem de três dias apèj 
defcalfa , & por caminhos afperos , tugindo dos mais fre- 
quentadosjpara naó íer defcuberta : de chegou a Cachaó? 
quando os doze Confeííorcs de Chriiro hiáo andando pa« 
ra o arearem que morrendo haviaó de vencer. Acompa-^ 
nhovos m uy íentida de naó ter chegado a tépo 5 para po^ 
der comelles confeíTarno Tribunal a Chriílo, écjunta- 
mente morrer por não querer largar a Ley de Deos. Co« 
mo pois eíHveíTe táo abrafada do divino amor , que a leva- 
va a dar a vida pela honra de feu divino Eípofo , naó teve 
medo dos foldados armados, naó fez caio do Mandarim» 
Prefidente,defprezou o pavor? que metião todos aquellcs 
feroles Elefantes :& entrando por aquelles miniftrosda 
injuftiça 5 & da crueldade 5 fe chegou aos pós do menino 
Raphaeljôc lançada no chão lhos quiz beijar : como diíTe- 
mos. O que fez por duas rafóes como cila mcfma contou 
depois. A primeyra para fazer aquelle devido obfequio a 
quemj morria por Jesv Chrifto. A fegunda para fe coníeí- 
íar Chriftã publicamente , & publica dcfprezadora dos e- 
didtos reaes; pelo que efpcrava, q o Mandarim a mandaíTe 
matar logo : para vingar a publica aíFronta feyta por cila a 
ElRey feu Senhor. Mas não era aquelle o dia 5 em q Deos 
queria aceitar a vida de Luíia cm facrificio:foy logo lança- 
da fora pelos foldados 5 fem lhe fazerem mal. Executada 
p©ís a fen tença de morte nos doze gloriofos Defen fores 
da Fè: &c voltados os foldados com o Mandarim para feus 
quartéis: chegou- fe Luíia aos corpos dos dous meninos 
Raphael 5 & Eftevaó conhecidos delia na Corte de Sinoa: 
6c lião íe fartava de beijar aquellas feridas 5 as quaes lavava 
com fuás lagrimas , & có feus abrafados fufpiros, & gemi- 
dos hia derretendo aquelle viétoriofo íanguejà congela* 
do ; para ficar ella ao menos enfangoentada, vifto não ter 
mcrccidojficar morta com ellcs. Eftava prcfente também 
acílefegundo cfpeólaculo húa Senhorajapoa por nome 

Tt iiij Izabei 



534 BREVES NOTICIAS DO 
Izabel Martins à qual devem muytas obrigações àsChrif- 
tandades da Cochinchina, aílim pelo feu grande zelo , & 
piedade5Como também pelo agaíalhojque dava aos Padres 
em fuás caías em tempo de perfcguiçóes , expondo a cvi-» 
dente riíco feus bens^ieus íilhos5& a própria vida.Pelo q o 
Padre vifitador das Provincias de Japaó , & China íe deu 
por obrigado a fazer publica demonílraçamdegratidam 
religíofa , & foy: mandalhe húa carta de Irmandade , pela 
qual aí afia participante de todos os merecimentos,& fuf- 
fragios da Companhia nas ditas Provincias. O meímo fez 
a hum Japaó por nome Francifco Xirubedono, grande 
bem iey tor dos Miílionaríos da Companhia? coníervan- 
do íempre o amor aos Padres pelos bons enfinos 5 que ti- 
nha recebido delles no Japaó no Seminário de Nangaía- 
quijonde fe criara. Laftimando-fe pois efta Matrona do fé- 
tinientOjôc choro de Lufiajchegoufe a ella,& lhe pregun- 
tou: quem era 5 & porque chorava. Refpondeo o q temos 
relatiidojdesfazendo-fe toda em lagrimaSíÔc gemidos,cha- 
niando-fe indigna5& deígraçada ; por naó morrer com os 
dous meninos pela confiOaó da divina Iey. Chorou tam- 
bém aqueila íenhora por devaçaó, vendo tão grandes de- 
fcjos de morrer em húa menina na íior de feus an nos. Mas 
confoloua dizcndolhe : que fe Deos o efcolhèra para tam 
grande honra 3 elle lhe buícaria os meyos para a alcançar. 
Naó fe apartou Lufia daquelles veneráveis corpos jatè 
não ficarem enterrados naquelle areal : donde fe foy para 
Faifò em bufca dos Padres 5 & com capa de pobre teve li- 
cença das guardas,para entrar.& pedir efmola àquelles et 
trangcyros Portuguezes. Vifitados os Padres,pedio ao Pa- 
dre Domingos Fucitijque a bautizàraja quizeífe ouvir de 
côíií]aó;& depois lhe diííe: Pay de minha alma ? eu venho 
da Corte determinada a me oíFereceraos Mandarins 5 & 
morrer pela Santa Fé. Reparando o Padre na generofa re- 
foluçaódcLufiajquenaquella idade parecia fer de Deos: 
& fentindo em fy húa grande alegriajlhe difle:Fií ha eu bé. 

conheço 



REYNO DA COCHINCHINA. 595^ 
conheço que Deosvostem eícolhida para eíbelho" dei hj 
Chriílandade, & para confundir aos genírios , &aos mãos 
ChriMos. Então Luíia como íicaíle jà certa do Martyrio, 
com íimplicidade innoccnte, & íanta confiança óq filha 
para com feu Pay diíle: veja voíTa Reverenciaííe quer que 
cu lhe deixe algúa coufa para minha lembrança. Reípon- 
d.eoo Padrejnão cuidaíle niíTo ; porque fe Deos lhe fizeí]e 
rnercè de morrer pela fua fantaleyjellebuícaria aquelle 
feu roupão. Efíâva prcfente a cila fala o Reverendo Padre 
Frey Bernardo de Jesv Francifcanojjà nomeado, & prezo 
tilli com os mais Padres: & como as mulheres Cochinchi- 
iias trouxcílem os cabellos foltoSíôc compridos mais abai- 
xo dos joelhos : citando Lufia converfando de Deos com 
o Padre : teve lugar de lhe cortar com tcfoura às efcondi- 
das algúas pontas dos cabellos (os quaes obraváo depois 
inuytas maravílhasjcomo âííirmava o mcfmo Religiofo.) 
Defpedio-íe Lufia dos Padres , pcdindolhes a encomêdaí- 
fem a Deos : & tcdo noticias dos quatro prezos cm Qnág 
Nghia,que chegarião cada hora a Faífò, os teve efperãdo; 
para ir com clles a Cachão 5 & morrer com elles por Jesv 
Chriílio. Pelo que logo que aportâraó,os foy vifitarjêc àeÇ-j 
cobrio a Thomè Tín os dcfejos 5 que ella tinha de fe ofFe- 
xecer com clles quatro aos Mandarins. Animoua Thomè 
para a cmprcza de tanta gloria de Deos : & a levou comfi- 

§0 na mcfraa embarcação para Cacháo,dizendo aos folda^ 
es: que era fua filha. Gomo naquelle dia dos finco de Fer 
yerciro não ouveíTc Tribunal , efperàráo todos quatro atò 
o dia depois para ferem aprefentados aos Juizes. Gaftoii 
Eufiatodaaquella noytc em oração debruçada no cham 
com os braços cftendidos 5 pcjdindo com lagrimas , &gc- 
rpidos a Dcosjhc não ncgalle a mercê de morrer pela có- 
^aó de feu fanto nomcjôc guarda de íua divina Icy. Logo 
guc amanhcceo,cncaminhou-fe para a cafa da Audiência: 
& cncontrando-fe no caminho com a viuva Marinha, có- 

S3,uniçou húaaoutra-QS intentos, que cada hiia levava de 
^>.. Uu íc 



556 BREVES NOTÍCIAS DO 

íe oíFcrecer aos tyranos : confeíinndo a leyjque guardava; 
para que a niandaííeni lançar aos Elefantes. Naó cabia af- 
lim húa, como outra em íy de alegria , por ter achado có- 
panheira : & ambas foraó andando niuy contentes para a- 
quellc Tribunal da crueldade. 

Todos os gentios , que para feus negócios ficavaó efpe- 
rando5que íe abriííe a porta para a audienciajreparàraó no 
grande contentamento? que as duas mulheres moftravaò 
em feus roílos muy alegres: & fabido pelo dito de Luíia o 
requerimento para que vinhaó , diffe hum daquelles foU 
dados idolatras : os que guardaó a ley dos Portuguezes fi- 
cáo loucos; pois não querem mais que morrer: fendo a vi- 
da a coufa mais preciofa ? que os homens tem nefte mun- 
do. Refpondeo logo Luíia pacatamente: Eu não eílou fo- 
ra de mi 3 nem perdi ojuizo ; antes nunca me vi mais em 
niijque hoje. Mas digame: quem ha nefte Reynojque não 
deíeje fer honrado cm vida,& na morte ? E por iílo todos 
ajuntaó dinheirojpara o gaftarem nos enterros. Se me cô- 
denarem à morte , acompanharmeha hunl Mandarim cò 
feus foi dados com catanas de punho de prata , &: de ouro: 
ik os Elefantes delRey faraó minha morte mais gloriofa: 
que não tireijfe eu morrer de doença. Pareceo a outro gê- 
tio , que Luíia falava por zombaria ? & lhe diíTe : Daqui à 
pouco te veremos no coníiiâo ; pois os Elefantes eílaó jà 
preftes. Ifíb hcjO que cu defejo , ôc venho bufcar ( refpon- 
deo Luíia) fe eu os temeílejnaó viria a eftc Tribunal , ferri 
ninguém me obrigar a aparecer.Quando os dentes dos E- 
Jeiantes paíTarem eftespeytos então me achàraó mais foc- 
cegada. Eu não aborreço , antes tenho amor àquellas bef- 
ftas íeras;porque hão de fer ínftrumentos de minha gran- 
de gloria. Ficou atalhada a pratica de Luíia com a ordem, 
que íahio de dentrojmandada pelos Juizes jà juntos , para 
cntrarrem os quatro prezos de Quang Nghia Qiiiz Luíia 
entrar também com os mais ; porem os porteyros lhe im- 
pedirão a entradajdizendolhe: que era loucura? fendo ellá 

tão 



REYNO DA COCHÍNCHINA. 357 

tão menirja,6c tão terniofa querer morrer por força. Mas 
ella íorrindo-íejlhcs diíTe: que elles erão os Ioucos;porque 
na íua morte os homens os havião dedefemparar , & fo- 
mente os demónios lhes aíllítiríão 5 para levarem fuás al- 
mas ao inferno. Porém ella morreria muy to hórada, por- 
que affifíida dos miniílros reaes : & os Anjos do Ceo leva- 
riáo feu cfpirito para ver? & gozar de Deos Creador do 
Ceo5& de todas as creaturas. Aílim o diire,& fez força pa- 
xá entrar : nem fe atreverão a lho prohibirem as guardas. 

Eítãdo pois os quatro prezos em fileira diante dos Má- 
darins 5 falou o Prefidente daquelle Tribunal muy fober- 
bo5& grande inimigo da Ley de Deos, ôc dííTe: Porque íé- 
dovoz Cochinchinas guardaesa Ley dos Portuguezes? 
-Thoraè Tiujque defejava muyto de ter algúa occaíiaójpa- 
Ta pregar a Ley de Deos em femelhante auditoriojtomou 
íogo a mão para refponder : Ôc depois de ter acabado com 
ias coftumadas cortefiasjôc tomada a vénia para falar 5 diíTe 
deíh maneira: Senhores? ElRey noílo Senhor entregou a 
voflas mercês o governo deílas Províncias do Suljpara co- 
•nhecerem da verdade das accufaçóesjcaftigarem os culpa- 
dos 5 & foi tarem os innocentes. Os no fios contra ri os nos 
4iccufió de guardarmos a ley dos Portuguezes. Convém 
-Jogo faber, que aííimcomo em todo hum Reyno náo po- 
4de haver mais que hum Rey ; de outra maneira tudo feria 
'tòní-ufaó: afiim também em todo efte univerfo não pode 
■haver mais que hum DeosjCreadorjSenhorjGovernador 
âe todas coufas;de outra forte não poderia haver tanto co- 
berto no curfo dos Planetassôc das Eftrellas : nem feria tão 
uniformente conftante a produção dos frutos da terra, íe 
Ouvefi^e muytos que governafi"em , & defpuíefi^em delia. 
3M:e pois único Senhor do Univerfo devia dar leys aos ho 
tnens: aílim como as taz ElRey para feus valfallos. A qual 
ley devia fer univerfal para tòdos;vifi:o efte Legislador fcr 
abfoluto Senhor de todos elles aílim como rs levs delRev 
faó para todos os de feu dgmínio. Logo eíla ley do Senhor 

Uuij do 



538 EPvEVES NOTÍCIAS DO 

do UnivciTo he univeríal,& não dos Portuguezes : como 
a chamáo os noíTos contrários com evidente ignorância. 
Pois nem os Portuguezes a fizeram , né íò el les aguardáo, 
&eníina6;porque também Padres Italianos, Francezcs,. 
& Japóes vindos a efte Reyno , a guardavão , & no la enfi- 
naváo. E poíl:o que fò os Portuguezes aprègaíTem , nem 
por iíFo íe deveria chamar ley dos Portuguezes; porque as 
ordens dos mayores não tomão o nome de quem as traz, 
mas de quem as manda : & nos chamamos mandado real^ 
o que o pagem de Palácio nos vem intimar. Mas pouco 
vay no nome, com que eíta ley univerfal fe haja de cha- 
livar: o que fe deve mais examinar, hcjfe ella hc a verdadei- 
ra: & niilo não ha duvida;porque em tudo he conforme à 
raíaója qual aprova as virtudes, & reprehêde os vicios. Ef- 
ta ley manda fe honrem os mayores , & prohibe os perju- 
rosjos adulteriosjos furtosjos falfos teftemunhos, & tudo 
o que injufcamente oííender a outrem, ou na vida , ou na 
honra , ou na fazenda , jâ por obra , feja por pak- 
vrajfeja por penfamento. Eíla ley naó íò he em tudo con- 
forme à rafaó;mas he ainda muyto mais perfey ta , que to- 
das as leys humanas ; porque não fomente ameaça caftigo 
aos quebrantadores , mas também premio aos obfervãtes: 
hum5& outro eterno. Eífa pois fenfcores hc a ley , que te- 
mos recebido , & guardamos. A eíta fala de Thomè Tia 
confirmada com vários textos de feus mefmos livros na6 
fouberaó dar repofta os Mandarins: ficando aíTim elles co- 
íTiO todo/aquelle grande auditório atónitos pela novidade 
da doutrina ? 6c convencidos da evidencia das rafócs. Re** 
parando õPrefidente como todos os circunílantesmofr 
travão aprovar o ajrezoado de Thomè, embravecido por» 
que envergonhado , mandou furiofo aos foldados defpit 
fcm a Thome os roupões ricos de feda , que traua vertido; 
pois não convinha, que apareceíTe com galas, qué era pre* 
fcntado como reo diante daquelletribuníil de juftiça.Ná 
foy difficultofa a execuçtó^porque o mstop Tbpii^è ajijil: 

dou 



'J.íJ ■-•■'' 



REYNO DA COCHINCHINA: 539 

dou aos foldados aos tirarem : ficando fomente com hum, 
que lhe cobria o corpo. Porém o que o tyrano faíia por 
grande affrontajO recebia Thomè por muyta honra ; pois 
le hia afiemelhando com Jesv Chriílo defpido até da inte- 
rior túnica no paço de Pilatos. Mandarão vir os Juizes hu- 
ma Imagem Sagradajôc ordenarão aos quatrojque a pizaf» 
fem. Dilícraó todos : queíc quizcíTem cometer aquelle 
tão enorme peccado , oteriãofcytojàna fua Provincia; 
mas que por grandes caítigos 5 & tormentos que 1 hes def- 
fem 5 não havião de fazer nem minimo dcfacato ao retra- 
to de feu Deos5& Salvador. 

A penas tinhaó os quatro generofosConfeíTores acaba- 
do de defenganar aos cruéis perfeguidores : quando as du- 
as mulheres Marinha5& Luíia fizeraó as corteiias , com as 
quaes le pede hcença para falar : ôc perguntadas pelos Jui- 
zesjque queriãojdiífc Lufia eftas percizas palavras:Senho» 
resjeu fou filha de Pedro Ki ? a quem ElRey mandou ma- 
tar na Corte de Sinoa por fer Chriílam. Defejci eu mor- 
rer com elle,mas naó quizerão os Mandarins contaminar 
fuás catanas com meu fangue; Agora venho com eíta có- 
panheira a eíla audiência 5 para oíferecermos noíTos cor- 
pos aos Elef antes,que nos ferviraó a ambas,q fomos Chri- 
ftãs 5 para irmos ver á Dcos no Ceo. Tal foy o elpanto , q 
deu em toda aquella multidão de Idolatras aíliílentesjquc 
ficàraó atónitos: & todos levantarão os olhos , para os po- 
rem em húa menina tão generofa. Reparando depois na 
íilegria 5 & contentamento , que Lufia moílrava no rofto 
rifonhojficàraó mais affombradosihuns a tiveraó por lou- 
ca outros julgarão fer mais que mulher : íò os Mandarins 
Juizes a acharão culpada : & fem outro exame lentencia- 
raó logo rque.os quatro homés morreíTem de golados 5 de 
gs duas^mulheres lançadas aos Elekntes. Dada a fentença 
de morte aos féis innocentesjderaó logo eíles as graças aos 
injuítpsjuizesy & depois os parabéns entre fy;por rcré to- 
dos alcançado o defpacho â medida feus defejos. 

'"3 Uuiij Erâo 



^4ô BREVES NOTICIAS DO 

Eraó as nove da maohá do dia féis de Fevereyro de mil 
féis centos feílenta,5<: finco: quando cíb manga de alen ca- 
tados foldados de Chnílo acompanhados da cofriimada 
guarda começou a marchar para o campo do areal , aonde 
íette dias antes tinhaò pelejado esforçadaméte, Ôc glorio- 
íiimente vencido os doze acima nomeados. Acudio logo 
grande multidão de infieisjpara veremje eíles féis teriam 
também a mefma confl:ãcia5& alegria 5 que os doze tínháo 
fempre moftrado atè à morte. Hião diante os quatro ho- 
mens , dos quaes Thomè Tin Catequifta occupara o pri- 
iiieyro lugar , como Capitão daquella efquadra , fendo de 
feflenta & três annos de idade. Seguiam no Domingos de 
fefieiíta & fincojBento de fmcoenta, & outro Thomè de 
vinte &z oito annos : todos quatro com canga ao pefcoço, 
i&atrâz de cada hum o foldado , que o havia de matar. Na 
retaguarda íicavaô as duas mulheres Marinha 5 & Luíia fé 
cangas , & foltas : & no cabo vinha o Mandarim executor 
da fentença5a quem feguiaó muytos Elefantes.Começou 
logo o pregoeiro a gritar dizendo: como ElRey mandava 
matarjaos que guardavaóa ley dos Portuguezes. Eíle pre- 
gão deícontentou muytoaThomè Tinj&oíFereceo húas 
moedas de valor de húa patacajôc meya a quem o lançava> 
pedindoíhe, quizeífe apregoar dcíla maneira : ElRey ma- 
da matar , aos que guardáo a Lcy do Senhor do Ceo , & da 
t^fra". Veyo o foldado no que Thomè lhe pedio : de ficou 
eíle tão confoladojque pofto que velhojcom poucos den- 
tes v& muy fraco de compreiçaó , 'com tudo levantando 
muyto alto a voz, reípondia fempre: Si Senhor. Por todo 
o caminho de quafi meya Icgoa Thomè Tin , Domingos] 
í^ BentOjforaò pregando a Ley de Deos: ôcThomè o mot 
Ç0 foy cantando cantigas efpirituaes. Marinha , ôcLufia] 
por lerem mulheresjhião calladas; mas com paífo-apreíla- 
do. Todos íeis andavaó tão contentes , que parecia aos In* 
fieisíque as mulheres iriaó para as bodas ? & os homés para 



alsúâ recreação. - -^^ ^ * 



'-\'-i 



Chega- 



REYNO DA COCHINCHINA. 34E 
Chegados ao areal: f oraó logo apartados os homens das 
niulheressíicando diante deílas os Elefantes para lhes rhe- 
terem mayor medo5& pavor. Mas como todos féis anelalr 
fem a morrer por leu Deos : nem os Alfanges defembai- 
nhadosjnem os Elefantes embravecidos lhes eanfavaó te- 
mor;antes lhes hiáo crecendo mais as efperanças do galar- 
dão da vida eterna no Ceo à vifta dos inftrumentosjcom q 
lhes darião morte na terra. Thomè Tin chamou à parte a 
hum feu íilho5&: lhe mandou,quc da fazenda , que deixa- 
vajfizeíTe taes5& taes efmoias;porque di via tornar a Deos, 
o que de Deos recebera. Lufia fez aceno a huma mulher 
Chriílã para que fe chegaíleâclla: Ôcdifpindo o roupão 
exterior 5 lho entregou para o levar ao Padre Domingos 
Fuciti. Eífa fortaleza com tanta alegria tinha atónitos, & 
pafmados a todos os circunílantes Idolatras : nem deixa- 
vaó de entendei^, fera ley dosChriftãosmuy verdadeyra; 
pois fafia perder o medo táo natural aos tormentos 5 &c k 
mefma morte. Reparando Thomè Tin como eílava tudo 
preftes para ferem degoladosjlevantou a voz quâto pôde, 
êc diíFe : q defejava ter mil pefcoços , para os ofFerecer to- 
dos à catana pela ley5& amor de leu Deosjôc Salvador.Fez 

Ipgo o Mandarim píinal 3 & todos quatro forró degola- 
dos. ■-''-" ■■:in^-ic^i^r:u'.í ?:,,:~:fe-;ír-H>>'.., ^ 

Ao facrificiòdbsníánfós cordeiros fuccedeò a óm 
das Pombas innocentes. Vendo pois o bárbaro, & facrile- 
go Mandarimjcomo todo aquelle táo copiofo fangue dos 
quatro degolados não bailava para quebrantar, nem ainda 
para abrandar a conílancia das duas mulheres MarinhajÔc 
Luíia mais fortes que diamantesicheo de furor mandou,q 
dous Elefantes às acometeíIèm3& as mataíTem lançando- 
as ao ar;para que a morte foíle tanto mais cruel quato me* 
nos apreíTada. Logo que as Efpofas de Jesv Chriílo viram 
vir os Elefantesjfe poferaó de joelhos , & fc perfinàraó có 
a fantâ Cruz, efperando intrépida 5 & alegremente por a- 
■quellas beítas fcrofcs 3 que lhes haviao de fer vir dt carros 
^'' Uuiiij triuí> 



^^ ^^^_^^^%%S NOTICIAS DO 
jripi>:faDJ^s;5para íiJâs almas entraram vencedoras no Çco, 
&jf ppçbemxi dp ípu Divino Efpoío a çQ^oado Martyrío. 
Lufia porèm dava iiaayores íinaes de cootentaraeiíto : jà 
abria os braços: jà os eírcndía ? batendo as palmas das mãos 
]Ê;YantadaflS.Goni os olhos so Ceo: mofírado o grande crofto 
com que morriajd: o grande premio , que no Ceo a eípe- 
rava. Ênveuio hum Klcfantc com Marinha: & levando-a 
|i0S dentes a lançou ao ar; mas como foílcde muyta ida- 
de.>5 ;&: muyto fraca 5 cahindo o corpo no chão , voou logo 
íua aima-para o Ceo.. Porem Luíia húas & duas vezes lan- 
çada aoar^cahio jcmpre viva 5 & vigorofa. Envergonhada 
^pvucl beira de não ter morto cm oous arremcços aquella 
, tenra meninada terceira vez a lançou muyto mais alto, 6c 
j^çyp cahir íobre o Nayre morta jà ; porque feu efpirito a- 
çhajado-fe mais pgKQ dp ÇeOjtinh^ là,cnfça^^^ yi^toriofo, 
&.triunfante. ,: -. ^om)'^^"^ ^ ->^ ■ -^^ f-':j\ ■• ' ' ■ - 
$:■ >^ttB^:^f^^^ agora ôs Cbriftâos de Europa criados defdo 
berço ao^pqy tos da Fé: quando lerem 5 que Luíia filha de 
píiys idolíitras bautizadâ adulta, & crecida entre oseípi- 
i>|ios dos niaos coftumcs dos inficisjfora tão obíervante da 
4íyin9. ley,tão deíapegada das coufas do mundo , tão aíFei- 
ço^cia aos bens do Çeo , &.tão amante de fcu Redemptor: 
que fò para o imitar nas penas, de fua livre vontade , & na 
flor de fei^sannos fe foyoftcrecerà morte ? Qual çícufa 
daràójos que quebrantarem os divinos preceitos , para fe? 
iiaó moftrarem tpenòs obfervantes dgsleys dp mundo:& 
p:4ríi náo padecerem algíía f\lta no regalo de feus.corposj 
giatão fvk];s,aimas çom peççados? Quaes affrontas,& quaes 
tpfrii^.iUos-nãp cfcolheraLufia , por não oíFender a Deosr 
igríàpqr J|i^ dar gpfto,quiz perder a vida affrõto,fa> ôccru? 
^Jí^ientc-t^eui mais as Senhorasjcm particular as .donzcU 
|a^yl7uai;p;Ííi^i;^o efpelho em Lgíia, para verenias fal.^ 
jde fuás almas: &: eme n da ks,t irando í eus affeólosdâs crq^r 
fjLi'f.as,&::; pondo-os em Jesy Chriftp: ,cuja fermofura he ivh 
fiiiita:cujas riqueiias faóinimenías:. cuja nobreza he divij 

:^-A^rr ' nà: 



REYNO DA COCHINCHINA. 345 

na: & he Elpofojque nunca morre. 

Mas tornemos ao arcai , para vermos outra peleja porê 
devota entre os ChriíKios. Alcançada jà avicloria contra 
a Idolatria pelos íeis esforçados Def enfores da Fe , acudi- 
rão logo os Neófitos a tomar os dcfpojos não dos vécidos, 
mas dos vencedores para ília devaçaÓ5& patrocínio. Che- 
gou pois a taes extremos aquella fanta cobiça, que có cru- 
eldade piadofa cortarão atè os dedos daquelles veneráveis 
corposjpara q ficâíTem por índices , atè onde devia de che- 
gar a conílancia dos que profeííãó a Ley de Deos. Hum 
Chriíiáo levou hú deíèes dedos aoPadreDomínCTosFucítí: 
o qual aíiirmoujque depois de fette mefes ficava ainda taó 
frefco na pellcjna cov^dc no cheíro,q não parecia de peíToa 
morta ; mas de quem vivia ainda. O que ficou dos corpos? 
foy enterrado naquelle areal; para depois fe tresladar para 
lugares mais decentes. 

Naó he bem ? que fique em efquecímento aquella Fi- 
dalga Bà Maria , que por naó querer pizar a Sagrada íma- 
gemjfora fechada por lèntença delRey em hum apozcn- 
tojpara allí morrer a fome,& fede. Cuidavão todos 5 q ella 
aílim por ter muyta idade 5 contando jà os fetenta 6c oito 
annos : como também por fer de compreiçam muy deli- 
cada: ou morreria logo» ou logo fe renderia à vontade del- 
Rey ; para não padecer aquella morte tanto mais molefta 
quanto mais vagarofa. Porém aííim o cuidavaó os Idola- 
trasjpor ignorarem o divino poder 5 que fc do nada creou 
o CCO5& a tcrra,muyto mais lhe era facíl 5 follentar viva a 
húa mulher. Reparando logo os parentes deita verdadei- 
ra fidalgajporque primorofa para com Deos:como depois 
de quatro dias de prízaó nem era morta , nem pedia algúa 
coufa para fuftento da vida : movidos de húa compaixam 
neftas círcunílancías muyto crue^falàraó aos juizes; para 
que a mãdafsé íahir, & vir à audíécía: & fe ella não quízef- 
fe pifar a Imagé de fua livre vontade;elles lha fariaó pizar 
por força. Tirada pois a fidalga daquella efcura camarada 

Xx morte 



143 



BREVES NOTICIAS DO 
morte 5 foy levada -ao Tribunal aos ícttc de Fevereyrodo 
niefmo anno de mil &íeis centos & ícíTenta 5 & cinco : & 
Jhe foy outra vex intimada a ordem real de pizar aíniagé. 
Refpondco com grande anin^03& refoluçaó : que não fV 
ria tão horrendo pcccado : & que efcoJhia antes a morte 
innocentCjque a vida cuIpada.Então os parentes,que erão 
iníieisja tomàraó por força nos braços, & a puzeraó fobrc 
a Imagem eílendida no chão. Bailou ifto , para os Juizes a 
livrarem da prizaójdizendo: que tinha jà obedecidoàs or- 
dens reaes: para deíla maneira darem gofto aos parentes da 
fidalga, peíToas da primeyra nobreza. Viveoeífa fenhora 
ospoucosannosjquelhereftavaój com grande exemplo 
de virtude: & morreo com muytos merecimétos da eter- 



na gloria. 



CAPITULO XXX.I 



Çeneroía morte de três Omjlaos, Çloriofojuccejfoj que outros tiverm\ 
pornao quererem fij ar a Sagrada Imagem. E magnânimo 



^elo de huma menina. 




UIDAVAM os inimigos dejesv Chrif- 
tOjquetodaaconftancia, que os Neófitos 
feus naturaes moftravaó , em naó quereré 
largar a ley dos Portuguezes 5 lhes proce- 
dia daaífiftenciados Padres,quecomo Ca» 
pitães na milícia Chriílá os animavaó , ôc 
esforça vaó. Ou como outros mais ignorantes difiaó , que 
com fey ticos os fafiaó enlouquecer, para perderem o me- 
do aos tormentosjôc à mefma morte. Para efte deíengano 
permitio Dcos ■> que depois da partida de todos os Padres 
Miílioiiarios degradados para Siaó, foíTem prezos quator- 
zeChriílãos em húa Aldeã vefinhaà Corte de Sinoa, pe- 
los acharem rezando as orações de noílà fanta I ey. Leva- 
dos à Cortej& prefentados diante do Juiz>confefsâraó to- 
dos 



REYNO DA COCHINCHINA. 544 

dos com grande animo ferem Chriílãos : ôc cò mayor re- 
foluçaóproteífàraójquequeriaó morrer pela guardada 
Ley de jesv Chriílo. Poreíhtãogeneroíaj&glorioíacon- 
liílàó ficàraó prezos no tronco^atè íe dar parte a ElRey,& 
determinar elle o caíligo , que merecefíem. Quando eítes 
quatorzc foraó prezos na A^ldea? faltaváo nclla três mora- 
doresjcujos nomes eraõ: Pedro, Andrej^: Lino, per anda» 
remoccupados na lavoura daquelles campos. Voltando 
porém â noyte para íuas cafas , foubèraó da vinda dos fol- 
dadoSíÔc da prizaó que íizcraó:fentiraó muyto todos três, 
naó íe acharem a ella prefentes;porque ficavaó perdendo 
a coroa do Martyrio. Confultando todos três entre íi, o q 
fariaòjdetcrminàraó de irem à Corteja fe oíFerecerem ao 
mefmo Juiz: para que nem eíte àifíhííe') nem outrem cui- 
daíTe , que íe auíentàraó de fuás cafas 5 por medo de ferem 
prezosjôc caftigados? por guardarem a Ley de Deos. Che- 
gados a cafa do Juiz , pedirão logo audiência : & diante de 
muytos miniítros de Juftiça diííèraó: como elles eraó tam 
bem Chriftáos da mefma Aldeã? & que defejavão dar jun» 
tamentea vidajpor crerem, & adorarem a Jesv Chrifto fi- 
lho de Deos , & Redemptor do mundo. Ficou atónito o 
Mandarim Juiz,&: todos os circunftantes pafmados , ou- 
vindo tal petiçaó,&: vendo tão grande animo em homens 
criados no retiro dos campos. Nem foube o Mandarim, 
que dizer perturbado jà : gritou fomente às guardas , para 
que prendeífem,amarraílem,6c levaíTem para o cárcere a- 
quelles atrevidos,&: contumazes às ordens de íeu Rey , & 
Senhor. Reparando porém depois no fucceílojteveíiepor 
obrigado a íazer5que todos três voltaílem para o culto dos 
deoícs;porque julgoujque a afíronta , que elJc tinha rece- 
bido dos três com aquella publica cófiífaó da ley dos Por- 
tuguezes,mofl:rando naó terem medo de feus caftigos:en- 
táo ficaria vingada 5 quando vencidos todos três do temor 
de fuás ameaças largaíTem a ley que tinhaó confeífado : & 
piza/Tem a Imagemjque tinhaó adorado. Pelo que diffejôc 

Xx ij tez 



345 BREVES NOTÍCIAS DO 

fez quanto pôde , para os amedrentar. Mas não ha poder 
em todas as creaturas , que poíla abalar hum coração cheo 
de Deos. Refpódião fempre os alétados Toldados de Chri- 
ílo: que antes paíFarião por todos os tormentos, & dariam 
mil. vidaSíque pizarem húa fò vez a Imagem de feu Deos> 
& Salvador. Quanto menos caio faíiaó os fervos de Deos 
das ameaças do facrilego Juiz: tanto mais efte fe enchia de 
raiva5& de furor. Vendo finalmente que perdia o tempo, 
l^mbravecido mais que fera levou fomente eíles três à au- 
diência diante delReyjinformando-o como eraó Chriítã- 
osnemqueriaó largar a ley dos Portuguezes. DiíTelogo 
ElRey: Morraó. Receberão os innocentesa injufta fen- 
tença de mortcjcomo a mayor mercê que ElRey lhes po- 
dia fizer, moftrando-o com as coftumadas corteíias de a- 
gradecimentos: & ficarão muy alegres?porque foraó tam- 
bém delpachados: & fahiraó para o lugar>aonde haviaó de 
facrificar fuás vidas a feu Creador. 

O Principe herdeiro foubedeftamortandader&defejã- 
do provar o fio de húa Nanghinata ( he o alfange, que tê 
por punho húa haíte comprida fette palmos pouco mais, 
ou menos) chamou a hum feu pagem por nome Hien, & 
niandoulhe levar aquella arma com ordem ao Mandarim 
executor da fentença , para cortar có ella aquellas três ca- 
beças dos Chriftãos. Mas como o Mandarim refpondcíTe, 
que todos três deviaó fer cortados vivos em pedaços;nam 
teve círeyto a ordem , nem houve lugar para a experiên- 
cia; porém o pagemjque era gentio , quiz verjcomo fe ha- 
veriaó os Chriílãos naquella morte tão cruel , & tormen- 
tofa. Foraó poítos os três em feus lugaresjficando hú atras 
do outro 5 6c cada hum amarrado em paos cruzados como 
a afpa de Santo André. Aqui fizeraó os generofos ConfeC- 
fores de Ciiriílo grande oílentaçaó de lua Fè , moftrando 
grandiílima alegria, por morrerem crucificados por feu 
Deosjque por elles morrera em húa Cruz : & em quanto 
cíles hião '4nimando5& esforçando os Chriítáos ? que efta- 

v^o 



REYNO DA COCHÍNCHINA. 346 

vaó prerentes;para que foíTem confiantes n 1 confiíiió do 
nome de Deos , & obfervantes de íua divina ley : os inhu- 
manos 5 & cruéis verdugos lhes hiam com facas cortando 
primcyro os pèsjdcpoís as mãos, & ultimamente a cabeça 
a hum por humscomeçãdo do que efrava diante, para me- 
ter medojaos que fe íeguiaó,& eítavaó vendo aquella cru- 
eldade mais fera que as das mefmas feras. Porém os bárba- 
ros fe achàraó enganados ; porque à vifta daquella carnifi- 
cina do primeyro não íòmentc naó amedrontou aos có- 
panheirosjmas os esforçou ainda? de lhes caufou íanta en- 
veja de levar elle primeyro a coroa do Martyrio. Foy tal a 
fortaleza 5 & tanta a alegria , com que eftes três generofos 
foldados de Chrifto deraó a vida pela confiíTaó da Fè , que 
o pagem do Principc , moço de grandes forças , & naó de 
menor animojulgoujquelhes aíiiftia poder fuperior a to- 
dos os esforços da natureza;pelo que fe converteo a Deos, 
& recebeo o Santo Bautifmo com nome de Domingos:& 
aífim o afiirmou depois ao Padre Jofeph Candone, quãdo 
cfte lhe perguntou pela rafaó , que o movera a largar o gé- 
tiIifmo,& íe fazer Chriftão. 

Para cabal noticia dcftegloriofo triunfo da Fé, faltaó às 
idades deftes três vencedoresjôc também o dia^meZíSí an- 
nojcm que alcançarão tão infigne viâoria. Defcuido foy 
cíle de quem fez os primeyros apontamentos, pondo eftc 
memorável cafo entre os fucceííbs defdeo Nov^embro de 
mil & féis centos feíTenta & féis 5 até o fim de Settembro 
de mil & féis centos & feíTenta & fete annos , fem dar ou- 
tras particulares noticias. Porém muyto mais culpado fi- 
ca o Padre Jofeph Candone; porque tendo elle tresladado 
as preciofas rcliquias deites três ConfeíTores , & Martyres 
do Senhor,& collocado cada corpo em lugar diítinto com 
fua lamina de chúbo, em que ficaó abertas todas eftas par» 
ticularidades para lembranças aos vendouros ; com tudo, 
ou naó deixou fora memoria dellasjou lhe cfquece ainda» 
onde aguardara. Mas o pio Leytor levara com paciência 

Xxiíj dbís 



347 BREVES NOTICIAS DO 

eílas faltas ; pois eílà lendo , como eftcs fervoroíos Neófi- 
tos com a paciência alcançarão a victoria na terra, Ôc o tri- 
uníonoCeo. 

A exhortaçãojque os três côpanheiros em quanto erão 
cortados empedaços íizerão aos Chríílãos preíentes cau- 
ÍOLi ao Mandarim aííiífente grande ira, & furor. Pois quá- 
do íeu Rey com mortes tam cruéis pretendia meter mc- 
do;aos que tinhão a ley dos Portuguezesjcntão ficavão el- 
les mais alentados para aguardarem. Pelo que logo q exe- 
cutou a íentençade morte nos três Martyriz-ados: deu or- 
dem aos foldados , para prenderem a quãtos Chriftãos co- 
iiheceílem entre aquella multidão,que alli eílava prefen- 
te. Os conhecidos torão feílenta & quatro entre homens? 
ôr mulheres: & todos foráo levados para o cárcere. Depo- 
is de quatro dias de prizão mandou-os vir todos diante de 
ÍÍ5& lhes mádou pizar a Imagem 5 q era de Chriíto Cruci- 
íicao: renão;morrerião todos cruelmente.AíIim como hú 
impetuolo vento apaga logo as luzes menores , ôc faz cre- 
cer mais as das grandes chamas : aíiim ns furiofas ameaças 
do Mandarim facilmente apagarão com o temor a pouca 
fè dos fracos Chriílãos 5 & fizeram acender mais a muyta 
dos fortes , & fervorofos. De toda aquella multidamfò 
quatorze:íinco horacns5& nove mulheresjabraíados com 
mayores chamas de defejos de padecerem por fesv Chrif- 
to náo fò naó quizeraó pòr os pès fobre a Imagem de feu 
Redemptor ; mas fe oíferecèraó ainda a todo o género de, 
tormentos, & de mortes , para fe não afaftarem da guarda 
da divina ley. Levou o facriíego Mandarim a deteílavel 
fraqueza dos lincoenta cahidos , de reprehendeo a louvá- 
vel coníiancia dos quatorze mantenedores da Fê. Mãdou 
depois foltar aquelles,^ levar eftes ao cárcere , aonde fica- 
vão prezos os outros quatorze da Aldca de Pedro André, 
& Linojcomo diílemos: ameaçando a todos de querer ellc 
inventar novos tormentos5& novas mortes, para caífigar 
iielles a tão grande conturnaciajôc ouíadia cótra íeu Rey, 



REYNO DA COCHINCHINA, 348 
& contra fua ley. Sahiraó daquella audiência livres os cul- 
pados,& rcos os innoccntcs. Mas quam juíro, & quam ri- 
gorofoccnforhe apropria conciencia. Pois reprehende, 
&atanazao coração entre os louvores, & regalos com a 
lembrança do mal cometido : & pelo cótrario entre as af- 
f rontas 3 & tormentos o louva •> 6c íocega cora a memoria 
do bem obrado. Os infelices apoílatas voltavão para fuás 
cafas muyto triftesjpofto que feguros da vida:& os ditofos 
ConfeíTores hiáo andando muy alegres para o cárcere có- 
dcnadosjàâ morte. 

PaíTados féis dias f oráo levados eftes vinte & oito pre- 
gos para hum campo5no qual eílavaó abertas vinte & oito 
covas grandcSíSc muyto fundas. Mandou entaó o bárbaro 
Mandarim a todos? que deixaíTem a ley dos Portuguezes; 
por aílim o quer 3 & ordenar feu Rey , & Senhor : & fou- 
beírem,que morreria enterrado vivo 3 quem fe atreveíTe a 
náo dar logo à execução aquella ordem real. Riraó-fe os 
esforçados foldados do Salvador das ameaças ; porque cf- 
peravaÓ5& fufpiravaó por muyto mais crueisjôc mais pro- 
longadas mortes. Ficou o tyrano admirado de tão grande 
cóftancia3&: muy fentido de os não poder redufir por me- 
do a largarem a ley dos Chriílãos. Mas como todo feu em- 
penho eftiveílc , em fahir daquella peleja com a gloria de 
vêccdor3pedio aos Chriílãos prezos, que ao menos diílef- 
fem fomente com a bocca 3 que não guardarião mais a ley 
dos Portuguczes. Zombarão defta petição os confiantes 
Confeífores5& a dcfpachàraó com refpondcrem:que crão 
Chriílãos 3 & Chriílãos querião morrer. Dcfcípcrando jà 
o Mandarim3diírc aos foldados. Soltai eífes loucos 3 & dei- 
xaios ir,para fc curarem cm fuás cafas. E virando as coílas, 
com vcrgonhofa fugida íe recolhco para as fuás moradas. 

Toda a multidão de infieis3 que tinha concorrido a eíle 
efpeâaculo ; por fer novo na Cochinchina o caftígo das 
covas : ficava atónita de ver tanta alegria nos vinte & oito 
entre homensjôc mulheres em quanto o Mandarim tyra- 

Xxiiij no 



549 BREVES NOTÍCIAS DO 

no com grancks iras lhes ameaçava tornientosjôc mortes. 
Porém augmcntouíc m uy to mais o aíTombro : quãdo foy 
reparando no grande íentimento, q todos os prezos moí- 
travâo,& nas copiofas lagrimâs,qiic derramavaó , em quã- 
to os foldados os hiáo foltando:& mandandoíque có vida, 
& jívres tornaílem para fuás caías. Que he ifto 5 diíião os I- 
dolâtrasjtanto goíio de morrer5& tãta pena de viver ! Qiic 
gente he cfrajquc tanto aborrece a vida,ôc bufca com tan- 
to empenho a morte! A vidajque por fer a coufa mais pre- 
ciofajhe tão amada de todos5atè dos animaes mais vis; pois 
cada hum com tão grande cuidado trata de fuaconferva- 
çaò: íb eftes a abominaó ! E a morte 5 que mete medo atè 
aos leões: & para os brutos fugirem delia lhes tem a natu- 
reza dado inílintos ? para conhecerem os paílos peçonhé- 
tos: fò eíles a defejão ! Eíles Chriftãos: ou tem falta de jui- 
ZO9& affim faó loucos : ou tem outras noticias fuperiores 
do Ceo 5 & por iíTo faó mais que homens. Com eíles pen- 
iamentoS) & difcurfos forão andando todos muy cófuxos, 
&: pafmados do qne vião. 

Correrão logo pelas Chriftandades veíinhas à Corte de 
Sinoâ as triíles novas dos íincoenta) que vencidos do me- 
do tinhão facrilegamête poílo feus pés na imagem do Sá- 
to Crucifixo. Sentiram muy to os bons? & fieis Chriíláos 
efta aífronta feyta a íeu Deosjôc Salvador , digna de tanto 
niayor fentimento? quãto mayor era a obrigação de o hó- 
rarerajos que tão gravemente o tinhaó offendido. Porém 
entre todos húa menina por nome Mónica zelou tanto a 
honra de fcu Senhor , que movida do Efpirito Santo lar- 
gou a fua aldea^veyoà CortCjcntrou na audiência do Mã- 
darimjque com fuás ameaças os fizera apoftatarjâc afpera- 
iTiCnte o reprchendeo;por ter fido caufa de tão grande dc- 
íacato do Creador do Ceo,da terra? & de todas as mais cre- 
aturas : & le oíFereceo ella a dar a vidajem lugar dos q por 
medo da morte tinhaó pizado a Imagem do Salvador do 
mundo. A eíb inefperada propofta feyta em prefença de 

mi- 



REYNO DA COCHÍNCHINA. 35-0 
miniíl"ros5& íbldados,ficou atonít05&: paímado o Manda^ 
rim;por fcr couía inauditaíque húa miilherjôc de aldea,& 
mcninajtiveíre atrevimento de c6rradizer5& miiyto mey 
nos rcprehendera hum Miniftro real,a quem atè os gran- 
des da Corte lhes tem -muyto refpeyto. Ibrnado depofeo 
Mandarim em íijdiílè à Mónica : Pois que morte queres? 
Kefporjdeo cila. A eicolha da morte fique à voíTa eleição: 
o padecclâ correra por minha conta. Embraveceo-íe co- 
ino tigre o Mandarimjvcndo-fe tão pouco temido: & má- 
dando vir logo brafas accfasjdeu ordem aos íoldados , que 
lhas chcgaíícm às coílasjpara a aíTarem viva : o que logo fc 
executou. Mas aquelle Senhor 5 que deu fentidos a huma 
cllatua de barrojoodia também tirar as dores de hum cor- 
po humano,ou ungilo com a luavcjôc poderofa unçaô de 
ícu Divino Efjpiritu 5 para não lentir os ardores do fogo. 
Eftavaó os verdugos aílbprãdo as brafas, & as chamas hião 
aílanciç a pelle , & fazédo chagas nas coftas; porém Móni- 
ca com roÍLO fempre alegre , & com o animo muy foccga- 
do. Parecia que diante de hum efpelho fe eílava compon- 
do 3 & não que a queimavão. Efta fortaleza caufou mayor 
furor ao Mandarim tyrano: &: para fenão retirar vencido, 
mandou avançar as brafas atè ó roílo ; para tétarjfe podião 
abrir nelle algúa brecha para lhe entrar a dor ; porque en- 
ferrando- fe todos os fentidos no rofto facilmente lhe cau- 
faria o fogo algum fentimento. Porém como a graça 5 & 
naõ a natureza fortalecia o animo de Mónica , nem virou 
cara? nem mudou femblante, occupada toda em pedir a 
Deos 3 a não deiemparaíTe naquelle cófliólo para gloria de 
de feu Divino Nome. Começarão logo os circunífantes 
Idolatras a fazer demoftraçóes de grande admiração : o q 
vendo o bárbaro Mandarim tcmeo-fe , que íe continuaíTc 
elle com a emprezajficaria a ley dos Chriífáos mais acredi- 
tadaj&elle muyto mais envergonhado 3 & confufo. Pelo 
que mandou afaftar as brafas dizendo que aquella moça 
era louca:affim a levaíTem ao cárcere, & alli lhe defsé húas 

Yy bebe-f 



^51 BREVES NOTICIAS DO 

bebcragens,para íe lhe aplacarem as clorcs3& lhe curaílèm 
as chagas. E^eípondeo encontinente Mónica : Não quero 
medicina algúa;porque fò meu Deos , & Redcmptor me 
íararà. E aííim íuccedeo: fem cura íicou íáj& valente conx 
grande aílombro de todos. Depois de alguns dias a foltà^» 
raò ; porque defefperáraó da vicloria > que ficou toda poc 
Monica,êr ella a deu toda a Chrifto feu Divino Eípoío. 

CAPITULO XXXIL tf 

O^erecem-fe hiíai don^llas a morte: &> o que 9títras padecem pdâmatl 

da dá Ley de Deos, 



iÇíQí 



"^àm 



ROVIDA naó ha duvida he a nature^^â© 



'^, ^^ ^^^ meter tanto medo nos coraçoens das 
l^m dózcllas; porque todo lhes he neceíTario» 
" 1| pí^ra defenderem o theíburo de íu^virgí- 
^ ^.^j^^ nal pureza. Porem quãto menos propor* 
^^^^^^^^^M^^ cionadasfaó ellas para emprezas árduas, 
tanto mais difpoítas ficaó , para Deosfcfervir deilas nos 
empenhos de fua mayor gloria : para que conhecendo-fc 
nos prodigiofos íucceílbs a aíFiílencia de feu omnipoten- 
te braçojfeja elle temido,reverenciado5& adorado có Au- 
thor de tão grandes 5 & cftupendas marevilhas. Efta foy a 
raíaósporque la na primitiva Igreja inípirou Deos a muy- 
tas raeninasjíe foíTem oiíerecer aos tormentos , & à mor- 
te: para que entendeflem os Idolatras a verdade denoíía 
fanta Religiaó;pois o temor natural da morte não fe ven- 
ce com foceg05& alegria;fe naó com o esforço fobrenatu- 
ral do CcojO qual naó obra prodigiosjpara enganar. Nam 
quíz Deos 3 que a Igreja de Cochinchina careceíle de tara 
evidente teítimunho da verdade da ley,que ella guardava: 
nem que lhe íaltaíle a honra de ter tambcm as íuas natu- 
raes por defenforas,& mantenedores de fua té. Conf ron- 
trmdo, pois as façanhas das dÓ2:ellas da primitiva Igreja c5 



REYNO DA COCHINCHINÁ. ^y^ 

as deftas da Cochinchinajna íemelhança dos fucceíTos en^ 
tre íij acharemos 5 que todas faó obras do meínio Authorj 
CreadorjÔc íalvador das almas. 

Qutndo mais furiofo ardia o fogo da perfeguíçaó: & oá 
tyrânos ? quanto mais cruelmente matavaó os Cbriftãos? 
tanto mais ficavaó embravecidos contra a LeydeDeos, 
Húa donzclla de dezafeis annos de idade pouco mais , oa 
menos chamada Fè? natural da Comarca de Phuong Tay 
na Província de Cachaójôc fobrinha de Ignacio , que dera 
o fangucjôc vida por Jesv Chriílo : induíida interiormen- 
te do inftinto íuperiorvcyoà Corte de Cachaó 5 entrou 
110 Tribunal da audiência ? ôc diíTc aos Juizes : que ella era 
Chriftájnem queria pizar a Imagem Sagrada ? & ofFerecia 
ieu corpo aos Elefantes? para fua alma poder ir ver cedo a 
Deos. Forâó eftas vozes da delicada donzella os mais efpá- 
tofos trovões para aquelles inimigos de Chriíto. Todos fi- 
carão atónitos 5 6c mudecidos , triftes 5 & envergonhados, 
ouvindo palavras de tão grade defapego do mundo 5 & de 
tanto animo para os tormentos: ôc vedo? que húa mulher 
na flor de feus annos 5 quãdo podia começar a lograr as fe- 
licidades da vida , bufcava com jtanto empenho as penas? 
& mortes. Confultando pois os Juizes entre fi , que reío- 
luçaó tomariaó neíle cafo extraordinário, & muyto raro: 
depois de vários pareceres inclinados à crueldade tiveram 
por mais cóvenientejnaó a matarem ; porque a experiên- 
cia lhes tinha enfinado a muito fcu pezarjcomo dos Chri- 
ftáos os mais pequenos na idade 5 ôc os mais fracos por có- 
preiçaó fe tinhaó havido com mayor çonílancia, & valor. 
Donde fe feguiaó defprczo dos caftigos , aíFronta aos mi- 
niftros reacs , & grande credito da ley dos Portuguezcs ; q 
tanto esforçava osmeninos,ôc mulheres^aosquaes a natu- 
rczailhes tinha negado a fortalezajôc coragem. Melhor fe-* 
ria difiaójnaó fazermos cafo defta menina : & muyto me- 
Ihor^fe a tive/Temos por doudinhajôccomo a tal fe lhe má- 
daíTem dar huns açoutes. Tomada efta deliberação 5 man- 

Yyij dàr^õ 



55'5 'BREVES NOTICIAS DO 

driraó aos foJ dados, que a lançaíTem fora do Tribunal? & a 
açoutaíleni bem nas coftas? para tornar a íeu pcrfeyto jui- 
%o. Aílim o executarão logo os verdugos com grade cru- 
eldade;pQrèm ficarão admirados da conítancia , & alegria? 
cora que a menina recebia os açoutes : accitando-os como 
preciofo mimo do Ceo: & efperando, que em outra occa- 
íiaó alcançaria a morte; para deíla maneira imitar a Chrif* 
tojuo que elle padecera por amor de noíías almas. 

Muyfem.elhanteàdonzella Fenos defcjos do Marty- 
rio íoy outra por nome Ignez de treze annos de idade.Po- 
k também eíta fc foy aprefcntar diante dos Juizes;& con- 
feílbu publicamêtcjque era Chriílã. Mas como os do Tri- 
bunal tinhâó dadojà na traç?opara náo mataré;porque pa- 
recia crueldadcjtirar a vida a meninas : & ficavaó elles en- 
vergonhados pela conftancia, & alegriajcó que eílas mor- 
riãopelaley dos Portuguczes; poriíToíahio também o 
meímo deípacho de açoutes por remédio, como diiiaó os 
aftutos JuizeSída doudiccjq Ignez tinha, em querer mor- 
rer.Sétioa magnânima menina a pouquidade do caíbgojq 
lhe mãdavão dar, por faltar muyto à grade medida de ícus 
delejos. Porém conformando-íe com a vontade divinajôc 
tendo-fe por indigna de mayor fâvor do Ceo , alli mefmo 
fora do tribunal , & em prcfença de grande multidam de 
gente aceitou com tanto goífo os açoutes, como fe foH^m 
penhores5&arrhas de futuras bodas. •"'-''" '^■n*!' ; 

Foy muyto mayor o empenho de dará vida por Jesv 
Chrifto em húadonzella chamada Anna de vinte annos 
de idade nafcida na Corte de Si noa , ôc neta de hum grade 
niiniftro muy favorecido delRey.CGnfiderando ella>que 
fò com algum disfarce, com que ficaíle defconhecidái) po- 
deria alcançar a coroa do Mártyriô5Còf tou os cabellos , de 
vefl:io«íe cm trajo de cftudante. Disfarçada fáhio feií^^ta- 
iTientc de fua cafá: foy-fê paira a dõ -Mandarim exectitor 
das mortes dos Chrifl:ãos: erítrou,ÔÉ<m publica audíeitóa 
confeilou tcrjôc guardar aíey^s GhtíftãoS) áqual nuriéaf 

iyi'ji largaria; 



RE YNO DA COGHINCHINA: 95-4 
largaria: né havia de pòr fcus pès na ímagé de feu Deos? & 
Salvador: &c eílava prefces para fofrcr os tormétossÔc mor- 
te que lhe quizeílem dar. Reparou o Mandarim na voZjq 
lhe pareceo de mulher,& também no roílo , q era da neta 
daquelle minifcro íeu amigo; mas com diílimulaçaó doq 
via5& ouviajhc deu húa aípera reprehcnçaó; pois na cara 
delRcy tinhaíguardavaj&confcíTava a Icy prohibida com 
táo cruéis penas a íeus vafiallos. Mandou depois a huns de 
mayor cófiança^quc tiveíTem fentido, & vigíaílem aquel- 
le moço,atè fe cuidar no merecido caíligo a tão grade ou- 
íadia. Foy o Mandarim a ElRey, & deulhe parte do q fuc- 
cedêra. Mandou ElReyjquea naó mataíle ; mas lhe man- 
daíTe dar hús açoutes como a douda 5 & a largaílejlogo pa- 
ra poder voltar com o mefmo disfarce para a caía de feus 
pays iem eíurondo, & fem fe publicar o caio com aíFróta, 
magoa dos parentes. Ficava Anna muy contente; por 
cuidar,q o juiz conhecido a não conhecera,&: pelas gran- 
des ameaças que lhe fizera , entendia que alcançaria a co- 
roa do Martyrio. Porém quando viojque as catanas fe tro- 
cavão em varagjôc em lugar de morrer degolada 5 havia de 
fer açoutada 5 tomou grande pena por perder aquella oc- 
caíiaó de dar o fanguejÔc vida pela confiíTaó da Fe;có tudo 
fem manifeítar a qualidade de fua peiFoajrecebeo os açou- 
tes com muyta alegria: & goílou de íer tida por louca;po- 
is feu Efpofo Jesv Chriíto fora também efcarnecido por 
parecer menos cortez a Herodes : & Pi la tus o mandara a- 
çoutar por culpado. Táo grandes finezas de amor dcfcas 
donzellas para com Chriíío feu Redemptor não ficaram 
fem o devido galardão no Ceo ; pois fe não derão também 
a vida por ellc, foy , porque o tyrano fe naó atreveo a dar- 
lhes a morte. Mas Deos que pcza os defcjos 5 & examina 
os coríiçóes r í>âò deixara de coroar cilas fuás efpofas 5 que 
comtanto empenho entrarão voluntariamente no con- 
íiiâo: 6c com fua cóftancia , & valor fizcráo retirar ao ini- 
niigojficândo ellas vencedoras no campo. 

Yyiij Hm 



jj^ BREVES NOTICIAS DO 

Em Quanto cftas gcneroíãs donzellas có fortaleza mais 
que varonil alcançaváoviétoria nos tribunaes contra os 
pcrfeguidores de Chriílo. Outras com não menor conftâ- 
cia fuííentavão em íuas caías as partes de Fè, pelejando, 6c 
vencendo a feus próprios pays trocados cm tyranos. Húa 
nienínâ dequatorze annos deidadenafcidana Corte d» 
SinoajSc filha de hum grande Mandarim de armas gentio» 
defejâva nuiyto receber o Sãto Bautifmo 5 pelo que tinha 
ouvido contar a húa Chriílãíua parenta. Masné ella po- 
dia fahir nem o Padre lhe podia entrar em caía 3 para a inf- 
íruirjôc diípòr como convinha. Porém Deossque ie faz a- 
char dos que não perguntão por eile, muyto menos fe cí- 
conde dos que o bufcáo: diípòs as couíàs de maneira , que 
indo o p :y com toda a foldadefca às fronteiras, para impe- 
dir as hoílilidadcs dos Tunquins : tiveííc o Padre Bertho* 
meu da Coíta entrada de noytCjôc com capa de medico do 
corpo deílc a faude àqucíla alma ? bautizando-a com o no- 
me de Thareza. Poílo que cila cura fefízcíTc com toda a 
cautela poííivehcom tudo não pòdc fer tanta » que as mo- 
ças de caía não viíTem alguma ceremonia do Bautiímo:ou 
não íoípeitaírenijquc íua Senhora era jà Chriftãjpela veré 
depcisdaviíita do Padre tão recolhida 5 &muy occupada 
em rezar certas orações. Nem faltou? quem com certezaj 
ou com duvida o dcícubriíTe depois a íeu pay: o qual logo 
que voltou , preguntou à filha íc era Chriílã. Refpondeo 
íem temor Thareza: que fi. Perturbou-íe todo o pay com 
femclhante reporta 5 quanto menos cfperada 5 tanto mais 
fentida. Porém a filha eílevc fempremuy íocegadajcm 
to a cólera foy acendendo o roíio do pay , aíToprada aílirri 
do zelo de íua falia Religiáojcomo também , & có mayor 
vehemencia do temor de perder a graça de íeu Rey:fe cfte 
foubeffcjque quãdo queria acabar de húa vez có os Chrií* 
tãosjfazendo medonhas ameaças? ôc dando cruéis mortes: 
cíitão íua filha recebia em íua caía 5 & guardava a ley dog 
1 ortuguezes. Mas o amorjquc tinha à filhajíez que encu- 

brindo 



REYNO DA COCHINCHINA. 5^6 
brindo com díílimulaçaó as chamiis da ira, começaíTe a fa- 
lar brandamcte perluadindolhe, que largaíle aquella ley, 
por fer cftrangeira 5 & prohibida no Reyno. ReparaOe iiii 
âlturajem que ellcfe achava pela graça,que tinha delRey: 
6cnasefperançasdeellaíecaíarcom grandes ventagens. 
O que tudo ficaria atrazado , fe ella continuaíle em íeguir 
a ley dos Portuguezcs. Pois ElRey lançaria a ella fora de 
íeu real íerviçojpor ter húa filha defprezadora de fuás rea- 
çs prohibiçóes : &ninguêfe atreveria a tomalla pormu- 
Ihcrjpor náo incorrer na defgraça de feu Principe.Rcfpó- 
deo com grande forniçáo Thareza dizendo : Senhor efco- 
Ihi eu eíla leyjnão para alcançar bens da terra ; porque to- 
dos finalmente acabão com a vida: 6c quando fe cuida,qus 
a morte eftà muyto longe , então fica mais perto ; mas fo- 
mente para eu não perder os bens do Ceo, & que faó eter- 
nos. Não he rafaójque o goílojôc a graça de hum homem, 
pofto que Rey5fejão preferidos ás ordensjôc benevolência 
do Creador de todas as couías ; porque fomente eftepode 
apremiarjôc caftigar com mercês , & caííiigos eternos. Se 
pois eu não achar cafaméto na tertajnão me fiiltarà Chrií- 
to meu Redemptor por Efpofo no Ceo. Com menos ef- 
trondo desfecha o rayorafgando a nuvem , queviolenta- 
mente o enferrava ; do que fez o furor atè então repreza- 
do da difiímulação no peyto do bárbaro, & facrilego pay? 
dando gritosjbatendo pèsjôc mãos,dizendo inj urias, de fa- 
Ziendo tâo horríveis ameaças , que meteriáo medo a qual- 
quer generofo Leão. Mas como a grandeza do animo de 
Thareza fofie tão eminente,eíles rayos de ira lhe ficavani 
inferiores, & não lhe ferião o coração, mas todos lhe ca- 
hião aos pès. Reparando o pay na firmeza da filha , faltou 
nella có hum pao,determinado a deixala morta, fe nam fe 
rendeíTe viva. Recebia Thareza as cruéis pancadas com 
muyto foccgOsôc fem dar mofrras de fcntimento como fe 
foíTchum duropenhaíco.Quanto mais infenfivcl íe mo- 
llravaa delicada filhajtanto mais fe embravecia o iohuma- 

Yy iiij E© 



5T7 BREVES NOTICIAS DO 

no pay, c^Thareza miiy to mais padecia. A qual entre tão 
cruéis tormentos diíia de quando em quando : Senhor eu 
íou Chrií-lã: faça pois de mi , o que quízer ; porém heide 
iTiorrer Chriítá.Por eftas palavras ficou deíéganado o pay: 
& perdida a efpcrãça da viòloria, depois de caçado no aco-^ 
niitínientoja deixou livrcídizendo : que era louca? & co- 
mo louca podia guardar a Icyjque q uizeíle. « 

Muy contente ficou Tharcza , aílim por ter padecido^ 
por não largar a íeu divino Eípofo ; como por ter licença 
deguardar a Icy ^^ ^^^ Redemptor. Tratou muytas vezes 
o pay de a caiar com vários fidalgos; mas por ferem inimi- 
gos declarados da Fé acudia logoTharezaa Deos, manda- 
do cera à Igreja,^: pedindo ao Padrejlhe alcançaíTe do Se- 
nhor a mercê de fe livrar daquelles Idolatras : &fcmprc 
iheíuccedeo, como ella defejava. Finalmente cafou com 
hum, que fe não era ChriMo de nome, o era de aíFeiçáo : o 
qual lhe deixava guardar noíft íanta ley : &: também a to- 
iiiaria -, como elle mefmo o diíTe ao Padre Jofcph Cãdone, 
íc não átíí'Q defgoílo a feu pay aparentado pelas fegundas 
bodas com a caía real ? & muy devoto de huns falfos deo- 
les> nos quaes tinha levantado hum magnifico templo. 

Não foy menor a fortaleza de outra menina : ou para 
melhor dizer não foy menor a oiiétação do divino poder 
em outra menina de treze annos de idade, filha de hum 
China ídolatra5mercador , & morador no porto de Faifò. 
Hindo poiseíle a Macao para fcus cótratos , deixou eira fi- 
lha em cafi de hua Senhora Japoa fua parêta,q era Chriftá. 
Aqui vio,&ouvioa menina os exercicios de nofia fanta 
Religião :& movida de Dcosquiz receber o Santo Bau- 
tifmo,q 1 ho deu hú Padre da Cópanhia de Jesv5& lhe pòs 
o nome de Catherina. Tinhao paíTado fò trcs mcfes depo- 
is de fer regenerada cm Chriílo : quando voltou o pay de 
fua jornada. O qual logo que foubc , q fua filha era Chrif- 
tã,como foíTc miiy venerador dos idolosjfcntio grãdemé- 
te 3 o que a fillia tinha feyto : & cheo de ira chamou-a , re- 

prc- 



REYNO DA COCHINCHINA. 358 

prehendeu-a, ôcameaçou-a com grandiílimos caíligos , fe 
não largaíle a nova leyjque recebera fem feu coníentimé- 
to. Baixou Catherina os olhos? & íorrio-fe. Tomou o pay 
a defprezo de ília peíToa o pouco teraorjq a filha moítrava 
de fuás ameaças: & lançando mão de húas varasjcomeçou 
não como pay mas como verdugo a dar na filha com gra- 
de ira,&: furorjcomo fe efpancaíTe a húa fera. Nem por if- 
fo alcançou feu danado intento o bárbaro , & cruel pay; 
porque a filhajpoílo que com os açoutes hia ficando cada 
vez mais debilitada no corpo; cobrava poré cada vez mais 
filentofeu animojpara dizer a feu pay; que antes lhe mor- 
reria a feus pès, que largar a ley dos Chriftãos. Cançado o 
pay deu tregoa por aquelle dia à filha? ameçando-a có ma- 
yores,& mais cruéis caftigos. Ouvia Catherina callada 5 6c 
as ameaças fafião nella tanto abalojquanto o fazem as me- 
donhas5& furiofas ondas em húa grande penha.Encomé* 
dava-fe porém com aíFecluofos rogos a Deos,pedindolhe 
fua graçaípara vencer a cruel ira de quem devia fer amada? 
& regalada. No dia feguinte tomou o pay a filha ? levou-a 
ao templo dos Chinas5& mandoulhe, que adoraíTcaquel- 
les deofes de íua naçáo. Refpondeo ella: que por nenhum 
cafoofaria;poisnem podiajnem deviaadorar Ídolos 3 que, 
ou foraó homésjou erão demónios. Mas afiim ella 5 como 
elle5& todos os homens devião adorar a Jesv Chrifto , que 
era verdadeiro DeoSíÔc Senhor do Ceo ? & da terra 5 & do 
todas as creaturaSí^c único Salvador das almas. Não have- 
rá tigre,que fique mais aílanhado depois de fer ferido ; do 
que fe moítrou efte inhumano payjdepois de ouvir de fua 
filha eftas palavras tão ajuftadas a toda a raíaó. Arrebatado 
pois do furorjpuxa de húas varasjou paos? & com a cruel- 
dade naó fò de bárbaro? mas ainda de fera arremete à filha: 
cuidando , que fò deita maneira fe poderia dobrar a cont 
tancia ? & quebrar a firmeza daquella tenra idade. Hia re- 
cebendo a innocente filha os cruéis açoutes do culpado 
payjíem gritarjfem gemer;antes com grande focego, &a- 

Zz legria; 



^^^ BREVES NOTICIAS DO 

Jegria: por repararjque erão mimos ? que lhe mandava dar 
Chriílo eípcío de íiia ahiia:6c com o meímo deícanço di- 
lia de QuaFido cm quando ao pay tyrano: Senhor podereis 
íirarme a vidajque me dcíl;es;náo porem a Fe , & ley , que 
eu tenho eícoihido,& quero guardar. Cançou oimpio al- 
goz em açoutar, & ferir: mas não a innocéte em padecer» 
& fofrer. Vencidas finalmente as infernaes fúrias do pay 
da raancidãomaisque humana da filha: larga aquelle as 
varasj& deixa nas mãos deíla a palma da viéloria. 

Em meninas tão tenras na idade, & Chriílãs de poucos 
mezes tanta ccnílãcia em guardar a Ley de Deos!Ou quã- 
to temos antigos Chriíèãos , em que reparar ; pois para al- 
guns delles quebrantará os divinos preceitos não iam ne- 
ceílarias tantas ameças,nem tantos tormentos. Baila hum 
fumofinho de gloria mundana,hum luftrefinho de ouro5 
& prata , húa apparenciafinha de gofto fenfual. Ah quani 
enganados fe acharão na hora da morte, & quão confufo» 
xio dia do juízo univerfal. 

Do toque da firmeza deftas donzellas na Fè , & de fua 
coriílancia na guarda da Ley de Deosfe entendera clara- 
mente quão íubidofeja o quilate do fervor deíles Neófi- 
tos da Cochinchina ; por iíTo deixo eu de apontar as mais 
catholicas façanhas de outras peíToas em teftimunhos aí- 
fim da verdade de noíFa íanta Religião , como de fua ver- 
dadeira Chriíiandade. Porém não devo calar , o que pode 
fervir de m uyta coníolação a todos os fieis , & de grande 
exemplo a não poucas peíToas na obfervancia dos pcrcey- 
tos de Deos , & da igreja: no refpeyto aos fagrados téplos, 
& feus miniftros:no empenho embufcara falvaçãode 
fua a]ma,&: dos outros: & na mortificação de feu corpo. 

A Irmã mais velha da Rainha de Cochinchina, Prince- 
sa de grande capacidade, & muy veríada em feus livros> 
teve noticias da Ley de Deos por húa mulher Chriífã por 
nome Martha , que era mufica ( cftgs mulheres faó criadas 
nas cafas dos grandes: & nos tempos^em que feus amos5& 

amas 



REYNO DA COCHINCHINA: 960 

amas ficáo deíoccu pados, lhes cantão huns fucceíTos muy 
decentes5& compoílos cm verío muy elegentc.) Entre as 
mais hiílorias foy Martha cantando húas vidas de Tantos: 
que contentarão muytoà Princezajôc começou a fazer 
varias perguntas a Martha da Icysqueellaguardava.Como 
a achaííe muy có Forme à rafaójpedio cateciímo, ôc outros 
Iivros,que tratavão de noíTa fanta Religião , para ter cabal 
noticia delia. Nem lhe foy difficultolo , alcançar aííira a 
falfidadcjôc de formidade da idolatriajcomo a verdade 5 6c 
pureza da Religião Chriftã ; pelo que convencido o ente- 
dimento, facilmente fe rcndeo a vontade defejofa de ter o 
bem que conhecera. Poílo que foíTe caiada com hu gran- 
de Mandarinijinimigo dos Chriftãosjcom tudo começou 
logo antes de fer bautizada a fc abíler das carnes , & jejuar 
nos dias mandados pela Igreja : governádo-fe pelo Calan. 
dario,que todos os annos compõem os Padres, &c o repar- 
tem pelas Chriftandadcs. Nem com ifto ficâva fatisfeyta» 
porque lhe faltava o mais ncccíTario a faber o Santo Bau- 
tifmojque defejava receber da mão de algú Padre, do qual 
queriatermayor clareza na noticia de alguns myfterios. 
Mas como a entrada nas cafas das mulheres5& muyto ma- 
is das peíToas grandes feja muy difficultofa atè aos mefmos 
parentes, vem a fer quaíi impoffivel aos eíl:ranhos,fe o Se- 
nhor da cafa não der licença. Por eíla rafaó continuas eraó 
as viíitas , que efta fervorofa Catecumena mandava fazer 
aos Padres por meyo de Martha: pedindolhes a encomen- 
daíTem muyto a Dcos,para lhe cóceder , o que tanto defe- 
java. Depois de tanto bater , foy Deos fervido de lhe abrir 
a porta da Igrejaíôc foy bautizada com nome de Maria , & 
dos Chiíláos chamada Bà Maria,que quer dizer : Senhorg 
Maria. 

Governava o cfpofo deíla Princeza húas Províncias do 
Norte, donde Bà Maria vinha muytas vezes à Corte com 
pretexto de vifitar a Rainha fua Irmã ; mas o que a traíia,' 
era o defejo de fc conf eflarj & commungar. Tinha cópra- 

Zz ij à& 



361 BREVES NOTÍCIAS DO 

do para eíle fim hííâ quinta em lugar menos frequentado? 
alli fc detinhaj& dali mandava aviíb ao Padre 5 que aííiíHa 
íia Igreja da Corte : para que lhe foílè dií:<er miíTa , & mi- 
niítrar os Sacramentos. Chegava o Padre de noyte , & de- 
pois de íe confeílar eila5& luas criadas , que eráo Chriítãsj 
reza vão íuas orações coílumadas3& cabadaa exhortaçam, 
que o Padre lhes íaíia: mandava a Princezâ vir a cea para a 
Padre aíliílindo ella em peíTova: & tendo náo fò por honra, 
fervír ao miniílro de Deos ; mas tambê por regalo comer 
depois alli mermo em prefença de fuás criadas, o que fica- 
va nos pratos. Acção era efca que cófundia fcmpre ao Pa- 
drcjôc o obrigava a chorar de alegria^vendo tão grande Fè? 
& humildade em húa Princeza de tão relevantes prédas. 
Quando ella hia à Ígreja3nâ0 coníentiajque fe lhe puzeíle 
alcatifa nem almofada 5 querendo fer tratada como outra 
qualquer mulher Chriílã: chegava^fe fomente mais perto 
às grades do Altar , para eíhr com mayor attençaó ao Sa- 
crificío da MilFa? & ouvir melhor a pregação. Não queria 
particularidade algua dentro da caía de Deos ; porque ia- 
Êiaj&criajque para com Deos náo havia exceicaò de pef- 
foa : & que tal vez o que menos avultava na Igreja 5 era o 
jiiais viíío do Senhor de todos. 

Teve a Rainha noticiasjq fua Irmã mais velha era Chri- 
fiãschamou-a a palácio , & cmparticular lhe eílranhou 
muyto, tomar cila a ley dos Portuguezes? fendo ella Co- 
chinchioa: &profeírar,oquc ElRey tinha prohibidoa 
todos de feu Reyno com penas tão gravesjque moftravão 
o odiojque ElRey tinha àq uella Religião eílrangeira.Quc 
reparai] e no grande deígofiojque receberia ElRey feu Se- 
nhor deíba mudança: ôz que fendo ella fua cunhada ? foíTc 
defobedientc ás fuás ordens reaes devendo fer a primcyra, 
em as executar ; para fervir de exemplo aos outros no de- 
vido obfequio à PeíToa Real. Reípondeo Bà Maria : cófeC- 
ímdo q era Chrifta por grande favor do Senhor do Ceoj 
& de todas as crcaturas^pois íoy fervido de a alumiar goiti 

a luz 



REYNO BA COCHINCHINA. 562 
a luz de íua verdadeira Fè , para naó errar o caminho da e- 
terna bemaventurança. Nem ella guardava ley,que íizef- 
íem os Portugueze; mas a que dera o Creador de todos os 
homens a todas as Nações do mundo. Que com rafaóíe 
queixaria ElRey íeu cunhado 5 íe cila naó executaiTefuas 
ordens,para obedecer a outrem poílo que Rey ; poré dei- 
xalas,para tazerso que mandava Deos : naó fomente nam 
era culpajmas era ainda virtude,^: precifa obrigação; por- 
que Deos era Senhor dos Senhores,íley dos Reys,& Cre- 
ador de todas as couías. Bem fabia elkj que ElRey feu Se- 
nhor a poderia caíHgar por contumaz aos íeus reaes man- 
dados ; porem todos os poderes de todos os Monarcas do 
mundo fe extendiam até os bens corporaes de íeus vaíTal- 
Jos: fomente Deos podia caíligar também a alma conde- 
nando-a juntamente com o corpo às penas eternas : Com 
cila repofta tam gencrofa , & defenganada ficou a Rainha 
húa bivora ? & chea de cólera diíTe : Logo eu vos tirarei as 
rendasjquc vos dou para voíTo regalo ; porque nam quero 
fer nem ainda parecer , confentidora deílà voíTa tam atre- 
vida defobediencia a meu Reyjôc Senhor. Faça VoíFa Ma- 
geftadcrefpondeo Bà Maria,o que levar em gofto; porém 
eu quero antes viver pobrejôc Chriílãjque rica? & gentia. 
Voltou a noíTa Princeza do Paço com menos renda da 
que atê então tivera; mas muy acrecentada com as efperá- 
ças certas,quc receberia de Deos cem vezes multiplicado 
na outra vida , o que nefta perdia pela guarda de fua fanta 
ley. Logo que foy faltado o patrocinio real à Princeza Bà 
L^iariajhe foy entrando a enchente dos favores divinosjq 
o Cco não coítuma fazer aos que tem feus corações ainda 
cheo de terra. Apareceolhe a Rainha dos Anjos:para que a 
fua Maria não fentiíTe a falta da graça dosReys dos homês: 
ôccomeíta vifta ccleftial ficou a Princeza táo confolada 
na alma5& tão firme na Fè,quc não fò todos os bens , mas 
ainda mil vidas daria ? para fer fiel no q prometeo a Deos 
no Santo Bautifmo. 

Zz íj Além 



363 BREVES NOTÍCIAS DO 

Alèm dcila coiiftancia na Religião Chriílá lhe deixou 
também a Rain ha do Ceo hum grande defejo da falvaçaò 
das almas. Confor me as leys de Epicuro introduíidas pe- 
los Gíóbrncs da carne cm roda a gentilidade, coftumaó os 
Mandarins Cochinchinas tomar muytas mulheres: & pa- 
ra íe nioílrarcni mais que brutos nos apetites fenfuaes, af- 
fentàraó por principio politico : que quanto mayor foíFe 
a dignidade 5 tanto mais numeroío havia de íer eíle torpe 
cortejo. Tomava pois a Princeza Maria à fuâ conta a cria-» 
cão de todos os íilhos5& filhasjquc o Governador feu ma- 
rido tinha da grande multidão de concubinas : para q fof- 
fem todos bautizados , aprendeíTem a Ley de Dcos , & os 
traíia comíigo para receberem os Sacramentos. Cafo raro 
em mulheres caiadas: & mais novo em Senhoras íuperio- 
res aos maridos no fangucjôc na dignidade! Quiz Deos 5 q 
não íaltaíle na Cochinchina hum treslado da prodigioía 
charidade da Santa líabel Rainha de Portugal: & por ven- 
tura a copia caufarâ mayor admiração , que o feu original; 
porque efte fahio em hum Reyno tão Catholico? & de 
hiia Rainha criada aos peytos das virtudes; porém aquella 
apareceo em hú Reyno idolatra? & em húa Princeza cria- 
da entre as paixões. Com rafaó fe pode prezar. Europa da 
admirável ímtidade de fua Rainha Santa líabei : & tambê 
gloriar Aíii da heróica virtude de fua Princeza Maria. 

Entre os í^randes cuidados da falvacão das almas alheas 
Bao íe defcuidava Bà Maria da fua própria. Foy fempre de 
fejofa de fazer penitécias,affim para defcouto de fuás cul- 
pas 5 como para acompanhar a Chrifto Redemptor nolío 
em fuás doresjÔc tormentos. No anno de mil & kis cêtos 
6c fetentajôc féis o Padre Joaó Cardozo da Companhia de 
Jesv Provincial da Província de Japão foy viíitar a MiíTani 
da Cochinchina. A penas tinha o Padre chegado à Igreja 
de Sinoa 5 quando foy logo vifitado de hua peílba Chriítã 
criada deíla Princeza , que então fe achava na Corte : dan- 
dolhedeíua parte as boas vindas com hum prefentc de 

arroz> 



REYNO DA COCHINCHINA. 36/ 
arroZ5& varias caílas de fruta,fegundo o coílurae do Rey- 
no. O Padre Provincial em agradecimento, deíla honra 
Jhe mandou muytas coufas de devação com húa Sagrada 
Imagem pintada com grande perfeyção. Recebeo aquel- 
les devotos mimos com muyta piedade a virtuofa Prince- 
ZíL-iòc mandou dar ao Padre muy cordeas graças5pe]a rega- 
lar com coufas tão perfeytas 5 & tão fantas. Mas o que ella 
muyto defejavajcrão húas diíciplinas? para fazer peniten- 
cia de feus peccados: & pedia, juntamête foffe o Padre Jo« 
feph Candone, que então affiíria na Igreja da Corte , para 
lhe dizer MiíTa na fua quinta. Foy efte Padre de noyte 5 &: 
lhe levou as íufpiradas difciphnas : as quaes recebeo com 
mayor goftojdo que fua Irmã a Rainha tomara a coroa da- 
quelle Rey no : & quiz logo entrar em hum apofento in- 
terior para alli fe açoutar. Acudio o Padrcjdizédolhe: que 
podia guardar aquella penitencia para as feftas feyras em 
lembrança da Payxão do Senhorjôc vifto fer ella muy do« 
ente , & entrada jà na idade , lhe limitou o numero dos a- 
^outes.Não advir tio o Padrcjque aquella noyte era de fet 
ta feyra ; reparou porém a Princeza 5 5c quiz começar na- 
quella noyte o exercicio da defejada mortificação:mas pa-» 
receo ao Padre difpenfar por a quella vez. Viroufe entam 
a piadofa Senhora para as fuás moças Chriftãsjmandando- 
Ihes que tiveíícm fentído nas feftas feyras, & lhes lébrafsé 
a ella,para não faltar com a fua difciplma.O grande cuida- 
do deíf a Princeza em bufcar iníbumentos para mortifi- 
car feu corpojhe humaafpera reprehenção do muyto des- 
velo com que algúas peífoas procurão os regalos para o a 
mimar. Mas quem muyto fe empenha em criar deliciofa- 
niente a tão atreiçoado inimigo da alma: que pode efperar 
delle, fenão aíTaltos de ruins fugeílóes 3 & mortes de abo* 
mináveis peccados. 

Procedião a eíla Senhora os muytos defejos de fazer pe- 
nitencia do temor da eftreita conta? q havia de dar a Deos, 
&do cuidado de facilitar à fua alma a poííe da eterna béa- 

Zziíij venru- 



g65 BREVES NOTICIAS DO 
venturança: comoaquella que firmemente cria ? que não 
feria admitido nas eternas moradas do Ceo , quem ficaíTe 
devendo a pena poílo que de húa fò palavra ocioía: & que 




que não poderia ella fazer tantas penitenciasjque baílafsé 
para total íatísfaçáo de fuás culpas , fe quiz valer também 
dos thcíouros das Indulgências j & do Santo Sacrifício da 
Míílâ. Pelo que entregou ao Padre Jofeph Candone hum 
pedaço de ouro 5 do que fe acha nas minas da Cochinchi- 
iia^para o remeter ao Summo Pontífice em fmal de fua fi- 
lial íogeiçáo àquella Santa Sèjfupl içando a fua Santidade» 
ie dígnaíle de dizer húa Miífa pela fua alma; por cuidar, q 
quando o ouro chegaíle a Roma? teria ella jà partido deíle 
mundo. O Papa Innocencio XI. de fanta memoria Viga^ 
rio de Chrifto na terra banhado todo em lagrimas de efpi- 
ritual gozo recebeo o ouro defta Princeza oriental : & na 
Miíla do dia feguinte benzeo húa verónica de ourojappli- 
candolhe grandes lndulgécias5para fe remeter à dita Prin* 
ccza. Tem muyto de q ie envergonhar os q vivem efquc- 
cidos de íuas almas: como fe nunca ouvéráo de morrenou 
as almas não ouvèráo de padecer na outra vida pelas cul- 
passque cometem nefta com os fuperfluos regalos de feus 
corpos. 




CAPI- 




REYNO DA COCHINCHINA, 366 
CAPITULO XXXIIL 

Âhrem oi Ali //tonar los novos Caniinhoí^para entrarem na Co^ 

dJincmna, 

BSTINADO prefiftia ElRey,em não 
querer Padres na fua Cochinchina; por fe 
recear 5 que por elles fe podcriáo levantar 
os naturaes Chriftãos com todo o Reyno. 
Por efta rafaó obrigava fempre os MiíTio- 
narios,quc vinhão nos navios de Macaoo a 
voltarem na mefma monção: depois de os ter prezos com 
continuas vigias nas portas das cafas, onde fe agafilhavam 
em quanto os mercadores Portuguczcs hião fazendo fcus 
contratos. Aííim fuccedeo no anno de mil & féis centos 
& feílenta & fmco ao Padre Francifco Rivas,quc aportou 
cm Faifò dous mezes depois de fahirem dcllc os três Pa- 
dres degradados para o Reyno de Sião. Voltou outra vez 
o mefmo Miílionario com o Padre Bartholomeu da Cot 
ta no anno de mil & féis centos & feíTcnta & fcis 5 & com 
o mefmo navio tornarão a Macao. No anno de mil 6c féis 
centos feífcnta & fettcjcomo a nao , que devia partir para 
a Cochinchinajficaífe dcftroçada de hum furiofo tuf anijq 
deu cm Macao poucos dias antes de fe fazer à vela 5 não 
paílbu Padre algum para aquellc Reyno. Porê no feguin- 
te de mil ôc féis centos & ícíTenta & oitOjforão dous:o Pa- 
dre Domingos Fuciti , & o Padre Luis Saífi : & no de mil 
& íeis centos & feífcnta & nove 5 o Padre Francifco ígna- 
cio Baudet ; 5c poílo que cíle experimentaíle menos os a- 
pertos da prizãojpor íer muy eílimado do genro dcIRey; 
com tudo aífim cíle como aquclles voltarão nos mefmos 
navios para Macao. 

Reparando pois os Miílionarios : como o odiojque EI- 

Rcy tinha concebido contra a Religião Chriílã, não afro- 

:'t Aaa xavií 



§67 .■. BREVES NOTICIAS DO 
xava com a extençáo do tempo ; antes hia crecendo cada 
vez mais: r^eíolverão-ícâ abrir outro caminho? para entra- 
rem na MiíTaó íem impediment05& ficarem nellafem re- 
ceos. Feio que noaono de mil & féis centos & fetenta tê- 
do ido no navio de Macao o Padre Pedro Marques em a- 
bito ReIigíofo,para fenão perder o coftume, & poíTe: em- 
bârcou-fe em outro naviosque navegava ao Reyno de Cá- 
boja 5 o Padre Bartholomeu da Cofta, para dali entrar na 
Cochinchioa em trajo de fecukr. Veftido o Padre ao cofy 
tume dos Médicos Cochinchinas , cuja lingoa bâílãtemé| 
te khm^&c era muy pratico na medicinaj partio de Caboja 
aos vinte de Outubro do mefníoanno de mil féis centos 
& fetenta , em híía pequena barca de Chinâs , que hião ao 
Reyno de Champà confinante com o dsi Cochinchina. 
Grandes torão as moíeftias5 6<: náo pequenos os perigos, q 
c Padre teve, & paílou nefta jornada de mais de cem lego- 
âS;poíl:o que mayor parte pelo caudalofo rio de Camboja. 
Porque além da fomcros mares)& marinheiros lhe foram 
íempre cótrarios: de diaarriícado a naufragiosjôc de noy- 
te receoíojque o deixaíTem em algúa ilha de ferta , ou na- 
quelles matos povoados fòmête de feras; pelos marinhei^ 
ros ferem náo fò Chinas de fangue mas também de feita 
Biouros. Porém foy Deos fervido livrar a feu fervo de to* 
do o perig03& o levar a falvaméto a Taquê,primeyro por- 
to de Champa : aonde achou muytos Chriftâos Cochin- 
chinasjiuns moradores, & outros vindos para feus cótra- 
tos. Foy grande a fefta , que eftes fizeráo có a vinda do Pa- 
dre;por haver jà muytos annos , q não tinha chegado Sa-- 
cerdote àquelles poílos : nem foy menor a confolaçaó do 
Pi^dre,por achar feus filhos no Senhor bufcados de tão ló- 
ge,& com tantos perigos. De dia , & de noyte eftava pré-» 
gando3bautizando,& ouvindo as Confifsóes;mas não lhes? 
podia dar a Sagrada Communhão : por quanto náo trou* 
x^era comíigo os ornamentos dá Mifla , receando-fe có ra- 
faó , q fe defcubriria por Sacerdote àquelles Chinas Mçu* 

'^;:;/' ros; 



REYNO DA COCHÍNCHINA. 368 
ros; donde poderiáo elles facilmente tomar occafiaó para 
o roubarem,& matarem , ou ao menos para o deixaré era 
algum lugar íblitario5& dcferto. Mandou porém o Padre 
avifo a Faifòjpara lhe vir algum aparato do Altar dos mui- 
tosjque tinhaó là deixado os Padres degradados para Siaó. 
Naó era pequena a pena , que tomavaò aquelles fervoro- 
fos Ncofitosjpor naó poderem ouvir Miíla , nem receber 
o Senhor ; mas muyto mayor era o fentimento do Padre 
vendo,a feus filhos em Chriílo padecerem tanta fome do 
Páo dos Anjos5& naó ter o neceíTaríojpara lho repartir. 

Tardava jà muyto o ornamento Saccrdotaljpor falta de 
quem fe atreveíTe a trazelo pelo medo,que por alg^um ac- 
cídente feria defcubcrto , & com iílo arrifcado a fer quei- 
mado 5 & o portador a fer condenado na vida. Pelo que fe 
refol veo o Padre a ir andando para Faif ò por tcrra.viagem 
de vinte dias pouco mais, ou menos: viíitãdo de caminho 
as muytas , 6c muy numerofas Chriftãdades divididas por 
toda aquclla coíla. Em húa Aldeã de Champà foy o Padre 
conhecido,& acufado por Sacerdote : & logo o Mandari- 
ncte daquelle lugar mandou prender a dous moços , que 
acompanhavaó ao Padre, & ameaçou a elte de o mandar 
carregado de ferros para a Corte de Sinoa. Refpondeoo 
Padre,que defta maneira iria elle com mayor gollo ; por 
quanto levava húas medicinas para os achaques , q ElRey 
padecia: & lhe moftrou ao Mãdarinetc hum caixaóíinho, 
cm que tinha muytas bocetinhas cheas de vários medica- 
mctos,& húas redomas de vidro com diverfos óleos. Baí- 
tou efta viíh para o Juiz mudar de animo5& fazer logo ao 
Padre profundiffimas corteíias , pedindolhc perdão do q 
fizcra,& diíTera. Deu logo ordem , que íoltaíícm aos dous 
prefos:&fe ofFereceo aoPadrc a lhe dar toda a comodidade 
para ir por terra,ou por mar atè â Corte. Efte oíFerecimé- 
to foy obrigação fcgúdo o coftumc da Cochinchina;porí| 
a toda a peíToa cftrangeira , que levar algum prefente para 
ElRcy,faó obrigados os Mãclarins,6c cabeças ths Cid^ÀesT, 

Aaa ij \ilhh 



369 BREVES NOTICIAS DO 

Yillasjôí lugaresja lhe darem por conta clelRey toda a co- 
modidades para paílarem elle, 6c íeus criados có o que le- 
varem, para outro lugar vcíinho : oc os que prefidé nefte, 
aos poré cm outro mais adiante : & deita maneira atè che- 
garem à Corte. Naó aceitou o Padre o acompanhamenía 
oíFcrecido,dizendo:que íe deteria alli mais tempo : & que 
o efcuíava daquella moíeítiajporque não queria dar traba- 
lho a ninguém. Ficou oMandarinete muy obrigado ao 
Padre: ôceftemuy contente; porque podia vifitar a leu 
goílo todas aquellas Igrejas. Como o Padre fe moílraíTe 
iaiuy benigno , era buícado muy tas vezes deíle Mandar i- 
ncte: o qual ouvindo as pregações ? que o Padre fafia a to- 
dosjrendeo-íe íina]méte>& levou a mulher, & os filhos ao 
Fadre,para que os bautizaíTe a todos : & todos receberão o 
SãtoBautifmo depois de ferem beminftruidos nosmyí- 
terios 5 & preceitos de noíTa fanta ley. Communicou de- 
pois Deos tanta graça a eíle Mandarinete, que de contra- 
ditor 5 & perfeguidor fe trocou cm defenfor 5 & pregador 
da Religião Chriíiã. 

Valeo-íe também o Padre da ficçaó de Medico em húa 
Vílla da Cochinchina, onde havia grade numero de Neó- 
fitos, que com mayor piedade que prudêcia forão acudin- 
do em grande multidão à cafa^em que o Padre fe agafalhà- 
ra. A novidade de tanto concurfo deu que fofpeytar aoâ 
do governo: & tomando as armas, hião prender aos que a- 
chafièm na dita caía. Houve quem deífcavifo deíla mar- 
cha: & loco todos os Chriílãos fe retiràraÓ5& efcondèram 
por aqueilcs boíques. Queria também o Padre fahir , para 
não fer cauía de moleítias , & vexações a feu cafeiro ; mas 
efíe não lho confentio antes pedio ao Padre,fe deixaíle íi- 
cdrjdizendolhe: Deos me tem dado muy tos bens? nem cu 
os poílo gaíbr cm melhor occafiaõ: & íe me matarem,por 
eu agaíalhar a hú miniílrode Deos , então muyto melhor 
fera u minha íorte. Com tudo naõ efperou o Padre , quê 
G achaíTcm os que o vinhaõ prenderjmas fahio fora a rece- 

bellos» 



REYNO DA COCHINCHINA. Í570 
bellos, 6c depois de os faudar cortezmente lhes diíTe : que 
le o quízeííem preiídcrjO prcdeíTem embora; porém íou- 
bcíTemjque elle chegara èqueila villa,para fe paííar à Cor- 
tejSc levar a ElRey huas medicinas para íeus achaques. A 
eftas vozes ficàraó acovardados , & mancos como cordey- 
rosjos que vinháo atrevidos5& ferozes comoLeóes:& tro- 
cados os aíFeâos^refpondèraó có muyta affabih"dade: Que 
contínuaíle embora íua viagem , & íe lhe foOe neceíTaria 
alguma coufajlho diíTcíTe; porque íe lhe daria tudo:& íem 
fazerem mal a ninguém voltarão envergonhados. 

Delia maneira foy o Padre andado, & viíitadoas ChriA 
tandades atè chegar a Faifò. Aqui foy logo chamado para 
curar ao Capitão? ou Cóful dos Japóes moradores naquel- 
le porto. Mas o tempo lhe deu íòmente lugar para lhe fa- 
iar a alma com o lavatório da agoa bautifmal morrendo 
Chriftáojdepois de ter vivido fempre gentio. Deite porto 
fe paííbu o Padre à Corte de Sinoajôc efteve na Igreja» que 
o Ocunha Joaó da Cruz ( de quem temos falado no Capi- 
tulo XII.) tinha levantado com licença delRcy para os de 
fua familía. Ficou aquclla nobiliííima, & numerofiffima 
Chriílandade muyconfolada com a prefença do Padre, 
muy aíFervorâda com fuás pregações, & muy alentada na 
guarda da divina ley com os Santos Sacrameotosjdos qua- 
es tinhaó carecido por falta de Sacerdote. Mas né as muy- 
tas comodidades do hofpicio , nem a íingular benevolên- 
cia de alguns grandes o pudèraó de ter largo têpo naqueU 
la Corte;por quanto feus regalos, & fuás glorias era o pro- 
veito das almas. Sahio5&: foy correr as Provincias do Nor- 
te atè às fronteiras ao Tunquim : aonde havia muy tos an- 
nos 5 que não tinha ido Sacerdote por caufa da perfegui- 
çáo,& da prifaójem que ElRey tinha os Padrcs,q vinham 
nos navios de Macao. Facilitou Deos eíla apoílolica em- 
preza,livrando ao Padre de muytos perigos , & tomando 
o mcyo das medicinas dós corpos,para farar , & dar vida a 
muy tas almas. Reformadas aquellas Igrejas, & renovados 

Aaaiij os 



571 BREVES NOTICIAS DO 

õs Neófitos na obfervancia dos preceitos de Deos 5 êc de 
ília Igrejajvoltou o Padre para aCortCjÔc deíla ao porto de 
Faiío. Ncílas prolongadas viagens de diajO defcanço, que 
o Padre tomava de noy te ? era: pregar, bautizar , ouvir 5 as 
Gonfilsóessôc miniftrar outros Sacramentos.Porêm o que 
digno de niayor admiração he o defejojque aquelles Neó- 
fitos tem de íe confeiTarem : & o fariáo cada dia, fe tivefsê 
comodidade; para terem a alma fempre limpa de toda a 
mancha de peccado. Oh de quão grande rcprehençaó hc 
o fervor deíles novos Chriíláosà tibieza de muytos dos 
antigos, que não bufcáo o Confellor , fcnaó obrigados do 
medo da vara da igreja. 

Naó teve taó feliz fuccelTo o Padre Pedro Marquez> 
que deixamos embarcado em Macao para fe paílar à Co- 
chinchina. Muyto grandes foraó os apertos , com que os 
guardas o detiveraó cm Faifô impedindo aos Cochinchi- 
nas toda a communicaçaó com o Padre,atè fc embarcar de 
volta para Macao. Mas nem ellejnem a nao là chegou , né 
atègora ha novas delles. Huns dizem , que perecerão to- 
dos em húa furiofa tempeftade. Outros cuidaó com algú 
fundamentOjque chegarão â Ilha de Hainaó, & que os la- 
droes moradores daquellas prayas matàraó à falfa fé a to- 
dos,para tomarem o navio,& a fazenda. O certo he, que a 
Igreja da Cochinchina perdeo no Padre Pedro Marquez 
hum grande miniftro do Senhor. Foy como Ayo daqucl- 
Ja Chriílandade eníinando-a , & aperfciçoando-a pelo eC- 
paço de mais de vinte annos na guarda da divina ley. Era 
homem de animo generofo,de rara prudencia,dc admirá- 
vel bí\'nignidade,6c Relígiofo de excmplarvirtude.Os Ja- 
póes fcus patricios o reípeitavaó pela nobrefa do fanguc: 
os Idolatras o veneravaô pela mageftadc do roílo : & os 
Chriítóos o amavaó como a pay de fuás almas. Naó deixa- 
ria Deos de apremiar no Ceo os trabalhos,& perigos, a q o 
Padre fe arrojou,& em que morreo pela exaltação de feu 
divino nome na terra. 

Mas 



REYNO DA COCFIINCHINA. 572 
Mas aliviemos o jufto feotimento de tão grande perdaj 
& temperemos a divida dor de táo apreíTada morte com 
a lembrança dos íucceííos favoráveis à propagação do Sá- 
to Evangelhcacontecidos ncíles tempoâjdeque imos ef- 
crevendo. Hú moço Chriílão tinha a máy gétia, &c muy- 
to dada ao culto dos Ídolos. Defejava aquelle, que efta dei- 
xaíTe a falia fuperíliçaõ, & tomaííe a verdadeira Religião: 
contínuos eraó os rogosjcom que lhe pedia : reparaíie 5 & 
examinalfe bé o que f aíia;porque perder o tempo j & gaf- 
tar a fazenda em honrar aos que não erão deofes ? mas de- 
mónios inimigos de noílas almasjcra a mayor miferia ? a q 
húa pefíoa podia chegar: pois erâ errar o verdadeiro cami- 
nho da eterna bemaventurança. A máy húas vezes calla- 
va5& outras refpondiajchamanno ao filho, nefcio, ímpio? 
êc dcfalmadoi Èíh obíHnaçaó da máy trafia ao filho muy 
aíflicí:05& dcfconfolado : & reparando nas poucas efperã- 
çasjque havia de a poder converter com fuás palavras , va- 
leo-fe do poderofo patrocínio da Virgem Mãy de Deos. 
Bufcou para eíla emprcza húa Imagem da Senhora 5 &a 
poz efcondidamente fobre o idolo^aquem a mãy adorava. 
Entrou eíla no oratório para rezar fuás oraçóesjcorno col- 
tumavajôc vendo aquella Imagem,a tirou , & a meteo aos 
pès do idolo:6c fechado o oratoriojchamou ao âlho5& lhe 
diíTe: Para que me não moleftes mais cora eílàs tuas pala- 
vras de moço pouco cntédidoj &c menos obfequioío a tua 
mãy,digote : que então me farei Chriílã , quando cu vir o 
teu Deos em lugar mais alto que o meu. Aceitou logo o 
filho o partidojignorante do que a mãy tinha f eyto. Che- 
garão-fe mãyjôc filho ao oratório muy contentes; porque 
a/íim ella como eíle cuidaváo ter de fua parte a viâoria. 
Abrem as portasjôc achão a Sagrada Imagem fobre a cabe- 
ça do ídolo. Salta de prazer o fi.lho,por ter ganhado a con- 
verção da mãy5que tanto defejava.Fíca aíTombrada a mãy? 
por fc ver obrigada a tomar a Icy do filho,a qual tãto abor- 
recia : & poíto que vencida naó fe rende , mas apella para 

Aaaijíj outra 



373 BREVES NOTICIAS DO 

outra experiência. Tomn a incrédula mulher com mao 
íacrilega a Santa Íaiagem5& a bota íegunda vez aos pés do 
2dolo;& fecha com chave o oratório. Ao outro dia íoy có 
o filho, & viojque o payneJ ficava íobre a cabeça do idolo, 
Dobrando-íe no filho os alvoroços : crecem na mayor o.^ 
eípantos. Nem íe dà ainda por convencida;antes arrem.e- 
te a terceira vez aquclla venerável Imagem , & com oufa- 
dia mais que diabólica a lança debaixo dos pès da abomi- 
nável eftava do ídolo. Oh Paciência divina quanto fofreis 
pela íalvaçaó das almas! Torna Deos a pòV terceira vez aos 
pes do retrato de fua puriííima mãy , verdadeira Arca do 
novo teílamentOjaquella torpe figura do demónio. Com 
eile terceiro defengano ? & triplicado milagre acabou de 
conhecer fua cegueira a perverfa mulher , ôc quão errada 
andava pelo caminho de fua idolatria. Chca pois de juíla? 
& fanta ira faltou no idolo) cortoulhe os braçosjÔc a cabc- 
ça5& fez todo o corpo em pedaços : & virada para o filho 
lhe diíFe: Vencefte filho vcnccftcjÔc eu gofto muy to de fi- 
car vencida;porqu.e nefta perda acho eu a falvação5&: a bé- 
aventurança. Qiiero fer Chriftá : & fendo eu mãy do teu 
corpojtu feras pay de minha alma. Peço o Bautifmo , para 
lavar tantas culpas? que tenho feyto: & emendar tãtos er- 
ros,em que tenho cahidojhonrãdo atègora 5 a quem devia 
deíprezar : &: aborrecendo , a quem fobrc todas as coufas 
devia eu de amar. A eftas palavras da mãy có vertida fe hia 
desfazendo em lagrimas deconíolação o filho, que tanto 
a defejàra bautizada. Bufcou logojquem a inílruiíTeiÔc de- 
pois de bé inteirada no que devia crer, & obrarjrecebeo o 
Imanto Bautifmo com grande alcgaia dos Chrifl:áos5&: nam 
com menor admiração dos gétios : que ouvindo o íuccef* 
fo 5 ficavaó convencidos de fer verdadeira a ley dos Chrif- 
ílios:pois era confirmada com tão evidente teítemunha 
do Ceo. 

Seiuuyto empenhada fcmoftrou a Virgé Senhora cm 
alcançar de Deos para efte piadofo filho a çóverçaó de fuá 

mãy 



^ REYNO DA COCHÍNCHINA. 374 

mãy idolatrarnaó menos íblícita fe manifeírou,em acudir 
nos perigosjem que fe achaváo os Chrifráos, & ihe pediaó 
ieu celeffial foccorro. Em hum exercicio de Elefantes, 
do qual fe falou no Capitulo X. humdeiles fe embrave- 
ceo de maneirajque lançou no chão ao Mandarinete, que 
naquellaoccafiaó cavalgado no pefcoçoo governava: de 
com fúria de bruto o hia pizando, & matado. Gritou nef- 
tes apertos de morte o Mandarinete, que era Neoíito 5 Ôc 
dííTeiJesvsMariaíOuChriftáo. Aeíbs vozes fe trocarão 
logo no bruto animal as payxóes 5 de cruel fera feyto te- 
mido cordeiro: & deixando ao Chríftáo com vida, & íem 
Icfaó aigúajpoz em grande eípanto, & admiração a todos 
os Idolatras. Com a mefma benignidade acudio a Mãy de 
Deos a outro N eoíito^que tinha cuidado de hum Elefan- 
te delRey. Aífanhado aquelle bruto naó fey porque acci- 
dente,rompeo as fortes atadurasjcom que eíkva prezojÔC 
fugio para os bofques. Ajútaraó-fe logo os moradores das 
Aldeãs veíinhas para o prenderem : mas nem a multidão 
dos homens,nem a fortidão dos laços foraó bafl:antes;por- 
que rompia eftes com grandifEmaforçajôc afugentava a- 
quelles com horrivel braveza. Defefperando jà o Nayre 
de o poder tomar , & temendo-fe da ira delRey , valeo-fe 
da Virgem Immaculada 5 que defde o primeyro inílante 
de fua Conceição começou a fogeitar feras , pizando a ca- 
beça da Serpente infernal. Acabados os aíFccIíuofos rogos 
à Senhora5entrou o Nayre fò por aquelles bofques : 6c fo- 
bindo a húa arvore, para ver algum rafto do fugitivo Ele- 
fante ; vio como vindo muyto manfo fe poz debayxo de 
húa arvore alli perto: como ovelha, que bufcava a leu paf- 
tor. Dcceo logo o Nayre muyto alegre , cavalgou-o lem 
reíiftencia,& cantando louvores em agradecimétoà Rai- 
nha de todas as creaturas , o levou para a Cidade fujegado^' 
&c prezo fò com o poder do Ceo. 

í Eftes fucceíTos eraó vozesjcom que o Ceo apregoava à- 
quelles Idolatras a verdade de noífa fanta Icy : cujo Deos 

' Bbb favo- 



575 BREVES NOTICIAS DO 
favorecia íâto aosqueaguardavaó. Nem por menos ver- 
dadeira a avaliavaó os evidentes caíligos , que recebião os 
Neófitos inobfervantes: moílrando-íe também Dcos iuí- 
to vingador das culpaSíôc peccados:Govcrnava húa Aldea 
de peícadores certo Mandarim Chriíião;mas como o mã- 
do 5 & as íuperíluas comodidades íejaó às vezes cauía da 
relaxação dos bons coílumes: tomou eíle afteiçaóa huma 
mulher gentia , & lançou tora de caía a fua 5 que também 
era Chriílá: & tão cego eílava da payxaó, que fem reparar 
no Diao eílado, em que períeverava ? íe queria có tudo có- 
feíTar no tempo da Parchoa.DiíTelhe o Padre:que em quã* 
to elle naó largaílè aquella efcandaloía companhia5& naó 
chamaíTepara iua caía a legítima mulherjo naó ouviria de 
coníiíiaó. Sintio muyto o Mandarim a repulfa , & deu-íe 
por oiíendido: havendo de confeííiirfe culpado, & íe mof- 
trar arrependido. Querêdo-fe pois vingar do Padrcjamea- 
çou fazer aos Chriílãos todo o mahq pudeí]e:& fez peyor 
do que diííejmoleftando-os, Ôc vexando injufta , & barba- 
ramente. Mas naó tardou muyto a vir fobre ellc a ira de 
Deos. Dentro de poucos dias foy tocado do ar , perdeo a 
iala,& mordia de continuo a lingoajôc quando morieo 5 a 
lançou fora quaíi hum palmo toda pretaj^ como carvão. 
Nem menos horrível foy outro caftigo , que levou, hum 
Neófito 5 por comer carne fem ncceílidade nos dias pro- 
hibidos pela Igreja. Foy muytas vezes amoeítado? & re- 
prchendido pelos Chriílãos zeloíos ; porem elle naó fò«» 
mente naó íe emendava , mas zombava ainda dos avifos; 
dizendo: que a comia détro de fua cafi com portas fecha- 
das;oem alguém o podia eípreitar , para o accufar a Deos. 
Tendo pois almoçado carne em dia de Sabbado , fahio ao 
campo 5 aonde o eíperava Deos , para fazer campear alli a 
fua div ina juíliça.Cahio de repente hum rayo,que o firio^ 
&c matoujdeixãdolhe toda a boca abrafada. Merecido cat 
tigo dos facrilcgos no falarjôc dos goloíos no comer.Com 
os relâmpagos deftc rayo muytos infiéis abriram os olhos 

de 



REYNO DA COCHÍNCHINA. ^y6 
de feus cegos entendiíTientos: & conhecerão, fer verda- 
deira a fanta ley dos Chriíláos ; pois o Ceo pelejava em fa- 
vor de fua obíervancia. Muytos fe converterão , receben- 
do o Santo Bautifmo : & outros fe emendarão dos diíciíi» 
dosjque haviaó tido na perfeyta guarda da ley Chriílãjque 
profeíTavaó. 

Hindopoiscrecendooni m?rodos novos Chriftãosj 
6c o fervor dos jè bautifjidos , eraó neceíTarios mais obrei- 
ros para tão grande fcàrp. Acudio logo o Padre Francifco 
Rivas Napolitano já nomeado : o qual no anno de mil ôc 
leis centos feíTenta & nove foy de Macao a Camboja? para 
tentar por aquelle Reyno a entrada na Gochinchina. En- 
controu muytasdiíScuIdades nefta apoítolica empreza; 
porém com leu magnânimo zelo as venceo todas : & em- 
barcando-fe no anno de mil Ôz féis centos fetenta 6c hum 
cm hum pequeno barco5fahio do rio de Camboja ao mar,' 
& tomou porto em Champà : donde fe paíTou por terra à 
Cochinchinajviíitando todas as Igrejas atè Phu moi 5 que 
he a Província mais auílral : & neíla fe deteve largo tem- 
po; por fer das mais povoadas de Chrifcãos. Pelos grandes 
trabalhos da MiíTaó lhe tornarão ao Padre os moleftos 5 de 
perigofos achaques,que alli contrahira muytos annos an- 
antes; pelo que foy obrigado a vJraFaifò, para íe curar. 
Mas naó o pôde fazer; porque foy chamado a Macao com 
expreíra5& apertada obediência. Quiz Deos, que o Padre 
Francifco Rivas nos delíe atè a morte exemplo de obedi- 
enciajdaqual foy fempremuyobfervante. E porventu- 
ra morreo por obedecer: laagando a MiíTaó 5 em que defe^ 
java acabar a vida : & expondo-fe com tão poucas forças 
pela muytaidade5& com tão pouca íaude pelos muytos a- 
chaques a húa navegação tão perigofajôc prolongada;por- 
que foy obrigado a íe paíTar a Siaójpara achar navio: logo q 
chegou a Macao, foy feyto Reytor daquelle Collcgio , Se- 
minário de illuílrcs MiíIior\arios 5 5c de glorioíos Marty^ 
res. Porém naó logrou muyto tempo os vivos exemplos 

Bbbij deftç 



^'jj jdREVEs noticias do 

deíle virtuoíb,& prudente Prelado aquella Comunidade 
de obreiros evangélicos; porque depois de alguns meies 
fídoeceo , &: faleceo aos vinte dous de Outubro de mil ôc 
féis centos fetentatk quatro depois dafeíla das onze mil 
Virgens,das quaes era particular devoto.Caufou fua mor- 
te grande íentimento a todos : aílim noíTos 5 como exter- 
nos : & fomente a elle lhe foy de grande proveitOjtrocan- 
00 OS moleílos cuidados da vida com os eternos defcanços 
da bemaventurançascomo piamente cermos , em premio 
dos trabalhos de trinta & finco annos de MilTaõ. E baíla- 
riaó as dezanove vezes q paíTou o golfaó de Hainaó(muy- 
to mais tenipeftuofoíôc perigofo5que o Cabo de boa efpe- 
rança;por ler iníeftado dos horríveis Tufões dos quaes foi 
o Padre acometido) para avaliarem os merecimêtos de feu 
generoíosôc incaoçavel zelo da falvaçaó das almas. 

Para fe fuprir a falta deíle taó grande MiíTionario 5 paf- 
Èràó também de Camboja aCocninchina no anno de mil 
& féis centos fetenta & quatro os Padres Francifco Igna» 
cio Baudet Francczjà nomeado? ôcjofeph Candone Sici- 
liano. Aquelle vindo de Macao na monçaó do mefmo an- 
no: Eíle mádado ir de Camboja, havia jà annos; maso nao 
pôde executar pelas guerras entre Cochinchinas,& Cam- 
bojas. Livrou Deos a eíles dous Padres naó fòméte de du- 
as grandes tempcftades no mar? mas também de hum ma- 
yor perigo no rio de Taquè em Champà. Porq tendo no- 
ticias os marinheirosjquc todos eraó CochinchinasChrif- 
táosjcomo vinha paísãdo húa Efquadra de Galés Cochín- 
chinas,que hiaô de foccorro à fua Armada , que conquif- 
tava o Reyno de Camboja : tiveraó tanto medo ? que dei- 
xando a embarcâçaò furta? fugirão todos de noyte ,&fe 
efcondêraó por aquelles matos: ficando fò os Padres cora 
huni moço de ferviço. Ó que os Padres fentiaó neíie de^ 
íemparOínaó eraó as moleíliasjque poderiaó clles receber 
dos ioldadosjôc Mandarins idolatras;mas os defacatoSjquc 
aquelies infleis fariaó aos ormentos> ôclmagens Sagradas,. 

que 



REYNO DA COCHINCHINA» 378 
que levavaó: ôc ficando prezos 5 fe lhes eílorvaria a entra- 
da na Miííaó. Era jà alta noyte, & rauyto efcura : quando 
começarão a paííar húas embarcações , que levavaó à Co-» 
chinchina muytas peças deartelharia tomadas ao Cambo- 
ja. O Capitão defta eíquadra era Chriílaó:& foy Deos fer- 
vido 5 que naquella eícuridade conheceíle a embarcaçam 
furta dos Padres : & chamando pelos marinheiros , foube 
do temor 5 quetiveraó , &;da fugida que fizeraó. Man- 
dou-os bufcar logo por aquelles matos , & entre aquel- 
les matos5& entre aquellas trevas : nem íoy menor favor 
de Deos achalos todo§. Deu depois ordem , que baldeafsé 
húas peças pequenas para a embarcação dos Padres , & a 
levou em companhia das outras. Comefte disfarce indo 
íempreos Padres efcondidospafsàraó por mcyodas Galés 
fem receo 5 6c chegarão a Cochínchina fem outro encon- 
tro, que os moleftaffe. V 

Ficou o Padre Franycifco Ignacio Baudet na Provincia. 
de Phu moi : affim para con-valeccr de húa perigofa doen- 
ça,que lhe deu em Chitram porto de Champà: como tam 
bem para confolar aquella numerofa Chriílandade, a ma- 
yor parte fruto de.feu apoíiolico zelo nos annos paílados. 
Era táo alentado o fervor defte MiíBonario , que nem fa- 
biajuem podia defcançar; mas como cuidadofo pay anda- 
va fempre euihúa roda viva vifitando as Igrejas daquelk 
dilatada Provincia : ôc repartindo com feus filhos no Se- 
nhor do paó da palavra divina , Sc dos Santos Sacramétos. 
Porém como as forças do corpo nãochegaíTem aoesfor-^ 
ços de fcu cfpiritojadoecco gravemente na vifita de Fuy- 
eh. Nefta enfermidade teve por partrcu lar regalo a falta 
de todo o nece/rario foccorro 5 afiem elhando-íe no tal dc- 
fcmparo na morte aoSáto Xavier > de quem com o nome 
herdara as virtudes. Falcceo aos dous de Julho do anno de 
mil & féis centos fctcnta & fcttc. Sentirão todos muy to a 
falta defte apoftolicovaraó , que por largos annos os dou- 
trinara com a voz de fua pregação, & os alentara na guar- 

Bbbiij da 



579^ BREVES NOTÍCIAS DO 

da da divina ley com o exemplo de fua inocente vida. 

O Padre Joíeph Caodone de Phu moi, foy logo a Fal- 
to 5 & deíle porto à Corte de Sínoa : para aíliílir naquella 
Jgreja5& ajudar ao Padre Bertholanieo da Cofta na admi- 
iiiftraçaódos Sacramétos àquella multidão de Chriftãos> 
q paílaváo de vinte mil. Sahio depois a viíitar as Provínci- 
as do Norte : & pofio q foíTem extraordinárias as demof- 
traçóes de alegria^queaquelles bons , & pios Chriíláos fa- 
íiaó pela chegada do Padre ; eraó ferapre mayores as con- 
íolaçóes eípirituaes 5 que eíle recebia de vér o nuiyto fer- 
vorjconi que acudião aos Sacramentos. Mas o que lhe en- 
cheo de grandiílimo gozo a alma , & não de poucas lagri- 
mas aos olhoSífoy que depois de ter ouvido de coníiílaó a 
hum Chriílão , que vivera largos aiinos deícuidado de fua 
alma : & tendolhe dado a penitencia conforme às culpas, 
& às difpofiçóes do fogeito : tornou eíle , paíTados alguns 
diassao Padre:pedindolhe com graades rogosjque lhe def- 
áe muyto mayor penitencia, por terem íido muyto gran- 
des fuás culpas5& peccados. Tão arrependido eftavà , do q 
cometera: & tam reíokito de cmendarjO c|ue íizera.i ^ • 

Tinha chegado ja o Padre às. Fronteiras do Reyno Ç&c 
pofto que muytosj& muy riguroíos foílem os apertosjem 
quefeachavaõ os C hriftáos pelas prohibiçóes do Gover- 
nador das armas pouco aíFeâoà Ley de Deos : com tudo 
retirando-fe o Padre a hãa Ilha pequena dentro de hum 
bmço de marjhia fazendo muy copíofa colheita de almas: 
iiuas reconciliadas a Chrifto com os Sacramentos da con- 
irílàójôc communhaó: &. outras aliíkdas de novo pelo Sá- 
toBautifmo debaixo da bandeira"do Salvador. Quando 
chegou hum próprio da Corte de Sinoa mãdado pelo Pa- 
dre Bertholaracu da Cofta? que chamava ao Padre Jofeph 
para a Corte com toda a brevidade, para atalhar húa gran- 
de perfeguiçaó, que fe hia armando contra os Pregadores 
Evangélicos. Foy o cafo. Hum Japaó apòftata da Fê oíFe- 
receo ao valido hú memorial para fe dar a EJRey : no qual 

âCU- 



REYNO DA COCHINCHINA. 380 

âcufava os Padres de treiçaó 5 affirmando : como hiaõ cor- 
rendo as barras , &C portos da Cochinchina , demarcando, 
Ô: obfervando tudo: & o provava com dizer: que o Padre 
Jofeph Candone levara comíigo atè as Fronteiras huma 
íigulha de marear ( era hum relógio de Sol , que para mof- 
trar as horas certasjfe governa pela agulha, ficando có ella 
ao Norte,& Sul.) Porém foy Deos fervido, que a mulher 
écile valido tiveíle noticias do memorial : & fendo ella 
também gen tia jpediíTe com todo o empenho ao marido, 
que por nenhum cafo levaíTeaquelle papel a ElRey; mas 
íe lembraíTe do call:igo,que o Ceo tinha dado a outro Má- 
dârim,por prefeguir aos Padres,& fazer mal aos Chriftâos. 
Foy eíle Mandarim hum dos mayores perfeguidores,que 
teve a Chriftandadc da Cochinchina. Mas chegou final- 
mente ao fim da fua vida tão mal empregada : & eftando 
para morrer , começou a dar efpantofas vozes , dizendo: 
Ah que rapazes portuguezes me eífáo queimando ah que 
me queimão vivo. E entre eftes laftimofos gritos efpirou 
raivoío 5 & defefperado. Foraó ver o corpo , para o com- 
por: &lhe acharão muytos finaes de queimaduras. Di- 
vulgoufe efte tremendo fucceílb pelos grandes da Corte: 
& todos cobrarão grande medo, & pavor. Afiím vai Dcos 
defendendo feus Milfionarios , apadrinhando feus Chrif- 
táos;ôc acreditando fua fanta? & divina Ley. 




Bbb iiij CAPh 



38i 



BREVES NOTÍCIAS DO 




CAPITULO XXXIV. 

Fornia^ rjue obfervaÕos T^adres Adifjionarios na vi fita das Cbrif" 

iandades. 

A M lie mais diligête a nature2:a na pro- 
dução de feus partos -, que cuidadofa em 
os confervar no fer ? que lhes deu. Antes 
osvay cada vez alentando mais 5 atè el- 
\qs chegarem a perfeyçaó de feu eílado. 
Nem com menor empenho obra a Divi- 
na graça; porque depois de ter regenerado as almas em 
Chriílojas vay íempre ornando com as virtudesjatè íerem 
perfeytas: aílim como as luzes da Aurora vão fempre cre- 
crecendo até chegarem à claridade do meyo dia. Com ef- 
tas advertências aíllílem os MiíIionarios:& eftes cuidados 
os trazê incançaveisna vifita das Chriílandades ; pois naõ 
aicançaó a fal vaçaójos q começaó a viver hê;mas os q per- 
íeveraó na boa vida atè à morte. Chegando o Padre Mií^ 
íionario ao lugar onde ha Chriftáos ? o primeyro cuidado 
he 5 preguntâr pelos doentes : que logo viíita.confeíla 5 & 
lhes adminiíèra os Sacramentos conforme o eíbdo 5 em q 
os acha: animando-os a levarem com paciência ? & alegria 
as tnoleftias daquelles achaques}& fe conformarem com a 
Divina v^ontade para o que ella difpuzer de fuás vidas. A- 
gafaíha-fe depois o mefmo Padre na Igrejgi, <fii cafa de ora- 
çaójquc alli ha: 5c ajuntando-fe boa parte daquelles Neó- 
fitos, pergunta ao Catequiíl:a,ou a quem corre com aquel- 
la Chrifiandade: fe ha nella algum efcandalo publico , ou 
notável deícuido em algúa peíloa contra a oblervancia da 
ley divina. Havendo eílas faltas > que não fe achaó tão fre- 
quentemente, trata logo òPadré do remédio neceíTario 
para as atalhar : apaíiguando diante de todos aos defavin- 
dos>& difcordes: reprehédendo com amor? & zelo de pay 

aos 



REYNO DA COCHINCHINA. 38:^ 
aos culpados: & aífirraando aos eícandaloíos, que naó haó 
de fer admitidos aos Sacramentos,íe não emendarem a vi« 
da; porque não merece perdão , quem contmua na culpa: 
nem he digno de le pòr à meza com íeu pay o filho , q lhe 
naó obedece. Remediadas as faltas publicas 5 começaóas 
confifsôes 5 gaftando nellas boa parte da noyte, & muytas 
noy tes inteirasjfe faó as Chriílandades numerofas. Acode 
os Chriílãos de noyte , para não faltarem de dia às obriga- 
ções do fer viço delRey,& do fuíféto de fuás familias : por 
cila raíaó todas as feftas daquelles naturacs íaó de noyte; 
por fer cfte o tempo mais defocupado. Não ha duvida -, <| 
no principio cufta muyto aos MiffionarioSípaíTarem mui- 
tas noytes continuadas no confiílionario;por fer trabalho 
muy violéto à natureza, quenofono acha feu mayor dcf- 
canço. Porém eftas fioytes faó as melhoresjôc mais regala- 
das ferias de feu efpiritu pela grande confolaçaó , que re- 
cebem das boas concicncias daquelles novos Chaifâos; 
porque não poucas vezes acontece : confeíFar hum lugar 
mteirojíem achar peccado mortal , que abfolver. Contet 
fo , que muytas 5 & muytas vezes me encomendava eu a 
Deos, & tomava por meus intercellbres aos meus penité- 
tes pela pureza das almas , que defcobria atè na gente mo- 
ça: né fò nos que vivião retirados em íuas cafas ; mas tam- 
bém nos que hiáo correndo Villa,& Cidades, por terra, & 
por mar,para o feu contrato, có que mayor parte daquel- 
les naturaes aílim homens como mulheres lullentão fuás 
vidas5& familias. Não podia eu ter as lagrimas movidas da 
devoção: quando correndo pelos mandamentos , muytas 
peíloas,que forão bautizadas jà grandes, chegando ao ícx- 
to,diíião: que antes de receberem o Bautifmo como igno- 
rantes da Ley de Dcos,tinhão cabido naquella culp:i; mas 
q depois de Chriítãs jà não fe atrevião a cometer tão grade 
oíFença de feu Creador. Bédito, ôc louvado fcja Dcos para 
íempre: cuja graça hc tão poderola, que de homens vicio* 
fos faz Anjos encarnados. 

Cce He 



383 . BREVES NOTICIAS DO 

He tão patente eíla mudança nos coftumes dos novos 
Chriílãos, que os gentios parétes5& aniigossCjue os tinháo 
conhecido outros , não íiibendo a que atribuírem aquella 
novidade da vidajpcrguntáo : que couia lie, a que fazé aos 
que recebem a ley dos Portuguezes. E porque vem , que 
lhes botão agoa na cabeçajcuidáo que aquelJa agoa healgu 
feitiço : com o qual os Chriílaos íicão loucos , & trocados 
nos dezejos , & nos coílumes ? fugindo do que dantes de- 
fordenadamente bufcavão5& exercitando-le cem muyto 
gofto nas virtudesjque dantes tanto aborrecião. Para pro- 
varem pois efiefcitíço,dizem,& divulgáo os Infiéis : que 
os Padres mandão bufcar os corpos mortos lançado no rio: 
& diftillando-oSítiraó aquelJa agoa , com que lavão a cabe- 
ça dos que tomãoa ley dos Portuguezes. Muy errado he 
eílejuizo dos Ido]atras;porèm algiia cícufa merecem. Po- 
is não tendo elles noticias?nem crendo no poder da graça 
divina íobre as paixões defenf readas da natureza : que ha- 
viao de cuidarjou dizerjquaodo virãojou ouvirão : que hú 
moço por nome Lourenço 5 peíToa principal de fua Villa 
11a Província de Cachão 5 chegando a húa eftalagem , tora 
viíitado de húa mulher mundana; mas logo q ocafto mo- 
ço entendera o danado íim da vifita ? cubrira íeu roílo c6 
o roupão5& cheo de medo5& de horror começara a gritar: 
Áfaftate de mim: vaite logo daqui defgraçada mulhennáo 
fabes que eu fou Chriftão ! AíTombrada a mulher daquel- 
la novidadcjretiroufc conf ufa: 6c Lourenço ficou focega- 
âo. Peyor fuccedeo à outra 5 que fc atreveo a entrar na ca- 
mará de hum moço ? que de meftre da falia fey ta dos ído- 
los fe pafsàra a fer difcipulo dejesv Chriílo:& depois de fc 
íer encomendado húa noyte a Deos , & rezando fuás ora- 
ções 5fccncoíl:ára para dormir. Entrada pois efcondida- 
mente a diabólica mulherjquatro vezes folicitou ao caílo 
Neófito. O qual na primeira vez a reprehendeo afpcra- 
niente : na fegundalhe fez grandes ameaças : na terceira 
lhe deu húa vaíentcbofetada: porém vendo a obílinaçam 

daquella 



REYNO DA COCHINCHINA. 584 

daquella fúria infernal , lãçou-íe de joelhos diante de húa 
Imagem do Senhor ? pcdindolhe íoccorro naquclle aper^ 
tojcm que perigava fua alma. Acudio logo Deos a deíalo- 
jar ao inimigojdepois de ter aflillido com auxilios ao ten- 
tado: fugio a mulher vencida , & acabou o cafto moço de 
alcançar a viétoria. Eíles, & outros femelhantes fucceílbs 
aos olhos dos Idolatras parecem doudices ; porque como 
tem por fua bemaventurança as torpezas;naó podemjcm 
quanto vivem peores que brutos? eílimar a pureza virtu. 
de mais que humanajôc toda angélica. 

Em quanto o Padre fe occupa em ouvir as confifsóes o 
Catequifta vay lendo livros, que cxplícáo os myfterios de 
noíTa Santa Fè > & eníinam a receber dignamente os San- 
tos Sacramentos : ou vay cantando vidas de Sãtos em ver- 
ío Cochinchina muy elegante; para deter a todos devota? 
& alegreméte. Por eílcs Iivros,ôc pregações ficáo os Neó- 
fitos também inílruidos em particular para o Sacramento 
da coníiííaójque antes de chegarem aos pés do Confeílbr, 
fazem fempre o exame de feus peccados com muytadc- 
ligencia 5 & o aâo de contrição com grande devaçaó : òc 
como na coníiífaó náo contaó hiftoriasjmas fomente dizé 
fuás culpas; por eíta rafaó em húa noyte fe da expedição a 
muy tos centos de peíToas. Pelas nove horas da noytCsquã- 
do tem chegado jà os que podião vir à Igreja 5 rezão todos 
o terço do Rofario,a Ladainha da Senhora, ou dos Santos, 
com outras orações: o que fazem com tanto acatamento? 
& dcvaçaõjfcm falarjíem fe encoftar ; có os olhos baixos, 
ou poftos na Sagrada Imagcmjque caufaõ nos gentios gra- 
de admiração, ôc cfpanto, & muyta cófufaõ dos Chriíláos 
Europcos. Pelas duas ? ou três depois da meya noyte tor- 
naó outra vez à reza: & eftâ acabada? entra a Miífa. Aílim 
como o Padre fe vay veílindo dos ornamentos facerdota- 
esjaflim o Catcquiíla em voz alta vay brevemente expli- 
cando o que fignifica o Amito, a AlvajO cingulo, oMani- 
pulojaEílola?aCafuIa: como também o mjílcrio deco- 

Cccij meçar 



385' BREVES NOTICIAS DO 

meçar o S?ccrc!cíc a Miíla em baixo com a confiflaó , de 
beijar o AltarjdocntroitOjdos Kiriesj de virar o rofto para 
o po\ 05&C: tocando a confideraçáo , que feapplica a cada 
húa dab íantas ceremoni&s, que o Sacerdote iaz por toda a, 
Ivjiíla. Acabado o Evãgelho , o Padre do meímo Altar lho 
explica:& ponderando huma atè duas coufas daquella fa- 
s^rada hiíioria provcitoías aos ouvintes , as vay provando 
tanibem com rafóes naturaesjôc parábolas 5 ou femeihan- 
ças: acaba finaln^ête a pregação, que dura menos de meya 
horajcom hum exemplo que coníirmajO que tem prova- 
do. Continíia depois a MiflajÔc a explicação do Catequif- 
ta: o qual logoque o Padre levanta o Senhor5Começa a re- 
zar de vagar ? & com voz maviofa hum aólo de adoração a 
Chriíío Sacramentado, & todos o repetem em voz baixa. 
Como também antes do Padre dar a Sagrada Comunhão, 
reza outro aóto muy devoto,com o qual convida ajesv 
Chriíío medico celeílial a vir viíitar a fuás almas, para as 
curar das chagas,q lhes tem caufado os peccados, dos qua- 
es íe arrependem, & propõem a total emenda. Da mefma 
maneira com outeo aéto lhe dão depois as graçasjpelas ter 
vilitado com fua real,& Divina preíença:pedindolhe for- 
ças para o fervirem , ôc amare neíla vida, tk depois o goza- 
rem eternamente na outra. Eítas explicações, & aftos et 
tão feytos pelos Padres, efcrevem não fò para efpertarem 
mais a atenção dos Neófitos; mas também para lhes faze- 
rem breve , & compendiofa lembrança dos myílerios de 
noíHi Santa Fè. Com que recebem ellas tanta confolaçaó 
efpirituaUque daó logo queixas ao Padre , fe o Catcquifta 
tal vez fe defcuida. Tão longe eftão de converfar no tem- 
po da JVíiíía,& de ter feus penfamétos eípalhados em cou* 
ias vãs,& ociofas. 

Poíl:o que em todas as oraçóes,que rafaó moílrem efíies 
Ghriítãos grande devaçaó nas de Paixaó porém de noíTo 
Redemptor todos fe desfazem em lagrimas: & em mayor 
copia nos officios das trevas 3 no lavatório dospes, & na 

adora- 



RE YNO DA COCHINCHINA. ^^6 

adoração da Santa Cruz em íexta feyra mayor : cantando 
dous Catequiítas de húa , 6c outra parte os impropérios 
vertidos em íua lingoa. He pois tanto o concurfo neíles 
diasjque para lião dai em que íofpeyi ar aos Mandarins, af- 
finalaó os Padres muy cos lugares , ou cafas,pelas quaes re- 
partem os Catequiftasjôc os Chriíláos. Mas como muy tas 
vezes corra voz de perfeguiçaó ; para não faltarem a eíhs 
piadoíasiôc doloroías lembranças da paixão , & morte de 
Jesv Chrillojmetcm-fe em embarcações grandes, que faõ 
toldadas5& como taças navegantes: Ôc indo andando pelo 
rio, vão rezando os officios da fomana fanta. He digna de 
reparo a grande devaçaójqueeíles Neófitos tem à Payxaó 
do Senhorííendo ella hua das coufas, em que o cego entê- 
dimento dos Infiéis acha mayor difficuldade: como he pa- 
dccer,& morrer Deos pelos homês,que o tem gravemêtc 
offendido. Mas com iílo moítráo os Chriílãos,terem ellcs 
a verdadeira Religiaó;pois tanto lhes facilita o crerjôc tan- 
to lhes facilita o crerj& tãto os aíFeiçoa ao mor deíle myf- 
teriojque aos Idolatras lhes parece loucura. 

Acabada a Miffa antes de amanhecer, voltaó todos para 
fuás cafâs: fò tícão os Catecumenos para receberem o San- 
to Bautifmo : & pafl^aó às v^ezes de trinta & quarenta. Os 
quaes aprendidas as orações , & inftruidos do que devem, 
crer, & obrar para ferem bons Chriítãosjfaõ regenerados 
cm Chriíto com as ceremonias da Santa Igreja. Grande 
heo rcfpeytOjquetem a feus Padrinhos5Ôc madrinhas: né 
he menor o defvelo deílesjcm os enfinar,ôc amoeítar? pa- 
ra que guardem perfeytamente a ley,que receberão. 

Naó faõ criveis os esforços, q faz o demónio , & as tra- 
ças de que ufa , para impedir o nafcimentodeftas almas à 
divina graça. A huns lhes aparece vifivelmétc,&: os amea- 
ça com mil males ) fercceberéo Bautiímo. A outros lhes 
caufa profundo fono , em quãto fe lhes prega o Catequif- 
mo. E a muy tos lhe dão taes accidentcs com fuor , & def- 
falccimento no tempo,em que fe reza o cxorcifmo , quo 

Cccíij ciara^ 



587 BREVES NOTICIAS DO 

claramente íe vò , ferem por arte do infernal inimigo dafr 
almas. Chega algúa vez a tanto atrevimentojque pergun-- 
tando o Padrcjíegundo o que máda o Ritual 5 fe crem fir- 
memente eíte5& aqueíle articulo do Symbolo; refpondé: 
que náo5& náo querem o Bautifmo ; tendo pouco dantes^ 
na inftrucção dito : que crião tudo , & pediáo fer bautiza- 
dos. Porém todos eftes impedimentos diabólicos íe tiram 
com beber agoa benta 5 ou com terra de Saó Paulo delida 
em agoa,ou com rezarem a Ave Maria à Virgem Senhora: 
para que ajude a laníar fora daquellas almas , & corpos ao 
infernal tyrano. Ehemuy evidente o Divino foccorro; 
porque ficáo logo efpertos 5 & foccegados, & com grande 
vontadcjôc muyta alegria rocebem o Santo Bautifmo. 

Eílas vexaçôesjque o demónio faz aos que não faó ain- 
da Ch ri ftáos : & o ficarê livres delias depois do Bautifmo: 
faó as pregações , que convertem boa parte daquelles In- 
fiéis. Porque aos inimigos cfpirituaes não os vence o po- 
der fingido : nem os affugenta a falfa Religião. He tão ía- 
bida dos Idolatras efta virtude fobre natural que os Neo« 
fitos a cada paífo faó chamados para lançarem demónios 
fora dos corpos 5 & dos lugares infeílados defras beíbs in- 
fernaes. Nem o ignorão os grandes ; pois tendo entrado o 
demónio no Mandarim fuperen tendente da cofinhado 
Principe herdeiro do Reynojcargo de muyta honra , por 
fer de grande confiança: os parentes do endemoninhado, 
que també eraó gentiosj chamarão aos feiticeiros , que di- 
zem ,& fe prefaó de ter poder fuperior a todos os efpiritos 
maligno. Porém o endemoninhado logo que os via? que- 
ria puxar de hum alfange , chamando-os embufteiros , & 
outros nomes mais aíFrontofos;pelo que eraó obrigados a 
fugirem com toda prcífa ? os que vinhão para vencerem. 
Teve noticias diílo o Principe, & mandou chamar huns 
feus ourives 5 que eraó Chriílãos. Naó fe encobrio ao de- 
mónio eíle recado;porque cheo de temor o Mãdarím ? ou 
o diabo nellcjcomeçou a dizer : Para que he chamar eftes 

ho- 



REYNO DA COCHÍNCHINA. 988 
homens. Ah mandaos virjpam me lançarem fora. O meí- 
nio foy aparecerem os Chriftãos naquella cafa , que fu^ir 
delia o Mandanm;mas alcançado pelos criados , íoy traíi- 
do por força a hua falajaondc íicavaó os Chriílãos. Logo q 
o mandarim os vio , lhes fez a todos húa profunda corte- 
íia com todo o acatamento em prefença de grande multi- 
dão de gentios. Começarão os Chriíiãos a rezar as coftu- 
madas oraçóesjcm particular húa a todos osAnjos.da qual 
ufaó neftas occafióes: pedindo àquellcs Efpíritos celeíHa- 
cs tam poderofos5que aflim como vencerão 5 & puzeram 
cm fugida do Ceo a lucifer , & ícus companheiros 5 aííim 
'OS desbaratem5& âíf ugentem agora daquelle corpojôc lu- 
gar : para que naõ vexem as creaturas remidas com o pre- 
ciofo langue de Jesv Chrifto. Coufa efpantoía. Por virtu- 
de occulta ficou o Mandarim como prezo >& apertado 
com cordas nos braços: & continuando os Chriítãos com 
fua reza? foy.obrigado o inimigo infernal alargar, & fugir 
daquelle corpo. Levou logo hum pagem as novas deite 
fucceíTo ao Principe , poíto que foíTe alta noyte : do qual 
teve húa afpera reprehençaó , por lhe naó fazer avifo da 
chegada dos Chrirrãos;porq também elle queria affiílirjÔc 
ver aquella grande maravilha. Por eífe irrefragavel tcfti- 
munho da verdade de noíía fan ta Religião muytos rece- 
berão o Bautifmo. O Principe deu licença a efte Manda- 
rim5& a íua mulher, para ferem Chriílãos : começou a ef- 
timarj&a favorecer mais aos Neófitos: tinha fempreo 
Calendário das feílasjôc jejunsjque os Padres fazem,ôc re- 
parte cada anno pelos Catequiíks : d>c aos Fidalgos Chrií- 
tãos fcus criados cllc mcfmo lhes lébrava os dias de guar- 
dajôc dcjejum;fò lhes encomendava a cautela 5 de não fa- 
zerem cm publico algúa ccremonia da Icy : para naó daré . 
defgoílos a ElRcy fcu pay 5 que com tantos rigores a pro- 
hibia. 

Naó foy de menor gloria de noíTa Santa Fè outro fuc- 
ceíTo 5 que houve neíle tempo na mefma Corte de Sinoa. 

Ccciiij Húa 



589 BREVES notícias DO 

Hua fidalga mulher de hum Capitão de Infãtaria ambos 
gentioSíCra muy vexadado comum inimigo: &para fe li- 
vrar de tão cruel cativciro/c queria valer do Santo Bautií- 
íifrao. Mandou chamar ao Catequifta ? & os Chriíláos ve- 
iinljos,que todos eraó pefcadores 5 para que a enfinaíTem^ 
& inílruiíTem na Ley de Deos. Foraó: & eílando ella com 
ieu marido aííentados no cítradoj aíTentaraó-fe elles no 
chão fobre húas efteiras, como he o coftume. Começou o 
Catequifta a falar 5 & com grande confiança em Deos re- 
prehendeo ao demónio 5 porque tivera atrevimêto de en- 
trarj^c moleftaraquclia Senhora creada à imagé de Deos, 
& remida com o precioíò ftngue de feu Divino Filho. Pa- ' 
TO. que pois o Mandarim marido foubeíTe, & vifíh com Te- 
us olhos o poder da Religião Chriftá,mãdou ao demónio, 
<í]UQ fizeíle cortefias a todos os Chriftãos ? q alli eftava pre- 
íentcs. Levantou-fe encontinente a Senhora, 6c com gra- 
de íilencio 5 & acatamento foy fazêdo para cada hum dcl- 
lesaquellas cortefias chegando com a cabeça até o chaó. 
As quaes acabadas 5 perguntou o Catequifta ao demónio, 
porque naó fizera as mefiiias cortefias ao Mandarim , Se- 
nhor daquella caía. R^íppndco muy fobcrbo pela bocca 
da Mandarina : Eu as fiz àquclles Chriftãos 5 por ferem fi- 
Jhos de Deos; naó porém as farei aos caens. Bem cntêdeo 
Mandarim , que por fer gentio naó era temido , nem ref- 
peitado do diabo: & mais eftimou efta noticia, que lhe de- 
ra;que íentioaaftrontajq lhe fizera. Inftruida pois a Man- 
darina foy bautizada pelo Padre com nome de Anna : Ôc 
com o Bautifmofe foy achando livre das diabólicas mo- 
leftias 5 que padecia. Forem depois de algú tempo entrou 
outra vez nella o demónio : &c chamado o Catequifta , rc- 
prehendeoefte afperamente ao infernal inimigo, por fe 
ter fenhorcãdo outra vez daquella creatura regenerada jà 
em Chrifto Redemptor das álmas,já filha de Deosjôc her- 
deira do Ceo. Refpondeo muyto humilde o demónio :Ti- 
nha eu faudâdes defta alma. Mas cótinuando o Catequ ifta 

com 



REYNO DA COCHINCHINA. 390 

com íua reprehençaó lhe óÁPi^c: Como te atreves a entrar 
com eíla Senhora na Igreja! Sò a acompaohalo, refpódeo, 
sté à porta da igreja? mas naó entro nella. E nunca mais 
mo]eí]:ou aqueila fidalga. Muytas vezes acontece neílas 
Chriílandadesjtornar o demónio a vexar por algum tem- 
po as meímas peílbasj depois de ferem bautizadas : permi- 
tindo-o affim Deos , ou em pena de naó terem buicado o 
Santo Bautifmo com fim mais defcntererado5& mais per- 
feytOjOU para confirmar mais o poder 5 que cllc tem dado 
â Teus Fieis com as repitidas vistorias do infernal inimigo 
das almas : que finalmente ficaó de tudo livres 5 & come- 
çaó a fer temidas delle, pelo lançarem fora de outros gen- 
tios,dos quaes fe víiy fcnhoreando. 

Eftas , & íemeihantes viciorias 5 que alcançou a Fè do 
poder do inferno no real campo da Corte de Sinoa 5 &c ca- 
da dia ganha nos m.ais lugares do Reyno,tanto mais admi- 
ráveis, quanto menos viftas naquella gentilidade : rende- 
rão 5 & vão conquiftando a muytos Idolatras. Porque co- 
nhecendo ellcs 3 verdade da Religião Chriíi:à,largaó logo 
a falfidade da fua feita mentirofa : & aliftados debaixo da 
bandeira doSal vador fazem cruel guerra ao demonioique 
para deíafogo de feu mortal ódio os moleftava naó fò nos 
corpos 5 mas também nas cafas 5 defcompondo as alfayas, 
quebrando a louça 5 atirando com pedras aos telhados , & 
fazendo outras hoftilidades : fò para os inquietar 5 molef- 
tar, & vexar. Scrviddo-fea Mifericordia Divina da cruel- 
dade dcífe infernal tyrano como de mcyo para a falvaçaó 
de fcus efcolhidos. 

Outro mcyo também toma a Divina Bondadc,para re- 
dufir ao rebanho de fcus predeftinados a muytas almas , ^ 
andão defgarradas pelo deferto dogentilifmo. Hceílca 
faudeíquc dà muytas vezes aos corposjdepois de lhes farar 
as almas. São tão notórias eftas curas todas ad miráveis , fc 
todas naó íaó milagrofas, que muytas peílbas a/Ilm plebe- 
asjcomo ixobres, & também de fanguc real te ndo algum 

Ddd menino 



59,1 BREVES NOTICIAS DO 

menino graveoiente docotCjchamáo ao Padre , ou ao Ga- 
tequiíra para que o bautÍ2,e5&-por eíre nieyo melhore , & 
íique valente. Nem fe lhe nega o baiitifnío ? achãdo-o em 
grave perigo de vida: encomendando fempre à algúa peí- 
íba Chriílá parãte, ou conhecida do menino o cuídadojde 
o criarsou ao menos aviíar das obrigações de Chriftão, fe 
viver, & chegará mayor idade. E Deos he fervido , dar 
moytasvezesa cftcs meninos có a vida da alma também 
aíaude do corpo. Com que fica convencida a falfidade, Sc 
defcubcrta a malícia dos mimigos de Chrifto, que dizem, 
& apregoaó: que dentro de pouco tempo morre,quem fe 
àdxíi lavar a cabeça cora a agoajque lhe botaójos que tem 
a ley dos Portuguezes ; chamandoa à bocca chea : hy dos 
mortos. 

Comosfelices fucceííos deftas curas dos meninos fo- 
raõ as peíToas grandes perdendo o medo ao Santo Bautif- 
mo;dv pelo niuyto que todos defejaó a faudc corporal não 
fsó poucosjos que vem bufcar as agoas facrâmentaes , para 
íllpacçarem também melhoras de íeus achaques , & vida 
nos perigos da morte. Muyto larga fahiria a hiftoria 5 fe fe 
apontaílemjpofro que brevemente eílas curas do Ceo;pe- 
lo que fe darâó noticias fomente de algúas de mayor evi- 
denciajôc de mayor credito de noíía fanta ley. 

Hum bom letrado mas^muyto roim gentio 9 pelo que 
tinha lido,& ouvido pregar ao Mandaarim Paulo da Reli- 
gião Chriftá 5 a louvava por verdadeira , & venerava por 
íaota;porêm não fe refolvia a fe fazerChriítãorporque fc a 
aprovava com entendimento , a aborrecia com a vontade 
dada toda aos vicips do paganifmp. Até que dcfcnganado 
da vida por hum mortal ^acciden te , que tirandolhe a fala, 
Ihé deixou os mais fentidos , pedio por íinaes o Bautifmo 
a Paulo,que ofoy v ifitar. Foylhe eíte explicando os myf- 
terios principaes da Fè5& os mandamentos de noffa fanta 
ley: & depois de o exhortar a hú pcrfcyto arrependimen- 
to de fuás culpas, o bautizou. Como Deos com efíe açou- 
te 



o DA COCHINCHINA. 592 

leíle mais,que a converlaó deíleletrndo, có 



REYN 

te não pretendi 
a graça facramental \\^ almâ lhe fez também mercê da vi- 
da do corpoj reílituindolhe logo a faude , que nao eípera- 
va. 

Muyto mais defefperado davidaeflavahum dos prin- 
cipaes Mandarins? ou Miniftros reaes na Província de 
Nuoc man ; porque alem do accidente mortal tinha o a- 
chaquc irremediável da muyta idadade jà decrépita. Acu- 
dirão os melhores médicos da Provinciajncm lhe faltarão 
as medicinas mais preciofas. Porém o enfermo fe achava 
cada vez mais pcrigofo de forte , que os médicos levanta- 
rão máo da cura;por naó efperarem jà melhora , & terem 
por certa a morte. Neítes apertos abrío os olhos do enté- 
dimento o moribundo Mandarim: 6c tendo jà noticias da 
Ley de Deos 5 quiz fegurar a falvaçaó da alma 5 viíto fer o- 
brigado a perder a vida do corpo. Mãdou vir ao Catequit 
ta3& com grandes rogos lhe pcdio, que lhe diífeííe , o que 
era ncccíTario para receber o Bautifmojôc morrer Chriílã. 
Depois de bem i nftr uido na Ley de Deos, & arrependido 
de todas as culpas,em que tinha cabido, foy bautizado 5 & 
chamado Andrc. Mas oh poder Divino! Aquellas agoas 
facramentaes foraó medicina faudavel para a alma, & para 
o corpo: ficando livre aquella dos peccados,& efre das do- 
enças. E para que a faude do corpo foíle tida por fucceíTo 
mais que humano;foy o velho ficando cada dia mais valé- 
lentc 5 & mais robufto 5 de forte que hia remoçando cada 
vez mais com grade aíTombro dos Idolatras. Naó foy me- 
nor o efpanto , que deu nos Infiéis da Provincia de Ran- 
ran , vendo no anno de mil & íeis centos quarenta & fet- 
te,a trinta ScbúapeíToa todas doentes, 6c quinze delias 
era grande perigo divida convalecerem todas , depois de 
recebido o Santo Bautifmo,q lhes dera húa m u Iher m uy- 
topia[> ôcmuy inteligente dos myfteriosde noíla fanta 
ley. 

Porque Deos hc como pródigo de fuás mifericordias 

Dddij naó 



593 BREVES NOTICIAS DO 

iiaó fomente pelo Sãto Bâurifiiio dava muytas vezes fau- 
dc aos enfermos ? & a vida aos moribundos ; mas tambcm 
po r meyo de outros pios inílrumentos, & faotos ritos da 
Religião Chriitã. Hum Catcquifiapor oonieThomàsa- 
vifou aos Padresj como na dita Provinda de Ranran mais 
de trinta pcfioas íicavaó , para receberem o Bautifmo : as 
quaes tiohaójâcóvalecidode diverfos achaques com be- 
berem í ò agoa benta? que elles lhes tinha dado : promete-^ 
do elles de lerem Chriíláos. Outro Chriílão farou a finco 
pefíbasjque na mcíma cafa eílavaó muyto docntesjcó lhes 
dar da terra de Saó Paulo delida cm agoa : & depois da fau- 
de do corpo alcançarão a da alma com o Santo Bautifmo. 
Naó era menos faudavel a agoa, que Lourenço dava aos q 
padecião grandes, & perigoías enfermidades depois de fa- 
zer fobre elles o final da Santa Cruz ; porque muytos Ia- 
ra vaó de repente. Admiráveis faò , 6c muy prodigiofos os 
cíieytosjque os Neófitos obraó por meyo do final da San- 
ta Cr uzjda Agoa benta 5 & Terra da Saó Paulo , lançando 
fora dos corpos as doençassôc demónios: & livrado as pef- 
íoas,cafasjôc fazendas dos infortúnios , que padecem os I- 
dolatrasjos quaesficao atónitos com eítes fucceílos nunca 
Viílos nos q ue tem a faíça feita dos feus Deoíes. Os rudes 
cqlâo afiombrados; os entendidos poré alcançaó : ler muy 
verdadeira a ley dos Chriftáos ; porque não pode fer hlfa, 
fendo eiia tão proveytofa às almas, & aos corpos co effey- 
tos iobre todas as forças da natureza. Eíle difcurfo convê- 
ceo 5 & converteo a hum Infiel bom Filofofo , & grande 
medico na Provincia de Ranran. Curando eíle hum me- 
nino , & conhecendo que o mal fe tinha apoderado jà das 
partes vitaesj^c que pelos princípios, & regras da medici- 
na a morte era infalivel;a vifou aos pays, que eraó Chrifiã- 
os,para que naó tratafi^em mais de cura, mas do enterro de 
feu filho. A eíias triíles novas começarão a fe desfazer cm 
iagruiias osdefconfolados pays; mas pondo toda a fua con- 
fiança em Dcos,rcfpondèraó : que viílo as medicinas naó 

poder eni 



REYNO DA COCHINCHINA. 5-94 
poderem íarâr a íeu íilhojellesihe alcançariáo faudedô 
Creador de todas as couías : & ajoelhados com os olhos, ôc 
mãos levantadas ao Ceo,pediraó a Deos, que foíTe fervido 
dar vida àquelle íeu menino , moílrando nelle as mai aví* 
Ihasjque leu Omnipotente braço coíkima va fazer em ou- 
tros para conf ufaó , & converçaó dos cegos5& obftinados 
Idolatras. Ouvio o medico a petição : & reparando na có- 
fiança , com que os íuplicantes efperavaó pela mercê da 
vida para o filho quando era mais que certa a fua mortej 
cheo de grande cfpanto diíle: Eu juro neíTe Deos, a quem 
vós pedis 5 que fe ncfta noytc o doente naó morre , de eu 
tomar eíía voíTa ley^ôc adorar a eíTe voíTo Deos;pois quem 
obra fobre as forcas da natureza hc Deos verdadeiro : 3c a 
ley , que elle manda guardar 5 he a verdadeira Religião. A 
penas amanhecco o dia : quando o medico foy para a caía 
do doente, cuidado que o achaíTc amortalhado. AíEm co- 
mo entrou pela portajdeu logo com o menino^que muy- 
to valente vinha andando para elle. Ficou aíTombradojCÓ 
cite encontro o medico infiel, & vendo com feus olhos o 
fucceiTo milagroío,conheceo o erro de fua feita 5 & cófeC» 
fou fcr verdadeiro o Deosja quem os Chriftãos adoravam. 
Bufcou logo o Padre,6c pedio o Bautiíimo. Foy inftruido, 
& depois bautizado com grande gloria da Religião Chrif- 
tâ 5 & muyto proveito das almas ; porque viíitando doen- 
tes gentios, com naó menor cuidado fe occupava em lhes 
prègar,& dar noticias do verdadeiro Deos;que em lhes re- 
ceitar, & aplicar as medicinas: curando có eílas os corpos? 
& com aquellas farando as almas. 
-r De mayor credito de noíFa fanta Icy foy o tcftimunho, 
q deu outro iníignc medico da verdade da Religião Chri- 
tíã,por experimentar em fy mefmo a virtude de noíTa fã- 
ta Fè. Adoeceo efte em Cachaó , lhe foy crecendo o acha» 
queíem obedecer aos medicamentos, 6c era jâ mortal. 
Neíle eílado o achou o Mandarim Paulo na vifíta,que lhe 
fez como amigo: &: reparando no perigo da morteeterna 

Ddd lij da» 



395 BREVES NOTÍCIAS DO 

daquella alma iníiel 5 a quiz curar có medicinas mais avé- 
tejadas. Começou a praticar da ley dos Chrifiáos , &z moí- 
trou como fomente nella havia íalvaçaó , & bemaventu- 
rança;pelo q vífto não lhe fer jà poiíivel5CÍcapar da morte 
temporal do corpoj trattaíTc de íe livrar da eterna da alma 
recebendo o Santo Bautiímo. Convencido o doente dar 
rafóes de Paulo 5 & amedrontado com o temor de perder 
com o corpo juntamente a alma 5 moílrou vontade de fe 
fazer Chriíláo. Contentoú-íc por então Paulo daquella 
melhoria? & guardou para o outro dia as particulares no- 
ticias do cateciimo : fò lhe encomendou,q repetiííe muy- 
tas vezes os Santiffimos Nomes de J E S V S M A R í A 
pedindolhes, lhe valeíTcm naquelle tempo,para elle con- 
íeíTuir a graça , & a vida eterna. Obedeceo eíle doente na 
alma ás ordens de feu medico efpiritual , & toda a noytc 
efteve chamando por J E S V S MARIA. Os da famí- 
lia cuidarão, que deliravâ;por naó entéderem^o que difia; 
mas quando o tiveraó por mais defconíiado da vidascntão 
o achàraó mais valentCjôc vigorofo. Saroujôc com húa fua 
filha recebeo o Bautifmo. 

Aos bautifmos deites dous médicos ajutarei outros de- 
us de duas mulheres? q com fuás mortes deixarão naquel- 
les idolatras muy to mayor eíliimaçaó da Ley de Deos.Hú 
Chriftáojôc Catequifta chamado André hia correndo as 
villas, & lugares, fazendo íeu contrato para o fuílento de 
íua familia : caçado jà, deu com húa cafa entre os boíqucs, 
& entrou nella , para tomar algum defcanço , & a pagar a 
grande [eÓQ:, que trafia. Eftando pois converfando com o 
cafeiro5que era gcntio,ouvio húa voZjque fahia do interi- 
or óà caía , & defis: Hà por ventura alguém , que me taça 
charidade. Perguntou logo André ao cafeiro,de quem era 
aquella voz tão fraca que parecia fer de peíToa m uy to do- 
ente. Refpondeo : que era de íua mãy velha jà de oitenta 
annos, & paralítica: a qual havia três annos , que não fala- 
va;porèm naqucllesjtrcs últimos dias lhe tornara a fala5& 

efíâva 



RE YNO DA COCHÍNCHINA. 996 

cfo va a repetir continuamente fo aquel las palavras.Pedio 
André licença ao filho ? para viíitar a mãy : à qual pergun- 
tou: que queria. Abrio logo a velha os olhos , & repetio as 
meínias palavras. Inftou AndrCjdizendorPois que obra de 
charidade quereis que nosfaçaó? Reípondeo a doente:Li- 
vraime dos peccados. Entendeo logo Andrcjq Deos que- 
ria falvar aquella alma,& começou a lhe pregar ? enfinan- 
dolhc o que havia de crer? 5: obrar para fer Chriílã. Ouvia 
tudo a velha não fomente com muyta atenção mas tam- 
bém com grande alegria do rofto , moílrando nelle a con- 
folaçãoj que fentia na alma. Inítruida já do que era necef- 
fario,lhe perguntou Andrcjfe queria receber o SátoBau- 
tiímojpelo qual ficaria logo livre de todos os peccados 5 Ôc 
regenerada em Chrifto Redemptor das almasjpara depois 
da morte herdar a gloria eterna do Paraifo. Refpondeo: 
Quero quero.Foy bautizada com nome de Anna,cuja al- 
ma depois de dous dias voou ao Ceo , como piamente de- 
vemos crer. Cauíou eíte fucceíTo grande efpanto nos ido- 
latrassque o ouviraó;porque tornarlhe a fala, chegar nefte 
tempo oCatequiíla , ouvir ella com tanto gofio o catecif- 
mo>Ôc depois de receber o Bautifmojmorrer quaíi logo,ôc 
tão íoccegadamente : todas cftas circunftancias eraó pre- 
goeiras da verdade da ley dos Chriílaos; porque todas naó 
podiaó fucccder acafo, maseraó admiráveis difpofiçóes 
do Crcador,& Senhor de todas as coufasja quem os Chrif- 
táos adoravào;pois fò ellc podia difpòr tudo como5&: quã- 
do quizcíTe. 

Có igual 5 ou mayor aílbmbro ficarão os Idolatras quâ- 
do ouvirão ? o que fuccedèra na mefma Provincia de Ca- 
chão. Morava perto de Faifò húa mulher de noventa aa- 
nos de idade jà cegajôc furda ; porém pelas noticias q dan- 
tes tivera da ley dos Chriftãos , pedia muy tas vezes , que a 
bautizafiem. Como nem podelTe ferinítruida por falta de 
ouvido 5 não percebendo nem ainda as vozes mais fortes 
dos de fua farailia: nem foubcíTe ler , ficava a velha impof- 

Ddd iiij íibili- 



3^97 BREVES NOTICIAS DO 

iibilitâda para receber o Sa o tx) Ba u ti ira o. Mas não faltou 
Deos cm acudir àquclla alma neíle total , & mais pcrigofo 
defemparo. Eihvâ a velha muyto doente, & quaíi aponi- 
2-ante : quâdo lhe entra em caía hum Padre a viíitala. Reí- 
pôde logo a doente a propoíito. Alegrão-fe todos: & cno« 
ra o Padre de contcntamentojvendo aberto o caminho da 
falvaçaò daquclla alma atè então tapado có a íurdeza tam 
grande, & táo continuada. Começa a lhe explicar o catc- 
ciímoj ouvindo tudo a Catecumena pcrícytamcnte. De- 
pois deinftruida foy bautizada : nem fe deteve muyto na 
terra aquclla ditofa alma perfilhada de Dcos 5 & herdeira 



Creceria efte Capitulo em hum grande IÍ¥ro,íe fe con» 
taíTem nelle todos os prodigiofos bautiímos 5 pelos quaes 
noíià fanta ley tem ganhado na Cochinchinâ grande con- 
ceitOjÔc Vây cada dia grangeando mayor eftimaçaó. Acabo 
pois com hum íò fucceíTo ; por haver fido de grandilfima 
confufaÔ5& defengano aos Infiéis , 6c não de menor con- 
folação,6c confirmação para os Neófitos. Achava-íe hum 
gentio muyto doente na Província de Nuoc man •, de ti- 
nha jà gâílado quanto pofiuia com os feiticeiros. Cuidam 
eílesnaturaes 5 que todos os achaques faó cauíados pelos 
demónios, & não da intempérie , & cxc^íTo dos homens: 
por eík rafaó em adoecendo , chamão logo a cíles embuf- 
teiros , para lhos lançarem fora dos corpos ; nem por iíTo 
deixâo de tomar quantas medicinas lhes derem. Final me- 
te os medicoS)& feiticeiros comem a mayor parte da fazc* 
da deites cegos idolatras. Reparando pois o nofib doente, 
que nem os demónios o largavão , nem lhe aproveitavam 
os medicamentos: por confclho de hum feu amigo Chrif- 
tão reccbeoo Sáto Bautifmo , no qual foy chamado Igna- 
cio. Na tarde do mefmo dia 5 cm que foy bautizado , per- 
deo Ignacio os fcntidos , íem lhe ficarem findes de vivo; 
pelo que todos o tiveraó por morto: & deíla maneira eftc- 
ve toda aquella noytc. Porém ao romper da aurora 5 tor- 



nou 



REYNO DA COCHINCHINA. 598 

nou Ignacio em íyjabrio os olhos 5 & contou aos circuni- 
tantes ? que cm grande numero íe tinhaó ajuntado para o 
fcu enterro. Chegara ellc às portas de huma fermoíiílima 
cidade3& M ouvirá húa muíica m uyto mais fuavcjq quã- 
tas podia haver na terra: 5c poílo que elle não tiveiTe apre- 
dido letrasjcó tudo Icrà o Teu nome,&: os de m uytos Chri- 
ftãos elcritos nos muros daquclla Cidade. Vira depois a hu 
homcícuja gravidade, &c mageftade do roílo não íabia clle 
explicar: do qual ioy perguntado : Se queria tornar outra 
vez ao corpo. E lhe reípondcra: que jà fe enfadava da vida 
no mundo , & fô dcícjava viver dentro daquclla Cidade; 
porém que o homem o mandara voltar 5 ale dcípedirdc 
dous parcnteSíque não cílavão prcíentcsjquando perdera 
os íentidos:quc cílcs dous chegarião o dia depois a taes ho- 
ras5& feyta a dcípedidajiria então morar naquella Cidade. 
O fucccffo confirmou a verdade da viíaó ; porque chega- 
rão os dous apontados na hora aííinalada : 6c acabado Igna- 
cio de contatjo que tinha viílo , & lhe fora mandado : de- 
pois de fc defpcdir dos dous parentcsjôc dos mais, que em 
grade multidão tinhaó acudido aquella novidade , cxhor- 
tãdo a todos , a que dcixaíTcm de adorar aos demónios nos 
idolos,ôc foílcm adoradores do verdadeiro Deosjrecebcn- 
do,ôc guardando a Lcy dos Chriílãos: fechou fuavemente 
os olhosjôc fahindo deíle deílerro , foy morar,como efpe-* 
ramos,na Pátria dos Bemavcnturados. 

Com eíics admiraveisjôc prodigiofos fucceiTos apregoa 
Deos àquelles infiéis, & confirma por verdadeira íua ían* 
taFêjÔc divina lcy : para que largando eileg o caminho da 
perdição de fuás almas, entre por meyo da Religião Chri- 
ílã nas eternas moradas do Ceo. 

Vejome obrigado para complemento dcftc Capitulo a 
fatisfazer à piadofa caridade dos que defejãofaber, como 
andáo os Padres nas vifitas dos Chriftãos ncíles tempos de 
perfcguiçóes5& áe tantos rigores para com os que profef- 
íaó 2, Ley de Deos. A iílo fe refponde : que aíum como a 

Eec Chariv 



399 BREVES NOTICIAS D 
Charidíldc obriga ao Miíiionario a íer todo de todos íeiíi 
cxcciçao de peí]oa;aíIim também o hz tomar o trajojquc 
coiííornic o lugar 5 & tempo he mais conveniente para a 
fàlv^iÇàò das almas. Pelo que hus ufavaô dos vcítidos Chi- 
nas: outros dos j apões : ultimamente dos mcímos natura-^ 
es Cochinchínas:& aígua vez veílem também os dos Por^ 
tuguezes. Eíles disfarces fò aproveitão de longe, para que 
não fe faça reparo na peílba;porque de perto as feições do 
roâo dos Padres Europeos logo os dão a conhecer por ef- 
traogeiros. Se hajquem o eftranhe, fc lhe diz : que poiio q 
o homem íeja natural do grande Occidétc, com tudo lhe 
contenta mais o trajo Cochinchina: & indo correndo cu- 
rioíamentcos Reynos5& Cortes do Oriente,fe detém alli 
por algum tempo, para defcançar5& també por ferem a- 
quclles ares muy fadiossâ nação grandemente cortez, & o 
Rcyoo niuy abaftado. Nem todas cif as invenções faõ baf- 
tãtcs, para os Padres penetrarem o interior de algúas Pro- 
vinciasjôc lugaresjpelas rigurofas prohibições? Òc grandes 
vigias,que não permitenijque íà chegue eftrangeiro algíi. 
Mas entâo ufaó delta traça. Os criados Chriílios de algum 
Mandarim amigo dos Padres,ou bem aíFedio â ooíla lanta 
hy-, metem o Miíiionario em hua rede cubertii por cima> 
da maneira em que vão as fenhoras nobres, fem ninguém 
as poder ver;& com aquclle cortejo o Icvàò fem receo das 
guardasjquecuidaõ fera mulher, ou parenta do Manda- 
rim, amo daquelles criados. O que parecia mais infupera- 
vel 5 era a entrada nâs cafas dos Mandarinas , & outras Se- 
nhoras priacipacs,aonde naó põem pòos eílrangciros,né 
ainda todos os parentes. Mas a charidade,q hc engenhofa> 
atè iílo vence , fazendo-fc os Padres médicos : com o qual 
disfarce podem entrar livremente cm toda a cafa fem re- 
ceo,nem ha quem reparc.Para efte fim levaõ os Padres hu 
caixotcíinho com varias medicinas,& ungucntos:&: cora 
cfce íâlvo conduto fe detém ncftas cafas?dizcndo occulta- 
nientc Miffa,& Sacramentando as Senhoras? & fuaá f^mi- 

liâS. 



REYNO DA COCHINCHINA. . 400 
lias. Porem íe os maridos faò gentios 5 ôc inimigos da Ley 
de Deos , então eihs fcn horas bulcaó algúa caía de paren- 
tajou amiga Chriírá: oc indo a ella com pretexto de viíita, 
alli recebem do Padre os Sacramentos : & tal vez abre bu- 
racos na parede de húa5& outra caía, 6c fe confeílaó como 
frcyras. Naó he a adminiftraçaó dos Sacramentos , o que 
dâ mais cuidado aos Miírionarios;porque o grande fervor 
dos Neófitos inventa? & facilita os meyos ; mas hc a obri- 
gação de ter muytas curiofidades 5 có que regalar aos Go- 
vcrnadorcsjÔc Mandarins das villas? & lugares. Pois fe ef- 
tcs fe moftrarcm amigos do Padre 5 não fe atreverá o gen- 
tio a pefquifarjO que o Padre vem fazer: nem accufarà aos 
Chriílãos. De outra maneira o Miílionario naó pode 
exercitar feu oíEciojComo convcmmem os Neoíitos aco- 
dem íem temor , o qual muytas vezes impede a falvaçani 
de muytas almas. 

CAPITULO XXXV. 

Fidas, O' a cpÕes virtHofas de alguns Neojil os, 

OSTO que com os prodígiofos fucccflbs 
referidos noCapitulo antecedentejÔc ou- 
tros fcmelhantesque fe viraó naCochin- 
china 5 fiquem aquelles Infiéis inteirados 
da verdade , & fantidade da Ley de Deos; 
com tudo não fe renderião tão facilmen- 
te? fcanaô viíTem com exacçaó guardada pelos fus mef- 
mos naturacs : porque o exemplo he o motivo 5 que mais 
fuave5& eficazmente induz a vontade do homemjO qual 
naó deixa fempre de bufcar o bem por ignorarjmas pelas 
diíiiculdadesjque fe lhe reprefentaó no confeguir.Efta he 
a rafaó 5 porque coftuma Deos pòr na fua Igreja cm todos 
os feculos pefibas de efclarccida virtude : para que em ne- 
nhum tempo fiUtem vivos exemplares de fantidadcpara 

Eecij fcrçni 




401 ^ BREVES -NOTICIAS DO 
íerem imitados.Nem íaó poucosjos que íiicceílivamcnte 
reíplândccèraó na Igreja da Cochinchina ; porq alem dos 
que tcnics admirado atè agora neílas noticias:outros niui- 
íos houve naó dcííemelliantcs na fantidadeda vida ? nem 
menos defejofos de padecerem a morte pela guarda da di- 
vina ley. 

Admiráveis foraó os cxêplos âindâ de perfeyçaó Chri- 
f£á?que hum David deixou aos feus naturaes no principio 
da pregação do Sáto Evangelho ncftc Rcyno da Cochin- 
china. Foy homem de grades letras : & como viveíle mo- 
rahiicote bem íegundo o que podia alcançar com a luz 
da raíaójtcve fempre muy to cuidado, ôc grande deíejo de 
acertar com a verdadeira Religião: para nâo ir dcíviado do 
caminho da bemaventurança das almas. Pelo que depois 
de ihe morrer a mulher , não tratou de outras bodas : para 
ter liberdade de correr terras , bufcando que lhe deíle no- 
ticias de algíia leysq contcntaíTc, ôcfatisfizeíle ao fcu gra- 
de entendimento ; porque nos livrosjetrâdosjô^ Bonzos 
de fua nação achava mil cótradiçócs, ôc muy di veria dou- 
trina em cada hum dclles. PaíTou-íeao Tunquim ? & en- 
trou na Chinaxorrco as mais celebres Univeríidades , & 
converfou com homens mais cminétcs em letras, & mais 
verfados no culto dos Deofcs. Porem reparando nafalíi- 
dade dos dogmas , por ferem oppoftos a todo o bõ difcur- 
fo; ou ao menos fingidos pelo gofto de csda hum, por naó 
haver entre clles uniformidade na doutrina; refolveo-fe a 
tornar para a fua patriajvoltando muyto mais confufo, & 
muy to mais perplexo , do que fahira. Da perda de tanto 
tempo3& das grandes defpcfas cm tão prolongadas viagés 
fò tirou as noticias de huns fecretos de medicina eníina- 
dosjcomo fc fofpeytava, pelo demónio ; que com cftes la- 
ços o queria fegurar mais no feu cativeiro. Chegado ao 
Tunquim, quiz oftentar fua nova arte,& có feliz j ucccílo 
fez Várias curas de achaques muy perigofos , & defeípera- 
dos. Crecco tanto a fama deíle novo medico,que íoy cha- 
mado 



REYNO DA COCHINCHÍNA. 402. 
niaco para curar a EiRcy muy gravemente enfermo ? &c 
quafi ícm eípcrança de vida. Folgou muy to David de ter 
cfta occaíiaó, em que feu nome ficaria eternaracte glorio- 
ío:& nâó fomente fc oíierecco ao curar;mas de terminou 
ainda os dias , entre osquaes poria a ElRcy livre dos peri- 
gos da mortC5& muy valente de forças.O íuccefío confir- 
mou a promcífainem faltou à Real Magnificência com os 
prcmiosj & honras a quem lhe confervàra a vida. Porem 
como os bens dcíle mudo fejaó todos húa verdadeira vai- 
dadcjnaó podem t pagar a fede do coração dos homês ver- 
dadeiramente prudentes, que fò apetecem a eterna bem* 
aventurança. Por efta rafaó naó achava ainda David foc- 
cego 5 6c vivia cada vez mais cuidadofo da Religião 5 para 
naó perder a alma , cuja morte leria eterna. Pelas cxquifi- 
tas diligcncias^quc fez? íoubc de húa tradição , que corria 
jà pelos velhos Tunquins , fem achar donde fthira ? nem 
quando começara. Q^Je homens de dentes brâcos,& muy 
virtuofos paíTariaó das partes do Sul ao Tunquimjpara al^ 
li enfmarem a verdadeira Religião. Grande toy a alegria, 
6c contentam entOjque Díivid rcccbeo com eílas noticias; 
porém o ignoraríquãdo iíto feriajôc naó faber, íe clle che- 
garia a viver atè eíle tcmpojhe caufavaó mayor pena; po-» 
is a efperança dilatada he tormento prolongado. Para fa-» 
tisfâçaó dcftc feu defejo deufe a ler ? quantos livros trata- 
vaó de Religião, para defcubrir algum indicio de quando 
fc cumpriria efra tão conílante,& antiga tradição. Mas co- 
mo bufcava a luz nas trevas 5 & a verdadeira Religião na 
ftlft fuperfdçaó: ficou fruftrado feu defejo,Ôc lhe foy cre- 
cendo mais o medo de naó poder alcançar tão ditofos an^ 
nos. Pelo que pedia de continuo ao Ceojqucjou apreílaiTc 
os tempos 5 ou lhe alargaffe a elle a vida^para poder lograr 
aquellcs fclices dias5& receber a Religiaó,que o Icvaííc fc- 
guramcntc ao eterno dcfcanço. Poreftas molcíi.ias inte^ 
riores de fua alma ? & pelas exteriores revelàçóe:i do Rey- 
no de Tunquim voltou David para a fua Cochinchinaíêc 

Eeeiij íoy 



405 BREVES^NOTICÍAS DO 

foy moYíiT na Corte de Cachaó.x\ondc não miiyto deoois 
chegarão de Macao no anno de mil & íeis cétos &: quin- 
ze, os dous primeyros Padres da Companhia de fesv , que 
Gomeçòraõ a alumiar có a luz do Santo Evangelho aquel- 
las almas ícpultadas nas trevas de fua infidelidade. Aos 
primeyros avifos ? que David teve da chegada deíks dous 
homens apoílolicos ? entcdeo log05fercm cíles os prome- 
tidos da trgdição ouvida no Tunquim. Nem íe enganou; 
porque ambos erão Varões de efclarccida virtude : quaes 
os coítuma cícolher Deos para feus Embaixadores aos 
Reysjôc Reynos infiéis ? & para Coadjutores dos Apofto- 
los de íua Santa Igreja. Nem faltava o final dos dctes bra- 
ços; pois ambos erao Europeosjnem tinháo mafcado a fo- 
lha aromática chamada Bctlc , que aquellcs naturaes tem 
ieniprena bocca^cujo çumo eícurccea cobrancajôc ting« 
de 1*0X0 os dcntcs.Com.prio-fc também a tradiçãojquc íe- 
nielhantcs homês iriaó das partes do Sul ao Tunquin? pa- 
ra pregarem naqucllc Reyno a verdadeira Religião : por^ 
dos Miffionarios da Cochinchina 5 q fica ao Sul a reípeyto 
do Tunquim 5 alguns foráo abrir aquella MiíTaó no anno 
de mil 6c íeis centos 6c vinte 6c fette, 6c dcrão principio à 
con veríaó daquellas innumeravcis almas. Foy eíta não fô 
tradição dos homcsjmas também. Profecia infpirada por 
Deos;afiim comoo forãoos vaticinios das Sibyllas: difpó- 
do deíla maneira a Prudência Divina os corações dos Ido- 
Jatrasjpara quea feu tempo rccebefiem cõ mayor firmeza 
a ieyjque tanto antes lhe fora notificada: 6c naó rcccíiíTcni 
fer falia a ReIigião,quc o Ceo por tantos fcculos tinha de* 
clarado por verdadeira. 

Como fervo fequiofo correo logo David a fonte , buf- 
cou os PadresjÔc lhes pedio,quc lhe cnfinaíTcm a ley, que 
vinhaó apregoar. Em quanto os ouvidos eftavaõ occupa- 
dos com, muyta atençâõ ao Catcciímo , hiaõ-fe desfazédo 
em lagrimas os olhos do novo Catecumeno: procedidas 
parte da alegria ? por achar finalmentCj o quecõ tão largas 

peregri- 



REYNO DA COCHINCHINA. 404 
peregrinações , & por tão dilatados annos tinha bufcado: 
& parte nacidas do ícnrimento ? por alcançar tao tarde os 
erros de lua cega infedilidadc , cm que vivera atè àquclla 
idade de feíFenta annos. Como o homem foíTe de grande 
cntendimento,foy facilmente inílruido dos myíteriosjôc 
dos preceitos de nofia íanta ley: & para lhe cumprirem os 
Padres os fantos dcícjos de fcr Chriftãojfoy bautizado 5 5c 
chamado David. 

Apenas tinha Dâvid comcçadoa militar debaixo da bã- 
dciradc Chriílosquando logo pelo feu grande zelo da fal- 
vaçaõ das almas foy exercitando o oííicio, & cargo de Ca- 
pitáo,inílruindo com íuas letrassôc encaminhando có feu 
exemplo os fcus naturacs à eterna bemaventurança. De 
dia 5 & de noy te , cm todas as converçócs em que fe acha- 
va , ôcde propoíito bufcava ? ou foffca tépojou fora de té- 
pojcntrodufia fcmpre pratica da brevidade dcíla vida 5 da 
eternidade da outra ? do premio , 6c caftigo das almas no 
outro mundo: moftrando com rafóes a falíidade da fcittjq 
ellcs tinhaó 5 & a verdade da que cníinavaó os Padres Eu- 
ropeos. A grande authoridade do pregar, & os forçofos ar- 
gumentos,quc ellc traíia,& fobre tudo a celeífial luZjquc 
Deos piadoíamente coramunicava aos ouvintesjrcduíião 
Icmprcamuytos ao verdadeiro caminho da falvaçáo. A 
mayor gloriajôc goífo,quc David tinha, era levar em triú- 
fo cftcs vencidos de Chrifto , & vencedores do demónio, 
& aprefentalos aos Padresjpara que os bautizaíTem: & por 
ventura crão muyto mais as lagrimas de gozo efpiritual, 
com que David banhava feu roíl:o;que as gotas de agoajcó 
que os Padres lavavão aquellas almas. 

Efte extremado defejo da falvaçáo de feu próximo lhe 
procedia a David damuytacommunicaçãocó Deos. An- 
tes de anoitecer , hia tomar dos Padres os pontos da medi- 
taçãojna qual gaftava boa parte da noyte: & tão libcralmê' 
te repartia Deos de feu íanto amor co m cílc feu fiel , & a- 
mante fervo , que náo podendo a fraqueza humana Jcvsr 

Ece íiij tão 



405 BREVES NOTICIAS DO 
tão grande pczojllie eftremecía todo o corpo , até o fobra- 
do lhe tremia debaixo dos joelhos: nem achava alivio , fc- 
náo defcarregádo"fe com húa chuva de copioías lagrimas 
acompanhadas de abraí^dos 5 Ôcfcrvoroíos íufpiros. Do 
muyto gimor para com Dcos naícia cm David o grande o- 
dio a [y meímojreparando ter vivido ate à velhice não fo- 
mente cegojíem conhecer a ícu Creador , & Redemptor; 
niâs tão obftioado ainda cm o oííêder :& cheo de íanta ira 
tomava juíia vingança , diciplinando-íc afpcra , & cruel- 
mente 5 & ia2^endo outras muytâs penitencias fupcriores 
âs fuás forças , poílo que muy interiores aos feus defe- 
jos. 

Com eíla vida penitente, d^ fcrvorofa foy Deos difpó- 
do a David para húa fanta morte. Logo q adocceo , & en- 
tendeo fer o mal perigofo , pofto de joelhos deu graças ao 
leu Creador do mimo que lhe mandava: pedindolhe jun- 
tãmente^quco livraíTe jà da prifaó do corpo;porque ncíla 
vida fempre o ofFendia,dcvendo-o fò a mârjà ícrvir. Aca- 
bada cila affeâuofâ oraçáojdeítouíc , & tomou algum fo- 
lio no qual lhe parccco ver a hum fcrmoíiíílmo rnáceboj 
que traíia nas mãos três túnicas muyto ricas ? & niuy vií- 
toías: & entédeo fer avifo de fua próxima morte.Chamou 
ao Padre, recebeo os fantos Sacramentos , & foy paOando 
os oito dias de vidaíquc Ihereílavão em conferencias cfpí- 
rituaes có o Padre , & em aíFeótuofos colíoquics có Dcos. 
Acudirão os parcntessôc amigos idolatrasjaílim para cum- 
prirem com as obrigações do fangucjSc da amizade,como 
para obfervarem , qual feria a morte, de quem depois de 
velho deixara a antiga Icy de feus pays , & progenitores. 
Vio-os David ao redor de fua cama , &c poífo que cftiveíTe 
quaíi eípirando,com tudo fc lhe acccndco o zelo da falva- 
ção daqucilas almas,&: começou a prègar3dizendo:Parcn- 
.tes,& amigos meus chariílimos. A horajcm que me acha- 
esjhc aqueila,que trás cófígo o dclengano de todns as cou- 
fas defta vida : não deveis recear da verdade do que cu ros 

direi; 



REYNO DA COCHINCHINA. 406 
direi; porque mo ha mais lugar para as próprias conveni- 
encias,que tal vez fazem chamar bem ao mal, & obrigam 
a eníinar o falfo por verdadeiro. Digovos pois5& vos affir- 
nio com toda a certeza rque íò a ley , que pregão eíles Pa- 
dres eftrangeiros.he a verdadeira Religião; porque em tu- 
do he conforme à raíaô. Eníina eíla ley,que ha hum prin- 
cipio efpiritua^a quem chamamos Deos, todo poderofo» 
& cheo de todas as perfeições. He Creador^Confervador, 
& Governador de todas as coufas: & tão benigno,& mife- 
ricordiofo,que elle meímo deceo à terra? & tomou corpo 
humano,para converfar com os homésj & lhes eníinar as 
virtudes. Quiz tambê morrer por elles^para có fua morte 
corporal dar vidaàs noíTas almas mortas pelos peccados: 
para depois nos levar ao Ceo 5 de vivermos com elle eter- 
namente bemaventurados. Os preceitos defta ley fc fun- 
dão todos nos diclames da mefma rafaójque manda hórar 
aos mayores: a Deosjaos paysjôc aos mais fuperiores:& a a- 
mar aos outros como a Irmãos 5 porque todos faó creatu- 
ras do mefmo Senhor. He pois efta ley tão pura, que pro- 
ilibe toda a torpeza ainda ai nteriorjôc occulta do coração: 
& he tão fantajque aconfelha toda a acçaó virtuofa. Nam 
hcjnão he tal a ley^que fe guarda nefte noílb Rey no ; porq 
nem ella dà noticias da creaçaó do mundo5& muyto me- 
nos do homem : né prohibe todos os vícios : & os Deofes, 
que faó adorados , nem forão virtuofos 5 mas monílros de 
maldade : os quaes tratarão fomente de fua honra não do 
proveito de noíTas almas: occuparão-fe em grangearé para 
íi com embufles as adorações dos homensjuão em procu- 
rarem a noíía bemaventurança. Lede os no/los livros ? ôc 
lede os dos Chriftãos: & achareis naquelles grade patrocí- 
nio dos viciosj&muyta contrariedade na doutrina. Poré 
ncftes encontrareis fempre cóftate a reprovação de qual- 
quer mínima maldade, & admirável uniformidade em 
todos os dogmas.Parentes,& amigos meus:por ultimo fa- 
vor vos peço D que abrais os olhos do entendimento > para 

Fff conhe- 



407 BREVES NOTICIAS DO 

conhecer o errado caminho da idoJatriaíquc como brutos 
vos leva para o inferno. Tornai tornaia tra2/?& entrai pelo 
caminho real da ley dos Chi-iílãos^qadoráo a íeu Crcador> 
cbedeceni a fcu ScnhorsSc pelos nicrccíniétos de íeu Re- 
demptor eíperão o perdão de íeus peccados , & a bema v é- 
turaoça no Ceo. N ão pôde ir adiante com í ua pregação o 
agonizante David; porque lhe foy faltando com a refpi- 
ração a vòs: & pronunciando os Sacratiílimos Nomes de 
]esVi&z Maria Juavemente efpirou no anno feíTenta & oi- 
to de fua idade5& do Senhor de mil & féis centos & vinte 
quatro. O que deve cauíar grande admiração ? & efpanto 
deílc homenijuão he morrer tão pia,& fantamente, porq 
vivera como fanto : &c a morte ordinariamente he eco da 
vida; mas o grande empenho em bufcar a verdadeira ley 
em tantos annos,& com tantas defpefas , incomodidades, 
& perigos nas muytas,& prolongadas viagens. E nos que 
nacemos nos braços da FèjÔc com o ley te recebemos a ley 
de Deos , quão pouco aguardamos 5 íem nos cuílar mais q 
o querermos! Ah quão grande confuíàó cauíarà no dia do 
final j uizo ao noíio deícuido o defvelode David em achar 
com trabalho 5 òc guardar com perfeyção a ley fanta de 
Deos. 

Antes de fe apagar cila rcfplandecente tocha da fanta 
vida de Davidjaccédeo Deos outra de não menores luzes, 
para não faltar a claridade da perfeição Chriftã aos Neófi- 
tos da Cochinchini. No anno de mil Ôc féis centos & vin^ 
tetresnafceoem ChriíLo hum velho , que Provincia de 
Nuoc man exercitava o cargo de Juiz da força; & por iflb 
t hania.^i Ocum De linh , & no Bautifmo lhe foy dado a 
nome de André. Eíle he aquelle velho de crepito,que5co- 
mo fe diíle no Capitulo precedente,có as agoas facramen- 
taes recebeo a faude també do corpo , & cobrou forças de 
robufto mancebo. Achando-fe pois André com tantas o- 
brigaçóes à divina liberalidade , fe quiz moífrar agradaci- 
do procurando debaixo de todo o rifco è gloria de feii 

Deos, 



REYNO DA COCHINCHINA. 408 
.Deos, &z Salvador. Bem mourou cfcc íeu dcíempenho no 
anno de mil & íeis centos & vante & quatro em húa via- 
gem 5 que ellc fez por mar deíla Província à Corte de Si- 
noa. Toldoufe de repente o Ceo comdenfas5&erciiras 
nuvens: & quanto mais foccegado eílava o mar, tãto mais 
fe tcmiaó os marinheiros da tormenta : q no íilencío cof- 
tuma amotinar os vetos , & na bonança vaj pouco a pou- 
co alborotando as ondas. Quando desfecha de improvifo 
húa furiofa tempcíladc: os ventos , & as ondas acometem 
à^profia o naviojcófpirados ao foverterem. Largaò os ma^ 
rinheiros o governojaíTom brados do teraor:5c vendo ira- 
poíribih'tado o foccorrojdam medonhos gritos, & choraó 
miferavcis oinvcntavel naufrágio. Sò Andrefahcda ca- 
mara muy foccegado 5 chega-fe ao convezjà viíla de todos 
aquclles idolatras ajoel haíejevanta as mãos,&: os olhos ao 
CeojÔc pede a Dcos Mifericordia. Cafo prodigiofo! Dcfa- 
parecem logo as nuvcns,a cahnaó os ventos5focegaó-fe os 
mares,^: com o Ceo claro5Ôc ferenoj^ mar bonança con- 
tinuaò profpcraracntc fua viagem ate à Corte. Grade foy 
o pafmo,que deu na gente da nao; porém foy muyto ma- 
ycfr o aíTombro , que caufou a todos os da Corte fucceíTo 
tam novo, & tam portentofo. Huns privadamente apro- 
va vaó a ley dos Chrill:ãos;mas outros publicamête a apre- 
goavaó por verdadeira ; porque fomente os que aguarda- 
vaó,craó ouvidossôc foccorridos do Ceo. 

Com eftctão evidente patrocinio de Deos ficou Andrc 
muyto mais firme na Fè , & muyto mais adiantado na cf- 
pcrança em feu Creador : & cobrou tanta conífancia na 
guarda da divina Icy,quc propoz de a naó quebrantar , né 
por mercês promctidas,nem por caftigosamcaçados.Mas 
iiaópafibu muyto tempo, que o demónio o naó acome- 
teíTc com a tétaçaó , que hc a mais pcrigofa para os Minií- 
trosRcacs. Em hum dia do anno coftumão as cabeças das 
famílias da Provincia de Nuoc maníahirahum campo, 
para proteílarem alli vuíTallagcm , & pagarem os tributos 

Fffij a feu 



409 BREVES NOTÍCIAS DO 

a feu Rey. Para cílc íim Icvãtaó niuytos Altares ? í^rtnadí^s 
có ve]as,& perfumes para ornato das eílatuas dos Idolosjã 
fobre elles íc põem. Accodc infinita gente: & o Mádarim? 
a quem ElRey deJega por âquclle annoíoniar cftejura- 
2iiét05& arrecadar os ditos tributos , íiihc de fua cafa pom- 
pokmente veitido5& acompanhado da íoldadcfca? da no- 
breza j ôc de todos os Mandarins , que lhe ftzem aquelle 
cortejo comoà niefmapeílba Real. Nomeou ElRey no 
anno de mil & íeis centos , & vinte & finco para efta fun- 
ção a Andrçjpor fcr Míniftro de grandes prcndasjde mui- 
tos ferviços3& de conhecida fidelidade. Porém Andrc não 
aceitou a comiíFaójantes de ter informado ao Padre Fran • 
ciíco Buzomi da Companhia dejesv da maneira, com qus 
queria elle executar as ordens reacs,fcm qucbrãtar os mã- 
damentos di vioosiobedeceodo a feu Rey, & Senhorjno q 
iiaó foíle defobcdiente a feu Deos, & Redemptor. Cheo 
pois de admirável cófiariça no Divino patrocinio difpoz 
tudo nefta forma. Precedendo o acompanhaméto da Mi- 
iiciaída NobreaajÔc dos Tribunacs com íuas dívifas: fahio 
da cafa de André hum moço Chriílaó ricamente veíHdo, 
o qual levava com as mãos levantadas hum payiicl do Sal- 
vador do Mundo. Seguia- fe logo outro moço com hum 
chapeo grande de foi , que fervia de docel à Sagrada Ima- 
gem. Vinhaíinalmentc AndreacavallO)trazendona maó 
direita hua Cruz levãtadajua qual tinha fenipre os olhos, 
com a cabeça algum tanto inclinadajcomo quem a eíhva 
venerando , & adorando : & deíh maneira entre coros de 
muíicos inílruraentos foy correndo as princípaes ruas da 
Cidadeatè chegar ao campo. Aonde mandou levantar hu 
Altarjpara efte eíFcyto aparelhado? no qual foraó colloca- 
das a Sagrada Imagem , & a fanta Cruz. cercadas de flores^,' 
lumes 5 & perfumes. Apcoufe André , & diante daquella 
innumcravel multidão de Idolatras pofto dejoclhos as a- 
dorou três vezes profundaméte. Levantou-fe depois em 
péj& virado para todo aquelle auditoriojque ficava atoni* 

to 



REYNO DA COCHINCHINA. aio 

to da novidade , lhe íoy moftraco com raíócs : Como era 
enormillimo erro adorarem ellcsas eftatua.sque ficavam 
nos outros Altares ; por ferem figurí s não de deoíes ? mas 
dos que na natureza foraó fomente homcs , & nos coíla- 
mes rauyto pcores que brutos ? pelo que fe achava nos li- 
vros de fuás vidas. Somente o Deos dos Chriílãos era vcr- 
dadciro;pois erâ o Crcador de todas as coufas5& pcrfeytif- 
limo em todas as virtudes : & poíto que foífc igualmente 
jufto que mifericordiofo; com tudo ufiva mais da clemê- 
cia que do rigor. Porque podendo caftigar os homens co 
eternas penas no inferno 5 merecidas por feus pcccados; 
quiz elle mefmo vir ao mundo, & padecer? ôc morrer na- 
quella Cruz : para que livres daquelle caftigo ? podeíTcm 
também entrar nos perpétuos gozos da gloria. Pelo q fo- 
mente efte Deos devia fer adorado de todos; porque fò el- 
le era Creador de todos: devia fer fervido de todos;pois fo- 
mente elle era o Redemptor de todos : 5c todos dcviaó a- 
mar a eílie Deos com todas as forças do corpojôc potenci- 
as da alma;porque fomente elle quiz tãto a todos 3 q além 
de os crear , &: remir j lhe tinha aparelhado ainda eternas 
glorias no Ceo. Acabou cfra fua pregação, com dizer : que 
tão certo eílava elle de fer verdadeira a Icy dos Chriílãos, 
que para a não largarjpadeccria antes todos os tormentos, 
8c perderia mil vidasjfc tantas tiveífe. Ficou atónita, & af» 
fombrada toda aquella multidam: vendo a hum principal 
miniftro da real fazenda trocado em pregador da ley dos 
Portuguezes: & naquella publica funçaó , em que repre- 
fentava a PeíToa Realja provar o que feu Rey prohibia , & 
reprehender o que íèu fenhor mandava. Cada hum calla^ 
va por medo,fem louvar, nem eíl:ranhar,o que André di* 
fia,& fafia;porèm nos bem entendidos caufavaó grade có« 
ceito da Ley de Deos aífmi a authoridadc do Prcgadorjco- 
mo a evidencia das rafóes. Diante do mefmo Altar com o 
roíío fempre viradcÔc inclinado às Sagradas Imagens foy 
Andrc tomando a vaífallagem , & recebendo os tributei: 

FíFiíj daqueli^ 



411 BREVES NOTICIAS DO 

daquellcs naturacs: ôccom omeínio.icornpanhaniento 
voltou para íua cafa 5 levando cllc na mão direita a íanta 
Cruzem triunfo. 

Toda efta piâdoía 5 & Catholica oílcntaç-aoDque André 
fCL de Rvci fèjnão baftou para fatishzcr aos grades defcjcx^, 
que clle tinha de honrar5& eníalçar o noine, & Icy de íeii 
Crcadòr. Por iílo devcdo clle nieinio levar a Corte todos 
aquclics tributos 5 para niayor gloria de íeu Redcmptor,' 
íeiíi reparar na perda dos bensjck da vida , a que fe arríka- 
va 5 mandou pòr nas bandeiras do navio , cm que elle hia 
embarcadojO S^ntiffimo Nome de jcsv , cfcrito cõ letrns 
de ouro muyto grandes com dourados rayosem circulo: 
profeíTando claramente vaílallagcm,& fidelidade a Chri- 
ílojainda quefoíle publicamente perfcguido de íeu Rey, 
& de todos os grandes do Rcyno. Com cíb bandeira ócÇ- 
pregada navegou , entrou nos portos mais frequentados, 
& deu fundo diante do Paço Real. Todos cuidavaó , que 
os grandes, Ôc muyto maisElRey tomariaò por muyto 
deíprezos das prohibiçoes reacs aquclla oftétaçaõ de An- 
dré : tk que teria logo graviffimo caftigo , íe com a cabeça 
náopagaílc eíla tão grande ouíadia. Porém o Nome do 
Salvador não hcaos homês prejudicialímas antes premio, 
& gozo;como fe vio neífa occafiaó;porque os grandes , &c 
Príncipes louvarão muyto ainvêçaó de André, & ElRey 
o defpedio com nova mercê de cargo mais honrofo. Mas 
muyto mayor premio lhe daria Dcos no Ceo depois de 
hum anno, em que Andrccheodcannosjôcde mereci- 
mentos fdeceo. He digna de grade admiraçaójôc de muy- 
ta,&mulaçaó de todos os Catholicos a heróica virtude 
deíle Mandarim Neófito, que cm três annos, que viveo 
Chriíhõ,chegou ao mais afinado ponto da fantidadc com 
o total defapego das coufas do múdo:arrojando-fe có todo 
o empenho a perder bens5honras,& vida , fò para q Chrií^ 
to noíTo Redemptor f oífe conhecido, & adorado dos Ido- 
latras. Confidere pois cada hum no pouco, que faz para q 

Deos 



REYNO DA COCHINCHINA. 412 

Deos feja honrado : & no mu) to que deixa de fazer 5 por 
onde Deos he offendido. 

Naó he poílivel moítrar ncílas breves noticias os mui- 
tos exemplares de perfeyta íantidade,que reíplandecéraõ 
neíh Miílaó,& igreja da Cochinchina. Sò flrrei ver a hum 
PauIo,que có o nome herdou o zelojtomou os trabalhos, 
& participou dos Aiartyrios do Apoftolo das Gentes na 
pregação do Santo Evangelho. Aííiília cíle Mandarim 
chamado Bin na Corte de Cachaó com cargo de Confe- 
Jheirodo Principe nascaufas criminaes. Era homem de 
grandes letras3& de muy ta capacidade: & como prudente 
defejava achar o verdadeiro caminho , que leva as almas à 
fua eterna bemavéturança? a qual não pode haver na ter- 
rajâonde tudo fe acaba. Por eíla rafaó fe deu a ler, quantos 
livros achava aílim antigos como modernos,que tratavaó 
das couías da outra vida. Mas como em todos encontrava 
grande diveríidade nas doutrinas,í]cava fempre có a mef- 
ma duvida, & perplexidade: qual folie a verdadeira ; porq 
nenhúa lhe quadrava ao íeu grande entendimento. Atèq 
Deos 5 que naó fe efcóde dos que o bufcaó,difpoz,que lhe 
vieíTeà mão o Catecifmocompofto pelo Padre Matheus 
Ricci da Companhia dejesv Miíiionariona China. Co- 
meçou-o logo a ler com grade atenção, por tratar de hum 
Deos naó conhecido,& de húa ley nunca ouvida: &c acha- 
do grande coníonancia nosmyíferiosjôcmuyta fantidade 
nos preceytos; ficou de todo íatisfeyto,& convencido feu 
entendimento : &c tam aífeiçoada a vontade a feguir a efte 
Deos atè então a elle efcondido , & aguardar cita nova ley 
delle ignorada. Bufcou os Padres? dos quaes teve cabaes 
noticias do que crem, &c devem fazer os Chriífaos : & de- 
pois de bem inftruido pedio o Sáto Bautifmo , & foy bau- 
tizado com o nome de Paulo no anno de mil & féis cen- 
tos,Ôc vinte & dous. Naquellas agoas defpio Paulo a abo- 
minável pelle de fuás antigas culpas? 6c íe vcftio todo de 
íantos defejos das virtudes Chriftãs: aborrecendo os paíTa- 

FfFiiij tem* 



413 BREVES NOTICIAS DO 

tcmpoS)^^ convenicncias do corpo , & bufcando có todo 
o dcluelo íis occiípaçóes provcitoíàs à fua alma. 

Entre iis fcílas daí] ue] la gentilidade a doieu anno no- 
vojhea mais íolenne na qual as pdíbas ricas5& nobres gaC 
taó quinze dias em vifitas, banquetes, jogos, comedias, & 
cm outros divcrtimentos.Forèm o noílo Paulo pafiou ef- 
tes dias com mayor abíHnencia:& fechado em húa Cape- 
la levantada no mteríor de fua calajíe occupava , jà em ler 
livros eípirituaes 5 jà em meditar nos myíterios de nbíFa 
Religião. Mas porque as continuas vifitas dos amigos lhe 
tiravaó muyto tempo ? &c lhe eílorvavaõ feus íantos cxer- 
cicios,reiolveo-íe a íc retirar naquclles dias para huma íua 
fazenda 5 aonde eílavaó os íepulcros de feus parentes de- 
funtos. Naquella folidão debaixo dastriíles íombrasde 
arvores infrutiferas plantadas ao redor dos fepulcros lhe 
parecia ouvir détro de feu coração as lamentáveis vozes, 
que davaó aquelles oíTos reduíidos em cinza:aprcgoando 
dos púlpitos daquelles túmulos a brevidade da vida, a vai- 
dade do mundo , 5c a corrupção da carne tão mi moía dos 
homens. Porem o q íempre movia mais ao noílo ouvinte 
eruo os laíHmofos hays, que no entendimento coníidera- 
va,que davão aquellas almas, cujos corpos eílavãoalli en- 
terradosras quaes por não terem noticias da verdadeira ley 
de jesv Chriíto , fe deixarão levar da corrente de feus de- 
lenfreados apetites;& por iíTo cíl:avaó>5c eíbriaó penando 
nas eternas chim IS do inferno. Eílas coníideraçóes ma- 
goavão de tal forte o coração ds Paulo , que chorava incó- 
íoiav^elmente a irremediável deígraça diqjelles defãtos. 
Outras vezes o obrigavaó a levantar os olhos , & mãos ao 
Ceo,para dar repetidasgraças a feu Redcmptor;pelo ter a- 
lumiado nas trevas da gentilidade com a refplandecente 
tocha da Fe : para que fe afaílaíTe do precipício dos vícios, 
& entraíTe pelo caminho real das virtudes, que levaó a al- 
ma à eterna bemaventurança. 
Acabados os dias daquella prologada fcftajou difibluçaó, 

volta- 



REYNO DA COCHINCHINA. 414, 
voltava Paulo para fua cafa com mayor dei apego das cou- 
fasj que o mundo louco chama bens deíla vida ,& có ma- 
yorcs,ôc mais abrafados deíejos de bufcar as virtudes : tor- 
nava fempre mudado, mas lempre melhorado na perfey- 
çaó Chriítã. Para que pois eíle feu retiro não íe atribuiíFe 
à avarezajlogo que voltou , Éez hum grandiofo banquete, 
6c convidou a todos os letrados feus conhecidosjaos quaes 
lhes diíTe: Que não eílranhariaó elles aquella fua aufencia 
da CortCjôc dos amigos nos dias de tanta feíla , & comum 
alegria 5 fe tiveílem as noticiasjdo que clle tinha alcãçado: 
mas antes fâriaó ellcs o mcímOifugindo dos pavoados 5 de 
enferrando-fe nos montes mais frâgofos ? & íolitarios : &» 
começou a pregar contra a fealdade dos viciosjem que ca- 
hem os homens por occaíióes de femclhantes feílas : nam 
fô perdendo a prcciofiííima joya do tempo ; mas também 
afteminando o animo com aqucllas diíToluçóes tam per* 
judicines aos que profeílaó letras: como hc contraria a luz 
das trevas. Pois os livros lhes eníinavaóa parfmionia no 
comerja temperança no beberja compoílura nas acçóesj a 
modcília no verja circunfpecçaó no falar, & o abfterfe do 
que podia cauftr ao povo menos refpeyto,& menor ve- 
neração de fuás pefiòas. Alem deftas rafóes politicas 5 ou- 
tras havia mais relevantes , & mais forçofts , para todos o» 
homens fugirem de femelhantes divertimentos : & era a 
eftreita cota? que cada hum devia dar ao Creador de todos 
de qualquer minima obra5palavra5& penfamento: levan- 
do grave caftigo na outra vidajde quanto neíla fizera, falà- 
rajôc cuidara contra os diâiames das virtudes. E foy dan- 
do noticias de Deosjôc de fua fanta ley: provando com ra- 
fóes tiradas também de ícus livros : q era verdadeiro Deos 
o que os Chriftáos adoravaó : & muyto conforme à rafaò 
a ley,q elles guarda vaó , & cníinavaó. Paííbu depois a lhes 

declarar o eftado das almas na outra vidaja refurreicaó dos 

• * 

corposjojuizouniverfalj o premio eterno dos bens no 
Ceo:ôc perpetuo caftigo dos mãos no inferno. Foy efta U* 

Ggg çaó 



41^ BREVES NOTICIAS DO 
çaó a melhor iguaria daquelle banquete ; porque foy a de 
que mais goílàraó aquelles letrados, por ouvirem coufas 
tão altâSjtotalmente novas, & ditas com grande eloquên- 
cia 5 &c admirável clareza. Ficàraó todos muy dcfejolos de 
ouvirem ao Padre Francifco de Pina Portuguez. ( Foy o 
primeyro MiffionarioEuropeojq pregou leni interpre- 
te) aquém os remetco Paulo para as noticias dos myfteri- 
os mais altos , & mais cícondidos à fabcdoria da carne , & 
fangue. 

Voltarão os convidados para fuás cafas , 6c contarão lo- 
go âs famiiias5& depois aos ícus amigos , quãto tínhaô ou- 
vido da bocca de Paulorprovando tudo,poís tudo era muy 
aj uílado com a rafaõ. Com as aprovações deites Qiialiíica- 
Ciores iníignes em letras , & muy authorizados nos cargos 
da Republica muytos inípirados por DC0S5& não poucos 
movidos dacuriofidâdcbufcavaóao Padre Francifco de 
Pina^que gentilmente pregava a todos? & foltava as duvi- 
das de cada hum. Acudío também Dcos com fuás coftu* 
madas Mifcricordiasjalumiando a muytos cô aquella luz, 
que aíFugenta as trevas do entendimento : & jà perto de 
três mil ficavaó difpoílos para receberem o Santo Bautif- 
mo. Quando hum diaentreamultidaójquecom fummo 
íilencio eítava ouvindo ao Padre 5 que explicava o Cate- 
cifmo;levanta a voz hum? (que feria demónio em figura 
de homem, ) & dando hum efpantofo grito diz: Guardê- 
fe todos deíle feyticeiro do Occidente ; porque fe chega 
com feu bafo , aos que o ouvem falar : logo os encanta de 
forte que lhes faz crer,o que elle quer : & lhes faz querer, 
o que elles não quereriam. Alfim diíTe o homem : & tapa- 
do com a mão a íua bocca 5 a toda preíTa fugio daquclla ca- 
fa. Grande foy o tumulto , que houve entre aquellt mul- 
tidão: & porque facilmente fc crè,&: teme o mâl próprio, 
pofco que não fcja certo ; por iíTo a mayor parte dos ou- 
vintes pcrturbadosjôc tcmerofos fahiraó apreíTada mente: 
como fc fobrc ellcs vicíTe arruinando toda aquella cafa. 

Sô- 



REYNO DA COCHINCHINA. 4,16 
Somente trinta os mais animofos, & mais inteirados da 
verdade da Lcy de Deos ficàrâó íocccgados, & com gran- 
de dcvaçaó , &z alegria receberão aquelJe dia o S;^nto Bau- 
tiímo. De outra traça também ufou o demónio , paraim- 
pedir aos fugitivos a falvaçaó de íuas almas : divulgando q 
os deofes do Rcyno entre poucos dias infallivelmcte caf- 
tigarião a Paulo com todo o rigor, por entrodufiraquella 
ley nova eftrangeira. Pelo que difiaó os deícrtores : que fc 
Paulo paílàíle hú anno^fem ter algum defaftrejentaò clles 
ficariaó defenganados 5 tornariaó ao Padre , & fe fariaó 
Chriíláos. Nem foraó poucas as diligencias, que fez o de- 
iT5onio,para que entre aquelle anno íuccedeílè a Paulo al- 
gúa deígraça. Porem Deos acudindo pela vida de feu íer- 
VO56C pelo credito de fua ley,o livrou quaíi milagrofamé» 
te de todos os ruins fucceíTos. Antes diípozjque recebeííe 
mayores cargosjôc honras delReyjque o nomeou por feu 
Embaixador a ElRey do Siaó. Eítranhâraó eíla eleição al- 
guns Mandarins idolatras,diz.endo ao Principe , que nani 
convinha , que hum Chriftáo trataíFc os negócios de ma- 
yor confiança. Mas rcfpondco o Principe: Antes aPâulo 
íe podem encarregar os negócios de mayores confequen- 
cias;porque para fe acabarem comoconvenijalèm da pru- 
dência faó também neceííàrias a íidelidade,& j uftiça ; por 
iíío mais acertado hc,entregalos aos Chriíláos ; por ferem 
húaley muytojuílaj&fantaicomofe vê na vidadePau- 
Jo,que aguarda perfeytamcnte. 

Como não lhe fofle poííivcl a PauIo,efcufarfedaquel]a 
Jegacíaja contra íeu gofto,que fò o tinha nas occupaçóes 
da falvaçaó das almas : começou a fe ir aparelhando para a 
aviagem. O primeyro provimcto foyjretirarfe, 6c fechar- 
fcem hum apofento oito dias continuos,para ter as medi- 
tações , ou exercícios efpirituaes do noíTo Santo Patriarca 
Ignacio: pedindo luz do Ceo,para elle executar as ordens 
de feu Rey, fem encontrar os mandamentos de feu Deos: 
quemoftrou naquclla viagem quam grandes foíFem os 

Ggg ij me. 



417 BREVES NOTICIAS DO 

merecimentos dcfieíeu fiel fervo. Lcvantou-fe hua tor- 
menta tão cruel 5 qi^^e perdendo os marinheiros as cipcrã- 
ças óiL viÒÁ 5 tratava cada hum de ícgurar algum madeiro: 
para qucabertajou íomirgida a gale, dilataíiem a vida por 
alguns dias mais;porque era ímpoílivel chegarem vivos à 
terra. As kílimoías vozes , Ôc continuas lagrimas daquel- 
les Iníieis em perigo tão horrcndo5& inevitável movèraó 
ã compayxão a Paulo:& logo fe fechou dentro da camará, 
aonde cofrumava eítar occupado em ler^ou oran&tomou 
húa largajÔc afpera diíciplina, pedindo a Deos , que fe có- 
padeceííe daquelles Idolatras: nem permirifíc que fuás al- 
mas pelas agoas paíiaílem as eternas chamas do inferno. 
Sahio depoisjanimou a todos, & os c^hortou? a q chamaf- 
fem por Deos creador dos ventos do mar, & todas as mais 
coufas: confiando na fua infinita mifericordia 5 que os li- 
vraria deílcjôc de outros mayorcs perigos. E tomado húa 
fantâ Rcliqui?oquctraíia?alançou preza em hum cordcl> 
tocando com cllaaquclles mares encapelados. Oh prodí- 
gio do divino poder! Encontincnte ficou o mar ley te. Aí- 
íbmbrados todos os da nao à viíla do portcncoio fu-cceílb, 
naó podíaó falar : íò olhando huns para os outros 5 chora- 
vaó todos de alegria;por fe verem jà livres da morte. Diílc 
então Paulo, q deílem todos as dividas graças ao Creador, 
& Senhor de todas as creaturas: & lhes toy pregando dan- 
dolhes noticias de Deos^ôc de fua fanta ley, & que íòmen- 
te pela Religião Chriftã poderiam elles cfcapar do horré- 
do naufrágio das eternas penas do inferno,& chegar a íal- 
vamento ao porto da bemavcnturança no Ceo. Com tal 
fervor pregou o Embaixador Paulo , que logo doze pedi- 
ram o Santo Bautifmo : aos quacs hit Paulo inílruindo na 
viagé : & chegados a Siaó ^ elle mefmo os levou aos Padres 
da Companhia dcjesv Miílionarios naqueilc Rey no,para 
que os bautizaOem. 

Acabado no Siaó o negocio de fua em.baixada , voltou 
Paulo para a Cochinchina: &c foy bé recebido de leu Rey; 

por- 



REYNO DA COCHINCHÍNA. 418 
porque íc deu por bem fervido. Efrando pois hum dià 
Paulo em húa junta de Mandarins de letras? &c íalando-íc 
do muy to ódio? que EíRey tinha à Icy dos Chriíláos : foy 
cada hú propódo os nicyos 3 para a acabar em todo o Rey- 
no. Naó íe pode ter Paulojquc íc naó Jevantaíle cm pè:ôc 
cheo de íinto zelo da hora de Deos5& proveito das almas? 
diílc: Scnhoresjuem a raíaô eníinâjnem a politica aconíe- 
Ihajquc não íc aprove , ôc muy to menos q íe prohiba húa 
leyjque he muy to útil aos vaírallos5& grandemente obíe* 
quioía aos Príncipes. A Icy dos Chriftáos exhorta ao exer- 
cício de todas as virtudes, que traírem cóíigo a paz da Re- 
publica 5 & confervaõ a união de huns para outros íubdi- 
tos, & dcllcs todos para íeusfuperiorcs. Prohíbe também 
com graviííimas penas todos os vicios ? pelos quacs íe deí- 
troem as familias , & aíFolão os Rcynos. E para que todos 
faibaójquaes íaó os preceitos deita ley eu os direi ( foy cor- 
rendo os dez mandamêtos do Decálogo com algúa expli- 
cação: & depois acrecentou. ) Logo íc eíh ley mãda a obe» 
diencia5& fogeiçao aos mayores ? &c prohibc todo o mal q 
injuframente íe fizer a outrem na honra50U na vida, & na 
lazenda: não fò por obras,& palavrasjmas tambc por pen- 
famentos;que rafaó ha para que fc condene ? Com q poli- 
tica fe buícáo mcyos para a acabarem ? Ouveráo-íc antes 
de abrogar 3 & tirar todas as mais leys dos Principes , & ío 
cila dos Chriftãos ficar em.feu vigorjôc obíervãcia; porfer 
de mayor eíficacia para o juílo governo dos povos? Ôc para 
a mayor obediência aos fcus Regedores. Pois feo temor 
do caíHgo he a efporajque faz correr os íubditos na obíer- 
vancia das leys: ôc he o freojquc os reprimcspara que nam 
fc precipitem nas culpas: muy to mayor he o medo, q cau- 
ia a ley dos Chriílãosjdo quctodas as mais leys dos Princi- 
pcs;porque o caíligo ameaçado por eíles fò chega^quando 
niiuytOjâtirar a vida tcmporal;porèm a pena , que levão os 
qucbrantâdorcs da ley dos Chriífãos, por fer Ley de Deos 
Creadorjôc Senhor de todas as coufas, cílende-ie também 

Ggg iij è mor- 



417 BREVES NOTICIAS DO 

merecimentos dcfteíeu fiel fervo. Lcvantou-fehua tor- 
menta tão cruel , que perdendo os marinheiros as cfpcrã- 
çâs da viá?. ? tratava cada hum de ícgurar algum madeiro: 
para qucabertajou íomirgida a gale, dilataííem a vida por 
alguns dias mais;porquc era impoílivel chegarem vivos à 
terra. As laílimoías vozes , 6c continuas lagrimas daquel- 
les Intieis em perigo tão horrendo5&: inevitável movèraó 
ã compayxão a Paulo:& logo íe fechou dentro da camará, 
aonde coírumava eíhr occupado em ler^ou orar:&tomou 
hua largajÔc afpera diíciplina, pedindo a Dcos , que fe có- 
padeceile daquelles idolatras: nem permiiifíc que fuás al- 
mas pelas agoas paífaílem as eteroí^s chamas do inferno. 
Sahio depoíSjanimou a todos, & os c^hortou? a q chamaf- 
fem por Deos creador dos ventos do mar, & todas as mais 
coufis: confiando na fua infinita mifericordia 5 que os li- 
vraria deífeôc de outros mayorcs perigos. E tomado húa 
faiitâ Rcliqui?oquctraíia?alançou preza em hum cordel, 
tocando com cllaaquclles mares encapelados. Oh prodí- 
gio do divino poder! Encontincnte ficou o mar leyte. Aí- 
íombrâdos todos os da nao à viíla do portcntoío fucceílb) 
naó podíaó falar : íò olhando huns para os outros ? chora- 
vaõ todos de alegría;por fe verem já livres da morte.DiíIc 
então Paulo, q deílem todos as dividas grâças ao Creador? 
& Senhor de todas as creaturas: & lhes Foy pregando dan- 
dolhes noticias de Deos5& de fua fanta ley, & que íòmen- 
te pela Religião Chriílã poderiam elles cfcapar do horré- 
do naufrágio das eternas penas do inferno,& chegar a íal- 
vamento ao porto da bemaventurança no Ceo. Com tal 
fervor pregou o Embaixador Paulo , que logo doze pedi- 
ram o Santo Bautifmo : aos quaes hia Paulo inílruindo na 
viagê : & chegados a Siaó ^ elle mefmo os levou aos Padres 
da Companhia dejcsv Miífionarios naquellc Rey no,para 
que os bâutizafiem. 

Acabado no Siaó o negocio de fua em.baixada , voltou 
Paulo para a Cochinchina: ôc foy bé recebido de leu Rey; 

por- 



REYNO DA COCHINCHÍNA. 418 
porque íc deu por bem fervido. Efrando pois hum dia 
Paulo em húa junta de Mandarins de letras, &c íaíando-íc 
do muyto ódio, que EíRey tinha à Icy dos Chriíláos : foy 
cada hú propódo os nicyos 3 para a acabar em todo o Rey- 
no. Naó íe pòdc ter PauIo>quc íe naó levantaíle cm pè:5c 
cheo de íinto zelo da hora de Deosjôc proveito das almas, 
diiTe: Scnhoresjuem a raíaô enímajnem a polidca aconíe- 
Ihajquc não fc aprove , & muyto menos q íc prohiba húa 
leyjque he muyto util aos vaíTalIossôc grandemente obíe» 
quioía aos Principes.A Icy dos Chriftáos exhorta ao exer- 
cício de todas as virtudes, que tra^-em cófigo a paz da Re- 
publica 5 & confcrvaõ a união de huns para outros fubdi- 
tos, Ôc dcllcs todos para íeusfupcriorcs. Prohibe também 
com graviílimas penas todos os vicios 5 pelos quacs íe dcí- 
troem as familias , & aílolão os Rcynos. E para que todos 
faibaójquaes faó os preceitos dcíla ley eu os direi ( foy cor- 
rendo os dez mandamêtos do Decálogo com algúa expli- 
cação: & depois acrccentou. ) Logo fc eíla icy mãda a obe» 
dienciajõc fogeiçáo aos mayorcs ? 6c prohibe todo o mal q 
injuftamente fe fizer a outrem na honrajou na vida, & na 
iazcnda: não fò por obras,& palavras5mas tambc por pen- 
fâmentos;que raíaó ha para que fc condene ? Com q poli- 
tica fe buí cão mcyos para a acabarem ? Ou verão- fc antes 
de abrogar 3 & tirar todas as mais leys dos Principes , & fo 
cila dos Chriílãos ficar em.feu vigorjôc obfervãcia; porfer 
de mayor efíicacia para o juílo governo dos povos? Ôc para 
a mayor obediência aos ícus Regedores. Pois fco temor 
do caíngo he a efporajquc faz correr os fubditos na obíer- 
vancia das leys: & he o freo,quc os reprimcjpara que nam 
fe precipitem nas culpas: muyto mayor he o medo, q cau- 
fa a Icy dos Chriftãosjdo quctodas as mais leys dos Princi- 
pcs;porque o caíligo ameaçado por eíles fò chega^quando 
niuytOjâtirar a vida tcmporal;porèm a pena , que levão os 
qucbrantadorcs da ley dos Chriítáos, por fer Ley de Deos 
Creadorjôc Senhor de todas as couías, cílende-íe tambera 

Ggg iij è mor« 



419 BREVES NOTICIAS DO 

á morte eterna no fogo do inferno. Pelo que fe ElRey te 
cdio â Icy dos Chriíláosjiqporquc não cita bem informa- 
do da vcrdadcsda fantidade,& da utilidade dcllí[,afum para 
o bom governo dos vaííailos, ccmo para o devido reípey- 
to aos Príncipes. Aplaudiràraó todos aquelles Ictrsidcsas 
raíócs de Paulo , & louvarão niuy to a nova Icy, q elle to- 
mara. Sò hum o mais pertinaz na íua idolatria,não fe atre- 
vendo a reíponder , & desfazer o arrczoado de Paulo , lhe 
diíle 5 q pouco agradecido fe moílràra para có dh o Deos 
dos Chn'íláos;pois o deixara ainda no inferior grão de Xa- 
quando teria ja fubido as mayores dignidades literariss, fc 
cóíinuara em guardar a ley de fcu Rey , & de todo o Rey- 
no. Refpondco logo Paulo. Eftimo cu mais fcr Chriílão> 
que Rcy gentio. Mas não paílou rauyto tempo;, que nam 
chcgaílè o caíligo ao blasfemo Infiel , 5c o premio do fiel 
Chriílão: Aqucllepor culpas antigas foy degradado da 
Corte 3 & cíle por feus fcrviços foy remunerado có o ho- 
norifico cargo de Prefidente dos letrados. Pofto que ícn- 
tiffe Paulo eíla nova occupaçaó? por lhe fer de mayor ef- 
trovo a feu rctirojÔc exercicios efpirituaci; com tudo jul- 
goujferiâ melhor aceitar aquelle c^rgo, para q ElRcy não 
tomaíle mayor ódio à Ley de Deos : de também para apa- 
drinhar,Ôc defender cora mayor authoridade aos Chrilfã- 
os íeus irmãos em o Senhor. Porém rcfolveo comíigo, de 
não fazer no recebimento da patente real couír. aigúa das 
fuperrnciofasjquc fe tinhaô entrodufido no tomar a poíle 
deíle fupremo Mandarinado das letras. 

O coílume pois hc cfte. Cóvidão-fe para eíla função, 
que he das niais apparentofasjos Nobres,fic letrados ainda 
de muytas legoas ao redorjque ricaméte.vcftidos cada hú 
com as devifas do grão que tcm,^: do Tribunal em q prc- 
fidcvem todos aíliftir ao novo Mandarim em huma aula 
m uy to bem ornada.Ncfta ha muytos coros de muficos c6 
vários inílrumcntos, que neifa occafiaó cantão huns lou- 
vores de quatro Priacipes filhos dehumRcy antiquiíTi- 

mo 



REYNO DA COCHINCHÍNA. 420 

mo na China, dos quaes contão generolas proezas ? & ad- 
miráveis façanhas. Depois de ficar junto todo o cortejoja- 
parccc pompofamente vcftído o Mádarim , que traz a pa- 
tctc reaha qual todos fazem profundiííimas cortefias , co- 
mo ao melmo Rey: abrea có muytas ccremonias : & a vay 
lendo em voz altajôc vagaroía: ouvindo todos com gran- 
de filencio, & atenção. Aílim como acaba de a ler , come- 
çaó os muíicos a cantar louvores delRey , que faz aquella 
mercèjpronofticandolhc mil felicidades : & todos os que 
cíláo prefentes fazem três cortefias chegando com as ca- 
beças atè o cháo em final que obedecemjaceitáo, & dão â9 
graças a ElRey , por fcr fervido levantar aquella pcfíba a 
tão alta dignidade. Agradece depois aos ídolos , que eítáo 
fobreos Altares levantados na aula 5 adorando- os profun- 
damente. E no fim todos os convidados hum depois de 
outro dão os parabéns ao novo Mandarim : efmerando-íe 
cada hum no dizer cm poucas palavras , ôc com algúa có- 
paraçaó os grades louvores da nova dignidade, òc dos me-^ 
recimentos de quem a alcançou : acompanhando as pala- 
vras com demoílraçóes muy cortezes, & de muy cordeal 
aíFeclo. Com a mefma brevidadejagudczajcorteíiaj & be- 
nevolência vay reípondendo o novo Mandarim , dando a 
cada hum as graças pela honra da afliílencia que lhe tem 
feyto. 

Porém Paulo , que cftimava mais a graça de Dcos 3 que 
as mercês dclRey: & có muy to gofto largará todos os bês, 
òc honras dcfte mundojôc dera também o fangue^ôc vida, 
por não cometer qualquer minima oíFenfa contra íeu 
Crcador: permitindo o que nefta funçaó era fomente po- 
liticajmudou todo o fuperfticiofo em fagrado. Mádou ar- 
mar a aula com mayor pompa,que atè então fe fizera 5 na 
qual levantou hum magefl:ofo Altar cuberto tododcri* 
cas telasjSc ornado com muytos lumes» vifiofas flores , & 
odoriferascaíToulas de fuaviflimos perfumos. No efpal- 
dar do Altar pedia húa preciofa colcha cosa feudocelre< 

Ggg iíij paflâdo 



^^i BREVES NOTICIAS DO 

paífado de ouro: & debaixo íicava hum payncl da Senho- 
ra com o Menino Jcsvs nos braços. Accudio muyta No- 
breza 5 & quantos letrados havia por muytas legoas veíi- 
nhâs;porque o convite foy feyto com empenho, & a ma- 
gcftade do aparato chamava a muytos ainda de muyto ló- 
ge. Ficavâó todos admirados da novidade,nqueza, ôc per- 
feiçáo do crnato da aula: & muito mas atónitos por acha- 
rem nella Altar tão ricos^ mageí]:oío,& payncl de figuras 
nunca atè alli viílas. Pâulo 5 que recebia os hofpedes 3 aca- 
badas com clles ascoítumadas cortefias, começou a dar 
noticias a todos das novas íniagensjquc viâo^dizcndo: Co- 
mo aquella Senhora era Mãy5& Virgem:&âqueí]e Meni- 
no era o unigénito Filho de Deos , que tomara corpo da- 
quella puriííima Donzclla: para que como homem pade- 
ceíle, & como Deos 5 6c Icvaffe tanto o preço de feus tor- 
mentos , que com elles ficaíle fatisfcyta a Divina Juíliça 
das culpas5&: peccadosjquc comctião os homens contra a 
Creador de todos. Efoy tocando brevemente a creaçam 
do múdOíO pcccado de Adãojas penas temporaes , & eter- 
nas que por elle todos cncorremos 5 a neccííidade da En- 
carnação do Verbo Eterno para a rcdépção , & como fo- 
mente pelos merecimentos do Filho de Deos feyto ho- 
mem podiáo os homés efperar livramento das penas do 
inferno,íalvação5& bcmavéturança de fuás ahnas, & cor- 
pos no Ceo. Com tanta eloquencia5cIareza3& fervor pre- 
gou Paulo? q toda aquella multidão de Nobres , letrados, 
& Mandarinsjfc poz logo de joelhos diante do payneí:pe- 
dindo âo Menino Deosjtiveífe mifcricordia de fuás al- 
mas: & luplicando a Virgem Mãy lhes alcançaíle a eterna 
bemaventurança. Levantados depois todos cm pê5foram 
por fua ordem fâzcndo quatro profundiffimas cortcíias 
com a cabeça atè o chãojndorando ao Divino Filho , & tá- 
bem a Mãy Santiffima. Acompanhava bem a muíica cíles 
aéi:os de Rcligião;porque Paulo tinha dado ordem aos fe- 
tenta muíicos chamados para cita feíla? que cantaílem fo- 
mente 



REYNO DA COCHINCHINA. 422 

nicntc Ictrasjque convidavão os ouvintes às virtudes : co- 
mo também nos louvores dclReyjnem diceíTem palavra» 
que íoaíTe fuperílíçuo : ôc no Em de cada letra entrome- 
tíáo cantando: Graças ao Senhor do Ceo -> por cuja mercê 
o Senhor Pvin foy f eyto hoje Prcíidente dos letrados. A- 
caboufetodaafeílaíem comemoração aigúa dos ídolos: 
nem fazerem acção , ou diííerem palavra , q moftraíTe re- 
verencia a cílcs;mas fomente com os coírumadcs parabés 
de cada hum para com Paulo , ôc com as graças dadas por 
cftc a cada hum dos convidados. 

Não ha caudalofo rio 5 que reprezado fe defpenhe de- 
pois com mayor rclocidade pelo muyto pczo das fobrea- 
bundantesagoas^queíe compare com Paulo no que fez? 
acabada aquella função. Da aula correo logo para a cafa 
dos Padres: & lançado a feus pès começou a defcarregar 
com copiofas lagrimasjgrandes gemidos,6c repetidos fuf- 
piros a enchente da tníleza,q lhe oprimia o coração : cha- 
mando-fe o mais dcfgraçado home, que nacera nefte mú- 
do;pois o demónio o tinha prezo có efce novo cargo: quã- 
do eHe dcfejava largar o antigo ; porque queria viverem 
cafa dos Padres 5 ôc occuparfc todo com elles na falvaçani 
das almas. Confolàraó-no os Padres , dizendo : Que viílo 
elle ter aceitado aquella dignidade; não levado da ambi- 
çãojmas do deíejo de poder ajudar aos ChriÍLáos5& defen- 
der com mayor authoridadc a Ley de Deos ; confiaíle no 
mefmo Senhor,quc lhe daria graça 5 para exercitar o ofB- 
cio fem fua oífença5& com proveito da Chriífandade. 

Bem moftrou Paulo , que fua intenção em fervir a feu 
Rey naquellc cargo? foy para ter mayor liberdade no que 
foíTe de ferviço de feu Redemptor;porque não perdia oc- 
caíião algúa de pregar 5 ôceníinar a Ley de Deos aos No- 
bres, & Mandarins? viíitãdo-cs principalmétc em tcpo de 
docnças,cófolãdo-oS)& inítruindo-os no q devião crer , & 
fazer para felivraré da morte cterna.Neftas obras de mife- 
ricordia corporal 5 6c efpiritual fc occupava Paulojfé o im- 

Hhh pedir 



423 BREVES NOTICIAS DO 

pedir a grandcZi da dignidade que tinlia^neni o divertir â 
adminiítração do cargOjquc exercitava: como quem bem 
fabiajque valia niais húa alma , que muytos mundos : & o 
negocio à-à íalvação era o mais importáte de todos ; de tal^ 
que trouxe do Ceo à terra ao raeímo Filho de Dcos. 

Das niuytas converçóes , que Paulo íe2; de peíToas gra- 
vcssalgúas íicão apontadas no Capitulo precedente, Nef- 
te cocarei íô húa para louvarmos a Deos nas difpoíiçoens 
de fuâineííavel Miiericordiâ: & não dilatarmos de dia em 
dia a reconciliação de nolTas âlraas com o noílb Savador. 
FoyPâulo chamado por ElReydaProvinciade Cachão 
à Corte de Sinoa para negócios de muyto porterpartio lo- 
go por terra;& poílo que neftas occaíiócs vão mais voan- 
dojque correndo íem parar: com tudo naó íey porque ac- 
cidcntQ foy obrigado a ficâr húa noyte cm húa paragem 
tão defpovoada 5 q fò havia húa choupana pobre. Entrou 
Paulo nella 5 & achou a dous? marido ? & mulher , ambos 
gentios3& muyto velhos 5 & aquclle gravemente doente 
íem medico nem medicinas. Compadeceo-íe Paulo da 
extrema miferia;em que o velho fe achava: & íentio\iiui- 
tOjoão lhe poder valer;porque dos fcus criados não havia, 
quem íoubeíTc curar, nem quem levaíTe algú medicamê- 
to. Reparando pois que o velho infallivelmente morre- 
ria 5 não quiz fahir fem primcyro dar àqueíla alma a vida 
lobrenatural da divina Graça? para poder alcançar depois 
a eterna na Gloria. AíFcntou-íe no chão 3 & chegando-fc 
ao ouvido do doente lhe começou a dizer : Qiie fua alma 
pelos peccados , que tinha feyto atè àquclla idade , logo q 
íàhíííe do corpo iria penar nas eternas chamas do inferno. 
Pelo que trataílc com tempo de a livrar de tantas cupas, 
iouvando-a com as agoas do Bautifmo dos Chriftãos: para 
que limpa^ôc fermofa foííe admitida nas grandioías5& dc- 
licioías moradas do Ceo. E lhe toy explicando os myfte- 
rios5& preceitos de noíia fanta Icy. Ouvia tudo cõ grande 
atenção o vclho3&: também a velha^q quiz aíMir àquella 

prega- 



•REYNO DA COCHINCHINA. 424 
pregação : a qual acabada ? perguntou Paulo ao doente fe 
queria fcr Chriítâo : Reípondeo logo : Qiiero. Alegrouíe 
jnuyto Paulo , 8c depois de o ter inílruido nos myílerios 
principaes de noíla íanta Fè , & ajudado a fazer o aclo de 
verdadeiro arrependiaiento das culpas paíTadas , có íirme 
propoíito de guardar perícytamcnte a ley de Deos : o la- 
vou na agoa do Santo Bautiímo com grande cótentamé- 
to do doente , nem menor gozo do medico eípiritual : do 
qual foy confolado , & animado a levar com paciência as 
itioleílias da enfermidade; porque quanto fe padecia neí- 
ta rida com conformidade ao Divino querer, tudo fe tro- 
cava na outra em eterno gozar. Defpedio-fe finalmente 
Paulo abraçando ao velho 5 que tinha gerado em Chriílo: 
& deixandolhe algúa couíaparafeu fuítento. Porém in- 
do fahindo para fora daquella limitada habitação 5 fclhe 
poz diante a velhajôc lhe diíle: Senhor, porq me não bau- 
tizaes também? Refpondeo Paulo: queella eftava valete, 
&: na volta a inftruiria melhor5& bautizaria:ncm fe podia 
deter mais,porque era chamado por ElRey. DiíTe a velha: 
jà que me prometeis de me bautizar na volta , proracteif- 
me também de me achar viva? Pois fe me não podeis pro- 
meter a vida,porque me negaes agora o bautifmojdcixan'- 
dome arrifcada a perder a bemavéturança do Cco, & a fer 
condenada às eternas penas do inferno? Reparou Paulo q 
Deos falava pela boca da velharafíentou-íe logo outra vez 
no chão : tornou a correr o cateciímo : & inífruida jà de 
quanto era neccífario a bautizou5& deixou muy confola- 
da. Continuou Paulo fua jornada cheo de grande alegria, 
por ter ganhado de caminho duas almas ao feu Redéptor. 
roucos dias gaftou na CortCjêc voltou logo para Cachão. 
Chegado poré ao defpovoadojbufcou a cafa dos dous cafa- 
dos5& a achou fem gente: & perguntando por elleSífoube 
como ambos tinhão falecido. Ficou Paulo admirado do 
fucceíTo: deu muy tas graças a Deos pela mifericordia deq 
ufara com aquellas almas3& da mercê que fizera a dlc:, to^^ 

Hhh íj mau- 



425^ -BREVES NOTICIAS DO 

jnando-opor inílriiiiiéto da íalvaçãotiaquelles envelhe- 
cidos no cativeiro de]ucifcT;& fez firme propoííto de 
liâo dilatiir por lua cauía nem o baiitirmojncni a pregação 
a Dingiiern. Todos temos que aprender deite fucceílo. Os 
MíDííiTos de Deos a não deixarem pafiar occaíião alguoia 
de aproveitar as almas : &í os ouvintes a executarem loíyo> 
o que Deos lhes infpirar ; porq a morte chega quâdo me- 
nos cuidam.os; Deos, que oíFercce o perdáoj nào promete 
de no lo guardarjpara quando nòs o queremos. 

Ficou Paulo com fcmelhãtcs favores do Ceotam em- 
penhado em procurar a faivaçaó de feus naturâesjque pa- 
recia não ter outra occupação? fe não pregar em qualquer 
tcmp0j& a quaefquer peíloas; pelo q muytas, 6c muy ad- 
miráveis eraó as converfóes que híia. O Padre da Copa- 
lihia de f esv airiftentc na Cochinchina 5 q efcrevco a An* 
iiuajou íiicccíTos mais notáveis do anno de mil & féis cé- 
tos&trintajdiz cilas palavras. Em fim a P&ulo devemos 
fempre o principal deílas Annuasjôc fò eilc baftarâ para as 
encher todas fe ouvefle decfcrcveras miudezas de fuás 
viríodes5& exemplos? &c: Porém aílim como os mentes 
íao os mais áridos dos rayos do Cco inimigo declarado da 
i^ltiveza mundana ; aflim os grandes obreiros da Igreja de 
Deos faó o alvo do furor do demónio ,& de feus minif* 
tros. Não podião faltar a Paulo as pcrícguiçóes dos ídola- 
tras;porquc elle fe occupava todo em tirar almas do cati- 
veiro da idolatria: & em quanto clle armava ciladas , para 
defpojar, &c desbaratar ao demónio ; cRe lhe hiè armando 
laçosspara que cahifíe5& ficafle vécido. Nefte mefmotin- 
510 de mil à féis centos &c trinta, por eílar a mãy do Prin- 
cipe tiiuyto doente^mandou ElReyjque cm Cachão fe fi» 
^.eílcni procifeões, & facrificios aos dcofcs : pedindolhcs a 
íaudc daq utih fenhora que era gentia, Paulo por ícr-Mã* 
clarim p]'inci])al devia de aíTiftir a cílas^ facrilegas rogati- 
vas; porem como íe temeílc mais das oííenfas de Deos , q 
das iras dclRcysfoy bufcar ao Mandarim , a quem ElRey 

cn- 



REYN-O^ DA COCHINCHINA, 426 
cncomendi^ra ellas, peixes, 5c lhe diíle: Que clle era Chrií- 
íáojôc por líFo não podici pedir coufa algúa, &c muyto me- 
nos adorar aos idoÍos;porquc erão cílatuas de homés raor^ 
tos íemclhantes aos mais na natureza. Pelo que , ou o ex- 
cufaffc daquelk aíuílcncia: ou deiTc conta a ElRey de cof 
mo ellc lhe não obedecia nefte particular: & que deixaria 
antes o Mandannado5& perderia a vida, que fazer coufa;^ 
foíTe peccado. O Mandarim vendo a reíoluçaó de Paulo, 
6c refpeytando a íua authoridade , o excuíou. Poré rcpli-^ 
CDU Paulo dizendo: que ficava efperando pela repofta , &: 
refolução real. Reipondco o Mandarim , que não era ne- 
ccíTario dar efta informação;mas voltalle dcícançado para 
íuacafa. Cobrou eftc idolatra grande conceito da leydos 
Chriílãosjachando-â tão fanta^q não permitia culpa^ainda 
que cuítaílc a perda da fazenda da honra 5 & da mefma vi* 
da:6c travou grande amizade com Paulo, por experimen* 
tar ncllc tanto dcíapcgo das coufas pcrtencçtes ao corpo, 
& táo grande amor à fua alma;que para a livrar da culpajfe 
arrojava a toda a pena. Melhor iiicccíTo teve neílc mefmo 
anno a conílancia de outro Ghriftão chamado Lucas,cria- 
do de hum Mandarim infiel: Ôc por ventura digna de raa- 
yor louvor ; porque a baixeza da condição cria ordinária* 
mente ânimos vis, 5c não coftumados a repararem na dew 
formidadc da culpa. Porem o noíTo Lucas tinha cfpiritos 
muy generofoSjSc mais que humanos; porque acópanhã- 
do a feu amo,cntrou com clle cm hum tempJo;Ôc pondo- 
fc cfte de joelhos,6c adorando aquellesfalfosdeoíès:Lucas 
cfteve em pé^fcm fazer acção, nem dizer palavra , q mof*- 
trafle veneração. Reparou o amo,Ôc mandou aLucasjque 
fizeíTe , o que ellefaíia. Reípondeo Lucas fempreem pé: 
Senhor cufou Chriftão : nem me ajoelho neílc lugar. Ef- 
ta conftantc, 5c defenganada rcpoíh não fomente não ir. 
ritou ao Mandarim; mas antes lhe affeiçoou tanto o cora^ 
çãoá noíTa fanta ley , que vendo húa Cruz ao pefcoço de 
Lucasjlha tirou^ôc a lãçcu ao.feu, & diíTe: Eu também foii 

Hhh iij Cbrif- 



4%T^ ' BREVES NOTÍCIAS DO 
Chrifiao ? mo adorarei niaiseílas figuras de ialfos deofo, 
Virouíc depois para os outros criados , que eráo idolatras: 
& mnndou que tiraílcm do Altar as offertas de comer , â 
schaílcm5& as comeííem clles ; porq aqucllas eftatuas não 
tinhlo boccas para iguarias tào delicadas. Affim o execu- 
tarão logo os criados íem íemorjantcs có moyta feíla pelo 
defprezo,quc faíiáo aos ídolos : íicãdo defta maneira o de« 
monio eícarnccidoj ôc Dcos exaltado pela admirável cóf» 
taiicia do Neófito Lucas. 

Mas tornando-a Paulo Mandarim : peks muytascon-* 
verf5es-,que faíia não menos com fua authoridade? q com 
íuas pregações hia creccndo cada vez mais o rebanho ds- 
Chriíiio noílo Redemptor, & falttva o concurfo aos tem • 
pios dos ídolos , & as címolas dos Bon2:os. Cheos cíles dô 
odiojq có a falta do pc do Altar lhes crccia no coraçãojco» 
meçaráo a dar queixas dosChriíl:ãos,em particular dePau- 
]o:q íciido grãdc MiniílrodelRcy era que mais reprovava 
a ley.q feu Principe guardava? Ôc qué có raayor empenho 
cníinavâ outra prohibida com reaesjôc repetidos decreto* 
de morte. Foraó os Bonzos repetindo pela Corte eífasíu- 
êS lamentações com capa de zelo politico, &c rcligiofo : & 
íizeráo , que chcgaíTe aos ouvidos dei Rey juntamente c5 
as tríítes novas da pouca novidade , & de algús incêndios» 
qiieJhouve naquelleanno:affirmando5& jurando os Bon- 
2.oeyc|qe haviaó íidp caíligos dos poderofos deofes , para íe 
vihgarem dodeícuidOjque havia cm cortarjôc arrancar de 
todQQ Reyno cfla ky nova, éflrrangeira, & contraria à de 
feusi|íays , &'progenitores. ElRcy como eílimava muyto 
nPaulojporíer hum dos melhores miniílros de feu Rey^ 
BOjôc ximçQ para trilar negócios de grãdc porte, não quiz 
iiíar. -com ellc.de rigor,pelQ não arriícar; mas de affabilida- 
de GÒm cíperaiiça de oganhar. Mandoulhc. pois dizer :q 
íendDTelle miniltro rea],ôc tão favorecido. de leu Rey y de- 
via dar todo o goflo a feu Scnhor,&: fe conformar com eN 
Ic na execução das ordens reaes. P®r cuidar,quc a mudan-» 

ça. 



REYNO DA COCHINCHÍNA. 428 
çsjquc clle fizera da Religiáojiião fora originada da pouca 
obcdicncia a ícu Príncipe ; porque tinha íènipre achado 
nelJe gr^inde promptidlo a todas as ordens 5 poílo que ár- 
duos de ícu real fcrviço ; mas levado de engano 5 em q co- 
mo homem cahira;por ifíb lhe mãdava fignificar 5 que era 
íua vontade, que tornaíTe dh à antiga Icy de todo o Rey- 
110: & lhe lembravsjque aos fieis vaílallo bailava qualquer 
noticia do beneplácito real 5 para largarem logo quanto o 
cncontraíle, & fazerem tudo o que condufiíTe a dar goílo 
a feu Rcy 5 & Senhor. A cila amoeftaçaó real refpondeo 
Paulo : Que fua obrigação era 5 dar todo o goíto a fua Ma- 
geílade, aílim por ler feu Rey5& Senhor , como também 
por ter recebido m uytasjôc m uy to grades honras» & mer- 
cès de fua reahSc liberal máo. Que clle atè então não falta- 
ra como vafilillo leal? no que fua Mageíhde fe fervira de o 
occupar; pofto que a execução lhe cuftaíTe muytos traba- 
]hos3& grandes rifcos na terra,ôc no mar ; como era notó- 
rio a todo o Reyno:& coma mefma promptidam ficava 
prcílcs para tudo o que fc lhe oíFercceíFc de feu real fcrvi- 
ço. Mas que a Religião pertencia ao interior do home? pe« 
la qual alma alcançava na outra vida a eterna bemavétu- 
rança. Se clle tinha largado a ley de todo o Reyno 5 & to- 
mado a cfcrãçeira dos Portuguezes: iílo fora; por ter acha* 
do naquclla contradiçóesjôc falfidadcs muy evídétes ; po- 
rém neíla muyta verdade uniformidade , & conformida* 
de có o que enfinava a rafaó natural. Naó merecia repre- 
hençaó;mas antes louvoresjqucm tédo vivido por largos 
annos de húa fonte5a deixaíTc por outra defcuberta de no- 
vojmais pura5& falutifera: ôcic alguns achaíTemsque a an- 
tiga lhe era prejudicial à faudcjfem duvida acudiriaó à no- 
va. Defejàra elle , que ElRey feu Senhor mandaíTe ajútar 
os melhores letrados do Reyno , para cxaminaré cita no- 
va ley: & fe a acharem falfaja prohibiiFe com todo o rigor? 
porém íé verdadeira 5 porque em tudo ajuílada có a rafaõ, 
pelo menos aperra itiííc. Em quanto pois lhe ntò moílra" 

Hhh íjjj reni 



breVes noticias do 




varjo que julgava fcr verdadciro:ôc íeguirjC que tinha por 
falío. 1>1'ÀS mãos dos Rcys eftavaó as fazcndas-,as honras5& 
vidâs de feusvaííallos: difpofefic íua Mageírade de tudo o 
que elle tiohajcomo foíTc de fcu real goíío. 

Covã eíla prudente 5 generofa ? & catholica repofta de 
Paulo ficou eícandalizado o bárbaro Rey 5 & mandou=o 
prender , & que lho trouxeílem diante em publica audi- 
ência. Era o dia de quinta ícyra mayor dò anno de mil & 
íeis centos & trinta & trcSíquando Paulo ( como fetocou 
no Capitulo primeyro ) aparcceo naquellc tribunal real 
2iaó como JuiZjmas como reo. Ficou atónito todo aquel- 
le numeroíiíllnio cortejo de Mandariosjletrados ? & Tol- 
dados 5 vendo ao principal Miniílro maniatado. Mas em 
quanto os circunírantesfc compadeciáo de Paulo e&va 
dando a íy os parabéns pela mercèjque Deos lhe fafia 5 af- 
femclhando-o có feu Divino Filho , q em tal dia fora prc- 
%0:,^z preíentado como reo. Sahio ElRey a dar audiência: 
& vendo a Paulo,lhe diílc com voz branda: Outro Minif- 
tro cuidava eu ter em ty;pois as muytas lctras5que tens,& 
as grandes mercêsjque eu te tenho íeyto 5 me prometiam 
naó íò a obediência de vaíFallo 5 Te naó também o amor àc 
tiírradecido. Porem agora te experimento contumaz às 
iiiinnhas ordés3& ingrato aos meus benefícios, lílo te en- 
fmaó tuas letras? Torna à ley do Reyno , & à minha obe- 
diência: & eu te acrccentarci nas honras, & mercês. Ref- 
pondeo Paulo com grande focccgo : Senhor, naó nego eu 
as reíics liberalidades , que voíTa Magellade tem ufado co- 
migo , & coofeíTome devedor de mil vidas no ferviço de 
vofla Mfígcilade. Porcm,Senhor,a Religião he virtude , q 
olha naó aos homés,mas aos deofes. Se eu conheceíTc, que 
que os íaó adorados no noíTo Reyno,eraó verdadeiros; 011 
também logo os veneraria : mas acho nos livros dcíb ley 

tantas 



REYNO DA COCHINCHÍNA. 430 
tantas contradições na doutrina5& tantas diíloluçóes nos 
coftumes deílcs que íaó adorâdos,que não fòmête não íaõ 
dignos de veneração;mas merecem fer aborrecidos de to- 
dos pelos VÍCÍ0S5 que tiveraó : & vofía Magcílade por me- 
nos 5 ôc mais leves crimes manda caftigar , & matar a feus 
vaílàllos. Naó he tal a ley dosChriíláos;porque he muyto 
iiniforme5&: muy conforme em tudo aos diélames da ra- 
íaó: enfina ? & aconíelha o exercicio de todas as virtudes 
reprova,& prohibe qualquer vicio. Deosjque fez 5 6c má- 
da guardar eíia ley, he por natureza o mais fanto , &c mais 
pcrfeyto : & abomina tanto peccado , que veyo do Ceo à 
terrajpara padecer 5 tomando corpo humano 5 & morrer: 
para com íeu langue lavar as almas dos homens de toda a 
mancha de culpa, & lhes dar a vida da graça, para viverem 
com ellc no outro mundo felizjôc eternamente.Naó pô- 
de ElRey impaciente pela cólera efperar , que Paulo aca- 
baíTe com fua repofta : & cheo de furor mandou , que lhe 
cortaííem logo os cabellos , ( caftigo que depois da morte 
he o mayor , & muyto mayor nas peííbas de primeyra fu- 
pofiçaò como era Paulo ) tiroulhe também o Mandarina- 
do,&; condenou-o a pagar quanto aquelíe oíFicio lhe tinha 
rendido. Aceitou Paulo efta íentença contra íy , como fe 
fora em fcu favor : & deu a ElRey as graças por aquella 
mercê, que havia jà annos , defejav^a alcançar de fuás reaes 
mãos. Embraveceo-fe mais com citas palavras de agrade* 
cimento ElRcy irado , & mandou que lhe deílem alli lo- 
go cem cruéis açoutes. Callou-fe Paulo : & elfendendo-fe 
fobrc o cháo,como he coll:ume,foy recebendo com gran- 
de gencrofidade,& alegria aquelle VÍI5& cruel cafi:igo;por 
que teve por particular honra,& regalo levar açoutes por 
Jesv Chrifto naquelle dia,em que feuDeos dera pri ncipio 
i fua payxão. Logo que os verdugos acbàraó com feu ofíi- 
€ÍOjlcvantou-fe Paulo em pe,& com grande animo diíTe a 
ElRey eftas palarvas : Senhor fe ifto naó baila , & parece a 
Voífa Magcftade que mereço mais. a qui eftou, tenho mU' 

lii Iherj 



431 BREVES NOTICIAS DO 

ihcr 5 Sc filhos , taça Voíla Magcitadcde nos todos ? como 
mais lhe agradar;porque naó dcixsrci nunca de fcr Chrif- 
táo. Com cíb deícngano dado a ElRey , cuidava Paulo , q 
alcançaria outros5& mais cruéis tormentos ,& íinaimen- 
tea morre por ícu Redcmptor. Mas os íoldados por força 
o levàraó logo fora daquclle theatro : ou para ElRey nam 
fe apaixonar mais:ou por ie compadecerem elles do inno- 
cente tão gravemente offcadido. Naó fahira mais conte- 
te hum vencedor do campo j em que ganhara a vicloria; 
do que moílrava Pau lo lançado fora daquella audiência: 
em que k viíh de todo o real cortejo foy vergonhoíamétc 
privado do oíHciojin juftamentc multado, Ôc cruelmente 
açout^.do. Tal era a alegria de fcu lemblantCjqueos Idola- 
tras o tiveram por louco ; por naó alcançaré a cauía de áo 
grande contentamento. Òs Portuguezes porém de húa 
naojquc dera naquella cofta, & então íe acha vão na Corte 
com requerimento a ElRey da fazenda? que o mar vinhai 
Jançíindo às prayas : foraó todos juntos à cafa de Paulo > & 
lhe derão os parabéns dagenerofa confiílaó da Fèfiz da ài- 
toía íòrtc de padecer por Jesv Chrifto : &: poíto que elles 
tiveíTem mayor ncceílidade de quem os íoccorreífe; porq, 
do naufrágio íò efcapâraó com vidíi;com tudo a gencroíã, 
& liberal piedade portugueza ajuntois perto de cem cru- 
Zados,& os oifcreceo a Paulo : que de muyto ricojà muy- 
to pobre por Chrifto os aceitou dcefmola com grandiíli- 
mas demoftraçóes de agradecimento. Divulgouíc logo 
por todo o Reyno a conílancia de Paulo em confeílar , & 
derciíder a ley dos Chriíiáos5& ocaílígo que ElRey tinha 
dado a eíle principal Miníftro>fogcito de grandes prédas, 
&z de muytos fcrviços à Coroa,fem mais crime , que nâm 
querer deixar de adorar ao Crcador de todas as coufas. Os 
Politicos condcnavaó aPaulo: chamando-o arrogante, êc 
contumaz. Os Prudentes eílranhavão o grande rigor del- 
Rcy;por lhes parecer miiyta paixão. O mcímo Principe 
ouvindo contar o fucceílo ? moftrou grande fentimentoí 

nem 



REYNO DA COCHINCHÍNA. 452 
nem fe pode ter que em preíença deíeus corteíaos n^m 
diíTcííc: que ElRcy fcu Pay^ & Senhor tirando a Pâulo de 
feu real íerviço fc privava do mais útil , & fiel miniíiro da 
Corte. E atreveo-fe ao dizer ao mefmoRey 5 o qual lhe 
rcípondeo: q lúo fora fua intenção proceder a tanto ; mas 
a obrrinaçáo de Paulo em não querer obedecer ás íuas or- 
dens j & o deíprczo que faíia da ley , 6c deofcs do Reyno, 
foraó caufajque levaíTe aquelle rigorofo caíligo. 

Defembaraçado Paulo das pezadas correntes do cortc« 
jo de cada dia no Paço5& livre das molcílas demoras , que 
faíia nas audiências continuas aos requerentes, mâs fobre 
tudo fem os efcrupulos^que fempre acompanhão a admi- 
niftraçaó da Juítiça: jà íenhor de fyjÔc de todo o tempojfc 
occupou todo na íalvaçaó das almas : acrecentãdo aos grã^ 
des merecimentos ganhados com a perda de quanto pof-» 
íuia pela confiíTaó da Fèjoutros muytos;pelo que cada dia 
obrava na pregação do Evangelho 5 & converlaó dos Ido- 
latras, enfmando-os com a voz , & guiando os có o exem" 
pio no caminho do Ceo: aonde eftarà gozando do premio 
eterno da gloria merecido de fuás admiráveis , & apoíloíi- 
cas virtudes. Ficou Paulo por exemplar aos feus oâturaes 
na conftancia cm defender,ôc guardar a divina ley : & po- 
derá também fervir deidea aos Miniftros reaes , em naó 
dillimularem por medo o quea rafaó, & a Jufciça eílão ài" 
dlando: nem eílimarem mais o gofto dos Príncipes 5 que a 
graça de Deos ; pois fò Deos pôde caftígar 9 Ôc apreracar 
eternamente. 

Naó foy de menor provcyto eípiritual à nova Chriílã- 
dâdede Cochinchinaa converfaó j 6c vida de outro feu 
natural de profiíTaó Bonzo , grande nas letras mas muyto 
mayor na eftimaçaójque delle havia em todos. Com os a- 
plaufos crecia no Bonzo a foberba , & có cila a diíToluçani 
dos coílumes. CaítigOjquc da naõ poucas vezes Deos, aos 
que cheos do vento da eftimaçaó própria fc elcvaó íobre 
as nuvens de feus altos pcnfamentos5&: todos es mais lhes 

lii íj parecem 



434 BREVES NOTICIAS DO 

parecem niuy interiores nos talentos 3 & mereciíncntos. 
Neíles permite Deos as faltas mais abominaveisjpara que 
dâ vileza dos vicíosodos quacs faó vcncidosjaDrendaó a íe- 
rem humildes 5 naó levantando o conceito de íy íbbrc os 
outros,viílo viverem na terra como brutos. Porém Dcos? 
cujâs miíericordias faó fem numero nem lirnite , foy fer- 
vido alumiar eíle Bonzo com a luz do Ceo : pela qual vio 
claramente a torpeza da vida,que faíia j Ôc o erro do c;imi* 
nhojpor onde andava. Bufcou Cbriftãossôc leo livros? dos 
quacs teve cabal noticia de noíTa fanta Icy : & bem inftrui- 
do no que devia crer 5 & obrar s de muyto arrependido do 
que tinha eníinâdOj& cometido? rccebco o Santo Bautii- 
mojno qual foy chamado Manoel. Bem lhe quadrou eíle 
nome; porque Decs cftcvc fcmpre com elle, não fomen- 
te aj udando-o na pcrf eyta guarda dos Divinos Mandamc- 
tos ; mas levando-o ainda atè os grãos da pcrfcyçsó evãgc- 
licar^fâzcndo voto de caftidade, & de pobreza: para defcó- 
tar âs culpasjque tinha feyto contra feu Crcador,fcvando 
a carne com torpes mimos 5 & enchendo a cafa de ricas al- 
fayas com feus enganos 5 & cmbuftes. Reparando depois> 
como todo o mal lhe procedera à fua almia de feguir,& fa- 
zer cm tudo fua vontade: pofto que ficaífe no íeculo , fez 
com tudo voto de obediência ao Padrejque foílè fuperior 
naMiíIaó. Com eíla preparação fahio a pregar a Lcy de 
Deos : para q fc por íuas falfas doutrinas muytos fe tiveí- 
fem perdidojcó a pregação da verdade dcffc occafiaò, para 
que outros fe falvaíTem : 5c tanto lhe creceo o defejo de q 
o verdadeiro Deos fofic conhecido , 6c fua fanta lcy guar- 
dada de todos; que fe obrigou a não perdoar a trabalho al- 
gum 3 4 lhe pareceíle poder fer de proveito à falvaçaó das 
almas. Atónitos ficavaó os Idolatras, & muyto mayor era 
o aíTombro nos Bonzos,vendo em Manoel outra vida 5 & 
ouvindo de íua bocca outra doutrina: & que perfeytamê- 
te executava vivendo , o que doutamente perfuadia eníl- 
iiando. Muytos fe convcrtião convencidos das raíóes que 

Manoel 



REYNO DA COCHÍNCHINA. 435 
ManocJ propunha: & aíFeiçoados das virtudes , que exer- 
citava? efperavâm poderem tambcm elles guardar , como 
Manoel faíiajcíla ley muyto purâj& muyto íanta. 

Com eítas duas armas do pregar a verdade , & do viver 
virtuofo: ou cò cila íò arma da pregação edííicatíva ( fym- 
bolízada naqucIJa cípada de dous fios ? que fahia da boccâ 
de Deos: para com hum cortar a ignoraiicia,& com outro 
a malicia) pelejava Manoel contra a Idolatria: & com tam 
fcliccs fucccfibs , que achando-fe hum dia prcfcnte a húa 
publica.ôc folennc difputa cm matéria de Rcligíaójque íe 
excitou na Provincia de Quangghia diante dos Miniílros 
ieaes5& de todo o povo da cidade; com duâs horas de pre- 
gação , que Manoel feZjrendc-o , & conquiftou a mais de 
fcílcnta obftinados Infiéis j que voluntariamente fc fojei- 
tàraó ao fuavcjugo da Ley dcjcsv Chriíio. A experiência 
tem^inoítrado que os melhores Catequiílas faójos que fo- 
raó Bonzosjou fciticciros;porquc hús eftimados por mcC- 
trcs da ley, & outros venerados por muy podcroíos cótra 
os demónios 5 quando depois recebem o Bautifmo defco- 
brem os vicios,com que viviaój&os cmbuílesjque faíiani 
para terem oíFertas,& receberem dadivas ; faó por iíTo inf- 
trumentos idóneos para a converçaó de fcus naturacs. E 
ficando aííim a gcte inteirada dos enganos? & torpeza dos 
Miniílrosjôc dos íantos de fua íeita, facilmente fe aíreiçoa 
à verdadcjôc pureza da Religião Chriftã.Por eíla rafaó gra- 
de numero de infieis>6c entre clies muytas pcíibas princi- 
paes em fangue , Òc em letras receberão o Santo Bautifmo 
pelas pregações de Manoel ; porque quanto mayor era o 
conceito,que todos tinhaó de fua fabedoria,& prudência; 
tanto mais facilmente fcinduíiaóa tomaraley,q^cm Ma- 
noel expcrimétavaó fer verdadeiramcte, virtuoía, & fan- 
ta:pcla qual chegaria elle a lograr no Ceo o eterno premio 
de feus continuos, & apoítolicos trabalhos na con verçam 
de feus naturaes. 

Com muyto mayorcs empenhos procurava hix Chrif- 

lii iij táo 



436, BREVES NOTICIAS DO •. 

raó d?. Provi ncia de Nuoc man a falvaçaó das almas. Cha-, 
mâva-feÁntonichomem de poucas letras, mas de grade 
bondade 5 & único Chnftáo na fua villa muy populofa. A 
muyta cegueira de fcus naturíics3& a certa perdição de fu- 
ás âlinas oâo davaó dcicãço ao zcJo de António. Pelo que 
de dia5& de noyte eíhva exliortândo aos parentes 5 & aos 
eítranhossa que abraçaílcm a ley dos Chriílãos; porque íò 
por cila íe poderião livrar das eternas penas do infcrno>ôc 
gozar da perpetua bemaventurança do Ceo. Tinha pre- 
gado quatro annos contínuos ; &: pofto que nem hum fò 
tiveííc coo vcrtidOjCom tudo davalhc a enter Dcosjquc & 
iiaiméte colheria o frutOjôc muy copiofo. Como os prin- 
cipaes da viila diíleílcmjquc vindo algum Padresque lhes 
deiTe mayoresnôc mais claras noticias defta nova leyjcntao 
íe lariaó Chriftàos: logo que o Padre chegou a húas Chrif- 
tandades veíinhas , foy António dar aviío como o Padre 
efiava jà perto. Mas: ou toíTe pouca vontadejquc tivcílèni 
de íer Chriftàos: ou foíTc tentação do demonio;moflràra6 
todos tanta friezajque davaó poucas efperanças de íua có- 
vcriaó. Sendo muyto António a durez-a do animo de feus 
ouvíntes;mas reparando,quc nas mãos de Dcos eílavaó os 
corações dos homens ? & podia elie abrandar os mais em- 
pedrenidos: foy-fe valer do patrocinio da Virgem Mãy5& 
poílo de joelhos diante de íua Imagem começou a chorar 
incon folavelmentejpcdindolhc que alcançaíTe de íeu Di- 
vino Filhoaconverlkó daquelles feus naturaes: prome- 
tendo ellc de tomar por cada humjquc fefizcílc Chriíiãot 
liúalargaj&afpera difciplina. Como Dcos gofta dcftas 
promeílas, & lhe agradáo muyto as penitencias feytas pa- 
ra falvaçaõ das almas 5 & fobre tudo pelos rogos , òc inter- 
ceííàó da Senhora compadcceo-fc da cegueira , & obftina- 
f ao daquelles idolatras. Chegou dali a poucas horas o Pa- 
dj.e,& Jogo acudirão todos à prégaçaÓ5& o foraó ouvindo 
por vezcssatò ficarem inteirados do que enfmava,& man- 
dsiva noíTa &nta ley. O primeyro 5 q recebeo oBautifnío, 

foy 



REYNO DA COCHINCHINA. 457 
foy o Irmão de AntoniojCapitáo cie íincoenta cavâ]los3& 
homem de niuyta prudencia3& de grande vaIor;porèni o 
mais obftinado em náo querer largar a Icy de feus paysj & 
de todo o Reyno. Seguio-fe logo o mais anciaò da villa : o 
qual a noyte antes de ler bautizado, eíicve quafi arrepêdi- 
do pelos rogos da mulher finiffima idolatra;poi'èm enco- 
mendando-le à Virgem Senhora^icntio em íy novo alen- 
to eípiritual: com o qual náo fomente pcríluio na rcfolu- 
çaó de ícr elle Chriílãojícnão também redufio a mulher a 
recebcrjôc guardar a Lcy de Deos. Nos primeyros dias oi- 
tenta os mais principaes da vúh foraó bautizados : & An- 
tónio hia tomando por cada hu delles a íua diíciplina : na 
qual mayor era o goíto eípirituaLquco alegrava;que a dor 
corporaljque padecia. Táo copioío foy o celeftial orvalho 
da divina graçajque cahio fobre a nova eterna planta deíla 
Cbriftandadesquc foy crecédo não fô com aquella uniam 
de coraçóesjôc vontades da primitiva Igreja; mas ainda có 
tanto fervorjôc devaçaó , que com larga difcipíina fe pre- 
paravaó para receberem os Sacramentos da Confiílaó , & 
Comraunhaó. E pofto que foíFem pequenas, & ordinari- 
as as culpas; não era porém poucajnem comua a peoajque 
cada hunijconífituindo-fe Juiz contra íi 5 dava a fi mefmo 
convencido por reo. Efte rigor de cada hum comíigo hia 
acompanhado da compaixão para com os outros. Tendo 
noticias de algum Chriílão doente , acudiáo os q fe acha- 
vaó deíoccupados : & além de o confolarem 5 & lèrvirem 
;ioque neccilitava ; tomavaó todos difcipíina na camará, 
onde íicavâ a pefiba doente ? ou em outra da mefma cafa: 
pedindo a Deos qperdoaffe as culpas daquelle enfermo, 
ôc também lhe deííe a faude corporal. Porem fe foííe para 
mayor gloria divina, & bem daquella alma livrala das prí- 
foens do corpo, lhe concedeíTe a eterna bemaventurança. 
Com eíla piadoía,& poderofa bataria alcançarão aquelles 
fcrvorofos penitentes Chríílãos a convcrfaó de hum Ma- 
thcus 5 que depois do Bautifmo tornara com grande efcã- 

liiiuj daío 



4-^8 BREVES NOTÍCIAS DO 

o.-ilo de todos à occaíiaõ antiga de fuQs torpeías. Adoeceo 
efte gravemente em caíiigo das oíFenças, que hfm a Deos. 
Acudinó logo msjytos Chriílãos a tornar a lua difcipliocij 
rogando q Dcosjiiiaíle de fiias infinitas miíerícordias coin 
rLquelIaalína,q como ovelha deígarrada hía cahir nabocca 
do lobo infernal. Co os golpes daquelles açoutes íè que- 
brou finalmente a penha do coração de Matheus : & co- 
meçando alcançar pelos olhos dous rios de copiofas lagri- 
nias^pedio perdão a Deos : & aos Chriítãos que paraíTem, 
pois prometia elle a total emenda deília vida. Deíla ma- 
neira fe alcança a converfaó dos peccadores;porque Deos 
facilmente lhes perdoa as culpas, quando os innocentes 
tomaó à fua conta pagar as penas. Como efta doença cor- 
poral de Matheus fò era para a fua faude eípiritual? logo q 
tornou a Deos5íicou livre da enfermidade. Mofcrando có 
eíle fucceíIo,que niuytas vezes os malesjC] padece o corpo 
fâò caftigos das culpas da almajÔc avifos para que íe emen- 
de. 

Nem era menor o cuidado da piedade deíles fervoro- 
íos Chriílãos para com os mortos : de muytas legoas con- 
corriaó aos enterros , para naó falt?.rem com efte piadofo 
obfequio aos corpos de fcus Irmãos em o Senhor , & a en- 
comendarem fuás almas priv^ada,& publicamente em fu- 
ás Igrejas: as quaes,chamados ao fom, de hum fmo,acudião 
Cada dia duas vezes,antes de amanheccrj& depois de anoi- 
tecer5rezando,& orando com tanto fervor de efpirito , ôc 
copia de lagrimas , que parecião mais Anacoretas antigos, 
que fecularcs Neófitos. Finalmente a Chr!fl:andade de 
Nuoc uian ficou por exemplar às outras da Cochinchina 
jia piedade para com Deos , & na charidade para có os ho- 
mens: & todo eítc fruto fe deve ao paciente zelo de Antó- 
nio. Naó fe dcfanimc , quem procura a cóverfaó dos pcc- 
cadoresjfe logo a naó cólegue ; pois fe com a paciência íal- 
vamos as noflas almas, com amefma poderemos alcançar 
'À hlvâçzò do outros. He também dmwà de feíabcr huma 

piadofa 



REYNO DA COCHINCHINA. 45^ 

piadofa contenda entre dous Chriflãos. Em húa Aldca dâ 
Frovincia de Cachão havia hum íò Neófito de oíBcio car- 
pinteiro 5 & pobre de bens ? que chamão da fortuna. Foy 
Dcos fervido chamar para o feu rebanho o mais rico la- 
vrador daquelle lugar , que com toda fua família recebea 
o Santo Bautifmo:& a pòs eíle outros vefinhos fe ifizeram 
também Chriftáos. Crecido jà o numero dos Fieis, pretê- 
deo o carpínteiro,que a fua cafa ferviíle de enfermaria aos 
pobres: para com cila charidade fazer algum ferviço, & a- 
gradar mais a Deos. Mas oppoíTe o lavrador5dízendolhc:<| 
não havia duvidajque como o mais antigo Chriílão fc lhe 
devia dar fcmpre a clcolhajôc o primeyro lugar nas horas, 
& proveitos ; porem a fua pobreza náo lhe permitia tãtos 
gaftos: os quacs podia clle fazcrjpor ter muytos bens;pclo 
que era melhorjquc os doentes vicíFcm à fua cafa ? na qual 
não faltavão criados para o ferviço , nem fazendas para os 
gaftos.Náo largou a demanda o pobre, & muy charitativo 
carpinteiro: allegando 5 q por fer clle o mais antigo Chrií^ 
tão do lugarjdcvia fer também o primeyro em dar o bom 
exemplo nas obras de mifericordia: ôc fe antes de todos ti- 
nha recebido no coração a Ley de Jesv Chrifto , devia fua 
cafa fer a primeyracm hofpedarjôc curar aos pobres doen- 
tcs,que reprefentavão a pcíToa do mefmo Senhor. Quan- 
to pois às defpezas: fe Deos fuftentava a todos os paílàros? 
fcm terem eftcs celleirojnão faltaria có o fuftento dos po- 
brcs,que crão fcus filhos por graça. Refpódeo o lavrador, 
concedendo quáto o carpinteiro arrezcàra em feu favor, 
èc que aífim o pedia toda a boa rafaó. Mas que os mefmos 
doentes náo irião có tanta facilidade à cafa delle: não porq 
fe tcmeíTem de náo acharem todo o bom agafalho, né por 
defconfiarem da Providencia Divina ; mas por cuidarem, 
que lhe feriao de cílrovo ao feu traba]ho,com que fuften- 
tava a vidajôc familia. Ficou ainda o pleito em pè; porque 
cada húa das partes perfiftia no feu requeriméto are o Pa-» 
drc dar a final fcntençajôc foy : louvar muy to o delcjo > & 

Kkk empe- 



4.|,ò B Pv E:V E S -N o TI- C I â5 DO' 
emoenlio charitativo do pobre carpinteiro: &cncomcn«.' 
dar Ao-Tíco -lavrador a execução daquella -obra- de mifcri- 
còrdia^'^Oquepoiscomáiumêteíecoíl:uma nas Cidadesa 
&-¥iÍJas3hc5 levantarem hõa companhia 5 q elles chamão.. 
líúiPXquú enteio os Cliriílãos abaftadoá , cada hum com 
o que pode: a qOal quantia de dinheiro fe dà a juro,& com 
eite acedem aCTs pobrcsjáOg doentes, aos prezos, & âo3 etí^ 
errósdõs ChfiMos. Efta negociação evangélica hedigfik 



que fcjâ entrodufida em todas as Comunidades Eppeas,^ 
muy to mais nas Catholfeas: para pagaré a Ghrifto rias pefe, 
foas dos neceííitados algum tributo do múyto? quede íècí 
divina5& liberal mao tem recebido. hir^-ib 

Naô he poffivel apontar todâs as acçóeS vírtuiÈ>fáS díiô 
tes Neófitos: nem trazer todos os Varócsilluílrcsèm vir*; 
tildes Chriílãs,& 2,elo das almas,que por vários tcmpdà tf 
Deog dado como exemplares a todas as fette Prõvincí^í^* 
da Cochinchina : para que có a clara , & diílínta prègaç^^ 
alumiaíícm os cegos entendimentos dos infiéis , Ôs codiô 
fuaviílimo cheiro de fuás inculpáveis 5 ôtfantas Tidas ol 
trouxeílcmao rebanho do Salvador. Acabarei efteCàpí-^ 
tulo,com referir brcvcmêtc as heróica^'? & Ghriílds pfoei 
Zzs de húa mulher por nomejoâna? efcolhida por Deoá 
para confiíTaó dos Idolatras doutoSs& para ioítrucção doà 
Padres Miffionarios: conhecendo aqiicllesa fua -rtídcZà| 
por ignorarem a Chriílo Sabedoria infinita: ôc erpcriméí- 
tando eíles , que a convcrfaó dos gentios não he friito daá 
letras;masda Divina graça,a qual Deos dàa quemíquãdó) 
& como quer : & tão facilmente converte as almas pelos 
ftbiosjcomo pelos ignorantes. .u:^'. ,• 

Era Joí.na m ulhcr pobre , 6c fem letras;porém eftês de* 
feytos fe rccompenfavaó com húa grande honeíí:Kkde,6c 
muyta virtudc;pelas quaes agradou tanto a Deos^que lhe 
infpiroujque foíTe ella pregar: & elle favoreceria feu zelo* 
& nprcraearia feu trabalho com grandes convcrfoes de al- 
iiias. Obedeceo Joana à voz interior ^ que pelos finães lhe 

^v. pareccQ 



REYNO DA COCHINCHINA. 44? 

parecco fer Deos: & pondo nelle toda fua confiança) buf- 
cou húas peças de feda fahio de fua cafa em trajo de mer- 
cadora5&: foy corrédo as villas5& lugares, como coftumão 
fazer, as que cxercitão ell:e officio. Ascafas, aonde Joana 
hia vender a fua mcrcadoriajeraó de gentiosrnãopara tirar 
delles algum lucrojmas para deixar aquellas almas ganha- 
das a Jesv Chriílo. Em quanto as peíFoas , que querião c6^ 
prarjhiáo vendo as peças,ôc fazendo o concerto delias, hia 
Joana falando do mayor cuidado, que tcdos deviaó de ter 
do ornato da alma; porque o corpo era todo huma podri- 
dão? que com a morte íereduíiria finalmente em cinza.' 
Porém a alma era cfpirito nobiliílimo , & im mortal : cuja 
fermofura excedia muytas vezes a do Sol : mas pelo pcc- 
cado ficava ella tão fea ? que naó havia na terra coufa mais 
horrenda nem mais terrivel. Com tudo o Creador de to- 
das as couías {c compadeciaj & tinha tanta compaixão das 
a mas culpadas , que com feu mefmo fangue as queria la-< 
vir daquella tão medonha fealdade : &fermofearaindiB 
nuyto mais com a fua divina graçajfe ellas o adoraíTemíêc 
fcrviílem. Eftas palavras de Joana movião aos ouvintes 
nituralmcntc curiofos, a lhe fazerem muytas perguntas: 
às quacs refpondia ella 5 & nas repoílas dava noticias dos 
myfterios5& mandamentos da Religião ChriílãjÔc do caf* 
tigo 5 6c premio eterno na outría vida. Com femelhantes 
praticas convertia Joana a muytas almas: fò em húa villa 
ganhou a Chriílo quarenta & duas pcíToas , & entre ellagí 
ao Mandarimjque alli governava. Como a fazenda, q efta 
mercadora Evangélica hia vendendojnos cuílaffc dinhei- 
ro mas fò a vontadejnáo excluía Joana aos pobres da com-í 
pra : antes com mayor gofto os bufcava ; porque quanta 
menos tem a peílba dos bens do corpo,& dcíla vida, tanto 
mais facilmente fe reíolve a alcançar os da alma, & do ou- 
tro mudo. Teve noticias como em hum lugar de Cachão 
cila vaó juntos muytos pobres : foy logo a ellcs , de depois 
de fc compadecer de fuás miferiasjôc moleílias? que padc- 

KKkij CÚQ 



442 BREVES NOTICIAS DO 

í:'úo nefta vida 5 lhes foy dando conta das eternas penas 5 q 
eíla vão aparelhadas na outra, para os que não guardavão 
os preceitos dados por Deos Creador dos homés, & de to- 
das as couías: & j untamcnte lhes cxplicou,quanto eníina 
.noílíi faata ley para íe crer,& manda para fc guardar. Não 
foy pouco o lucrojque Joana tirou ddl:âprègaçaó;porque 
dez pedirão logo o Santo Bâutifm05& o receberão depois 
debcmioílruidos. 

Corria jà a fama defta niulher,quc com disfarfe de ven- 
derjcnfeitiçavajconio diíiaó , os corações : obrigando-os a 
tomarem hm ley nova ? & contraria à dos dcoíes do Rey- 
no: & era tanto mayor aaíFronta dos Bonzoi, quanto me- 
nor em tudo era a peíToaj que pregava contra as falíidades 
da leyjque cllcs cníinâvaó: & moílrava ícr verdadeira Re- 
ligião a que clles reprovavaó. Cheos pois de foberbíb Ôca- 
braçados da ira os envejofos Sacerdotes dos Ídolos mancfi* 
;raó vir a Joana para húa aula,para a^onvencercm em pic- 
fcnça de grande multidão de gente, & depois a rcprchei* 
derem afpcramcnte,& caíligarem com grande rigor pdo 
inaudito atrevimento; pois fendo mulher ignorãtej& la- 
cida para âar,oufaíreenfinar5& pregar doutrinas novaSí^ 
contrarias às que defde muytos feculos íc tinhão aprendi- 
do,& guardado em todo o Reyna. Foy Joana? &: achou os 
Bonzos aílentados nos lugares dos meílrcs>affirrindo gráí 
de numero de letrados, 2c multidão de pouco : huns con- 
vidados pelos Bonzos : outros trafidos da fua curioíidadc. 
Dous deíks Sacerdotes do demónio, primeyros Cátedra-* 
tiços5& meftrcs de fua feita tomarão k íuâ conta a conten- 
pa com eíla íô mulher;porque tinhão por certo, que leva- 
rião a vicroria. Olhando pois ambos cógeílo foberbo para 
Joana,com vo7odc meneo de defprezo lhe perguatàraórq 
doutrina eraja q ella fendo mulher, & ignorante hía apre- 
goando pelos Lugares , Villas , & Cidades a cerca da alma 
do homem, & do que havia na outra vida. Antes quejoa- 
mrcfpondcí]c,pediohumilde5&affecluofamentcodivi-« 

no 



REYNO DA COCHINCHINA. 445 

no foccorrcpara que lhe aíTiíiiiTe , patrocinando a verda- 
de de fua fanta Icy. Depois com femblante foccegado , &c 
modcftojcom voz branuajõc vagarofa começou a provar: 
Como a alma do homem era immortal? creada â femelha- 
çã de fcu Crcador5& fomente nelle achava fua bemaven-» 
turança;porquc íò nelle via tudo, oz gozava de todo o bé; 
pois tudo fe cnferrava nelle , como cm prímcyro princi^ 
pio de todas as coufas. PaíTou depois a moílrar: Como a ai-- 
ma 9 morto o corpo ? não entrava cm outro corpo huma- 
nO)& muyto menos no da vaca,cão5fapo5& de outros ani- 
ínaes vis; mas fahindo, depois de morrer o primeyro cor* 
pojcrt logo julgada por Dcos^que a tinha creado: & fe lhe 
dava no outro mundo o premiojou caftígojque merecera 
nefte por fuás virtudcsjou maldades. Foráo tantas, & tam 
altas3claras,&: convenccntcs as rafóesjcom que Joana pro-* 
vou,fer evidentiflima , & cnormiíBma falfidade a trãfmi^ 
gração da alma do corpo cm corpojcomo os Bózos difrão? 
ôc a eníinaváo por doutrina a mais fublime de fua Theo* 
]ogía;que cites fenáo atreverão a refpondcr : mas callados, 
Ôc envergonhados à grande prcfia fe recolherão para os 
fcus Conventos. Todo aquelle auditório ficou perfuadi- 
do com as rafóes de Joana : & depois de todos lhe darem 
muytos vivas,foy cada hum fahindo daau]â5louvando, & 
aprovado por muy verdadeira a ley dos Chriftáos: & tam- 
bém vituperando,& condenando por muyto falfo,quan- 
to os Bonzos eníinaváo. Grande foy a aiegriajquc rcccbeo 
Joana , por fugirem vencidos , os que tinhão vindo como 
vencedores : & conhecerem os aíliílientes idolatras a ver- 
dade da Ley de Deos. Da aula fe foy logo à Igrcja,para allí 
dar as graças ao Senhor,que dava as viâorias. E com muy- 
ta rafaó; porque fò Deos pelejava; pois Joana era tão rude, 
como ella mcfma o cófeírava5que fora do tempo » cm que 
prègava,náo lhe occorria coufa algúa , nc fabia dizer qua- 
tro palavras , que fizeílem nua oração a propoíito. Porém 
começando a prcgar> tantas rafóes lhe occorrião;6c tantas 

Kkkiij erão 



444 BREVES NOTICIAS DO 

eráo as palavríiSjque lhe vinháo à bocca,que não podia pa- 
rar. Hum Mandarim chamado António homem doutií- 
fniio em íuas letras, & verfadiílimo nas coufas de noíTa íã- 
ta ley,cícafando-fe com os Chriftãos 5 q fc qoeixavaó dcl- 
lejpor lhes não cníiaar as coufaSjquc Joana pregava; diíia: 
que tendo clle gaitado os annos de fua vida cm cítudarjôc 
ler muytosjôc mujtos Íivros;com tudo nâo alcançará húa 
das cem coufas que Joânâprègava;porq não era clla,mas o 
Efpiritu SantOsquc por ella falava. 

Os Bonfos jà íc naó atrcvião a difputâr com Joanamcra 
lhe apareciam diante envergonhados. Porém alguns ido- 
latras zclofossou teimofos na fua ícitajôc por ventura acó. 
felhados pelos Bonzos , foraó cm bufca delia : & levando 
comíigo hum menino gravemente doente? não quízcraó 
vir a argumentos > mas diíTcraólhc: Qije fe era verdadeiro 
o Deosj que ella pregava: & neccíTaria paraa falvaçaó da* 
almas a ley^que cila cníinava : dcííe faudc àquellc innocê- 
íc. Cuidaváo os malvados 5 que por não poder Joana farar 
ao enfcrmo,ficaria logo ella declarada por cmbuíleira.Co- 
mo fc a verdade dos did;ames da rafaô dcpendeíle do fuc-» 
ceifo railagrofo. Porém Joana conhcceoa malignidade 
dos calumniâdorcs : & tendo grande confiança em Deos, 
que acudiria pela fua gloria: levantou os olhos ao Ceo , ôc 
chamando pelo Omnipotente nome de Deos, fez o fmal 
da Cruz fobre o menino. Cafo milagrofo! Levantoufc lo- 
go o mcninojôc ficou de todo livre, & valente. Com eíles 
inauditos prodigios authorizava Deos a verdade de íua di- 
vina Icy, éc com a repentina faudc âo menino innocente 
não poucos adultos culpados de grande obílinaçaó no feu 
gentilíírao fe livrarão da morte eterna por mcyo do San- 
to Bautifmo. Ficando mais defcuberta a falfidadc dalcy 
cnfioâda pelos Bonzosjos Idolatras mais conf ufos ? & en- 
.vcrgonhados,& Joana msiis gloriofa5& triunfante. qual 
Fi^o lhe faltaria Dcos no Cco com os prémios da bemavc- 
traança3merccidos do ícumuy£0 2iclQ?&: grande trabalho 

m 



REY.N-0 DA COCHINCHINA. 445 
na.tcrrajpciâ prègaçap do Santo Evangelho. 
> i Fará qmos que lerem cftes fucceílos , nao fiquem fò-» 
{mente admirados dó zelo dos Neoíitoa Cochinchinasjcf- 
cuíando-íe da imitação com a divcrfidàdc doí tempos , & 
lugtrcsjem que vivem: apontarei por fim^o que todos, 5c 
crn rodQatcmpo5& parte da Chriílandadc podem imitar 
com náo menor aceitâçaó de Dcos, & proveito de fuás al- 
uais. Morava na Provinda de Cachaó huma Senhora cha- 
ínada Ifabe];,& pofto que foffc de muyta idade, com tudo 
com a carga dos annos não enfraquecia o feu fervor: antes 
quanto mais fc lhe esfriava o calor no fangue , tanto mais 
fe lhe acendia o zelo na almajdefcjandojant^ de fechar os 
olhos/ver eíle mundo todo Ghriílão ? perfcy to , 6c fanto. 
Achando- fc pois muy adiantada na idadejdeo-fc por obri- 
gada a ir também diante co o bom exemplo da vida ; porá 
aílim como aos moços lhes corre o brigaçaó de terem reC 
pcyto aos mais velhos ; allim também cílcs faó obrigados 
a inílruirem na virtude aos mais moços na idade;pois que 
caminha diante, deve advertir? aos que o váo íeguindo 5 o 
paíTo ruim para fe defviarem 5 & o bom para irem fcgura- 
mente por cllc. Vivia Ifabel hua vida innocentc ; porque 
para fe livrar das culpas ainda leves5fugía das vifitasinute- 
isjnem admitia convcrfaçócs ociofas: goílaodo paíTar o tê- 
po no oratório com a reza de varias orações 5 & lição de li- 
vros cfpirituaes : frequentava com grande preparação os 
Sacramentos^que faó as fontes da Dnn na graça 5 có a qual 
fe alimpa a alma das culpasjôc toma alento para vencer os 
vícios , & exercitar as virtudes. Todo o mais tempo fe oc- 
cupava em enfmar a mininas as orações da doutrina 5 para 
poderem receber o Santo Bautifmo : o que fâíia também 
depois de reccbidojpara fenáo efquecerem delias : & jun- 
tamente explicandolhes pelos livros os Myfterios, & pre- 
ceitos de noílli fanta ley. Com a paciência no enfmar , 6c 
com o exemplo do bem viver da meíka facihi5cnte aprc- 
diaõ as diícipulas não fò o que deviaõ fizer? mas também 
^:^Ti ^ KKKiiij a per* 



446 BREVES NOTICIAS DO 
a perfeição : com que o haviaó de exercitar ; porque a boa 
obra mal fejtaj merece caftigo naó galardão. Masj ou foíTc 
pela muy ta idade, ou pelo grande trabalho nefta cótinua^ 
& í:.elora occupaçaôjcahio a boa velha doente. Eftãdo pois 
efperta^áccncomendando-fcaDeos atites de amanhecer 
o dia 5 que era vefpora da folennidade do Corpo de Deos^ 
no anoo de mil & feís ceutos ôc quarcta ôc oito vio de re- 
pente toda a caía alumiadajôc a alguns Santos? & Santas á- 
comptnhadosde multidão de Anjos. AíTombroucílaTiC- 
ta à doente líabel? & por algum eípaço de tempo a teve a- 
tonita; porém reparando cila , que femelhantes hofpedes 
não vínhaó para maljcobrou animo 5 & fem falar palavra, 
foy pondo com muyto agrado os olhos ora na fobre hu- 
mana fermofura dos roftos daquelles Cidadãos do Ceo, 
ora na prccioíajôc rica variedade dos vcftidos , que trafiaó. 
Depois de ter Ifabel gotado por tempo cóíideravcl da víf- 
ía de feus ccieftiaes hofpedesjfalarão eftes: animãdo-a a có- 
tinuar na frequência dos Sacramétos5& no eníinar a dou- 
trina Chaiftá: & com efta aprovação, & exhortaçaó a per- 
feverar neftes fantos exercícios a deixarão niuy coníolada^ 
na alma , & muy alentada no corpo. Levantou-fe líabcl, 
foy à Igrejajdeu parte ao Padre do que virajôc ouvira^quis 
receber o Senhor, & foy continuando com mayor empe- 
nho no ufo dos Sacramentos » & no eníino dos ignorátes. 
De grande confolaçaó he efte vaiío do Cco para os Padres 
Mifíionârios,que gaílão os diasjôc noytes prègandojcxpli- 
candoos Myfterios,& Mandamentos da noffa Santa Fe. 
Náo hc de menor reprehençáo aos pays » & padrinhos .5 <| 
não cumprem có fua obrigação dcenfmaré aos filhos , Ôc 
afilhados as oraçóes,6c couíàs principaes da divina Lcy. A 
prendáo finalmente todos os Catholicos defrc exemplo; 
de quanto proveito íeja à alma a frequência dos íantos Sa- 
cramentos 5 & q uáo agradável aos Grandes do Paraifo 5 6c 
íio racfíno Deoàfjinilruir na doutrina Chriítã aos ignoran- 
tes. 

CAPI- 




REYNO DA COCHINCHINA; 447 
CAPITULO XXXVL 

Eíkdo p'ejente da Mi ff ao da Cochinchina. 

PACIÊNCIA foy fempre a ancora mais 
firme , que livrou de todos os naufrágios 
a Nao da Igreja: & com toda a proprieda- 
de fe pode chamar ancora da eíperança; 
porque ao íof rido, & paciente naó faltam 
os foccorros do Ceo, & faó prometidos os 
prémios da eterna gloria. Com efta cfperança fe levaõ ale- 
gre ,& focccgadamente as horríveis tormentas das mais 
cruéis perfeguiçóes: como no difcurfo deftas noticias tem 
o Ley tor viftojéc admirado cm muytos homésjôc mulhe- 
res5meninos,& meninasj( deixando outros , porque nam 
fe pretende efcrcyer Chronicas)que fem nenhum temor 
fe offcrccèraó ao tyrano , & com grande contentamento 
fofrèraó atroíiffimos tormentos 5 & crueliffimas mortes: 
ficando o furor dos perfcguidores vencido da maníidam 
dos pacientes , & aquelle campo evangélico quanto mais 
regado có o viâoriofo fangue dos perfeguidosjtanto mais 
abundante de generofas plantas de mais fervorofosChrií- 
tãos. Subio a tão alto póto a Magnanimidade deftes Neo- 
fitosjquc logo q penetrou as partes mais remotas das Pro" 
vincias do Sul a noticia das mortes 5 que padeciáo em Ca* 
chaó aquelles Chriftaosjpor naó largarem a Fè , & Ley de 
Deos; foy acudindo tanta multidão de fieís,aos portos ve^ 
íinhos 5 para fe embarcarem , & por mar chegarem mais 
cedo ao lugar das batalhasjque muytas, & muytas embar- 
cações grandes como caravelas carregadas fô de Chriílãos 
entrarão no porto de Faytojôc defembarcados fe pafsàraõ 
todos a Cachaó.Chegados àquella Corte unirâó-fe em hú 
Gorpo,lcvando cada hum o melhor veílido, que tinha : 6c 
com boa ordem marchou eílelufido? ôc numcrofo efqua- 

LU draó 



448 BREVES NOTICIAS DO 

draó do Salvador para a caía da Audicncin. A multidam 
dos concorrentes caufoii reparo nosJuizes,& logo paíTou 
a eípanto;quando lhes ouvirão dizer , q todos eraó Chrif- 
tãos vindos dos últimos confins do Reyno : & tendo lar- 
gado jà íuas faniiliasjôc fazendasjqucrião também morrer 
pela Fcj& Ley de Jcsv Chrifto. Eíh nova, & gcnerofa pe- 
tição encheo de pafmo aos Juizes,aos Miniílros5Ôc a todoa 
os Idolatras affiftctes. Ningucm diíTe palavra : os mefmos 
Juizes callados olhavaó huns para os outros : & todos ad- 
mirados. Tornando depois cm fi o Prefidente, com in:pa- 
ciencia5&ira lhes pergútou: Que hcoquc pedis ? A mor- 
tCjrefpondèraójpela fè5& Lcy de Jcsv Chriíio ? a que ado- 
ramos como a verdadeiro Deos,Creador do Múdo,& Re- 
dcmptor das âlmas. A repetição defte requerimento nam 
coílumado poz aos Juizes cm muyto mayor cófufaó.Por- 
que fe mataíTem a todos; ficariaõ defraudados notavelme- 
te os tributos reaes : além de fer barbaridade muyto cnor- 
mcjtirarem a vida a tão grande multidão com ruína de ta- 
tás ca{as,& famílias. Sc mandaffem a todos livres ; feriam 
mais dcfprczadas 5 & atropeladas as prohihiçócs rcacs. Sc 
caftigaíTem a huns,& naó a outros ; poderia fofpcitarfe , ^ 
eílcsjêc naó aquclles dariaó pcytas cm grande pcrj uizo da 
retidáo da Juftiça. Nem fe devia entregar â forte a efcolha 
de quem havia de viverjôc quem devia morrer ; porq len- 
do a vida? & a morte as duas coufas de mayores confeque- 
cias no mundo;naó convinha^que hum cafo contingente 
folfc arbitro do mayor premio, & do mayor Câítigo. De- 
terminados finalmête os Juizes a caíbgaré a todos naó po- 
rem na vida , depois de darem a todos bem larga, & afpera 
reprchençaó,mandàraó aos fo}dados,que tiraílcm a todos 
os Chriilãos os roupócs exteriores : para q aquclla publica 
aíFronta lhes foífe de notória pena da temerária oufadía 
em quebrantarem as leys de feu Rey,ck Senhor. Sentirão 
muyto os fervorofos Neófitos que iabifie tão branda a íé- 
tença,que cfpcravaó foífc de grandes tormentos, & cruel 

morte. 



' REYNO DA COCHINCHINA. 4J.9 
morte. Para que pois íbubeíTem os Juizes5& todos os ldo« 
latras ? que as mayores aíFrontas , que lhes fafiaó por caufa 
da Ley de Dcos 5 as recebião elles por grãdiffimas mercês: 
antes de chegarem os foldados a ellesjcada hum dcfpio lo« 
go o feu roupão , 6c o arremeçou aos pès dos Juízes : para 
largarem livremente ao menos o ornato do corpo, fc não 
craó dignos de darem por feu Deos também a vida. Deíh 
maneira aíFrontadosao parecer dos infiéis , porém miiy 
honrados nos olhos dos Anjos foraó lançados fora da fala 
da Audiência. Ficando os Juizes 5 & Miniílros atónitos d:^ 
conftácia dos Chrifl:ãos,em guardarem a fua ley : & do de- 
fcjojque todos tinhão de perder a vida por ella. 

Enformado ElRey deite fucceíTo , & confrontando-o 
com outros femclhantes fuccedidos na fua Corte , alcan- 
çou finalmente: que dando caftigos aos Chriílãosj não po- 
deria acabar com a ley dos Portuguezes;porque có os tor< 
mentos ficavaó mais alcntadosjôc muyto mais fc propaga-* 
vaó com as mortes. Nem por iíTo o quiz revogar as prohí- 
biçóes 5 mas ufou defta traça. Ameaçou em publica audi- 
ência: que achando hum lò foldado Chriílãojhavia de caf- 
tigar rigurofamente a todos os deíua companhia. Por eftc 
temor nenhum gentio fe atrevia a accufar foldado Chrif* 
tãojpara náo fazer mal a muytos idolatras. Quando algum 
Mandarim grande em particular dava conta a ElRey : co- 
mo neíla, & naquella Província havia muytos 5 que guar- 
davaó a ley dos Portuguezes. Difiajque não era poílivelj q 
ouveííc jà no feu Rcyno vaífallo,q fe atreveíle a quebran- 
tar fuás ordens contra efta ley eftrangeira. Foy hum dia a 
ElRey aquelle mayor inimigo de Chriíto? o Secretario de 
Eftado 5 & depois de enformar: como na Província de 
Dinh cat os Chriftãos eraó muitos5& tinhão muytas Igre- 
jas,pedio lícençajpara os ir prender, & matar ; para que ti- 
veílcm medo , & obedeceílcm aos mandados reaes. Nuó 
era zelo da honra delRey , mas grande ódio aos Chriítáosj 
o que movia eftc Mandarim a executar cfta íacrilega cru- 

Lllij eldade. 



450 BREVES NOTÍCIAS DO 

eldade. Porque tendo eile Icvátado hum magnifico tem- 
plo aos ídolos njiquella ProTÍncia5poucos eiiojos que cn- 
travaó 5 6c muyto menos os que lhe levavão oíFertas ; por 
haver recebido já a mayor parte da gente o Santo Bautif- 
mo 5 & adorar a Dcos verdadeiro, Refpondco porém El- 
Rey forrindo-íc: Matareis a hum 5 & dez fc offereccram a 
morrer. 

Grandes faó as obrigações de eternos agradecimentos, 
que deve a Deos a Igreja da Cochinchina; pois tão liberal- 
mente fe houve com elh? communicandolhc táo grande 
íirmeza na Fèjtão forte conftãcia na guarda da divina Icy? 
ôc tão abrazados defcjosdepadecerjôc morrer por fcu Re- 
demptor;quc o furor do tyrano foy vécido do fervor dos 
perfeguidos, & a fúria da perfcguiçaó ficou enfreada coai 
os ofFerccimcntos , que cftes fizcraó de fi para os tormen- 
tos,6c para a morte. SucccíTcquc poucas veres fe encon- 
tra nas Hiftorias Ecclcfiaílicas. 

No tempo dcfta tregoa > q ElRcy permitio à Religião 
Chriílã, crcceo muyto o numero dos Fieis5& das Igrejiis, 
todas occultas: às quacs acudiaó de noyte, ôc fem clíródo; 
para não fc efpertar a ira do tyrano 5 nem fe dar occaíiaó a 
outra nova perfcguiçaó. A qual pcfto que feja proveitofa 
aos que padecem nella ; com tudo a paz hc mais útil ao bê 
comum dos Fiei$:& por cfta caufa a Santa Igreja governa- 
da pelo Eípirito Santo a pede continuamente a Deos. El- 
Rcy jà naó mandava prcder Chriíláos; porém para fe naó 
moítrar adormccidojdava de quando em quando hús bra- 
midos de ameaças: & para fuftentar cm pè as fuás prohibi- 
íjôcíjmatava , a quem pelo tribunal da J uíliça cm publica 
audiência era rxcufado por íer Chriílão. Como fez no an- 
no de mil & fcis centos fctêta & quatro» cm que degolou 
aos vinte & oito óe Novembro a Domingos , Mandarim 
de letras na Corte de CachaójO qual diíTc aos Chriíláos : q 
cuidavajfe m^o veria Dcos a lhe fazer tão grade mcrcc 5 por 
não ter cllc deixado de rezar cada dia a coroa à Payxão de 

Jesv 



REYNO DA COCHINCHINA. 4^1 
Jesv Chrifto. Porem deílas mortes moílrava ElRey levar 
pouco goftojôc o deu a entender mais claramente em pu- 
blica audiência no anno de mil & íeis centos fetcta & kt- 
te. Segundo o coílume do Reyno antes de começar o an- 
no novo, faó levados ápreícnça real todos osreos de cul- 
pas graves jà provadasjpara ElRey diante dos tribunaes,^ 
da Corte confirmarjaccrcfentarjou diminuir o caítigo da- 
do pelos Juizes. Nefteanno os fcntenciados á morte paf- 
favaó de vinte^ôc no primeyro lugar da lifta, em q vinhaõ 
apótados os nomes ? ôc culpas de cada hum,eftava o nome 
de Joachim ; por lhe acharem em cafa contas^Sc livros da 
ley dos Chrifl:ãos,& guardar a dita ley.Era eíle natural das 
Províncias do Sul,homcm grave,& rico,foy prezo j & le- 
vado à Corte de Sinoajôc entregue a hum Mandarimjuiz: 
f>ara tirar a devaça,na qual fe gaftou pouco tcmpo;porquc 
oachim confeíTou logo , que era Chriftão , & guardava a 
Icy dos Portuguczcg. O Mandarim maiscobiçofoq jufto 
quiz aprovcitaríc da occaíiaó , & mandou íignificar a Joa- 
chimjque fe lhe deíTc certa cotia de dinheiro,íicaria livre, 
& voltaria com vida pira a fua cafa. Que: ( refpondeo Joa- 
chim. ) Naó permitirá Deos » que meu dinheiro me haja 
de fazer tanto mal,tirando*me a palma , & coroa do mar- 
tyrio. Naó quero dar coufa alguma 3 mas morrer pela Fèj 
& ley de meu Deos , & Redemptor. Sintio muyto o Juiz 
idolatra a gcnerofa,& dcfcnganada repoíla do prczoChri- 
ftão: & pela falta do que cfperava 5 & pela aíTronta que re- 
cebéra,fe encheo de tanta ira , que fez pòr o nome de Joa- 
chim em primeyro lugar , que ordinariamente hc morte 
fem remiíTaó. Prefctado pois o numero dos rcos aliftados 
a ElRey5depois o ler com muyta atençaõ,íe virou para os 
JuizeSíèc lhes diíle: Náo achaftes outro mais culpado que 
porem primeyro lugar 5 fe naó a eíl:e íò por guardar a ley 
dos Portuguezcs? Porém condcnou-o com todos os mais 
à mortCjÔc quejoachim foíFe também cíliuartcjado. Acei- 
tou o innocentc condenado com mayor alegria a fenten- 

LU ií j çâ de 



452 BREVES NOTICIAS DO 

ca de morte dada por ElRey, q a liberdade oôerccida pelo 
j uiz. Foy andando caminho de quafi mcya legoa atè o lu- 
gar da cxecuoió íempre Senhor de fi , & todo recolhido 
cm Deos: por cujo amor hia morrer , levado do dcfejo de 
o vcrslevantarjcc amar eternaméte. Foy degolado no fim 
de Jancyro de mil & íeis centos & fetenta & fcttc em cõ- 
panhia de outro5qiie fora ladra6,a quemjoachim pregara? 
& bautizàra no tronco. Acudio grade multidão de Chrii- 
tãos a eílc triunfo da Fe. Porém aquclle Domingos Hieu 
pagem do Príncipe , de que fe falou no Capitulo XXXL 
logo que a venerável cabeça cahio no chaójfe poz. dejoe- 
lhos5& alevantoujôc abraçoujdandolhcos parabéns da vi- 
éloria 5 & da coroa do martyrio. Efta gcnerofa 5 pia 5 & ca- 
thoJica acção de Domingos caufou muyta alegria aos Ne- 
oíitos,que todos com fanta cobiça fe chegarão a tomar da- 
quelle fangue triunfante : & cnchco de grande efpãto ao 
Mandarim, miniftrosjôc Idolatras afíiftentes. Mas nam fc 
atreverão a fazer demoftraçaó algúa contra os Chriítãos: 
aííím pelo refpeytOjque todos tinhaó a Domingosxoma 
pelo recco de molcílarcm a ElRey , que moífrava naó le- 
var goílo das prizóes > & caftigos por caufa da ley dos Por- 
tuguezes. Pela tarde recolherão os Chi iíMos todas as par- 
tes do prcciofo corpo,& pofto em hum caixão,foy levada 
dos parentes para a fua pátria : aonde fica enterrado como 
riquiííimo thefouro. Naó faltou, quem contaíle algu ad- 
mirável cafo , que fuccedco por mcyo das relíquias deíle 
confiante ConfcfTor da Fèj ôc gloriofo martyr dejesv 
Chríífo: 

Com o novo Rcy da Cochinchina filho terceiro dcfre, 
de quem atègora falamos ( que faleceo no anno de mil & 
íeis centos oitenta? & íettejtendo rcynado mais de quarê- 
ta annos com grande felicidades , & vicborias cm premio 
por ventura da grandejufl:iça,que íempre fcz^Ôc adminif- 
trou aífim aos grandes como aos pequenos ) eípera a Mií- 
faõ agora mayorcs augmcntos 3 na propagaçam do Santo 

Evan- 



REYNO DA COCHINCHINA. 4^5 
Evangelho: fiada na cíHmaçaojôc: affeólcque íendo Prín- 
cipe fez , de nioílroLi íemprc ter à ley dos Chrííláos, nam 
íb nam a prohibindo aos íeus críados5& Toldados ; le nam 
fâvorcccndo-a quanto podia. Coftumava o Ocunha Joaó 
da Cruz. já nomeado fazer cada anno hum grande, & cu- 
ríofo prcfepio cm íua cafa para a fua famih'a,toda Chriílã, 
& vinda de Macao;ao qual acudia também grande multi- 
dão de infiéis levados da curiofidadc. Porèrn o do anno de 
mil & féis centos 6c fetcnta & finco cxcedeo aos outros» 
aflim pelo muyto ornato do mótc, & mayor da Lapinha» 
como peias varias invenções de Anjos, que dcciaó em co- 
resjde eftrellas que apareciaò em efpclhos,& de agoasjquc 
cahindo moviaó hum enganho para moer arroz. Mas fo- 
bre tudo pela pcrfeyçaó das figurasjtodas de cera:das qua- 
es algúas reprcfentaváo os myítcrios da vida , & morte do 
noífo Redemptor. Entre eftas havia húa Senhora aíFenta- 
da ao pé de húa palmeira? da qual pendiaó os inftrumêtos 
da Payxãojcom o Menino Jesv nos braços: o qual abraça- 
va húa CruZjôc a Senhora por artificio eílava lançando la- 
grimas dos olhos. Eflias aparencias?como fucccde, chama- 
rão copiofo concurfo de gente, atè aos Mandarins grades: 
ôc eíle Rey fendo Príncipe de noytc foy ver o prefepio. 
Depois de reparar em tudo,& entender a fignificaçaó dos 
niyíterios rep relentados pelas figuras, louvou o que vira? 
mas diíTe. As lagrimas deita Senhora me enternece muy- 
to o coração. E deixou ordem , que todos os annos o aví- 
íaíTem ; porque iria ver o prefepio com m uy to feu goílo. 
ApremiavaDeos o cuíloío 2elo,& curiofa piedade dejoaó 
da Cruz com muytas cóverçóes daquclles ldolatras;porq 
niuytas peíToas ainda graves depois de verem o preícpio, 
& ouviré a pregação do Catequifta, que explicava o myí^ 
teriojvinhão logo à Igreja,que ficava détro da mefma cer- 
ca 5 & pediaó ao Padre o Santo Bâutífmo. Entre as quaes 
foy húa fidalga mulher de hum grande Mandarim , q ref- 
pondco aos Marquczcs de Europa a quâl cm prcfcnça de 

Lliiíij toda 



454 BREVES NOTICIAS DO 

toda fua íamiliajque era gentia.dillè, que queria fcr Chri- 
ra. 

Veyo eílc meímo Princípe húa tarde à Igreja, que fica- 
va perto de leu paçcacompanhado de poucos fidalgos fc- 
us críadosjque crâo Chriíláos. Sahío logo ao receber o Pa- 
dre, a quem diíle o Príncipe , que vinha para ouvir Miífa. 
Efcuíouíe o Padre dizendo: que depois de comer , ou be- 
berjnâo lhe era licito fazer o facrificio; porém faria? o que 
podeíle naquellas horas. Tomou capa de Afperges com 
os coílumados paramentos ? & fubindo ao Altar ? ben^^eo 
húâs velas: aíliííindo muyto perto o Príncipe em pè cora 
muyto filencio5atcnçaÓ3& acatamento : & fazendo tanta 
eílimaçaó do Padre , que quiz que fe aíTentaíle na meíiTia 
alcatifasôc bebcíTe ocha juntamente com ellc. Veyo tam- 
bém outravcz à Igreja, ôcvifitou ao Padre Bartholameu 
da Coita que eílava doente:ao qual lhe tem tanta affeiçao, 
que depois de fe aíTentar na trono 5 & ter mando real , ef- 
creveo logo à Cidade de Macao: para que fizeíTc, que o di- 
to Padre voltaííe para a Cochinchina: ameaçando 5 que fo 
não vieílb 5 mandaria reprezar todos os navios Portugue- 
ZeSíque entraílcm em algum porto de feu Rey no : & que 
foOem tomados quantos correíTem aquella cofta, da qual 
não fe podem afaftar ; antes navegaó fempre à vifta delia, 
& muyto pertOjpara fugiré das feíienta legoas debayxo? q 
lhe íicáo de fronte, & m uy veíinhos. 

Nclfe tempo não havia Miílionarios da Companhia de 
Jesv na Cochinchina;por quanto os que cílavão trabalha- 
do naquelle efpaçofo,& fértil campojhaviaó fido chama- 
dos à Europa no anno de mil féis centos & oitenta & do- 
ns, pela fagrada Congregação de Propaganda Fide. Nem 
outros da Cópanhia podiaó entrar cm feu lugar fcmex- 
preíla licença da mefma fagrada Congregação. O Padre 
Bartholomcu da Cofta, polto que foííc dos chamados, c5 
tudo parou cm Macao ; porque os médicos attcndendo à 
lua muyta idade,&: índifpofiçócs,lhe prohibiraò tao peri- 
gou* 



REYNO DA COCHÍNCHINA. 4jf 
goía5& prolongada viagem de mais de féis mil legoas.Náo 
podendo pois os Superiores da Companhia de f csv dar li- 
cença ao Padre para voltará Cochinchina. Os do gover- 
no da Cidadede Macao>para que aquellcs MoradoresjQue 
Víviaó íò com o contrato do mar? naó recebcíiem tão g;rá- 
des danos 5 6c não perdeficm o comercio tão útil cò a Co- 
chinchinajcomo aqucllc Rey lho ameaçava: fahíndo o Pa 
drc fora acerto negocio hú mez antes de fe apreíhr a naa 
para a Cochinchina,o prendèraó^ôc kváraó ao Convento 
dos Reverendos Padres Pregadores. E porque allí o nâni 
tinhaó tão feguro 5 o pafsàraò depois para a cafa do pay do 
Reverendo Padre Governador do Bifpado de Malaca: 
que naquella monçaó do anno de mil & feís centos oitc- 
ta&oito.íe embarcava , para ir vifitar a Igreja da Cochin- 
chinajque pertenceo femprc ao Biípado de Malaca. Parti- 
rão ambos, com feliz viagem aportarão na Cochinchina, 
& foraó bem recebidos daquelleRey: o quâl goRou muy- 
to có a vinda ao Padre Bartholomeu da Coftasôc Ihs man- 
douique ficaíle no feu Rcyno. O que caufou grande con- 
folaçaó naquellcs Chriftâos tão triftes , & defconfolados 
pela aufencia dos Padrei. 

AS Senhor ícrà muyto mayor o alvoroço 
daquelles novos Chriftâos ? quando recebe- 
rão a cartajque VoíTa Mageftade foy fervido 
cfcreverlhe no anno paílado em repofta a 
húajpela qual recorriãoaoReal zelo de V. 
Mageftade. Naó ha duvida? que achado eíles na Real Pef- 
íoa de Vofi^ Mageftade naó fò o em.paro de poderofo Pro- 
teâorjfe naó também o amor de cuidadofo Pay de fuás al- 
mas: naó menos pelos pioSjÔc faudavcis cófel nos^que lhes 
da: que pela expedição dos MiíTionarios, & Paftor , q lhes 
Ínvia: ficarão mais esforçados na guarda da divina ley , Ôc 
iraó correndo com mayor alento no caminho das virtu- 
dcs;para alcançarem finalmente o premio da eterna bem- 

Mmm aven- 




4)6 BPvEVES NOTÍCIAS DO 

aventurança. Nem deixará Clemente da Cruz de lhes lê- 
brar as grandes obrigações 5 que todos elles devem ao Re- 
al,6c Apoítolíco dei velo de Vofía Mageílade em procurar 
a ialvaçaó de íuas almas. Efte vaíTalIo de Voíla Mageílade 
( he filho do Ocunhà Joaó da Cruz, nafceo em Macao , 6c 
lie muy íemeíhantc a feu pay aílim na grande Chriílan- 
dade>& piedade para com Dcos, como na fidelidade , & a- 
mor a fcu legitimo Rey ) vive caiado na Cochinchina c6 
o pofto de íupercntendentc mayor da Fundição Real , co- 
mo jà fora íeu pay: cargo de grande predicaméto naquel- 
les Reynos. He muy eítimado dos grandes, ôcdo novo 
Rey por fua rauyta prudenciajôc raros talentos: 6c he a fe- 
gunda coluna daquellaChriftandade. Porém com a ex- 
traordinária honra 5 que VoíTa Mageílade foy fervido fa- 
S^erlhcjem lhe refponder à fua carta 5 pela qual em aufen- 
cíados Padres Miílionarios da Companhia dejesvdava 
conta a Voííà Mageílade do eílado daquella MiíTaó , fe re- 
conhecerá mais obrigado a procurar em diante com mui- 
to mayor cuidado a confervaçaõ 5 6c augmento daquella 
Chriftandade ; por entender 5 fer eíle o mayor empenho» 
6c o mayor goílo de Voífa Mageílade. 

Baífaràó por agora eílas noticias, para fe naó ignorar de 
todojo que Deos para fua mayor gloria té obrado na Míf- 
faó da Cochinchina? por meyo dos Religiofos da Compa- 
nhia de Jesv MiíTionarios de VoíTa Mageílade:& fe entcn* 
der juntamente o eílado prefente daquelle Reynojquc 
dà grandes efper^inças de muyto mayores progrefTos na 
Religião Chriílã. Tem empregado feu apoftolico zelo na* 
quelle Campo Evangélico defde o anno de mil 6c féis cé- 
tos 6c quinze em que fe começou a cultivar,perto de fin- 
coenta obreiros da mefma Companhia^jà poucosjjà muy- 
tossiegundo permitia a mayor , ou menor obílinaçaó dos 
Perre<>uídores. Sò no anno de mil 6c féis centos 6c vinte 
6c quatro chegarão a quinze: dos quaesos onze eraoSa- 
cerdotcs,6c os quatro irmãos, muy intelligeíes da lingoa, 

6c grau- 



REYNO DA COCHINCHiNA. \^j 

&: grandes Catequíftas. Porém quaíi fcmpre em continu- 
as períeguiçóe8,nas quses foraõ huns prezos , açoutados, 
captivosjôc feridos: doutros morrerão aíFogados nas via- 
gens daquelie tempeíluofo Oceano. O numero de todos 
os Bautizadof íb Deos o fabe : o que fe achou no anno de 
mil & féis centos & fetenta 6c íeisjcm que a MiíTaó come- 
çou a refpeytar;por ElRey parar com a pcríeguição, por- 
que defefperou daemprcía de poder acabar com a Reli- 
gião Chriftã;chegaváo a cem miljque aâualmente vivam 
cfpalhados pelas fette Províncias da Cochínchina,ô?: Rey- 
no de Champà,a ella contigo^Sc tributario;masao prefen- 
te fe contarão perto de cento & íincoenta mil Chriílãos. 
Náo fomente nas Cidades 5 & Villas grandes havia muy- 
tos Neófitos com fuás Igrejas,ou Oratórios efcondidosife 
não também cm muytas Aldeãs populofas fe contavaó jà 
poucos idolatras: nem íaltavão grandes lugare5,nos quaes 
não íe via templo dos Ídolos ; porque os moradores todos 
cxio Chriílâos. Sò na Corte de Sinoa aonde o refpey to às 
prohibiçóes reaes coftuma fer mayor , &c muyto mayor o 
medo dos caftigos j havia ao menos vinte & finco mil al- 
mas catholicas: numerofa multidão do Povo,grande can- 
tidadc de LetradoSjSc foldados 5 & muytas peíloas princi- 
paes em nobreza: entre as quaes Bà Maria Irmã da Rainha 
( além de outra Bà Mariajtia do Avô deite Rcy com íeis fi- 
lhos finco machos>& húa fcmea,todos Chriííáos ) hú Ne- 
to delRey paíTado, & dous Sobrinhos dcftc Rey nâte. Mas 
os que coroaó toda efta MiíTaó tão gloriofa/aó os muytos 
Martyres de toda a condição,& idade: Fidalgos -> & Plebe- 
os,lctrados5& foldados,homens5& mulhercs,nieninos5& 
meninas : os quaes com fuaconítancia eílabelecerão a Fè 
nos corações de feus naturaes 5 & com feu langue propa- 
rão a Religião Chriílã por todo o Rey no. 



Mram ij LAN- 



458 



BREVES NOTICIAS DO 




Ançados pois aos pès de VoíTa Mageftade os ReJígio- 

fos da Companhia de jesv Miííionarios da Cochin- 

china oíFerecem eftas noticias fumarias dos princípios? & 
progreílbs daquella Chriftandade ao Real , & Catholico 
í^elo de Voffa Mageftade dandolhe juntamente infinitas 
graças? por fe ter ícrvido dellesna Apoftolica Conquifra 
daquellas almas. Das quaesas que andáo ainda defgarradas 
peio deferto de fua infedilidadejbradão : para que Voíía 
Mageftade lhes acuda com muytos Millionarios ; que as 
livrem dos lobos infcrnaes »& tragáopara o rebanho do 
Salvador as que jà fe fuftentâo com os faudaveis paftos 
dos Santos Sacramentos^pedcm que lhes não faltem íeus 
Paftores. Porém as que fe vão ajuntando ao Divino Cor- 
deiro na gloriajcontinuamente eftaràó rogando affim pe- 
la vida^ôc faude de VoíTa Mageftade 5 como pelas felicida- 
des,& augmcntos da Monarquia Lufitana;por ter fido ef- 
ta Coroa o principal inftrumêtode fua eterna Bcmaven- 
rança. 



LAUSDEO. 





I n: D E X 



DOS 




QJJ E CONTEM ESTE LIVRQ. 




cipm da mi(' 

fAÕdãCochin- 

chmá, !?.33. 

CAf.ll.Ko- 

tkiái do )ftlho 

Andre.l'. 47 

CaT.ULISlo' 

ticiâsde Ândre omojfo. 'Pa^. 50. 
CJT. IV. Vo c^ue pajpiu entre os dous An- 

dres : ^dofuccejjo , <^ue ambos tivera». 

!?jg. 56.' 
CJT. V. t>à éxecuçitô dafentefi^d dá mor- 

té do mo jf* André. 9dg. 64. 

CaT. VI: Kmdas de Vicente JgHãcia^ (SS 

de outras ChrtJlÃos. Taj^. 76. 

C AT. VIL Particulares noticias da Vidâ 

de Vicente: Pag. 94. 

CâT.VIU. Particulares noticias daVida 

de Igndcio Catequijlâ. Pag. 97. 

CAP. IX. Ncticias de Agojlinho , Alei- 

xo,ÍS» de ouires Choi/iaos. Pag. 103. 
CaP. X. ISioiiciãs de Vanos fuccejjos^cjue 

depois ouVe : ® do no\o dejlcrro dos Pa • 

dres. Pag. 11^. 

CaP. XI. Como os Padres acodiaõ à Mff- 



jaô^em quanto El^y dá Cochinchina mô 
lhes daVâ , licença^ par a ficarem naqueUe 
<í(eyno. Pag. 138; 

CaP. XII. Embdxada da Cidade de Ma- 
ção a El%ey da Cêchinchina , licença que 
efte deuy para ha Padre ficar «« feu !2^f>- 
no : (^progrejfos daqudla Mi/faô. 

Pag.i^^: 

CAP.XIII. Prificipios de hua mVdper- 
fíguiJfaQ^Conjiancia dos Neófitos :&ad^ 
mraVeis fucceffos cm con^rmat^aõdare' 
ligião ChnflÁ. Pag. i "5 6. 

CaP. XIV. Prijaô de muytos Chrifiaos, 
(Scoujlãcia nu conffJAo da Fè. P. i 70. 

CaP. XV. Prohibe El^ey aos Cochinchi- 
}iíís aleydosChrtfljos,prijaôdí'lles : (^ 
quatro mortos pela confijfaõ ia Fé. 

í^... 185. 

CAP. XVI. Particubres noticias dos qua- 
tro prefos Joaõ íyctlam^Thoma^ Khum^ 
Aleyxo , ^ Joaõ Ngutem. P^ig. i ()0. 

CAT. XVIL Notifica-/e a (entfnt^a dg 
morte mos quatro Cotifejjoies dethnjlo, 
6» tod^is morrnn^iíoriofanierite. P.iio. 

CaP. XVII l. Crcce o fervor dos Chrif^ 
tãos embravece fem mais a pcrfiguij] .vn 

dos 



■ ■■' INDEX. 

dosgcniíCiy^cãufas (^uehouVe tormentos trs jcisglnriofcí Cõfijjlycs ck JcA' Chif- 

dados aos CouffJJores de C hrtflo : &^[o- to:Mm:elJoJipb,I^nacíu,Cayo^'8d Mu^ 

rtofa morte de í-edro Dang. 'Pag. "2 20. ria^^ joanna, ^a<f. 2 ç6, 

CaT. XiX. ^njady^dcjlerrodos (Pa- CaP.XXFHL Reforça Decs tfteconf- 

dl es. Pag. 239. ta}i(e efquadyaõ com oíuros esforçados Cõ- 

CaP. XX. Prifaô de rnujtos Chn/lãos m fjfores de Chri/io. Piig.:^oS. 
Crte de Smoa : & morte do Cmquifla CaP. XXIX. ^oitcfica dodapor Eí'^eyz 
Pedro í\t pelaconfijfaò da Saneia Fé. execucwdcHay dous nvninos fc aprcjm- 
Pãg. 2 4 r . tão ao tribunal.,^ morrem juntamente ^e- 

C AP. XXL Miguel , ^ Ignacw foldados la confijjaõ da Fé. P:<.g. 515. 

pade/Jem com grande esforço , & morrem CAP. XXX, Outros prejos por frê íhri- 

glonojãmente ^elaguards da divina Ley. flãos , diuis molhercs fe vão oferecer aos 

Pag. 251. perfeguidijres:^ todos morrem , por nam 

CAP.XXH. Os prefos na Comarqua largarem a Lej de Veos. Pag.^ij, 

Dinhatpor naõ quererem pifar a Sagra- C^P.XXXÍ. Genero/a morte de três Chri- 

da Imagem^morremyBs homens jao degola- J}ãos.,glmDjo/uccelJo , que outros tíV£ra}n 

dos.fS as molheres lançidas aos Elefantes ^or nad cjuercrein pifar a Sagrada Ima- 

generofa confijfao da Fè^^ glorio fa morte géni cmagnammo ^ello de húa menina.^ 

de Luís. Pag.2<,6. iPri^. 345. 

ÇaP. XXllL Vida Virtuoja -.cruéis tor- CaP.\.X.X\1. Oferecem fe hiías don:^el • 

mentos , (^prefajamoite de MarthJf las á mortei^ o que outras padejjem pela 

Thuoc. Pag. 268. guarda da Ley de Deos. Pag. 351. 

C AP. XXIV. Outros Chripos perdem ít GAP. XXXlíí. Abrem os Mijftonarios 

vida nas provindas do norte ; por nao lar- tioVos caminhos, para entrarem na Cochin • 

garem.úFèqueprofeffaVão. Pãg.ijj, china. • P,ig.:^66. 

CaP.XXV Epagos,quefe^ aperfegui- CA?. XXXIV; Fornia , que objerVao os 

çaõ tt9 porto de Faifò : ^ côverfaõ do priti" Tadres Miffionarigs na Vijita das Chrtf- 

cipal praomtor delia. Pdg.^S^. tandades. Pag.':^6'^i 

CAP.XXVL Multidão de Chrijlm pre- CaP. XXXV- Vidas,(^ acções Viriuójas 

/os nas provindas do Sul-^porèm muypou- de alguns ISleo fitos. Pag. 40a 

CO os condantes na conjijjaô da Fé. CAP.XXXVl. E/l adopr e/ente da Mif- 

Pag. 292. faôda Cochímhiiia. Pag. 44/ •■ 
CAP. XX VIL Partíctdares notiáas def- 

F I M. 



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